Assim como chove lá fora, hoje também chove no meu coração.
No mesmo dia, ouve-se nas notícias que muitas crianças que são adoptadas são devolvidas às instituições de acolhimento por terem más notas, e ouve-se também que o partido do governo planeia avançar com as barrigas de aluguer em Portugal. Ora o aluguer, como aprendi na faculdade de Direito, é uma forma de locação, quando esta incide sobre coisa móvel. E por locação entende-se o contrato pelo qual uma das partes se obriga a proporcionar à outra o gozo temporário de uma coisa, mediante retribuição. Só por isto poderíamos dizer, Dr. Passos Coelho: as barrigas não se alugam.
Mas a questão é bem mais radical. Em Agosto de 2010 soube que estava à espera da minha filha. À espera não, porque na verdade ela já lá estava bem presente, e na segunda ecografia, com 8 semanas e picos, o coraçãozinho da Pilar já era bem audível, para sorriso rasgado do Pai e lágrimas descontroladas da Mãe. Durante 9 meses de enjoos, infecções sem fim, mais 26 quilos, noites sem dormir, dias inteiros só a dormir, aprendi a conviver com a minha bebé. Aprendi que sempre que ouvia os acordes de uma guitarra portuguesa, a Pilar saltava de alegria. E por isso, ao longo de 9 meses, muitas guitarradas lhe foram dedicadas. Aprendi que, sempre que me virava para dormir do lado direito, subia escadas a correr ou me enervava, a Pilar dava pontapés de insatisfação e só eu sabia disso, eu, a sua Mãe. Geri toda a alimentação para que nada lhe fizesse mal, porque uma Mãe quer o melhor para os seus filhos.
A barriga cresceu, o resto também, e ao fim de 9 meses percebi a relação íntima que uma mulher tem com o seu útero. E depois de uma cesariana, ficaram ainda mais visíveis as marcas físicas da passagem do ser maravilhoso que é a nossa filha pelo meu corpo. Meu corpo? Meu não, dela, porque o meu útero foi feito para lá estarem os meus filhos, e o meu peito para os amamentar. Nós mulheres, somos veículos de Vida. E quando a Pilar nasceu, acalmava-se quando a encostava ao meu coração, porque estes foram os batimentos que ela se habituou a ouvir.
A Pilar conhecia o meu cheiro e por isso, (e passados 8 meses ainda é assim), não há colo como o da Mãe. E esta relação de cumplicidade, esta experiência, única e irrepetível, não se aluga, nem se compra. Assim como não se alugam e não se compram os bebés. A partir do momento em que tratamos as crianças como meros objectos, coisas, para preencher um vazio numa relação, para completar a fotografia de família ou apenas porque lhes apetece ter algo para entreter, temos crianças adoptadas que são devolvidas às instituições porque, simplesmente, não tiveram boas notas, como se fossem cães que não tivessem atingido o objectivo dos seu treinadores.
Assim, hoje, por estas crianças, e pelas que não nasceram porque não lhes foi dada sequer a oportunidade de viver, chove no meu coração.
5 + 1 viva o Papa!:
Gostei muito do seu texto Catarina. E apesar de não ser mãe revejo-me nas suas palavras e partilho da mesma opinião. Não é mais do que mais um acto egoísta do ser humano.
Daniela Silveira
O problema das barrigas de aluguer é mais grave do que se possa imaginar à partida. Com estas ideias, como as das barrigas de aluguer, aborto, eutanásia, pedofilia, casamento gay, se vai contra a natureza das coisas. A nossa religião, e bem, dá diretrizes aos cristãos que se provam estarem correctas. A não observação destas, cria e trás diversos problemas por demais conhecidos, como as doenças físicas e psíquicas, entre outros problemas graves. Está-se a bestializar o ser humano, a escravizar o homem e a mulher, como se dum produto mercantil se tratasse. Um ser humano, não deve nem pode, ser comercializado, vendido ou alugado. Permitir e aceitar isso, é errado. É um retrocesso civilizacional muito grande. Os que apregoam tanto os direitos do homem, mas não respeitam a dignidade da vida humana, fazem mal porque estão profundamente errados.
Olá Catarina,
desde já os meus parabéns porque escreve muitíssimo bem, porventura a sua profissão permite-lhe praticar o exercício da escrita frequentemente.
Começaria por corrigi-la numa questão apenas: não são "barrigas de aluguer", é maternidade de substituição. O termo a que recorreu é o mais vulgarmente utilizado, mas tal como não se aluga uma casa, também não se aluga uma barriga.
Concordo consigo, é uma questão sensível. Porventura em termos humanos a nossa sociedade não está ainda num estádio de evolução que permita a legalização de tais matérias de forma a regular a sua existência. Enfim, por algum lado se começa. E embora lamente o atraso civilizacional, compreendo que "Roma e Pavia não se fizeram num dia".
Admiro o descritivo que faz da SUA experiência como mãe. Recorri às capitulares para provar um ponto: ela é sua, indissociável da sua pessoa, e por conseguinte não passível de ser entendida como uma generalização. Eu sou mãe, Catarina. Passei pela experiência da gravidez, cresci e desenvolvi-me como pessoa e como mulher, gerei um ser humano que educo todos os dias, em todos os momentos como se disso dependesse o futuro da humanidade. Porque na realidade depende. Ensino, acarinho, disciplino com firmeza e amor, respeito, encaminho e largo tudo se por um segundo apenas esse ser que eu gerei precisar de mim. Conheço mães incapazes de amar. Crianças abusadas, feridas, espancadas, violadas, ignoradas, seviciadas pelos próprios pais. As mesmas pessoas que com elas partilham esses laços biológicos, mulheres que como nós geraram um ser humano são capazes de contra ele cometer as maiores atrocidades. Isso choca-me, sabia? E choca-me que se mobilizem tantos sectores da sociedade para impedir o acesso de parte da população a técnicas de procriação medicamente assistida, mas não se encontre a mesma mobilização para proteger as crianças vítimas de abusos. É duro, mas a verdade é que não é a biologia que faz de nós mães e pais: ela apenas faz de nós progenitores.
E embora compreenda as reservas demonstradas e perceba também que há uma motivação ideológica neste texto, peço-lhe uma reflexão mais humana da questão.
Obrigada pela atenção.
Inês Carvalho
Olá Catarina!
Muitos parabéns pelo seu artigo. É muito mais do que um "artigo" sobre este assunto tão importante, é um verdadeiro testemunho de vida...
Muito obrigada,
A.F.
Olá Catarina!
Muitos parabéns pelo seu artigo. É muito mais do que um "artigo" sobre este assunto tão importante, é um verdadeiro testemunho de vida...
Muito obrigada,
A.F.
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