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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Intervenção do Arcebispo da Igreja Católica Grega da Ucrânica

A família moderna na Ucrânica está marcada por dificuldade da sociedade pós-comunista, que sofre uma rápida emancipação social e cultural...

Para o ano, a Igreja Católica Grega Ucraniana vai celebrar o 70º aniversário da sua liquidação forçada por Estaline na União Soviética e a incorporação à Igreja Ortodoxa Russa [no “L’viv Sobor”]. Desde então, começou uma Via Sacra para os bispos, padres, monges e freiras e, acima de tudo, para as numerosas famílias Cristãs que foram arrastadas das suas terras e colocadas no enorme deserto da Sibéria...

Durante este período de perseguição da Igreja, as famílias tornaram-se como lareiras onde a fé em Deus era preservada e onde novas gerações recebiam o dom da fé, tornando-se autênticas igrejas domésticas. Nas suas casas, sacerdotes perseguidos asseguravam-se de arranjarem lugares escondidos para o altar do Senhor onde, durante o silêncio da noite, celebravam a Eucaristia e os outros Santos Sacramentos...

[Depois do colapso da União Soviética, quando a Igreja Católica Grega da Ucrânica se encontrou diante de novos desafios sob a forma de migração em massa], as famílias dos crentes, especialmente as mães, mais uma vez trouxeram a Igreja para países onde nos tínhamos tornado presentes recentemente, em particular na Europa Ocidental. Frequentemente, estas mães e avós ucranianas restauraram os valores Cristãos e humanos em família italianas, espanholas e portuguesas e outras. Muitas pessoas idosas nestes países passaram para a eternidade, reconciliadas com Deus e receberam o Sacramento da Santa Unção, graças a cuidados ucranianos...

Mesmo no tempo presente da guerra na Ucrânia, diante de outro desafio de uma crise económica real e severa, as famílias Cristãs receberam migrantes [refugiados] e [tornaram-se] a fonte de um poder solidário inesperado... De acordo com as estimativas da ONU, na Ucrânica há [mais do que um] milhão de Pesssoas Refugiadas, a maior partes das quais foi ajudada por famílias ucranianas, a célula fundamental da sociedade...

Hoje tenho que afirmar que, no passado, a família defendia e preservava a Igreja. Hoje a Igreja tem o dever sagrado de proteger e preservar a família; a família como a união fiel, frutífera e indissolúvel entre um homem e uma mulher... Os meus fiéis pediram-me para apelar aos Padres Sinodais para lembrar que nós, os bispos, não somos os mestres da verdade revelada sobre a família, mas antes os seus servos. Hoje, as nossas pessoas esperam que nós confirmemos e enfatizemos o ensinamento da Igreja sobre a família, clarificada e sumarisada pelo Beato Paulo VI e o Papa S. João Paulo II.

Famílias santas e piedosas, fortalecidas na fé, encontram, na sua terra, as formas mais criativas para responder aos desafios da sociedade moderna e ensinam-nos como mostrar misericórdia aos que passam por dificuldades. Não conseguimos resolver os problemas com que está a tentar a família, mas podemos pregar a verdade do Evangelho sobre a família e ajudar a próxima geração, com a ajudade de Deus para prosseguir no caminho de santidade.

in voiceofthefamily.org


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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Esplêndida intervenção do Arcebispo de Caracas no Sínodo

A proposta de admissão de divorciados e recasados à Eucaristia

Refiro-me aos números 121, 122 e 123 do Instrumentum Laboris nos quais é considerada a proposta para a aceitação à mesa da Eucaristia – pressupondo certas condições a serem cumpridas, entre as quais uma jornada penitencial – dos divorciados e recasados, ainda que mantenham a vida conjugal.

Todos somos movidos pelo desejo de descobrir uma solução melhor para esta situação dolorosa. Devemos fazê-lo no espírito do Bom Pastor e da verdade que nos liberta. No espírito evangélico de misericórdia, penso que a jornada penitencial deveria concluir com a conversão e o propósito de emenda e de viver em continência, como ensinado por outras palavras por S. João Paulo II na Familiaris Consortio (FC), 84.

Pergunto-me: podemos esquecer as palavras do Senhor no Evangelho, Mateus 19, e o ensinamento de São Paulo (Rm 7, 2-3, 1Cor 7, 10, Ef 5, 31) e da Igreja ao longo dos séculos? Podemos livrar-nos dos ensinamentos de João Paulo II na sua exortação apostólica de 1981 Familiaris Consortio? Este documento, publicado um ano após o Sínodo sobre a Família de 1980, tendo o Papa seriamente considerado e consultado durante vários meses de estudo e reflexão, em comunicação com especialistas de várias disciplinas teológicas, claramente excluiu essa possibilidade (FC 84).

Temos também os ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica em 1992, com a tradicional doutrina acerca das condições para acesso à Comunhão e os ensinamentos da Igreja acerca da moral sexual (CIC, 1650). Temos também a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé, de 14 de Setembro de 1994, escrita especificamente sobre este assunto. Podemos esquecer-nos do documento conclusivo da V Conferência dos Bispos da América Latina e das Caraíbas em Aparecida, que nos pede: “Acompanhar com cuidado, prudência e amor compassivo, seguindo as directrizes do magistério, casais que vivem juntos fora do matrimónio, tendo em conta que aqueles que estão divorciados e recasados não podem receber a Comunhão” (n. 437).

Podemos contradizer estes ensinamentos? Podemos esquecer a recente declaração do Papa Bento XVI na sua exortação apostólica sobre a Eucaristia, Sacramentum Caritatis, de 2007, reiterando a prática da Igreja, alicerçada na Sagrada Escritura (cf. Mc 10, 2-12) de não admitir aos sacramentos os divorciados e recados, pois o seu estado e a sua condição de vida objectivamente contradizem a união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e feita presente na Eucaristia? (n. 29).

Unida a Cristo, que venceu o mundo (cf. Jo 16, 33), a Igreja é chamada a manter o esplendor da verdade mesmo em situações difíceis. A misericórdia convida o pecador e torna-se perdão quando este se arrepende e muda a sua vida. O filho pródigo foi recebido com um abraço de seu pai apenas quando voltou a casa. 

Este Sínodo, sem dúvida na luz da verdade revelada e com os olhos da misericórdia, é chamado a reflectir muito claramente o ensinamento do Evangelho e da Igreja através dos séculos sobre a natureza e a dignidade do casamento Cristão, sobre a grandeza da Eucaristia e sobre a necessidade de ter as disposições necessárias para estar em união com Deus e assim poder receber a Santa Comunhão; a necessidade de penitência, arrependimento e firme propósito de emenda para o pecador arrependido poder receber o perdão divino; e a força e continuidade da verdade dogmática e moral do Magistério ordinário e extraordinário da Igreja. Deve também providenciar luzes inspiradas pela misericórdia para assistir mais eficazmente aqueles em situações irregulares, para aliviar o seu sofrimento moral e viverem melhor a fé católica.

Finalmente, o Sínodo deve indicar linhas de acção que fortaleçam o casamento, tornando-o mais atractivo para os jovens, e mantendo-o vivo nos corações dos esposos durante o tempo. Nesta matéria, fornecerá ao Papa Francisco elementos muito importantes para promover uma intensa evangelização da família e a revalorização do sacramento do matrimónio.

Cardeal Urosa Savino, Arcebispo de Caracas (Venezuela)


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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Médica romena põe os 'pontos nos is' no Sínodo sobre a Família

Santidade, Padres Sinodais, Irmãos e Irmãs,

Eu represento a Associação de Médicos Católicos de Bucareste. Sou da Igreja Greco-Católica Romena.

O meu pai era um líder político cristão, que esteve preso pelos comunistas durante 17 anos. Os meus pais estavam noivos, mas o seu casamento ocorreu apenas 17 anos depois.

A minha mãe esperou todos esses anos pelo meu pai, embora ela nem sequer soubesse se ele ainda estaria vivo. Ambos foram heroicamente fiéis a Deus e ao seu compromisso.

O seu exemplo mostra que a graça de Deus pode ultrapassar circunstâncias sociais terríveis e pobreza material.

Nós, enquanto médicos católicos, defendendo a vida e a família, podemos ver que isto é, primeiro que tudo, uma batalha espiritual. A pobreza material e o consumismo não são a primeira causa da crise da família. A primeira causa da revolução sexual e cultural é ideológica.

Nossa Senhora de Fátima disse que os erros da Rússia se espalhariam pelo mundo todo. Isso foi feito primeiramente debaixo de uma forma violenta, o marxismo clássico, matando dezenas de milhões. Agora, é feito primariamente por via do marxismo cultural. Há continuidade entre a revolução sexual de Lenin, Gramsci [N.T.: comunista italiano] e a Escola de Frankfurt, até aos actuais direitos “gay” e à ideologia de género.

O marxismo clássico pretendia redesenhar a sociedade, mediante a apropriação violenta da propriedade. Agora, a revolução vai mais fundo: pretende redefinir a família, a identidade sexual e a natureza humana.

Esta ideologia autoproclama-se progressista. Mas não há nada mais do que a antiga oferta da serpente para que o homem tomasse controlo, substituísse Deus e planeasse a sua salvação aqui neste mundo.

É um erro de natureza religiosa, é agnosticismo. É tarefa dos pastores reconhecê-lo, e alertar o rebanho acerca deste perigo.

“Procurai portanto primeiro o Reino dos Céus, e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas.”

A missão da Igreja é salvar almas. O mal, neste mundo, vem do pecado. Não da disparidade de rendimentos ou das 'alterações climáticas'.

A solução é: Evangelização. Conversão. Não um crescente controlo governamental. Não um governo mundial. Estes são hoje em dia os principais agentes a impor o marxismo cultural às nossas nações, sob a forma do controlo populacional, da saúde reprodutiva, dos direitos dos homossexuais, educação de género, etc.

O que o mundo precisa hoje em dia não é de limitações à liberdade, mas da liberdade real, liberdade do pecado. Salvação.

A nossa Igreja foi suprimida durante a ocupação soviética. Mas nenhum dos nossos 12 bispos traiu a sua comunhão com o Santo Padre. A nossa Igreja sobreviveu graças à determinação dos nossos bispos e ao seu exemplo resistindo a prisões e terror. Os nossos bispos pediram à comunidade para que não seguissem o mundo. Para não cooperarem com os comunistas.

Agora precisamos que Roma diga ao mundo: “Arrependei-vos e virai-vos para Deus pois o Reino dos Céus está perto”.

Não apenas nós, Católicos leigos, mas muitos Cristãos Ortodoxos rezam ansiosamente por este Sínodo. Porque, como eles afirmam, se a Igreja Católica cede ao espírito deste mundo, será muito difícil que os outros cristãos resistam.

Dr.ª Anca-Maria Cernea


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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cardeal Dolan fala em incluir a nova minoria: os Católicos fiéis

O Cardeal Dolan, Arcebispo de Nova Iorque, escreveu um texto no seu blog oficial, dirigido aos Católicos norte-americanos, mas válido para os Católicos de todo o mundo.

Incluir a nova minoria
Um tema muito refrescante e constante do sínodo foi a inclusão. A Igreja, a nossa família espiritual, recebe toda a gente, especialmente os que se possam sentir excluídos. Entre esses excluídos, tenho ouvido comentar entre os padres sinodais e outros, estão os solteiros, os que sentem atracção pelo mesmo sexo, os casados, os viúvos, os emigrantes, os que têm deficiências, os idosos, os sem-abrigo e as minorias raciais e étnicas. Na família da Igreja amamo-los, recebemo-los e precisamos deles.
Posso sugerir também que agora há uma nova minoria no mundo e até mesmo na Igreja? Estou a pensar naqueles que, apoiando-se na graça e misericórdia de Deus, lutam pela virtude e fidelidade: os casais que - dado o facto de que, pelo menos na América do Norte, só metade das pessoas recebem o sacramento do matrimónio - se aproximam da Igreja pelo sacramento; casais que, inspirados pelos ensinamentos da Igreja de que o casamento é para sempre, têm perseverado através de obstáculos; casais que aceitam muitos bébés como dons de Deus; um rapaz e uma rapariga que decidiram não viver juntos até se casarem; uma pessoa que sente atracção por pessoas do mesmo sexo e decide ser casta; um casal que decidiu que a mulher ia sacrificar uma carreira profissional promissora para ficar em casa e educar os seus filhos. 

Estas pessoas maravilhosas sentem-se muitas vezes uma minoria, certamente na cultura de hoje, mas também às vezes na Igreja! Eu acredito que são muitos mais do que pensamos, mas, dada a pressão dos dias de hoje, muitas vezes sentem-se excluídos.
Onde é que eles recebem apoio e motivação? Da televisão? Das revistas ou jornais? Dos filmes? Da Broadway? Dos seus colegas? Esqueçam!
Eles olham para a Igreja, para nós, à procura de apoio e motivação, um sentido acolhedor de inclusão. Não os podemos desiludir!
in cardinaldolan.org


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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Bispo Bizantino no Sínodo: o Demónio é que está a atacar a família

Intervenção de D. Fülöp Kocsis, Arcebispo de Hajdúdorog (Arquidiocese Católica na Hungria de Rito Bizantino) no Sínodo dos Bispos.

Vou focar a minha a observação no parágrafo 8 do capítulo 1 [do Instrumentum Laboris do Sínodo], mas na verdade sinto uma deficiência geral no texto todo, a falta de algo que devia penetrar a nossa visão no que toca a estes temas. Por esta razão, podia ainda indicar todos os parágrafos que, ao analisar a situação contemporânea, falam de uma sociedade e de uma época alteradas, chamando "desafios" a estas dificuldades que apareceram nos últimos tempos.
Parece-me que falta ao texto uma clarificação que seja mais precisa desde a sua origem, desde a raiz destas mudanças: de onde é que elas vêm? A maior parte delas não são compatíveis com o plano de Deus; não vêm dEle. Se é assim, então deve ser dito: de onde é que derivam estas mudanças, estas dificuldades?
Temos que dizer com claridade que, neste mundo estragado, a família e o homem de boa vontade com boas intenções estão sob ataque, sob um feroz e enorme ataque. E este ataque é do Demónio. Temos que chamar pelo nome estas forças diabólicas que têm um papel a desempenhar nestes fenómenos, desta forma conseguimos encontrar algumas orientações, mesmo para a procura de possíveis soluções.
"A nossa batalha de facto não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e as Potestades, contra as dominções deste mundo das trevas, contra os espíritos malignos que vivem nas regiões celestes." (Efésios 6, 12)
Portanto conseguimos ver claramente que é necessário uma luta espiritual para lutar contra os ataques de Satanás nestes nossos tempos. Eu seria muito favorável a uma séria ênfase a esta batalha espiritual, mesmo no final do documento onde as propostas e as possíveis soluções são formuladas.
"Por isso, tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia do mal e permaneceis firmes depois de ter vencido todos os obstáculos." (Efésios 6, 13)
Tradução portuguesa a partir da versão inglesa in voiceofthefamily.com


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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A mulher do Pedro divorciou-se contra a vontade dele. E agora?

O Pedro é um velho amigo meu, participativo na sua paróquia, generoso como não se julga ser possível ser. Há cerca de quatro anos atrás, depois de 30 anos de casamento, a esposa dele abandonou-o. Pedro ficou arrasado: "Padre, eu não desejaria este sofrimento ao meu pior inimigo", dizia.

Depois de terminado o processo de divórcio civil, vários parentes e amigos, muitos deles católicos, aconselharam o Pedro a tirar a aliança do dedo e "seguir em frente". Os conselhos deles, em resumo, repetiam mais ou menos as seguintes mensagens: "Ela não vai mais voltar", "O vosso casamento acabou", "Há mais peixes no mar", "Deus quer que sejas feliz", "Não faz sentido ficares a sofrer assim".

Pedro, e isto deve honrá-lo muito, não deu ouvidos a esses conselheiros. Ele apontou para a sua aliança e respondeu-lhes: "Eu sou um homem casado. Nós sabíamos o que estávamos a fazer no dia do nosso casamento. Sabíamos o que estávamos a prometer um ao outro e também a Deus. Sabíamos o que Deus nos tinha prometido". Pedro mergulhou nos sacramentos. Ele não sabe viver sem a adoração eucarística, o terço e a misericórdia divina. "Eu não vou parar de rezar pela reconstrução da minha família até o dia em que eu morrer". E, porque conheço o Pedro muito bem, eu acredito nele.

Estou orgulhoso do Pedro pela sua firmeza na decisão de pagar o alto preço da fidelidade. Estou orgulhoso do Pedro pela herança que ele está a deixar aos seus jovens filhos. Dentro de alguns anos, os filhos dele poderão dizer aos seus próprios filhos: "Quando a vida bateu com dureza no avô, ele não desistiu da avó e não desistiu de Cristo. Ele carregou a sua cruz e seguiu a Cristo até o fim. E, desta forma, não há como fingir que se segue a Cristo. O avô carregou a cruz dele todos os dias". Que legado para os filhos e netos! Que dignidade no seu sereno sofrimento diário! Que generosidade na sua humilde esperança diária!

Pergunto-me o que é que algumas pessoas envolvidas no Sínodo poderiam dizer ao Pedro. Alguns diriam: "Pedro, sorria! Porquê tanta seriedade? Deus não espera isso de si! Deus sozinho não é suficiente para o seu coração. Porquê esperar tanto assim da graça de Deus? Não vai conseguir viver assim até morrer! Porque é que não faz o que é preciso para ser feliz? Por que não tirar o melhor de uma má situação, como tanta gente faz?".

Tenho certeza de que Pedro responderia: "Mas eu sei o que nós prometemos e sei o que Deus prometeu. Deus é fiel e eu tenho que ser fiel também. E Deus está a ajudar-me a ser fiel!" 

Como li a tempestade de palavras à volta do Sínodo, sou quase obrigado a pensar que pelo menos algumas pessoas achariam Pedro um idiota ou, pelo menos, um homem constrangedor. Lembro-me da unção de Betânia, em Marcos 14,4 ("Alguns dos presentes, indignados, diziam uns aos outros: Por que este desperdício?"). Será que diriam ao Pedro que a sua custosa fidelidade é uma extravagância desnecessária? Pedro diria que apenas cumpriu o seu dever (Lc 17,10) – e que ele é um homem melhor graças a isso. Ele sabe que Deus, quando revela a Sua vontade, também concede a graça para que essa vontade seja vivida – e concede-a a todos aqueles que pedem essa graça. Pedro sabe que Deus revelou que, como homem casado, ele deve permanecer fiel até a morte. Pedro pediu essa graça e está a recebê-la. 

Ainda assim, custa ao Pedro ouvir os apelos de amigos bem-intencionados e ler muitas opiniões que pululam ao redor dos Sínodos; opiniões que parecem sugerir que a sua fidelidade não é o que Deus manda, não é o que Deus espera, não é o que Deus ajuda a transformar em realidade. Dói-lhe acima de tudo que a fidelidade do próprio Deus, a generosidade do próprio Deus em conceder a graça suficiente para vivermos os Seus mandamentos, pareça ser negligenciada ou menosprezada por tanta gente, inclusive por muitos dos católicos. Pedro insistiria: "Eles falam da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é encontrada na Sua graça, que nos é concedida para vivermos a Lei do Amor. A misericórdia de Deus nunca pode ser procurada nas desculpas inventadas para não se fazer o que o amor exige." 

Ao longo dos últimos quatro anos, Pedro e eu conversamos várias vezes por semana. Centenas e centenas de telefonemas. Eu sei que ele sofre mais quando é atormentado pelas pessoas mais próximas, que insistem para que ele "encare os factos" e "siga em frente". Ele perguntou-me muitas vezes: "Porque é que eles se incomodam com o facto de que uso a minha aliança e me comporto como o homem casado que eu sou?" 

Eu tenho pensado muito nesta questão. E repito-a aqui porque acho que pesa em vários dos relatórios que ouvimos ao longo do Sínodo. Eu disse ao Pedro que algumas pessoas não gostam de vê-lo usando a aliança de casamento pela mesma razão que não gostam de visitar os doentes nos hospitais. Nos dois casos, elas são forçadas a lembrar-se da sua própria vulnerabilidade. Ao visitar um paciente numa cama de hospital, nós não ficamos inclinados a pensar: "Eu também posso ficar doente e morrer?" Não conseguimos suportar a ideia da nossa própria vulnerabilidade à doença; por isso, evitamos os “lembretes” de que a doença e a morte vêm para todos. 

Da mesma forma, o abandono que Pedro sofreu por parte da esposa recorda-nos que todos nós somos vulneráveis ​​à decepção e à traição (e que todos nós somos capazes de decepcionar e trair). A dor de Pedro foi dilacerante nos últimos quatro anos e desejo-lhe o alívio; mas não à custa da sua alma. Pedro concorda comigo. Assim, ele confia-se aos tesouros da graça, que lhe são oferecidos pela Igreja fundada por Cristo. Ele vive a sua custosa fidelidade – diariamente – com a indispensável ajuda da graça de Deus. 

E é isto o que assusta as pessoas. As pessoas olham para o abandono de Pedro e para a sua dor e afastam-se, como se afastariam de um paciente acamado para se esquecerem da doença e da morte. Elas olham para a dor do Pedro e pensam: "Podia ser eu". É claro que essa perspectiva é aterrorizante. Imaginam que, no meio de uma dor tão grande, procurariam o caminho mais rápido para o alívio mais óbvio: "seguir em frente". Se Pedro se rendesse, essas pessoas provavelmente dariam um suspiro de alívio, porque aquela desistência significaria que é inevitável a busca delas próprias por atalhos para escapar da dor, já que "toda a gente faz isso" e "Deus só quer que nós sejamos felizes". 

Eu suspeito que ao verem Pedro algumas pessoas ficam com medo e com ressentimento – medo porque ele foi traído; ressentimento porque ele se manteve fiel. Qualquer um de nós pode ser traído; sem a graça de Deus, qualquer um de nós pode ser um traidor. Se Pedro, pela graça de Deus, permanece fiel, então não é impossível permanecer fiel à difícil Lei do Amor – difícil sim, mas não impossível. Isto significa que a vontade das pessoas de seguir o caminho mais fácil é uma questão de escolha e não uma questão de acaso. Elas são realmente responsáveis ​​pelas decisões que tomam. E se alguém não consegue confiar na fidelidade de Deus, então é quase impossível que assuma a responsabilidade por essas decisões. 

O Pedro, com o sustento da graça de Deus, deveria ser um tema de conversa séria para toda a Igreja, de agora até o final do próximo Sínodo. À luz da lei moral e da Sagrada Revelação, nós temos que dizer ao Pedro se Cristo o considera um fiel idiota, ou, como o próprio Cristo, um fiel amigo, que amou até o fim (Jo 13,1).

Pe. Robert McTeigue, SJ in Aleteia 


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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Bispos polacos lembram ensinamentos de S. João Paulo II no Sinodo


Intervenção de Mons. Stanisław Gądecki, Arcebispo Metropolitano de Poznań e Presidente da Conferência dos Bispos Polacos

Para começar, gostava de enfatizar que esta intervenção não reflecte apenas a minha opinião pessoal, mas a opinião de toda a Conferência dos Bispos Polacos.

1. Não há dúvida que a Igreja do nosso tempo deve – num espírito de misericórdia – ajudar os divorciados recasados civilmente com especial caridade, para que estes não se considerem separados da Igreja, quando de facto podem, como baptizados, participar na Sua vida.

Encorajê-mo-los, portanto, a ouvir a Palavra de Deus, a frequentarem o Sacrifício da Missa, a perseverarem em oração, a contribuírem para obras de caridade e para esforços comunitários em favor da justice, a educarem os seus filhos na fé crista, a cultivarem o espírito e a prática da penitência e assim a implorarem, dia-a-dia, a graça de Deus. Que a Igreja ore por eles, os encoraje e se mostre como Mãe misericordiosa, e assim os sustenha em fé e esperança (cf. João Paulo II, Familiaris Consortio, 84).

2. No entanto, a Igreja – no Seu ensinamento acerca da admissão de divorciados recasados – não pode vergar-se à vontade do homem, mas apenas à vontade de Cristo (cf. Paulo VI, Discurso à Rota Romana, 01.28.1978; João Paulo II, Discursos à Rota Romana, 01.23.1992, 01.29.1993 e 01.22.1996). Consequentemente, a Igreja não pode deixar-se levar por sentimentos de falsa compaixão pelas pessoas ou por formar de pensar que – apesar da sua popularidade mundial – estão enganadas. Admitir à Comunhão aqueles que continuam a coabitar more uxorio [como homem e mulher] sem o vínculo sacramental seria contrário à Tradição da Igreja. Os documentos dos primeiros sínodos de Elvira, Arles e Neocesareia, que tiveram lugar nos anos 304-319, já confirmavam a doutrina da Igreja de não admitir à Comunhão Eucarística os divorciados que se casaram de novo.

Esta posição é baseada no facto de que “o seu estado e condição de vida objectivamente contradizem a união amorosa entre Cristo e a Igreja que é significada e tornada efectiva pela Eucaristia” (João Paulo II, Familiaris Consortio, 84; 1 Cor 11:27-29; Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 29; Francisco, Angeluz, 16.08.2015).

3. A Eucaristia é o sacramento dos baptizados que estão em estado de graça sacramental. Admitir os divorciados recasados civilmente à Santa Comunhão causaria grande dano não apenas ao ministério pastoral da família, mas também à doutrina da Igreja acerca da graça santificante.

De facto, a decisão de os admitir à Santa Comunhão abriria a porta para este sacramento a todos os que vivem em pecado mortal. Isto por sua vez levaria à eliminação do Sacramento da Penitência e distorceria o significa de viver em estado de graça santificante. Outrossim, deve notar-se que a Igreja não pode aceitar a frequentemente chamada “gradualidade da Lei” (João Paulo II, Familiaria Consortio, 34).

Como o Papa Francisco nos lembrou, os que estamos aqui não queremos e não temos o poder de mudar a doutrina da Igreja. 


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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A profundidade do Milagre do Sol (e o Sínodo pela Família)

Quando aconteceu o Milagre do Sol, também os pastorinhos para lá se voltaram: porque foi junto do sol que viram o que se seguiu: primeiro, a Família de Nazaré completa: "S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o mundo com uns gestos que faziam com a mão, em forma de cruz." 

Terminada esta aparição, viram Nosso Senhor e Nossa Senhora: E apareceu-lhes Nossa Senhora das Dores; Ele fazia uns gestos como os de S. José, parecendo abençoar o mundo. Por último, voltaram a ver a Nossa Senhora e ficaram com a impressão de ser sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo.

Terminava assim o ciclo das Aparições da Cova da Iria, terminavam os encontros com Nossa Senhora, vividos em conjunto pelos três primos. A partir daquele momento, a história de cada um deles começaria a tomar um caminho próprio. E cada um sabia bem o que lhe era pedido.

Ela era a Senhora do Rosário. Não poderia ter-Se apresentado com outro nome, depois de repetidamente lhes pedir: "Rezem o terço todos os dias." 

O pedido que lhes fazia tornava-os missionários, porque era ao mundo inteiro, mais do que aos seus três pastorinhos, que Ela o dirigia. Pedia conversão, naquele momento derradeiro, pedia mudança, pedia regresso. E pedia-o com o semblante de uma Mãe aflita.

Só eles o tinham ouvido. Mas, sobretudo, só eles Lhe tinham visto aquela tristeza presente no olhar, que falava mais do que as Suas próprias palavras. Não se tratava simplesmente da reposição formal de uma disciplina perdida. Era um olhar amargurado pelo engano com que os homens traíam e esqueciam a sua Origem e o seu Destino, à custa da sua própria felicidade e da realização da sua humanidade, indelevelmente marcada por uma atracção pelo infinito.

Antes de partir definitivamente, Nossa Senhora mostrava-Se-lhes e mostrava o seu Filho, em facetas bem significativas.

Primeiro, a Família de Nazaré. Impressiona pensar que, logo a seguir ao "Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido", a Família de Nazaré faz-Se ver no céu da Cova da Iria. Como a lembrar que tudo parte da família, e que é ferindo a família que se torna quase inevitável ofender cada vez mais "a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido."

Depois, Nosso Senhor a abençoar o mundo, tendo a Seu lado Nossa Senhora das Dores: a certeza de que nunca nos faltará a presença e a benção de Cristo, Senhor da História, mas que não O encontraremos sem passar pela Cruz.

Por fim, Nossa Senhora do Carmo, uma das mais antigas devoções a Nossa Senhora, como a confirmar que agora, como em toda a História, quem vai por Ela não se engana.

Madalena Fontoura in Bem-Aventurados (2000)


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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Intervenção do Arcebispo Charles Chaput de Filadélfia no Sínodo


Intervenção de D. Charles Chaput, Arcebispo de Filadélfia, no Sínodo da Família, Sábado passado:

Irmãos,

O Santo Padre sabiamente encorajou-nos a ser fraternais e sinceros ao dizer o que pensamos durante este sínodo.

Tal como os nossos pensamentos dão forma à linguagem que usamos, também a linguagem que usamos forma o nosso pensamento e o conteúdo das nossas discussões. Uma linguagem imprecisa leva a um pensamento confuso que às vezes pode conduzir a resultados infelizes. Queria partilhar convosco dois exemplos que nos deviam preocupar um bocado, pelo menos onde se fala inglês.

O primeiro exemplo é a palavra inclusivo. Nós ouvimos muitas vezes que a Igreja devia ser inclusiva. E se por "inclusiva" queremos dizer uma Igreja que é paciente e humilde, misericordiosa e aberta - então aqui todos concordamos. Mas é muito difícil incluir aqueles que não querem ser incluídos, ou que insistem em ser incluídos nos seus próprios termos. Para dizer de outra forma: eu posso convidar pessoas para minha casa e posso tornar a minha casa tão calorosa e acolhedora quanto possível. Mas a pessoa fora de minha casa tem ainda que decidir entrar. Se eu reconstruir a minha casa de acordo com a personalidade do visitante ou do estranho, a minha família irá carregar o custo e a minha casa não irá mais ser a sua casa. A lição é simples. Temos que ser uma Igreja acolhedora que oferece refúgio a quem quer que esteja a procurar Deus honestamente. Mas temos que permanecer uma Igreja comprometida com a Palavra de Deus, fiel à sabedoria da tradição Cristã e a pregar a verdade de Jesus Cristo.

O segundo exemplo é a expressão unidade na diversidade. A Igreja é "católica" ou universal. Temos que honrar as muitas diferenças de personalidade e cultura que existem entre os fiéis. Mas vivemos num tempo de intensa mudança global, confussão e agitação. A nossa necessidade mais urgente é a unidade e o nosso maior perigo é a fragmentação. Irmãos, temos que ser muito cuidadosos ao delegar assuntos disciplinares e doutrinais importantes às conferências episcopais nacionais e regionais - especialmente quando a pressão nessa direcção é acompanhada por um espírito implícito de auto-afirmação e resistência.

Há quinhentos anos, num tempo muito parecido com o nosso, Erasmus de Roterdão escreveu que a unidade da Igreja é o atributo mais importante que Ela tem. Podemos discutir o que é que Erasmus pensava mesmo e o que é que ele queria dizer com o que escreveu. Mas não podemos discutir sobre as consequências de quando a necessidade de unidade na Igreja foi ignorada [1]. Nos próximos dias do nosso sínodo, temos que nos lembrar com actos da importância da nossa unidade, do que é que essa unidade requer e o que é que a desunidade implica substancialmente.

in Catholic News Agency 

[1] Eramus de Roterdão foi um sacerdote e intelectual do século XVI que se opunha à "reforma" protestante de Martinho Lutero.


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domingo, 11 de outubro de 2015

Intervenção de D. Manuel Clemente no Sínodo dos Bispos

No número 53 do Instrumentum Laboris (II Parte, Capítulo II: Família e vida da Igreja), encontramos um passo fundamental para a compreensão do que deve ser a família, como base e critério da nossa vida comunitária em geral. Aí se diz que a comunidade cristã não pode resumir-se a uma “agência de serviços” e deve tornar-se no lugar onde as famílias nascem sacramentalmente, se encontram e caminham na fé, em entreajuda e partilha. 
  

Como sabemos, a crescente concentração de pessoas em grandes espaços urbanos e a separação dos familiares uns dos outros, para procurarem trabalho ou por outras razões, alterou profundamente o antigo quadro rural e localizado onde a vida geralmente decorria, com grande vinculação familiar. A maioria da população mundial vive já em meio urbano e o movimento crescerá sempre mais, em grandes concentrações, de muitos milhões de habitantes.


Dificilmente se reconstruirão solidariedades como as que tivemos anteriormente, ou as vizinhanças estáveis onde as gerações se sucediam e reconheciam. Também se tornou difícil dar condições materiais e sociais suficientes a todos os que querem constituir famílias e criar filhos, com a dimensão que tinham décadas atrás. Por outro lado, o individualismo cultural hoje prevalecente não motiva compromissos duradouros e fecundos, como os familiares.


Se o número 53 do Instrumentum Laboris nos adverte que a comunidade cristã não se pode resumir a uma “agência de serviços”, é porque muitas vezes trazemos para dentro da própria Igreja as práticas habituais da “sociedade de consumo”, em que o intercâmbio se faz mais de coisas do que propriamente de relações pessoais autênticas. São recorrentes as queixas de quem não é verdadeiramente acolhido nem atendido, mesmo quando contacta as instituições da Igreja. Nem sempre podemos corresponder ao que nos é pedido, mas nunca podemos desprezar quem nos pede alguma coisa.

Este passo do Instrumentum Laboris diz-nos ainda mais. Diz-nos que a formação e acompanhamento das famílias cristãs, assim como a partilha crente e existencial que estas mesmas façam entre si, devem caracterizar a comunidade cristã no seu todo. Enunciado doutro modo, podemos concluir que a renovação das comunidades, no presente contexto socio-cultural, se há de fazer com critério familiar, tonando-as efectivamente “famílias de famílias”.


Sabemos que isto mesmo vai acontecendo, quando a preparação para o matrimónio começa cedo, na família e na catequese da infância e da adolescência, com o envolvimento directo dos pais, bem como nos grupos juvenis orientados por casais jovens; quando as famílias são espiritualmente acompanhadas na comunidade e em grupos de casais; quando os serviços comunitários de cada um têm em conta os seus laços familiares; quando famílias inteiras praticam voluntariado ou missões temporárias e a comunidade as acompanha na oração e na partilha de notícias.


Neste caminho devemos prosseguir, rumo à «conversão pastoral e missionária» das comunidades, que o Papa Francisco apresentou como programa para toda a Igreja (cf. Evangelii Gaudium, 25). Por seu lado, as comunidades cristãs, renovadas com critério familiar, devem ser “proféticas” para uma sociedade que se renovará também assim, valorizando a respectiva base familiar e inter-familiar. Incorporando certamente as possibilidades tecnológicas e mediáticas hoje disponíveis, mas não se deixando desvirtuar por elas.


Retomaremos a verdade cristã das origens, como o Novo Testamento nos revela. De Belém ao Egipto e do Egipto a Nazaré, os primeiros trinta anos da vida de Jesus acontecem em contexto familiar, com as vicissitudes de tantas outras famílias de qualquer tempo e lugar. Quando sai de Nazaré, não constitui uma família de sangue, mas sublima e alarga a todos os sentimentos familiares que vivera como filho e parente: para constituir a família dos filhos de Deus que, por isso mesmo, são universalmente irmãos. 


Na primeira evangelização, os Atos dos Apóstolos referem muitas vezes a importância de casais e famílias na vida da Igreja, como é o caso de Áquila e Priscila, em Corinto e Éfeso, ou daqueles que Paulo lembra nas saudações das suas cartas. E também na transmissão da fé, o mesmo Paulo não se esquece de lembrar a Timóteo o papel que tinham tido a sua mãe e a sua avó. 
  

Face aos grandes desafios que hoje enfrentamos, em termos de sociedade e evangelização, importa encontrar a base firme para a resposta cristã. Encontramo-la na família e devemos oferecê-la no testemunho fecundo das famílias cristãs.

Roma, Sínodo dos Bispos, Outubro de 2015
+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa

in www.patriarcado-lisboa.pt/


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sábado, 10 de outubro de 2015

O Cardeal que conheceu 7 Papas fala sobre o Papa Francisco

 

 Corriere della Sera a 4 de Outubro.
"É verdade que as diferenças não são apenas uma questão de estilo. Mas não tocam na missão principal e na fundação visível de unidade de fé e de comunhão com toda a Igreja ... o Papa Francisco já comentou ele próprio uma série de vezes que o que ele está a fazer é simplesmente ser fiel ao Evangelho e não a uma posição ideológica."
O Cardeal Ruini é vigário geral emérito da Diocese de Roma - serviu nessa posição de 1991 a 2008. Ele falou ao Corriere pouco depois de um sacerdote polaco a trabalhar na Cúria Romana admitir que era gay e foi demitido depois de pedir uma mudança no ensinamento da Igreja sobre os actos homossexuais.
O sacerdote, Msgr. Charamsa, disse que o chamamento da Igreja aos homossexuais para viver uma vida de abstinência é "inhumano".
O Cardeal Ruini respondeu que "como sacerdote eu também tenho a obrigação de abstinência e, em mais de 60 anos [de sacerdócio], nunca me senti deshumanizado, ou proibido de uma vida de amor, que é algo muito maior do que o exercício da sexualidade."
Ele reflectiu que enquanto "se ouve imensas conversas" sobre um susposto "lobby gay" no Vaticano, "pessoalmente eu não tenho forma de falar sobre este lobby gay e não gostaria de caluniar pessoas inocentes," acrescentando que "se for verdade, é uma coisa triste que precisa de ser resolvida."
O cardeal reflectiu depois sobre o voo do Papa Francisco do Rio de Janeiro para Roma a 28 de Julho de 2013, onde ele distinguiu entre pessoas com tendências homossexuais e aqueles que conspiram para o reconhecimento dos actos homossexuais e das relações e disse que "Se alguém é gay e está a procurar o Senhor e tem boa vontade, então quem sou eu para o julgar?"
"Estas são talvez as palavras mais mal compreendidas do Papa Francisco", comentou o Cardeal Ruini. "É um preceito do Evangelho - não julgar se não quereis ser julgados - que temos que aplicar a todos, obviamente incluindo os homossexuais, e isso requer que nós respeitemos e amemos a todos. Mas o Papa Francisco já se expressou claramente numa série de ocasiões em oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo."
Assim o cardeal afirmou que o Papa Francisco é frequentemente explorado nos media para ganhos ideológicos. "Que certas posições do Papa sejam enfatizadas e outras passem virtualmente sem serem reconhecidas é mais do que um risco, é um facto."
O Cardeal Ruini manifestou a sua oposição à legalização de uniões do mesmo sexo, dizendo que elas "ignoram a diferença e a complementaridade entre homem e mulher, que é fundamentel não só do ponto de vista física, mas também psicológico e antropológico. A humanidade desde há milénios que conhece a poligamia e a poliandra, mas este caso de casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma absoluta novidade: uma verdadeira ruptura que constrasta com a experiência e a realidade. A homossexualidade tem sempre existido, mas nunca ninguém pensou em fazer um casamento a partir disso."
A entrevista virou-se então para a discussão à volta do cuidado pastoral dos divorciados-recasados, com Aldo Cazzullo do Corriere a perguntar-lhe se é possível admiti-los à Comunhão.
"Não. Os divorciados-recasados não podem ser readmitidos à Comunhão. Não é por causa da sua culpa pessoal particularmente grave, mas por causa do estato em que objectivamente estão," respondeu o Cardeal. "O casamento anterior de facto continua a existe, porque o matrimónio sacramental é indissolúvel, como disse o Papa Francisco no seu voo de regresso dos Estados Unidos. Portanto, ter relações sexuais com outra pessoa seria objectivamente um adultério."
Quando se lhe perguntou sobre as novas normas sobre o processo de averiguação da possível nulidade de um casamento, introduzido pelo Papa Francisco em Agosto, o Cardeal Ruini disse que a única forma de isso enfraquecer a ligação ou introduzir uma espécie de "divórcio Católico" é "se as novas provisões não forem aplicadas de uma maneira responsável. O que é necessário primeiro de tudo é melhorar a preparação dos juízes."
"Introduzir surrepticiamente uma espécie de divórcio Católico seria realmente hipocrisia e prejudicaria muito a Igreja e a sua credibilidade. Mas a decisão do Papa Francisco, tal como muitos de nós - eu incluído - esperam, não tem nada a ver com uma espécie de hipocrisia."
No que toca à questão da relação entre a fé daqueles que se casam o sacramento do matrimónio, o Cardeal Ruini comentou que "o Papa Bento, estando convencido de que a fé é necessária para o sacramento do matrimónio, tal como para qualquer outro sacramento, foi muito prudente ao delinear consequências práticas deste princípio. Mesmo o Papa Francisco limitou-se a indicar que uma falta de fé é uma das circunstâncias que pode permitir um processo mais breve diante do bispo, quando esta falta de fé gera uma simulação de consentimento ou um erro que determina a vontade."
in Catholic News Agency


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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Adopte um Bispo durante o Sínodo

Quer rezar especialmente por um determinado Bispo durante o Sínodo dos Bispos sobre a Família que irá decorrer durante as próximas semanas no Vaticano?

É fácil, bastar ir a este site: Adopte um Bispo durante o Sínodo e clicar lá em baixo em "adopt".

Depois é começar a rezar pelo feliz contemplado.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Cardeal Robert Sarah e o Sínodo sobre a Família

Atendendo sobretudo ao Sínodo Ordinário sobre a Família, convocado pelo Santo Padre e que no dia 5 de Outubro de 2015, começou no Vaticano, vale a pena lembrar algumas palavras do Cardeal Robert Sarah, nigeriano de nascimento, homem de uma devoção e fé extraordinárias como se pode constatar pela leitura do livro adiante referido. O Cardeal Sarah era Arcebispo de Conakry e foi para a Santa Sé a pedido do agora São João Paulo II, aí se manteve sob o pontificado do Papa Bento XVI e o Papa Francisco, apreciando certamente as suas muitas qualidades, nomeou-o recentemente Prefeito para a Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.


Nas últimas páginas do seu livro/entrevista “Dieu ou rien”, o Cardeal Sarah responde a uma pergunta de Nicolas Diat sobre as, ainda recentes, declarações do Cardeal Reinhard Marx, Arcebispo de Munique e Frisinga e Presidente da Conferência Episcopal da Alemanha. Dizia o Cardeal alemão:

“A procura de um acompanhamento teologicamente responsável e pastoralmente apropriado dos crentes divorciados ou divorciados e recasados civilmente encontra-se em todo o mundo entre os desafios urgentes da pastoral familiar e conjugal no contexto da evangelização”.


Reacção do Cardeal Sarah, tão clara que dispensa totalmente comentários:

“Tenho muito respeito pelo Cardeal Reinhard Marx. Mas esta afirmação tão geral parece-me ser a expressão de uma pura ideologia que se quer impor à força a toda a Igreja. (…) A questão dos crentes divorciados ou divorciados e recasados civilmente não é um desafio urgente para as Igrejas de África ou Ásia. Ao contrário, trata-se de uma obsessão de certas Igrejas ocidentais que querem impor soluções ditas teologicamente responsáveis e pastoralmente apropriadas, as quais contradizem radicalmente o ensino de Jesus e do magistério da Igreja.”

Mais à frente:

“… não é possível imaginar uma qualquer que seja distorção entre o magistério e a pastoral. A ideia que consistiria em colocar o magistério num bonito guarda-joias destacando-o da prática pastoral, que poderia evoluir ao gosto das circunstâncias, das modas e das paixões, é uma forma de heresia, uma perigosa patologia esquizofrénica.

Afirmo, pois, solenemente, que a Igreja de África se oporá firmemente a toda a rebelião contra o ensino de Jesus e do magistério.

Se me posso permitir recordar uns factos históricos, no séc. IV, a Igreja de África e o Concílio de Cartago decretaram o celibato sacerdotal. Depois, no séc. XVI, o mesmo Concílio africano constituiu o fundamento sobre o qual o Papa Pio IV se baseou para fazer face às pressões dos príncipes alemães, os quais lhe pediam para autorizar o casamento dos padres. Hoje também, a Igreja de África compromete-se, em nome do Senhor Jesus, a manter inalterado o ensinamento de Deus e da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio: o que Deus uniu, que o Homem não o separe.

Como é que um Sínodo poderia voltar atrás relativamente ao ensino constante, unificado e aprofundado do Beato Paulo VI, de S. João Paulo II e de Bento XVI? Ponho a minha confiança na fidelidade do Papa Francisco.”

Um pouco mais adiante, a propósito dos actuais mártires cristãos perseguidos em todo o mundo, o Cardeal Sarah retoma o mesmo tema da referida afirmação do Cardeal Marx bem como outra das questões fracturantes que vão ser tratadas no Sínodo. Diz aquele Príncipe da Igreja:

“Enquanto cristãos morrem pela sua fé e a sua fidelidade a Jesus, no ocidente, numerosos homens da Igreja procuram reduzir ao mínimo as exigências do Evangelho.

Vamos mesmo ao ponto de utilizar a misericórdia de Deus, abafando a justiça e a verdade, para acolher, de acordo com os termos da Relatio post disceptationem do último Sínodo sobre a Família de Outubro de 2014, os dons e as qualidades que as pessoas homossexuais têm para oferecer à comunidade cristã. (…) o verdadeiro escândalo não é a existência de pecadores, pois precisamente a misericórdia e o perdão existe sempre para eles, mas antes a confusão entre bem e mal, operada pelos pastores católicos. Se homens consagrados a Deus já não são capazes de compreender a radicalidade da mensagem do Evangelho, procurando anestesiá-la, andaremos na estrada errada. Pois eis aqui a verdadeira falta de misericórdia.

Enquanto centenas de milhares de cristãos vivem cada dia com medo real, certos querem evitar que sofrimento aos divorciados recasados, que se sentiriam discriminados por estarem excluídos da comunhão sacramental. Apesar de um estado de adultério permanente, apesar de um estado de vida que testemunha uma recusa de adesão à Palavra que eleva os que são sacramentalmente casados a ser um sinal revelador do mistério pastoral de Cristo, alguns teólogos querem dar acesso à comunhão eucarística aos divorciados recasados. A supressão desta interdicção da comunhão sacramental aos divorciados recasados, que se autorizaram eles mesmos a ultrapassar a Palavra de Cristo – O que Deus uniu o Homem não pode separar (Mt 19,6) – significaria claramente a negação da indissolubilidade do matrimónio sacramental.

(…) Como compreender que pastores católicos submetam ao voto a doutrina, a lei de Deus, e o ensino da Igreja sobre a homossexualidade, sobre o divórcio e o recasamento, como se a Palavra de Deus e o magistério devessem deste agora ser sancionados, aprovados pelo voto da maioria?

(…) Por ocasião do próximo Sínodo sobre a Família, que caminho queremos tomar separando o culto, a lei e a ética?”

Seguidamente, e a este propósito, transcreve um texto da obra “Introdução ao Espírito da Liturgia”, do então Cardeal Joseph Ratzinger.

Se me posso permitir, recomendo vivamente a leitura da obra “Dieu ou rien” que trata de inúmeras questões da actualidade e de fé de forma clara e reveladora da importância da devoção, humildade e obediência, que facilmente compreendemos serem características da personalidade do Cardeal Robert Sarah.

Luiz de Albuquerque Veloso


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