quarta-feira, 23 de julho de 2014

Frase do dia

Há dois pontos capitais na vida dos povos: as leis acerca do matrimónio e as leis acerca do ensino; e aí têm de estar firmes os filhos de Deus, lutando bem e com nobreza, por amor a todas as criaturas. 

S. Josemaria Escrivá in Forja, 104


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terça-feira, 22 de julho de 2014

Incentivar a natalidade e patrocinar o aborto ao mesmo tempo?

Três anos depois de ser eleito, e depois de ter criado uma “comissão para a natalidade”, o nosso governo percebeu o seguinte silogismo:

- O Estado social precisa de ser sustentado pelas novas gerações;
- A taxa de natalidade em Portugal é a mais baixa da Europa, cerca de 1,2 filhos por mulher em idade fértil (muito longe nível de substituição de 2,1);
- Se isto continua assim Portugal pode dizer adeus ao Estado social porque não vai haver ninguém para pagar as contas.

Mesmo que não fosse a coisa mais óbvia do mundo, este panorama já tinha sido anunciado há muito tempo, e repetido até à exaustão na campanha contra a legalização do aborto, em 2007.

Para tentar remediar esta previsível catástrofe, o governo deverá brindar os progenitores com uma vasta panóplia de (pequenas) vantagens económicas por gerarem descendência, esperando que sirvam como um incentivo à natalidade.

Qualquer incentivo fiscal que ajude as famílias, especialmente as que generosamente têm mais filhos, é de salutar. O problema é que estas medidas são “peaners”.

O desenvolvimento económico ocidental que nos acompanha, mais crise menos crise, desde o fim da segunda guerra mundial foi incentivando o consumo privado, privilegiando o “ter de ter”, o materialismo, o individualismo, em última análise o egoísmo.

Com o Maio de 68, e a “revolução sexual”, patrocinada pelo aparecimento da pílula anticoncepcional, sexo e casamento divorciaram-se, passou a ser sempre que se quisesse, com quem se quisesse, sem um compromisso de vida.

O casamento foi menosprezado e o seu valor diminuído, entrando em crise, com cada vez menos pessoas a querer casar-se, e um aumento constante na taxa de divórcio. Generalizou-se o “viver junto” e a “união de facto”.

O aborto começou a ser visto como um direito, e legalizado praticamente em todos os países, onde se matam hoje em dia milhões de bebés por ano.

Os mesmos que atacaram o casamento até passar a ser visto como uma “tradição sem sentido” exigiram que duas pessoas do mesmo sexo se pudessem casar, dizendo que sem isso não haveria igualdade. Com um lobby poderosíssimo conseguiram o seu intento em tempo recorde, dando mais uma machadada na já frágil instituição casamento.

Isto tudo para dizer que a falta de filhos não existe por causa da crise, mas provém da mentalidade anti-família e anti-compromisso que se foi instalando na sociedade ocidental. Um dos grandes culpados pela propagação desta doutrina em Portugal foi o governo de José Sócrates, que conseguiu a proeza de legalizar o aborto, aprovar o divórcio-expresso e sem culpa, e o “casamento gay”.

Enquanto nada disto mudar, o governo bem pode arranjar umas promoções jeitosas, que vão apenas fazer ricochete e o problema de fundo irá continuar. É uma questão de mentalidade, de maneira de encarar a vida e o que andamos cá a fazer, e isso não se muda com descontos no IRS.

João Silveira


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Conforma a tua vida com o mistério da Cruz do Senhor

A reboque da reforma litúrgica realizada após o Concílio Vaticano II muitos foram os abusos que se fizeram e continuam a ser feitos. Um desses abusos, que o Papa Bento XVI, com o seu exemplo, tentou travar, foi o da “remoção dos Crucifixos das igrejas”. Desculpem o exagero! De facto, o crucifixo está lá, mas, normalmente, de esguelha, posto para um lado para não atrapalhar a visão.
            
Não deixa de ser curioso, pois uma das reformas realizadas a seguir ao Concílio foi a do Pontifical Romano, que introduz na Ordenação dos Presbíteros a seguinte “admoestação” quando se entrega o cálice e a patena ao recém-ordenado: «Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da Cruz do Senhor».
            
Pode ser fragilidade minha, mas preciso mesmo de ter um Crucifixo voltado para mim quando celebro a Santa Missa. Centrando-me nele distraio-me muito menos ao celebrá-la. Centrando-me nele nesses momentos, ajuda-me a lembrar a Quem e a que momento da sua vida tenho de conformar a minha.
            
Se centrar toda a minha vida na Cruz de Cristo, se me puser no seu lugar, então, sim, “percebo” a Ressurreição. Mas não há Ressurreição sem Cruz!
            
Cada vez mais me fazem sentido as frases de S. Paulo: «Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6, 14); «Nós pregamos Cristo crucificado» (1 Cor 1, 23); e também «Com Cristo estou crucificado» (Gal 2, 20).
            
Para o Padre, conformar toda a sua vida com o mistério da Cruz do Senhor é estar na cruz como Ele.
            
Se estivermos na cruz como Cristo, então iremos ter connosco a Igreja (que Maria Santíssima representa), os verdadeiros amigos (S. João) e os que querem amar verdadeiramente a Cristo (S. Maria Madalena). Mas também teremos alguns que, pertencendo ao mesmo povo que nós, o Povo de Deus, tal como a Cristo, nos irá gozar insultar, odiar.
            
Se o Padre não é o primeiro a subir à Cruz (como tão bem se representa na Forma Extraordinária do Rito Romano), como irá o Povo de Deus querer imitar a Cristo nas tribulações desta vida? Se o Padre não é o primeiro a abraçar a Cruz, como pode ajudar o Povo de Deus a fazê-lo?
            
Quantas não são as vezes em que apetece desviar os olhos da Cruz, as que não apetece abraçá-la, as que não apetece estar nela!
            
Deus me (nos) dê a graça de só descer dela morto e ressuscitado!
             
Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.
             
Um Padre


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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nun: O símbolo do genocídio que está a decorrer

Nun (ن), é a 14ª letra do alfabeto árabe e equivale ao N, no nosso alfabeto. É a primeira letra da palavra ‘Nazarenos’, que os muçulmanos usam desde o Séc.VII para se referirem aos cristãos. 

Este é o símbolo com que os terroristas islâmicos que dominam Mossul (Iraque) marcaram todas as instituições e edifícios dos cristãos. Depois de terem sido marcados, os edifícios e casas estão disponíveis para serem invadidos e pilhados, e todos os que lá estão devem ser mortos. 

Para não ser assassinado, qualquer cristão que queira permanecer em Mossul tem que pagar a “jizya”, um ‘imposto de protecção’, no valor de 450 dólares mensais, um preço elevadíssimo para a esmagadora maioria dos habitantes dum país destruído pela guerra. 

Isto não aconteceu há mil anos, está a acontecer agora. Enquanto falamos está a acontecer um genocídio. Como se trata de perseguição aos cristãos, a nossa comunicação social remete-se a um silêncio cúmplice. 

Quanto a nós, podemos mostrar a nossa indignação em relação a tudo isto, mudando a nossa fotografia de perfil para o "ن" ou fazermos uma qualquer referência sobre o que se está a passar, de modo que o mundo não passe ao lado de mais um genocídio. 

Rezemos pelos nossos irmãos perseguidos. 

João Silveira


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O desastre do voo MH17 e tu

por Fr. Z

As caixas negras do voo Malaysian Airlines 17 parecem indicar que alguns pilotos tentaram fugir em vão. Eu duvido. Acho que a morte depois da explosão foi súbita. Quem sabe quem poderia ter sobrevivido o disparo inicial e permanecer consciente nos segundos que se seguiram? Só Deus.

Tempo suficiente para um Acto de Contrição? Para um Acto de Caridade?

Tempo suficiente para dizer "Jesus!", "Maria!" ... "Perdoem!" ...?

Nós não sabemos quando virá a morte.

Mas vem.

A morte súbita pode ser uma benção.

Se estiverem em estado de graça, a morte súbita pode ser uma benção.

Uma morte súbita pode ser um desastre eterno.

Se não estiverem em estado de graça e a morte súbita vos atingir ... desastre eterno.

Desastre eterno, pessoal.

Quando foi a última vez que examinaram a vossa consciência com cuidado e foram à confissão?

Quando foi a última vez que ouviram um sacerdote dizer as palavras, "Eu te absolvo dos teus pecados..."?

Durante séculos os Católicos têm rezado na ladainha:

A subitanea et improvisa morte… Da morte repentina e imprevista, livrai-nos Senhor.”

O que é uma "morte imprevista"? É uma morte pela qual se morre - e vocês vão morrer - sem os Últimos Sacramentos do sacerdote ou sem a hipótese de se arrependerem dos pecados não confessados, mesmo com um acto de contrição perfeito.

Normalmente queremos ter os nossos problemas temporais em ordem. Quão mais temos que ter os nossos problemas espirituais em ordem? Não sabemos o dia nem a hora.

Meus queridos ... queridos leitores ... VÃO Á CONFISSÃO.

Pais de pequenas crianças ... ensinem aos vossos filhos a vossa Fé e certifiquem-se de que eles estão a fazer boas confissões e boas Comunhões.

Dêem-lhes um bom exemplo.

Reverendos Padres, por favor... vão à confissão e oiçam confissões.

in wdtprs.com/blog

O blog Senza reforça o conselho do Fr. Z a todos os seus leitores. Sem medos:



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domingo, 20 de julho de 2014

Como se deve estar na Santa Missa - S. Pio de Pietrelcina

Quando estás na Missa ou outra qualquer cerimónia, sê reverente quando estás de pé, ajoelhado ou sentado. Faz cada gesto com grande devoção. Sê modesto quando olhas, e não passes o tempo a ver quem chega e quem vai. 

Por reverência para com o lugar santo não dês gargalhadas nem olhes à volta para ver quem está por perto. Tenta não falar com ninguém, a não ser que a caridade ou o dever o requira...

Resumindo, porta-te de tal forma que todos os que vejam se sintam edificados e, por tua causa, se sintam ajudados a glorificar e amar o Pai do Céu.


in Carta a Anita Rodote, 25-VII-1915


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O dia da indulgência

É um bodo aos pobres, com poucos dias de intervalo: na última quarta-feira, 16 de Julho, e novamente neste Domingo, 20 de Julho, pode ganhar-se uma indulgência plenária, com o escapulário do Carmo.

O conceito de «indulgência» é simples, mas talvez pouco conhecido. A Igreja tem um património inesgotável de graças alcançadas por Cristo, por Nossa Senhora e pelos Santos que administra com a máxima misericórdia. Como declarou o Papa Francisco na sua primeira Missa com os fiéis, «a mensagem de Jesus é a misericórdia. Para mim, digo-o com humildade, esta é a mensagem mais forte do Senhor».

Quando nos arrependemos e somos perdoados, ainda falta uma purificação adicional, que se completará no Purgatório. É essa purificação que se pode antecipar com o tal tesouro inesgotável: a indulgência é a atribuição destes méritos, uma grandíssima graça, a troco de um pequeno gesto de boa vontade. No limite, se cumprirmos as condições estabelecidas pela Igreja e tivermos uma completa aversão ao pecado, mesmo a minúsculas ofensas a Deus, alcançamos imediatamente a purificação total, sem Purgatório.

Muitas indulgências relacionam-se com a devoção a Maria. É o caso da festa de Nossa Senhora do Carmo (16 de Julho) e deste Domingo, também relacionado com essa devoção.

Estas indulgências remontam a uma aparição de Nossa Senhora em 16 de Julho de 1251, já lá vão quase 800 anos, ao santo inglês S. Simão Stock, um homem da alta nobreza britânica, educado em Oxford, que se fez monge carmelita. A lista de confirmações pontifícias é imensa. Na última aparição em Fátima, os três Pastorinhos também viram Nossa Senhora do Carmo, com o escapulário na mão. Na opinião da Irmã Lúcia, «...o terço e o escapulário têm hoje uma importância maior do que em nenhuma época passada da história».

Como se sabe, o Papa Francisco não se cansa de dizer que a Confissão e a devoção a Nossa Senhora são dois eixos fundamentais da vida cristã. Há poucos dias (28 de Junho), pegou num grupo de gente nova da diocese de Roma, em fase de discernimento vocacional, e foi com eles até uma imagem de Nossa Senhora nos jardins do Vaticano, para lhes afirmar textualmente:

‒ «Quando um cristão me diz que não ama Nossa Senhora, que não tem vontade de a procurar ou de lhe rezar, sinto-me triste. Recordo um congresso na Bélgica em que (...) falavam muito bem de Jesus. A certa altura perguntei: “E a devoção a Nossa Senhora?”. Responderam-me “Já ultrapassámos essa fase; conhecemos Jesus tão bem, que não precisamos de Nossa Senhora”. Veio-me à cabeça e ao coração “coitadinhos... pobres órfãos!”. De facto, um cristão sem Nossa Senhora é um órfão. E também um cristão sem a Igreja é órfão».
«Um cristão precisa destas duas mulheres, duas mulheres mães, duas mulheres virgens: a Igreja e Nossa Senhora. O teste a uma vocação cristã autêntica é perguntar-nos: “como vai a minha relação com estas duas minhas Mães?”, com a mãe Igreja e com a mãe Maria. Isto não é um pensamento piedoso, é teologia pura. Isto é que é teologia. Como vai a minha relação com a Igreja, com a minha mãe Igreja, com a santa mãe Igreja hierárquica? E como vai a minha relação com Nossa Senhora, que é a minha mãe querida, a minha Mãe?».

A misericórdia, que a Igreja administra no sacramento da Confissão, é-nos oferecida por meio de Maria. O Papa gosta de o dizer com uma imagem forte: «Nossa Senhora levou ao colo a misericórdia feita Homem, Jesus».

Mas a imagem mais forte, na minha opinião, é o próprio Papa, ajoelhado no confessionário, confessando-se em público.
O Papa Francisco a confessar-se na basílica de S. Pedro, antes de se ir sentar noutro confessionário a atender os peregrinos.

José Maria C. S. André
in «Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», 20-VII-2014


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sábado, 19 de julho de 2014

O admirável testemunho dos mártires no genocídio de Ruanda

XX Aniversário de um massacre que deixou um milhão de mortos

No ano de 2014 cumprem-se 20 anos de um dos acontecimentos mais horríveis da história recente. No Ruanda produzia-se um autêntico genocídio no qual cerca de um milhão de pessoas foram assassinadas brutalmente em apenas três meses no intento de extermínio dos tutsi por parte dos hutus. Crê-se que neste curto período de tempo conseguiram aniquilar 85% dos tutsis deste país.

Este terrível acontecimento causou um sofrimento extra à Igreja Católica, pois o Ruanda era considerado um dos países mais cristãos de toda a África. O genocídio no qual participou uma parte da sociedade civil deixou em evidência os escassos cimentos da fé de um país no qual alguns sacerdotes e religiosas foram inclusive condenados por participar nos massacres. Mesmo João Paulo II reconhecia esta triste realidade em 1996 quando dizia que “todos os membros da Igreja que pecaram durante o genocídio” tinham que “ter a valentia de aceitar as consequências dos actos que cometeram contra Deus e contra o seu próximo”.

O sangue dos mártires da Igreja


Sem dúvida, também houve um comportamento heróico da Igreja e agora Ruanda está banhado pelo sangre dos mártires. A sua fidelidade ao Evangelho fez que três bispos, uma centena de sacerdotes e até 117 religiosos e religio- sas fossem assassinados.

Além disso, milhares de leigos foram assassinados das maneiras mais horríveis por serem cristãos e negarem-se a actuar contra a vontade de Deus. É o caso dos mártires do Caminho Neocatecumenal. Centenas de irmãos desta realidade eclesial foram assassinados por negar-se a matar outros, por protegerem tutsis e por formar parte de comunidades nas quais os tutsis, os hutus e os twa se amavam e conviviam.
Um relato sobre as mortes dos irmãos

A revista Communio recolhia em 1995 o testemunho destes mártires. Enrico Zabeo, um sacerdote italiano responsável do Caminho Neocatecumenal no Ruanda, relatava numa carta enviada em 1994 à sua paróquia em Roma a sua experiência durante essas semanas e o firme testemunho de fé dos irmãos ruandeses e como muito tinham morrido rezando pelos seus verdugos.

O padre Zabeo conseguiu escapar para as colinas junto com o espanhol Ignacio Moreno e a francesa Jeanne Watrelot, responsáveis desta realidade no Ruanda, e assim salvar a vida ainda que algum tempo depois voltassem às cidades para procurar os irmãos das comunidades e os sacerdotes.

Na carta enviada à sua paróquia de Roma dizia que os irmãos “tinham sido marcados pela presença do Senhor ao seu lado” e explicava que “nas comunidades neocatecumenais do sul há muitíssimos irmãos mortos; em Kigali as coisas tinham sido um pouco melhor”.

“Morreu rezando pelos assassinos”

Mas apesar das enormes dificuldades e o medo os sobreviventes imediatamente se procuraram uns aos outros para reunir-se nas celebrações da Eucaristia e da Palavra. Contava este sacerdote “dizem ter experimentado a Ressurreição: ter passado de morte anunciada em morte anunciada, vendo como a Páscoa se fazia realidade, quer dizer, vendo a intervenção de Deus que os livrava da morte ali onde humanamente teriam que ter sido mortos”.

O padre Zabeo resumia na sua carta alguns dos testemunhos que tinham podido recolher depois de encontrar-se com os sobreviventes. “Duas raparigas, em situações diferentes, por duas vezes foram arrojadas ao buraco com outros cadáveres, cheias de feridas e pancadas, e por duas vezes conseguiram sair dele encontrando a salvação. Outra rapariga (…) morreu rezando pelos assassinos que a fizeram em pedaços.(…) Em Butare soubemos de um rapaz do Caminho a quem assassinaram por não ter aceitado matar, de outro disposto a morrer por ter escondido duas irmãs procuradas pelos assassinos”.

“Escutar os testemunhos dos irmãos foi para mim um grande consolo. Ver a iluminação de alguns irmãos e irmãs foi uma catequese inigualável: feita de acontecimentos de vida, não de palavras vazias”, dizia na sua carta o catequista itinerante do Ruanda.

Em Ruanda o Caminho Neocatecumenal estava presente desde 1989 e no momento do genocídio havia um total de 19 comunidades, em 8 paróquias repartidas por cinco dioceses.

Rezar o Rosário durante o martírio

Uns destes mártires foram Jean Baptiste e Bernardette, casal responsável da primeira comunidade de Nyanza. Conta Enrico Zabeo na carta recolhida por Communio que “fizeram-nos sair de casa e os espancaram com paus. Enquanto os golpeavam Jean Baptiste gritava: ‘porque me fazeis isto? Que mal fiz?’. Recorda a Paixão. Bernardette por outro lado calada e a cada golpe fazia correr uma conta do Rosário.” Levaram ambos ao matadouro e ali os mataram a catanadas arrojando-os na fossa comum. “Faço notar (acrescentava) que ao mata- douro foram conduzidos também muitos outros irmãos de Nyanza”. Além disso, ressaltava “a crueldade contra os irmãos das comunidades acusados de reunir-se de noite (as celebrações!) para tramar contra o regime”, utilizando isto como pretexto.

“Um jovem irmão, Innocent Habyarimana, sobrevivente dos massacres junto à sua mulher Eugénie e à sua menina, contava-nos que durante a sua fuga tinha ouvido os milicianos, também eles fugitivos de Nyanza, contar admirados o modo como os irmãos das comunidades tinham morrido. Aos milicianos tinha-os chocado a dignidade e serenidade com que os irmãos afrontavam a mor- te: de maneira totalmente diferente dos demais. Os irmãos, de facto, entregavam-se sem resistência, sem desesperar-se, sem insultar e sem odiar”, recordava.

Também as crianças respondiam com heroicidade

Na sua carta, afirmava que esta atitude, “que certamente não significava a ausência de medo, era própria também dos filhos pequenos dos irmãos”. A estas crianças, os milicianos gritavam troçando deles: “ensinaram-vos bem nas vossas reuniões nocturnas a disciplina para enfrentar a morte”.

Uma morte brutal teve também a irmã Françoise, religiosa e catequista do Caminho Neocatecumenal. Foi vítima de múltiplas catanadas e dada por morta pelo que foi arrojada num profundo buraco junto com outra irmã. “Durante três dias ouviram-se os seus lamentos e em vão as monjas sobreviventes, anciãs e medrosas, tentaram tirá-la para fora lançando-lhe uma corda, também por culpa das fracturas e feridas dos braços. As irmãs recorreram então à polícia que, em vez de enviar os socorristas, enviou os milicianos, aqueles lançaram pedras no buraco, acabando com a irmã Françoise e fechando o buraco com terra”.

Também a jovem Grace Uwera, de somente 25 anos, teve uma morte admirável. “O relato tão simples e bonito, é digno dos mártires da primitiva Igreja, e convergem (segundo conta o padre Zabeo) num ponto: Grace morreu pedindo a Deus pelos seus assassinos”.
Abriu a Bíblia e rezou pelos seus assassinos Quando chegaram os assassinos por ela, conseguiu fugir com a sua Bíblia mas uma vez “apanhada pelos milicianos Grace foi levada a um posto de controlo no qual se faziam as execuções e onde estava a vala comum. Antes de ser assassinada pediu um tempo para rezar. Disse aos seus assassinos: mundekere akanya, nisabire nkabasabira: ‘deixai-me um momento para rezar por mim e também por vós’. Pegando na sua Bíblia abriu-a, leu, rezou e depois dirigiu-se aos assassinos dizendo: ‘agora fazei o que quereis´. E ofereceu a cabeça”. Primeiro foi golpeada com uma enxada e depois mataram-na a catanadas.

Estes são só alguns dos testemunhos dos irmãos de Nyanza. Houve irmãos hutus que jogaram a vida escondendo tutsis da comunidade tal como fizeram os twa (pigmeus). E o sacerdote italiano afirmava que “quando reunimos de novo os ir- mãos sobreviventes de Nyanza, contamos 51 entre as seis comunidades”. Um autêntico massacre.

“Mesmo tendo nada, tinham tudo”

Também conseguiram encontrar outros membros das comunidades do resto de Ruanda. Num acampamento de refugiados puderam estar com dez jovens que tendo estado escondidas nas colinas continuavam levando a cabo a celebração da Palavra. Contava admirado o padre Enrico Zabeo que era “impressionante constatar que não proferiam palavra alguma de tristeza, de raiva, lamento ou murmúrio. E sem dúvida, desde há já 6 meses não tinham nada e comiam grãos de milho com feijão cozidos, e só isso! A Palavra saciava-os. Impressionou-nos verdadeiramente a sua alegria”. Emocionado, este sacerdote italiano acrescenta que “ainda não tendo nada, tinham tudo! “.

Um dia depois acharam outro irmão, Vedaste, que arriscou a sua vida em várias ocasiões “debaixo das ameaças dos milicianos porque ia visitar as irmãs tutsis ao acampamento, sendo ele hutu”.

Também heróico foi o comportamento de Faustin, o responsável da comunidade.

“Contou-nos que os milicianos foram buscá-lo para o obrigar a unir-se às milícias nos massacres. Faustin, chamando a mulher e os filhos, fez pública profissão de fé dizendo: ‘desejamos ser cristãos e não queremos fazer nada contra a lei de Deus; não queremos fazer dano a ninguém, nem eu, nem a minha mulher, nem os meus filhos. Aqui estamos todos. Fazei de nós o que quereis, mas ne- nhum da nossa família fará algo que esteja mal”. O soldado marcou-lhe a cara com uma baioneta e golpeou-o mas não os matou. O que fez foi abrir uma enorme vala comum debaixo da sua casa para que visse todas as execuções.

“Temos em essência um batalhão inumerável de irmãos que rezam por nós. TE MARTYRUM CANDIDATUS LAUDAT EXERCITUS” (o branco exército dos mártires), concluía Enrico Zabeo.



in sumateologica.wordpress.com


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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Incapazes de silêncio - D. Nuno Brás

Os célebres “estudos” de pouco servem, a não ser para alimentar uma ou outra notícia e, eventualmente, os recursos financeiros daqueles que os realizam. Pouco convencem, por serem tantos, tão variados e contraditórios.

Um jornal português dava há dias conta de um desses estudos, cujas conclusões tinham sido publicadas na célebre revista “Science”, e que revela bem um dos traços mais característicos do mundo em que vivemos. Se o refiro é porque o tal “estudo” mais não faz que confirmar aquilo que cada um de nós pode verificar com a sua própria experiência.

O objectivo era, simplesmente, o de mostrar como a mente humana seria tão rica que, por si mesma, conseguiria imaginar com facilidade conteúdos que preenchessem alguns minutos de silêncio absoluto. Para isso, os participantes só tinham que estar entre 6 a 15 minutos numa sala, sem fazer nada – sem tocar em nada e sem falar com ninguém.

A surpresa foi grande: alguns aproveitaram aquele tempo para, com umas folhas de papel que estavam à sua frente, fazerem pequenas esculturas; outros não resistiram sequer a uma maquineta que estava por ali e que sabiam de antemão que provocava um choque eléctrico que já tinham dolorosamente experimentado. Não se tratava sequer de passar horas ou dias em silêncio absoluto. Apenas alguns minutos… Conclusão: “a maioria das pessoas prefere fazer alguma coisa do que não fazer nada, mesmo que seja algo negativo”.

Vivemos num mundo simplesmente incapaz de fazer silêncio. Incapaz de suportar o silêncio exterior, e incapaz de fazer silêncio interior. Mesmo para os cristãos, basta ver o pânico e a rapidez com que tantos recusam o desafio de um retiro de silêncio, para estar mais próximo de Deus e deixar que Ele possa falar ao coração – para já não falar da quebra mesmo de alguns minutos de silêncio com o convite a meditar nalguma passagem da Sagrada Escritura.

Mas, ao sermos incapazes de silêncio, não se trata apenas da impossibilidade de escutar Deus. É que nós próprios, como seres humanos, precisamos do silêncio para nos darmos conta de quem somos. Aquele que vive sempre distraído com o ruído, que vive sempre fora de si, não é capaz de ser ele próprio.

A educação é, sem dúvida, uma das emergências que o mundo contemporâneo vive. Mas não se trata apenas da educação que transmite conhecimentos e que faz com os alunos sejam capazes de os reproduzir e utilizar em novas situações. A emergência é bem mais profunda: trata-se de ensinar a ser.

E não é apenas uma questão própria dos não crentes. É, igualmente, um problema (e grande) para todos os que acreditam em Deus. Como podemos deixar que Ele nos fale, se não somos capazes de viver uns minutos de silêncio absoluto?

in Voz da Verdade


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O rancor pode arruinar o coração - D. Javier Echevarría

Fazer um pequeno exame pessoal - sem escrúpulos, mas com sinceridade – para descobrir se nalgum cantinho do nosso coração guardamos de rancor a alguém, ou se tratamos com pouca delicadeza aos outros. Pode parecer uma coisa sem importância, mas o ressentimento, o rancor que às vezes podemos acumular na alma, pode converter-se em caruncho que destrói e converte em pó os nossos sentimentos mais valiosos, aqueles que com maior claridade manifestam a nossa condição de filhos de Deus»

in Homilia do dia 26.06.2014 em Roma (tradução: JPR)


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quinta-feira, 17 de julho de 2014

O secularismo na Suécia, um "paraíso" visto de perto

Para ver o quão perturbadora uma sociedade secularista e crescentemente irreligiosa pode se tornar, basta olhar para a Suécia.

O aborto tem sido livre a pedido e disponível sem consentimento dos pais no país desde 1975, resultando na nação nórdica com a maior taxa de aborto em adolescentes da Europa (22,5 por 1000 meninas entre 15 e 19 anos em 2009).

A lei sueca não reconhece de forma alguma o direito à objecção de consciência para trabalhadores da área da saúde (no último ano, de forma esmagadora, o parlamento sueco passou uma ordem instruindo a delegação sueca no Conselho da Europa para lutar contra os direitos dos médicos de recusar participação em abortos).

Enquanto isso, a educação sexual é gráfica e compulsória, e às crianças é ensinado que qualquer coisa que gere uma sensação sexual está OK. A idade de consentimento para ter relações sexuais com adultos é 15 anos. “Nós temos muitas violações da dignidade humana em muitos níveis, e muitos problemas quando se trata de engenharia social”, explicou Johan Lundell, secretário-geral do grupo sueco pró-vida Ja till Livet. “As coisas têm sido assim nos últimos 70 anos.”

Lundell foi um convidado nosso no Dignitatis Humanae Institute [Instituto para Dignidade Humana], onde ele expôs um catálogo de ofensas contra a dignidade humana na sociedade sueca. “Nós temos a maior taxa de abortos em adolescentes na Europa. Por quê? Porque nós dizemos que o aborto é um direito humano, que não mata nada, apenas acaba com uma gravidez”, relatou. “E após 20 anos disso, os jovens já não se preocupam. Por que deveriam? Durante cerca de 10 ou 15 anos ninguém tem dito nem mesmo que o aborto, apesar de legal, deveria ser algo raro.”

O programa de educação sexual, visto por alguns social-liberais como pioneiro mas por outros como excessivamente explícito, tem sido colocado por alguns como a principal razão para a baixa taxa de gravidez na adolescência. Mas o alto número de abortos daquela faixa etária é raramente discutido, nem os números são divulgados. “Ninguém fala do aborto de crianças”, disse Lundell. “Eles têm vergonha disso. No entanto nós somos o único país na Europa em que existem abortos a pedido até a 18ª semana de gestação, sem procedimentos formais, sem consentimento dos pais, sem consentimento informado.”

O número de estupros na Suécia é outro ponto largamente desconhecido e pouco divulgado. De acordo com Lundell, ao longo dos últimos 50 anos – durante essa época de costumes sexuais liberais – aumentaram “1000%”

Lundell observou ainda que todos os outros países querem reduzir o número de abortos, mas apesar de existirem 550 departamentos governamentais na Suécia, nenhum tem a missão de reduzir o número de extermínios. “As crianças são capazes de ver que isso é errado, os pais são capazes de ver que isso é errado, e como uma sociedade nós não queremos isso. No entanto, ninguém quer falar sobre isso”, acrescentou Lundell. “É absurdo.”

Ele disse que a Suécia deveria servir como um aviso para outros países que procuram políticas secularistas e socialmente liberais “pois então será visto o que é a agenda para o povo, e como a União Europeia e a ONU estão copiando essas ideias escandinavas.”

Voltando ao assunto da educação sexual, Lundell relata que os suecos já não se importam em discutir se a homossexualidade é genética – um argumento comum usado para promover a agenda gay – porque o movimento é agora tão integralmente aceite que já não necessita desse argumento como suporte. “Nos livros de educação sexual, não se fala sobre alguém ser heterossexual ou homossexual – não existem tais coisas porque para eles todos somos bissexuais; é apenas uma questão de escolha”.

Lundell referiu-se a um panfleto para crianças publicado por associações LGBT, e impresso com a ajuda de financiamentos estatais. “Eles escrevem positivamente sobre todos os tipos de sexualidade, qualquer tipo, até mesmo os mais depravados actos sexuais, e isso vai para as escolas”, explicou. “A informação é colocada em websites, e as crianças na escola são direccionadas para esses sites para que a possam ver.”

Os professores, conta, são encorajados a perguntar aos estudantes: “O que te excita?” No entanto Lundell aponta que se um executivo-chefe de uma companhia perguntasse isso em um encontro de negócios, ele seria demitido. “Seria assédio sexual”, relatou. “E ainda assim treinam as pessoas para fazer isso com crianças?”

Alguns pais têm feito reclamações formais, dizendo que isto é conhecimento carnal, muito explícito para salas de aula e denominando as lições como “vulgares” e “muito avançadas.” Mas a maioria sujeita-se ao currículo, porque a opção para educar as crianças em casa é quase proibida.

Para muitos estrangeiros, porém, a imagem popular da Suécia é de uma sociedade razoável, ordenada, justa, e harmoniosa – o exemplo modelo de um welfare state funcional. Em muitos casos isso é verdadeiro se alguém observa as taxas de mortalidade infantil, a expectativa de vida, os padrões de assistência médica e o acesso à educação. O nível de pobreza é também relativamente baixo.

“Durante muito tempo tem sido dito que se não é possível realizar um mundo socialista na Suécia, então não é possível em nenhum outro lugar”, disse Lundell. “É por isso que alguns têm tentado fazer do país um paraíso socialista. Mas diferentemente, por exemplo, da Itália ou da Grécia, na Suécia não se trata de socialismo de finanças, mas antes, de socialismo de famílias – engenharia social, que tem sido muito mais visível por aqui do que no sul da Europa.”

Per Bylund, um parceiro sueco do Von Mises Institute, uma vez descreveu o abrangente poder do estado assim: “Uma significante diferença entre a minha geração e a precedente é que a maior parte de nós não foi, de maneira alguma, criada pelos pais. Nós fomos criados pelas autoridades em creches do estado desde a época da infância; e então empurrados para ginásios estatais, colégios estatais, e universidades estatais; e depois para cargos estatais e mais educação via poderosas associações trabalhistas e as suas associações educacionais. O estado está sempre presente e é para muitos o único meio de sobrevivência – e os seus benefícios sociais a única maneira de ganhar independência.”

Essa engenharia social, no entanto, tem gerado terríveis consequências. Poucos países europeus têm testemunhado tão rápido declínio na instituição do casamento ou tão rápido aumento no número de abortos. Durante a década de 50 e a primeira metade da década de 60, a taxa de casamentos na Suécia estava historicamente no seu pico. Repentinamente, a taxa começou a cair de forma tão rápida que em menos de 10 anos houve um decréscimo de aproximadamente 50%. Nenhum outro país experimentou tão imediata mudança.

Entre 2000 e 2010, quando o resto da Europa estava mostrando sinais de uma redução em taxas anuais de aborto, o governo da Suécia relata que a taxa cresceu de 30.980 para 37.693. A proporção de reincidência de abortos aumentou de 38,1% para 40,4% – o maior nível já registrado – enquanto o número de mulheres tendo pelo menos quatro abortos anteriores aumentou de 521 para aproximadamente 750.

Com excepção de poucos activistas robustos como Lundell, muitos cristãos suecos – e particularmente políticos cristãos – permanecem em silêncio diante das incontáveis violações sociais contra a dignidade humana. É também irrisória a resistência a ataques contra a liberdade religiosa para cristãos, com a prioridade sendo crescentemente concedida à Sharia (Lei Islâmica).

A julgar pelos números, quase poderia ser dito que a fé debandou completamente. Ao fim de 2009, 71,3% dos suecos pertencia à Igreja Luterana da Suécia – um número que tem diminuído um por cento a cada ano nas últimas décadas. Dentre esses, apenas 2% frequenta regularmente as reuniões dominicais. De facto, alguns estudos apontam os suecos como o povo menos religioso do mundo e um país com um dos maiores números de ateus. De acordo com diferentes estudos conduzidos no início da primeira década de 2000, um número entre 46% e 85% de suecos não acredita em Deus.

Lundell disse que embora pequena, a Igreja Católica tem um bom bispo e é ajudada por imigrantes da Polónia e da América Latina. Mas os católicos são geralmente vistos como estrangeiros com pouca influência e são têm medo das campanhas para não serem vistos como “fundamentalistas”, relata. Até os pentecostais são reticentes em levantar objecções. “Eles são provavelmente a única igreja pentecostal no mundo que não faz isso”, acrescentou.

Mas apesar de tudo isso, Lundell, cuja organização tem atraído um crescente número de jovens, mantém-se esperançoso – e também fundamentalmente fiel à sua pátria. “Estou muito orgulhoso de ser sueco”, disse, “mas envergonho-me com a política quando se trata de família, políticas sexuais e restrições em liberdade religiosa.”

Edward Pentin in Zenit (tradução: Tiago Toyoda)


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quarta-feira, 16 de julho de 2014

René Sebastian Fournié, o Padre Surfista

O Padre René Sebastian Fournié faz apostolado entre os surfistas, no contexto da nova evangelização: uma forma de promover a Igreja Católica e a fé em países tradicionalmente cristãos que têm vindo a sofrer com a laicização. Esta missão foi-lhe confiada em 2012 pelo Bispo Aillet, bispo de Bayonne, Lescar e Oloron.

Antes de surfar nas praias bascas, o Padre Fournié teve aulas de surf em Anglet e Biarritz. O próprio conta como tudo começou: 

"No início eu estava com medo de não conseguir, apesar de estar habituado a esquiar. Mas pratico esgrima desde os 7 anos de idade. No entanto, a posição dos pés sobre a prancha é o mesmo, e isso ajudou-me. Mas ainda sou um novato ..."

Quando começou a falar com os surfistas, eles ficavam um pouco surpresos de o ver com a veste talar (batina). Conta o Padre Fournié: 

"É um sinal visível que me permite participar em óptimas conversas com pessoas que não vão à igreja. Isto é o oposto de um obstáculo. Em Roma, onde vivi durante seis anos, existem cada vez mais Padres de batina. Isto confirma-se com o contacto com os surfistas. O diálogo desenvolveu-se muito rapidamente, porque eles são pessoas que têm um profundo respeito da natureza e as leis da natureza. Começamos com a natureza, e chegamos ao Autor da natureza!", diz o Padre, que mantém o seu cabeção mesmo dentro de água.

O diálogo parece ter vindo a desenvolver: "Alguns começaram a ir à Missa na catedral e até houve quem me pedisse para servir à Missa".

O Padre Fournié é de Paris, e foi ordenado sacerdote no ano de 2007 em Bordéus. Ele colabora na diocese de Bayonne desde 2011, onde desempenha três papéis: capelão da catedral, professor de teologia no seminário, e juiz do tribunal eclesiástico, que trata quase exclusivamente de declarações de nulidade.

Participou nas "manifestações por todos", contra o casamento gay, e também numa vigília na cidade de Bayonne, com alguns surfistas.


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terça-feira, 15 de julho de 2014

10 medidas práticas para a Santidade - Beato Francisco Xavier Seelos

1. Ir à Missa com grande devoção.

2. Reflectir durante meia-hora nos pecados em que se cai mais frequentemente; fazer propósitos para o evitar.

3. Fazer leitura espiritual durante 15 minutos, se for impossível fazer meia-hora.

4. Rezar o Terço todos os dias.

5. Se possível visitar o Santíssimo Sacramento todos os dias; e ao entardecer meditar na Paixão de Cristo durante meia-hora.

6. Acabar o dia com o exame de conciência, de todas as faltas e pecados do dia.

7. Todos os meses, fazer uma revisão do mês na confissão (direcção espiritual).

8. Escolher um padroeiro em cada mês, e imitá-lo numa virtude em especial.

9. Fazer uma novena antes de cada grande festa litúrgica.

10. Tentar começar e acabar cada actividade diária com uma Avé-Maria.


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O que é um demónio? - Pe. José António Fortea

Um demónio é um ser espiritual de natureza angélica condenada eternamente. Não tem corpo, não existe no seu ser nenhum tipo de matéria subtil, nem nada semelhante à matéria, mas trata-se de uma existência de carácter inteiramente espiritual.

A palavra latina spiritus significa “sopro”, “hálito”. Dado que não têm corpo, os demónios não sentem a mínima inclinação para nenhum pecado que se cometa com o corpo. Portanto, a gula ou a luxúria são impossíveis neles. Podem tentar os seres humanos a pecar nessas matérias, mas só compreendem esses pecados de um modo meramente intelectual, pois não têm sentidos corporais. Os pecados dos demónios, portanto, são exclusivamente espirituais.

Os demónios não foram criados maus, mas depois de terem sido criados foram submetidos a uma prova antes de lhes ser oferecida a visão da essência da divindade, pois antes da prova viam a Deus, mas não viam a Sua essência. O próprio verbo “ver” torna-se aproximativo, já que a visão dos anjos é uma visão intelectual. Como para muitos se tornará difícil entender o facto de poderem ver/conhecerem a Sua essência, poderíamos dizer, como exemplo, que eles viam a Deus como uma luz, que o ouviam como uma voz majestosa e santa, mas que o Seu rosto continuava sem se revelar. De qualquer maneira, embora não penetrassem na Sua essência, sabiam que era o seu Criador e que era santo, o Santo entre os Santos.

Antes de penetrarem na visão beatífica dessa essência divina, Deus pô-los à prova. Nessa prova uns obedeceram, outros desobedeceram. Os que desobedeceram de forma irreversível transformaram-se em demónios. Foram eles próprios que se transformaram no que são. Ninguém os fez assim.

A psicologia dos anjos passou por uma série de fases antes de se transformarem em demónios. Estas fases deram-se deram-se, não no tempo material, mas no evo. Ao dar-se no evo, a nós, humanos, estas fases parecer-nos-ão quase instantâneas. Mas o que a nós parece tão breve foi para eles muito longo.

As fases de transformação do anjo em demónio foram as seguintes:

No princípio invadiu-os a dúvida de que talvez a desobediência à Lei divina fosse o melhor. O facto de voluntariamente aceitarem a possibilidade de que a desobediência a Deus fosse uma opção a considerar já significa um pecado em si mesmo. No princípio, a aceitação da dúvida constituiu um pecado venial que pouco a pouco foi evoluindo para um pecado mais grave. Mas no princípio nenhum deles, nesta primeira fase, estava disposto a afastar-se irreversivelmente, nem sequer o Diabo. Isso aconteceu mais tarde, quando se foi firmando neles o que a sua vontade havia escolhido apesar da advertência da sua inteligência, que lhes recordava que tal desobediência era contrária à razão. Mas as suas vontades foram-se afastando de Deus, e, como consequência, as suas inteligências foram aceitando como verdadeiro o mal que a sua vontade tinha escolhido. As suas inteligências foram-se consolidando no erro. A vontade de desobedecer foi-se cimentando, tornando-se cada vez mais profunda. E as suas inteligências iam procurando cada vez mais razões para que tudo isso se tornasse cada vez mais justificável.

Finalmente, esse processo levou ao pecado mortal, que se deu num momento concreto, através de um ato de vontade. Isto é, cada anjo chegou a um momento em que não só quis desobedecer, mas inclusivamente optou por ter uma existência à margem da Lei divina. Já não era um arrefecimento do amor a Deus, já não era uma desobediência menor a algo determinado que se lhes tornasse difícil de aceitar, antes, na vontade de muitos deles surgiu a ideia de um destino à parte da Trindade, um destino autónomo.

Os que perseveraram neste pensamento e decisão começaram um processo de justificação desta escolha. Entraram num processo em que trataram de se convencer de que Deus não era Deus. De que Deus era mais um espírito. De que podia ser o seu Criador, mas que n´Ele havia erros, arbítrios. Começavam a acariciar a possibilidade que surgira nas suas inteligências: a possibilidade de uma existência à parte de Deus e das suas normas.

A existência à parte de Deus aparecia como uma existência mais livre. As normas de Deus, a obediência a Ele e à Sua vontade, surgiam progressivamente como uma opressão. Deus começava a ser visto como um tirano do qual havia que libertar-se. Nesta nova fase de afastamento já não procuravam simplesmente um destino fora de Deus, mas o próprio Deus lhe parecia um obstáculo para alcançar a liberdade. Pensavam que a beleza e felicidade do mundo angélico teriam sido muito melhores sem um opressor. Porque é que havia um Espírito que se levantava acima dos demais espíritos? Porque é que a Sua vontade deve impor-se sobre a dos demais espíritos? Porque é que a Sua vontade deve impor-se sobre outras vontades? «Não somos crianças, não somos escravos», devem ter pensado. Deus já não era um elemento que tinham deixado para trás, antes começava a converter-se para eles no mal. E assim começaram a odiá-L´O. Os apelos de Deus dirigidos a estes anjos para que voltassem para Ele eram vistos como uma intromissão inaceitável. Nesta fase, o ódio em alguns espíritos cresceu mais, noutros menos.

Pode surpreender que um anjo chegue a odiar Deus, mas há que entender que Deus já não era visto por eles como um bem, mas como um obstáculo, como uma opressão; Ele era visto como as cadeias dos mandamentos, como a falta de liberdade. Já não era visto como um Pai, mas como fonte de ordens e mandatos. O ódio nasceu com a energia das suas vontades, resistindo continuamente aos chamamentos de Deus que, como um Pai, os procurava. O ódio nasceu como reação lógica de uma vontade que tem de firmar-se na sua decisão de abandonar a casa paterna, para o dizer em termos que se tornem inteligíveis para nós. Ou seja, alguém que sai de casa, a princípio quer simplesmente sair, mas se o pai o chama uma e outra vez, o filho acaba por dizer “deixa-me em paz”. Deus chamava-os, pois sabia que quanto mais tempo as suas vontades estivessem afastadas d´Ele, mais se consolidariam no seu afastamento. Contudo, muitos dos anjos que se tinham afastado num primeiro momento voltaram.

Esta é a grande luta nos céus de que se fala no Livro do Apocalipse, capítulo 12:

"Travou-se então uma batalha no Céu: Miguel e os seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado, e no Céu não houve mais lugar para eles. Esse grande Dragão é a antiga Serpente, é o chamado Diabo ou Satanás. É aquele que seduz todos os habitantes da terra. O Dragão foi expulso para a Terra, e os anjos do Dragão foram expulsos com ele."

Como podem os anjos lutar entre si? Se não têm corpo, que armas podem ser usadas? O anjo é espírito, o único combate que se pode travar entre eles é intelectual. As únicas armas que podem brandir são os argumentos intelectuais. Essa luta foi uma luta intelectual. Deus enviava a graça a cada anjo que voltasse à fidelidade ou se mantivesse nela. Os anjos davam argumentos aos rebeldes para que voltassem à obediência. Os anjos rebeldes apresentavam as suas razões para fundamentarem a sua postura e para introduzirem a rebelião entre os fiéis. Nesta angelical conversão de milhares de milhões de anjos, houve baixas para ambos os lados: anjos rebeldes regressaram à obediência, anjos fiéis foram convencidos com a sedução de raciocínios malignos.

A transformação em demónios foi progressiva. Com o passar do tempo – o evo é um tipo de tempo – uns odiaram mais a Deus, outros menos. Uns tornaram-se mais soberbos, outros não tanto. Cada anjo rebelde foi-se corrompendo mais e mais, cada um em pecados específicos, ao contrário dos anjos fiéis, que se foram santificando progressivamente. Uns anjos santificaram-se mais numa virtude, outros noutra. Cada anjo fixou-se num aspeto ou outro da divindade. Cada anjo amou com uma medida de amor. Por isso no grupo dos fiéis começaram a existir muitas distinções, conforme a intensidade das virtudes que cada anjo praticou.

Cada anjo tinha a sua própria natureza dada por Deus, mas cada um santificou-se numa medida própria segundo a graça de Deus e a correspondência da própria vontade. E acontece exactamente o contrário no caso dos demónios. Cada um recebeu de Deus uma natureza, mas cada um corrompeu-se segundo os seus próprios caminhos extraviados.

Por esta razão, a batalha terminou quando cada um deles se fechou em si de forma irreversível. Chegou um momento em que já só havia mudanças acidentais em cada ser espiritual. Chegou um momento em que cada demónio se manteve firme na sua imprudência, nos seus ciúmes, no seu ódio, na sua inveja, na sua soberba, na sua egolatria…

A batalha acabara. Podiam continuar a discutir, a falar, a disputar, a exortar-se durante milhares de anos, para falarmos em termos humanos, mas já só haveria mudanças acidentais.

Foi então que os anjos foram admitidos à presença divina, e aos demónios permitiu-se-lhes que se afastassem, foram abandonados à situação de prostração moral em que cada um se situara.

Como se pode observar, não se trata de os demónios serem enviados para um lugar fechado com chamas e aparelhos de tortura, mas de os deixar como estão, de os abandonar à sua liberdade, à sua vontade. Não são conduzidos a parte alguma. Os demónios não ocupam lugar, não há aonde levá-los. Não há aparelhos de tortura, nem chamas que os possam atormentar, nem cadeias que os amarrem. Tão-pouco os anjos fiéis entram em algum sítio. Simplesmente recebem a graça da visão beatífica. Tanto o Céu como o inferno dos demónios são estados. Cada anjo transporta no seu interior o seu próprio céu, esteja aonde estiver. Cada demónio esteja onde estiver, leva dentro do seu espírito o seu próprio inferno.

O momento em que não há retorno possível, é quando um anjo vê a essência de Deus. Porque depois de ver Deus já nada o poderá fazer mudar de opinião. Depois de ter visto Deus, ninguém poderá escolher algo que O ofenda no mais ínfimo que seja. A inteligência compreenderia que seria escolher estrume face a um tesouro. Depois desse momento o pecado é impossível. O anjo, antes de entrar no céu, compreendia Deus, compreendia o que era, o que supunha a Sua santidade, omnipotência, sabedoria, amor… Depois de ter sido aceite para contemplar a Sua essência, não só a compreende, como além disso a vê. Isto é, vê a Sua santidade, o Seu amor, a Sua sabedoria, etc. O espírito, ao contemplá-lo, enche-se de tal amor, de uma veneração tal, que nunca, sob nenhum conceito, quer separar-se d´Ele. Por isso o pecado passa a ser impossível.

O demónio fica irremediavlemente ligado ao que escolheu, desde que Deus decide não insistir mais. Chega um momento em que Deus decide não enviar mais graças de arrependimento, pois cada uma delas só pode ser superada, só pode ser vencida cimentando-se mais no ódio. Chega um momento em que Deus compreende que enviar mais graças só serve para que para que o demónio reforce mais aquilo que a sua vontade escolheu. Chega um momento em que Deus Amor vira as costas 2 e deixa que o Seu filho siga o caminho dele. Deixa que o demónio siga a vida dele à parte.

Por um lado poderíamos dizer que não há um momento único em que o anjo se transforma em demónio, antes trata-se de um processo lento, gradual, evolutivo. Mas, por outro lado, por longo que tenha sido esse processo prévio (e posterior), há um momento preciso em que o espírito angélico tem de tomar a decisão de rejeitar ou não o seu Criador.

Já se disse que nesse processo há lugar a retrocessos; essa é a celestial batalha de que fala Ap 12, 7-9. Mas chega um momento dessa batalha em que os demónios se afastam cada vez mais. Não teria sentido continuar a insistir. O Criador respeita a liberdade de cada um.

O demónio costuma aparecer disforme em pinturas e esculturas, de um modo muito adequado de o representar; pois é um espírito angélico deformado. Continua a ser anjo, foram só a sua inteligência e a sua vontade que se deformaram. No resto continua a ser tão anjo como quando foi criado. Definitivamente, o demónio não é mais do que um anjo que decidiu ter o seu destino longe de Deus. É um anjo que quer viver livre, sem amarras. A solidão interior em que se encontrará pelos séculos dos séculos, os ciúmes de compreender que os fiéis gozam da visão de um Ser infinito, levam-no a censurar o seu pecado uma e outra vez. Odeia-se a si mesmo, odeia Deus, odeia os que lhe deram razões para se afastar.

Mas nem todos sofrem de igual modo. Durante a batalha uns anjos deformaram-se mais do que outros. Os que mais se deformaram, os mais disformes, são os que mais sofrem. Mas é necessário voltar a recordar que só é deformidade da inteligência e da vontade.

A inteligência está deformada, obscurecida pelas próprias razões com que se justificou a sua marcha, a sua “libertação”. A vontade impôs à inteligência a sua decisão, e a inteligência viu-se impelida a justificar a referida decisão. A inteligência funcionou como um mecanismo de justificação, de argumentação daquilo que a vontade a fustigava a aceitar. Como se vê, o processo tem uma extraordinária similitude como o processo de aviltamento dos humanos. Não esqueçamos que nós, humanos, somos um espírito num corpo. Se prescindirmos dos pecados relativos ao corpo, o processo interno psicológico que leva uma pessoa boa a acabar na máfia, em guarda num campo de concentração, ou em terrorista, é em substância o mesmo processo.

Em substância, o conceito de pecado, de tentação, de evolução da própria iniquidade é igual no espírito angélico e no espírito do ser humano. Os pecados do Homem são sempre pecados do espírito, embora os cometa com o corpo, já que o corpo é tão só um instrumento do que o espírito decidiu com o seu livre arbítrio.

Assim como a criança atravessa um período de infância, assim o anjo que acaba de ser criado não tem experiência. A pessoa humana tem tentações de outras pessoas, também os anjos dos seus semelhantes. O Homem pode pecar por estruturas mentais tais como a Pátria, a honra da família ou o bem-estar de um filho. O espírito angélico também tinha atrás de si grandes construções intelectuais, que embora distintas das humanas, representavam uma complexa relação angélica de todo este mundo humano que conhecemos.

Nós, os humanos, somos também espírito, embora tenhamos um corpo e só temos de olhar para o nosso interior para compreender como alguém pode cair no pecado. Como alguém pode envilecer-se. É então que o pecado dos anjos nos começa a parecer mais próximo e já não se nos torna tão incompreensível. 

in Summa Daemoniaca - Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas (www.nadateespante.com)


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