terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O que a Forma Extraordinária significa para mim

Encontro-me em circunstâncias privilegiadas em relação à maior parte dos fiéis portugueses. A crise em Portugal obrigou-me a emigrar e, graças a tal, tenho a possibilidade de participar na vetus ordo semanalmente. É sobre a minha vivência da vetus ordo que vos quero falar, sobretudo aos leitores portugueses que, por um motivo ao outro, se vêm privados da FE em terras lusitanas. Desde já o seguinte caveat: não pretendo ser polémico, nem pretendo demonstrar que a novus ordo é pior que a vetus ordo; simplesmente quero apresentar alguns motivos porque esta última me ajuda a viver melhor a nossa Fé. Irei-me focar muito sumariamente em apenas três aspectos. As palavras seguintes serão as minhas opiniões – fruto de meditação, mas mesmo assim opinião, portanto têm o valor que têm.

Próprios

Posso contar nos dedos a quantidade de vezes que ao longo dos anos ouvi os próprios nas várias Missas paroquiais em que participei em Portugal. Que existam lugares onde se utilizem, não duvido. É falha da novus ordo? Não, pois os próprios estão lá; se se optam por outros textos, os motivos que levam a tal já me são alheios.

Não existindo a possibilidade de escolher outros textos que não os próprios que vêm no missal (que por sua vez vêm dum livro chamado Graduale), a vetus ordo coloca-nos obrigatoriamente em contacto com estes. Os próprios falam-nos da festa que se está a celebrar, seja dum santo seja duma efeméride. Ajudam-nos a sentir cum Ecclesiae; colocam-nos na boca as palavras através das quais a Igreja entende o acto que se está a concretizar. Devido aos próprios toda a Missa está impregnada das Escrituras; são raros os casos em que os próprios não são textos retirados das Escrituras (os casos excepcionais que me ocorrem de momento nem são no missal romano, mas sim no bracarense).

Os próprios põem-nos em contacto com o Saltério pois são maioritariamente compostos por versos tirados dos Salmos. Enquanto que a exposição principal aos Salmos nas celebrações da novus ordo se dá aquando do Salmo responsarial (porque se opta muitas vezes por ignorar os próprios), na vetus ordo toda a celebração é intercalada com versos dos Salmos. Encontramos os Salmos no Intróito, no Gradual, no Tracto, no Aleluia, no Ofertório e na antífona da Comunhão. É também através dos próprios que a Igreja nos ajuda a interpretar as Escrituras.

Veja-se, por exemplo, o caso dos próprios da primeira Missa do Natal. O Intróito é Sl 2, 7.1: Dominus dixit ad me: Filius meus es tu; ego hodie genui te. Quare fremuerunt gentes, et populi meditati sunt inania? A Igreja põe estes versos do Salmo 2 na boca de Cristo; dá-lhes uma interpretação cristológica. O Gradual vai buscar o Sl 109, 3.1Tecum principium in die virtutis tuæ in splendoribus sanctorum: ex utero, ante luciferum, genui te. Dixit Dominus Domino meo: Sede a dextris meis, donec ponam inimicos tuos scabellum pedum tuorum e dá-lhes também uma interpretação cristológica (interpretação essa que já o próprio Jesus tinha dado, como podemos atestar nos Evangelhos). O Ofertório apresenta Sl 95, 11.13 Lætentur cæli, et exsultet terra;
commoveatur mare et plenitudo ejus; a facie Domini, quia venit. Mais uma vez a Igreja, utilizando este verso na sua Liturgia, mostra-nos que ele se refere a Cristo e ao Seu nascimento.

Repetição

Umas das coisas que talvez salte à vista (e aos ouvidos) de quem participa pela primeira na vez na Missa segundo a vetus ordo são as repetições. São as vezes que o sacerdote se vira do altar para a congregação; o tríplice bater no peito durante o Confiteor; os vários ósculos que o sacerdote faz ao altar; os vários sinais da cruz; as varias genuflexões;… Apesar da vetus ordo ser o rito menos “floreado” dos ritos latinos (o rito bracarense, como praticamente todo o uso medieval, tem bastante mais “ritual”), é notoriamente mais ritualizado que a novus ordo. Mas porque dar importância às repetições? Não são as repetições maçadoras ou supérfluas? Creio que não; antes pelo contrário, creio que são bastante pedagógicas para o crente que participa na Missa e ajudam melhor a entrar no mistério. Acredito que quem esteja atento ao que se passa durante a celebração é levado a questionar-se sobre o porquê da repetição de certos gestos e palavras. 

A Igreja, na sua sabedoria, instrui os seus filhos através da repetição. Estas repetições de gestos e palavras são, entre outras coisas, chamadas de atenção; obrigam-nos a focar no que se está a fazer ou chamam-nos de volta se por acaso nos tenhamos distraído. Quantas vezes não me distraí após o Pater Noster e é a segunda ou terceira repetição de Domine non sum dignus que sou chamado de volta à realidade. Nenhum gesto é supérfluo; tudo tem o seu significado e cabe a nós descobri-lo e apropria-lo ao invés de ceder a soberba e dizer “não entendo a razão de ser disto, logo deve estar errado”. Diz Origenes que o corpo é ícone da alma, portanto a postura e os gestos fazem parte da oração. Os Padres da Igreja dão testemunho de como o corpo é importante na oração (os Nove Modos de Orar de S. Domingos atestam a este facto); de facto a vetus ordo acaba por envolver mais a corporalidade da oração através de gestos que já nos vem de tempos remotos.

Participação

Após regressar a Igreja ouvi falar muito de participação activa e era bombardeado com opiniões contraditórias do que isso significaria.

Foi sobretudo o frequentar a vetus ordo que me ensinou a participar na Liturgia, seja em que rito ou forma for. Participação activa no seu sentido mais pleno é participar na Paixão de Cristo, completando o que falta nas Suas tribulações (cf Col 1, 24). Assistir a Missas solenes ajudou bastante para esclarecer qual o papel dos leigos na Missa (uso aqui a palavra assistir não no sentido de espectador, como é usual entender-se quando se critica que “não se assiste à Missa”, mas no sentido de quem ajuda, de quem dá apoio, que é o verdadeiro sentido). Para quem assiste pela primeira vez a uma Missa solene, parecerá certamente tudo uma confusão. Estão várias coisas a acontecer ao mesmo tempo: o sacerdote e os seus ministros estão a rezar orações que lhes são próprios, o coro está a cantar algum dos próprios da Missa do dia, os leigos estão a fazer alguns gestos (ou até a acompanhar o coro se souberem) ou estão “apenas” receptivos, atentos ao que se passa. Mas o que é à primeira vista uma confusão revela-se de facto uma sinfonia. Cada grupo está a exercer o seu munus, cada qual tem o seu papel a desempenhar na Liturgia.

Inicialmente seguia tudo pelo missal. E apesar de ainda recorrer por vezes ao missal (sobretudo para ver os próprios), com o passar do tempo tenho-me familiarizado mais e mais com a estrutura da Missa em si. A familiarização com a estrutura da Missa ajuda a que eu junte as minhas orações pessoais às do sacerdote nos momentos em que os leigos nada têm a responder durante a Missa. Vou aprendendo a trazer para a Liturgia a minha vida, a oferecê-la aquando do Ofertório para que aquilo que o sacerdote, através de Cristo, realiza ao oferecer o pão e vinho se venha a realizar em mim, para que o Cristo que se torna presente sobre o altar se vá tornando presente em mim. Nas orações do Canon junto as minhas intenções às do sacerdote, para que ele as apresente sobre o altar. 

Termino por aqui este breve resumo, deveras incompleto, da minha participação na vetus ordo. Teria muito mais a dizer sobre outros aspectos, mas creio que outros já o terão dito e melhor do que eu alguma vez o poderia dizer. Desejo apenas que este testemunho acenda nalgum leitor português o desejo de descobrir o seu património litúrgico, de não o descartar logo a partida, e qual pai de família aprenda a tirar deste tesouro coisas novas e velhas.

Marco da Vinha in Salvem a Liturgia


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1 comentário:

Francisco disse...

Que bom seria termos por todo o país a Santa Missa de Sempre.