sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O que é mais tradicional: Missa ad orientem ou versus populum?

Desde o apoio do Cardeal Sarah à Missa ad orientem e o subsequente ataque por vozes em Roma, tem havido um debate em ambos os lados sobre a celebração ad orientem da Santa Missa.
O meu objectivo aqui é mostrar que ad orientem e versus populum fazem parte do antigo Rito Romano - e mostrar como o cibório/baldaquino é um factor determinante na arquitectura que governa cada um.  Antes de começarmos, vamos definir vocabulário e fazer uma clarificação aos polícias da liturgia de ambos os extremos:

Definir os Termos do Debate
ad orientem: "para o Oriente" em latim. Para os que são novos no debate, ad orientem refere-se ao sacerdote a celebrar a Missa no mesmo lado do altar do que as pessoas. As pessoas chamam a isto "o sacerdote de costas para o povo", erradamente.

versus populum:  "virado para as pessoas" em latim. Refere-se ao sacerdote a celebrar a Missa do lado oposto do altar, de modo a estar virado para as pessoas na nave da igreja.

ad Deum: Erradamente, as pessoas usam o ad Deum ("virado para Deus" em latim) como sinónimo de ad orientem. Eu não gosto deste uso porque causa confusão e presume que o versus populum não é ad Deum ou "virado para Deus". Quando o Papa Bonifácio VIII celebrou a Santa Missa versus populum em 1300 d.C. na antiga Basílica de São Pedro, ele celebrou a Missa ad Deum (para Deus). É blasfémia dizer o contrário. Uma Missa válida é sempre ad Deum, independentemente de onde está o sacerdote.

ciborium: Normalmente refere-se à preciosa taça que guarda as hóstias durante a Missa. Mas também pode querer dizer o baldaquino que cobre o altar como um tecto.

Mostro desde já o meu jogo nas preferências litúrgicas
Quando se lê sobre liturgia, toda a gente parece querer rotular-nos e classificar-nos: Ele é tradicionalista, ele é liberal, ele é da reforma-da-reforma, ou o que for. Portanto aqui fica a minha perspectiva. Eu prefiro a Forma Extraordinária (FE) da Missa e pertenço a uma paróquia FSSP [N.T.: Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro]. Mas vou à Missa diária em Novus Ordo - e quando viajo normalmente vou à Missa em Novus Ordo. Já fui à Missa em Novus Ordo em São Pedro, em Roma. Já fui à Missa FE em São Pedro, em Roma. Recebi Jesus Cristo e por isso estou agradecido.

Eu sei servir à FE. Sei latim e percebo a maior parte do latim na Missa. Consigo ouvir a Leitura e o Evangelho em Latim e perceber.

Eu gosto imenso de ad orientem. Acho que os sacerdotes a sorrir por trás do altar distrai muito Pessoalmente, penso que o sacerdote virado para o altar com a assembleia é mais Cristocêntrico. Para mim, a elevação [da Hóstia] é mais dramática e devocional se for ad orientem. O Cânon [Oração Eucarística] em silêncio faz mais sentido ad orientem, na minha opinião. Só vantagens do meu ponto de vista.

Conclusão: Eu gosto da Missa Antiga, mas nunca faço disso um grande alarido. Não sou exclusivista.

Falar de Missa Antiga vai fazer com que sejamos sempre julgados…
Detesto quase sempre escrever sobre Missa Antiga porque faz com que ambos os extremos da Igreja me ponham um rótulo. Por isso deixem-me só clarificar uma coisa:

Para os progressistas da liturgia que me querem julgar: Eu não acredito que ir à Missa FE seja uma declaração de alguma coisa ou que signifique que uma pessoa é "tradicionalista" ou que odeia o Bispo da sua diocese ou o Papa. Pelo contrário. Eu gosto imenso da Forma Ordinária da Missa. Assisto a essa forma diariamente. Eu amo o meu Bispo ordinário e rezo por ele diariamente. Amo o Santo Padre e rezo por ele todos os dias e até me sinto honrado por recentemente apertar a sua mão quando ele beijou a minha bébé. Estou ciente que estes elementos hostis podem existir no "movimento tradicional", mas eu não sou assim. Por isso, se me quiserem fixar com o "terrível inimigo tradicionalista", estão errados.

Para os Tradicionalistas que me querem julgar: Eu não acho que a Missa Antiga FE e o ad orientem sejam de mandato divino, nem acho que seja sempre a melhor. Se acham que por dizer isto eu sou maçon, herege, idólatra, Novo Mundo-ista, Novus Ordo-ista ou Neo-Católico, estão errados e vou ignorar os vossos comentários.

Ambos o versus populum e o ad Orientem na Tradição Romana
Acabei de regressar de Roma. Se já lá estiveram, sabem que as principais igrejas em Roma têm sempre o sacerdote virado para o povo, por trás do altar (fotos no final do post):
  • S. Pedro
  • S. Paulo fora dos muros
  • S. João Latrão
  • Sta. Maria Maior
  • S. Clemente
  • Sta. Maria Trastevere
Porquê? Porque versus populum fazia parte da antiga tradição Romana. Onde havia espaço e um bom orçamento (como acontecia nas importantes igrejas de Roma), construíam o altar versus populum. No entanto, este arranjo elegante normalmente requer a presença de um cibório (uma cobertura de pedra, um baldaquino) por cima do altar.

Onde não há espaço para fazer isso bem (isto é, sem baldaquino por cima do altar), construíam o altar ad orientem com dignidade.

Quem estuda este assunto sabe que isto tem a ver com o baldaquino romano poder ser construído sobre o altar. De um modo geral, se houver um baldaquino, é versus populum. Senão é ad orientem.

Há uma maneira Romana de fazer o altar versus populum e o Papa Bento explicou isso: cortinas e/ou baldaquino, velas no altar (causando um "obstáculo" visual) e especialmente um crucifixo no meio. O cânon em silêncio equilibra especialmente o versus populum e a atenção do sacerdote.

A minha preferência pessoal é que todas as Missas deviam ser ad orientem - a não ser que consigam construir um cibório/baldaquino sobre o altar - idealmente com um espaço para relíquias por baixo do altar. Senão devia ser ad orientem.

O problema, do ponto de vista de um leigo pouco importante, é que as paróquias desde os anos 50 aos anos 80 puseram altares versus populum sem compreender os requisitos Romanos antigos para os altares virados para o povo. Por isso agora temos igrejas onde o altar não tem dignidade e onde normalmente é ofuscado pela "cadeira do presidente" e o ambão. A cobertura do baldaquino aumentava a dignidade do altar dentro do contexto versus populum. Precisamos de redescobrir esta característica da liturgia e arquitectura Romana. Precisamos de começar a construir baldaquinos por cima dos altares.

Fotografias com exemplos de Versus Populum com o Baldaquino próprio
Aqui ficam fotos das igrejas referidas mostrando como o versus populum Romano funcionava com o cibório ou baldaquino:

Aqui está o Papa Pio XII celebrando versus populum... mas por baixo do baldaquino e com a "obstrução" das velas e do crucifixo.
Aqui está a catedral do Papa, São João de Latrão. Reparem no baldaquino incrível que contém as cabeças de São Pedro e São Paulo dentro das grades douradas, por cima do altar:

Aqui está a minha igreja preferida em Roma, Santa Maria Trastevere. O versus populum histórico, mas com um baldaquino. Eu tento vir à Missa de Domingo aqui (Forma Ordinária) sempre que consigo:

E aqui está a Basílica de São Clemente, em Roma. Igreja pequena com o versus populum e um baldaquino modesto:

Também podia incluir as Basílicas de Santa Maria Maior e de S. Paulo fora dos muros. O ponto é que se vão ter Missa versus populum, precisam de um baldaquino por cima do altar. Senão, ad orientem costuma ser a forma "tradicional" de construir uma igreja.

Taylor Marshall [adaptado]

[NT: O blog Senza acrescenta que os altares versus populum das Basílicas Romanas aqui mencionadas também são, na verdade, altares ad orientem. Os altares estão virados para o próprio Oriente, a direcção Este. O Oriente é onde nasce o Sol, por isso a Missa orienta-se nessa direcção, sendo que o Sol,a luz simboliza Cristo.]


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7 comentários:

ZY disse...


Dei-me ao trabalho de fazer um comentário muito extenso deste post, aqui vai…
Quando o autor diz “Eu prefiro a Forma Extraordinária (FE) Eu sei servir à FE. Sei latim e percebo a maior parte do latim na Missa. Consigo ouvir a Leitura e o Evangelho em Latim e perceber” não sei a que se refere o” sei servir à FE”, uma vez que penso que T Marchall, não está a exercer o sacerdócio na igreja católica por virtude de ter vindo a igreja anglicana e ser casado, se estou enganada alguém me corrija. Se assim for a sua opinião sobre “gosto imenso de ad orientem” tem pouca validade prática.
Acho incorreto dizer: “Acho que os sacerdotes a sorrir por trás do altar distrai muito. Pessoalmente, penso que o sacerdote virado para o altar com a assembleia é mais Cristocentrico”. Ora se todas as missas são ad Deum então ambas são Cristocentricas. Depois existem vários planos de análise, um é o sacerdote que preside à missa FE, outra o sacerdote que participa desta missa ou seja assiste à missa, outra é o povo. Se o sacerdote que participa da missa ad orientem se sente mais centrado em Cristo, é algo puramente pessoal, já o povo poderá sentir-se mais centrado com o padre voltado para si, uma vez que ele representa Cristo na celebração com as implicações inerentes. Falar sobre a missa antiga não provoca juízos, querer institui-la desadequadamente sim. O facto de se referir a progressitas automaticamente se coloca ele mesmo como realmente tradicionalista, e final há um movimento tradicional que até parec ter alguma hostilidade. Mandato divino…??
Também fiquei confusa com o facto de dizer que “Quem estuda este assunto sabe que isto tem a ver com o baldaquino romano poder ser construído sobre o altar. De um modo geral, se houver um baldaquino, é versus populum. Senão é ad orientem.” Ora actualmente isto não é verídico, são inúmeras as igrejas novas onde nunca foi projectado e a meu ver bem um baldaquino, portanto não se trata de espaço. No entanto as velas são usadas sempre e o crucifixo em apenas alguns locais, o que para mim é um pouco incómodo, tanto que a cruz está voltada para o celebrante e Cristo dá-se aos outros e não se fecha em si mesmo nem no celebrante. Só o vi em duas, máximo 3 igrejas em que entrei e já entrei em muitas.
Marchall diz “Por isso agora temos igrejas onde o altar não tem dignidade …”” Precisamos de começar a construir baldaquinos por cima dos altares”.
Todas essas igrejas. basílicas, catedrais são de valor inestimável são extremamente bonitas é inquestionável, uma verdadeira obra de arte da época, e de apreciação intemporal, mas não podem ser referência para a arquitetura de uma igreja atual e apesar de possuírem baldaquino em nada nos diz que por isso devamos contruí-los no presente (papas e santos já celebraram muito sem ele, se eles celebram porque não todos os sacerdotes?). Se são construídas igrejas, sem baldaquino é porque elas Não Precisam de um para a missa decorrer com a justa dignidade. A dignidade não está nos ornamentos, mas está em quem preside à celebração juntamente com aqueles que a celebram. em verdade e em humildade.

Nós não precisamos de armações ornamentais e muito menos Deus as precisa. Uma missa com um altar improvisado no meio do mato como já me contaram tem acaso menos dignidade? Ou num campo de refugiados? É evidente que não. A dignidade não é medida por obras arquitetónicas completamente dispensáveis.

ZY disse...

Inúmeras criticas tecidas à igreja atual dizem respeito à sumptuosidade das vestes contrárias à pobreza, dos bens e riquezas, contrários à simplicidade e modéstia, requisitos dispensáveis como segurar as vestes do padre, ou o missal ao padre ou virar as folhas do mesmo, que são lidos como sumptuosidades desnecessárias e contrárias à simplicidade e humildade… Alguém segurou as vestes a Jesus? Só me lembro de Lhas terem arrancado. O povo atual não gosta do pomposo, mas do simples, nem de requisitos quase obsessivos, de ostentação e ornamentações exageradas, mas uma igreja pobre e similar a Cristo. Igual a um Francisco de Assis. Porque acham que o papa adoptou o nome Francisco? Acham que é para mandar construir baldaquinos??? A dignidade não está nos ornamentos, mas na postura do sacerdote que guia a sua comunidade. Portanto tendemos à simplificação e não à ornamentação, à contenção e não ao gasto supérfluo e dispensável… E numa época em que há tantos pobres, e que temos o bom testemunho que a tantos agrada e impressiona de Santos que tê vendido tudo até seus livros para dar aos pobres, como se pode pensar em construir baldaquinos?
Resposta ao que é mais tradicional: Missa ad orientem ou versus populum? Quando relacionado com a transmissão de ritos e usos de tradição a ad orientem quando costumeira, incorporada nos hábitos e costumes a ad pupulum, portanto ambas são tradicionais!

José Lima disse...

A Missa, tanto quanto possível, deveria ser sempre celebrada “versus Deum cum populo”, isto é, com o sacerdote e os restantes fiéis todos orientados numa única direcção face a Deus como forma essencial de realçar a natureza sacrificial, propiciatória e expiatória, dessa mesma Missa, ao contrário da Missa “versus populum”, que, adoptando a orientação das assembleias litúrgicas originárias do protestantismo, obnubila e obscurece aquela dimensão sacrificial (sem prejuízo da sua validade e legitimidade, sublinhe-se isto sempre).

José Lima disse...

Não pretendendo polemizar com ninguém, até por absoluta falta de tempo para isso, deixo aqui três breves reparos às intervenções da comentadora que me precede:

1º) Convém recordar que o minimalismo litúrgico, quando não o puro miserabilismo litúrgico (“as vestes e ornamentos litúrgicos contrários à pobreza, à humildade e modéstia” ou o “povo não gosta do pomposo”), foi formalmente condenado pelo Concílio de Trento - Cân. VII, da XXII Sessão.

De resto, vezes de mais se confunde a “nobre simplicidade litúrgica” proposta pelo Concílio Vaticano II com o “miserabilismo litúrgico”, que vem atrás daquela mas que com a mesma nada tem a ver - um bom exemplo da “nobre simplicidade” é o modo como as Missas são celebradas na Abadia Beneditina do Barroux, em França - https://fratresinunum.files.wordpress.com/2016/07/received_10154520139546992.jpeg

2º) Quem conhece a vida de São Francisco de Assis sabe perfeitamente que este santo foi um modelo extremo de defesa do zelo, do decoro, do brilho, da elevação e da beleza das celebrações litúrgicas nas casas dos franciscanos, em caso algum podendo ser invocado como um modelo de miserabilismo litúrgico, sendo um outro santo franciscano - o Padre Pio - um legítimo emulador do fundador da sua ordem - http://3.bp.blogspot.com/-ih8GGT7UnqM/Tn010FksYcI/AAAAAAAAAvI/9bij0IN0W2k/s1600/Start+Mass02.JPG

3º) Ignoro se alguém segurou as vestes de Jesus (talvez a mulher hemorroíssa…), mas do Evangelho sei que Cristo condenou expressamente as propostas de um dos seus apóstolos, o qual defendia explicitamente aquilo a que hoje se chamaria minimalismo litúrgico, argumentando tal apóstolo nesse sentido que o dinheiro gasto (ele dizia desperdiçado) no culto divino poderia ser melhor aplicado se fosse entregue aos pobres. Foi no episódio da mulher pecadora que untou os pés de Cristo com perfume e o apóstolo censurado por Cristo chamava-se… Judas Iscariotes.

ZY disse...

“versus Deum cum populo” - já tinha pensado nesse aspecto embora nunca tenha participado de nenhuma. Por um lado concordo, por outro creio que esta forma entra em antagonismo com a forma como se vê a figura do sacerdote. Se o sacerdote é Cristo, deve estar virado para as pessoas, se é um mediador então voltado com as pessoas. Em suma falta-me informação mais aprofundada sobre o assunto para dar uma opinião em definitiva a este respeito. Agradeço o que escreve pois estimula-me a pensar sobre o assunto

Anónimo disse...

Não se preocupe se polemizar... sou susceptível a poucos assuntos ... vou ver os seus links

TP disse...

Tenho alguma dificuldade em acompanhar conversas que se afastam continuamente do assunto inicial/ central vagueando sem nunca chegarem a uma conclusão precisa. Vejamos, aqui tratava-se da questão de missa ad orientem ou versus populum, que teoricamente requereria um baldaquino... Achei que não se enquadrava na atualidade pelos motivos apresentados. O senhor José Lima acha que a Missa, deveria ser sempre celebrada “versus Deum cum populo”, com fiéis todos orientados numa única direção face a Deus como forma de realçar a natureza sacrificial. Foi algo em que já havia pensado antes no entanto, acrescento que quando diz “sempre” acho-o de uma radicalidade perigosa e imprópria. Apesar de achar que a postura “versus Deum cum populo” entra de alguma maneira em claro conflito com a pessoa do sacerdote no seu todo, faltando-me formação/ informação para apresentar argumentação mais específica, (se bem que futuramente me possa debruçar sobre o assunto) este não é o único ponto em que as duas formas diferem pelo que os outros pontos tornam a forma antiga impraticável senão por tradição e de forma restrita. Quanto à simplicidade de um modo geral nas celebrações que seguia na linha da não existência de baldaquinos, e de gestos de aparente subserviência etc aos quais referia se tecem muitas criticas. Não sei concretamente o que quer dizer com: “este santo foi um modelo extremo de defesa do zelo, do decoro, do brilho, da elevação e da beleza das celebrações litúrgicas” as suas argumentações por vezes são vagas… Conheço a vida de muitos santos, pouco a vida de S. Francisco embora me tenham oferecido o seu livro no dia do meu Crisma, por tão massudo nunca o li. Não posso dizer o mesmo do Padre Pio que conheço bem e não vejo na sua vida nenhuma forma ostensiva como atrás referido. O que me surpreendeu foi o seu último ponto, verdadeiramente surpreendente. Este para mim é o exemplo de usar as palavras da bíblia precisamente de uma forma pouco adequada e pouco ortodoxa, católica! Acho tão pouco correto o exemplo do ponto 3º que nem o devo, nem o vou comentar…