quarta-feira, 8 de julho de 2015

Se nos amamos e vamos casar, por que não podemos ter relações?

Esta é uma pergunta que alguns namorados cristãos comprometidos fazem. Se eles vivem um amor real, por que não podem expressá-lo num gesto de intimidade que poderia ajudar a crescer o afecto entre os dois? Se a união corporal será comum dentro de pouco tempo, por que não iniciá-la quando o amor parece já estar maduro? Certamente, a maioria dos cristãos aceita que uma relação realizada por pessoas que mal se conhecem é irresponsável e pecaminosa. Mas não seria exagerado dizer o mesmo do acto realizado por namorados sinceros, fiéis e que estão (quase) decididos a casar-se? 
Para responder a essa questão é preciso lembrar que a Igreja não tem autoridade para mudar o que Deus revelou. A Palavra de Deus é sempre viva e eficaz, é uma luz que guia nossos passos. E ela ensina: “O corpo não é para a fornicação, e sim para o Senhor, e o Senhor é para o corpo”; “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”[1]

Estes textos expressam o valor altíssimo do corpo humano, que é templo do Espírito Santo, e não algo que possa ser usado ou abusado. E a fornicação (acto sexual fora do casamento) é um acto pecaminoso, porque reduz o valor do corpo humano ao de uma coisa, a algo utilizável. As relações sexuais não são meros actos físicos, mas devem ser expressão de algo mais profundo: a doação total e incondicional de uma pessoa a outra. E essa doação é real e concretiza-se com o pacto matrimonial. Por isso, o acto sexual é bom quando procura o bem do casal e está aberto à transmissão da vida[2]. Esses são os dois fins do matrimónio.


Mas como aceitar isso nos nossos dias? Há algum motivo racional que poderia convencer-nos da verdade destes ensinamentos? Cremos que há vários motivos. Apresentamos agora alguns.

1. A relação sexual dentro do matrimónio defende especialmente a mulher e o possível fruto dessa relação: o filho. Se a geração de um filho se dá antes do matrimónio, o que geralmente ocorre? Esse novo ser passa a ser visto mais como um problema do que como um dom. Pois a concepção de um filho não obriga ao homem (o pai) a casar. Se o pai é recto e tem um sentido apurado de justiça, manterá as suas obrigações financeiras para com esse filho e para com a mulher. Mas isso não basta para a criança. Cada filho tem o direito de nascer dentro de um matrimónio sólido, no qual os pais procurem a felicidade juntos. Dentro do matrimónio, o filho é o seu fruto natural, está protegido social e juridicamente e é naturalmente visto como um dom, e não como um fruto indesejável;

2. Em geral, quem vive a castidade no namoro terá menos dificuldades de viver a fidelidade ao matrimónio. Hoje em dia, o “permissivismo” moral é grande. A “educação sexual” transmitida pelos meios de comunicação e, às vezes, pelas escolas, diz apenas: “Faz o que quiseres, desde que seja com preservativos e escondido dos teus pais”. Para vencer nesse ambiente hostil e irresponsável é necessária uma verdadeira educação à castidade, que é a protecção do amor autêntico. E o período de namoro serve para isso: para que o casal cresça no conhecimento mútuo, elabore projectos comuns e adquira virtudes indispensáveis para a vida matrimonial. Se o casal vive bem esse período, sem chegar a ter intimidades próprias da vida matrimonial, passará por uma verdadeira escola de castidade e de fidelidade. Constatamos que pecar contra a castidade antes do matrimônio é tão fácil quanto pecar contra a fidelidade dentro dele. Assim, estará mais preparado para viver a fidelidade quem se preparou bem antes, vivendo a castidade no namoro;

3. O amor matrimonial não se reduz a um exercício físico, mas é a comunhão total de vida. Certa vez, disse Chesterton: «Em tudo o que vale a pena, até em cada prazer, há um ponto de dor ou tédio que deve ser preservado, para que o prazer possa reviver e durar. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; a alegria em ler Virgílio vem depois do tédio de aprendê-lo; o brilho no banhista vem depois do choque gelado do banho do mar; e o sucesso do casamento vem depois da decepção com a lua-de-mel»[3]. O que diz esse autor, que foi um homem bem casado durante muitos anos, é uma verdade comprovável. O prazer do acto sexual certamente existe, mas não é tudo na vida matrimonial. O acto sexual é, como todos os actos humanos, sempre ambíguo, pois ao mesmo tempo em que realiza quem o faz, causa certa frustração, porque o coração humano é feito para o infinito e não se contenta com actos singulares. Todo o jovem deve reconhecer isto, que faz parte de todo processo de maturação, e o ideal é que isso ocorra dentro do matrimónio. Só quem supera a “decepção” inicial pode ser feliz no matrimónio, pois a felicidade vem de Deus, do amor fiel e responsável renovado diariamente em actos de doação mútua. O amor não é o mesmo que o prazer, mas é uma entrega voluntária e fiel, que supera todas as dificuldades.

4. Boa parte dos casais que fazem planos sérios de casamento acabam por separar-se antes que isso aconteça. Nem o namoro e nem o noivado dão ao casal o mesmo nível de compromisso um com o outro que dá o matrimónio. Por isso, quem tem relações sexuais antes do casamento corre o sério risco de se entregar a alguém com quem acabrá por não se unir sacramentalmente. E tal pecado marca sempre profundamente a alma e traz sérias consequências (principalmente afectivas), ainda que seja plenamente perdoado por Deus após uma boa Confissão.

Nos tempos actuais as pessoas “usam” o sexo como se fosse um jogo. E o que acontece? Cada vez menos pessoas adquirem a capacidade de fazer escolhas definitivas, cada vez menos pessoas se casam. O acto matrimonial, ao qual Deus quis unir um prazer sensível, deve produzir um prazer superior, de natureza espiritual: a alegria de saber que se está a cumprir a vontade de Deus. E o acto de gerar um filho é algo de milagroso, no qual se dá a união das partes materiais provenientes dos pais e a criação de uma nova alma humana, directamente por Deus. O prazer que os pais têm ao saber que estão colaborando com Deus é algo único.

A resposta à pergunta diz, portanto, que o amor não é somente um sentimento vago, nem mesmo se reduz ao prazer. Mas é algo bem prático e exigente, que implica a vontade concreta de colaborar com os planos de Deus, que concebeu o acto matrimonial como a expressão perfeita de uma doação integral de duas pessoas, um homem e uma mulher, colaborando assim com a mesma obra criadora de Deus.

[1] I Cor. 6,13 e 18; cfr.: Tob. 4,13; At, 21,25; Ef. 5,3.

[2] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, § 2361-2363.

[3] Chesterton, O que há de errado no mundo, Editora Ecclesiae,Campinas2012.

Pe. Anderson Alves in Zenit


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