terça-feira, 8 de maio de 2018

A Espiritualidade do Cardeal Mercier

Por ocasião da Primeira Guerra Mundial, o Cardeal Mercier deu toda a medida da sua grandeza, ao revelar-se como o protector dos grandes e dos pequenos, do clero e das famílias, enfim, como “o guardião da cidade”.

O segredo da sua actividade, da sua coragem, das suas iniciativas, residia na sua intensa vida interior. Como diz Laveille, “o Cardeal era, antes de tudo, homem de fé viva e de ardente piedade. Não é apenas pela dignidade e pela majestade de sua atitude no curso das funções pontificais, que ele exprimia a sua reverência a respeito do Santo dos Santos mas é, sobretudo, pelo favor de seus exercícios quotidianos, e no silêncio da sua capela particular (4).

Désiré Mercier velava, e zelava, pela higiene espiritual dos seus sacerdotes, e inculcava-lhes altíssimo conceito do sacerdócio e da missão do padre diocesano. Deu-lhes exercícios espirituais dos quais surgiu o volume Retiro Espiritual (5). No prefácio desta obra, Mercier enaltece a pessoa de São Francisco de Sales, propondo-o como modelo para o clero secular, pois o santo bispo de Genebra demonstrou, por sua vida, a possibilidade de aliar ao devotamento ininterrupto a tudo e a todos a manutenção, em si mesmo, de uma atmosfera interior de fé e de calor sobrenatural, em que sempre a alma religiosa respira sem dificuldade e pode encontrar o seu Deus.

Noutra obra, posterior ao Retiro Pastoral, ou seja, La Vie Intérieure. O Cardeal consagra-se, ao ver de Laveille, como grande autor ascético, cujo pensamento original traça longo rasto de luz. É nessa obra que Mercier procura demonstrar que o padre, sem pronunciar votos de obediência e pobreza, é um autêntico religioso. “Tese ousada, afirma Laveille, que ensejará mais de uma controvérsia, mas que assinala a rara elevação dessa alma episcopal, sempre pronta aos ímpetos mais vigorosos”. O Cardeal Mercier mostra-se arguto e incisivo, ao argumentar e discorrer para demonstrar que o padre diocesano, sem se submeter a uma regra religiosa, sem noviciado e sem claustro, é um lídimo religioso, equiparável a qualquer membro de Ordem Religiosa.

Há a perfeição subjectiva, interior, e há um estado exterior de perfeição. Ainda que não se pertença a este estado, tem-se a obrigação de possuir aquela. No estado exterior de perfeição, peculiar ao religioso, exigi-se a vontade de adquiri-la, e o estado exterior de perfeição do bispo pressuporia estar realizada a perfeição interior do sujeito. Ora, o padre secular não se encontra nem no estado episcopal nem no estado religioso, mas pela destinação oficial a exercer o culto religioso na Igreja, pela sublimidade das funções ao serviço de Cristo, e ainda mais, pela cura de almas, está obrigado à santidade interior, mais ainda que o religioso pela sua profissão. Canonicamente, o padre diocesano não se acha no estado de perfeição do religioso nem em estado de perfeição do bispo, mas no foro íntimo e diante de Deus, nada lhe falta para possuir a perfeição dos dois estados, a do religioso e a do bispo.

Não é possível esboçar em poucas páginas a espiritualidade vivida e ensinada pelo Cardeal Désiré Mercier, mas é fácil acenar aos seus pontos capitais, encontráveis numa obra singela, mas profunda e calorosa, como as conferências publicadas sob o título de “Aos meus seminaristas”.

Laveille assere que o livro surgiu das conferências dadas aos seminaristas e aos alunos do seminário Leão XIII. Essas palestras não revestem o estilo dos cursos ministrados na Universidade, mas seguem o modelo dos escritos ascéticos dos Santos Padres da Igreja Primitiva, lidos, meditados, e assimilados por Mercier. A obra serviu para a formação espiritual dos seminaristas belgas e, também, para os de muitas outras dioceses pelo mundo afora. Ela veio a ser traduzida e publicada no Brasil em 1928. Mercier pretendia ensinar aos jovens, mal saídos do século, o segredo do seu futuro e frutuoso apostolado. “O grande meio de transformação, aconselhado por ele, diz Laveille, é a oração. Falava por experiência própria pois, cada manhã, passava uma hora inteira em colóquio íntimo com Jesus no Santíssimo Sacramento”.

No tempo do Cardeal Mercier não havia televisão; portanto, não havia a dissipação, a barulheira, o ruído infernal que tanto atezana as famílias, de dia e de noite. Ora, ninguém pode rezar ou fazer leitura espiritual e meditação com a televisão ligada, e com os estrondos maléficos de conjuntos vocalistas ou bandas de rock, que atormentam o homem contemporâneo e o impedem de ler, reflectir e rezar. Como diz um teólogo alemão, o demónio ama o barulho e, por isso, o patrocina e promove no mundo actual em doses cavalares, um mundo mais rumoroso que em qualquer época passada. Mercier mostra que a vida do cristão exige recolhimento e silêncio, e que este é necessário para se progredir no conhecimento de Deus e de Jesus Cristo. Ele reconhece a necessidade de distracções sadias, mas observa que há tempo para tudo, e sem o recolhimento da alma não se pode ser feliz.

A Segunda Conferência (1907), Recolhimento e Silêncio, e a Terceira Conferência, O Recolhimento e o Silêncio do ponto de vista moral, possuem alta relevância pedagógica e ascética. Nesta última conferência ele mostra a inclinação natural do homem para à dissipação, e a urgência de combatê-la para o cristão, mormente para um seminarista ou um religioso. “A leviandade do carácter, ensina Mercier, é a consequência inevitável da dissipação, assim como a gravidade ou madureza do juízo é o fruto da reflexão”. 

A virilidade exige o domínio dos sentidos exteriores, da imaginação e dos sentimentos. Quem tem juízo dissipado, comete o pecado da língua. Por isso, cumpre ser reservado no falar, fugir da murmuração e da impaciência. Quantas ofensas à caridade resultam da leviandade no falar. Há pessoas que em tudo buscam o lado ridículo, picante ou grotesco, e gostam de parecer espirituosas à custa de zombarias e humilhações de colegas. Não se deve fazer rir aos outros sempre e a propósito de tudo. Evitem-se o epigrama e os motejos irónicos, nem se alimente a tentação do êxito brilhante nas conversas.

Na Quinta Conferência, Colóquios com Deus, Mercier atinge o acme de sua doutrina espiritual e da sua exposição aos seminaristas. “Sim, diz ele no início, o Senhor nos fala ao coração, e se mais vezes O não ouvimos, é porque nos recusamos a manter, no recolhimento do silêncio, o coração atende unicamente a Ele”. Deus nos fala, prossegue, pelas criaturas, pelos acontecimentos, pela Sagrada Escritura, e “fala-nos nosso divino Jesus por seus exemplos e por sua vida”. A Palavra de Deus actua suave e progressivamente, e nem sempre a captamos distintamente. É preciso aprender a degustar a palavra divina, evitando a meditação puramente intelectiva, e fazendo-a como palestra cordial da alma com Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo; como um colóquio da alma com Deus. 

A oração não deve ser feita num só momento do dia, mas deve ser contínua, e deve consistir, sobretudo, em ouvir a Deus mais do que em Lhe falar. Ela possui uma influência santificadora incomparável e, embora a sua importância, o exame de consciência não se confunde com a oração. 

Muitas almas eleitas queixam-se da falta de lídimos directores espirituais, queixa esta mais procedente hoje que no tempo de Mercier. Ora, isso não é de admirar, pois o confessor não pode vizinhar as almas de Deus, se ele próprio é estranho aos segredos da vida interior, só cuida de obras exteriores, e é avesso à oração. Esta visa a estabelecer a alma no estado de união com Deus. Ainda que devamos permanecer incessantemente no estado de oração, cumpre reservar uma hora de recolhimento especial no começo do dia. 

A oração deve principiar por um ato de amor de Deus, e prosseguir com a atenção à voz de Deus, e as moções da graça divina. Ela deve ter por objecto, principalmente, a pessoa de Jesus Cristo, o Homem-Deus. Bem feita, a oração ajuda-nos a emendar a vida, a corrigir os defeitos, a unir-nos a Deus. Só por ela poderemos manter vivo em nós o seu amor. Alunos da escola de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos visitá-lo frequentemente no tabernáculo, e disso Mercier foi um paradigma durante a vida inteira. Ele era homem de oração, de devoção eucarística e de mortificação constante. 

Por fim, outro pico saliente do livro, Aos meus seminaristas, é a sexta conferência sobre a paz da alma. O homem pode ser feliz, afirma Mercier, contanto que triunfe sobre as paixões. Quem satisfaz a paixão pecaminosa, pode momentaneamente fazer orelhas moucas aos protestos da consciência, mas esta não cessa de lhe denunciar os pecados e os vícios, e o pecador vive, no fundo, insatisfeito e triste. “Não há paz estável, assegura o Cardeal, senão no triunfo que a vontade alcança sobre os apetites e repugnâncias do egoísmo”. 

É preciso, antes de tudo, renunciar ao “velho homem”, aos vícios empedernidos, valorizar e adquirir as virtudes da abnegação, do desapego e da paciência. Não pode haver vida cristã sem a prática da mortificação. O triunfo sobre as paixões não ocorre sem grandes e contínuas lutas e dores. No combate incessante entre o espírito e a carne, no ataque diuturno e estrénuo às três concupiscências, o prémio da vitória é a paz interior. 

Como afiança Mercier no epílogo do livro: “Sede austeros de costumes. Na proporção em que domardes vossas paixões, triunfará vossa livre vontade, assegurareis a eficácia da graça e alcançareis a serenidade do espírito. “Enfim, não separeis jamais em vós estes dois sentimentos, em que se compendiam as aspirações à santidade: humilde desconfiança de vós mesmos e total abandono de confiança filial n’Aquele a que temos o direito e a alegria de chamar Nosso Pai, Pater Noster”. 

Eis num relance, aspectos capitais da doutrina espiritual de um verdadeiro mestre!

Ruy Afonso da Costa Nunes, FEUSP

Para ler o artigo completo: A Espiritualidade do Cardeal Mercier


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