sexta-feira, 6 de março de 2026

O corajoso testemunho de Santa Perpétua antes do martírio

Prenderam alguns jovens catecúmenos: Revocato e Felicidade, ambos escravos, Saturnino e Secundino, e com eles encontrava-se Víbia Perpétua. Esta era nobre de nascimento, tivera uma educação esmerada e fizera um bom casamento. Perpétua tinha ainda pai e mãe, dois irmãos – um dos quais catecúmeno, também – e uma criança ainda de peito. Tinha cerca de vinte e dois anos. Ela própria relatou a história completa do seu martírio. Ei-la, escrita por seu punho, com base nas suas impressões: 

«Estávamos ainda com os guardas, mas o meu pai já estava a tentar convencer-me. Na sua ternura, tudo fazia para me enfraquecer a fé. 

- Pai, disse-lhe eu, estás a ver esse vaso caído no chão, a bilha e aquela coisa ali?
- Estou, disse o meu pai.
- Podemos designá-las por outro nome que não seja o seu?, pergunto-lhe eu.
- Não, respondeu.
- Pois bem, também eu não posso ter outro nome que não seja o meu, mas apenas o meu nome verdadeiro: sou cristã.

O meu pai ficou exasperado com tais palavras, e avançou para dar cabo de mim. Limitou-se a agarrar-me e abanar-me com força e foi-se embora, com os argumentos do demónio, vencido. Durante alguns dias não voltei a ver o meu pai; dei graças a Deus por isso, essa ausência foi para mim um alívio. Foi precisamente durante esse curto lapso de tempo que fomos baptizados. O Espírito Santo inspirou-me a nada pedir à santa água a não ser força para resistir fisicamente.

Alguns dias mais tarde, fomos transferidos para a prisão de Cartago. Fiquei espantada com esta prisão: nunca me vira em trevas tais. A inquietação devorava-me, por causa do meu filho. Acalmava o meu irmão, pedindo-lhe que tomasse conta do meu filho. Sofria muito por ver a minha família sofrer por causa de mim. Durante longos dias, estas inquietações torturaram-me. Acabei por conseguir que o meu filho viesse ficar comigo na prisão. Recuperou as forças sem demora. De repente, a prisão transformou-se-me num palácio, e e eu sentia-me ali melhor do que em qualquer outro lugar.»

in Paixão das Santas Felicidade e Perpétua (início do século III), §§ 2-3

quinta-feira, 5 de março de 2026

Bispo Strickland sobre o Silêncio do Vaticano e a FSSPX

O Bispo Joseph Strickland publicou dois textos no site PillarsOfFaith.net sobre as sagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX). Frases principais:

Primeira Declaração: O Silêncio do Vaticano é uma Decisão

- A situação actual envolvendo a FSSPX revelou uma vez mais uma realidade grave e não resolvida dentro da Igreja – uma realidade que não pode ser descartada, adiada indefinidamente, ou respondida com silêncio.

- Sem novos bispos, a continuidade dessa formação sacerdotal e da vida sacramental não pode ser sustentada.

- Quando tais preocupações são apresentadas com calma, respeito e repetidamente – e são recebidas não com clareza mas com silêncio – o próprio atraso torna-se uma decisão.

- A unidade na Igreja não se preserva pela ambiguidade.

Segunda Declaração: A Continuidade Não é Rebelião

- O Arcebispo Marcel Lefebvre acreditava que elementos fundamentais da vida católica – a formação sacerdotal tradicional, a teologia sacramental clara e a antiga liturgia romana – estavam a ser postos de lado.

- É historicamente inegável que a liturgia tradicional e a formação sacerdotal foram preservadas em grande parte porque ele e outros não quiseram permitir que desaparecessem completamente.

- As tensões de 1988 não surgiram do nada.

- Surgiram de uma ampla confusão doutrinária, experimentação litúrgica e instabilidade pastoral.

- O desejo de continuidade não é rebelião; é um instinto de fé.

- A Igreja é hierárquica por instituição divina. As consagrações episcopais não são actos privados, mas expressões visíveis de comunhão com o Sucessor de Pedro. Esta estrutura não é opcional. A unidade pertence à própria natureza da Igreja.

- Contudo, a unidade não pode ser sustentada pela ambiguidade. A autoridade não é concedida apenas para governar, mas para salvaguardar o que foi transmitido.

in gloria.tv

segunda-feira, 2 de março de 2026

Março, mês de São José

Março é tradicionalmente um mês dedicado a São José, cuja festa se celebra no dia 19. Deixamos aqui uma oração escrita pelo Papa Leão XIII, que vale a pena rezar todos os dias durante este mês:

A Vós, São José, recorremos na nossa tribulação, e depois de ter implorado o auxílio de vossa Santíssima Esposa, cheios de confiança solicitamos também o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada, Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente vos suplicamos que lanceis um olhar benigno para a herança que Jesus Cristo conquistou com o Seu sangue, e nos socorras, em nossas necessidades, com o vosso auxílio e poder.

Protegei, ó guarda providente da Divina Família, a linhagem eleita de Jesus Cristo. Afastai para longe de nós, ó Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício que arruína o mundo. Assisti-nos propício do alto do Céu, ó nosso fortíssimo Protector, na luta contra o poder das trevas; e, assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, defendei a Santa Igreja de Deus contra as ciladas dos seus inimigos e contra toda a adversidade.

Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, afim de que, a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, piedosamente morrer e obter no Céu a eterna bem-aventurança. Amén

domingo, 1 de março de 2026

São Leão Magno explica-nos a Quaresma

Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito perderá vergonhosamente a sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade. De rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe a sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atractivos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o ceptro que lhe é devido. 

Nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar os seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, através de vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando os nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia das suas manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma a castigar todas as molezas, a apagar todas as negligências do passado; usam então todo o poder da sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, numa fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos e num combate de santidade. Então preparemos as nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos pela nossa salvação, mais violentamente seremos atacados pelos nossos adversários. 


Mas aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. A nossa força vem d’Aquele em quem pomos a nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força do seu socorro, o ensinamento do seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu o seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida à Sua humanidade é maior, maior também é a punição do Seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do género humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há actos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida passa-se no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. 


Eis por que Salomão, que era sábio, diz: "Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação." (Ecl. 2,1). Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar os seus golpes.

São Leão Magno, Papa - Sermão sobre a Quaresma