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terça-feira, 20 de maio de 2025

Chesterton destrói o Marxismo com a 'História das vacas'

Penso que a maioria dos seguidores de Karl Marx acredita numa doutrina chamada a teoria materialista da História. A teoria é, grosso modo, a seguinte: todas os acontecimentos da História encontram-se radicados numa causa económica. Em resumo, a História é uma ciência, a ciência da busca pela comida.

É verdade que a busca por comida é universal. Aliás, tão universal que nem é exclusivamente humana. As vacas têm um motivo económico; quase diria um motivo exclusivamente económico. A vaca preenche os requerimentos da teoria materialista da História. É por isso que a vaca não tem História. Uma História de vacas seria a coisa mais simples e mais enfadonha do mundo!

Dizer que os motivos do homem se resumem à motivação económica é como dizer que o homem só tem pernas, porque um homem suporta-se em comida como se suporta em pernas. Mas nenhuma teoria económica explica como é que debaixo de fogo, um homem se apoia nas pernas para combater enquanto que outro se apoia nas pernas para fugir.

Em suma, não existiria nenhuma História se o homem apenas se resumisse à teoria económica da História.

G.K. Chesterton in 'O Adorador do Sol'


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sexta-feira, 3 de maio de 2024

A grave acusação de Chesterton contra Capitalismo

Nunca será suficiente repetir que aquilo que destruiu a família no mundo moderno foi o Capitalismo. Sem dúvidas, isto poderia ter sido feito pelo Comunismo: isso se o Comunismo tivesse tido alguma oportunidade de crescer fora do ambiente semi-mongólico onde actualmente floresceu. 

Mas, sobre aquilo no qual somos tão preocupados, o que realmente causou a destruição do lar e encorajou o divórcio, que tratou as antigas virtudes domésticas com mais e mais desprezo, foi a época e o poder do Capitalismo. 

Foi o Capitalismo que forçou o feudo moral e a competição comercial entre os sexos; foi o Capitalismo que destruiu a influência dos pais de família em favor da influência do patrão; que conduziu o homem de sua casa à procura de empregos; que os forçou a viver perto de fábricas e firmas, ao invés de estarem próximos às suas famílias; e, acima de tudo, foi o Capitalismo que encorajou, por razões comerciais, a exibição de publicidade e novidades espalhafatosas, que, ns sua própria natureza, são a morte de tudo aquilo que é chamado dignidade e modéstia, pelas nossas mães e pelos nossos pais.


G. K. Chesterton in ''The Collected Works (The Well and the Shallows: Three Foes of the Family)''. Edit. Ignatius Press, 1990, Vol. 3, pp., 442-445


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quarta-feira, 12 de abril de 2023

A simplicidade dos relatos extraordinários

Se Moisés tivesse dito que Deus era a Energia Infinita, eu não teria a menor dúvida de que ele não havia visto nada de extraordinário. Porém, como ele disse que Deus era um arbusto em chamas, creio que é muito provável que contemplara realmente algo extraordinário.

Quando o céptico instruído declara: "As visões do Antigo Testamento eram locais, rústicas e grotescas", nós contestamos: "Naturalmente, pois eram genuínas". Se existisse um ser como Deus, e se Deus falasse com uma criança num jardim, a criança naturalmente diria que Deus vive no jardim e isso não me pareceria menos provável que fosse certo. 

Mas se a criança dissesse: "Deus está em todas as partes; é uma essência impalpável que envolve e sustenta todos os componentes do cosmos", se, digo eu, a criança se dirigisse a mim nesses termos que citei, inclinar-me-ia a pensar que era muito mais provável que tivesse estado com a professora do que com Deus.

G.K. Chesterton 


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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A superioridade da Igreja Católica

A Igreja contém o que o mundo não contém. A própria vida não atende tão bem como a Igreja a todas as necessidades de viver. A Igreja pode orgulhar-se da sua superioridade sobre todas as religiões e sobre todas as filosofias.

Onde têm os estóicos e os adoradores do passado um Menino Jesus? Onde está a Nossa Senhora dos muçulmanos, a mulher que não foi feita para nenhum homem e que está sentada por cima de todos os Anjos? Qual é o S. Miguel dos monges de Buda, cavaleiro e clarim que guarda para cada soldado a honra da espada? Quem poderia representar S. Tomás de Aquino na mitologia do bramanismo, ele que restabeleceu a ciência e o raciocínio da Cristandade?

E o mesmo nas filosofias ou heresias modernas. Como passaria Francisco, o Trovador, entre os calvinistas e, ainda, entre os utilitaristas da escola de Manchester? Como passaria Joana d'Arc, uma mulher, esgrimindo a espada que conduzia os homens à guerra, entre os Quakers ou a seita tolstoiana dos pacifistas? 

E, entretanto, homens como Bossuet e Pascal são tão lógicos e tão analistas como qualquer calvinista ou utilitarista, e inumeráveis santos católicos passaram as suas vidas predicando a paz e evitando as guerras.

Gilbert Keith Chesterton in  'O Homem Eterno'


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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Chesterton descreve na perfeição o que se passa com o Ocidente

Suponhamos que surja numa rua uma grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinzenta, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: 'Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. "Se a luz for em si mesma boa…".

Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todos correm para o poste e deitam-no abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz eléctrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois os seus objectivos eram maus. Alguns interessavam-se pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais. Outros porque queriam destruir alguma coisa. 

Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora temos que discutir no escuro.

G. K. Chesterton in 'Hereges' (1905)


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terça-feira, 4 de outubro de 2022

O exemplo de São Francisco

Escreve G. K. Chesterton que na História da Igreja a fé cristã conheceu, no mínimo, cinco vezes uma morte aparente. Um desses períodos dramáticos de «morte lenta da Igreja» foi o tempo de S. Francisco de Assis. Desta imagem particularmente lúgubre da Igreja do século XII dão testemunho as inúmeras bulas do Papa Inocêncio III, que condenavam os abusos mais escandalosos como a usura, a corrupção, a gula, a embriaguez, a libertinagem. 

Tendo como pano de fundo aquela enorme dissolução de costumes surgem na Europa grandes heresias fanáticas e agressivas. Dentre estas conta-se o movimento dos Albigenses e dos Valdenses que quase destruíram o cristianismo. Outro golpe infligido à Igreja foi igualmente o aumento dos pregadores itinerantes, que sistematicamente criticavam os eclesiásticos, frequentemente tomados pela ganância das riquezas, aos quais se contrapunham propagando modelos de pobreza evangélica.

Pelo contrário, Francisco nunca criticava ninguém. A sua opinião era a de que, se o mal reinava ao seu redor, devia em primeiro lugar converter-se a ele próprio, e não os outros. Se um tal luxo e uma tal libertinagem reinavam à sua volta, era ele quem deveria tornar-se radicalmente pobre e puro, assumindo a responsabilidade de tudo. Os santos distinguem-se dos propagadores de heresias no pormenor destes últimos quererem converter os outros em vez de começarem por si próprios, enquanto os santos dirigem o gume de toda a crítica contra a sua própria pessoa. Para que o mundo se torne melhor esforçam-se por se converter a si mesmos. 

Quanto mais Francisco se apercebia da corrupção e dos escândalos que o rodeavam, mais desejava assemelhar-se a Cristo, puro, humilde e pobre. Se o mundo era assim tão perverso, o culpado era Francisco e, assim sendo, era ele próprio quem devia converter-se radicalmente – e a história deu-lhe razão.

De facto, quando Francisco se converteu, quando se tornou tão «transparente» ao Senhor que o rosto de Cristo podia reflectir-Se nele, a Europa começou a levantar-se da sua queda. Realizou-se, desse modo, o sonho no qual Inocêncio III vira uma figura semelhante a Francisco a amparar as paredes periclitantes da Basílica de Latrão, também chamada a «mãe e a primeira de todas as igrejas» – símbolo de toda a Igreja – e assim salvá-la.

Pe. Tadeusz Dajczer in 'Meditações sobre a Fé'


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sábado, 30 de julho de 2022

A evidência racional do sobrenatural

É por motivos racionais, embora não seja por razões simples, que adiro ao cristianismo. Consistem esses motivos numa acumulação de factos diversos, que é também aquilo que justifica a atitude do agnóstico comum. Acontece, porém, que o agnóstico percebeu tudo mal. Ele é descrente por uma série de razões - todas elas falsas. 

Ele duvida porque a Idade Média foi uma idade bárbara, quando a verdade é que não foi; porque o darwinismo está provado, quando a verdade é que não está; porque não há milagres, quando a verdade é que há; porque os monges eram preguiçosos, quando a verdade é que eram diligentes; porque as freiras são infelizes, quando a verdade é que são particularmente alegres; porque a arte cristã era triste e apagada, quando a verdade é que era feita de cores berrantes e recoberta a ouro.

Contudo, no meio destes milhões de factos, todos orientados para o mesmo ponto, há naturalmente uma questão que se coloca, uma questão suficientemente sólida e distinta para ser tratada de forma breve, mas independente; refiro-me à ocorrência objectiva do sobrenatural. Dispomos de uma quantidade imensa de testemunhos humanos a favor do sobrenatural. 

Se as pessoas os rejeitam, só pode ser por uma de duas razões: rejeitam a história que o camponês conta acerca do fantasma, ou porque o homem é um camponês, ou porque se trata de uma história de fantasmas; isto é, ou negam o princípio de base da democracia, ou afirmam o princípio de base do materialismo, que consiste na impossibilidade abstracta de haver milagres. Têm todo o direito de o fazer; mas, em ambos os casos, essas pessoas é que estão a ser dogmáticas. Nós, os cristãos, aceitamos os indícios de facto; os racionalistas é que se recusam a aceitar as provas, e são constrangidos a fazê-lo em virtude do credo que professam. 

Por mim, não estou constrangido por credo algum relativo a esta matéria; de maneira que, analisando de forma imparcial determinados milagres dos tempos medievais e modernos, cheguei à conclusão de que eles de facto de se deram. Todos os argumentos contra estes factos são circulares. 

Se eu disser: "Os documentos medievais atestam determinados milagres como atestam determinadas batalhas", respondem-me: "É que os medievais eram supersticiosos"; mas, se eu quiser saber em que medida é que eles eram supersticiosos, a resposta será, em última análise, que o eram porque acreditavam em milagres. Se eu disser: "Um camponês viu um fantasma", respondem-me: "É que os camponeses são muito crédulos"; mas, se eu perguntar: "Mas porque é que eles são crédulos?", a única resposta que recebo é: "Porque vêem fantasmas." 

G.K. Chesterton in Orthodoxia


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quarta-feira, 20 de julho de 2022

Uma criança é um verdadeiro sinal da liberdade

Uma criança é um verdadeiro sinal da liberdade. Ela é um novo livre-arbítrio que se junta a todas as vontades deste mundo; ela é algo que os seus pais escolheram livremente tornar real; algo que livremente se propuseram proteger.
 
Eles têm a oportunidade de vivenciar que todo o desfrutar que ela proporciona (o que não é negligenciável) vem realmente dela e deles e de mais ninguém. Nasceu sem a intervenção de qualquer senhor ou aristocrata. Ela é uma criação e uma contribuição; ela é a contribuição deles para a Criação.

Ela também é muito mais bela, maravilhosa, divertida e fascinante do que todas as histórias fastidiosas ou ruídos cíclicos proporcionados pelas máquinas.
 
Quando os homens deixarem se sentir isto, perderam o seu apreço pelas coisas elementares, e por consequência, todo e qualquer sentido de proporção sobre o mundo. As pessoas que preferem os prazeres mecânicos a um tal milagre, estão entediadas e escravizadas. Preferem a escória às fontes mais elementares da vida.
 
G.K. Chesterton in 'The first fountains of life (The Well and the Shallows)'


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quinta-feira, 15 de abril de 2021

Chesterton, o sexo e a família

Frances Chesterton, mulher de G.K. Chesterton
Sexo é um instinto que produz uma instituição; e é positivo e não negativo, nobre e não básico, criativo e não destrutivo, precisamente porque produz esta instituição. 

Esta instituição é a família; um pequeno estado ou associação de bem comum que tem centenas de aspectos, logo que se inicia, que não são de todo sexuais. Incluem estima, justiça, festa, decoração, instrução, camaradagem, confiança. 

Sexo é a fechadura desta casa; e as pessoas românticas e imaginativas gostam de espreitar pela fechadura. Mas a casa é muito maior do que a fechadura. Porém, há gente que gosta de ficar à volta da fechadura sem nunca entrar na casa.

G.K. Chesterton in G.K.'s Weekly, 29 January 1928


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segunda-feira, 22 de março de 2021

A Natureza não é nossa Mãe, é nossa Irmã

O darwinismo pode ser usado para dar suporte a duas moralidades insensatas, mas nunca poderá ser usado para dar suporte a uma única moralidade sã. O parentesco e a competição entre todas as criaturas vivas podem ser usados com motivo para sermos insanamente cruéis ou insanamente sentimentais, mas não para um amor sadio pelos animais. 

Na base evolucionista podemos ser desumanos ou absurdamente humanos, mas não podemos ser humanos. O facto de nós e o tigre sermos um só pode ser uma razão para sermos compassivos para com o tigre. Ou pode ser uma razão para sermos tão cruéis como o tigre. Podemos ensinar um tigre a imitar-nos, mas não podemos, com muito mais rapidez, imitar o tigre. No entanto, em nenhum dos casos a evolução nos dirá como tratar um tigre racionalmente, isto é, admirar-lhe as listas e evitar-lhes as garras.

Se desejamos tratar um tigre racionalmente, teremos de voltar ao jardim do Éden. Continua a vir-me à mente uma lembrança obstinada: apenas o sobrenatural tem uma visão sã da Natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da moderna religião cósmica está, realmente, nesta afirmação: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente, se olharmos a Natureza como mãe, descobriremos que ela é uma madrasta. A questão principal do Cristianismo era esta: a Natureza não é nossa mãe; a Natureza é nossa irmã. 

Podemos orgulhar-nos da sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la. Isto dá ao prazer tipicamente cristão, na Terra, um estranho toque de leveza que quase chega à frivolidade. A Natureza foi uma mãe severa para os adoradores de Isis e Cibele; a Natureza foi uma mãe severa para Wordsworth ou para Emerson. 

Mas a Natureza não é severa para S. Francisco de Assis ou para George Herbert. Para S. Francisco de Assis, a Natureza é uma irmã, uma irmã mais nova: pequena e que gosta de dançar, de quem rimos e a quem também amamos.

G.K. Chesterton in Ortodoxia


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sábado, 9 de janeiro de 2021

"A pior mentira é aquela que é meia verdade" - G. K. Chesterton

Um comentário pode ser falacioso; uma notícia pode ser falsa. Mesmo que não seja falsa, pode ser escolhida para dar uma imagem completamente falsa do assunto em questão.

Seleccionar é a arte fina da falsidade. A pior mentira é aquela que é meia verdade.

Os jornalistas são os novos sacerdotes. Mas contrariamente aos antigos, não os norteia a contrição nem a fé na verdade. Nem tão pouco o sentido de pertença ao povo que deveriam servir.

G.K. Chesterton in 'Distortions of the Press' (1909) 


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sábado, 5 de dezembro de 2020

A Superstição do Divórcio - Chesterton

Se o divórcio for uma doença, já não é uma doença chique, como a apendicite, mas uma epidemia, como o sarampo. Já vimos que os jornais e os homens públicos, hoje em dia, fazem uma tremenda algazarra ao proclamar a necessidade de ajudar os pobres a obter um divórcio. Mas por que tanto ansiariam eles pela liberdade do pobre se divorciar, e nem um pouco por que ele tenha qualquer outra liberdade? Por que as mesmas pessoas ficam felizes, à beira das gargalhadas, quando ele se divorcia, e horrorizadas quando ele bebe uma cerveja? 

O que o pobre faz com seu dinheiro, o que acontece com seus filhos, onde ele trabalha, quando ele sai do serviço, tudo isso está cada vez menos sob o controle dele. Bancos de Empregos, Carteiras de Trabalho, Seguros-Desemprego e centenas de outras formas de supervisão e inspecção policial foram combinadas, para o bem ou para o mal, para fixá-lo cada vez mais estritamente num determinado lugar na sociedade.

Cada vez menos lhe é permitido procurar outro serviço; por que carga d’água se lhe quer permitir que procure outra mulher?! Ele está cada vez mais constrito a obedecer a uma espécie de lei muçulmana que proíbe a bebida; porquê facilitar que ele abandone a velha lei cristã sobre o sexo?! Qual é o sentido desta imunidade misteriosa, desta permissão especial para o adultério? Por que razão a única alegria que ainda lhe está aberta deveria ser fugir com a mulher do vizinho?! Por que razão ele deveria amar como lhe der na telha, se não pode viver como lhe dá na telha?! 

A resposta, lamento dizê-lo, é que esta campanha social, na maioria senão em todos os seus proponentes mais proeminentes, baseia-se, neste tema, num interesse particular do tipo mais hipócrita e pestilento. Há defensores da democratização do divórcio que são realmente defensores da liberdade democrática em geral. Estes, contudo, são a excepção. Mais ainda: eu diria, com todo o respeito, que são fantoches.

A omnipresença do assunto na imprensa e na sociedade política é devida a um motivo diametralmente oposto ao que é abertamente professado. Os governantes modernos, que são simplesmente os ricos, mudam muito pouco na sua atitude em relação aos pobres. É o mesmo espírito que arranca deles os filhos com o pretexto da ordem e quer arrancar-lhes a esposa com o pretexto da liberdade. Quem deseja, como diz a letra da música satírica, “destruir o lar feliz”, procura, antes de tudo, não destruir a fábrica, que não é nada feliz.

O capitalismo, é claro, está em guerra contra a família, pela mesma razão que o levou à guerra contra o sindicato. Este é, realmente, o único sentido em que o capitalismo está ligado ao individualismo; o capitalismo acredita no colectivismo para ele mesmo e no individualismo para os seus inimigos. Ele quer que as suas vítimas sejam indivíduos, ou, em outras palavras, quer atomizá-los. A palavra “átomo”, no seu sentido mais claro (que não é nem um pouco evidente) pode ser traduzida como “indivíduo”. 

Se restar alguma ligação ou fraternidade, se houver qualquer lealdade de classe ou disciplina doméstica pela qual o pobre possa ajudar o outro pobre, estes emancipadores farão o que puder para afrouxar este laço ou destruir esta disciplina da maneira mais liberal possível. Se houver tal fraternidade, estes individualistas vão redistribuí-la na forma de indivíduos; ou, em outras palavras, atomizá-la, reduzi-la a átomos.

Os mestres da plutocracia moderna sabem o que estão a fazer. Eles não estão a cometer qualquer engano. Eles podem ser absolvidos de qualquer acusação de incoerência. Um instincto preciso e muito profundo levou-os a determinar que o lar humano é o obstáculo maior diante do seu progresso desumano. Sem a família não há recurso diante do Estado, que em nosso caso, na modernidade, é o Estado Servil. Para usar uma metáfora militar, a família é a única formação em que o ataque dos ricos pode ser debelado. É uma força que forma casais como os soldados formam esquadras e que, em todos os países agrários, guardou a casa ou o sítio como a infantaria guardou sua trincheira contra a cavalaria. 

Como esta força o opera, e o seu porquê, tentaremos explicar no último destes artigos. Mas é quando ela está prestes a ser destroçada pelos cavaleiros do orgulho e do privilégio, como na Polónia ou na Irlanda, quando a batalha se torna mais desesperada e a esperança é mais obscura, que os homens começam a entender por que este voto selvagem, no seu início, já era mais forte que todas as lealdades deste mundo; e o que pareceria fugaz como uma aparição é tornado permanente, na forma de um voto.

G.K.Chesterton no livro 'A Superstição do Divórcio' 


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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Quando o remédio é pior do que a cura (qualquer semelhança com a situação actual não é pura coincidência)

Não tenho conhecimento de nenhuma outra máxima cujos efeitos práticos sejam mais perversos do que aquela que afirma ser a prevenção o melhor remédio.

Naturalmente, esta máxima, é verdadeira apenas em abstracto; se pudéssemos prever todos os males possíveis muito antes que viessem a acontecer, e se fôssemos capazes de modificá-los ou evitá-los sem esforço e sem prejudicar nada ou ninguém, obviamente deveríamos ficar contentes por poder fazê-lo. Mas isso é simplesmente impossível; todas as nossas antecipações em relação às coisas incertas tendem, necessariamente, a desorganizar as coisas certas.

É bem possível, por exemplo, que um belo dia eu venha a entalar um dedo numa das portas de minha casa. 

Os especialistas e cientistas modernos, juntamente com os modernos burocratas da saúde, da sociologia, e tutti quanti, agarram-se a essa possibilidade e julgam-se no direito de me ditar comportamentos e de me inundar de conselhos, que, invariavelmente, se dividem em dois grandes tipos: os que prescrevem que eu me prive de todas as minhas portas, e os que recomendam que eu me prive de todos os meus dedos.

Remover todas as portas da minha casa, incluindo a da rua, certamente impediria que uma delas me viesse, um dia, a estraçalhar um dedo, mas não creio que isso aumentasse, de facto, o meu conforto. 

Cortar todos os meus dedos à machadada, seguramente evitaria que, mais tarde, eu pudesse vir a ter um deles, preso numa porta, mas, nesse caso, não creio que se pudesse afirmar que a prevenção tinha sido melhor que a cura. 

No fundo, o que realmente importa, no que a medidas preventivas diz respeito, é saber se elas criam, ou não, uma atmosfera mórbida ao tentarem obsessivamente antecipar-se ao mal. Tornar-se-ão elas maléficas por estarem sempre a pensar no mal? 

Porque, estar-se sempre saudável sob tutela dos médicos e das autoridades sanitárias mais não é do que se deixar transformar num inválido imortal. 

Ser assim mantido perpetuamente saudável é, no fim de contas, o mesmo que estar perpetuamente doente. Pois o que define o inválido não é o perigo, que é o orgulho do herói, nem a dor, que é o orgulho do mártir, é, sim, a limitação - o facto de estar preso a uma vida anormal. 

Não, a prevenção não é melhor do que a cura. A cura é saudável, pois acontece num momento em que falta saúde. A prevenção é doentia, uma vez que acontece num momento em que há saúde.
 
Não há vantagem alguma em estar sempre com os olhos fechados por medo de ficar cego; esperar por ficar cego e, só então, ir a um oftalmologista não seria pior. 

Da mesma forma, arrancar toda a relva do jardim para evitar que um búfalo a coma, não faz sentido algum; seria bem melhor esperar por ele e, então, calma e humildemente, resolver o assunto – provavelmente com uma caçadeira.

Por essa razão eu sempre fui, por instinto, contrário a todas as formas de ciência ou ética que professem ser particularmente prescientes ou preventivas.

É sabido que alguns especialistas – os eugenistas, influenciados por doutrinas darwinistas, queriam ansiosamente matar certas criancinhas com medo que elas, quando crescessem, se tornassem más. Mas eu digo-lhes o seguinte: 

Não, meus caros especialistas, por favor, não matem as criancinhas, esperem que elas cresçam e se tornem más e, então (se tivermos sorte), talvez elas vos matem primeiro”.

G. K. Chesterton, 30 de Maio de 1908


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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Se Deus aparecesse nos noticiários...

Se Deus aparecesse nos noticiários que lugar restaria à liberdade humana, ao livre arbítrio e à Fé? Como poderíamos duvidar de uma evidência?

Como faria o homem o caminho da confiança, de volta a uma relação entretanto traída? Não! A maior razão da Fé reside na salvaguarda da liberdade humana; em reganhar uma confiança entretanto perdida pela Queda. 

É preciso viver a revolução permanente, contra o espírito da época, contra a heresia da moda. Só assim se obtém o perdão e o regresso a casa. 

G.K. Chesterton


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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O martírio cristão é um anúncio ao Mundo


O próprio significado gramatical (etimológico) da palavra "mártir" deita por terra a noção da religião ser apenas do foro privado. Os martírios cristãos foram mais do que demonstrações; foram anúncios.

Nos dias de hoje, a nova moral do espiritual politicamente correcto pretende alterar tudo isso. Permitiria que Cristo fosse crucificado se tal fosse necessário, mas, em nome da boa educação, deveria ser crucificado num quarto particular. 

Declara que o facto de um mártir ser trucidado por um leão é, em si mesmo, comum e sensacional, desde que, claro, ele seja trucidado pelo leão na sala de estar destes intelectuais, rodeados pelos seus amigos íntimos.

Chesterton in 'The Defendant' (1901)


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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Bebe porque estás alegre, nunca porque estás triste

Bebe porque estás alegre, nunca porque estás triste. Nunca bebas quando te sentires miserável sem a bebida, ou serás como o bêbado caído na favela; mas bebe quando estarias bem sem beber, e serás como o camponês risonho da Itália.

Nunca bebas porque precisas, pois essa é a "bebida racional" e o caminho para a morte e o inferno. Mas bebe porque não precisas, pois essa é a "bebida irracional" e a antiga saúde do mundo.

G.K. Chesterton


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sábado, 26 de outubro de 2019

A irracionalidade do comunismo compulsivo

Se os camponeses possuírem o direito à propriedade isso significa que os comunistas não têm nenhum direito ao seu comunismo compulsivo.

Os camponeses não são, como supõem quer capitalistas quer comunistas, pessoas ignorantes e acéfalas. Eles são apenas pessoas com ideias diferentes; muito melhores, por sinal. As suas ideias são humanas, como a humanidade; muito mais humanas do que o humanismo.

Tenho grande simpatia pelos camponeses e pela sua repulsa pelo comunismo compulsivo. 

O comunismo não é tanto bizarro, é mais limitado. É sacrificar tudo a um único sentimento. O sentimento de partilha é nobre, mas não é um substituto de todos os outros sentimentos, como dar e receber, como quando um homem oferece hospitalidade em sua casa. 

Transformar todas as casas privadas em casas públicas não é um sentimentalismo irracional, é um asceticismo irracional. 

G.K. Chesterton in 'The Surprising Softness of the Comunists' (6 de Setembro de 1919)


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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Tradição é a democracia dos mortos

Tradição significa dar o voto à mais obscura de todas as classes: os nossos antepassados. É a democracia dos mortos.

A Tradição recusa submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que andam por aqui agora.

Os democratas rejeitam que alguém seja posto de lado pelo acidente de ter nascido; a tradição rejeita que alguém seja posto de lado pelo acidente de ter morrido. A democracia diz-nos para não negligenciarmos a opinião de um bom homem, mesmo que seja o seu marido: a tradição pede-nos que não negligenciemos a opinião de um bom homem, mesmo que seja o seu pai.

G. K. Chesterton in Ortodoxia


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quarta-feira, 15 de maio de 2019

O suicida e o herói

Para que um soldado rodeado de inimigos consiga escapar tem de combinar um forte desejo de viver com um estranho desprendimento pela morte. Não pode apenas agarrar-se à vida, pois seria um cobarde e não escaparia. Não pode apenas esperar pela morte, pois seria suicídio e não escaparia. Tem de encontrar um espirito de furiosa indiferença perante a sua vida. Tem de desejar a vida como se fosse água e beber a morte como vinho.


Nenhum filósofo, parece-me, terá expressado este enigma romântico com lucidez adequada, eu certamente não o fiz. Mas o Cristianismo fez ainda mais: marcou os seus limites nas campas do suicida e do herói, mostrando a distância entre aquele que morre em nome da vida, e aquele que morre em nome da morte.

G.K. Chesterton in 'Ortodoxia'


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