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terça-feira, 6 de setembro de 2022

A liberdade de um monge trapista

Também eu, quando estava no mundo, corria muitas vezes pelas estradas de Espanha, encantado por ver o velocímetro do meu carro marcar 90 km à hora! Que disparate! Quando me apercebi de que não tinha mais horizontes, sofri a decepção típica daquele que tem a liberdade deste mundo, pois a terra é pequena e depressa lhe damos a volta. O homem está rodeado de horizontes pequenos e limitados. 

Para quem tem a alma sedenta de horizontes infinitos, os da terra não bastam: abafam-no, não há mundo que lhe chegue e só encontra o que procura na grandeza e imensidão de Deus. Homens livres que percorreis o planeta, não tenho inveja da vossa vida neste mundo; fechado num convento e aos pés do crucifixo, tenho uma liberdade infinita, tenho um céu, tenho Deus. Que sorte tão grande ter um coração apaixonado por Ele!

Pobre irmão Rafael! Continua a aguardar, continua a esperar com essa doce serenidade que a esperança certa proporciona; permanece imóvel, pregado, prisioneiro do teu Deus, ao pé do Seu tabernáculo. Escuta ao longe o ruído que fazem os homens que desfrutam dos breves dias da sua liberdade no mundo; escuta ao longe as suas vozes, os seus risos, os seus choros, as suas guerras. Escuta e medita um momento; medita sobre um Deus infinito, o Deus que fez o céu e a terra e os homens, o Senhor absoluto dos céus e da terra, dos rios e dos mares; Aquele que, num instante, só por assim o querer, fez sair do nada tudo aquilo que existe.

Medita por momentos na vida de Cristo e verás que não há nela, nem liberdades, nem barulho, nem burburinho de vozes; verás o Filho de Deus submetido ao homem; verás Jesus obediente, submisso e numa paz serena, tendo como única regra de vida fazer a vontade de Seu Pai. E, finalmente, contempla Cristo pregado na cruz. De que serve então falar de liberdades?
 

São Rafael Arnaiz Baron in 'Escritos espirituais' (15/12/1936)


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sexta-feira, 30 de abril de 2021

O problema da Liberdade segundo o Bispo Fulton Sheen

A liberdade está plantada no espírito. Só as criaturas espirituais e racionais são livres. Só o homem tem determinação própria. Porque, dotado de razão, pode assentar os seus próprios projectos e propósitos e escolher os meios de usá-los. Sua suprema liberdade é obtida quando age dentro da lei de seu ser e escolhe dentre as boas coisas com o fim de alcançar o mais completo enriquecimento e a plenitude de sua personalidade em Deus.

A base de nossa liberdade, bem sabemos, é nossa alma racional. Mas existe uma garantia externa de nossa liberdade, já que não somos puramente espirituais, mas porque somos compostos de corpo e alma, matéria e espírito, necessitamos de algum sinal visível e externo de nossa invisível liberdade espiritual. Ou, se o homem é livre porque tem uma alma espiritual, não deverá haver um sinal externo para essa liberdade interna, algo que possa chamar de seu no mundo exterior, assim como chama a sua alma propriedade dentro de si?

Liberdade significa responsabilidade ou domínio de seus actos. Como pode, porém, esta responsabilidade interna melhor revelar-se externamente do que por meio da posse de alguma coisa material sobre a qual se possa exercer controle? O homem é mais livre em seu íntimo, quando possui alguma coisa no mundo exterior que possa chamar de seu, que possa dar cunho a sua personalidade.

Se o homem não possuísse nenhuma coisa que se pudesse tornar responsável, não seria livre nem dentro, nem fora de si. Deem-lhe, porém, alguma coisa que possa afeiçoar à sua própria imagem e semelhança, assim como Deus o fez à sua imagem e semelhança e o homem será economicamente livre. Tal coisa é a propriedade privada.

A propriedade privada, então, é a garantia económica da liberdade, tal como a alma é sua garantia espiritual -- a prova de que é tão livre em seus actos externos quanto em seu foro íntimo; a garantia de que é a fonte da responsabilidade não apenas no que se refere ao que ele é, mas também ao que possui.

O direito à propriedade privada baseia-se na dignidade da pessoa humana e não num privilégio do Estado. O Estado pode confirmar o direito natural, mas em nenhum sentido o cria. O direito à propriedade está, portanto, fundado na natureza humana. Não é o Estado que nos dá este direito. O homem tem esse direito antes do Estado e o Estado não pode destruí-lo sem destruir a natureza do homem.

Pelo facto de a propriedade em suas relações externas ser o sinal da liberdade, é que a Igreja tem feito da larga distribuição da propriedade privada a pedra angular de seu programa social. 'A riqueza, constantemente aumentada pelo progresso económico e social, deve ser distribuída por entre os vários indivíduos e classes de modo tal que seja alcançado o bem comum de todos' (Quadragesimo Anno).

A Igreja, por saber que a propriedade privada é a garantia económica de uma pessoa ou família, luta por ela. Porque renunciar à propriedade é ficar alguém sujeito a outrem. Se renunciar ao meu direito à propriedade, ficarei sujeito, quer:

1 - Ao Estado ou coletividade, como no comunismo;
2 - Ao próximo, como o capitalismo selvagem o quer;
3 - A Deus, como no voto de pobreza (neste caso, ele tudo possui, mas a tudo renuncia, pois nada tem a desejar).

Porque a abolição da propriedade é o começo da escravidão, opõe-se a Igreja ao capitalismo selvagem que encerra a propriedade nas mãos de poucos e ao comunismo, que confisca inteiramente em nome da colectividade.

Profundamente interessada na liberdade do homem, recorre a Igreja a um meio eficaz: sugere-lhe aquilo que o fará livre, isto é, dá-lhe alguma coisa que ele possa chamar de seu.''

Bispo Fulton Sheen in 'O Problema da Liberdade'


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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Expressão da Liberdade

1. A liberdade de expressão para o ser realmente deve ser uma expressão da liberdade. A liberdade é um “órgão” espiritual que, ao contrário do que muitos pensam, não é indiferente ou neutro perante a realidade, mas sim inclinado ou orientado para a verdade e o bem. A liberdade é a capacidade de se auto-determinar na realização do bem. É certo que em virtude do pecado original, do pecado do mundo (o “ambiente” de pecado) e do pecado actual (o de cada um) esta inclinação encontra resistências, enganos, ilusões, podendo distorcer-se e perverter-se. Por isso, aquilo que é essencialmente uma revelação da dignidade da pessoa no seu decidir e agir pode ser usado para a degradar e corromper. 

Daqui se costuma concluir que “a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro”. Não conheço a origem deste dito, nem o seu significado genuíno. Mas a formulação, tal como soa, não me parece feliz. De facto, somente a coexistência de liberdades favorece, nutre e vivifica a liberdade de cada um. E uma vez que cada pessoa só se realiza humanamente enquanto é responsável pelo seu decidir e agir, importa exercitar-se na tolerância para com os indivíduos que erram ou caiem (afinal, de algum modo, todos nós) na sua demanda da verdade e do bem. A liberdade de expressão é então um reconhecimento da dignidade da pessoa, uma possibilidade de se auto-comunicar, de contribuir para o bem comum, de aprendizagem, de correcção, de se enriquecer acolhendo os outros na sua auto-doação, pela expressão.

2. Se a liberdade de cada um se afirma na coexistência de liberdades isso significa que estas são entre si co-responsáveis, que, na sua relação, são o húmus que sustenta e possibilita a realização em plenitude da liberdade de cada qual. Por isso, cada um é responsável pelo bem comum, isto é, pelo bem de todos e de cada um, pela liberdade de todos e de cada um. Assim, quem transforma a liberdade de expressão, exorbitando-a, em vontade de poder (na acepção negativa desta expressão), escraviza-se à idolatria de si mesmo – ao procurar dominar os outros, a sua deles liberdade, destrói a seiva que alimenta a sua, acabando por fenecer. Ao mutilar a relação essencial do seu eu com a verdade e o bem na sua entrega aos outros, ao isolar-se, ao ensoberbecer-se, é manipulado pelo caos, tornando-se “missionário” da desagregação, da dissolução, da morte.

Compreende-se, pois, que a liberdade tenha de se defender recorrendo ao direito natural, isto é, à verdade universal, (que por sê-lo é a todos acessível) reconhecida pela razão, capaz de critério e de discernimento justos. O direito positivo, que não pode opor-se ao direito natural sob pena de se transformar na expressão dos interesses dos mais fortes, deve usar as suas capacidades de modo a potencializar as liberdades garantindo a coexistência das mesmas.

3. Compete, pois, ao direito dissuadir, prevenir e punir os abusos da liberdade de expressão. Que num estádio de futebol, por exemplo, alguém grite falsamente que há uma bomba, gerando o pânico, com todas as consequências que daí podem advir é claramente um abuso da liberdade de expressão. Também é evidente que a publicitação do consumo de droga constitui um atentado à liberdade. Reivindicar a liberdade de expressão para incitar ao sexo, fora de um contexto de amor verdadeiro e irrevogável, é claramente um abuso de quem tem poderosos interesses económicos e uma agenda tenebrosa. O direito deve salvaguardar a moralidade pública (o que consta aliás das nossas leis, embora sejam letra morta), porque esta é fonte de liberdade. 

Do mesmo modo que não é um atentado à liberdade de expressão impedir a publicitação do incesto, da pedofilia ou do consumo de droga, também os grandes meios de comunicação social, por exemplo, que nos dias de hoje são dotados de um poder imenso de modelar e manipular as consciências deviam ser sujeitos a um rigoroso escrutínio jurídico que os penalizasse duramente pelos sistemáticos atentados à dignidade e à liberdade das pessoas. Tanto mais que estas, abandonadas a si mesmas, não têm possibilidade nem capacidade de defesa adequadas ás injustiças de que são vítimas. Em nome da liberdade de expressão estes poderosíssimos meios recorrem habitualmente a uma censura selectiva, ignorando sistematicamente o que não convém aos seus objectivos, e distorcem acontecimentos e opiniões, sem que uma grande multidão dos receptores, possa sequer ter disso consciência.

Num conluio entrecruzado de interesses económicos, políticos/ideológicos e comunicacionais a vontade de poder manipula inclusive os instrumentos jurídicos - elaborados para garantir a liberdade de expressão e prevenir os seus abusos -, para perseguir e silenciar todos aqueles que legitima e responsavelmente se exprimem contra a tirania da mentalidade dominante opondo-se ao totalitarismo que subjuga e aliena a liberdade.

Padre Nuno Serras Pereira


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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Vontade, liberdade e pureza de coração

A vontade dos seres criados não está feita para ser livre sendo senhora de si própria; está chamada a conformar-se com a vontade de Deus. Se com ela se conformar por submissão livre, é-lhe dado participar livremente no aperfeiçoamento da criação. Se se recusar a fazê-lo, a criatura livre perde a sua liberdade. 

A vontade do homem mantém o livre arbítrio, mas ele é seduzido pelas coisas deste mundo, que puxam por ele e o empurram em direções que o afastam do desenvolvimento da sua natureza tal como Deus a quis, e da finalidade que ele próprio estabeleceu na sua liberdade original. Para além desta liberdade original, perde a segurança da sua resolução, torna-se vago e indeciso, é importunado por dúvidas e escrúpulos, ou fica endurecido no seu desregramento.

Contra isso, não há outro remédio senão seguir a Cristo, o Filho do homem, que, não só obedecia diretamente ao Pai dos Céus, como também Se submeteu aos homens que para Ele representavam a vontade do Pai. A obediência tal como Deus a quis liberta a nossa vontade escrava de todos os laços com as coisas criadas e devolve-lhe a liberdade. É também o caminho para a pureza do coração. 

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa in 'Meditação para a festa da Exaltação da Santa Cruz'


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sábado, 28 de abril de 2018

Não é só o interior que conta, não podemos esquecer as práticas exteriores

Embora o essencial desta devoção (a Nossa Senhora) consista no interior, ela não deixa de ter várias práticas exteriores que não devemos esquecer: «É preciso fazer isto sem omitir aquilo»; quer porque as práticas exteriores, bem feitas, ajudam as interiores, quer porque elas recordam ao homem, que é conduzido pelos sentidos, aquilo que ele fez ou deve fazer; até porque elas são próprias para edificar o próximo que as vê, o que não acontece com as puramente interiores.

Que nenhum mundano, portanto, critique, ou meta aqui o nariz a dizer que a verdadeira devoção está no coração, que é preciso evitar o que é exterior, onde pode entrar a vaidade, que se deve esconder esta devoção, etc. 

Respondo-lhes com o Mestre: "Que a vossa luz brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que fazeis e louvem o vosso Pai que está nos Céus"; não queremos dizer, como observa São Gregório, que façamos as nossas devoções e acções exteriores para agradar aos homens e conseguir louvor, o que seria vaidade; mas fazem-se, por vezes, diante dos homens, para agradar a Deus e para que Ele seja glorificado por isso, sem qualquer preocupação com o desprezo ou louvor dos homens. 

São Luís Maria Grignon de Monfort in Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria


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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Se Deus é amor por que razão criou o Inferno?

Basicamente, as objecções dos que não crêem são duas:

a) é totalmente desproporcional impôr uma punição infinita por uma ofensa finita;

b) um Deus amoroso não poderia torturar eternamente um filho Seu no Inferno.

Parece-me que a apologética tradicional tem-se esmerado por mostrar: 

a) que uma ofensa à majestade infinita de Deus não é “finita” e sim infinita, uma vez que a gravidade da ofensa mede-se, também, pela dignidade do ofendido (e assim, v.g., um murro que eu desferisse contra três homens diferentes seria gradualmente mais grave conforme o esmurrado fosse um jovem colega de trabalho, um idoso ou o meu pai), e a justiça exige alguma proporção entre crime e castigo. 

b) Deus é amor mas é também, em igual – e infinita – medida, justiça, e é precisamente o amor d’Ele que permite aos Seus filhos optarem por negá-Lo; de modo que, rigorosamente falando, é possível dizer, em alternativa a “Deus condena as almas ao tormento eterno”, que “as almas rejeitam a Deus e se condenam, portanto, à separação definitiva d’Ele”.

Mas fica a parecer que essas coisas não se compreendem perfeitamente quando não se tem uma noção clara dos seus fundamentos: dito de outra maneira, as perguntas acima estão mal-formuladas. O que importa, na verdade, não é que Deus tenha criado o Inferno, e sim que Ele tenha feito homens livres e, portanto, capazes quer de mérito, quer de culpa. Quando se entende isso com todas as suas necessárias consequências, todo o resto do quebra-cabeça resolve-se sem grandes dificuldades intelectuais.

O que é ser «livre»? É poder ser responsabilizado pelas suas escolhas e, por conseguinte, ser por elas premiado ou castigado. É evidente que a liberdade humana não é “absoluta” porque o seu conhecimento é limitado e a sua vontade é fraca; isso não está em discussão. Mas existe alguma liberdade no homem e, portanto, em alguma medida ele é capaz de mérito ou demérito, de prémio ou de castigo.

«Mérito» e «culpa» estão aqui empregados no sentido mais directo de um prémio devido por uma acção moralmente virtuosa e uma punição imposta em consequência de uma atitude moralmente condenável. As duas coisas estão em estreita relação de mútua dependência: uma vez que ambas dependem daquela liberdade fundamental de optar pelo bem ou pelo mal. Não é possível haver mérito se não existir possibilidade de culpa (uma vez que a virtude de uma escolha reside precisamente na rejeição à possibilidade de se fazer a escolha oposta – caso contrário, não haveria liberdade verdadeira) e não é possível existir culpa se não houver possibilidade de mérito (vice-versa). Ambas emanam, directa e imediatamente, da liberdade humana: só há mérito/culpa porque há liberdade e, se há liberdade, há também e necessariamente mérito e culpa.

Portanto, a raiz do prémio e da punição está na liberdade humana, é-lhe inerente e, aliás, faz parte da sua própria definição: ser livre é ser responsável por seus actos, e ser responsável pelos seus actos é ser capaz de receber, por eles, retribuições positivas ou negativas. Se qualquer um desses três termos – liberdade, mérito e culpa – deixasse de existir, os outros dois cessariam de haver no mesmo exacto instante. Ou os três existem, ou não existe nenhum. Por definição. Não dá para ser de outro modo.

Ora, qual é a característica central da Criação de Deus no que concerne ao ser humano? É que Ele nos fez à Sua imagem e semelhança, i.e., fez-nos dotados de inteligência e de vontade, de livre-arbítrio, fez-nos capazes de mérito e culpa. E a liberdade é um bem: por isso que Deus criou-a. E é um dom precioso, preciosíssimo: por isso é que foi por amor a nós que Ele no-lo concedeu. E o livre-arbítrio foi-nos concedido para que optássemos por Deus. Se há homens que optam livremente por rejeitá-Lo, aí já é uma coisa cuja possibilidade – pela própria natureza da liberdade humana – não pode ser afastada.

E quanto ao Inferno ser eterno? Ora, só há duas opções: ou a capacidade humana de ganhar méritos e acumular culpas – de ser premiado e castigado – cessa em algum momento, ou ela não cessa jamais, et tertium non datur. Se ela cessa em algum momento (v.g. com a morte – é a posição católica), então as pessoas que estão no Paraíso nele não podem mais pecar para o perder e, pela mesma razão, as que estão no Inferno não podem se arrepender para de lá sair. E, se ela não cessa em momento algum, então não deixará jamais de haver culpas a serem expiadas, posto que sempre haverá novos pecados em almas eternamente capazes de pecar. Em qualquer dos dois casos, portanto, o Inferno precisa de ser eterno. A diferença é apenas se algumas pessoas ficarão lá de uma vez por todas ou se todas as pessoas ficarão eternamente entrando e saindo de lá. Olhadas as coisas por esse ângulo, não parece que a segunda hipótese seja melhor do que a primeira, não é verdade?

Algumas vezes já me perguntam porque é que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim do Éden, onde Adão poderia facilmente alcançar-lhe os frutos. Ora, os pais terrestres mantêm as facas de cozinha e os produtos químicos fora do alcance das suas crianças: por que motivo Deus, Pai Perfeitíssimo, fez exactamente o contrário disso com Adão e Eva? A resposta é que Adão e Eva não eram crianças sem uso da razão, e sim seres humanos inteligentíssimos e extremamente aptos, adultos capazes de auto-determinação. Eles não comeram do fruto proibido como uma criança que se magoa sem querer com uma tomada, mas exactamente ao contrário: o Pecado Original foi cometido livre e deliberadamente, com plena consciência e manifesta vontade. É exactamente por isso que é pecado.

E porque é que, ainda, Deus permitiu que os nossos Primeiros Pais tivessem a possibilidade de cometer uma coisa tão horrenda como o Pecado? Por tudo o que já se disse até aqui, a resposta é imediata: porque Deus amava-os e, amando-os, queria premiá-los com a participação na Sua Eterna Bem-Aventurança a título de mérito, e para que os homens merecessem (na medida contingente da sua natureza de criatura) a Vida Eterna era necessário que eles pudessem, ao mesmo tempo, rejeitar a oferta de Deus. Liberdade, mérito e culpa existem sempre e necessariamente os três juntos, lembremo-nos. Eis aqui, pois, nascidos ao mesmo tempo, de um mesmo gesto de liberalidade divina, o livre-arbítrio, o Céu e o Inferno.

Num dos primeiros cantos (o terceiro, se a memória não me falha) da Comédia de Dante, o poeta coloca no frontispício da porta que conduz às profundezas do Hades uma inscrição que diz ter sido o Amor Supremo quem criou o Inferno. E foi exactamente isso o que aconteceu: foi por Amor que Deus criou os homens livres, e é da liberdade humana que decorre a possibilidade de amar a Deus ou de O rejeitar, de ir ao Céu ou ao Inferno. O verso do poeta é perfeito, e não significa que um sadismo divino criou, para próprio capricho, arbitrariamente, um lugar para torturar os homens: não, nada disso. Significa, isso sim!, que o Amor queria premiar os homens com a Vida Eterna – e, para que tal fosse possível, por uma necessidade imperiosa daquilo mesmo que essas palavras significam, era necessária esta porta pela qual se pode chegar à morada das dores.

Uma vez que se entenda isso, aquelas objecções iniciais deixam de fazer sentido; e, em contrapartida, sem que se compreenda a história completa, nenhuma explicação parcial da justiça do Inferno é capaz de convencer.

Jorge Ferraz in Deus lo vult


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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Escolheu a Sagrada Comunhão para última refeição antes de ser executado

Ledell Lee, recluso no Estado do Arkansas (Estados Unidos da América), foi executado no passado dia 20 de Abril. Lee foi condenado à pena de morte em 1993, depois de ter assassinado uma vizinha com extrema violência. 

Podendo escolher o que queria comer na sua última refeição, antes de ser executado, o condenado escolheu receber "apenas" a Sagrada Comunhão. 

Rezemos para que esta decisão tenha sido um sinal de verdadeiro arrependimento pelos seus crimes e de verdadeira comunhão com Deus que o criou e morreu por ele na Cruz.


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domingo, 17 de janeiro de 2016

Este Cardeal esteve preso durante 13 anos mas era livre

"Estou feliz aqui, nesta cela, onde os fungos crescem no meu estrado de dormir, porque Vós estais comigo, porque desejais que eu viva aqui convosco. Falei muito durante a minha vida: agora não falarei mais. É a Vossa vez de falar-me, Jesus: eu Vos escuto." 

Cardeal François-Xavier Van Thuân in 'Cinco pães e dois peixes - Do sofrimento do cárcere, um alegre testemunho de fé' 


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Se Deus aparecesse nas notícias

"Se Deus aparecesse nas notícias, que lugar restaria à liberdade humana, ao livre arbítrio e à Fé? Como poderíamos duvidar de uma evidência? Como faria o homem o caminho da confiança, de volta a uma relação entretanto traída? 

Não! A maior razão da Fé reside na salvaguarda da liberdade humana. Em reganhar uma confiança entretanto perdida pela Queda. É preciso viver a revolução permanente, contra o espírito da época, contra a heresia da moda. Só assim se obtém o perdão e o regresso a casa."

G. K. Chesterton




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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Falsa liberdade

São almas que fazem barricadas com a liberdade. A minha liberdade, a minha liberdade! Têm-na e não a seguem; olham-na e põem-na como um ídolo de barro dentro do seu entendimento mesquinho. É isso liberdade? Que aproveitam dessa riqueza sem um compromisso sério, que oriente toda a existência? 

Um tal comportamento opõe-se à categoria própria, à nobreza, da pessoa humana. Falta a rota, o caminho claro que oriente os seus passos na terra; essas almas – decerto já as encontraram, como eu – depressa se deixarão arrastar pela vaidade pueril, pela presunção egoísta, pela sensualidade. 

S. Josemaria Escrivá in Amigos de Deus, 28–29


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Deputados portugueses pedem a libertação de Asia Bibi

Deputados portugueses enviaram hoje um “apelo urgente” ao presidente da República do Paquistão para que a apreciação do último recurso sobre a acusação a Asia Bibi decida “no sentido da libertação”.

O apelo foi enviado pelo Grupo Parlamentar de Solidariedade com os Cristãos Perseguidos no Mundo através de uma carta dirigida à embaixadora da República Islâmica do Paquistão em Lisboa, enviada hoje à Agência ECCLESIA.

“Sabemos que o caso de Asia Bibi tem, amanhã, um dia decisivo. E é por esse motivo que escrevemos a V. Ex.a, pedindo que transmita com urgência o nosso apelo e a nossa extrema preocupação ao Presidente da República Islâmica do Paquistão, Sua Excelência Mamnoon Hussein, e demais autoridades relevantes do país”, pode ler-se na carta.

O Grupo do Parlamento português recorda que esta quarta-feira, 22 de Julho, em Lahore, o Supremo Tribunal paquistanês “apreciará o último recurso sobre a acusação absurda e a injusta condenação que pende sobre Asia Bibi, decidindo ou no sentido da libertação, ou pela confirmação da condenação à morte”.

“O nosso apelo é para que Asia Bibi seja finalmente libertada e restituída, em segurança, a seus filhos e família, pondo-se termo à perseguição de que, como cristã, tem sido objeto por parte de grupos e correntes extremistas, estando presa há mais de 2.200 dias sob a acusação de blasfémia. Importa pôr termo a este caso de violação de direitos humanos fundamentais que, repetidas vezes, vem chocando a opinião pública internacional”, escrevem os deputados.

Na carta assinada por José Ribeiro e Castro, os deputados manifestam confiança na “Justiça e no sentido humanitário das autoridades paquistanesas”.

O Grupo Parlamentar de Solidariedade com os Cristãos Perseguidos no Mundo é constituído pelos deputados José Ribeiro e Castro, presidente, Carina Oliveira e António Cardoso, vice-presidentes, e por António Braga, António Cardoso, António Proa, Artur Rego, Conceição Ruão, Graça Mota; Inês Teotónio Pereira; Isabel Galriça Neto; João Figueiredo; João Lobo; João Portugal, Maria Ester Vargas, Paula Gonçalves, Raúl de Almeida, Rosa Arezes, e Teresa Anjinho.

in Agência Ecclesia


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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Democratas? - D. Nuno Brás

Vários blogs de notícias davam há dias conta de um discurso da senhora Hillary Clinton, proferido no passado dia 24 de abril, durante a VI cimeira anual “Mulheres no Mundo”, no Lincon Center, em Manhattan. A um dado momento afirmava a possível candidata à Casa Branca pelo Partido Democrata: “Os códigos culturais profundamente arraigados, as crenças religiosas e as fobias estruturais têm que ser modificadas. Os governos devem usar os seus recursos coercivos para redefinir os dogmas religiosos tradicionais”.

Devo dizer que não me surpreendem estas afirmações. Não me surpreende a sua “democraticidade” (os governos devem usar a força coerciva contra as religiões que não pensem como a senhora Clinton), nem me surpreende o seu conteúdo (os dogmas tradicionais devem ser redefinidos). Não me surpreende porque se trata simplesmente de afirmar com clareza aquilo que, desde há décadas a esta parte tem sido a estratégia escondida mas real de muitos governos e organizações internacionais provenientes da área política de Hillary Clinton, e que encontramos expresso no “politicamente correcto”, propagandeado aos quatro ventos e transformado em modo correcto de pensar e viver.

Em Portugal já conhecemos as duas estratégias. Já a vimos em ação durante a I República, quando Afonso Costa fez publicar a chamada “Lei da Separação” entre a Igreja e o Estado, mas que não passava de uma tentativa de determinar a vida da Igreja ainda mais que os últimos anos da monarquia, com uma perseguição clara a tudo quanto fosse católico. E nos anos que se seguiram vários foram os governos (alguns bem mais próximos de nós no tempo) que de um modo ou de outro foram usando a sua influência para determinar não apenas a presença mas também o próprio conteúdo da fé, particularmente quando esta se manifesta publicamente.

Até há pouco, parecia que a velha perseguição irracional dos inícios do século XX já tinha acabado. Afinal, aquela que é uma possível Presidente dos Estados Unidos (ela e, desconfio, tantos outros) ainda não a esqueceu como possibilidade a ser usada.

Como é óbvio, estes “democratas” dirão sempre que todos têm o direito a pensar de modo diferente. Mas, secretamente, existe neles uma ressalva mental que se manifesta também no seu agir: os outros têm todos os direitos desde que pensem e queiram viver como eles.

D. Nuno Brás in Voz da Verdade


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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A senhoria de Deus - D. Nuno Brás

O mundo parece esquecer-se cada vez mais de Deus. Ou antes: procura, como Adão, construir um deus à sua medida. Com efeito, o “divino” ou aquilo que diga respeito a uma outra eventual dimensão da vida humana que não aquela que vivemos neste momento e neste lugar da história, continua a estar presente (e muito) no nosso quotidiano. Habitualmente associado ao medo e ao horror. Como se não nos bastasse o mundo em que vivemos.

Longe vão os tempos dos racionalistas empedernidos, onde tudo era (ou parecia ser) fruto daquela lógica fria que a razão humana, com todos os seus limites, conseguia estabelecer: com um certo estoicismo, todos os comportamentos eram determinados pela lógica e pelo pensamento.

Da insuficiência da razão, resultou depois uma atitude contrária, onde tudo é sentimento, opinião, “apetecer” e “achar”. Colocámos a razão de lado. Vivemos consoante nos apetece, sem pensar, e querer assumir as responsabilidades pelo que fazemos, dizemos ou somos. Pelo menos nos tempos livres, porque no trabalho há que seguir as normas e as regras, em grande parte ditadas pela fria razão económica. Por isso muitos detestam o trabalho, ainda que o reconheçam essencial para sobreviver.

E o ser humano sente-se ou cada vez mais prisioneiro de si e das suas decisões, ou estupidamente inconsciente, a vaguear numa espécie de vazio em que transformou a sua vida.

Bem diferente é o Reino de Deus. Àquele que vive com Deus é dada a liberdade de ser. Não apenas aquela liberdade que todos os seres humanos vivem por sua natureza, mas a própria liberdade infinita que nos é dada a partilhar cada vez mais à medida que nos deixamos conhecer por Deus – e, assim, podemos ser nós próprios, conscientes das diferentes opções que tomamos e responsáveis por elas, mas com um horizonte de vida que vai muito para além do momento.

Sem que nos seja descartada a responsabilidade dos nossos actos, das nossas escolhas ou palavras, o seu peso é partilhado por Deus. E o jugo torna-se suave. E, depois, o cuidado do irmão – daquele que, ao nosso lado e connosco, de um modo ou de outro, é igualmente convidado a perceber Deus presente na sua vida.

Longe de nos tirar o que quer que seja, a senhoria de Deus na nossa vida dá-nos tudo, porque tudo é dom da Sua bondade.

in Voz da Verdade


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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Grito o meu amor à liberdade pessoal - S. Josemaria Escrivá

Quando, nos meus anos de sacerdócio, não direi que prego mas que grito o meu amor à liberdade pessoal, noto nalguns um gesto de desconfiança, como de quem suspeita que a defesa da liberdade implica um perigo para a fé. Que se tranquilizem esses pusilânimes. Só atenta contra a fé uma errada interpretação da liberdade, uma liberdade sem qualquer fim, sem norma objectiva, sem lei, sem responsabilidade, numa palavra, a libertinagem. Infelizmente, é isso que alguns defendem; essa reivindicação é que constitui um atentado contra a fé.

Por isso, não é exacto falar de liberdade de consciência, que equivale a considerar de boa categoria moral o facto de o homem rejeitar Deus. Já recordámos que nos podemos opor aos desígnios salvadores de Nosso Senhor; podemos, mas não devemos fazê-lo. E se alguém tomasse essa atitude deliberadamente, pecaria ao transgredir o primeiro e o fundamental dos mandamentos: amarás Iavé com todo o teu coração .

Defendo com todas as minhas forças a liberdade das consciências, que significa que não é lícito a ninguém impedir que a criatura tribute culto a Deus. Têm de se respeitar os legítimos anseios de verdade: o homem tem obrigação grave de procurar Nosso Senhor, de O conhecer e de O adorar, mas a ninguém na terra é lícito impor ao próximo a prática de uma fé que este não tem, tal como ninguém pode arrogar-se o direito de prejudicar quem a recebeu de Deus.

A Igreja, nossa Santa Mãe, sempre se pronunciou pela liberdade e rejeitou todos os fatalismos, antigos ou menos antigos. Declarou que cada alma é dona do seu destino para bem ou para mal. E os que não se afastaram do bem irão para a vida eterna; os que cometeram o mal, para o fogo eterno. 

in Amigos de Deus, 32–33


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segunda-feira, 10 de março de 2014

Química? - D. Nuno Brás

Está hoje na moda entre os jovens (e menos jovens) chamar “química” à atração física que alguém sente por outro. Não sei as origens desse costume. Mas sei que ele trouxe consigo duas realidades que não deixam de me preocupar.

Em  primeiro lugar, o facto de reduzir as relações humanas a uma reação química. Ao início, o uso da expressão parecia ser uma simples comparação: tal como dois reagentes dão origem a uma realidade nova, assim também os apaixonados deixavam que nascesse o amor entre eles. Mas daqui já se foi mais longe, e hoje já nos encontramos no campo da afirmação da pretensa realidade (ainda há dias encontrei alguns estudantes do ensino secundário que pensavam deste modo), ou seja: a paixão e o amor mais não seriam que o fruto de uma reação química que existiria no nosso corpo, provocada pela presença daquele outro ser. Assim como dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio juntos dão lugar à água, assim os seres humanos inevitavelmente se sentiriam impelidos um para o outro. Tudo, mesmo as relações entre seres humanos passaria a ser comandado pela inevitabilidade. Talvez mesmo algum cientista tenha a pretensão de descobrir a lei que comanda essa “química”…

Depois, aquilo que à primeira vista seria um “acto de liberdade”, ou mesmo de “libertinagem” (contra os tabus e as regras da sociedade), mais não seria que, afinal, uma inevitabilidade química. A liberdade, a generosidade, o amor seriam apenas grandes mentiras em que viveríamos. Entre seres humanos, afinal, mais não existiria que, como nos outros animais, o inevitável instinto. Toda a história universal, todas as construções, todo o altruísmo, tudo o que nos permite decidir e ser responsáveis, mais não seria que fruto de uma reação química. E o mesmo se diga de tudo o que é aberração: todos os monstros ditadores; todos os criminosos mais ou menos comuns, afinal não seriam responsáveis pelos seus atos… Seria apenas “química”!

Mas não percebemos que nos encontramos à beira do abismo e da auto-destruição? Não tenho dúvidas que a humanidade será capaz de reagir. Mas, até lá, muitos (sobretudo jovens) se perderão pelas veredas deste caminho educativo, mais ou menos espalhado pelas nossas escolas. E desses havemos de responder, por não os termos ajudado a olhar a beleza do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus!

in Voz daVerdade


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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vários testemunhos sobre Liberdade - José P. Frazão e Aura Miguel

Faz dez anos que Aurélio deixou as ruas de Setúbal. Rumou à Associação de Vale d'Acor, que há quase duas décadas recupera toxicodependentes no concelho de Almada. Foi ali que Aurélio diz ter encontrado a liberdade. Longe da outra vida triste e miserável.

- O senhor sente-se livre agora?
- Livre. Livre e muito livre.
- Se a pergunta fosse feita na outra fase da sua vida, também diria que era livre...
- Na outra vida era livre, mas não era. Tinha que ir pedir dinheiro para a droga, tinha que ter aquilo todos os dias. Não era livre quando ia arrumar carros no cruzamento. No Verão, tirava 100 euros por dia. Era tudo para aquilo. Livre sou agora.
- Qual é a sua esperança?
- A minha esperança é ser feliz.

Quando Aurélio nasceu, Pedro já era adolescente. Foi militar, empregado de mesa e caixeiro-viajante. De cabelo branco, 57 anos, tem no corpo três décadas sem sentido, de consumo de drogas duras, de conhecimento profundo do Portugal ilegal.

- Tive dinheiro com fartura. Acabei por perder tudo. Ainda tenho duas filhas, sou casado - casei há 25 anos pela Igreja. A minha mulher nunca me abandonou, mas, nos últimos anos de consumos, já não tinha ninguém. Nem família. Cheguei ao ponto das pessoas se encontrarem comigo na rua e mudarem de lado para não bater comigo de frente.

A liberdade de tomar mais responsabilidades
Pedro teve a experiência de ficar sem o que se tem. E é necessariamente mais livre quem tem muito? Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI, aceita o desafio de responder. Está em Lisboa, num edifício com vista para a Avenida da… Liberdade.

- Eu ganho muito bem, mas não sou rico no sentido de ter muito património. Mas ganho muito bem e isso é público.
- O dinheiro traz liberdade?

Fernando Ulrich faz uma longa pausa antes de responder. Quebramos o silêncio.

- É uma provocação...
- Não, não... É uma questão muito interessante.

O presidente do BPI olha em frente e procura uma resposta no inexpressivo canto da sala.

- É tudo relativo. Neste momento, por causa desta pergunta, estava a olhar para trás, quando não ganhava nada bem, quando era mais novo. Se era mais ou menos livre? Não consigo sentir uma grande diferença. À medida que a vida avança, nós vamos também assumindo responsabilidade perante outras pessoas, a propósito de dinheiro. Ganhar melhor dá liberdade de poder tomar mais responsabilidades.

Respostas em clausura
A Europa e o mundo esperaram um dia por uma certa jovem, formada em relações internacionais, que reunia todas as condições para uma carreira de sucesso. Mas um chamamento fê-la entregar-se ao Carmelo, um mosteiro de clausura, quando tinha 27 anos. O nome fica no anonimato.

- A minha relação com Jesus - é a coisa mais importante na minha vida - faz conhecer-me melhor. Vejo que talvez não fosse assim tão livre, interiormente. Vejo egoísmos, vejo caprichos meus, cedências e até disparates que podia ter evitado e não evitei. Entregava-me àquele emprego e, mesmo assim, chegava ao fim do dia e não tinha aquela plenitude de felicidade interior. Eu até lhe digo mais: foi literalmente como se tivesse esgotado todas as possibilidades de realização humana e profissional. Eu tinha 350 amigos e passei a ter 3, porque bastavam-me. Era como se o meu coração estivesse cativo. Apercebi-me que o meu coração estava cativo de Jesus. Estava apaixonada por ele.

- Lá fora podia fazer o que lhe apetecia, do outro lado das grades. Aonde é que se joga a liberdade aqui dentro?

- A liberdade tem que ver com as convicções profundas que eu tenho, que eu alimento, sobre as quais eu reflicto. Depois, as decisões que eu tomo são em função dessas convicções. Além disso, essa liberdade precisa sempre ser educada, moldada, iluminada e ajudada. Normalmente, tem que ser maior do que nós, porque senão ficamos nós a medida da nossa liberdade: o meu querer, o meu gosto, gosto ou não gosto, apetece-me ou não me apetece. Isso não é e não nos torna felizes.


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terça-feira, 17 de abril de 2012

Usar bem a liberdade – Pe. Rodrigo Lynce de Faria

«Não sei se isto está bem ou está mal. Sinceramente, quero lá saber! O que eu sei é que gosto disto. E também sei que sou livre. Ninguém — nem Deus — me pode impedir de fazer aquilo que me apetece. Ninguém me pode impedir de ser feliz. Aqueles que insistem na existência do bem e do mal, lá no fundo, pretendem impedir-nos de sermos felizes. Porquê? Porque são uns infelizes. São uns frustrados. Nunca fizeram o que lhes apetecia na sua vida. Sempre cumpriram — religiosamente — o seu dever. E esse seu dever asfixiou-os, murchou-os e impediu-os de aproveitarem a existência».

Todos já ouvimos algum raciocínio deste tipo. É um modo de pensar que se encontra em muitas pessoas ao nosso redor — sobretudo, nos jovens. No entanto, não é um modo de pensar exclusivo dos nossos dias. Sempre esteve presente, na História da Humanidade, o equívoco de confundir a liberdade com fazer aquilo que nos apetece. É um equívoco relativamente comum, mas isso não significa que não seja, ao mesmo tempo, um erro crasso com funestas consequências para a vida de uma pessoa. Consequências que — muitas vezes — só se descobrem tarde demais.

Não é à toa que alguém disse — e com razão — que a educação consiste sobretudo em ensinar a usar bem a liberdade. É que nós, quer queiramos quer não, estamos obrigados a ser livres. Estamos obrigados a escolher um caminho concreto a percorrer nesta vida, entre as variadas bifurcações que se nos apresentam todos os dias. No entanto, temos de ter atenção a um “pequeno” detalhe da liberdade que nos pode passar despercebido: estamos obrigados a escolher mas não estamos obrigados a acertar.

Com o mesmo dom da liberdade podemos construir a nossa vida ou destruí-la. Podemos desenvolver-nos ou degradar-nos. Podemos realizar o bem ou deixar-nos arrastar pelo mal. Podemos chegar à felicidade eterna ou perdê-la para sempre. Sermos livres não é — sem dúvida nenhuma — uma brincadeira com consequências inócuas. A liberdade não nos foi concedida para fazermos o que nos apetece, mas para fazermos aquilo que nos convém. A isso chamamos “bem”. Ao que não nos convém, chamamos “mal”.

E se — com esperteza saloia — chamarmos ao “mal” “bem” porque nos apetece fazê-lo? Nesse caso, deformamos a nossa visão da realidade. No entanto, a realidade — a verdade das coisas — não se deforma. O tempo acabará por dar razão à realidade — não à nossa deformação mental. Não é por fecharmos os olhos à realidade que ela desaparece ou deixa de ser aquilo que é.

Pois bem: para fazer o bem com constância — e não só quando nos apetece — temos de possuir uma autêntica força de vontade. A força de vontade liberta-nos das cadeias da nossa própria debilidade — das cadeias dos nossos apetites sensíveis. Torna-nos mais livres porque a liberdade exige um senhorio sobre nós mesmos. Quem não consegue dominar-se a si mesmo nunca poderá ser verdadeiramente livre. Será sempre escravo dos seus gostos e dos seus caprichos.


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domingo, 1 de janeiro de 2012

Mensagem do Papa Bento XVI no dia mundial da Paz 2012

Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.

A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à acção educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».

Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado. Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o recto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.



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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Drama da Liberdade - José Maria Duque

No dia 22 Julho um homem, depois de ter detonado uma bomba no centro de Oslo, matou 69 pessoas a tiro numa ilha onde decorria um acampamento de uma juventude partidária. Nos dias que se seguiram o autor destes crimes bárbaros foi sempre apelidado de louco.

Nos últimos dias Londres e várias outras cidades de Inglaterra estiveram a saque. Milhares de pessoas saíram à rua para saquear e incendiar. Neste caso os media continuam a falar da morte de um homem pela polícia, do desemprego, do fecho de centros sociais.

Nestes dois casos, como habitualmente, procuram-se sempre uma oportunidade para desresponsabilizar as pessoas: são loucas, não tem emprego, não tem onde se reunir. De algum modo queremo-nos proteger, dizer a nós mesmos que estas situações se devem apenas a uma conjuntura, que podem ser evitadas com remédios, com acompanhamento psicológico, com politicas sociais. Mas quer em Oslo quer em Londres encontramo-nos diante de um dos maiores dramas do homem: o facto de que cada pessoa poder escolher o mal. Não precisa de ser louca, nem de ter problemas sociais. O homem tem livre arbítrio.

O homem moderno deseja um sistema tão perfeito que já não precise de ser bom. Mas tal sistema não existe: a escolha entre a santidade ou o mal é colocada cada dia, cada instante, diante de nós. Este é o drama da liberdade.


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