sábado, 27 de fevereiro de 2021

Apenas há repouso em Jesus Cristo Crucificado

Tu que descanso buscas com cuidado
neste mar do mundo tempestuoso
não esperes de achar nenhum repouso
senão em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas vives desvelado,
em Deus está o tesouro mais precioso;
se estás de fermosura desejoso,
se olhas este Senhor ficas namorado.

Se tu buscas deleites ou prazeres,
nele está o dulçor dos dulçores
que a todos nos deleita com vitória.

Se porventura glória ou honra queres,
que maior honra pode ser nem glória
que servir ao Senhor grande dos senhores?

Luiz Vaz de Camões in 'Obras de Luiz de Camões' - Vol. II


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Eu quero morrer!

P. Nuno quer morrer por eutanásia ou por suicídio assistido?
Evidentemente que não, pois isso não seria morrer, mas sim ser assassinado.
 
Tendo em conta, porém, que nesta crise pandémica parece haver um pavor generalizado da morte, quero afirmar peremptoriamente que quero morrer. Mas, confesso, que não quereria morrer de qualquer modo, mas sim com as predisposições necessárias para, pelo menos, ir para o Purgatório; e para isso conto com as vossas preciosas orações e sacrifícios.

De facto, e isto não é uma lamentação nem uma queixa, o meu apostolado sacerdotal, na prática, morreu. É certo que celebro Missa quotidiana para os doentes e enfermos (no nosso convento), mas também é verdade que alguns deles, sacerdotes, poderiam fazer o mesmo com maior proveito e fruto espiritual para todos. Actualmente, e seguramente com toda a razão, sou considerado incapaz de Celebrar, e homiliar em outras Eucaristias, de confessar, de dar assistência Espiritual ou de colaborar em qualquer outra actividade. Ninguém pense, pelas almas, que isto seja algum queixume. Não passa de uma verificação factual, dos desígnios da Providência Divina.
 
Sem pôr de modo nenhum em causa a minha Ordenação Sacerdotal nem o apostolado que exerci, com a Graça de Deus, nos primeiros anos, parece-me justo concluir que aquilo que Nosso Senhor me concedeu foi por tempo limitado e que, por isso, Lhe devo dar muitas Graças, aceitando e acolhendo com muita alegria a radical substituição por outros.
 
Finda, como estou persuadido, a minha missão só peço ao Pai Misericordiosíssimo que por Seu Filho Jesus Cristo, caso eu esteja preparado, me leve o mais depressa possível, purificando-me de todos os pecados, para Si.
 
À honra de Cristo. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira



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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

As graças do Terço

“Felizes as pessoas que rezam bem o Santo Rosário, porque Maria Santíssima lhes obterá graças na vida, graças na hora da morte e glória no Céu.”

Santo António Maria Claret


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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Dia dos Pastorinhos de Fátima

O texto que passo a citar mudou a minha vida. Trata-se da conversa que Lúcia, na presença dos seus primos Francisco e Jacinta Marto, teve com Nossa Senhora na primeira aparição em Fátima:
– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
– De onde é vossemecê? perguntei.
– Sou do Céu.
– E o que é que Vossemecê me quer?
– Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.
– E eu também vou para o Céu? – Sim, vais.
– E a Jacinta? – Também.
– E o Francisco? – Também, mas tem que rezar muitos Terços.

(Pausa para fazer uma pergunta: Se o Francisco teve que rezar muitos Terços para ir para o Céu o que terei eu que fazer???)

– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ide pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
Nossa Senhora ainda acrescentou: Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

João Silveira


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Cardeal Sarah deixa a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos

O Cardeal Robert Sarah, até agora Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, vai deixar esse dicastério por decisão do Papa Francisco.

É costume que quem exerce cargos na Cúria Romana apresente a renúncia ao Papa quando celebra o 75º aniversário, como acontece com os Bispos Diocesanos (Cân. 401). O Cardeal Sarah assim fez no dia 15 de Junho de 2020. O Papa Francisco não aceitou imediatamente a renúncia, mas fê-lo agora.

O Cardeal Sarah, natural da Guiné-Conacri, é considerado um dos mais "conservadores" do Colégio Cardinalício. Em 2016, como Prefeito da Congregação para o Culto Divino, fez 5 recomendações aos sacerdotes:

1 - Missas ad orientem a partir do Advento desse ano
2 - Maior uso do latim
3 - Ajoelhar para a Comunhão
4 - O silêncio dentro da Liturgia
5 - Música na Sagrada Liturgia

Infelizmente, a grande maioria dos sacerdotes não quis saber dessas boas recomendações. E estas causaram um certo mal-estar no Vaticano.

Em 2019, imediatamente antes do Sínodo da Amazónia - no qual estaria em causa o celibato sacerdotal - o Cardeal Sarah lançou um livro escrito conjuntamente com o Papa Bento XVI a defender o celibato sacerdotal. Mais uma vez, a questão criou alguma celeuma dentro da Cúria e não só.

O Cardeal Sarah é autor de best-sellers como "Deus ou nada" ou "A força do silêncio: contra a ditadura do barulho".


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Penitência, Jejum e Abstinência na Igreja: em 1962 e agora




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Arrependimento e Reparação

Sem uma intervenção de Deus, sem a Sua Graça, somos incapazes de nos arrepender, quando o fazemos é sempre uma resposta a esse maravilhoso e gratuito Dom que Ele nos concede. Esta é uma das razões que nos deve levar a evitar a todo o custo qualquer tipo de pecado, principalmente o grave, mas também o leve ou venial, posto que, como diz a Sagrada Escritura. “quem descuida as pequenas coisas cai insensivelmente nas grandes”. 


De facto, podemos tornar-nos insensíveis à Graça do arrependimento verdadeiro. E não sabemos até quando Deus na Sua infinita Misericórdia e Justiça suportará a nossa dureza de Coração. Estas e outras coisas que a seguir se dirão foram durante séculos objecto de pregação, ensino e meditação. Nos tempos que correm acha-se que a Salvação está no papo e que Deus é um avozinho ternurento incapaz de castigar. Mas esse não é o Deus Bíblico.

 

O arrependimento, a conversão, não consiste somente na dor de ter ofendido a Majestade Divina, mas requer uma mudança de vida disposta a reparar o mal feito (pensamentos, palavras e obras) ou o bem por fazer (omissões). Reparação a Deus, pela falta de correspondência ao Seu Amor, e reparação ao(s) próximo(s). A Deus repara-se pela confissão e Comunhão/adoração Eucarística, e demais orações. Mas em relação ao próximo, exceptuando, casos de impossibilidade, as orações, evidentemente, não bastam.

 

Se eu roubo dinheiro ou preciosidades a outrem, podem dar-me todas as absolvições, que se eu, podendo (e sem necessidade de me denunciar), não restituir o que furtei não sou perdoado. Nem o poder do Vigário de Cristo, como ensina o P. António Vieira, me poderá dispensar da restituição.

 

Do mesmo modo, quem comete actos carnais de impureza com outrem ou o/a tenta nessa mesma matéria, terá de pedir perdão e fazer tudo ao seu alcance para os persuadir à Pureza. A oração e o jejum rigoroso muito podem ajudar nesta purificação e reparação.

 

Alguns dos pecados, às vezes veniais e frequentemente graves, mais cometidos, nos dias de hoje, com uma leviandade assustadora, são os pecados da língua. A intriga, a murmuração, a maledicência, a inconfidencialidade, a insinuação, a difamação, a calúnia, reinam soberanas e impunes. Alguém, nos tempos que correm, ainda se confessará destes pecados? E, no entanto, os seus efeitos são devastadores.

 

Aqui lembro tão só alguns princípios gerais, deixando para outro texto um aprofundamento.

 

1. As conversas privadas são exclusivamente de âmbito privado. Delas não se pode fazer uso com outros.

2. Toda e qualquer pessoa tem direito à honra, ao bom nome e à boa fama.

3. Quem revela um pecado grave oculto (que não é público) comete um pecado grave.

4. Há circunstâncias em que se pode ou mesmo deve declarar algo sobre outrem, a saber, a quem, pelo cargo que exerce, pode e deve ajudar a resolver a situação, ou quando se dá um crime que exige intervenção imediata, ou em caso de aconselhamento espiritual, ou numa necessidade de desabafo urgente, com pessoa que saiba guardar sigilo.

5. A difamação e a calúnia são infames.

6. A intriga e a murmuração são péssimas.

7. O segredo da Confissão é absolutamente inviolável.

8. O que é dito em direcção espiritual é de si mesmo sigilosa, não admitindo comentários nem revelações.

 

Poderia continuar, mas não me quero alongar. Chamo somente a atenção para a necessidade imprescritível de reparação. Por exemplo, repondo o bom nome das pessoas, etc.

 

À honra de Cristo. Ámen.


Padre Nuno Serras Pereira



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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Por que razão Sócrates odiava a Democracia?



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Apelo aos Bispos de Portugal pelo reinício das celebrações públicas

Naturalmente, o primeiro apelo que se pode fazer é o apelo à oração contínua e generosa por parte dos Católicos que, de modo absolutamente legítimo, anseiam pela reabertura das igrejas encerradas, pelo reinício das celebrações públicas e pela administração dos Santos Sacramentos. Por outro lado, urge tomar uma acção concreta, sugerindo-se, assim, que o presente apelo seja enviado, por e-mail, para a Conferência Episcopal Portuguesa e para os respectivos Bispos diocesanos e Párocos.
15 de Fevereiro de 2021
95.º aniversário da aparição do Menino Jesus à Ir. Lúcia

Ex.mo e Rev.mo Sr. Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa,
Eminências e Excelências Reverendíssimas,

Com os olhos postos em Pontevedra, local bendito em que, há pouco menos de um século, o Menino Jesus apareceu à Ir. Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, saudosa vidente de Fátima, para reforçar a necessidade da propagação da devoção dos Cinco Primeiros Sábados, com o fim de desagravar o tão ofendido Imaculado Coração de Maria, que é o próprio Coração da Santa Madre Igreja, da qual somos membros na qualidade de militantes, dirigimos este filial apelo a Vossas Eminências e Excelências Reverendíssimas.          

Portugal e o mundo estão imersos, há um ano, no caos. Mediaticamente falando, por causa do coronavírus, que tanta distância tem criado, tantas relações tem dificultado, tantos medos, muitas vezes infundados, nos tem incutido e, até mesmo, afastado do centro das nossas vidas: Deus Nosso Senhor! A cada dia, acentua-se sempre mais o antropocentrismo que caracteriza as sociedades contemporâneas: o Homem é o centro do cosmos. Querem que nos tornemos “homens vitruvianos”, deixando de parte o fim para que fomos criados, isto é, dar glória a Deus por tudo aquilo que d’Ele recebemos e em tudo aquilo que nos é permitido operar!  

Precisamente há um mês, a 15 de Janeiro, iniciou-se o “novo confinamento”. Dois dias antes, o Governo socialista, o mesmo que se regozija com a aprovação da lei da eutanásia, para espanto comum, não instituiu qualquer limitação à liberdade de circulação para os cidadãos que pretendessem ir à igreja, tanto para a oração pessoal como para a celebração da Santa Missa. Imediatamente no dia sucessivo, a Conferência Episcopal Portuguesa abalou o mais íntimo dos fiéis com um comunicado a anunciar a suspensão ou o adiamento, «para momento mais oportuno, quando a situação sanitária o permitir», dos Baptismos, dos Crismas e dos Matrimónios. Uma semana depois, a 21 de Janeiro, uma nova nota da Conferência Episcopal «determina a suspensão da celebração “pública” da Eucaristia a partir de 23 de janeiro de 2021», excepção feita para as Dioceses de Angra e do Funchal.  Por tudo isto, para além do caos psicológico, político, económico e social, estamos a passar por uma catastrófica orfandade espiritual generalizada. Num momento em que precisamos, mais do que nunca, da solicitude dos nossos Pastores e da intensificação da oração, tanto pessoal quanto comunitária, somos privados da Santa Missa, fecham-se as portas aos Baptismos e, deste modo, à salvação de tantas almas, tal como aos Matrimónios, potenciando as ocasiões de pecado mortal. Instalou-se um caos espiritual, que queremos combater com todas as forças disponíveis, nomeadamente com a arma da oração, a mesma que, no início do turbulento século XX, animou os Pastorinhos de Fátima, que se entregaram até ao último suspiro. Não nos acomodamos diante do coma induzido em que se encontra a Igreja em Portugal!       

Assistindo-se à suspensão das celebrações e, em muitos casos, ao encerramento das igrejas, está-se a boicotar uma oportunidade privilegiada de conversão a tantas almas, considerando que o acesso aos Sacramentos é praticamente inexistente. Não podemos receber a Comunhão, os nossos filhos não podem receber o Baptismo, muitos de nós não podemos celebrar o Matrimónio, os nossos doentes, muitas vezes, morrem sozinhos e sem a absolvição sacramental. Enfim, assiste-se a tudo menos a um apelo à penitência, à conversão e à mudança de vida.

Eminências e Excelências Reverendíssimas, e se os hospitais decidissem encerrar? Se tanto elogiamos, e com justiça, a abnegação dos profissionais de saúde, porquê que, pelo contrário, temos de assistir à passividade de tantos “médicos das almas”? Será o corpo mais importante do que a alma? Esta é uma situação sem precedentes, nunca na história da Igreja Católica se assistiu a um abandono das almas por parte do clero. Se nesta situação, incomparavelmente menos grave do que epidemias passadas, acontece algo assim, o que poderá acontecer, no futuro, em situações análogas ou mais violentas? «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Estarão estas palavras, proferidas pelo nosso Salvador, desactualizadas?                   

Não se iludam, Eminências e Excelências Reverendíssimas, tal conduta não beneficia em nada a saúde das almas, a principal causa da vossa vocação e do vosso ministério ordenado. Pode, isso sim, agradar ao mundo hodierno, mas nunca ao Criador! Afinal, somos criaturas, mas tendemos a comportar-nos como criadores.    

Aproximando-se a quarta-feira de Cinzas e o tempo penitencial da Quaresma, que nos conduzirá à Páscoa gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, apelamos a Vossas Eminências e Excelências Reverendíssimas que as igrejas sejam reabertas, que sejam retomadas as celebrações públicas e sejam administrados os Sacramentos, nomeadamente os do Baptismo, da Eucaristia, da Confissão, do Matrimónio e da Unção dos Enfermos. Assim agindo, não se aplicarão a nós as palavras que, em Pontevedra, o Divino Infante disse, a respeito dos Cinco Primeiros Sábados, à Ir. Lúcia: «É verdade, minha filha, que muitas almas os começam, mas poucas os acabam». E tantas são almas que inúmeras acções começam, mas muito poucas as que as terminam!     

Assegurando a nossa filial oração, é este o apelo que fazemos a todos e a cada um de vós, Pastores da Igreja Católica, na certeza de que «as portas do Abismo nada poderão contra ela» (Mt 16, 18).



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domingo, 14 de fevereiro de 2021

Santa Verónica Giuliani, uma das maiores místicas de sempre

Dela disse o Papa Leão XIII: "A nenhuma criatura humana, com excepção da Mãe de Deus, foram concedidos tantos dons sobrenaturais". Grande mística, participou dos sofrimentos de Nosso Senhor na Paixão, tendo os cinco estigmas de Cristo sido impressos no seu corpo.

Modelo de obediência e humildade

O noviciado da Irmã Verónica foi muito difícil devido aos esforços do demónio para desencorajá-la. As paredes do convento pareciam-lhe muito austeras, do mesmo modo que os rostos das freiras. Nenhuma delas atraía a sua simpatia. Mas ela venceu todas essas repugnâncias.

Em quase todos os conventos, a noviça era designada para os afazeres mais modestos, a fim de praticar as virtudes da obediência e da humildade. Assim aconteceu com Verónica. Foi sucessivamente faxineira, cozinheira, enfermeira, porteira e sacristã, trabalhando sempre com espírito sobrenatural e unida à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. De tal maneira conquistou as outras religiosas, que foi depois escolhida para a delicada função de Mestra de Noviças. Durante os 22 anos em que exerceu esse cargo, Verónica formou muitas religiosas que chegaram a altos graus de perfeição. Foi então escolhida como Abadessa, cargo que exerceu durante os últimos 11 anos de sua vida.

Às voltas com o Santo Ofício

"Parecia que o Senhor plantava a Sua cruz no meu coração e que assim me fazia compreender o preço dos sofrimentos". Desde o tempo do noviciado, a união de Verónica à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo crescia a cada dia. De tal modo começou a participar da Paixão, que a si mesma chamava “Filha da Cruz”. Ela descreve a experiência mística que teve nesse tempo: “Pareceu-me ver Nosso Senhor que levava a Cruz sobre os ombros, e me convidava a partilhar com Ele essa carga preciosa. Experimentei ardente desejo de sofrer, e parecia que o Senhor plantava a Sua cruz no meu coração e que assim me fazia compreender o preço dos sofrimentos.”

Tais sofrimentos foram terríveis. Dolorosas e intermináveis enfermidades, tentações violentas, aridezes e desolações interiores. Santa Verónica afirmou então que a cruz e os instrumentos da Paixão foram impressos de maneira sensível no seu coração. E desenhou num cartão em forma de coração o lugar em que estava cada um. Quando, depois da sua morte - na presença do Bispo, do governador da cidade, de professores de medicina e de sete outras testemunhas dignas de fé - abriram o seu coração, constatou-se com estupor que nele estavam desenhados os símbolos da Paixão tal e qual ela havia descrito.

Um dia, Verónica pediu a Nosso Senhor para participar da sua coroa de espinhos. O Divino Mestre colocou a coroa na sua cabeça. Verónica experimentou uma tão inaudita dor, como jamais tinha sentido. E essa coroa permaneceu na sua cabeça até o fim de sua vida. Ao intervirem, os médicos aumentaram ainda mais os seus padecimentos, aplicando um bastão de fogo na sua cabeça e furando-lhe a pele do pescoço com uma agulha incandescida. Nada conseguindo, foram obrigados a reconhecer que aquela “enfermidade” lhes era desconhecida.

Verônica recebeu também os estigmas, os quais eram visíveis às outras irmãs. O seu confessor ficou assustado. Tantos fenómenos místicos deixaram-no desnorteado. Foi falar com o Bispo. Este consultou então o Santo Ofício, que o encarregou de pôr à prova a obediência, a humildade e a resignação de Verónica, pois estas constituem a base de toda santidade.

Começaram por destituí-la do cargo de Mestra de Noviças. Ela foi também separada da comunidade e encerrada num quarto da enfermaria com a proibição de ir ao coro, excepto nos dias de preceito para ouvir Missa. Não podia ir ao locutório nem escrever cartas, a não ser para as suas irmãs também religiosas. Pior ainda, foi designada uma irmã conversa para dirigi-la, com ordem de tratá-la com toda severidade. E o que mais a fez sofrer: proibiram-na de receber a Sagrada Comunhão.

Pode-se dizer que no caso de Verónica Giuliani todas as precauções inspiradas pela prudência humana para bem conhecer a verdade foram então empregadas pelo bispo de Città di Castello orientado pelo Santo Ofício.

Depois de um período de prova, o Bispo, Mons. Lucas Antonio Eustachi, escreveu ao Santo Ofício uma carta no dia 26 de Setembro de 1697: “A Irmã Verónica pratica ainda uma exacta obediência, profunda humildade e abstinência surpreendente, sem dar o menor sinal de tristeza. Pelo contrário, aparece com uma paz e uma tranquilidade inalteráveis. É objecto da admiração das suas companheiras, as quais, incapazes de ocultar a grata impressão que lhes produz, falam disso a outras pessoas. Apesar de eu impor penitência às que mais falam, para que não alimentem a curiosidade do povo, que nas suas conversações não tratam de outra coisa, custa-me grande trabalho lograr uma moderação.”

Mística dotada de muito senso prático

Santa Verónica tinha uma caridade ardorosa pela conversão dos pecadores e libertação das almas do purgatório. Foi-lhe revelado que, por causa das suas penitências e orações, converteu ao bom caminho inúmeros pecadores e libertou muitas almas das chamas do Purgatório, as quais lhe apareciam para agradecer por essa caridade.

Tendo passado por todas essas provas, Santa Verónica foi eleita Abadessa do mosteiro em 1716, começando então uma época de grande prosperidade. Pois, apesar de acentuadamente mística e espiritual, Santa Verónica possuía um senso prático muito desenvolvido, a exemplo de outra grande mística, Santa Teresa de Ávila. Mandou fazer todo um sistema de encanamentos para que o convento tivesse água própria, construiu um grande dormitório e uma capela interior, e procurou para a comunidade todas as comodidades compatíveis com o espírito da sua Regra.

Plinio Maria Solimeo in catolicismo.com.br


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A Primeira Comunhão da Irmã Lúcia

16 anos depois da morte da Irmã Lúcia, a 13 de Fevereiro de 2005, vamos conhecer um pouco mais da vida dessa pastorinha de Fátima. Vamos hoje conhecer melhor como foi vivida, por ela e pela sua família, o dia da sua primeira Comunhão. 

Dizia a Ir.ª Lúcia que uma das suas características mais marcante na sua infância era a curiosidade. Não podia ficar na dúvida ou sem ver esclarecidas as suas questões. A sua mãe era a catequista da aldeia; não guardava as dúvidas para si e quando a mãe, na catequese não as esclarecia, à hora de jantar bombardeava o seu pai com todas as suas perguntas até ficar esclarecida. E o seu pai com toda a calma procurava responder-lhe e confirmar o que a mãe já havia dito.

Foi neste ambiente que a pastorinha de Fátima chegou ao dia da sua primeira Comunhão. Como era costume do prior da aldeia, só recebia a Comunhão quem já tivesse 7 anos, facto que desgostou Lúcia, porque ainda só tinha 6. Como tivesse vindo um padre de fora para ajudar o prior na festa, e vendo-a tão chorosa perguntou-lhe o que se passava, ao que ela lhe respondeu. Chamou-a e fez-lhe o pequeno exame que era costume fazer e percebeu que era uma criança preparada e consciente para a situação. Perante o facto fala com o prior e assume a responsabilidade relativamente à pequena Lúcia, a qual se enche de alegria e entusiasmo. 

Nessa tarde de sábado vai fazer a sua primeira confissão preparada pela mãe. Confessa-se a este padre de fora. Conta a Ir.ª Lúcia este relato com alguma piada; eis apenas o que lhe diz a sua mãe no final da sua confissão: "-Minha filha, não sabes que a confissão se faz baixinho, que é um segredo? Toda a gente te ouviu! Só no fim disseste uma coisa que ninguém soube o que foi". 

Este é um pequeno relato da candura e inocência vivida por esta criança simples e humilde. Conta um pouco mais à frente, o que lhe disse o padre no final da confissão: "-Minha filha, a sua alma é um templo do Espírito Santo. Guarde-a para sempre pura, para que Ele possa continuar nela a Sua acção divina". estas foram palavras que caíram fundo no seu coração e sempre procurou ser-lhe fiel ao longo da sua vida. A noite que antecedia o grande dia foi passada em vigília, sem conseguir dormir pelo entusiasmo e a prepararem-lhe o vestido branco; nesta noite, diz, fez a sua primeira consagração a Maria. A missa da sua comunhão é assim relatada pela própria pastorinha: 

"Começou a missa cantada e à maneira que o momento se aproximava, o coração batia mais apressado, na expectativa da visita de um grande Deus que ia descer do Céu para se unir à minha pobre alma. O Senhor Prior desceu por entre as filas a distribuir o Pão dos Anjos. Tive a sorte de ser a primeira. Quando o Sacerdote descia os degraus do altar, o coração parecia querer sair-me do peito. Mas logo que pousou em meus lábios a Hóstia Divina, senti uma serenidade e uma paz inalterável; senti que me invadia uma atmosfera tão sobrenatural, que a presença do nosso bom Deus se me tornava tao sensível, como se O visse e ouvisse com os sentidos corporais. Dirigi-Lhe então as minhas súplicas: 

- Senhor, fazei-me uma santa, guardai o meu coração sempre puro, para Ti só". 

Como vemos, o dia da sua primeira Comunhão foi extremamente marcante para a sua vida. Neste dia começa-se a definir muito daquela que seria futuramente uma das pastorinhas e videntes de Fátima. É a própria Lúcia que o afirma e que diz: uma primeira Comunhão bem preparada e vivida marca para o resto da vida. Para concluir diz-nos ela, em primeira pessoa, que neste dia, começa a desenhar-se nela um movimento de entrega a Maria e à vontade do Senhor. O resto da história vamos conhecendo aos poucos; ou, pelo menos, julgamos nós. 

in obichodasenda.blogspot.pt


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sábado, 13 de fevereiro de 2021

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Tenente-Coronel Marcelino da Mata: um herói português

Morreu o Tenente-Coronel Marcelino da Mata, Comando da Província Ultramarina da Guiné, herói da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito (1969) e o militar mais condecorado das Forças Armadas Portuguesas com Medalha de Cruz de Guerra de 2.ª classe (1966), Medalha de Cruz de Guerra de 1.ª classe (1967), duas Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª classe (1971 e 1973) e outra Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª classe (1973). 

Depois da Guerra do Ultramar, o Tenente-Coronel Marcelino da Mata foi preso injustamente e torturado pelos que se auto-proclamavam pela liberdade e democracia. O mais bravo militar da História recente de Portugal viveu o resto da vida com uma reforma miserável e foi votado ao esquecimento.

Dai-lhe Senhor o eterno descanso. Entre os esplendores da luz perpétua.
Que a sua alma descanse em Paz. Amem.

Fica aqui o relato da prisão e tortura do Tenente-Coronel Marcelino da Mata, escrito pelo próprio:

No dia 17/5/75, quando me encontrava em Queluz Ocidental, ouvi pela rádio ser comunicado que me encontrava preso, no RALIS. Perante tal absurdo, dirigi-me ao Regimento de Comandos na Amadora, Unidade onde estava colocado, e falei com o Oficial de Serviço, capitão Ribeiro da Fonseca, ao qual contei o que acabara de ouvir e pedi que esclarecesse a situação.

O capitão Ribeiro da Fonseca, na minha presença, telefonou para o RALIS e falou com o tenente Coronel Leal de Almeida, tendo o mesmo respondido que me deviam levar imediatamente escoltado para esta Unidade. Telefonou ainda o capitão Fonseca para o COPCON falando directamente com o brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho, o qual confirmou que me devia entregar ao RALIS pois estavam concentradas todas as operações nesta Unidade. Foi assim que escoltado por tenente-comando e duas praças fui levado para o RALIS. Uma vez chegado à Unidade referida e enquanto o tenente que me escoltava se dirigia ao oficial de serviço, aproximou-se de mim um furriel armado que me disse ter ordens para me levar para a casa da guarda e manter-me aí incomunicável. Apareceu entretanto um aspirante que me levou para uma sala do edifício do Comando onde permaneci sozinho até às 24.00.

Apareceu depois das 24.00 um indivíduo alto, forte e de cabelo e barba compridos que, intitulando-se segundo comandante do RALIS, mas que depois vim a saber que se tratava de um militante do MRPP conhecido por "RIBEIRO", me estendeu um papel para aí eu escrever tudo o que sabia sobre o ELP.

Mais tarde apareceu um aspirante e um furriel chamado DUARTE e o capitão QUINHONES que tornaram a fazer a mesma pergunta. Uma vez que jamais tinha ligação com o ELP ou qualquer organização outra, respondi-lhe negativamente. Entrou então o capitão QUINHONES MAGALHÃES, disse-me que me ia fazer o mesmo que se fazia na Guiné aos "turras" quando não queriam falar e puxou do seu cinturão no que foi secundado pelo furriel Duarte. Saíu o capitão QUINHONES e regressou acompanhado de outro indivíduo, baixo e forte, que também vim a saber ser do MRPP e conhecido por "JORGE", e mais outro furriel, aos quais o capitão QUINHONES ordenou que me fossem batendo à bruta até que eu confessasse. Apareceu então o tenente coronel LEAL DE ALMEIDA que me disse que os pretos só falavam quando levavam porrada e eram torturados e que não tinha outra solução senão ordenar que me fizessem isso.

Ordenou o capitão QUINHONES que me encostassem à parede e despisse a camisa, o que tive de fazer. Após isto, fui agredido sete vezes com uma cadeira de ferro nas costas o que me provocou vários ferimentos. Não resistindo caí, mas o capitão QUINHONES disse que me pusesse de joelhos e um outro indivíduo que entrou, intitulando-se oficial de marinha agrediu-me mais duas vezes com a cadeira. Após isto o capitão QUINHONES e furriel DUARTE, um de cada lado, agrediram-me com o cinturão por todo o corpo, e eu, que já sentia dores na coluna, senti dores nas costelas e caí novamente no chão.

O capitão QUINHONES ria-se e dizia que o tenente-coronel LEAL DE ALMEIDA queria que eu falasse nem que eu ficasse todo partido e que ele ia mesmo fazer-me falar.

Passados uns momentos, quando me encontrava novamente sentado, e como fizesse tenção de reagir às agressões, algemaram-me e perguntaram-me se eu conhecia uns indivíduos, os quais haviam entrado mais ou menos quando me começaram a agredir com a cadeira de ferro. Como eu dissesse que conhecia alguns deles e outros não foram-me dizendo os nomes apontando para eles e enunciaram um COELHO DA SILVA, um Doutor MAURÍCIO, que não conhecia, e o JOÃO VAZ, ALVARENGA AUGUSTO FERNANDES (BATICAN) e o ARTUR, todos africanos, os quais já conhecia da Guiné. Então o capitão QUINHONES ordenou ao tal "JORGE" que pegasse num fio eléctrico e me torturasse, tendo-me este dado choques nos ouvidos, sexo e no nariz. Pela terceira vez que me fizeram isto desmaiei, pois não aguentei.

Quando recuperei tornaram, o capitão QUINHONES e o furriel DUARTE, a agredir-me com os cinturões e a cadeira de ferro, sentindo eu nessa altura que devia estar com fractura da coluna e costelas e tinha vários ferimentos grandes em todo o corpo. Mais uma vez não aguentei e desmaiei.

Ao recuperar os sentidos encontrava-me todo molhado e ensanguentado, não tinha movimentos nas pernas e quase não podia respirar além de fortes dores por todo o corpo.

Por volta das 6h do dia 18 trouxeram para junto de mim e dos outros indivíduos que estavam ali presos e já mencionados, o FERNANDO FIGUEIREDO ROSA, também da Guiné, ao qual agrediram com a cadeira de ferro e arrastaram para fora da sala. Entretanto entrou também uma senhora que dizia ser mulher do COELHO DA SILVA à qual o furriel apalpou as nádegas e seios e outras partes do corpo, frente ao marido. Fui algemado, logo a seguir à entrada da senhora, e conduzido à prisão onde um furriel encheu com água, até ao nível dos tornozelos a cela.

Por volta das 23.00 fui retirado da prisão e vi o tenente fuzileiro CORTE REAL e o ex-tenente fuzileiro FALCÃO LUCAS cá fora, os quais ao ver o meu estado me disseram que a eles também lhes tinham dado um "bom tratamento" mas não tanto como o meu. Fui metido, a seguir, numa Chaimite e levado para Caxias onde cheguei já pelas 01.00 ou 02.00 do dia 19/5/75. Chegado a Caxias o capitão tenente XAVIER, e o qual conhecia da Guiné, tratou-me com termos ordinários e obscenos e mandou-me levar para uma cela, apesar de ver o estado em que me encontrava e de me ter queixado e afirmado que necessitava ser assistido clinicamente. Só no dia 21/5/75 e depois de muito insistir com pedidos ao oficial de serviço, aspirante de Marinha, FERNANDES, fui levado à enfermaria de Caxias onde me fizeram os primeiros tratamentos, mas quando era necessário ser radiografado faziam-no sempre às zonas do corpo que não eram aquelas de que me queixava.

Permaneci 150 dias em Caxias e só quando fui libertado e colocado com residência fixa consegui ser tratado convenientemente e soube ter tido fractura de duas costelas e da coluna.

Lisboa, 24 de Janeiro de 1976

MARCELINO DA MATA
ALF. COMANDO


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Uma testemunha conta como foi a renúncia do Papa Bento XVI

Há oito anos, Bento XVI tornou-se o primeiro Papa a renunciar nos últimos 600 anos. Aqui está o relato comovente do Arcebispo Leo Cushley sobre o que se passou nesse dia.

11 de Fevereiro é feriado no Vaticano. É o dia em que a Santa Sé celebra o acordo de 1929 da tão conhecida "Questão Romana", a resolução dos 59 anos de disputa entre o Reino de Itália e a Santa Sé, depois da queda de Roma em 1870 para as tropas do Reinado e o fim efectivo dos antigos Estados Papais na Itália central. Por acaso, foi também o dia em que Bento XVI decidiu resignar há um ano atrás. 

A data tinha sido marcada para um pequeno consistório, consistindo numa oração da hora intermédia e o anúncio do Cardeal Angelo Amato de alguns beatos que seriam promovidos a santos. Também já haviam uns suaves e pequenos rumores na Cúria Romana sobre o Santo Padre anunciar uma ou duas mudanças importantes na altura, talvez em relação ao topo da administração, mas este tipo de rumores circulam como gaivotas à volta do Belvedere do Vaticano: andam frequentemente por aí, fazem algum ruído e depois desaparecem outra vez. Por outras palavras, tal como na maior parte dos sítios, nada acontece até acontecer.

Não havia nenhuma indicação de que este dia iria ser diferente. Também era feriado e, apesar de o resto da Cúria estar a desfrutar de um descanso, as poucas pessoas à volta da pessoa do Santo Padre, incluindo eu próprio, estavam de serviço na Sala del Concistoro do Palácio Apostólico para o receber quando ele fosse rezar com os cardeais presentes em Roma e para estar na curta cerimónia.

Como Prelado da Antecâmara, uma espécie de auxiliar de campo, que ajuda os principais convidados do Santo Padre e que assegura que tudo corre de acordo com o previsto quando as pessoas importantes aparecem, cruzei-me com o Santo Padre antes de a cerimónia começar. Como sempre, ele desceu dos seus apartamentos por um elevador privado com o Arcebispo Georg Gänswein e o Msgr. Alfred Xuereb, os seus dois secretários. Parecia bem, mas cansado, e cumprimentou-nos de forma normal.

Como este era um dia de alguma solenidade, o Mestre de Cerimónias estava presente. O Arcebispo Guido Pozzo, na altura Esmoleiro, também lá estava. Quando o Santo Padre ficou pronto para a Liturgia das Horas, todos o seguimos para a Sala del Concistoro para rezar com os cardeais que lá estavam à espera.

Rezámos a hora intermédia da memória de Nossa Senhora de Lourdes (11 de Fevereiro) e depois o Cardeal Angelo Amato fez o seu anúncio relativamente aos que iam ser promovidos aos altares. Até aqui tudo bem.

O Santo Padre tomou então a sua vez de discursar. Era a primeira vez que eu me sentava num consistório, por isso não fazia ideia se isto era normal ou não. Ele falou em Latim, ia ser por isso necessário um esforço maior que o normal para todos nós - sendo o italiano a língua normal da Cúria - portanto era evidente uma certa tensão enquanto tentávamos perceber por onde é que ele estava a ir.

Dentro de segundos tornou-se claro o que se estava a passar. Este não era nenhum discurso normal. Não falou sobre o consistório e os quase-santos, de algumas mudanças na administração ou do aniversário dos tratados lateranenses ou do fim da disputa histórica com Itália. Em vez disso, ele fez história.

O meu estômago virou-se do avesso quando percebi que aqui diante de nós estava uma coisa que não se via há séculos: a resignação voluntária do Romano Pontífice.

Parecia que, em câmara lenta mesmo diante de mim, um cameraman assistente da televisão levou a sua mão à boca num gesto de espanto tipo desenho-animado, o monsenhor sentado ao meu lado começou a soluçar devagar, os ombros do Arcebispo Gänswein pareceram cair. Os cardeais inclinaram-se para a frente para ter a certeza de que tinham percebido exactamente o que estava a ser dito e eu apercebi-me que me estava a certificar se que a minha boca não estava totalmente aberta. Depois fez-se silêncio.

Após uma pausa, o decano do Colégio de Cardeais, o Cardeal Angelo Sodano, levantou-se e começou a falar. Não me lembro precisamente do que ele disse, mas foi breve, calmo e adequado. Estava claro que ele tinha sido informado antes e tinha preparado algumas palavras.

Pelo contrário, as caras dos cardeais mostravam que não tinham tido nenhum aviso do que se ia passar naquela manhã.

Depois do Cardeal Sodano saudar o Papa, nós seguimos o Santo Padre de volta ao hall. O coro tentou cantar uma espécie de canção de saída, mas tudo parecia fora de sítio agora. Eu olhei em volta para ver os cardeais a juntar-se num pequeno círculo, no sítio onde os tínhamos deixado. Olhavam uns para os outros num silêncio estupefacto.

O Papa tinha anunciado que ia largar o cargo daqui a cerca de três semanas, mas já parecia que era o fim. Nós seguimo-lo até ao elevador que sobe até ao apartamento privado. Normalmente, isto passa-se numa dignidade serena. As nossas comuns palavras de despedida - "Até amanhã, Santo Padre", "Tenha um bom almoço, Santo Padre" ou "Boa festa!" - simplesmente não se materializaram, não me lembro de ser capaz de lhe dizer o que quer que seja. Apertámos a sua mão em silêncio ou dissemos algo inaudível. Enquanto lhe apertava a mão achei que ele parecia muito velho e muito pálido. E depois tinha-se ido embora. Virei-me para o leigo que liderava o grupo, apertei-lhe a mão e disse: "Ora, cosa facciamo?" ("O que é que fazemos agora?"). Ele não me deu resposta.

Desde aquele dia até 28 de Fevereiro, o último dia do pontificado, o calendário do Papa Bento simplesmente ganhou mais e mais velocidade. Parecia que todas as pessoas queriam vir e dizer-lhe adeus. Reuniões extra foram marcadas, mesmo nas noites, para que ele pudesse ver toda a gente que queria vir. Mas até isso parecia quase como que uma morte anunciada.

No penúltimo dia do pontificado, houve a última audiência geral do Papa na Praça de S. Pedro. Eis outra coisa que eu nunca tinha visto antes e uma das mais comoventes que alguma vez testemunhei. Em vez da multidão normal de peregrinos, turistas curiosos e visitantes, aqui estava toda a Roma Católica na praça, tinham vindo para se despedir do Papa. No meu trabalho desse dia, estava sentado por trás do Santo Padre e tinha a mesma vista que ele sobre a Praça. Era um dia frio, luminoso e bonito. A audiência começou normal o suficiente dadas as circunstâncias. O Santo Padre fez-nos o seu discurso de despedida e todos ouvimos.

De repente, apercebi-me que, em vez dos movimentos normais da multidão - com canções a distrair, bandeiras a mexer e uma onda de festa - vi cada uma das caras até à outra ponta da Praça de S. Pedro virar-se atentamente para o Papa Bento. Aqui estava um enorme grupo de pessoas - pelo menos 100 mil - a ouvir cada uma das coisas que o Papa dizia com a maior das atenções.

Ouviam com cuidado, aplaudiam cada conjunto de frases e tentavam (com sucesso, penso) comunicar algo que um Papa nunca viu na sua vida: uma mensagem de enorme gratidão e de despedida afectuosa. Isto é uma coisa que os pontífices só recebem quando é tarde demais, quando já se foram embora, quando estão a ser elogiados.

Dado o fantástico e abnegado serviço que este cavalheiro da Baviera deu à Igreja, sempre me pareceu que ele mereceu ver e sentir um pouco a enorme gratidão de imensas pessoas pelo mundo fora por ter tomado a grande cruz de liderança da Igreja, por ter perseverado sob o calor e o suor de cada dia e por ter escolhido sabiamente o momento certo para pousar esse terrível fardo.

No dia 28 de Fevereiro juntei-me a muitos colegas da Secretaria de Estado no Pátio de S. Dâmaso a cerca das 16h30. O Santo Padre veio ao pátio, acenou-nos em despedida e deu-nos a sua benção. Nós aplaudimo-lo de uma forma moderada mas solidária, enquanto ele era levado do pátio e foi com uma grande mistura de sentimentos que voltei a subir as escadas para o meu escritório para ver na televisão o resto da sua viagem para o exílio. Apesar de ser um momento triste, Roma raramente estava tão bonita no crespúsculo cinzento e azul do inverno enquanto o helicóptero que levava o Santo Padre para Castel Gandolfo era filmado por outro helicóptero.

O homem que depois apareceu brevemente na varanda em Castel Gandolfo parecia tão abatido que nenhum dos meus colegas esperava vê-lo durar muitas mais semanas.


Felizmente, no entanto, eu pude ver Bento XVI bem outra vez, mais uma vez, antes de deixar Roma. Cerca de seis meses depois da sua resignação, em Agosto desse ano, ele pediu para me ver no seu pequeno mosteiro no Vaticano, que é a sua nova residência.

Usava uma batina branca folgada sem a faixa e caminhava com a sua bengala normal, mas estava bem e relaxado e parecia feliz, rodeado dos seus velhos amigos: a sua considerável biblioteca de livros. Também tinha a sua cor e sorriso de volta.

Falámos sobre Edimburgo e sobre alguns dos tempos em que tínhamos trabalhado juntos, especialmente a sua visita de estado à Bretanha e os seus vários momentos, incluindo o seu encontro com a Rainha, que tinha dado um início tão bem sucedido à visita. Foi bom saber que houve uma conclusão feliz para o Calvário que eu tinha visto o Papa Bento subir no dia em que anunciou a sua decisão para deixar o papado.

Às vezes pergunto-me a mim mesmo, daqui a 100 anos, quantas pessoas vão estar a ler o corpus literário deixado por Joseph Ratzinger? Mas penso que já não há pequena dúvida de que este modo corajoso e sábio de partir vai dar a Bento XVI um lugar especial na história dos Papas.

Mons. Leo Cushley (Arcebispo de St. Andrews e Edimburgo) in 'The Catholic Herald'


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14 anos de aborto livre em Portugal e o aviso da Irmã Lúcia

14 anos, no dia de Nossa Senhora de Lourdes, o 'Sim' ao aborto venceu em Portugal. Nesse dia os direitos humanos e o bem-comum perdeu em Portugal. Entretanto já foram feitos mais de 240 mil abortos legais (e gratuitos) em Portugal. 200 mil vidas humanas inocentes, únicas e irrepetíveis, na fase mais frágil da sua vida foram brutalmente ceifadas, privadas da sua existência.

Os que dizem que ficaram a ganhar os "direitos" das mulheres esquecem-se (ou omitem) que metade desses 240 mil bebés eram do sexo feminino, por isso 120 mil mulheres foram mortas da forma mais violenta possível.

E quanto às consequências desta chacina? Aparentemente nenhumas. Tudo decorre normalmente no nosso País. Todos dormem tranquilamente à noite, os homicídios são feitos em silêncio, sem que as vítimas possam expressar a sua dor ou indignação e sem quem as defenda. 

No entanto, especialmente neste ano do centenário das aparições de Fátima, talvez seja prudente não esquecer o aviso feito pela Irmã Lúcia

"Se Portugal não aprovar o aborto, está salvo; mas se o aprovar, terá muito que sofrer. Pelo pecado da pessoa paga a pessoa que dele é responsável; mas pelo pecado da Nação paga todo o povo. Porque os governantes que promulgam as leis iníquas fazem-no em nome do povo que os elegeu."

Este aviso deve ser levado a sério. Temos de fazer os possíveis e impossíveis para acabar com a legalização do aborto o mais depressa possível. Não podemos continuar a viver normalmente como se nada fosse.

João Silveira


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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A carta profética de C.S. Lewis

Em 1942, o escritor inglês C.S. Lewis escreveu uma obra imperdível chamada "The Screwtape Letters" (o título em português é "Vorazmente teu" ou "Carta de um diabo a seu aprendiz"). Trata-se de um conjuntos de cartas escritas por um diabo mais velho ao seu sobrinho sobre como influenciar os seres humanos para que percam as suas almas. A carta que passamos a transcrever é especialmente relevante para os tempos que correm: 

Proponho, hoje, que te juntes àqueles de nós que estão a influenciar as pessoas no sentido da existência de um certo “desafio demográfico”; quero dizer, estamos num trabalho antigo e consistente, convencendo certas pessoas com acesso a largos recursos financeiros e a organizações internacionais de que há gente demais no Mundo. 

Estamos a convencê-los de que são capazes não só de prever o futuro, mas de controlá-lo também, e influenciamos estas pessoas para que vejam a si mesmas como poderosas o suficiente para conhecer e determinar o futuro da Humanidade como se fossem deuses, e arrogantes o suficiente para acreditarem que não serão atingidas pelas consequências das políticas nefastas que elas próprias estabelecessem para os outros.

E claro não podemos permitir que tais “poderosos”, a quem devemos ir com absoluta prioridade, vejam os outros seres humanos como semelhantes a si, nem reconheçam de modo algum que há algum Deus que, de facto, seja não somente o autor da Natureza como o Senhor da História. Um Deus assim, devemos convencê-los, seria um estorvo para os seus próprios planos, e por isto deve ser combatido – salvo, é claro, quando tal crença puder tornar mais fácil que atinjam os seus objectivos de controle mundial e estabelecimento do futuro. 

Como fazer isto? Faz com que acreditem firmemente que toda a pessoa religiosa é, no fundo, apenas um hipócrita que usa a religião para controlar os outros. E que eles tentem apoderar-se da religião para controlar os outros! Como? Sei lá! Criem uma religião nova, que não se apresente como religião mas tenha a ambição de conter todas as outras, isto parecerá ao mesmo tempo grandioso, piedoso e iluminado! 

Só não te esqueças de que gente é um gado notoriamente difícil de manejar. E a experiência do século XX já demonstrou que quando nós, diabos, induzimos os nossos tutelados a confiar ingenuamente no poder das armas para dominar o Mundo, não usamos uma boa estratégia: nenhum grande líder que o fez obteve sucesso duradouro, como demonstram Hitler, Lenin, Stalin e outros do mesmo naipe. Com os nossos poderosos de hoje, temos que usar uma estratégia mais subtil: fazê-los convencer as pessoas “comuns” que fazer exactamente o que ordenamos é a única verdadeira maneira de ser feliz, maduro, educado, completo, avançado, qualquer que seja o título capaz de mover o sujeito “comum” a agir como o “poderoso” quer. 

Estes hipotéticos “poderosos”, portanto, devem declarar que são humanistas, mas devem, no seu coração, desacreditar completamente do valor intrínseco da vida humana do outro. Sim, já conhecemos as desvantagens do militarismo e das grandes guerras como técnicas de controle populacional, seja numericamente, seja qualitativamente. Não resulta. 

Mas se conseguimos convencê-los de que a vida humana não é algo intrinsecamente e incondicionalmente bom, damos um passo formidável adiante. Como fazer isto? Ora, com estratégia, seu estúpido diabinho. Por exemplo, negando o valor de um bebé na gestação. Ninguém vê o bebê, mas não é difícil convencer a mãe de que aquele serzinho humano que ela tem ali é apenas um estorvo para a sua vida sexual e profissional. 

Também os idosos e os gravemente doentes são um bom caminho para dissociar a vida humana do seu valor intrínseco: convence as pessoas de que eliminar seres humanos assim é simplesmente “impedi-los de sofrer”, misericordiosamente. Será mais barato para os governantes e para as famílias, será indolor para os pacientes e ainda terá grande eficácia na dissociação entre a dignidade da pessoa e o conjunto de seres humanos: pouco a pouco, vamos convencendo a Humanidade de que nem todos os seres humanos são pessoas, e portanto, nem todos têm valor incondicional e direito à vida. 

Não é fácil? É mais fácil que parece: quem vai defender um embrião invisível fruto de sexo casual, ou um velhote moribundo que só dá despesas? Usamos a cupidez e a luxúria contra a dignidade incondicional da vida humana, destruindo tal conceito, e ainda convencemos os nossos tutelados de que são modernos e até misericordiosos.

Esta é a lição de hoje, detestável pupilo. É preciso convencer as pessoas humanas de três coisas:

1. Há gente demais no mundo, e estas pessoas a mais são adversários uns dos outros. Concorrem entre si pelos escassos recursos ambientais, pelo alimento, pelo trabalho e pelo prazer. Convence-os de que precisam diminuir a quantidade de gente no Mundo. Mas não basta que eles deixem de ter filhos, ou pelo menos os tenham no menor número possível. Tens de fazer com que considerem qualquer outro povo, ou mesmo qualquer outra família, que seja prolífica, como gente atrasada que teima em reproduzir-se muito e quer invadir o seu espaço rico e civilizado por meio de concorrência desleal.

Assim, convenceremos que é justo intervir, até eventualmente pela força, para impedir que estes prolíficos os prejudiquem. Vamos chamar a eliminação de crianças nos ventres maternos de “políticas de direitos reprodutivos”, ou qualquer nome assim. A palavra “direito” tem um grande poder entre eles, ó sebosinho tutelado! Mesmo quando significa exactamente o contrário de direito, como neste caso! Aprende!

2. Convence-os de que prazer sexual é a grande realização humana. Não há outra coisa, senão o sexo orgiástico, que nós diabinhos possamos chamar de “amor”, neste Mundo. Fá-los crer que quem quer que diga o contrário quer tirá-los da festa. Principalmente aqueles que teimam em relacionar o sexo com a reprodução. Convence-os de que a tecnologia moderna já completou totalmente a dissociação entre prazer sexual e reprodução, por isto qualquer um que insista que essa relação existe é só um obscurantista hipócrita (e eventualmente religioso, portanto duplamente detestável). 

Ah, já me esquecia; existe também o prazer das drogas, que tem uma dupla consequência: induz um misticismo completamente controlável e independente de transcendências e doutrinas religiosas, preenchendo os “desejos espirituais” do ser humano sem necessidade de religiões, e ainda pode encurtar a vida dos usuários, reduzindo a população sem necessidade de carnificinas, apenas pela autodestruição livre e alegre. O que poderia ser mais demoníaco? Aprende, jovem pupilo!

3. Convence-os de que somente a ciência desvencilhada de quaisquer barreiras morais (não é difícil associar moral e religião) é a responsável pela redução da dor e o aumento do prazer. Fá-los pensar que não há nenhuma outra forma de livrá-los dos limites humanos e fazê-los deuses, acima de doenças e de sofrimento, senão a ciência. Convence-os que, livre de barreiras éticas, a ciência está a caminhar, e já está bem perto, de eliminar qualquer consequência nefasta para qualquer escolha insensata que alguém pode tomar, é só uma questão de tempo. 

Fá-los pensar que é antiquado acreditar no contrário. Se é verdade? Esta é uma pergunta imbecil, vermezinho. É claro que é mentira. A ciência é uma bênção de Deus aos homens, o que nós queremos é transformá-la em religião, e exclusiva! Pensa bem: não deixa de ser verdade, sob nosso ponto de vista, que a ciência, quando se liberta da ética, pode eliminar qualquer tipo de sofrimento: já se inventou a eutanásia indolor para eliminar de modo barato e eficiente aquelas pessoas cujo sofrimento a ciência autêntica não consegue evitar.

Em seguida, é convencer as mulheres que elas serão tão mais educadas e livres quanto mais puderem ter sexo sem reprodução e cargos bem remunerados. Então, vamos promover a anticoncepção artificial como o grande caminho de liberdade feminina, e o aborto como a solução para as eventuais falhas de anticoncepção. Se alguém for contra? Rotule-o de opressor, de malvado machista eliminador da liberdade feminina. Faz com que as mulheres anseiem por igualarem-se com os homens, não nas suas virtudes (nestas as mulheres já superaram os homens, veja o exemplo daquela Virgem de Nazaré, que odiamos tanto), mas nos seus mais abjectos defeitos: a cupidez e a luxúria!

E os homens? Oferece-lhes mulheres fáceis e relações sexuais sem consequências desagradáveis como a reprodução. E se as mulheres estiverem ocupadas demais com o seu próprio progresso profissional e financeiro, oferece aos homens o prazer sexual com outros homens: isto tem a consequência de reduzir, ademais, as taxas de natalidade, porque tais relações são essencialmente estéreis. Mas como as mulheres estão a adoptar a esterilidade como pressuposto da sua própria liberação sexual e profissional, não será difícil convencer os homens de que não há diferença entre relacionar-se sexualmente com uma mulher estéril, livre e ambiciosa profissionalmente, com a qual ele não estabelecerá nenhuma relação de longo prazo, ou com outro homem. E, ainda, convence-o de que tem direito de sentir tal desejo, e é um vanguardista e inconformista ao vivê-lo. 

Apelando para o sexo infecundo, o abuso das drogas e o sucesso profissional, convencê-los-emos de que toda a prole, todo o moribundo, e mesmo a religião verdadeira são meros obstáculos. E eles terão vontade, empenho mesmo, em destruir-se, destruir a sua prole, as suas famílias, as suas ligações com Deus, para nos seguir espontaneamente! Entendeu, vermezinho?


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