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terça-feira, 31 de março de 2026

O que é o Ofício de Trevas?

I - O nome

O Ofício de Trevas ou as Trevas (Matutina Tenebrarum) é o Ofício das Matinas e Laudes dos três últimos dias da Semana Santa. O nome deriva:

a) Das trevas naturais de meia-noite ou ao anoitecer, horas estas destinadas à recitação do ofício.
b) Da prisão de Jesus durante a noite. O Salvador nos diz que esta hora era a do poder das trevas: hæc est hora vestra et potestas tenebrarum (Lc 22, 53).
c) Das trevas litúrgicas, pois que durante o ofício se apagam as luzes da igreja e se vão apagando todas as velas.
d) Das trevas simbólicas da paixão. Quando Jesus morreu, trevas cobriram a Terra. Este ofício, lembrando as trevas do Calvário, representa o luto comovedor da Esposa de Cristo, da Igreja. Por isso faltam o invitatório solene, os hinos, o Gloria Patri; o acompanhamento musical, o Te Deum. Todas as antífonas, os salmos, as lições tratam do divino Sofredor.

As três primeiras lições são tiradas das lamentações de Jeremias e formulam na boca da Igreja a dor íntima sobre os ultrajes feitos ao Filho de Deus e sobre a impenitência histórica de Jerusalém, figura da impenitência da alma. Historicamente o ofício divino destes três dias conservou a sua forma antiga.

II - A cerimónia e o seu significado
1. Preparativos

Do altar retiram-se as toalhas, a cruz e os castiçais. No lado da epístola, põe-se o candelabro triangular (tenebrário, galo das trevas) com “15 velas de cera amarela”, as velas do altar devem ser “exeadem cera”. No meio do coro coloca-se uma estante nua para o livro das lamentações.

2. Descritivo Geral do Rito

a) Acende-se as velas do tenebrário. Revestidos de sobrepeliz, os membros do clero entram em procissão.
b) Todas as Antífonas e os Salmos são entoados por dois chantres: todas as vezes estes devem dirigir-se ao meio do coro, fazer reverência ao altar, e entoarão a Antífona. Em seguida convidarão com uma vénia o lado do Evangelho a continuar a salmodia. Depois de fazer a reverência ao altar e saudarem-se mutuamente, retornam aos seus lugares. No fim de cada salmo, um acólito (sacristão) dirige-se ao santuário e apaga uma vela do tenebrário começando pela inferior do lado do evangelho; depois do segundo, apaga a vela inferior do lado da epístola; ao terceiro salmo apaga a segunda vela do lado do evangelho, etc.
Depois da entoação da primeira antífona e do salmo, todos se sentam. Permanece-se assim durante os três noturnos, levantando-se apenas para a recitação do Pater noster que precede as lições de cada noturno.

c) Alguns versos antes do fim do terceiro salmo, o cerimoniário do coro (coloca a estante no lugar, e) chama o chantre que cantará a primeira lamentação. Ele acompanha-o à estante, e permanece ao seu lado durante o canto da lição; em seguida ele acompanha-o ao seu lugar. O cerimoniário do coro fará assim para as nove lições (retirando a estante depois de ter acompanhado o último chantre ao seu lugar). O tom que se deve cantar as lições do segundo e terceiro noturno é o da profecia.

d) Depois do nono responsório, permanece-se sentado para o canto das Laudes. Ao começar o Benedictus, todos se levantam e se benzem, porque são palavras do Santo Evangelho. Ao verso “Ut sine timore” apagam-se todas as luzes da igreja; assim, só a vela que está no vértice do tenebrário permanece acesa. O clero senta-se enquanto se repete a Antífona do Benedictus, depois ajoelham-se para o canto do Christus factus est, que é entoado pelo mais digno do coro. Enquanto se repete a Antífona, o acólito pega a vela que permanece acesa, e coloca-se no lado da Epístola, tendo a vela apoiada na borda do altar. À entoação do Christus, esconde a vela atrás do altar, sem a apagar. A conclusão da oração que segue o Christus faz-se em voz baixa. O cerimoniário do coro bate a mão sobre o banco ou sobre o seu livro, e o coro faz barulho da mesma maneira, até o momento em que o acólito que tem a vela escondida a faz aparecer. Então o barulho cessa. O acólito recoloca a vela no tenebrário, e apaga-a. Em seguida o clero se levanta, e se retira em procissão.

3. Explicação mística

Essa cerimónia tão simples é muito rica em significado. Estamos nos dias em que a glória do Filho de Deus se eclipsou sob as ignomínias da Paixão. Ele, que era a luz do mundo, torna-se um verme e não um homem, causa de escândalo para os seus discípulos. Todos fogem d’Ele; o próprio Pedro o nega. Este abandono, esta defecção quase geral, é figurada pela sucessiva extinção das velas do candelabro triangular, e mesmo das do altar.

No entanto, esta luz desprezada de Cristo, não está extinta, embora as sombras a tenham coberto. O acólito coloca a vela misteriosa sobre o altar, o que simboliza Cristo que sofre e morre sobre o Calvário; de seguida, esconde a vela atrás do altar, simbolizando assim a sepultura de Nosso Senhor, cuja vida foi apagada pela morte durante três dias. Neste momento então, faz-se escutar um confuso barulho no santuário, que é deixado na escuridão pela ausência da última vela. Este barulho, unido às trevas, simboliza a perturbação dos inimigos e as convulsões da natureza: no momento em que o Salvador expirou sobre a cruz, a Terra tremeu, as rochas se fenderam e os sepulcros foram abertos. Porém, de repente, a vela reaparece, sem ter perdido nada da sua luz; o barulho cessa, e todos rendem homenagem ao Vencedor da morte.

A razão histórica do rito de apagar pouco a pouco as velas do tenebrário provavelmente é a imitação do modo antigo de contar. Apaga-se uma vela depois de cada salmo, para constar quantos foram recitados.

4. As leituras

a) Primeiro Nocturno: Estas são tiradas, em cada um dos três dias, do livro das Lamentações de Jeremias. Aí vemos o desolante espectáculo da Cidade Santa destruída por causa do castigo da sua idolatria. No entanto, este desastre, nada mais é do que a figura de um outro muito pior. Jerusalém, tomada pelos Assírios, ainda conserva o seu nome, e o profeta diz que o cativeiro durará setenta anos.

b) Mas, na sua segunda ruína, a cidade infiel perderá até mesmo seu nome. Reconstruída mais tarde pelos romanos, ela foi chamada de Ælia Capitolina. Foi só depois da paz da Igreja que ela voltou a ser chamada Jerusalém. Além disso, nem a piedade de Santa Helena e de Constantino, nem os esforços dos Cruzados, conseguiram manter a liberdade de Jerusalém, de modo que a sua sorte é ser escrava, e escrava dos infiéis, até o fim dos tempos.

c) Foi nestes dias que Jerusalém atraiu a si tão terrível maldição. E é para fazer-nos conhecer a grandeza de seu crime, que a Igreja nos faz ouvir os prantos do profeta. Esta elegia é cantada num tom cheio de melancolia, que talvez remonta à antiguidade judaica.

d) Segundo Noturno: Durante estes três dias, a Igreja lerá alguns trechos das Enarrationes super Psalmos de S. Agostinho, sobre salmos proféticos da Paixão de Jesus.

e) Terceiro Noturno: Nos três dias a Igreja nos fará ler trechos das epístolas de S. Paulo:

- Na Quinta-Feira Santa é a epístola aos Coríntios: depois de ter chamado a atenção dos fiéis de Corinto em razão dos abusos que se haviam introduzido nas suas assembleias, S. Paulo conta a instituição da Eucaristia, que teve lugar no dia de hoje. E, depois de mostrar quais as disposições que deve ter a alma para aproximar-se da mesa sagrada, mostra o crime que comete quem comunga indignamente.
- Na Sexta-Feira Santa lê-se a epístola aos Hebreus: S. Paulo nos mostra que o Filho de Deus tornou-se Pontífice e intercessor pelos homens diante do Seu Pai, por meio da efusão do Seu Sangue, pelo qual Ele lava nossos pecados e nos abre as portas do Céu.
- No Sábado Santo, a Igreja continua a ler, na epístola aos Hebreus, a doutrina de S. Paulo sobre a virtude do Sangue divino. O Apóstolo explica que o testamento de Cristo em nosso favor, só pôde consumar-se por meio da Sua morte.

in formaextraordinaria.blogspot.pt


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quarta-feira, 11 de junho de 2025

Começam hoje as Têmporas do Pentecostes

As Têmporas são celebrações litúrgicas tradicionais da Igreja Católica, originalmente instituídas para santificar o ano civil e agradecer a Deus pelos frutos da terra. Elas ocorrem quatro vezes ao ano, marcando as mudanças das estações, e são conhecidas como “Quatro Têmporas”. As Têmporas de Pentecostes — também chamadas de Têmporas de Verão no hemisfério norte — possuem características muito singulares por acontecerem dentro da Oitava de Pentecostes, também conhecida como Oitava do Espírito Santo.

As Têmporas nasceram em Roma e, desde a Antiguidade, eram celebradas na Quarta-Feira, Sexta-Feira e Sábado. Nos primeiros séculos, esses dias não eram vistos prioritariamente como penitenciais, mas como uma preparação espiritual para o longo percurso até o fim do ano eclesiástico. O Papa São Leão Magno, por exemplo, via o jejum dessas Têmporas como uma preparação útil e necessária, mais do que uma simples expiação de pecados.

Com o tempo, especialmente a partir da Idade Média, as Têmporas de Pentecostes passaram a ser marcadas por práticas penitenciais, como jejum e abstinência de carne, além de serem tradicionalmente ligadas à ordenação de novos sacerdotes. A liturgia desses dias, no entanto, apresenta uma situação única: fazia-se penitência durante uma grande festa, pois a Oitava de Pentecostes é um tempo de júbilo pelo dom do Espírito Santo, com uso de paramentos vermelhos e canto do Glória, algo incomum para períodos penitenciais.

O Sábado das Têmporas era um dia normalmente utilizado para conferir as quatro ordens menores e três ordens maiores aos seminaristas.


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terça-feira, 27 de maio de 2025

Os 3 dias de Rogações antes da Ascensão de Jesus

No calendário tradicional, estes 3 dias antes da Ascensão são dias de Rogações, nos quais a Igreja reza a Ladainha dos Santos, Salmos e outras orações como súplicas destinadas a: impedir os flagelos da justiça divina e atrair as bênçãos da misericórdia de Deus sobre os campos, obter a humildade e, com a invocação da Mãe de Deus e dos santos, pedir o fim das doenças e a preservação das culturas. No fundo trata-se de oferecer uma compensação à justiça divina pelo orgulho e malícia do Homem.

Tradicionalmente é feita uma procissão através dos campos e das terras cultivadas. Nos séculos passados, especialmente em Inglaterra, esta procissão era feita em torno dos limites de um território paroquial, para implorar a Deus que abençoasse a paróquia de uma maneira especial.

ORIGEM

Após as calamidades públicas ocorridas no século V, no Delfinado de Vienne, São Mamerto, bispo dessa diocese, estabeleceu que se fizesse uma procissão solene de penitência nos três dias anteriores ao dia da Ascensão do Senhor. No ano 816, o Papa Leão III adoptou essa procissão em Roma, fazendo com que estendesse a toda a Igreja Universal.

Rogação deriva do latim rogare, que significa mendigar ou pedir, e vem do evangelho do V Domingo depois da Páscoa (o Domingo passado), no qual São João refere as palavras de Nosso Senhor: "...pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa." Por isto, o V Domingo depois da Páscoa é frequentemente chamado Domingo da Rogação.

in liturgiaytradicioncatolica.wordpress.com


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domingo, 6 de abril de 2025

Imagens e Crucifixos cobertos a partir deste Domingo da Paixão

Por que razão se tapam as imagens desde o Domingo da Paixão (quinto Domingo da Quaresma)? 

Tradicionalmente, as duas semanas do tempo "da Paixão" começam no quinto Domingo da Quaresma. A primeira semana é a Semana da Paixão e a segunda semana é a Semana Santa.

A leitura tradicional do Evangelho para este Domingo foca-se no ódio crescente das autoridades judaicas contra Cristo. Acusam-nO de ser um samaritano, de fazer feitiços, de blasfémia e de estar possuído por Satanás. Não pensam em Cristo como "um bom mestre". Julgam que é um agente demoníaco.

A antiga leitura do Evangelho no Primeiro Domingo da Paixão (o quinto Domingo da Quaresma) do capítulo oitavo do Evangelho de S. João acaba com estas palavras “Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou". (Jo 8, 59)

De acordo com Santo Agostinho, neste momento quando "Jesus se ocultou", Cristo ficou de facto invisível devido à Sua natureza divina. Santo Agostinho escreve:

"Ele não se esconde a Si mesmo num canto do templo, como se tivesse medo, ou a correr para uma casa, ou desviando-se para trás de uma parede ou coluna: mas pelo Seu Poder Divino, fazendo-se a Si mesmo invisível, passa pelo meio deles."

Para ajudar a exprimir este mistério, as estátuas e imagens Católicas são tapadas com véus roxos desde as Vésperas do fim de tarde antes do Domingo da Paixão. Jesus "esconde-Se a Si mesmo".

As estátuas permanecem cobertas até ao Glória de Sábado Santo. Este é o momento em que acaba o jejum da Quaresma e começa a glória da Páscoa. Este desvelar revela Cristo que se revelou a si mesmo como ressuscitado e vitorioso.

Também é um costume piedoso para os leigos Católicos cobrirem com véus roxos as imagens e estátuas de casa durante a época da Paixão.

A nossa Fé Católica é tão rica! Assegurem-se que ensinam aos vossos filhos e netos estas tradições antigas e bonitas!

Taylor Marshall


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quarta-feira, 5 de março de 2025

Quarta-feira de Cinzas: o dia em que tudo muda

O mundo estava ontem ocupado com os seus prazeres, enquanto os verdadeiros filhos de Deus tomavam uma alegre despedida dos regozijos: mas nesta manhã tudo muda. O solene anúncio feito pelo profeta foi proclamado em Sião
: o solene jejum da Quaresma, um tempo de expiação, a aproximação do grande aniversário de Nosso Redentor. Animemo-nos, pois, e nos preparemos para o combate espiritual.

Mas neste combate do espírito contra a carne precisamos de uma boa couraça. A Santa Igreja sabe o quanto precisamos disto; e por isso ela nos convoca a entrar ao templo de Nosso Senhor, para que ela possa nos armar para este santo embate. O que esta couraça é, sabemo-lo de São Paulo, que a descreve: “Estai, pois, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestindo a couraça da justiça, tendo os pés calçados de zelo para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da Fé, para que possais apagar todos os dardos inflamados do (espirito) maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus”. 

O próprio príncipe dos apóstolos também nos endereça estas palavras solenes: “Tendo, pois, Cristo sofrido (por nós) na carne, armai-vos também vós do mesmo pensamento: aquele que sofreu na carne, deixou de pecar”. Entramos hoje numa longa campanha de guerra sobre a qual os apóstolos nos falaram: quarenta dias de batalha, quarenta dias de penitência. Não haveremos de retornar cobardemente, uma vez que as nossas almas sejam impressionadas com a convicção de que a batalha e a penitência haverão de passar. Demos ouvidos à eloquência do rito solene que abre a nossa Quaresma. Deixemo-nos ir para onde nossa Santa Madre Igreja nos guia.

Os inimigos com os quais devemos lutar são de duas espécies: interno e externo. O primeiro são as nossas paixões; o segundo são os demónios. Ambos foram trazidos a nós pelo orgulho, e o orgulho do homem teve início no momento em que se recusou a obedecer a Deus. Deus perdoou os pecados do homem mas puniu-o por eles. A punição era a morte e esta foi a forma da sentença divina: “porque tu és pó e ao pó hás-de tornar”. Que nós nos lembremos disto! A lembrança do que nós somos e do que nos haveremos de tornar teria controlado esta altiva rebelião que tantas vezes nos fez romper com a lei de Deus. 

E se, pelo tempo que ainda nos resta perseverarmos na fidelidade a Nosso Senhor, devemos humilhar-nos, aceitar a sentença e olhar para a vida presente como um caminho para o túmulo. O caminho pode ser longo ou curto; mas haverá de nos levar ao túmulo. Lembrando-nos disto, haveremos de ver todas as coisas na sua verdadeira luz. Haveremos, pois, de amar Deus, que Se dignou de colocar o Seu Coração sobre nós, apesar de sermos criaturas de morte: iremos odiar, com profunda contrição, a insolência e a ingratidão, por meio das quais passamos grande parte de nossos dias, isto é, pecando contra o nosso Pai Eterno: e nós não apenas desejaremos, mas estaremos ansiosos a passar esses dias de penitência, que Nosso Senhor tão misericordiosamente nos dá para repararmos a Sua justiça ultrajada.

Este foi o motivo pelo qual a Igreja teve em enriquecer a sua liturgia com este rito solene, no qual tomamos assistência nesta Quarta. Quando, há mais de mil anos, a Igreja decretou a antecipação do início da Quaresma para os últimos quatro dias da semana da Quinquagésima, instituiu esta cerimônia impressionante onde marca a fronte dos seus filhos com cinzas, enquanto lhes estas terríveis palavras, com as quais Deus nos sentenciou à morte: “Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó hás-de voltar”.

Mas o uso de cinzas como um símbolo de humilhação e penitência é de um tempo muito anterior à instituição a qual aludimos. Encontramos referências frequentes disto no Antigo Testamento. Job, apesar de gentio, aspergiu a sua carne com cinzas, que, pois, humilhado, poderia propiciar a misericórdia divina: e isto ocorreu dois mil anos antes da vinda de Nosso Senhor. O profeta real (Sofonias), falando de si mesmo, relata que misturou cinzas com o seu pão, por conta da ira e indignação divina. Muitos exemplos similares se podem encontrar nas Sagradas Escrituras; mas é tão óbvia a analogia entre o pecador que assim demonstra sua contrição e o objeto através do qual ele o demonstra, que lemos tais casos sem surpresa. 

Quando um homem decaído se humilha diante da justiça divina, que sentenciou o seu corpo a retornar ao pó, como poderia ele mais apropriadamente expressar a sua contrita aceitação da sentença do que aspergindo a si próprio ou à sua comida com cinzas de madeira consumida pelo fogo? Este fervoroso reconhecimento de si próprio como pós e cinzas é um acto de humildade e a humildade dá confiança em Deus, que resiste aos orgulhosos e perdoa os humildes.

É provável que, quando a Igreja instituiu a cerimônia da Quarta-feira na semana da Quinquagésima, não a tenha intencionado para todos os fiéis, mas apenas para aqueles que cometeram alguns daqueles crimes que a Igreja infligia penitência pública. Antes da Missa do dia iniciar, eles apresentavam-se na Igreja onde todos os fiéis se encontravam. O sacerdote recebia a confissão dos seus pecados e vestia-os com vestes de saco e colocava a cinza nas suas cabeças. Após esta cerimónia, o clero e os fiéis prostravam-se e recitavam em voz alta os sete Salmos Penitenciais. 

Seguia, então, uma procissão na qual os penitentes tomavam parte descalços; e, por sua vez, o Bispo endereçava estas palavras aos penitentes: “Olhai! Nós vos banimos das portas da Igreja em razão dos vossos crimes e pecados, assim como Adão, o primeiro homem, foi banido do Paraíso em razão das suas transgressões”. O clero cantava, então, diversos responsórios tirados do livro do Génesis, nas partes em que se menciona a sentença pronunciada por Deus, quando condenou o homem a comer o pão do suor de seu trabalho, pois a Terra estava condenada por causa do pecado. As portas eram, então, fechadas e os penitentes não tinham permissão de ultrapassar os limites até a Quinta-Feira Santa, quando podiam se aproximar e receber a absolvição.

Datando do século XI, a disciplina de penitências públicas caiu em desuso e o sagrado rito de impor as cinzas na cabeça de todos os fiéis se tornou tão comum que, por extensão, foi considerado como uma parte essencial da liturgia Romana. Antigamente era prática aproximar-se descalço para receber este solene ‘memento’ da nossa insignificância. No século XII, até mesmo o Papa, ao passar da Igreja de Santa Anastácia para a Igreja de Santa Sabina, onde se fazia a cerimónia, percorria toda a distância descalço, assim como faziam os cardeais que o acompanhavam. A Igreja já mais exige essa penitência exterior; mas está tão ansiosa como nunca para que esta santa cerimónia, a qual estamos para tomar assistência, produza em nós os sentimentos de penitência e arrependimento.

Dom Prosper Guéranger


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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Humildade e sofrimento

A humildade e o sofrimento libertam o homem de todo o pecado; a humildade acaba com as paixões espirituais, o sofrimento com as corporais.

 São Máximo o Confessor



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terça-feira, 2 de abril de 2024

São Francisco de Paula, fundador da Ordem dos Mínimos

São Francisco de Paula nasceu na região da Calábria, Itália, numa cidade chamada Paula. Os seus pais chamavam-se Viena de Fuscaldo e Giácomo Daléssio. O casal tinha muita devoção a São Francisco de Assis. Por isso, os dois pediram ao seu santo de devoção a graça de terem um filho. O casal foi atendido nas suas orações. Assim, no dia 27 de Março de 1416 o filho deles nasceu e recebeu o nome de Francisco, em homenagem ao santo de Assis.

Chamamento de Deus

Aos 12 anos, o pequeno Francisco foi levado para o Convento de São Marcos. O menino permaneceu lá durante 1 ano, mas não se sentiu tocado pelo tipo de vida que levavam lá e voltou para a sua cidade. Depois disso, Francisco e os seus pais fizeram uma bela viagem visitando lugares santos da Itália.  Nessa viagem, o jovem São Francisco de Paula foi tocado pela graça.

Ao visitar o Monte Cassino (Mosteiro fundado por São Bento), o jovem conheceu a história do patriarca São Bento e sentiu-se chamado para a vida de eremita. Prontamente pediu aos seus pais que o deixassem viver isolado, numa vida de rigores, oração e penitência. Sofrendo por um lado e alegrando-se por outro, os pais de São Francisco de Paula permitiram.

O jovem e fundador São Francisco de Paula

O jovem São Francisco de Paula passou a morar isolado numa gruta no deserto. Fazia grandes sacrifícios, orações e jejuns, aos quais ele chamava quaresmas. Num desses momentos de profunda oração, o próprio Arcanjo São Miguel fez-lhe uma visita, entregando a Francisco uma espécie de ostensório, no qual estava escrita escrita a palavra Caridade.

Francisco uniu esta palavra a dois outros lemas que tinha adoptado na sua vida: humildade e penitência. Daí em diante, começou a pensar na fundação de uma ordem religiosa. A inspiração foi tomando corpo no seu coração e decidiu pedir autorização ao Papa. O Papa concedeu. Assim, tendo apenas 19 anos, São Francisco de Paula começou a fundação da ordem a que ele chamou: Ordem dos Mínimos.

E este nome tinha um alcance muito claro em toda a filosofia de vida da nova ordem. Para poderem entrar na Ordem dos Mínimos, seria preciso tornar-se pequeno, o menor entre todos, o último, atendendo ao que disse Jesus: os últimos serão os primeiros.  O nome, aliás, foi sugerido pelo Papa Alexandre VI, em 1435.

Construção do mosteiro na cidade de Paula

O Jovem São Francisco de Paula começou, então, a construir um mosteiro numa colina que ficava não muito distante da sua cidade natal, Paula.  Nesse tempo, Deus tinha-lhe dado o dom dos milagres. Por isso, a sua fama crescia. Os habitantes de Paula vinham ajudá-lo em todas as necessidades da construção.

Depois disso, a Ordem dos Mínimos cresceu. São Francisco de Paula fundou mosteiros em vários outros lugares como na Sicília, França e Calábria. Como o movimento que ele iniciou crescia, ele fundou também um mosteiro para mulheres que seguiam as regras da Ordem dos Mínimos.

Milagres de São Francisco de Paula

Vários milagres são relatados na história de São Francisco de Paula. O mais extraordinário é a ressurreição de um sobrinho seu chamado Nicolas. Ele tinha o dom da cura, por isso, o povo procurava-o incessantemente nas suas enfermidades. Inúmeras curas são relatadas pela intercessão de São Francisco de Paula. E as curas, através da sua intercessão, continuaram após a sua morte. Além disso, ele tinha também o dom de profetizar e o dom da Palavra, que arrebatava a todos nas suas pregações.

O santo analfabeto

Por incrível que pareça, São Francisco de Paula era analfabeto. Mesmo assim, rezava e pregava para todos, e todos corriam até ele para o ouvir, por causa do dom da Palavra e da grande sabedoria que Deus lhe dera.

Morte de São Francisco de Paula

São Francisco de Paula teve uma vida longa. No final da sua vida, ao perceber que a sua morte era iminente, reuniu os monges que estavam no mosteiro de Plessis, França, e deu-lhes as últimas instruções. Depois, pediu que rezassem juntos. São Francisco de Paula faleceu aos 91 anos. Era Sexta-Feira Santa do ano 1507.

Devoção a São Francisco de Paula

São Francisco de Paula foi canonizado pelo Papa Leão X no ano 1519. Em 1943 São Francisco de Paula foi declarado padroeiro dos marinheiros e dos casais que querem engravidar, por ele mesmo ter sido concebido depois de muita oração dos seus pais.

Oração a São Francisco de Paula

Ó São Francisco de Paula que vos distinguistes na Igreja pelo grande espírito de penitência, e em vida convertestes tantos pecadores com a vossa palavra, socorrestes tantos necessitados com os vossos prodígios, alcançai-nos também a aversão aos vícios e verdadeira contrição dos nossos pecados. Vós que fizestes tudo por caridade, pela caridade reconciliastes tantos homens fazendo-os abandonar o ódio e a inimizade, concedei a paz a cada um de nós, às nossas famílias e ao mundo inteiro, e fazei que também nós, seguindo o vosso exemplo, nos amemos uns aos outros como irmãos, e amemos a Deus sobre todas as coisas. Amém.

São Francisco de Paula, rogai por nós. 

in Cruz Terra Santa


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segunda-feira, 4 de março de 2024

Sugestões de Penitências para o resto da Quaresma

A Quaresma é um tempo de penitência para conversão pessoal e uma maior identificação com Jesus Cristo crucificado. Ficam aqui algumas ideias para que este importante tempo seja vivido com maiores frutos espirituais.

1) Penitências alimentares:

– Trocar a carne por peixe, ovos ou queijo;
– Comer menos arroz, feijão, pão, massa, para sair da mesa com um pouco de fome;
– Eliminar todos doces, refrigerantes, chocolate e demais guloseimas;
– Nas refeições, acrescentar algo que seja desagradável, como diminuir a quantidade de sal ou colocar um condimento que diminua um pouco o sabor da comida;
– Comer algum legume ou verdura que não se goste muito;
– Diminuir ou mesmo tirar as refeições intermediárias (como o lanche da tarde);
– Tomar café sem açúcar, ou água a uma temperatura menos agradável;
– Reservar algum dia para o jejum total ou parcial.

2) Penitências corporais:

(Apenas para ajudarem a não perdermos o sentido do sacrifício ao longo do dia, a não sermos relaxados, devendo ser pequenas e discretas)

– Dormir sem travesseiro;
– Sentar-se apenas em cadeiras duras;
– Rezar alguma oração mais prolongada de joelhos;
– Não usar elevadores ou escadas rolantes;
– Trabalhar sem se encostar na cadeira;
– Cuidar da postura corporal;
– Sair um pouco antes dos transportes públicos e fazer uma parte do caminho à pé;
– Deixar de usar o carro e usar um transporte público;

3) Penitências Morais

(São as mais importantes)

– Não reclamar das contrariedades do dia, mas agradecer e louvar a Deus;
– Sorrir, mesmo quando existe mau ambiente;
– Moderar a frequência às redes sociais, telefone e computador (reduzir a poucas vezes ao dia);
– Desligar as notificações do telefone;
– Fazer os serviços mais incómodos em casa e no trabalho, ajudando os outros;
– Acordar mais cedo para fazer oração;
– Não ouvir música no carro;
– Não ver televisão, mas dedicar este tempo à leitura;
– Não usar jogos de vídeo, caso seja viciado;
– Fazer algum trabalho voluntário;
– Rezar mais pelos outros do que por si mesmo;
– Reservar dinheiro para dar esmolas, mas sobretudo atenção aos mendigos;
– Falar bem das pessoas que se gostaria de criticar;
– Ouvir as pessoas incómodas sem as interromper;
– Dormir no horário previsto, mesmo sem vontade.

Padre José Eduardo


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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

A Penitência pedida pelo Céu, que é odiada pelo Mundo

Se há um conceito radicalmente estranho à mentalidade contemporânea, é o de penitência.
 
O termo e a noção de penitência evocam a ideia de um sofrimento que infligimos a nós mesmos para expiar culpas próprias ou de outros e para nos unirmos aos méritos da Paixão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mundo moderno rejeita o conceito de penitência porque está imerso no hedonismo e porque professa o relativismo, que é a negação de qualquer bem pelo qual valha a pena sacrificar-se, a menos que não seja a procura do prazer.
 
Só isso pode explicar episódios como o furioso ataque mediático em curso contra os Franciscanos da Imaculada, cujos conventos são retratados como locais de sevícias, apenas porque neles se pratica uma vida austera e penitente. Usar o cilício ou imprimir sobre o próprio peito o monograma do nome de Jesus é considerado uma barbaridade, enquanto praticar o sadomasoquismo ou tatuar indelevelmente o próprio corpo é, hoje, considerado um direito inalienável da pessoa.
  
Os inimigos da Igreja repetem, com toda a força de que os media são capazes, as acusações dos anticlericais de todos os tempos. O que é novo é a atitude daquelas autoridades eclesiásticas que, em vez de tomarem a defesa das religiosas difamadas, as abandonam, com secreta satisfação, ao carrasco mediático. A complacência surge da incompatibilidade que existe entre as regras a que estas religiosas insistem em conformar-se e as novas normas impostas pelo “catolicismo adulto”.
 
O espírito de penitência pertence, desde o início, à Igreja Católica, como nos recordam as figuras de São João Baptista e Santa Maria Madalena, mas, hoje, também para muitos homens da Igreja qualquer referência a antigas práticas ascéticas é considerada intolerável. No entanto, não há doutrina mais razoável do que aquela que estabelece a necessidade da mortificação da carne. Se o corpo está em revolta contra o espírito (Gl 5, 16-25), não é razoável e prudente castigá-lo?
 
Nenhum homem está livre do pecado, nem sequer os “cristãos adultos”. Portanto, quem expia os próprios pecados com a penitência não age de acordo com um princípio que é tão lógico quanto salutar? As penitências mortificam o ego, dobram a natureza rebelde, reparam e expiam os pecados próprios e de outros. Se, depois, consideramos as almas amantes de Deus, que procuram a semelhança com o Crucifixo, então a penitência torna-se uma necessidade do amor. São célebres as páginas do De Laude flagellorum, de São Pedro Damião, o grande reformador do século XI, cujo mosteiro de Fonte Avellana era caracterizado por uma extrema austeridade nas regras. «Desejaria sofrer o martírio por Cristo – escreveu –, mas não tenho oportunidade; mas, submetendo-me aos golpes, manifesto, pelo menos, a vontade da minha alma ardente».
 
Na história da Igreja, cada reforma ocorreu com o intuito de reparar, com as austeridades e as penitências, os males da época. Nos séculos XVI e XVII, os Mínimos, de São Francisco de Paula, praticam um voto de vida quaresmal que lhes impõe a abstenção perpétua não só de carne, mas de ovos, leite e todos os seus derivados; os Recolectos consomem a própria refeição no chão, misturam cinzas na comida, estendem-se, diante da porta do Refeitório, debaixo dos pés dos Religiosos que entram; os Irmãs de São João Deus preveem, nas suas constituições, «comer no chão, beijar os pés dos irmãos, sofrer repreensões públicas e acusar-se publicamente».
 
Análogas são as Regras dos Barnabitas, dos Escolápios, do Oratório de São Filipe de Néri, dos Teatinos. Não há instituto religioso que não preveja, nas suas constituições, a prática do capítulo das culpas, a disciplina várias vezes na semana, os jejuns, a diminuição das horas de sono e de descanso.
 
Bento XIV, que era um Papa manso e equilibrado, confiou a preparação do Jubileu de 1750 a dois grandes penitentes, São Leonardo de Porto Maurício e São Paulo da Cruz. Frei Diogo de Florença deixou-nos um diário da missão realizada, na Praça Navona, de 13 a 25 de Julho de 1759, por São Leonardo de Porto Maurício, que, com uma pesada corrente ao pescoço e uma coroa de espinhos na cabeça, se flagelava diante da multidão, gritando: “Ou penitência ou inferno”. São Paulo da Cruz terminava a sua pregação infligindo-se golpes tão violentos que, muitas vezes, algum fiel não resistia mais ao espectáculo e saltava para o palco, correndo o risco de ser atingido, para lhe parar o braço.
 
A penitência foi ininterruptamente praticada, durante dois mil anos, por santos (canonizados e não) que, com a sua vida, contribuíram para escrever a história da Igreja, de Santa Joana de Chantal e Santa Verónica Giuliani, que gravaram o Cristograma, com ferro incandescente, no seu peito, a Santa Teresa do Menino Jesus, que escreveu o Credo, com o seu sangue, no fim do livrinho dos Santos Evangelhos que trazia sempre no coração. Essa generosidade não caracteriza apenas as monjas contemplativas.
 
No século XX, dois santos diplomatas iluminaram a Cúria Romana: o Cardeal Rafael Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, e o Servo de Deus Mons. Giuseppe Canovai, representante da Santa Sé na Argentina e no Chile. O primeiro vestia, sob a púrpura cardinalícia, uma camisa de crina entrelaçada com pequenos ganchos de ferro. Do segundo, autor de uma oração escrita com o sangue, o Cardeal Siri escreve: «As correntes, os cilícios, os horríveis flagelos à base de lâmina da barba, as feridas, as cicatrizes perseguidas por supervenientes feridas não são o começo, mas o termo de um fogo interior; não a causa, mas a eloquente e reveladora explosão desse. Tratava-se da clareza pela qual, em si mesma e em cada coisa, via um valor para amar a Deus e pela qual via a sinceridade de qualquer outra renúncia interior assegurada no excruciante sacrifício do sangue».
 
Foi na década de 1950 que as práticas ascéticas e espirituais da Igreja começaram a declinar. O P. Giovanni Battista Janssens, Geral da Companhia de Jesus, interveio, mais de uma vez, para chamar os próprios irmãos de volta ao espírito de Santo Inácio. Em 1952, enviou-lhes uma carta sobre a «contínua mortificação», na qual se opunha às posições da nouvelle théologie, que tendiam a excluir a penitência reparadora e a impetratória, e escrevia que jejuns, flagelos, cilícios e outras asperezas devem permanecer escondidas dos homens, segundo a norma de Cristo (Mt 6, 16-8), mas devem ser ensinadas e inculcadas aos jovens jesuítas até ao terceiro ano de provação. As formas de penitência podem mudar ao longo dos séculos, mas o espírito, sempre oposto ao do mundo, não pode mudar.
 
Prevendo a apostasia espiritual do século XX, a própria Nossa Senhora, em Fátima, recordou a necessidade da penitência. A penitência nada mais é do que a rejeição das falsas palavras do mundo, o combate contra os poderes das trevas, que lutam, com os poderes angélicos, pelo domínio das almas e a mortificação contínua da sensualidade e do orgulho enraizados no mais profundo do nosso ser. Apenas aceitando este combate contra o mundo, o diabo e a carne (Ef 6, 10-12) poderemos compreender o significado da visão de que, dentro de um ano [em 2017, n.d.r.], celebraremos o centésimo aniversário.
 
Os pastorinhos de Fátima viram, «ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia que iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que, da mão direita, expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte, disse: Penitência, Penitência, Penitência!».
 
Roberto de Mattei in Radici Cristiane, traduzido para português e publicado por Dies Irae 



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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Os Católicos na origem do McFish

Quase toda a gente conhece a sandwich McFish do McDonald's, oficialmente conhecida como Filet O'Fish. Mas quase ninguém sabe que a sandwich apareceu por causa dos Católicos na América do Norte.

O McFish nasceu em Cincinnati, nos Estados Unidos, em 1962. Os Católicos eram cerca de 87% da população daquela região. E, na altura, faziam abstinência de carne todas as Sextas-feiras do ano, para além das da Quaresma. Os McDonald's perdiam imensos clientes às Sextas-feiras.

Por essa razão, Lou Groen, dono do McDonald's onde nasceu o McFish, apresentou uma nova sandwich à sede principal dos Estados Unidos, que aceitou.

Diz ele que "às Sextas-Feiras tinham apenas um rendimento de $75 por dia".

Na primeira Sexta-Feira em que pôs o McFish à venda no seu McDonald's, vendeu mais de 350 sandwiches. Tornou-se um autêntico sucesso que se espalhou por toda a América e, depois, pelo mundo. Foi também a primeira vez que se acrescentou um novo "hambúrguer" ao menu do McDonald's.

Os Papas e os Santos tinham razão quando diziam que o pior mal do mundo são os Católicos mornos. É impressionante o que acontece quando a população Católica é fiel e procura seguir as sugestões que a Igreja faz para ser Santos.

A abstinência às Sextas-Feiras durante todo o ano é obrigatória, pela Lei da Igreja, e é uma prática ascética que faz bem à alma e acrescenta alguma originalidade à vida das famílias.


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domingo, 28 de janeiro de 2024

Começa hoje a Septuagesima: 3 semanas de preparação para a Quaresma

Desde os primórdios do Cristianismo, havia uma prática de jejum antes da Páscoa. Rapidamente, o número de 40 dias de jejum estabilizou-se, em memória dos 40 dias de jejum de Jesus no deserto. No entanto, havia um problema, porque era proibido jejuar aos Domingos e na festa da Anunciação da Virgem Maria, que ocorre durante a Quaresma. Por isso, para "preencher" os dias que faltavam da Quaresma, começaram a antecipar a Quaresma numa semana.

Assim, passou a ser conhecido como Domingo Gordo ou Domingo de Quinquagesima. A partir desse dia, as pessoas começaram a deixar de comer carne (na tradição romana, daí a palavra "Carnaval"), e o jejum total começava na Quarta-Feira de Cinzas, preservando o simbolismo dos 40 dias de jejum da Quaresma. As primeiras adopções desta prática encontram-se em Roma do século VI e a sua difusão no Oriente é atribuída ao imperador Heráclio, como parte da sua penitência durante a invasão persa (embora Egeria insinue a existência do Domingo de Carnaval já no final do século IV em Jerusalém).

Pela mesma razão, rapidamente surgiu a prática de renunciar gradualmente a certos alimentos numa semana específica. Assim, duas semanas antes do primeiro Domingo da Quaresma, começava-se a jejuar de carne e, uma semana antes, limitava-se os produtos lácteos. Por fim, no Oriente e no Ocidente, foi acrescentado o terceiro Domingo antes da Quaresma, criando três semanas de preparação para a Quaresma.


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Santo Atanásio descreve a vida e tentações de Santo Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Os seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Depois da morte dos seus pais ficou só com a sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e reflectia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Actos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). 

Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele, Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras", terra muito fértil e formosa. 

Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem.

Então dedicou todo o seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egipto, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. 

Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente, tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo, e assim a sua memória lhe servia de livro.

Mas o demónio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e pôs-se a empregar suas velhas tácticas também contra ele. Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado da sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. 

Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. 

O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demónio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, reflectiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar.

Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que na sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-Se carne e deu ao Seu corpo a vitória sobre o demónio. Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10). 

Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo os seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto; e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. A minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! 

Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúde fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um dos seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demónios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. 

Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. 

Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demónio. 

Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demónios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente. E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. 

Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

De novo o Senhor não se esqueceu de Antão na sua luta, mas veio ajudá-lo. Quando olhou para cima, viu como se o tecto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demónios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado das suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu o seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade”.

Santo Atanásio in 'Vida de Santo Antão'


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