segunda-feira, 24 de abril de 2017

Será racional acreditar sem ver?

São Tomé duvidou que Jesus tivesse ressuscitado e aparecido aos apóstolos. Quando Jesus voltou a aparecer, desta vez estando presente Tomé, repreende a sua falta de fé: "Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto".

Muitos prosélitos do anti-cristianismo, citam habitualmente esta frase como prova que o 'Jesus dos evangelhos' pede que os homens abdiquem da sua racionalidade, e do seu sentido crítico. Neste caso, Tomé é visto como o verdadeiro homem racional, já que exige ver para acreditar.

Mas pensando um bocado melhor sobre este caso, lembramo-nos que, sendo Tomé um dos 12 apóstolos, tinha seguido Jesus, e testemunhado muitos dos episódios presentes nos evangelhos. O próprio Jesus profetizou o Seu próprio "destino" e disse por várias vezes que o Messias teria que morrer e ressuscitar. Por muito que os apóstolos não percebessem o que Ele estava para ali a dizer, alguma coisa deste estranho discurso deve ter ficado na memória.

Por outro lado, Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos todos, com a excepção de Tomé que andava a passear. Eles contam-lhe o que aconteceu. Os seus amigos, os seus melhores amigos, com quem passou a parte mais importante da sua vida, com quem partilhava tudo, asseguram-lhe que estiveram com o Mestre ressuscitado, mas Tomé exige ver para crer.

Esta exigência é racional? Não, muito pelo contrário. A razão é abertura à realidade na totalidade dos seus factores, e Tomé, assim como tanta gente, quer reduzir a razão à verificação na primeira pessoa, quer estreitar a razão conforme as suas exigências. Neste caso, assim como em tantos, não é racional desprezar os testemunhos de pessoas credíveis, é antes uma exigência de honestidade connosco próprios que levemos a sério o que pessoas sérias nos dizem. 

Ainda mais, ele sabia bem que Jesus não era um homem igual aos outros, apesar de o ser fisicamente. Ele tinha visto os milagres, sabia bem que Pedro tinha feito a profissão de Fé dos apóstolos, dizendo: "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo". Se Tomé estivesse atento à realidade, com o máximo amor que essa atenção exige, quando lhe contaram que estiveram com Jesus ressuscitado, tudo deveria ter feito sentido para ele, tudo se deveria ter encaixado como um puzzle, mas escolheu ficar agarrado à sua incerteza, à sua falta de confiança, quando a razão exigia que confiasse.

A razão não é castradora, não elimina partes da realidade que não dão jeito serem tidas em conta. É antes uma visão alargada, que abarca toda a realidade. Tomé não fez uso da sua razão, o que, por um lado, foi uma coisa boa porque nos ensinou uma das maiores profissões de Fé da história da Igreja, dirigindo-se a Jesus como: "Meu Senhor e Meu Deus".

João Silveira


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