sexta-feira, 24 de março de 2017

Quaresma: como e porquê

Na preparação para a Páscoa, surgiu já nos primeiros tempos do cristianismo um período voltado a preparar melhor os fiéis para o mistério central da Redenção de Cristo. Esse período era de um dia apenas. Com o tempo foi-se alongando, até chegar à duração de 6 semanas. Quaresma, do latim quadragesimae, refere-se aos 40 dias de preparação para o mistério pascal. 

A Quaresma, para os fiéis, envolve duas práticas religiosas principais: o jejum e a penitência. O jejum na antiga Igreja latina abrangia 36 dias. No século V, foram adicionados mais quatro, exemplo que foi seguido em todo o Ocidente com excepção da Igreja ambrosiana. 

Os antigos monges latinos faziam três quaresmas: a principal, antes da Páscoa; outra antes do Natal, chamada de Quaresma de São Martinho; e a terceira, a de São João Baptista, depois do Pentecostes. 

Se havia bons motivos para justificar o jejum de 36 dias, havia também excelentes razões para explicar o número 40. Observemos em primeiro lugar que este número nas Sagradas Escrituras representa sempre a dor e o sofrimento.

Durante 40 dias e 40 noites, caiu o dilúvio que inundou a terra e extinguiu a humanidade pecadora (cf. Gn. 7,12). Durante 40 anos, o povo escolhido vagou pelo deserto, em punição por sua ingratidão, antes de entrar na terra prometida (cf. Dt 8,2). Durante 40 dias, Ezequiel ficou deitado sobre o próprio lado direito, em representação do castigo de Deus iminente sobre a cidade de Jerusalém (cf. Ez 4,6). Moisés jejuou durante 40 dias no monte Sinai antes de receber a revelação de Deus (cf. Ex 24, 12-17). Elias viajou durante 40 dias pelo deserto, para escapar da vingança da rainha idólatra Jezabel e ser consolado e instruído pelo Senhor (cf. 1 Reis 19, 1-8). O próprio Jesus, após ter recebido o baptismo no Jordão, e antes de começar a vida pública, passou 40 dias e 40 noites no deserto, rezando e jejuando (cf. Mt 4,2).

No passado, o jejum começava com o primeiro Domingo da Quaresma e terminava ao alvorecer da Ressurreição de Jesus. Como o Domingo era um dia festivo, e por tal não lhe cabia o jejum quaresmal, o Dia do Senhor passou a ser excluído da obrigação. A supressão desses 4 dias no período de jejum demandava que o número sagrado de 40 dias fosse recomposto, o que trouxe o início do jejum para a Quarta-Feira anterior ao primeiro Domingo da Quaresma.

Este uso começou nos últimos anos da vida de São Gregório Magno, que foi o Sumo Pontífice de 590 a 604 d.C. A mudança do início da Quaresma para a Quarta-Feira de Cinzas pode ser datada, por isto, nos primeiros anos do século VII, entre 600 e 604. Aquela Quarta-Feira foi chamada justamente 'caput jejunii', ou seja, o início do jejum quaresmal, ou 'caput quadragesimae', início da Quaresma. 

O cristianismo primitivo dedicava o período da Quaresma a preparar os catecúmenos, que no dia da Páscoa seriam baptizados e recebidos na Igreja. A prática do jejum, desde a mais remota antiguidade, foi imposta pelas leis religiosas de várias culturas. Os livros sagrados da Índia, os papiros do antigo Egipto e os livros do Pentateuco contêm inúmeras exigências relativas ao jejum. 

Na observância da Quaresma, os orientais são mais severos do que os cristãos ocidentais. Na igreja ortodoxa-grega (cismática), o jejum é estrito durante todos os 40 dias que precedem a Páscoa. Ninguém pode ser dispensado, nem mesmo o Patriarca. Os primeiros monges do cristianismo, ou cenobitas, praticavam o jejum lembrando Jesus no deserto. Os cenobitas do Egipto comiam pedaços contados de pão por dia, metade pela manhã e metade à noite, com um copo d’água.

Houve um tempo em que não era permitida mais que uma única refeição por dia durante a Quaresma. Esta refeição única, no século IV, realizava-se após ao pôr-do-sol. Mais tarde, foi autorizada a meio da tarde. 

No início do século XVI, a autoridade da Igreja permitiu que se adicionasse à principal refeição a chamada 'colatio, uma pequena refeição. Suavizando-se cada vez mais os rigores, a carne, que antes era absolutamente proibida durante toda a Quaresma, passou a ser admitida na refeição principal até três vezes por semana. As taxativas exigências do jejum quaresmal eram publicadas todos os anos em Roma no famoso Édito sobre a Observância da Quaresma. 

A prática do jejum, no passado, era realmente obrigatória, e quem a violasse assumia sérias consequências. Os rigores eram tais que o VIII Concílio de Toledo, em 653, ordenou que todos os que tinham comido carne na Quaresma sem necessidade se abstivessem durante todo o ano e não recebessem a comunhão no dia da Páscoa. 

Giovanni Preziosi in Zenit


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