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sábado, 31 de janeiro de 2026

A oração e a pureza estiveram sempre presentes na vida de D. Bosco

D. Bosco rezava sempre. Nele, a união com Deus era contínua. Quem se aproximava dele percebia logo estar diante de um serafim. Era-o tal quando rezava de joelhos; era-o ao celebrar a Santa Missa; era-o no caminhar grave e sereno; tal era quando nas conversações sabia elevar-se a Deus por mais comum que fosse o argumento sem que por isso se tornasse enfadonho ou aborrecido; fazia-o com uma naturalidade incrível. 

A sua palavra, os seus gestos, a sua atitude, em suma, qualquer acção de D. Bosco respiravam uma candura e um aroma tão virginal que arrebatava e edificava a quem quer que se aproximasse dele, fosse embora um desencaminhado. O ar angélico que lhe transparecia no rosto tinha um atractivo especial para conquistar os corações. Dos seus lábios jamais saiu uma palavra que se pudesse taxar de menos própria. 

No seu exterior evitava qualquer gesto ou qualquer movimento que parecesse mundano. Quem o conheceu nos momentos mais íntimos de sua vida, o que achou nele de mais extraordinário foi sem dúvida a suma atenção que sempre usou na prática dos mais vivos cuidados para não lesar a modéstia. 

"Estou absolutamente convencido – declara o Cónego Berrome – que D. Bosco conduziu à tumba a estola da inocência baptismal. Lia-se a virtude da castidade no seu olhar, na sua atitude, na sua palavra e em todos os seus actos; bastava fixá-lo para sentir o perfume desta virtude."

V. Sinistrero in 'Dom Bosco nos guia à Pureza' (Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 1940, pp. 120-124)


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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A vida do Santo Condestável

São Nuno de Santa Maria nasceu no dia 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bom Jardim, filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Priorato do Crato, dos célebres Cavaleiros de São João de Jerusalém e de Ilia, por quem Nuno conservaria sempre um terno afecto. A sua infância e a sua adolescência decorreram neste ambiente entre cavalheiresco e profundamente religioso que havia nestes grupos nos reinos do baixo medievo da Europa. 

Imbuído do ideal de Galaad, um dos cavaleiros da mesa redonda que acompanhavam o mítico Rei Artur, quis permanecer celibatário, mas, para não contrariar o seu pai, veio a casar-se com D.ª Leonor de Alvim, com quem teria três filhos e com quem teve uma vida matrimonial feliz. O casamento teve lugar a 15 de Agosto, festa da Assunção de Maria, de 1376. Dois dos seus filhos morreram crianças e apenas a terceira, D.ª Beatriz, chegaria à idade adulta, casando-se com D. Afonso, o filho do rei D. João I, a quem Nuno, seu aio, tinha servido sempre com valentia e fidelidade.

O jovem Nuno sobressaiu rapidamente na corte, para a qual foi destinado para o serviço pessoal do rei Fernando desde a adolescência, quando tinha apenas treze anos. A sua nobreza de ânimo, a sua valentia, a lealdade para com o rei e o ideal de pureza que parecia ter-se traçado desde criança, a imitação do casto herói Galaad, chamaram à atenção quer da família real quer dos outros cortesãos.

A morte do rei D. Fernando de Portugal originou um problema dinástico, algo muito frequente nos reinos da Península Ibérica, nos tempos da Reconquista. Alguns cavaleiros portugueses (alguns irmãos de Nuno, inclusivamente) defendiam o direito ao trono de Beatriz, filha do rei Fernando, casada com o rei de Castela, o que provavelmente teria suposto a incorporação da coroa portuguesa no reino de Castela, que se ia configurando – juntamente com o de Aragão – como o reino mais forte da Península Ibérica. Mas outros muitos cavaleiros lusitanos, entre eles Nuno, defendiam o direito ao trono de João, irmão do rei Fernando. Havia também interesses internacionais e não faltaram cavaleiros franceses e ingleses que ajudavam um ou outro lado. Não demorou muito a rebentar uma guerra entre os dois reinos, provocada pelo problema da sucessão dinástica. 

A guerra em si durou vários anos, com períodos de relativa calma. Em Abril de 1384, as tropas portuguesas (ao serviço de D. João) vencem a facção rival, na batalha de Atoleiros (o que originou, pouco mais tarde, a subida ao trono de João I, que nomearia Nuno como seu Condestável). Um ano mais tarde, no dia 14 de Agosto de 1385 (em vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora), as tropas comandadas por Nuno Álvares Pereira derrotaram os seguidores do rei de Castela, na memorável batalha de Aljubarrota, e, pouco depois, em Valverde (já dentro do reino de Castela), o que fez com que Nuno ganhasse uma grande fama como herói nacional. Ainda que a guerra se tenha prolongado por algum tempo, e inclusivamente tivessem havido escaramuças anos mais tarde, a vitória já estava do lado português. 

A paz definitiva seria assinada em 1411. Pode ser significativo da fama que Nuno ganhou como herói nacional e como Condestável o facto de que Luís de Camões, o grande poeta português, incluísse uma elogiosa referência ao nosso homem, no canto IV do seu célebre poema épico Os Lusíadas, obra cimeira da literatura portuguesa do Renascimento. Também na vizinha Espanha vários autores dos séculos XVI e XVII (Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, entre outros) louvaram a nobreza e a heroicidade do já mítico Condestável.

Mas, pouco mais tarde, a desgraça abateu-se sobre o Condestável. Em 1387, morre a sua esposa, D.ª Leonor de Alvim, que residia no Porto com a filha dos dois. Depois, o ainda jovem Nuno negou-se a contrair novo casamento. A vida de piedade e penitência (que sempre tinha tido) acentua-se sobremaneira e o Condestável, herói de tantas batalhas, famoso guerreiro ao serviço do rei, vai, a pouco e pouco, adquirindo a reputação de homem piedoso e santo.

Há que situar, nestes anos, a sua intervenção decisiva para a construção (entre outros templos e conventos) do convento e da igreja dos carmelitas, em Lisboa, cumprindo assim uma promessa votiva feita a Nossa Senhora. Consta que teve contacto com a Ordem através de um antigo companheiro de armas que se tinha feito carmelita no convento de Moura, D. João Gonçalves, e do Frei Afonso de Alfama, Vigário da Ordem em Portugal, com quem parece que tinha grande confiança e amizade. Foi escolhido, para localização do dito convento, um dos lugares mais altos de Lisboa. As obras duraram mais de oito anos. Os carmelitas, vindos do convento de Moura, instalaram-se no celebérrimo “Carmo” de Lisboa no dia 15 de Agosto (mais uma vez) de 1397, onde permaneceram até 1755, data em que o templo foi praticamente destruído pelo terramoto de Lisboa.

Em 1415, Nuno viria ainda a ter tempo de participar numa nova campanha portuguesa, desta vez para além do estreito de Gibraltar, em Ceuta, comandando e contribuindo com a sua experiência militar na expedição portuguesa que se dirigia para o referido lugar do Norte de África. Nuno, com 55 anos, sentia-se já cansado. Pouco depois aconteceu a morte da sua filha, o que provavelmente acelerou a sua decisão de se afastar do mundo e de ter uma vida totalmente entregue à penitência, à piedade e à oração.
Deste modo, em Agosto de 1423, o Condestável, figura admirada e de grande prestígio, decide, diante do espanto geral, ingressar no Convento do Carmo, que ele mesmo tinha fundado, e levar uma vida de total penitência e austeridade, como irmão donato. 

No dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora e data à que parece que a vida de Nuno estava intimamente ligada, vestiu o hábito Carmelita, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Apesar das pressões de toda a ordem, recusou privilégios ou mitigações da austeridade conventual. Por intervenção de D. Duarte (filho de João I, o rei a quem Nuno fielmente tinha servido durante anos), convenceu-se, ao menos, que não fosse para um convento longínquo, como era seu desejo, para evitar visitas e homenagens que iam contra a sua vontade de total penitência e humildade. Também conseguiu o príncipe que Nuno renunciasse ao seu desejo de mendigar para o convento pelas ruas de Lisboa, como faziam os irmãos donatos.

Prova da sinceridade e da firmeza da sua vontade foi o facto de que sempre recusou ser chamado doutra maneira que não “Frei Nuno de Santa Maria”, recusando qualquer tipo de título de nobreza. Mais ainda, quando o príncipe D. Duarte quis que conservasse o título de Condestável, Nuno respondeu com humildade, mas com firmeza: o Condestável morreu e está enterrado num santuário…

Depois de oito anos de vida de penitência e de grande austeridade, Frei Nuno de Santa Maria morreu em Lisboa, em 1431. O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de dor, quer por parte da nobreza e da família real (que tinham uma grande dívida de gratidão para com aquele nobre cavaleiro vencedor no campo da batalha), quer por parte dos carmelitas e de tantos devotos, que viram nele um modelo de penitência, de humildade e de desprezo das galas e honras deste mundo.

Cronologia da vida de Santo Condestável

1360: Nuno Álvares Pereira nasce em Castelo do Bonjardim, Santarém, (ou Flor da Rosa?) filho do prior da Ordem dos Hospitalários.
1361: É legitimado por D. Pedro I
1373: Entra na Corte de D. Fernando e torna-se escudeiro da rainha D. Leonor Teles. Em breve é armado cavaleiro.
1376: A 15 de Agosto casa com d. Leonor de Alvim, de quem vem a ter uma filha, D. Beatriz.
1383: Morre D. Fernando. D. Leonor Teles manda proclamar a filha e o genro, D. João de Castela, sucessores do trono de Portugal. Nuno Álvares Pereira distingue-se no partido patriótico que incita D. João, Mestre de Avis, a chefiar a revolta contra os castelhanos. É nomeado fronteiro entre Tejo e Guadiana.

1384: Vence os castelhanos na Batalha dos Atoleiros.
1385: D. João I de Portugal, entretanto aclamado rei, nomeia-o Condestável do reino. A 14 de Agosto vence na Batalha de Aljubarrota. Recebe numerosos títulos e domínios, entre os quais o Condado de Ourém e o Condado de Arraiolos.
1388: Começa a construção da capela de S. Jorge, em Aljubarrota.
1389: Começa a construção do Convento do Carmo, em Lisboa.
1393: Partilha com os companheiros de armas muitas das suas terras.
1397: Primeiros carmelitas vêm viver para o Convento do Carmo.
1401: Fim das hostilidades com Castela.

1414: Morre a filha, D. Beatriz. Pensa tornar-se carmelita.
1415: Participa na conquista de Ceuta.
1422: Reparte pelos netos os seus títulos e domínios.
1423: Professa no Convento do Carmo a 15 de Agosto. Toma o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Dedica-se a actos de piedade e de benemerência. Ainda em vida é chamado Santo Condestável pelo povo.
1 de Novembro de 1431: Morre em Lisboa.
1641: As cortes pedem ao Papa Urbano VIII a sua beatificação. o pedido é renovado várias vezes ao longo dos anos.
1918: O Papa Bento XV confirma o culto do Santo Condestável; a sua Festa celebra-se no dia 6 de Novembro.
2009: São Nuno é canonizado pelo Papa Bento XVI, em 26 de Abril e sua festa é a 6 de Novembro.

Carlos Jorge Dias Fernandes


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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Jejum na Batalha de Aljubarrota

640 anos da Batalha de Aljubarrota. Tal como hoje, era vigília (o dia antes) da Festa da Assunção de Nossa Senhora ao Céu em corpo e alma. A Tradição da Igreja, confirmada pela lei eclesiástica, impunha aos fiéis o jejum no dia antes destes "dias grandes".

Esse jejum obrigatório poderia talvez ser dispensado, tendo em conta a importante batalha que se aproximava. Mas o Santo Condestável não quis poupar os seus homens, nem a si próprio, desse sacrifício e os portugueses fizeram mesmo jejum.

Além disso, quem quis pôde confessar-se e também comungar. Os soldados portugueses sabiam que não estavam apenas a ser liderados por um génio da estratégia militar mas também por um Santo.

Eles percebiam que estavam perante um homem diferente dos outros; tanto pelo fervor com que rezava como pela virtude com que se comportava. E isto fazia com que confiassem totalmente nele.


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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A guarda do coração

Guardar o coração significa amar com pureza e paixão aqueles a quem devemos amor, e excluir ao mesmo tempo os ciúmes, as invejas e inquietações, que são causas certas de desordem no amor. A guarda do coração significa sempre a ordem no amor. A guarda do coração ensina o cristão a penetrar na profundidade de alma, para decobrir os seus movimentos e tendências.

Salvatore Canals in Ascética Meditada


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Cortesia e humildade

A cortesia não se destaca das outras virtudes; antes pelo contrário, é uma qualidade que se encontra em todas elas. Tem algo que ver com reverência, humildade e castidade. 

É moldada pela caridade, o molde de todas as virtudes, para a qualidade da misericórdia. É a beleza de uma vida de valor e generosa.

A cortesia é, acima de tudo, reverência para com o seu semelhante.

Num cavalheiro cristão, é o hábito tornado possível pela fé e pela caridade, um olhar que vê em todo o homem, grande ou pequeno, a brilhante imagem da Trindade, um irmão pelo qual morreu Cristo.

O indivíduo cortês tem uma atitude de “adoração” para com o seu semelhante: por pequenas atitudes de gentileza, ele realça a sua importância, a sua dignidade, como pessoa humana.

No rito do casamento - “eu te amo com o meu corpo” - rende-se cortesia à esposa no próprio acto da consumação do amor pelo matrimónio. O cavalheirismo e o decorrente respeito são a própria essência do amor do noivo.

A cortesia está intimamente ligada à humildade.

G. K. Chesterton in 'Laughter and Humility'


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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A paciência é uma virtude - São Francisco de Sales

A paciência, diz o Apóstolo, vos é necessária para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o que Ele vos tem prometido. Sim, nos diz Jesus Cristo, possuireis vossas almas pela paciência.

O maior bem do homem consiste, Filoteia, em possuir o seu coração e tanto mais o possuímos quanto mais perfeita é nossa paciência; cumpre, portanto, aperfeiçoarmos nesta virtude. Lembra-te também que, tendo Nosso Senhor nos alcançado todas as graças da salvação pela paciência de Sua vida e de Sua morte, nós também no-las devemos aplicar por uma paciência constante e inalterável nas aflições, nas misérias e nas contradições da vida.

Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus te mandar ou permitir que venha sobre ti. Muitas pessoas há que de boa mente querem suportar os sofrimentos que têm um certo cunho de honroso: ter sido ferido numa batalha, ter sido prisioneiro ao cumprir seu dever, ser maltratado pela religião, perder todos os seus bens numa contenda de honra, da qual saíram vencedores, tudo isso lhes é suave; mas é a glória e não o sofrimento o que amam.

O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra. O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parentes, é uma paciência heróica. Por isso aprecio e admiro mais o Cardeal São Carlos Borromeu, por ter sofrido em silêncio, com brandura e por muito tempo, as invectivas públicas que célebre pregador duma ordem reformada fazia contra ele do púlpito, do que ter suportado abertamente os insultos de muitos libertinos; pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. Acontece, no entanto, muitas vezes que dois homens de bem, ambos bem intencionados, pela diversidade de opiniões, se afligem mutuamente não pouco.

Tem paciência não só com o mal que sofres, mas também com as suas circunstâncias e consequências. Muitos se enganam neste ponto e parecem desejar aflições, recusando, entretanto, sofrer suas incomodidades inseparáveis. Não me afligiria, diz alguém, de ficar pobre, contanto que a pobreza não me impedisse de ajudar a meus amigos, de educar meus filhos, e de levar vida honrosa. E eu, declarava um outro, pouco me inquietaria disso, se o mundo não atribuísse esta desgraça à minha imprudência. E eu, dizia ainda um terceiro, nada me importaria esta calúnia, contanto que não achasse crédito em outras pessoas. Muitos há que estão prontos a sofrer uma parte das incomodidades conjuntas aos seus males, mas não todas, dizendo que não se impacientam de estar doentes, mas do trabalho que causam aos outros e da falta de dinheiro para se tratar.

Digo, pois, Filoteia, que a paciência nos obriga a querer estar doentes, como Deus quiser, da enfermidade que Ele quiser, no lugar onde Ele quiser, com as pessoas e com todos os incómodos que Ele quiser; e eis aí a regra geral da paciência! Se caíres numa enfermidade, emprega todos os remédios que Deus te concede; pois esperar alívio sem empregar os meios seria tentar a Deus; mas, feito isso, resigna-te a tudo e, se os remédios fazem bem, agradece a Deus com humildade e, se a doença resiste aos remédios, bendize-o com paciência.

Sou do parecer de S. Gregório, que diz: Se te acusarem de uma falta verdadeira, humilha-te e confessa que mereces muito mais que esta confusão. Se a acusação é falsa, justifica-te com toda a calma, porque o exigem o amor à verdade e a edificação do próximo. Mas, se tua escusa não for aceita, não te perturbes, nem te esforces debalde para provar a tua inocência, porque, além dos deveres da verdade, deves cumprir também os da humildade. Assim, não negligenciarás a tua reputação e não faltarás ao afecto que deves ter à mansidão e humildade do coração.

Queixa-te o menos possível do mal que te fizeram; pois queixar-se sem pecar é uma coisa raríssima; nosso amor-próprio sempre exagera aos nossos olhos e ao nosso coração as injúrias que recebemos. Se houver necessidade de te queixares ou para abrandar o teu espírito ou para pedir conselhos, não o faças a pessoas fáceis de exaltar-se e de pensar e falar mal dos outros. Mas queixa-te a pessoas comedidas e tementes a Deus, porque, ao contrário, longe de tranquilizar a tua alma, a perturbarias ainda mais e, em lugar de arrancares o espinho do coração, o cravarias ainda mais fundo.

Muitos numa doença ou numa outra tribulação qualquer guardam-se de se queixar e mostrar a sua pouca virtude, sabendo bem (e isto é verdade) que seria fraqueza e falta de generosidade; mas procuram que outros se compadeçam deles, se queixem de seus sofrimentos e ainda por cima os louvem por sua paciência. Na verdade temos aqui um ato de paciência, mas certamente duma paciência falsa, que na realidade não passa dum orgulho muito subtil e duma vaidade refinada.

Sim, diz o Apóstolo, tem de que gloriar-se, mas não diante de Deus. Os cristãos verdadeiramente pacientes não se queixam de seus sofrimentos nem desejam que os outros os lamentem; se falam neles é com muita simplicidade e ingenuidade, sem os fazer maiores do que são; se outros os lamentam, ouvem-nos com paciência, a não ser que tenham em vista um sofrimento que não existe, porque, então, lhes declaram modestamente a verdade; conservam assim a tranquilidade da alma entre a verdade e a paciência, manifestando ingenuamente os seus sofrimentos, sem se queixarem.

Nas contrariedades que te sobrevierem no caminho da devoção (pois que delas não hás de ter falta), lembra-te que nada de grande podemos conseguir neste mundo sem primeiro passarmos por muitas dificuldades, mas que, uma vez superadas, bem depressa nos esquecemos de tudo, pelo íntimo gozo que então temos de ver realizadas as nossas aspirações. Pois bem, Filoteia, queres absolutamente trabalhar para formar a Jesus Cristo, como diz o Apóstolo, em teu coração, como em tuas obras, pelo amor sincero de Sua doutrina e pela imitação perfeita de Sua vida. Há de custar-te algumas dores, sem dúvida; mas hão de passar e Jesus Cristo, que viverá em ti, há de encher tua alma duma alegria inefável, que ninguém te poderá furtar.

Se caíres numa doença, oferece as tuas dores, a tua prostração e todos os teus sofrimentos a Jesus Cristo, suplicando-Lhe de os aceitar em união com os merecimentos de Sua paixão. Lembra-te do fel que Ele bebeu por teu amor e obedece ao médico, tomando os remédios e fazendo tudo o que determinar por amor de Deus. Deseja a saúde para O servir, mas não recuses ficar muito tempo doente para obedecer-Lhe e mesmo dispõe-te a morrer, se for a Sua vontade, para ir gozar eternamente de Sua gloriosa presença.

Lembra-te, Filoteia, que as abelhas, enquanto fazem o mel, vivem dum alimento muito amargo e que nunca nós outros poderemos encher mais facilmente o coração desta santa suavidade, que é fruto da paciência, do que comendo com paciência o pão amargo das tribulações que Deus nos envia; e quanto mais humilhantes forem, tanto mais preciosa e agradável se tornará a virtude ao nosso coração.

Pensa muitas vezes em Jesus crucificado; considera-O coberto de feridas, saturado de opróbrios e dores, penetrado de tristeza até ao fundo de Sua alma, num desamparo e abandono completo, carregado de calúnias e maldições; verás então que tuas dores não se podem comparar às Suas, nem em quantidade, nem em qualidade, e que jamais sofrerás por Ele alguma coisa de semelhante ao que Ele sofreu por ti.

Compara-te aos mártires, ou, sem ires tão longe, às pessoas que sofrem actualmente mais do que tu e exclama, louvando a Deus: Ah! meus espinhos me parecem rosas e minhas dores, consolações, se me comparo àqueles que vivem sem socorros, sem assistência e sem alívio, numa morte contínua, opressos de dores e de tristezas.

São Francisco de Sales in Introdução à Vida Devota (Filoteia)


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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Humildade e sofrimento

A humildade e o sofrimento libertam o homem de todo o pecado; a humildade acaba com as paixões espirituais, o sofrimento com as corporais.

 São Máximo o Confessor



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segunda-feira, 29 de julho de 2024

Santo Ambrósio fala sobre Marta e Maria

A virtude não tem apenas um rosto. O exemplo de Marta e de Maria mostram-nos a devoção activa nas obras de uma, e a atenção religiosa do coração à palavra de Deus na outra. Se a tal atenção estiver unida uma fé profunda, ela é preferível às obras: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada». 

Esforcemo-nos portanto, também nós, por possuir aquilo que ninguém nos poderá tirar, escutando com ouvido atento e não distraído; porque por vezes acontece que o grão da palavra vinda do céu é tirado, se for semeado à beira do caminho (Lc 8, 5.12).

Anima-te pois pelo desejo de sabedoria, como Maria: essa é uma obra maior, mais perfeita. Que as preocupações com o serviço não te impeçam de acolher a palavra vinda do céu. Não critiques nem tenhas por ociosos os que vires ocupados em adquirir a sabedoria, pois Salomão, esse homem de paz, convidou-a para sua casa para que ficasse com ele (Sb 9,10). 

Não se trata, porém, de reprovar a Marta os seus bons serviços: Maria tem preferência porque escolheu uma parte melhor. Jesus tem múltiplas riquezas, e distribui-as com prodigalidade; a mulher mais sábia reconheceu e escolheu o que é mais importante. 

Também os apóstolos entenderam que era preferível não abandonar a palavra de Deus para servir às mesas (Act 6,2). Mas ambas as coisas são obras de sabedoria: Estêvão foi escolhido como servo, como diácono, e estava cheio de sabedoria (Act 6,5.8). 

Com efeito, o corpo da Igreja é um, e se os seus membros são diversos, têm necessidade uns dos outros: «Não pode o olho dizer à mão: «não tenho necessidade de ti», nem tão-pouco a cabeça dizer aos pés: «não tenho necessidade de vós» (1Cor 12,21). Se alguns membros são mais importantes, os outros são todavia necessários. A sabedoria reside na cabeça; a actividade, nas mãos.

in Comentário ao Evangelho de São Lucas, 7, 85-86; SC 52


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quarta-feira, 26 de junho de 2024

Para avançar na virtude é importante calar

O Pai celeste disse uma única palavra: o seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele Se faz ouvir. 

Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados.  Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras. Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais nenhuma palavra que não seja pura. 

Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente. Tende sempre paz interior e uma atenção amorosa para com Deus; e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz. Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: «O meu segredo é meu» (Is 24,16). 

Para avançar na virtude, é importante calar e agir, porque, falando, as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando silêncio e trabalhando, recolhem-se. Depois de aprendermos com alguém o que é preciso para o nosso progresso espiritual, não lhe peçamos que continue a falar: ponhamos mãos à obra, com seriedade e silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de nós mesmos. 

Antes de tudo, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas e da língua, a fim de só ouvir palavras de amor. 

São João da Cruz in 'Conselhos e Máximas'


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sexta-feira, 21 de junho de 2024

São Luís Gonzaga, o santo da santa pureza

Luís Gonzaga foi um santo jesuíta que morreu aos 23 anos, com a mesma doença dos que ele caridosamente ajudava. Provinha duma das famílias mais nobres do Sacro Império Romano, mas deixou tudo para se entregar totalmente a Deus e ao serviço dos mais necessitados.

O seu confessor, Padre Fernando Paterno, testemunhou que nunca lhe encontrou um único pecado mortal. O segredo da sua pureza era a sua intensa vida de oração e as penitências que fazia por amor a Deus.

Vale a pena rezar esta oração a S. Luís para pedir a santa pureza:

Ó Luiz Santo, adornado de angélicos costumes, eu, vosso indigníssimo devoto, vos recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu corpo.

Rogo-vos por vossa angélica pureza, que intercedais por mim ante ao Cordeiro Imaculado, Cristo Jesus e à sua santíssima Mãe, a Virgens das virgens, e me preserveis de todo o pecado.

Não permitais que eu seja manchado com a mínima nódoa de impureza; mas quando me virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai do meu coração todos os pensamentos e afectos impuros e, despertando em mim a lembrança da eternidade e de Jesus crucificado, imprime profundamente no meu coração o sentimento do santo temor de Deus e inflamai-me no amor divino, para que, imitando-vos cá na Terra, mereça gozar a Deus convosco lá no Céu. Ámen.



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quinta-feira, 20 de junho de 2024

10 sugestões de Santo António para fazer penitência pelos pecados

O pecado é sempre uma recusa do Amor, é virar as costas a Deus porque se considera que uma criatura ou uma coisa material pode substituir o Seu lugar no nosso coração. Para compensar essas falta de amor, e fortalecer a vontade para amar mais, Santo António dá algumas ideias:

1. Renúncia da própria vontade;

2. Abstinência de comida e bebida;

3. Rigor do silêncio;

4. Vigílias de oração durante a noite;

5. Derramamento de lágrimas;

6. Dedicação de tempo à leitura;

7. Trabalho físico exigente;

8. Ajudar generosamente os outros;

9. Vestir-se com modéstia;

10. Desprezar a própria vaidade.

Santo António de Lisboa in Sermão do Domingo de Pentecostes, 1§7


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quinta-feira, 16 de maio de 2024

As 4 Virtudes Cardeais

1. Prudência é a inteligência de distinguir o bem do mal, de modo a agir como o faria um homem virtuoso.
2. Fortaleza é a capacidade para preservar nas dificuldades, mesmo contra todas as probabilidades.
3. Justiça é a vontade de dar a cada um o que lhe pertence.
4. Temperança é o uso dos bens deste mundo como meios para um fim e não como fins em si mesmos, especialmente no que diz respeito à alimentação e às paixões.


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quarta-feira, 15 de maio de 2024

As Regras de Cortesia e de Civilidade Cristã

Capítulo I. Do Porte e da Atitude de todo o corpo

No porte de uma pessoa é sempre necessário algo de ponderado e majestoso: mas deve evitar cuidadosamente tudo o que indica orgulho e altivez de espírito, pois isto desagrada extremamente a todas as pessoas. O que deve produzir essa ponderação é somente a modéstia e a sabedoria que um cristão deve manifestar em todo o seu comportamento. 

Como ele é de alto nascimento, porque pertence a Jesus Cristo e é Filho de Deus, que é o Ser supremo, não deve ter nem manifestar nada de vil no seu exterior, e tudo nele deve ter certo ar de elevação e de grandeza, que tenha alguma relação com o poder e a majestade do Deus a quem serve e que lhe deu o ser, mas que não venha de estima de si mesmo e de preferência aos outros. 

Qualquer cristãos se deve conduzir de acordo com as regras do Evangelho, por isso deve mostrar honra e respeito a todos os outros, considerando-os como filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo, e ao considerar-se como um homem carregado de pecados, deve humilhar-se continuamente, e colocar-se abaixo de todos. Ao estar em pé, deve-se manter o corpo erecto, sem o inclinar para um nem para outro lado, e não se curvar para frente como um ancião que não se consegue aguentar. 

Também é muito indecente endireitar-se com afectação, apoiar-se contra uma parede ou contra qualquer outra coisa, contorcer o corpo e alongar-se com indecência. Quando se está sentado, não se deve estender-se preguiçosamente, nem apoiar-se firmemente contra o encosto da cadeira. É indecente estar sentado baixo ou alto demais, a menos que não se possa fazer de outra maneira, em geral é melhor estar sentado mais alto do que baixo demais; mas quando se está em companhia, deve-se dar os assentos mais baixos e mais cómodos principalmente às mulheres. 

Nem o frio nem qualquer outro incómodo ou sofrimento devem fazer-nos tomar uma postura indecente, e é contra a cortesia manifestar no exterior que se tem algum incómodo, excepto se não se pode fazer de outra maneira. Também é sinal de demasiada sensibilidade e delicadeza quando não se consegue sofrer nada sem o manifestar no exterior.

São João Baptista de La Salle in 'As Regras de cortesia e Civilidade Cristã'


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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Vencer o mal em nós mesmos

Para lutar eficazmente contra o mal, é preciso voltar a guerra para dentro, vencer o mal em nós mesmos. Trata-se da guerra mais dura, a guerra contra si mesmo. Tenho lutado esta guerra. Durante anos e anos. Foi terrível. Mas hoje estou desarmado.

Não tenho mais medo de nada, porque «o amor lança fora o temor». Estou
ou desarmado da vontade de ter razão, de justificar-me, à custa dos outros. Sim, já não tenho medo. Quando não se tem nada, já não se tem medo. «Quem nos separará do amor de Cristo?»

Atenágoras I


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quinta-feira, 4 de abril de 2024

Santo Isidoro explica a importância do exemplo e das boas companhias

Em todos os teus actos, em todas as tuas obras, e em todo o seu trato, imita os bons, emula os santos, tem ante os teus olhos o exemplo dos mártires, considera os exemplos dos justos, imitando-os; que o exemplo dos santos e os ensinamentos dos padres sejam para ti incentivo de virtude. Tem bom espírito, guarda a tua boa fama e não a diminuas com nenhuma acção e não a deixes cair em descrédito. 

Demonstra o que professas com o teu porte, com o teu andar. Seja a tua apresentação a simplicidade, no teu movimento a pureza, nos teus gestos a gravidades, no teu passo a honestidade. Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto no corpo é o sinal da mente. O teu andar, por conseguinte, não represente a tua superficialidade, o teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. 

Não te prestes a ser espectáculo para os outros, não permitas que te denigram, não te unas a pessoas vãs. Evita os maus, rechaça os indolentes. Foge das reuniões excessivas dos homens, mormente dos que por causa da sua idade são mais inclinados aos vícios. Acompanha-te dos bons, deseja sua companhia. Busca a reunião dos bons, junta-te aos santos. Se fores partícipe do seu trato, também o serás de sua virtude. 

O que caminha com os sábios, será sábio; o que caminha com os estultos, será estulto, pois os semelhantes gostam de reunir-se aos semelhantes. É perigoso viver entre os maus, é pernicioso acompanhar-se daqueles que têm vontade perversa. Tu te nutrirás de sua infâmia se te juntas com os indignos. É melhor sofrer o ódio dos maus que a sua companhia. Assim como muitos bens traz consigo a vida comum dos santos, assim muito mal traz a companhia dos maus, pois aquele que toca um imundo, é por ele contaminado.

Santo Isidoro de Sevilha in 'Lamentações de uma alma pecadora'


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terça-feira, 5 de março de 2024

Exame de consciência no final do dia

"Nunca te deites sem antes examinares a tua consciência sobre o dia que passou. Dirige todos os teus pensamentos a Deus, consagra-Lhe todo o teu ser e também todos os teus irmãos.

Oferece à glória de Deus o repouso que vai iniciar e não te esqueças do teu Anjo da Guarda que está sempre contigo."

Padre Pio


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terça-feira, 4 de julho de 2023

Conselhos úteis dos primeiros Cristãos

Meu filho, foge de todo o mal ou daquilo que se assemelha ao mal. Não sejas irascível: a cólera leva ao crime. Não sejas ciumento, conflituoso nem violento: essas paixões originam mortes. Meu filho, não sejas sensual: a sensualidade é o caminho para o adultério. Não uses de linguagem licenciosa, nem tenhas um olhar atrevido: também isso engendra adultério. 

Resguarda-te dos encantamentos, da astrologia, das purificações mágicas; recusa-te a vê-las e a ouvi-las: isso seria perderes-te na idolatria. Meu filho, não sejas mentiroso, porque a mentira conduz ao roubo. Não te deixes seduzir pelo dinheiro nem pela vaidade, que também incitam a roubar. Meu filho, não murmures contra os outros: tornar-te-ás blasfemo. Não sejas insolente nem malévolo, pois isso também conduz à blasfémia.

Usa de mansidão: «Felizes os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5,5). Sê paciente, misericordioso, sem malícia, cheio de paz e bondade. Respeita sempre as palavras que ouviste do Senhor (Is 66,2). Não te engrandeças a ti próprio, não abandones o teu coração ao orgulho. Não te alies aos soberbos, mas frequenta os justos e os humildes. Recebe os acontecimentos da vida como dons, sabendo que é Deus quem dispõe sobre todas as coisas.

in Didaké §3 (catequese cristã do primeiro século)  



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quarta-feira, 21 de junho de 2023

A boa vida e a boa morte de São Luís Gonzaga

A primeira coisa que aconteceu quando ele se tornou um Jesuíta foi que lhe disseram para dormir mais; disseram-lhe para comer mais. Uma das primeiras cartas que recebi do provincial dizia: "Ouvi dizer que andas a dormir menos do que precisas...dorme seis horas", portanto tenho tentado ser obediente desde então.

Depois de acabar o seu noviciado, Luís foi enviado para Milão. Foi em Milão que, ainda estudante, num dia durante as orações da manhã, ele teve uma revelação de que não iria viver muito e a sua alegria foi imensa. Com alguns artifícios, ninguém sabe como é que ele fez, conseguiu ter o pior quarto da casa. Entrava frequentemente em êxtase nas alturas mais inconvenientes - à mesa, na sala de aula e até mesmo no recreio. As suas meditações, disseram mais tarde os seus contemporâneos, eram quase sempre sobre os atributos de Deus. Por outras palavras, ele meditava na bondade, na sabedoria, na beleza de Deus e, a partir destas meditações dos atributos de Deus, ele ganhava uma alegria extraordinária.

Depois, em 1591, uma praga terrível chegou a Roma durante a qual os Jesuítas, incluindo o Padre Geral, saíram para as ruas para tratar dos feridos pela peste -- a doença é muito infecciosa, o Padre Geral levou os Jesuítas nesta obra de misericórdia. Luís, apesar da sua má saúde, conseguiu ter permissão para ir ajudar. Tomava conta dos doentes, encorajava-os, guiava-os nas suas orações, preparava-os para a morte. Escolhia as tarefas mais servis e menos apetecíveis.

Ele apanhou a doença. Durante a doença pediu o viático; ele achava que estava a morrer, mais tarde confessou que estava muito impaciente à espera da morte. Recuperou desta doença, mas depois ficou arrasado por uma febre que teve durante três meses. Sempre que conseguia levantava-se da cama à noite e rezava de joelhos diante do crucifixo.

Durante a sua doença mortal, o Pe. Berllarmino, um homem já de idade avançada na altura, ficava horas com o seu penitente e Luís pedia-lhe, "é possível ir logo para o Céu sem nenhum purgatório?", 'Sim, dizia Bellarmino, é possível'. "Bem, posso pedir essa graça?" 'Claro que podes.' Por isso ele pediu a graça de ir directamente para o Céu sem passar no purgatório.

Na noite antes de morrer, esteve em êxtase toda a noite. Com os membros da comunidade à sua volta, ele falava com o reitor que estava de pé junto da sua cama, "nós vamos, padre, nós vamos". O reitor disse, 'vamos onde?' "Vamos para o Céu". Por isso o reitor dizia com sentido de humor, "Iam achar que ele ia para Frascati' (essa era, já agora, uma Vila Jesuíta fora de Roma). Mesmo antes de morrer, ele pronunciou as palavras, "nas Vossas mãos" e morreu.

Foi canonizado em 1726 e as suas relíquias, onde eu já rezei muitas vezes, estão na Igreja de Santo Inácio em Roma. Ele escreveu muitas cartas que se guardaram e valem a pena ler. A 'Melhor Vida de Santo Inácio' foi escrita pelo mesmo Pe. Brodrick. Mas a 'Melhor Vida de S. Luís Gonzaga' é do Pe. Martindale. A vida que o Pe. Martindale escreveu de Luís tem imensas partes das suas cartas... dão boas meditações.

Fr. Hardon SJ in therealpresence.org


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sexta-feira, 9 de junho de 2023

O jovem 'herói' Católico que protegeu crianças da morte certa

Num parque em Annecy (França) aconteceu um ataque horrível: um refugiado sírio esfaqueou 6 pessoas, incluindo 4 crianças, que ficaram feridas. As consequências poderiam ter sido bem mais graves caso não estivesse ali Henri d’Anselme, que se defendeu das facadas com uma mochila e depois perseguiu o delinquente. Por isto, há quem lhe chame 'herói'.

Este jovem de 24 anos pertence a uma família numerosa francesa. Como fosse Católico fervoroso, resolveu, há dois meses e meio, pôr-se a caminho e fazer uma peregrinação percorrendo as Catedrais do seu país. Foi isso que fez com que estivesse naquele dia em Annecy. No dia 15 de Abril, publicou este texto:

«Há exactamente três semanas ando de Catedral em Catedral por toda a França. A razão pela qual embarquei nesta aventura é que, algures no meu íntimo, um fogo poderoso se acendeu sobre as brasas de uma Catedral desmoronada.

Há exactamente 4 anos, a Notre-Dame de Paris perdeu a sua torre e o seu telhado num incêndio devastador. Há exactamente 4 anos, fiquei firmemente convencido de que a reconstrução era possível. Não a reconstrução material das abóbadas e da estrutura do tecto, mas a reconstrução espiritual dos corações dos franceses.

As catedrais pontuam as nossas paisagens. Irrigam as nossas cidades e os nossos campos e dão ritmo à vida dos seus habitantes. Durante demasiado tempo, esquecemo-las. Ou, mais precisamente, esquecemo-nos da razão da sua existência. Deixámos de ouvir o que têm para dizer, negligenciámos o tesouro que protegem.
Durante 9 meses, percorrerei a França para acordar estes gigantes adormecidos. Eles chamam-me, eles chamam-nos. É isso que me leva todas as manhãs a pegar na pesada mochila de 17 kg e a acumular quilómetros. Todos os franceses têm um encontro com o seu destino, ao pé da sua Catedral.»


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