sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Papa Francisco é de esquerda? Não se iludam: é apenas católico

Apesar do entusiasmo à esquerda e do susto à direita, a doutrina de Francisco decorre apenas do melhor das tradições cristãs. O termo não podia ser mais forte: “horrífico”. Não apenas horrível, horrífico. E foi o termo escolhido pelo Papa Francisco, este fim-de-semana, para se referir ao problema do aborto.

As agências de informação internacionais trataram logo de interpretar a frase. Era, escreveram, uma forma de acalmar os sectores mais conservadores da Igreja. Nem lhes ocorreu que fosse mesmo a opinião do Papa. Não quadrava na sua imagem estereotipada de um bispo de Roma modernaço, quiçá revolucionário. No entanto, a doutrina de Bergoglio não podia ser mais clara e até vem na sua tão celebrada exortação apostólica Evangelii Gaudium: “Não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão”, escreveu o Papa. Que acrescentou: “Quero ser completamente honesto, este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou ‘modernizações’. Não é opção progressista pretender resolver os problemas eliminando uma vida humana” (parágrafo 214).

Também este fim-de-semana houve muita excitação na imprensa e nas redes sociais com a notícia de que o Papa baptizara os filhos de uma mãe solteira e de um casal não unido pelo matrimónio. Só uma mal disfarçada ignorância pode justificar essa excitação, pois não haverá gesto mais católico do que o de baptizar duas crianças nessas circunstâncias. Vem nas escrituras.

Estes são apenas dois exemplos recentes de um estranho caso de paixão: a de uma parte da esquerda para com o Papa Francisco, de repente transformado no messias que políticos mais terrenos não conseguem ser. Mário Soares, por exemplo, assume que só tem “dois ídolos no plano político” – Obama e o Papa Francisco –, e o colunista do Guardian Jonathan Freedland chega a propor que posters do sumo pontífice substituam os de Obama nos quartos dos adolescentes, uma vez que seria “o óbvio novo herói da esquerda”.

Muitos jornalistas e comentadores afinam pelo mesmo diapasão, mostrando uma irresistível tendência para ver apenas os gestos de Francisco que vão ao encontro das suas causas e ignorando todos os demais. Chegou-se ao ponto de a mais antiga revista gay dos Estados Unidos, a Advocate, ter eleito como figura do ano este homem de branco para quem o casamento entre pessoas do mesmo sexo é “um retrocesso antropológico”.

Não tenho qualquer dúvida de que o Papa Francisco é uma figura extraordinária e não pude deixar de notar o imenso significado do nome que escolheu. Não sendo eu um crente, devo dizer que um dos locais do mundo onde mais senti a presença de um transcendente foi em Assis, que, por incrível coincidência, visitei pela primeira vez na manhã de 11 de Setembro de 2011. Foi por isso com enorme expectativa que segui os primeiros meses de pontificado e não me surpreendeu a sua resoluta opção por uma Igreja mais próxima dos pobres. Essa ideia de proximidade com os mais fracos está, de resto, no coração do cristianismo e quem pôde, como eu pude, conhecer alguns dos locais mais desgraçados do país e do mundo, é testemunha de como, tantas vezes, são apenas as instituições da Igreja as que resistem quando tudo o resto se desmorona.

O exemplo pessoal de Francisco, ao abdicar de bens e confortos materiais, ao manter uma infinita capacidade para se aproximar dos doentes e dos fracos, da Praça de São Pedro à ilha de Lampedusa, permitiu que se tornasse, de um dia para o outro, numa figura imensamente popular. A forma aberta como gosta de abordar os dilemas da Igreja fez, ao mesmo tempo, com que seja visto como um reformador radical. Houve até quem se entusiasmasse ao ponto de anunciar que “tinha abolido o pecado”: aconteceu com Eugenio Scalfari, o influente fundador do La Repubblica, cuja crónica obrigou a Santa Sé a um impensável, mas necessário, desmentido formal.

A exortação apostólica Evangelii Gaudium, o seu primeiro documento programático, criou a ideia de que estaríamos perante uma nova Igreja. Não faltou quem, à esquerda, saudasse algumas passagens como representando uma condenação global do capitalismo e da austeridade, apesar de, no documento, essas palavras nunca aparecerem. Tal como não faltaram, à direita, acusações de marxismo, apesar de o documento não só não propor nenhum modelo económico, como nele se condenar o totalitarismo e o relativismo. Na verdade, a Evangelii Gaudium pode conter propostas revolucionárias, mas não as feitas por estas leituras apressadas e interesseiras.

O Papa condenou, de forma muito frontal e dura, a idolatria do dinheiro, a obsessão pelo consumo e a submissão às tentações da ganância. Nem poderia fazer outra coisa. Afinal de contas, não prega ele a mensagem de quem condenou a idolatria dos bezerros de ouro? Não dirige ele uma instituição que, desde 1891 e da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, até à recentíssima Caritas in Veritate, de Bento XVI, sempre defendeu o primado da pessoa humana sobre a economia?

É certo que o Papa regista os limites da economia de mercado em termos que um economista liberal não faria, mas o seu documento não deixa de se inscrever numa evolução da doutrina da Igreja que partiu de uma condenação muito forte do liberalismo (e do socialismo) e que, encíclica após encíclica, foi combinando as suas recomendações sociais e morais com as vantagens de uma economia aberta e competitiva. Esse processo foi muito bem descrito por Michael Novak no seu A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo e esta exortação apostólica não representa qualquer inversão de percurso. Não é, de resto, a existência de uma economia de mercado que ele critica – são antes “os interesses do mercado divinizado”.

O que percorre todo o documento é a preocupação com a condição humana e com a necessidade de uma ética que presida às decisões políticas e económicas não só ao nível micro, o das nossas relações pessoais, mas também ao nível macro, o dos governos. A doutrina da Igreja, e Francisco não se afasta dela, não implica um modelo económico preciso ou uma ideologia determinada, pelo contrário, distancia-se dos que acreditam que este ou aquele sistema económico são uma panaceia eterna. “Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política”, escreve-se na Evangelii Gaudium. “A mim, interessa-me apenas procurar que quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra”.

O sucesso das economias modernas não é apenas o sucesso da evolução técnica ou das regras invisíveis do mercado. É também, ou sobretudo, o sucesso do quadro ético e moral que cria os estímulos certos para preferirmos o tipo de instituições políticas e sociais que suportam as nossas sociedades progressivas (mesmo em tempos de crise). O sucesso daquilo a que chamamos capitalismo não deriva do triunfo do individualismo ou de um egoísmo centrado na satisfação de prazeres e consumos imediatos, antes em princípios morais que favorecem a cooperação e a integração. A tensão entre estes valores sempre existiu e a Igreja nunca lhes foi indiferente. Por isso o seu problema não é com os empresários, cuja vocação Francisco considera ser “uma nobre tarefa” desde que se deixem “interpelar por um sentido mais amplo da vida”, para assim servirem “verdadeiramente o bem comum”.

O Papa não propõe qualquer revolução política – mas interpela-nos a uma revolução de comportamentos. Não condena os ricos, mas desafia-os à compaixão e desafia-os a agir. Como notou Robert A. Gahl, professor na Universidade Pontifícia de Roma, “para combater a desigualdade e a marginalização, Francisco não propõe uma redistribuição socialista, antes o primado da compaixão e da responsabilidade individual”.

Mais do que ser de esquerda ou de direita, a sua mensagem é a do cristianismo e do primado, na política e na economia, da dignidade humana, algo que já vem de Santo Agostinho ou de São Tomás de Aquino. Sem surpresa, julgo eu, podemos dizer que o Papa Francisco é, antes de tudo o mais, católico. José Manuel Fernandes in Público


blogger

Sem comentários: