quarta-feira, 12 de março de 2014

O Papa Francisco, o dom das lágrimas e o Missal Tradicional

O encontro do Papa Francisco com os párocos de Roma na semana passada, que já foi posto aqui no Senza, tem imenso potencial para cada um crescer na vida interior. Um potencial que se aplica não só aos padres, mas a todos os cristãos.


De facto, para crescer em santidade, é bom que os leigos aproveitem muito daquilo que os padres costumam fazer: rezar, preocupar-se em levar almas para o Céu, viver a castidade, etc... e ao mesmo tempo manter-se na sua vida profissional e familiar normal.

É a isso que o Concílio Vaticano II se refere quando fala da santidade dos leigos. É por isso que este discurso do Papa (completo aqui) é de muito proveito para todos. 

Este tempo da Quaresma é, além disso, muito bom para meditarmos sobre o que significa cada pecado, cada ofensa a Deus e ao próximo. Estas são coisas sempre muito mais graves do que pensamos e que acabaram por levar o próprio Deus a ser flagelado e pregado na cruz. O Papa, no seu discurso aos párocos de Roma, fala precisamente em chorar por isso:
"Diz-me: tu choras? Ou perdemos as lágrimas? Lembro-me que nos Missais antigos, aqueles de um outro tempo, há uma oração lindíssima para pedir o dom das lágrimas. Começava assim, a oração: "Senhor, Tu que deste a Moisés o mandato de bater na pedra para que viesse a água, bate na pedra do meu coração para que as lágrimas...": era assim, mais ou menos, a oração. Era belíssima. Mas quantos de nós choramos diante do sofrimento de uma criança, diante da destruição de uma família, diante de tantas pessoas que não encontram o caminho?... O choro dos padres... Tu choras?"
Outro aspecto muito interessante aqui é o conhecimento que o Santo Padre tem das orações do Missal antigo, aquele que se usa hoje para celebrar a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano.

De facto, o Papa Francisco citou uma oração (belíssima, como diz o Santo Padre) que se encontra mesmo no final do Missal tradicional, num cantinho dos cantinhos, numa secção chamada "Orações Diversas".

A oração que o Papa citou é a seguinte:

Omnipotens et mitíssime Deus, qui sitiénti pópulo fontem vivéntis aquae de petra produxísti: educ de cordis nostri durítia lácrimas compunctiónis; ut peccáta nostra plángere valeámus, remissionémque eórum, te miseránte, mereámur accípere. Per Dóminum nostrum Jesum Christum. 
Ó Deus bondossíssimo e omnipotente, que saciastes a sede ao povo com a fonte de água viva que produziste do rochedo, fazei rebentar da dureza do nosso coração lágrimas de compunção, para que possamos chorar os nossos pecados e merecer o perdão deles por Vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vale a pena folhear esta secção do missal, porque tem orações lindíssimas para todo o tipo de necessidades como rezar por uma comunidade ou família, pelo papa ou pelo rei, contra os perseguidores da Igreja, para pedir bom tempo, em ocasião de terramoto, em ocasião de peste nos animais, para obter o perdão dos pecados, contra os maus pensamentos, para pedir a caridade, pelos amigos, pelos inimigos, etc... São muitas!

Há muitas riquezas nos missais e nos livros antigos. S. Josemaria, por exemplo, dizia: "A Igreja de Deus e os sacerdotes de Deus, desde há vinte séculos, pregam o mesmo (…). Porque – gosto muito de dizê-lo – a religião não foi feita pelos homens de braço erguido, por votação… Pegai nos velhos catecismos! Filhas minhas, filhos meus: são tesouros maravilhosos! Não os deiteis fora!, lede-os (…) e lede-os com calma para conservar a fé dos vossos filhos."

Nuno CB


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Interrompem com gritos a favor do aborto mas são silenciadas com o "Viva a Vida"

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terça-feira, 11 de março de 2014

D. Álvaro del Portillo explica como santificar o trabalho

Hoje, dia 11 de Março de 2014, faz 100 anos que nasceu o Venerável Álvaro del Portillo, 1º sucessor de S. Josemaria à frente da Prelatura do Opus Dei, que será beatificado no próximo dia 27 de Setembro.

Em comemoração do centenário do seu nascimento fica aqui um filme em que D. Álvaro explica como se deve fazer para santificar o trabalho:


(se não aparecerem legendas em português, podem-se activar em baixo à direita)

O actual Prelado da Obra, D. Javier Echevarria, também disse algumas palavras interessantes sobre D. Álvaro:
Sempre que ocorria algum aniversário importante, D. Álvaro costumava dirigir-se ao Senhor com esta oração: «Obrigado, perdão, ajuda-me mais». É natural supor que também atuasse de modo semelhante na efeméride do seu centenário. Aquelas palavras são uma excelente oração para nos dirigirmos à Santíssima Trindade: agradecendo os benefícios recebidos – são tantos!, muitos mais do que podemos imaginar – ; pedindo perdão pelas nossas faltas e pecados; solicitando a Sua ajuda para continuar a servir, mais e melhor, como servos bons e fiéis.  
Há anos, noutro aniversário desta data, D. Álvaro detinha-se a recordar o tempo decorrido. As suas considerações podem servir-nos para também nós falarmos com Deus, sobretudo quando, seja pelo que for, nos saltem aos olhos as nossas faltas e debilidades de forma mais patente. Eram e são expressões que enchem de esperança. «Ao contemplar o calendário da minha vida, dizia, penso nas folhas passadas. São passadas mas não atiradas ao cesto dos papéis, porque perduram aos olhos de Deus. Tantos benefícios do Senhor! Já antes de nascer me preparou uma boa família cristã, que me proporcionou uma boa formação. Depois, tantos acontecimentos que marcaram a minha existência. Acima de todos, o encontro com o nosso Padre, que mudou por completo a minha vida, de forma muito rápida. E os quase quarenta anos de contacto próximo e constante com o nosso Fundador…».
in opusdei.pt


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Hermenêutica da continuidade: O Papa anda de autocarro




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segunda-feira, 10 de março de 2014

Mario Palmaro, um pai de família que combateu o bom combate

No passado dia 9 de Março, depois duma longa doença, morreu Mario Palmaro. Com apenas 46 anos de idade, este professor universitário e escritor distinguiu-se como um dos melhores estudiosos e defensores da fé católica nos tempos difíceis em que vivemos.

Aqui ficam algumas palavras suas numa entrevista a ‘Il Foglio’, onde fala da sua vida depois de saber que tinha uma doença terminal:
 
A primeira coisa que decorre desta doença é que se abate sobre nós sem nenhum aviso prévio e numa altura que não decidimos. Estamos à mercê dos acontecimentos, e não podemos fazer mais do que aceitá-los. A doença grave obriga a ter consciência que somos mortais; mesmo que a morte seja a coisa mais certa do mundo, o homem moderno vive como se nunca fosse morrer.

Com a doença percebes pela primeira vez que o tempo de vida aqui em baixo é um sopro, suportas a amargura de não teres feito o trabalho de santidade que Deus queria, experimentas uma nostalgia profunda pelo bem que poderias ter feito e pelo mal que poderias ter evitado.

Olhas o Crucificado e percebes que aquele é o coração da fé: sem o Sacrifício o catolicismo não existe. E aí dás graças a Deus por te ter feito católico, um católico “pequeno pequeno”, um pecador, mas que tem na Igreja uma mãe extremosa. Então, a doença torna-se um tempo de graça, mas muitas vezes os vícios e misérias que nos acompanharam durante a vida permanecem, ou adensam-se. É como se a agonia já tivesse começado e combate-se o destino da alma, porque ninguém está certo da sua própria salvação.

Por outro lado, a doença fez-me descobrir uma quantidade de pessoas que me querem bem e que rezam por mim, de famílias que de noite rezam o terço com as crianças pela minha cura, e fico sem palavras para descrever a beleza desta experiência, que é uma antecipação do amor de Deus na eternidade. A maior dor que tenho é a ideia de ter que deixar este mundo do qual gosto tanto, e que é tão belo e tão trágico: ter que deixar tantos amigos, a minha família, especialmente a minha mulher e os meus filhos, que são ainda novos.


Às vezes imagino a minha casa, o meu escritório vazio, e a vida continua, mesmo sem mim. É uma ideia que custa, mas extremamente realista: faz-me perceber que sou, e fui, um servo inútil, e que todos os livros que escrevi, as conferências, os artigos, são apenas palha. Mas tenho esperança na misericórdia do Senhor, e no facto que outros recolherão as minhas aspirações e as minhas batalhas, para continuarem o antigo duelo. 


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Química? - D. Nuno Brás

Está hoje na moda entre os jovens (e menos jovens) chamar “química” à atração física que alguém sente por outro. Não sei as origens desse costume. Mas sei que ele trouxe consigo duas realidades que não deixam de me preocupar.

Em  primeiro lugar, o facto de reduzir as relações humanas a uma reação química. Ao início, o uso da expressão parecia ser uma simples comparação: tal como dois reagentes dão origem a uma realidade nova, assim também os apaixonados deixavam que nascesse o amor entre eles. Mas daqui já se foi mais longe, e hoje já nos encontramos no campo da afirmação da pretensa realidade (ainda há dias encontrei alguns estudantes do ensino secundário que pensavam deste modo), ou seja: a paixão e o amor mais não seriam que o fruto de uma reação química que existiria no nosso corpo, provocada pela presença daquele outro ser. Assim como dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio juntos dão lugar à água, assim os seres humanos inevitavelmente se sentiriam impelidos um para o outro. Tudo, mesmo as relações entre seres humanos passaria a ser comandado pela inevitabilidade. Talvez mesmo algum cientista tenha a pretensão de descobrir a lei que comanda essa “química”…

Depois, aquilo que à primeira vista seria um “acto de liberdade”, ou mesmo de “libertinagem” (contra os tabus e as regras da sociedade), mais não seria que, afinal, uma inevitabilidade química. A liberdade, a generosidade, o amor seriam apenas grandes mentiras em que viveríamos. Entre seres humanos, afinal, mais não existiria que, como nos outros animais, o inevitável instinto. Toda a história universal, todas as construções, todo o altruísmo, tudo o que nos permite decidir e ser responsáveis, mais não seria que fruto de uma reação química. E o mesmo se diga de tudo o que é aberração: todos os monstros ditadores; todos os criminosos mais ou menos comuns, afinal não seriam responsáveis pelos seus atos… Seria apenas “química”!

Mas não percebemos que nos encontramos à beira do abismo e da auto-destruição? Não tenho dúvidas que a humanidade será capaz de reagir. Mas, até lá, muitos (sobretudo jovens) se perderão pelas veredas deste caminho educativo, mais ou menos espalhado pelas nossas escolas. E desses havemos de responder, por não os termos ajudado a olhar a beleza do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus!

in Voz daVerdade


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Frase do dia

“Estou convencido de que a crise eclesial em que hoje nos encontramos depende em grande parte do colapso da liturgia.” 

Papa Bento XVI in 'Introdução ao Espírito da Liturgia'


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sábado, 8 de março de 2014

A oração une a alma a Deus - Santa Juliana de Norwich

A oração une a alma a Deus. Mesmo que a nossa alma, pela sua natureza, se assemelhe sempre a Deus, restaurada que foi pela graça, de facto ela é-Lhe muitas vezes dissemelhante por causa do pecado. A oração testemunha então que a alma deveria querer o que Deus quer; reconforta a consciência; torna-nos aptos a receber a graça. 

Deus ensina-nos, assim, a rezar com uma confiança firme de que receberemos aquilo que pedimos em oração; porque Ele olha-nos com amor e quer associar-nos à sua vontade e às suas acções benfazejas. Incita-nos, assim, a rezar para que seja feita a sua vontade […]; parece dizer-nos: «Que Me poderia satisfazer mais do que ouvir uma súplica fervorosa, sábia e insistente para que os Meus desígnios se cumpram?» Portanto, pela oração, a alma entra em concordância com Deus. 

Mas quando, pela sua graça e a sua cortesia, Nosso Senhor Se revela à nossa alma, então obtemos o que desejamos. Nesse momento já não conseguimos ver que mais poderíamos pedir. Todo o nosso desejo, toda a nossa força, estão inteiramente concentrados nele, para O contemplar. Parece-me ser uma oração muito alta, impossível de sondar. 

O objectivo da nossa oração é estarmos unidos, pela visão e pela contemplação, Àquele a Quem rezamos, com uma alegria maravilhosa e um temor respeitoso, numa doçura e delícia tão grandes que, nesses momentos, não podemos rezar senão como Ele nos conduz a fazê-lo. Bem sei que, quanto mais Deus Se revela a uma alma, mais ela tem sede dele, pela sua graça; mas, quando não O vemos, sentimos a necessidade e a urgência de rezar a Jesus, por causa da nossa fraqueza e da nossa incapacidade.


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A política de Nossa Senhora de Fátima - Pe. Gonçalo Portocarrero

Há quem não aprecie Nossa Senhora de Fátima por achar que esta «santinha», ao contrário de outras suas homónimas, é muito «política» e, até, uma anticomunista um pouco primária.

É verdade que as aparições na Cova da Iria desestabilizaram a já muito instável primeira república portuguesa. Houve, no início, quem temesse que tudo fosse uma montagem anticlerical, para desacreditar a Igreja e desencadear novas perseguições. Uma Nossa Senhora que, para além de interferir com a república, ainda se pronuncia sobre a Guerra Mundial e o fim do comunismo soviético parece, com efeito, política demais, sobretudo para quem só tolera os santos nos desvãos das sacristias.

Para pôr termo ao conflito internacional e evitar a expansão do comunismo, Maria não se fez ver pelos políticos, não se mostrou aos exércitos, não interveio nos parlamentos, não enviou mensagens aos chefes de Estado. Mas apareceu a três crianças analfabetas e pediu-lhes um impossível, sem outros meios do que a oração e o sacrifício.

Não são só os titulares de cargos públicos, os chefes dos partidos, os agentes económicos e os dirigentes sindicais que são protagonistas da política: todos o somos, porque todos temos o direito e o dever de participar no que a todos diz respeito. Alguns, é certo, agindo directamente nas estruturas do poder; outros, intervindo indirectamente, através da sua acção social; quase todos, participando nos actos eleitorais. Mas, para um cidadão crente, para além destes meios humanos, que não deve descurar, há uma intervenção ainda mais eficaz: a oração. 

Para um cristão, pedir a Deus pelos governantes e agradecer o seu serviço é um dever religioso e uma sua muito importante actuação política. in ionline


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sexta-feira, 7 de março de 2014

Um Homem para a Eternidade - 8 de Março 2014 em Lisboa

A propósito dos Óscares e das recentes conversas sobre a família e o divórcio, há um filme que não pode deixar de ser mencionado esta semana.

Este filme fala de um homem que foi decapitado precisamente por ser contra o divórcio, aquilo que hoje tantos parecem querer aceitar como normal.

Mais ainda, este homem foi quem escreveu uma das obras mais conhecidas do humanismo que a Europa viveu no Renascimento - a Utopia.

Foi um intelectual do seu tempo, que trocou cartas com muitos outros intelectuais do seu tempo, como Erasmus.

Este homem, além de ser um cidadão humilde e discreto, foi também Chanceler-Mor do reino de Inglaterra, uma posição mais importante da que é hoje a posição de Primeiro-Ministro.

Renunciar a essa posição para mostrar que não concordava com as políticas que o rei Henrique VIII queria levar sobre o casamento não foi suficiente. Como tal, a sua condenação no Parlamento Inglês marcou o início do fim do Catolicismo na Grã Bretanha.

Desde então, excepto num ou noutro período de tempo, a Inglaterra afirmou-se contra a Igreja Católica e contra o Papa que afirmava o mesmo que afirma hoje o Papa Francisco: divorciados recasados não podem comungar.

Falamos, claro, de S. Tomás More.

A história de S. Tomás foi passada para filme em 1966 e, apesar de todas as críticas conhecidas aos ensinamentos morais da Igreja Católica, ganhou o Óscar de Melhor Filme nesse ano. Ganhou também o óscar de melhor actor principal, melhor realizador e melhor argumento.

Este filme, Um Homem para a Eternidade, vai ser passado em
Ecrã grande amanhã (8.Março)
em Lisboa,
no Oratório de S. Josemaria,
às 16:15.

Aqui fica o trailer:





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Um prenúncio de um cataclisma? Ícones da Rússia e da Ucrânia começaram a chorar!


Será que Deus nos está a avisar de um cataclisma gigante que pode ter início na Rússia e na Ucrânia? Esta ideia não está excluída. Em ambos os países, em vários conventos os ícones começaram a chorar.

Na Rússia e na Ucrânia, em vários conventos e igrejas ortodoxas, os ícones começaram a escorrer lágrimas. Na tradição ortodoxa (tal como na ocidental, onde as imagens que choram anunciam acontecimentos importantes), isto é um sinal visível do Alto que consiste num chamamento à conversão e num aviso de que se avizinham tempos difíceis. 

Actualmente os ícones choram, entre outros, em Rostów nad Donem, Odessa, Równy e Nowokuznieck. No passado tiveram lugar acontecimentos semelhantes, na Rússia e na Ucrânia, antes da Revolução de Outubro e da queda do czar, assim como antes da queda da União Soviética.

Se, de facto, estes fenómenos estão a ocorrer, então – mesmo apesar do que os jornalistas contam sobre terem ocorrido situações semelhantes antes da queda da União Soviética nos inquietar e despertar em nós desconfiança – vale a pena questionarmo-nos: Não será que Deus nos quer, deste modo, avisar dos tempos difíceis que aí vêm e convidar à conversão? 

A oração nunca é demais e o panorama internacional e civilizacional não está inclinado para um optimismo exagerado... Por isso, ao rosário, à oração e à conversão! Cada acontecimento destes é um chamamento aos cristãos para mudarem de vida e o sinal daquilo que há-de vir. Tomasz P. Terlikowski in fronda.pl


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quinta-feira, 6 de março de 2014

Papa aos párocos de Roma: "Acabas o dia com Deus ou com a televisão?"



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Iniciamos os santos 40 dias da Quaresma - São Gregório Magno

Iniciamos os santos quarenta dias da Quaresma, e convém-nos examinar atentamente por que razão esta abstinência é observada durante quarenta dias. Moisés, para receber a Lei pela segunda vez, jejuou quarenta dias (Gn 34,28). Elias, no deserto, absteve-se de comer durante quarenta dias (1Rs 19,8). O Criador dos homens, ao vir para o meio dos homens, não tomou qualquer alimento durante quarenta dias (Mt 4,2). 

Esforcemo-nos também nós, tanto quanto nos for possível, por refrear o nosso corpo pela abstinência neste tempo anual dos santos quarenta dias [...], a fim de nos tornarmos, segundo a palavra de Paulo, «uma hóstia viva» (Rom 12,1). O homem é, ao mesmo tempo, uma oferenda viva e imolada (cf Ap 5,6) quando, sem deixar esta vida, faz morrer nele os desejos deste mundo.

Foi a satisfação da carne que nos levou ao pecado (Gn 3,6); que a carne mortificada nos leve ao perdão. O autor da nossa morte, Adão, transgrediu os preceitos de vida comendo o fruto proibido da árvore. É por conseguinte necessário que nós, que fomos privados das alegrias do Paraíso pelo alimento, nos esforcemos por reconquistá-las pela abstinência. 

Mas ninguém suponha que esta abstinência é suficiente. O Senhor disse pela boca do profeta: «O jejum que Eu aprecio é este, [...] repartir o teu pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir o nu, e não desprezar o teu irmão» (Is 58,6-7). Eis o jejum que Deus aprova [...]: um jejum realizado no amor ao próximo e impregnado de bondade. Prodigaliza pois aos outros daquilo que retiras a ti próprio; assim, a tua penitência corporal permitir-te-á cuidar do bem-estar físico do teu próximo em necessidade.


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terça-feira, 4 de março de 2014

Testemunho de D. Athanasius Schneider nos Jerónimos

No passado dia 16 de Fevereiro de 2014, D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana, Cazaquistão, foi aos Jerónimos dar um testemunho sobre a perseguição aos Cristãos pelo regime comunista na antiga União Soviética, na Ásia Central.


O testemunho é impressionante. Talvez um dia todas estas histórias sejam escritas em livro para a posteridade. Algumas já estão disponíveis no livro de D. Athanasius, Dominus Est.


No mesmo dia, D. Athanasius Schneider celebrou a Santa Missa também nos Jerónimos. A homilia pode ser encontrada aqui

in adtelevavi.blogspot.com


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"A fé não se negocia" - Papa Francisco

“A fé não se negocia. Esta tentação sempre existiu na história do povo de Deus: cortar um pedaço da fé, ainda que não seja muito. Mas a fé é assim, tal como a recitamos no Credo. É necessário superar a tentação de fazer o que todos fazem, não ser tão, tão rígidos, porque precisamente daí começa um caminho que acaba na apostasia. 

De facto, quando começamos a destroçar a fé, a negociá-la, a vendê-la à melhor oferta, começamos o caminho da apostasia, da não fidelidade ao Senhor.” Homilia, 7/IV/2013


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segunda-feira, 3 de março de 2014

São Francisco e os muçulmanos

Entre a quarta e quinta cruzadas houve algumas expedições militares contra os infiéis. De uma delas, que aportou no Egipto, participou São Francisco de Assis.

Quando São Francisco, movido pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual via ser repudiado pelas hordas de infiéis muçulmanos, que eram combatidos pelos cruzados, aproveitando uma trégua entre os terríveis combatentes, partiu para o deserto com o fito de convertê-los à fé verdadeira, não pela espada, mas pelo amor a Deus e ao próximo, conta-se que assim se sucedeu.


Ia São Francisco pelo deserto quando soldados do sultão local, ávidos de sangue, caíram sobre ele, mas, ao notarem os trajes andrajosos e a pobreza do peregrino, e que não trazia armas, mas somente um tosco bornal e um cajado, decepcionaram-se e, maior que a decepção foi a surpresa quando ele lhes disse quem era, bradando altaneiro: “sou arauto do grande Rei, sou a trombeta do Imperador”. 

Diante disso, os soldados levaram São Francisco à presença do sultão que, informado de quem se tratava, mas muito desconfiado e como que querendo divertir-se, indagou-o com descrença: 

Então, és arauto de um rei. E que rei é esse, e quais seus objectivos ao enviar-te a nós assim, desta forma vestido e sem aparato militar que demonstre seu poder? 

Tirando uma das mãos de seu cajado e apontando para o alto, ao mesmo tempo em que com grande enlevo fitava o imenso céu crepuscular do deserto, São Francisco respondeu calmamente:


São Francisco e o sultão ayyubid al-Malik al-Kāmil
Sou arauto do grande Rei, o Deus de Amor, Senhor de todas as coisas que enviou-nos Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós em uma cruz. Mas que vencendo a morte pela morte, ressuscitou e subiu aos céus, onde está à direita de Seu Pai. E todo aquele que nEle crer não morrerá, mas terá a vida eterna. Eu vim para trazer-vos esta boa nova, a fim de que vos torneis seus súbditos.



Os mulás presentes indignaram-se e com fortes brados protestaram pela morte do insolente. Ao ouvir isso, o sultão percebendo que São Francisco era um cristão e admirado com sua coragem e pura intenção, retorquiu: 



Com um arauto tão solene e convincente nas palavras e actos, esse rei não poderia também, já que é tão grande senhor, demonstrar seu poder e riqueza com um séquito mais poderoso? Pois as tuas palavras também me servem para designar Alá, e, ao invés de Cristo, por que tu não crês no profeta Maomé, o verdadeiro enviado de Deus, e não obedeces ao seus mulás que aqui estão? 

Fitando a enorme fogueira que ardia ao lado da tenda, inspirado por Deus, e, vendo que de outra forma não poderia penetrar naqueles corações endurecidos com o suave e salutar dardo do Amor Divino, São Francisco propõe: 

O que é o séquito senão a escolta que protege o emissário, por mais indigno que este seja? Ora, façamos pois uma prova e depois ireis me dizer qual é o verdadeiro emissário, Jesus Cristo ou Maomé. Entremos todos, os mulás e eu, nesta flamejante fogueira. Aquele que detiver o verdadeiro mandato, por mais indigno que seja, sairá ileso e demonstrará com isso a verdade que deve guiar todo homem. 

O desafio era entre Cristo e Maomé. E São Francisco já largava de lado o bornal e o cajado e preparava-se para entrar no fogaréu, quando, desesperadamente, o líder dos mulás se lança de joelhos ante o sultão clamando em prantos loucos de pavor e pedindo suspensão da prova, enquanto os outros se amontoavam assustados em um canto da tenda. O sultão, conformado, exclama:

É, parece que Alá não foi bem servido hoje! E, voltando-se para São Francisco, suplica-lhe que não entre no fogo, louva-lhe a confiança que depositava em Cristo e, respeitoso e encantado, diz-lhe: 

Se outros cristãos dessem o exemplo que tu dás, eu não hesitaria em me tornar cristão também. 

Depois disso, faz com que São Francisco seja conduzido em segurança de volta à linhas cristãs.

Conta-se que no leito de morte, o sultão, em seu país, recebeu miraculosa visita de São Francisco, que se encontrava ao mesmo tempo na Itália, e se fez baptizar cristão tendo morrido no seio da Santa Igreja.


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Há 75 anos era eleito o Papa Pio XII

Há 138 anos, no dia 2 de Março de 1876, em Roma, nasceu Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli.


Há 75 anos, no dia 2 de Março de 1939, em Roma, Eugenio Pacelli foi eleito Papa, passando a chamar-se Pio XII.

Muitas vezes injustiçado pelas calúnias levantadas contra si, sobre uma suposta colaboração com o regime nazi, lentamente os caluniadores vão sendo obrigados a admitir que o Papa Pio XII foi corajoso e salvou a vida a milhares de judeus durante a II Guerra Mundial

Vale a pena conhecer melhor a vida deste grande homem. 


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domingo, 2 de março de 2014

Homilia de D. Athanasius Schneider nos Jerónimos

No passado dia 16 de Fevereiro de 2014, D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana, Cazaquistão, foi aos Jerónimos dar um testemunho sobre a perseguição aos Cristãos pelo regime comunista na antiga União Soviética, na Ásia Central.

No mesmo dia, ele celebrou também a Santa Missa nos Jerónimos. Aqui fica a homilia pregada por ele:
Livro de D. Athanasius publicado em Portugal

"Caros irmãos e irmãs!

Nesta Santa Missa queremos de modo particular exprimir a nossa fé católica, renovar a nossa fidelidade à imutável fé católica, e a nossa alegria de poder crer de modo católico. A expressão mais sublime da imutável fé católica é a liturgia, tal como nos foi transmitida, de um modo orgânico, a partir dos santos Apóstolos. Nós devemos continuar hoje a ter a mesma fé eucarística e a mesmo respeito para com o Santíssimo Sacramento que tiveram tantos Santos durante mais de um milénio, a mesma fé dos nossos pais e avôs; e se nós ou outras pessoas poderem comportar-se do mesmo modo ainda hoje, isso deverá comover-nos profundamente.

“Credo in sanctam catholicam Ecclesiam”. “Creio na Santa Igreja Católica”. Quando professamos a fé na Igreja Católica, professamos a verdade de que Cristo instituiu a Igreja, e que ela é una e única, e que esta Igreja é a Igreja Católica. Cristo fundou a Igreja, não somente sobre o fundamento que Ele mesmo é, mas também sobra a rocha visível, que é o Apóstolo Pedro e cada um dos seus sucessores. Vendo o quadro dos inumeráveis cismas entre os discípulos de Cristo e entre os mesmos bispos durante toda a história da Igreja, verificamos que S. Pedro e seus sucessores, os Romanos Pontífices, mostraram ao mundo toda a verdade das palavras divinas: “Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16, 18). Desde os tempos antigos, escutavam-se estas palavras: “Ubi Petrus, ibi Ecclesia”, “onde está Pedro, aí está a Igreja”, palavras de Santo Ambrósio. Quem está com Pedro e com os seus sucessores, encontra-se sem dúvida na única Igreja de Cristo. Por essa razão, todos os perseguidores da Igreja e todos os cismáticos de todos os tempos tentaram separar os fiéis da rocha de Pedro, qual é a Cátedra Romana.

O que deu aos mártires e aos confessores a força de sofrer, e sobretudo a força da paz da alma no meio das condições desumanas dos cárceres e dos campos de concentração, foi a Santíssima Eucaristia. Quando lemos os testemunhos das suas vidas, descobrimos também nós, hoje, o exemplo da profundíssima fé no mistério da Santíssima Eucaristia, do ardente amor e da delicada reverência para com este máximo mistério da nossa fé, porque eles sabiam: a Eucaristia é o Senhor. “Dominus est”. E com isto está tudo dito.

Desejo citar alguns dos confessores de Cristo num dos mais horríveis campos de concentração estalinistas, das ilhas Solovetskin, no Mar Branco. O Pe. Donato Nowitsky escreveu: “Durante muito tempo celebrávamos a santa Missa no sótão, o tempo todo de joelhos, porque era impossível estar de pé. O Pe. Nikolaj ia todos os dias para a capela. Depois de um dia de desgastantes trabalhos forçados, levantou-se as cinco da manhã, tomou uma pequena quantidade de vinho, misturado com uma gota de água, e um pedaço de pão, e correu para a capela. As nossas celebrações da Eucaristia eram momentos de grandes alegrias espirituais. Agradeço a Deus que eu tenha podido estar nas ilhas Solovki. Não raramente experimentei, naquele horrível lugar, o sopro do paraíso e raras e grandes alegrias. Seguimos este princípio: olhar todas as coisas com os olhos da fé e alegrar-nos sempre na consciência de servir a verdade e gozar dela em cada momento».

O Pe. Donato Nowitsky deixou o seguinte comovente testemunho da sua própria ordenação sacerdotal, realizada em segredo: “Havia uma situação própria das catacumbas: na pobre capela estava sentado num simples banco, em vez de numa cátedra, o jovem bispo Boleslaw Sloskans. O bispo oficiava sem mitra e báculo. O seu rosto irradiava uma grande perfeição espiritual e substituía de certo modo estes sinais ordinários do poder episcopal. Na capela sentia-se o aroma da graça. Experimentámos que aqui, nesta terrível ilha, as palavras de Cristo eram cheias de significado real: “Eu estou convosco todos os dias”, “as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja”. Era o dia 7 de Dezembro de 1928. Eu não consegui conter silenciosas e alegres lágrimas, quando o bispo Boleslaw impôs as mãos sobre a minha cabeça dizendo: “Accipe Spiritum Sanctum”, “Recebe o Espírito Santo”, e quando também os outros sacerdotes confessores tocaram a minha cabeça. Sentia que a principal força, com a qual eu podia servir Deus no cárcere, era o santo Sacrifício da Missa. Sentia que Cristo é para sempre meu, e que sou seu servo para aliviar os seus sofrimentos. A minha alma sentia e dizia somente uma coisa: “Meu Senhor e meu Deus”.

Caríssimos irmãos e irmãs, estes exemplos devem comover-nos e encorajar-nos no exercício da nossa santa fé. Para os nossos irmãos mártires e confessores, a Eucaristia era o centro de cada dia e o verdadeiro fim de toda a sua vida. Mesmo nas miseráveis condições das catacumbas, eles demonstraram a máxima atenção e reverência para com a Eucaristia. Nem sequer um detalhe do rito da Missa e dos gestos exteriores consideraram que fossem secundários. Que exemplo para nós, que vivemos na liberdade, ainda na liberdade, tendo tantas possibilidades de celebrar a Santa Missa com solenidade e com toda a riqueza do culto, digno da majestade divina! Queremos competir com eles no modo de celebrar e venerar a Eucaristia. Que exemplo de fé seria se, no meio da crise litúrgica da Igreja latina nos nossos dias, em todas as Santas Missas, em todo o orbe, os católicos recebessem a santa Comunhão de joelhos e na boca: que durante a liturgia da Missa fossem sempre mais os sinais de adoração, do silêncio, da sacralidade da música; se o sacerdote e os fiéis estivessem orientados na alma e no corpo para o Senhor, olhando juntos para o Crucifixo e para o rosto de Cristo no Sacrário, no centro da igreja. Deste modo a fé poderia crescer e tornar-se mais católica, sempre mais eucarística.

A liturgia é o rosto mesmo de Cristo, para o qual todos devem ser orientados. A verdadeira renovação da Igreja nos nossos dias acontecerá somente quando os fiéis, e em primeiro lugar o clero, aspirarem sinceramente à perfeição da caridade. Contudo, não haverá santidade e caridade para com o próximo sem a adoração reverente de Deus, isso é sem uma liturgia reverente e cristocêntrica. A santidade e a verdadeira caridade para com o próximo não existirão sem que a Igreja dos nossos dias se ajoelhe com amor e tremor diante de Cristo, real e substancialmente presente no mistério eucarístico.

Que toda a vida da fé e toda a liturgia sejam permeadas com a reverência diante da majestade de Deus, sabendo que tudo vem d’Ele, e que sejam ao mesmo tempo permeadas com a alegria de podermos aproximar-nos de Deus, que alegra a juventude da nossa alma. A santidade e a beleza celestiais da liturgia da Missa proclamam esta verdade e nos confortam nela: “Credo in Ecclesiam catholicam apostolicam et romanam”, “Creio na Santa Igreja católica romana”. Amen. 

 in adtelevavi.blogspot.com


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Jesus Cristo fundou alguma Igreja?

Jesus Cristo fundou a Igreja católica. Vejamos alguns trechos da constituição dogmática Lumen Gentium

A) "Por isso, não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar ou nela perseverar."

B) "Este sacrossanto sínodo, seguindo os passos do Concílio Vaticano I, com ele ensina e declara que Jesus Cristo pastor eterno fundou a santa Igreja (...) e [Jesus] quis que os sucessores dos apóstolos fossem em sua Igreja pastores até a consumação dos séculos."

No ano 2000, a Congregação para a Doutrina da Fé, através da declaração Dominus Iesus, reiterou a doutrina bimilenar: 

A) "Deve-se crer firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por ele [Cristo] fundada."

B) "Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica - radicada na sucessão apostólica - entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja católica". 

C) "Existe, portanto, uma única Igreja de Cristo, que subsiste [continua a existir] na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele."

Os dois documentos supramencionados, embora baseados tanto na Sagrada Tradição quanto na Sagrada Escritura, não deixam de ser mais uma referência mais para os católicos.

Os nossos irmãos separados não podem, todavia, negar a História. 

Muito tempo antes do Concílio de Niceia, no século IV, data em que alguns protestantes querem ver o início do catolicismo, o Papa Clemente (+97), por exemplo, com autoridade doutrinal, dirige-se à Igreja de Corinto. 
O Papa Vitor I (+199) teve uma actuação decisiva na escolha da data da Páscoa, em controvérsia com outras comunidades. 
Os Papas Zeferino (+217) e Calisto (+222), na questão sobre a penitência, na disputa sobre o baptismo dos hereges, também deram a última palavra. 
Santo Inácio de Antioquia (+107) elogia a Igreja de Roma, em virtude de ser ela a primeira Sé. 
Santo Ireneu de Lião exige a união doutrinal com a Igreja de Roma. 
São Cipriano, por seu turno, vê nesta Igreja a fonte da unidade eclesiástica. 
São Jerónimo, o tradutor da bíblia, escreve ao Papa Dâmaso I (+384), dizendo que “no meio das convulsões da heresia ariana, a verdade encontra-se somente com Roma.”

Na Igreja católica apostólica romana está actuante e vigorosa a totalidade dos recursos salvíficos legados pelo divino salvador, nomeadamente os sete sacramentos. Edson Sampel in Zenit 


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sábado, 1 de março de 2014

Entrevista a D. Georg Ganswein sobre o Papa Bento XVI

Por ocasião do 1º aniversário da despedida do Papa Bento XVI (há um ano estávamos em tempo de Sede Vacante), o Senza Pagare apresenta o seu novo layout.
Segue também uma entrevista feita há duas semanas pela Reuters ao Arcebispo Georg Gänswein, secretário do Papa Bento XVI (antes, durante e depois de ser Papa) e Prefeito da Casa Pontifícia.
O texto original, em inglês e italiano, está aqui.
(Papa Bento XVI e o seu secretário pessoal Georg Gänswein no Vaticano, a 16 de Fevereiro de 2013. REUTERS/Alessandra Tarantino/Pool )
Reuters:  Este é um aniversário muito especial para a Igreja, mas também para Bento. Como é que ele está a viver estes dias e como está a sua saúde?
Gänswein: O Papa Bento está em paz consigo mesmo e, penso eu, está mesmo em paz com o Senhor. Ele está bem, mas certamente é uma pessoa que carrega o peso dos seus anos. Ou seja, ele é um homem que está fisicamente velho, mas o seu espírito é muito vivo e muito claro.
Reuters:  Bento nem sempre foi tratado com simpatia pelos media e outros. Por exemplo, algumas pessoas dizem que ele não recebeu os louros por ter introduzido as normas para confrontar o escândalo dos abusos sexuais, quer quando era cardeal, quer quando era Papa. Ele tem algum ressentimento pelos louros que não recebeu, por isto ou por qualquer outra coisa?
Gänswein: Não. É verdade que, humanamente falando, muitas vezes é doloroso ver que o que é escrito sobre alguém não corresponde concretamente ao que foi feito. Mas a medida do trabalho de uma pessoa, da maneira de fazer as coisas, não é o que os mass media escrevem mas o que é justo diante de Deus e diante da consciência.
Reuters:  E mesmo diante da história?
Gänswein:  Sim, mesmo diante da história. Mas o ponto de referência é a consciência e Deus. E, se for justo, no fim a história vai reflectir isso.
Reuters:  O que é que pensa que os juízos a longo prazo sobre Bento XVI vão ser?
Gänswein: Estou certo, mesmo convencido, que a história vai oferecer um juízo que vai ser diferente daquele que uma pessoa lia regularmente nos últimos anos do seu pontificado, porque as fontes são óbvias e a claridade impor-se-à.
Reuters: Pouco antes de resignar, Bento disse que gostava de viver escondido do mundo. Como é que ele passa os seus dias?
Gänswein:  De facto, ele está longe do mundo, mas presente na Igreja. A sua missão agora é, como ele uma vez disse, ajudar a Igreja e o seu sucessor, o Papa Francisco, através da oração. Esta é a sua tarefa principal e mais importante. Mas há 24 horas num dia. Ele estuda, lê, troca correspondência e depois há pessoas que o visitam. Damos passeios a rezar o Terço, ele toca piano várias vezes e tudo isto é feito a uma escala humana para um homem que tem 86 anos de idade.
(O Papa Bento XVI sai, com o seu secretário pessoal, George Gänswein depois da sua última audiência na Praça de S. Pedro no Vaticano a 27 de Fevereiro, 2013.REUTERS / Alessandro Bianchi )
Reuters:  Ele por vezes arrepende-se?
Gänswein:  Não, não tenho visto nada disso.
Reuters:  Qual é a relação entre Bento e Francisco? Eles pedem opiniões um ao outro?
Gänswein:  Desde o início dos inícios houve uma boa relação entre eles e este bom começo desenvolveu-se e amadureceu. Eles escrevem-se um ao outro, telefonam um ao outro, falam um com o outro, convidam-se um ao outro. Vocês sabem que o Papa Francisco já esteve no Mosteiro Mater Ecclesiae (a residência de Bento no Vaticano) várias vezes e o Papa Bento já esteve em Santa Marta (a residência de Francisco). Em vários níveis, há um bom ambiente entre eles.
Reuters: Qualquer pessoa que tivesse sido eleita no conclave de 2005 teria tido dificuldade a seguir um pontificado tão longo e tão cheio de novidades como o de João Paulo II. Acha justo dizer que Bento não teve sorte neste aspecto?
Gänswein: A vossa opinião é, naturalmente, uma observação subjectiva. Estou convencido que o Espírito Santo envia o Papa certo no tempo certo e isto é verdade para João Paulo, para Bento e para Francisco. Depois do pontificado muito longo de João Paulo II, que viveu em plena força nos primeiros 20 anos, antes dos anos de sofrimento que era visível e perceptível, foi escolhido um Papa que vivera ao lado de João Paulo durante 23 anos, como nenhum outro cardeal o tinha feito e que era, talvez, o ajudante mais eficiente e em quem mais confiava. Não diria que o Papa Bento não teve sorte. Depois de um pontificado de 27 anos, teria sido difícil para qualquer pessoa que fosse eleita.
Reuters: [O D. Georg] é, provavelmente, o único prelado de alto nível no Vaticano que tem dois chefes e talvez o primeiro na história que serve dois Papas simultaneamente. Como é que é esta experiência para si?
Gänswein:  Dizem que eu tenho chefes para servir. Num certo sentido isto é verdade e acrescentaria que é possível viver com dois mestres. Eu faço o meu serviço em total harmonia com os dois Papas, tentando ser uma ponte entre os dois pontífices. Até agora tem corrido bem e espero que os dois chefes estejam contentes.
Reuters:  Visto que a palavra pontífice vem da palavra latina para ponte, podemos dizer que você é uma ponte entre duas pontes.
Gänswein:  Isso é uma brincadeira com palavras mas sim, é exactamente isso.



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