sexta-feira, 11 de abril de 2014

A mortificação

Na história da Igreja, certas pessoas sentem-se chamadas a grandes sacrifícios tais como o jejum frequente, a utilização duma veste áspera, dum cilício ou ainda de uma disciplina. As vidas de numerosos grandes santos, apresentados como modelo de santidade, atestam-no: São Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola, São Tomás Moro, São Francisco de Sales, São João Maria Vianney e Santa Teresinha do Menino Jesus.

New Catholic Encyclopedia (2003): 

«Submeter deliberadamente os impulsos naturais do homem com vista ao domínio progressivo desses impulsos à razão esclarecida pela Fé e para os transformar em sujeitos de santificação. Jesus Cristo pedia esta renúncia a quem queria segui-l’O (Lc 9, 29). A mortificação, o que S. Paulo chama crucifixão da carne com os seus vícios e concupiscência (Gal 5, 24), transformou-se no sinal distintivo dos que pertencem a Cristo. 

Todos os teólogos estão de acordo sobre o facto de que a mortificação é necessária para a saúde do homem. Inclinado fortemente para o mal por causa da tripla concupiscência do mundo, da carne e do demónio, deve aprender a resistir para não ser conduzido ao pecado grave. Se quer salvar a sua alma, deve pelo menos fugir de todas as ocasiões imediatas de pecado mortal. A fuga ela própria engloba uma certa mortificação. Além destas mortificações exigidas pela condição de ser homem, a Igreja, retoma a insistência dos Evangelhos, impondo outras aos fiéis (preceitos do jejum e da abstinência). Àqueles que estão dispensados desta norma, por uma razão ou outra, pede-lhes que façam outra mortificação. 

Os que procuram progredir na perfeição cristã devem mortificar-se mais do que os crentes correntes. Cristo fez da Cruz o preço a pagar para O seguir de perto (Lc 14, 33) 

Desde os princípios da era cristã, são numerosos os que abraçaram uma vida de mortificação na imitação do Senhor. Aqueles que atingem uma grande santidade são constantemente impulsionados a assemelhar-se a Ele nos seus sofrimentos. Mas, porque as grandes mortificações, representam um certo risco, aconselha-se submeter todas as penitências à aprovação dum director espiritual prudente». 

A Bíblia 

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-Me». 
Lucas 9, 23 

«Eu, agora, alegro-me nos meus sofrimentos por vós e completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo pelo Seu corpo, que é a Igreja ». 
Carta de São Paulo aos Colossenses 1,24 

Catecismo da Igreja Católica (1997) 

«Unindo-nos ao seu sacrifício, podemos fazer da nossa vida um sacrifício para Deus» (n. 2100). 

«O caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e sem combate espiritual. O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação que conduzem gradualmente a viver na paz e no gozo das bem-aventuranças». (n. 2015) 

Beato João XXIII

«Nenhum cristão pode crer com perfeição, nem o Cristianismo ganhar vigor, se não se apoia sobre a penitência. Por isso na nossa constituição apostólica proclamando oficialmente o segundo Concílio do Vaticano, se estimula os fiéis a fazerem uma preparação espiritual digna para este acontecimento pela oração e outros actos de virtude cristã, nós incluímos o conselho de não desprezar a prática voluntária da mortificação» 
Encíclica Paenitentiam Agere, sobre a prática da penitência interior e exterior, 1 de Julho de 1962.

Papa Paulo VI 

«A verdadeira penitência não pode ser separada do ascetismo físico. A necessidade de mortificar a carne manifesta-se se nós consideramos a fragilidade da nossa natureza na que, depois do pecado de Adão, a carne e o espírito têm desejos opostos. Este exercício de mortificação corporal – muito afastado de toda a forma de estoicismo – não implica uma condenação da carne que o Filho de Deus se dignou dar-nos. Pelo contrário, a mortificação visa a libertação do homem». 
Constituição Apostolica Paenitemini, 17 de Fevereiro de 1966. 

Jordan Aumann O.P. : 

«Uma das maiores maravilhas da economia da graça divina é a solidariedade íntima entre as pessoas através do Corpo Místico de Cristo. Deus aceita o sofrimento de uma alma em graça que se oferece para a salvação de uma outra alma ou pelos pecadores em geral. É impossível medir a força redentora do sofrimento oferecido à justiça divina com uma Fé viva e um ardente amor através das chagas de Cristo. Quando todo o resto falha, há ainda o recurso ao sofrimento para obter a salvação do pecador. O Cura d’Ars (S. João-Maria Vianney) disse uma vez a um sacerdote que se lamentava da tibieza dos seus paroquianos e da esterilidade do seu zelo: « Pregou? Rezou? Jejuou? Utilizou as disciplinas? Dormiu no chão? Se ainda não fez isso, não tem o direito de se queixar ». 
Spiritual Theology, Londres, Sheed et Ward. 1993, p. 172.


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