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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Exame de consciência percorrendo brevemente os 10 mandamentos

No que diz respeito ao primeiro mandamento, devemos observar se não tivemos fé em qualquer verdade de nossa religião se tomamos parte em conversas contra a religião, ou, se prestamos atenção a elas; se lemos livros ou jornais contra a religião; se
cometemos sacrilégios, fazendo más Confissões ou más Comunhões, ou desprezando coisas ou pessoas sagradas; se cometemos práticas supersticiosas, ou se participamos de alguma sessão espírita.

Quanto ao segundo mandamento, observemos se blasfemamos o nome de Deus, da Virgem ou dos Santos, ou se fizemos juramentos ilícitos.

Quanto ao terceiro mandamento, observemos se não assistimos à Missa nos dias santos de guarda, ou se não assistimos à ela com a devida atenção; se, propositadamente, faltamos ao catecismo, ou ao sermão; se fizemos trabalhos manuais ou obras servis, ou então se passamos o dia de festa em divertimentos, pagodes, botequins.

Quanto ao quarto mandamento, vejamos se não respeitamos nossos pais e superiores, faltando-lhes ao respeito com palavras, obras ou insultos; ou se os fizemos chorar com o nosso mau procedimento.

Quanto ao quinto mandamento vejamos se golpeamos gravemente, ou se ferimos alguém; se nutrimos no coração ódio a alguma pessoa; se pensamos em vingança; se lançamos imprecações ou maldições; se demos escândalo, isto é, se com palavras ou acções excitamos outros ao pecado.

Quanto ao sexto e nono mandamentos, examinemos se tivemos pensamentos ou desejos contrários à castidade, se consentimos neles ou se fomos negligentes em afastá-los; se tomamos parte em conversas escandalosas, ou se lhes prestamos atenção; se lemos livros obscenos; se cometemos atos impuros, e se os cometemos sozinhos ou com outros e de que condição eram esses outros, desde que essas circunstâncias mudam a malícia do pecado; e se repetimos esses atos; se frequentamos bailes ou espetáculos desonestos.

Quanto ao sétimo e décimo mandamentos examinemos se não roubamos alguma soma ou coisa de valor, seja em casa, seja de outras pessoas; se causamos danos; se tivemos pensamentos ou desejos de nos apropriarmos das coisas dos outros injustamente.
Chegando o oitavo mandamento vejamos se proferimos injúrias graves ou danosas; se murmuramos ou caluniamos gravemente; se causamos prejuízos à estima ou à honra de alguém.

Passando aos preceitos da Igreja, basta observar se violamos dias proibidos; ou se sendo obrigados a jejuar não o fizemos: finalmente se omitimos a Confissão e Comunhão bem feita no tempo da Páscoa.

Acrescentemos a esse exame sobre os mandamentos de Deus e da Igreja, um pequeno exame sobre os vícios capitais, considerando se cometemos pecados graves de soberba, de gula, de ira, de inveja; e para terminar deitemos um olhar para as obrigações do próprio estado.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

5 Bispos publicam declaração sobre vacinas derivadas de fetos humanos abortados

Cinco Bispos, entre eles um Cardeal, tornaram pública uma declaração na qual demonstram preocupação em relação à utilização de fetos abortados nas novas vacinas e explicam o que diz a doutrina moral católica sobre este tema:

Recentemente, constatou-se, a partir de serviços e de várias fontes de informação, que, em relação à emergência COVID-19, foram produzidas, em alguns países, vacinas que utilizam linhas celulares de fetos humanos abortados, noutros países está prevista a produção de tais vacinas. São cada vez mais numerosas as vozes de eclesiásticos (conferências episcopais, bispos e sacerdotais individuais) que afirmam que, na ausência de alternativas para uma vacinação com substâncias eticamente lícitas, seria moralmente lícito para os católicos utilizar as vacinas, apesar do uso de linhas celulares de crianças abortadas para o seu desenvolvimento.

Os defensores de tal vacina invocam dois documentos da Santa Sé (Pontifícia Academia para a Vida, Reflexões morais sobre vacinas preparadas a partir de células derivadas de fetos humanos abortados, de 9 de Junho de 2005, e Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Dignitas Personæ, sobre algumas questões bioéticas, de 8 de Setembro de 2008), que consentem o uso desta vacinação em casos excepcionais e por um tempo limitado com base no que, na teologia moral, é chamado de cooperação material, passiva e remota com o mal. Os documentos citados afirmam que os católicos que recorrem a esta vacinação têm, ao mesmo tempo, «o dever de manifestar o próprio desacordo a este respeito e de solicitar que os sistemas de saúde disponibilizem outros tipos de vacinas».
  

No caso das vacinas obtidas a partir de linhas celulares de fetos humanos abortados, vemos uma clara contradição: entre a doutrina católica, que rejeita categoricamente, e para além de qualquer sombra de ambiguidade, o aborto em todos os casos como um grave mal moral que clama por vingança ao céu (ver Catecismo da Igreja Católica 2268, 2270ss.), e a prática de considerar as vacinas derivadas de linhas de células fetais abortadas moralmente aceitáveis ​​em casos excepcionais de “urgência” – com base numa cooperação material, passiva e remota. Argumentar que tais vacinas podem ser moralmente lícitas se não houver alternativas é, em si mesmo, contraditório e não pode ser aceitável para os católicos. 

Devem-se recordar as seguintes palavras do Papa João Paulo II sobre a dignidade da vida humana não nascida: «Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humana. É totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que, aliás, justamente se faz, dos direitos humanos – como, por exemplo, o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, – se não se defende, com a máxima energia, o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa» (Christifideles Laici, 38). O uso de vacinas produzidas a partir de células de crianças não nascidas assassinadas contradiz a máxima energia em defender a vida por nascer.    

O princípio teológico da cooperação material é, certamente, válido e pode ser aplicado a toda uma série de casos (pagamento de impostos, uso de produtos de trabalho escravo, etc.). Todavia, este princípio dificilmente pode ser aplicado ao caso das vacinas obtidas a partir de linhas celulares fetais, porque aqueles que, consciente e voluntariamente, recebem tais vacinas, entram numa espécie de vínculo, embora muito remoto, com o processo da indústria do aborto. O crime do aborto é tão monstruoso que qualquer tipo de concatenação com este crime, mesmo que muito remota, é imoral e não pode ser aceite, em nenhuma circunstância, por um católico, uma vez que esteja plenamente ciente disso. Quem usa estas vacinas deve perceber que o seu corpo está a beneficiar dos “frutos” (embora tenham ocorrido uma série de processos químicos) de um dos maiores crimes da humanidade.

Qualquer ligação com o processo de aborto, mesmo o mais remoto e implícito, lançaria uma sombra sobre o dever da Igreja de dar firme testemunho da verdade de que o aborto deve ser completamente rejeitado. Os fins não podem justificar os meios. Estamos a viver um dos piores genocídios conhecidos pelo Homem. Milhões e milhões de bebés em todo o mundo foram massacrados no útero da mãe e, dia após dia, este genocídio oculto continua através da indústria do aborto e das tecnologias fetais e da pressão de governos e de organismos internacionais para promover tais vacinas como um dos seus objectivos. 

Os católicos não podem ceder agora; fazê-lo seria grosseiramente irresponsável. A aceitação destas vacinas da parte dos católicos, sob o fundamento de que envolvem apenas uma “cooperação remota, passiva e material” com o mal, faria o jogo dos seus inimigos e enfraqueceria o último reduto contra o aborto.    

O que mais pode ser o uso de linhas células embrionárias de bebés abortados senão a violação da ordem da criação dada por Deus, considerando que se baseia na já grave violação desta ordem matando um nascituro? Se o direito à vida não tivesse sido negado a essa criança, se as suas células (que, desde então, foram cultivadas várias vezes em tubo de ensaio) não estivessem disponíveis para a produção de uma vacina, não poderiam ser comercializadas. Assim, há uma dupla violação da sagrada ordem de Deus: de um lado, por meio do próprio aborto, e, do outro, através do atroz negócio de comercializar o tecido dos bebés abortados. 

Contudo, este duplo desprezo pela ordem da criação nunca pode ser justificado, mesmo com a intenção de preservar a saúde de uma pessoa por meio de uma vacinação baseada neste desprezo pela ordem da criação dada por Deus. A nossa sociedade criou uma religião substitutiva: a saúde tornou-se o bem maior, operação feita com a criação de um “deus” a quem se devem fazer sacrifícios. Neste caso, com uma vacinação que explora a morte de uma outra vida humana.

Ao examinar as questões éticas que envolvem as vacinas, devemos perguntar-nos: por que tudo isto se tornou possível? Por que a tecnologia baseada no homicídio surgiu na medicina, cujo objectivo é trazer vida e saúde? A investigação biomédica que explora os nascituros inocentes e usa os seus corpos como “matéria-prima” para os fins das vacinas, parece mais semelhante ao canibalismo. Devemos também considerar que, em última análise, para alguns na indústria biomédica, as linhas celulares dos bebés ainda não nascidos são um “produto”, o abortista e o fabricante da vacina são o “fornecedor” e os destinatários da vacina são os consumidores. A tecnologia baseada no homicídio está enraizada no desespero e termina no desespero. Devemos resistir ao mito de que “não há alternativas”. Ao contrário, devemos prosseguir com a esperança e a convicção de que existem as alternativas e que o engenho humano, com a ajuda de Deus, as pode descobrir. Esta é a única maneira para passar das trevas à luz e da morte à vida.  

O Senhor disse que, no fim dos tempos, até os eleitos serão seduzidos (cf. Mc 13, 22). Hoje, toda a Igreja e todos os fiéis católicos devem procurar urgentemente fortalecer-se na doutrina e na prática da fé. Ao lidar com o mal do aborto, os católicos devem, mais do que nunca, «afastar-se de toda a espécie de mal» (1 Ts 5, 22). A saúde física não é um valor absoluto. A obediência à lei de Deus e a salvação eterna das almas devem ter o primado. As vacinas derivadas das células de crianças não nascidas e cruelmente assassinadas têm um carácter claramente apocalíptico e podem pressagiar a marca da besta (cf. Ap 13, 16).        

Actualmente, alguns clérigos tranquilizam os fiéis afirmando que uma vacinação com uma vacina anti-COVID-19, preparada com linhas celulares de uma criança abortada, é moralmente lícita se não houver alternativas disponíveis, justificando-a com a chamada “cooperação material e remota” com o mal. Tais afirmações dos eclesiásticos são altamente anti-pastorais e contraproducentes, considerando o contínuo crescimento da indústria do aborto e das tecnologias fetais desumanas num cenário quase apocalíptico. 

É precisamente neste contexto actual, que provavelmente pode ainda piorar, que os católicos categoricamente não podem encorajar e promover o pecado do aborto, mesmo de forma muito remota e branda, aceitando a mencionada vacina. Portanto, como sucessores dos Apóstolos e dos Pastores, responsáveis ​​pela salvação eterna das almas, consideramos impossível ficar calados e adoptar uma atitude ambígua quanto ao nosso dever de resistir com a «máxima energia» (Papa João Paulo II) ao «crime abominável» do aborto (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 51).     

Esta nossa declaração foi escrita com o aconselhamento de médicos e cientistas de diversos países. Um contributo substancial veio também dos leigos, das avós, dos avôs, dos pais e das mães de família, dos jovens. Todas as pessoas consultadas, independentemente da idade, nacionalidade e profissão, recusaram, de forma unânime e quase instintiva, uma vacina preparada a partir de linhas celulares embrionárias de crianças abortadas e, ao mesmo tempo, consideraram inadequada a aplicação do princípio da “cooperação material e remota” e algumas analogias relacionadas a este caso. Isto é reconfortante e, simultaneamente, muito revelador, uma vez que a sua unânime resposta é mais uma demonstração da força da razão e do sensus fidei.     

Precisamos, mais do que nunca, do espírito dos confessores e dos mártires que evitaram a mínima suspeita de colaboração com o mal da sua época. A Palavra de Deus diz: «Sede irrepreensíveis e íntegros, filhos de Deus sem mancha, no meio de uma geração perversa e corrompida; nela brilhais como astros no mundo» (Fl 2, 15).            

12 de Dezembro de 2020, Memória de Nossa Senhora de Guadalupe

Cardeal Jānis Pujāts, Arcebispo Metropolita emérito de Riga (Letónia)
Tomasz Peta, Arcebispo Metropolita da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana (Cazaquistão)
Jan Paweł Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda (Cazaquistão)
       
 Joseph Edward Strickland, Bispo de Tyler (Estados Unidos da América)    
 Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana (Cazaquistão)

Tradução: diesirae.pt


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sexta-feira, 10 de julho de 2020

7 Erros Fatais do Relativismo Moral


O Relativismo moral é um tipo de subjectivismo que sustenta que as verdades morais são preferências muito parecidas com os nossos gostos em relação aos sabores de gelado, por exemplo. O relativismo moral ensina que quando se trata de moral, do que é eticamente certo ou errado, as pessoas podem e devem fazer o que quer que sintam ser o certo para elas. 

Defendem que as verdades éticas dependem de indivíduos, grupos e culturas que as sustentam. Porque acreditam que a verdade ética é subjectiva, as palavras como devem ou deveriam não fazem sentido porque a moral de todos é igual; ninguém tem a pretensão de ter uma moral objectiva que seja pertinente aos outros. 

O relativismo não exige um determinado padrão de comportamento para todas as pessoas em situações morais semelhantes. Quando confrontadas com exactamente a mesma situação ética, uma pessoa pode escolher uma resposta, enquanto outra pode escolher o oposto. Não há regras universais de conduta que se apliquem a todos.

O relativismo moral, num sentido prático, é completamente inviável. Que tipo de mundo seria o nosso se o relativismo fosse verdade? Seria um mundo em que nada estaria errado – nada seria considerado mau ou bom, nada digno de louvor ou de acusação. A justiça e a equidade seriam conceitos sem sentido, não haveria responsabilização, não haveria possibilidade de melhoria moral, nem discurso moral. Um mundo em que não haveria tolerância. Este é o tipo de mundo que o relativismo moral produz. Vejamos os sete erros fatais do Relativismo:

1. Os relativistas morais não podem acusar outras pessoas de má conduta. O relativismo torna impossível criticar o comportamento dos outros, porque, em última análise, nega a existência de algo como ”má conduta”. Se alguém acredita que a moralidade é uma questão de definição pessoal, então abre mão da possibilidade de fazer juízos morais  objectivos sobre as acções dos outros, não importa quão ofensivas elas sejam para o seu senso intuitivo de certo ou errado. 

Isto significa que um relativista não pode racionalmente opor-se ao homicídio, ao estupro, ao abuso sexual de crianças, ao racismo, ao sexismo ou à destruição ambiental, se essas acções forem consistentes com o entendimento pessoal sobre o que é certo e bom por parte de quem as pratica. Quando o certo e o errado são uma questão de escolha pessoal, nós abdicamos do privilégio de fazer julgamentos morais sobre as acções dos outros. No entanto, se estamos certos de que algumas coisas devem ser erradas e que alguns julgamentos contra a conduta de outros são justificados – então o relativismo é falso.

2. Os relativistas não podem reclamar do problema do mal. A realidade do mal no mundo é uma das primeiras objecções levantadas contra a existência de Deus. Esta objecção está fundamentada na observação de que existe mal verdadeiro. Mas o mal objectivo não pode existir se os valores morais são relativos ao observador. O relativismo é inconsistente com o conceito de que o mal moral verdadeiro existe, porque nega que qualquer coisa possa ser objectivamente errada. Se não existe um padrão moral, então não pode haver desvio do padrão. Assim, os relativistas devem abandonar o conceito de verdadeiro mal e, ironicamente, também abandonar o problema do mal como um argumento contra a existência de Deus.

3. Os relativistas não podem condenar alguém ou aceitar elogios. O relativismo torna os conceitos de louvor e condenação sem sentido, porque nenhum padrão externo de medição define o que deve ser aplaudido ou condenado. Sem absolutos, nada é, em última análise, mau, deplorável, trágico ou digno de condenação. Nem uma coisa pode ser boa, honrada, nobre ou digna de louvor. Os relativistas são quase sempre inconsistentes nesse ponto, porque eles procuram evitar a condenação, mas prontamente aceitam elogios. Se a moralidade é uma ficção, então os relativistas também devem remover as palavras aprovação e condenação dos seus vocabulários. Mas, se as noções de elogio e crítica são válidas, então o relativismo é falso.

4. Os relativistas não podem fazer acusações de parcialidade ou injustiça. De acordo com o relativismo, as noções de equidade e justiça são incoerentes, já que ambos os conceitos ditam que as pessoas devem receber igualdade de tratamento com base em alguma norma externa acordada. No entanto, o relativismo acaba com qualquer noção de normas vinculativas externas. Justiça implica punir aqueles que são culpados de um delito. Mas, sob o relativismo, a culpa e a condenação não existem – se nada for finalmente imoral, não há acusação e, portanto, nenhuma culpa digna de punição. Se o relativismo é verdadeiro, então não há tal coisa como justiça ou equidade, porque ambos os conceitos dependem de um padrão objectivo do que é certo. Se, porém, as noções de justiça e equidade fazem sentido, então o relativismo é refutado.

5. Os relativistas não podem melhorar a sua moralidade. Os relativistas podem mudar a sua ética pessoal, mas nunca se podem tornar pessoas melhores. De acordo com o relativismo, a ética de uma pessoa nunca se pode tornar mais ‘moral’. A ética e a moral podem mudar, mas nunca podem melhorar, já que não existe um padrão objectivo pelo qual medir essa melhoria. Se, no entanto, o avanço moral parece ser um conceito que faz sentido, então o relativismo é falso.

6. Os relativistas não conseguem manter discussões morais significativas. O que há para falar? Se a moral é totalmente relativa e todas as opiniões são iguais, então não há uma maneira de pensar melhor do que outra. Não há uma posição moral  que possa ser considerada como adequada ou deficiente, razoável, aceitável, ou até mesmo bárbara. Se as disputas éticas só fazem sentido quando a moral é objectiva, então o relativismo só pode ser vivido de forma consistente se os seus defensores ficarem em silêncio. 

Por esta razão, é raro encontrar um relativista racional e consistente, já que a maioria deles são rápidos para impor suas próprias regras morais, como, por exemplo, ”é errado forçar sua própria moralidade nos outros”. Isso coloca os relativistas em uma posição insustentável: se falam sobre questões morais, abandonam o relativismo; se não falam, abrem mão da sua humanidade. Se a noção de discurso moral faz sentido intuitivamente, então o relativismo moral é falso.

7. Os relativistas não podem promover a obrigação de tolerância. A obrigação moral relativista de ser tolerante é auto-refutante. Ironicamente, o princípio da tolerância é considerado uma das virtudes principais do relativismo. A moral é individual, assim o dizem, e, portanto, devemos tolerar os pontos de vista dos outros e não julgar o seu comportamento e atitudes. No entanto, se não existem regras morais objectivas, não pode haver nenhuma regra que exija a tolerância como um princípio moral que se aplica igualmente a todos. 

De facto, se não há absolutos morais, por quê ser tolerante? Os relativistas violam o seu próprio princípio de tolerância quando não conseguem tolerar as opiniões daqueles que acreditam em padrões objectivos morais. Eles são, portanto, tão intolerantes quanto frequentemente acusam os que defendem a moral objectiva de ser. O princípio de tolerância é estranho ao relativismo. 

O relativismo moral está falido. Não é um verdadeiro sistema moral. É auto-refutante. E hipócrita. É logicamente inconsistente e irracional. É seriamente abalado com simples exemplos práticos. Torna ininteligível a moralidade. 

Roger Morris


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domingo, 25 de novembro de 2018

O Mito da Superpopulação e a Nova Moralidade

Muitos dos que viveram os anos 60 recordam claramente a publicação de “A Bomba Populacional”, de Paul Ehrlich, em 1968, que assustou o público e influenciou os media no que diz respeito à percepção da demografia. Ehrlich reavivou a já desacreditada teoria de Thomas Malthus, do século dezoito, que defendia que a população mundial iria sobrepor-se sempre aos recursos alimentares a não ser que fosse drasticamente reduzida. Ehrlich avisou que na década de 70 se iriam fazer sentir grandes fomes e que até ao fim do século XX centenas de milhões morreriam de subnutrição, a Índia ia colapsar e a Inglaterra desapareceria.

O livro de Ehrlich não foi o primeiro passo no pânico geral sobre a superpopulação, tendo sido antecedida por medidas da administração Johnson. Num discurso nas Nações Unidas em 1965 Johnson disse que “cinco dólares investidos no controlo da população valem cem dólares investidos no crescimento económico”. O Presidente insistiu ainda que fossem implementados programas de esterilização na Índia como condição para apoio alimentar americano.

O controlo populacional tornou-se finalmente um dogma político quando o Memorando de Estudo da Segurança Nacional sobre as “Implicações do Crescimento Populacional Mundial para os Interesses Externos e Segurança dos Estados Unidos”, foi formalmente adoptado como política externa americana. Em 1976 um memorando pedia aos Estados Unidos que “usassem o apoio alimentar para impor o controlo populacional à escala global”.

Esta política mantém-se. Os fundos designados para apoio externo dependem do controlo populacional. Contraceptivos, e não comida ou medicamentos, são frequentemente os principais produtos entregues em áreas estratégicas. Stephen Mosher, autor de Population Control: Real Costs, Illusory Benefits, [Controlo Populacional: Custos Reais, Benefícios Imaginários] cita esta queixa de um obstetra queniano:

“O nosso sistema de saúde está em ruptura. Milhares de quenianos vão morrer de Malária, cujo tratamento custa poucos cêntimos, em clínicas cujas prateleiras estão repletas de comprimidos [contraceptivos], DIU, Norplant, Depo-Provera e por aí fora, no valor de milhões de dólares, a maioria dos quais fornecidos com dinheiro americano.”

Este desejo alargado de diminuir a população mundial é, à primeira vista, algo estranho. É que o mundo não está propriamente a ficar sem espaço. Em 2007 o site www.populationmyth.compublicou um mapa dos Estados Unidos que mostrava como os 6,5 mil milhões de pessoas então vivas no planeta conseguiam caber em cada um dos Estados do país. É verdade que em Rhode Island só se ficava com pouco mais de um metro quadrado por pessoa, mas no Texas dá quase 350 metros quadrados.

Mais recentemente o Instituto de Pesquisa Populacional (www.pop.org) deu seguimento ao exemplo do Texas e publicou no YouTube um cartoon que mostra que se todas as sete mil milhões de pessoas pudessem ser transportadas para o Texas, cada família teria espaço para ter uma casa com jardim (presumivelmente a construção de prédios daria para melhorar a média de metros quadrados por pessoa). Um engenheiro foi ainda mais longe e mostrou no seu blog www.simplyshrug.com que seria possível fornecer água e comida pelo Rio Columbia e terreno agrícola para sustentar esta migração hipotética.


O problema, portanto, não é de falta de espaço. Então o que se quer dizer por superpopulação? Evidentemente o problema é o excesso de pobres, associado à ideia de que se de alguma maneira fosse possível evitar que os pobres se reproduzissem, seriam capazes de escapar à pobreza.

Mas digamos que conseguíamos diminuir a população mundial num terço. Isso significaria a diminuição automática da percentagem de pobres? Não necessariamente. A percentagem poderia até crescer de forma astronómica. Pais envelhecidos, sem a ajuda de um número cada vez menor de filhos e parentes, dependendo do Estado; economias em ruínas devido à falta de trabalhadores, rebeldes a tomar o poder e a criar novas versões de escravatura, líderes políticos a atribuírem mais poder a si mesmos sem quaisquer restrições constitucionais, e por aí fora.

Por outras palavras, aquilo a que se chama “superpopulação” no fundo não passa do problema milenar económico-político de uma justa administração dos recursos mundiais. Trata-se de um problema político e geopolítico complexo que nunca se pode resolver com soluções simplistas como reduzir o número de pessoas no mundo. De facto, a aplicação desta “solução” levou ao perigo de um “Inverno demográfico” entre europeus, russos, japoneses e outras comunidades políticas que, por causa da descida do número de nascimentos, caminham para a “não-renovação” e possibilidade de deixarem de existir dentro de algumas gerações.

A encíclica Humane Vitae, de Paulo VI, sobre a contracepção, surgiu no mesmo ano que o livro de Ehrlich e deu lugar imediatamente a uma tempestade de protestos entre os católicos, começando por uma declaração assinada por 200 teólogos católicos e publicado no New York Times no dia 30 de Julho de 1968, que assegurava todas as pessoas com dúvidas de consciência de que se podia discordar legitimamente do Magistério quando este entrava em conflito com o “sentido dos Fiéis”. As consciências católicas, já formadas pela ortodoxia “científica” de que o mundo já estava muito sobrepovoado, passaram a justificar a sua dissensão no tema da contracepção nesta base.

Surgiram então novos conceitos de virtude. Os casais que usavam contraceptivos podiam-se orgulhar do facto de não estar a contribuir para um problema mundialmente conhecido. Não ter filhos podia ser entendido como a mais alta medida de preocupação social! Os educadores e políticos que ensinavam “sexo seguro” podiam respirar fundo, aliviados pelo facto de estarem a cumprir o seu papel em limitar o número de pobres nas cidades.

Mesmo os pró-vida podiam promover os contraceptivos como forma de diminuir o número de abortos. Governos ditatoriais, como a China, podiam impor políticas do “filho único”, enquanto os Governos de tradição mais democrática, como os Estados Unidos, podiam simplesmente exigir às seguradoras que cobrissem os custos de contraceptivos e processos de esterilização, na esperança de poder chegar a algo do género da política do “filho único” eventualmente, quando se tornasse mais aceitável para os cidadãos.

A desgraça dos grandes problemas é a tentação de recorrer a soluções simplistas para os ultrapassar. A preocupação com o acesso a, refinação ou cultivo de, e distribuição de, recursos humanos é um problema global e político interminável e perene. Mas é um problema que não pode ser resolvido, e até pode ser piorado, pelos movimentos que tentam combater a superpopulação com contraceptivos.

Howard Kainz in 'The Catholic Thing' via 'Actualidade Religiosa'


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sábado, 14 de julho de 2018

Humanae Vitae: a coragem de ir contra a "revolução sexual"

Entrevista ao Pe. Ángel Rodríguez Luño, decano de teologia da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, sobre a Humanae Vitae. Neste documento do Papa Paulo VI a contracepção é condenada, em sintonia com a doutrina que a Igreja sempre defendeu.

Há 50 anos foi publicada a encíclica Humanae Vitae. Qual o significado dessa publicação naquela época?

Paulo VI publicou a Humanae Vitae dois meses depois dos acontecimentos de Maio de 68, que provocaram, entre outras coisas, a “revolução sexual”. Existia uma forte pressão de alguns meios de comunicação social e os especialistas divulgavam previsões demográficas pessimistas e alarmistas, que a realidade negou mais tarde. Alguns ambientes eclesiais sofriam uma certa desorientação causada por interpretações abusivas do Concílio, e alguns dos participantes nos estudos preparativos da encíclica publicaram informes que não eram definitivos. Neste contexto Paulo VI, depois de longa reflexão, reafirmou a visão cristã da sexualidade, na qual o Criador uniu duas dimensões de significado e de valor, que a encíclica chama “significado unitivo” e “significado procriativo”. Esta conexão não pode desarticular-se sem que sofram ambas dimensões, e não apenas a que se deseja excluir.


De um ponto de vista teológico, foi revolucionária? Em quais pontos?


Depende do que se entende por "revolucionária". Substancialmente Paulo VI propõe novamente a visão antropológica e moral que Pio XI, na sua encíclica sobre o matrimónio, tinha considerado como “doutrina cristã ensinada desde o princípio e nunca modificada”. Neste sentido a Humanae Vitae não representa nenhuma evolução. Revolucionária é a valentia com a qual Paulo VI se opôs a uns estereótipos culturais então muito difundidos, que eram impostos, e que eram e continuam a ser nocivos para a vida das pessoas casadas e para a cultura moral geral. Embora a encíclica se refira directamente ao matrimónio, o que estava em jogo era a visão global da sexualidade.


Para entender o contexto histórico: O que é que levou o Papa Paulo VI a escrever esta encíclica? O que era necessário responder?


Acho que a delicadeza do problema e a complexidade do contexto levaram Paulo VI a ocupar-se pessoalmente do estudo e da resolução desta questão. À luz da tradição moral da Igreja, ninguém podia duvidar que a contracepção é um comportamento intrinsecamente desordenado. Existia uma ideia, no imaginário colectivo, de que a anticoncepção consistia em manipular de alguma forma a realização da relação conjugal. Como a pílula anovulatória (que quase não existe mais hoje porque a maioria dos remédios contraceptivos têm também outros efeitos além do anovulatório) não altera a relação conjugal, alguns perguntaram se a sua utilização deveria ser sempre considerada como um pecado de contracepção. A questão não era, portanto, se a contracepção é pecado ou não, mas se o uso esponsal da pílula anovulatória é ou não anticoncepcional. Isto forçou a definir melhor a essência da contracepção, que Paulo VI refere-se quando escreveu: “exclui-se também toda acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou na sua realização, ou no desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação". Para colocá-lo de forma gráfica: se descobríssemos que comer uma laranja antes da relação conjugal a fechasse para a transmissão da vida, quem comesse a laranja propondo-se, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação cometeria o pecado de contracepção. Uso essa hipótese irreal para dar a entender onde está a contracepção, que não depende do facto de que o medicamento contraceptivo seja um produto artificial.


Considera que na formação dos noivos falte um maior aprofundamento de alguns aspectos da Humanae Vitae?


Parece-me que, efectivamente, na formação que se dá aos noivos seria necessário estudar com profundidade e integridade a Humanae Vitae. Mas isso levar-nos-ia longe. Limitar-me-ei a uma só coisa que a minha experiência confirma continuamente. Quando a encíclica de Paulo VI estava a ser preparada alguns diziam que a moral sexual cristã acaba por danificar o amor entre o homem e a mulher e a estabilidade do matrimónio. A experiência diz que hoje, numa cultura na qual se difunde o recurso à contracepção e às relações pré-matrimoniais, os fracassos dos casais são cada vez mais numerosos, bem como também são mais numerosos os fenómenos de violência e de infidelidade. Certamente outras causas podem levar a estes fenómenos. Mas continuo admirado por que é que muitos casais, que tiveram um longo período de namoro, às vezes excessivamente concentrado nos aspectos sexuais, depois de se casar, descobrem que não se conheciam bem. Talvez pudessem ter conversado mais e se juntado menos, porque juntar-se nem sempre é comunicação e conhecimento. A maior parte das vezes, pelo contrário, impede detectar e corrigir o egoísmo próprio e o da outra parte.


Muitas das questões abordadas neste documento continuam a ser debatidas: aborto, fecundação artificial... Com o passar do tempo é ainda maior a ‘oposição’ aos fundamentos teológicos da Igreja sobre estas questões?


A nossa cultura evoluiu da forma que sabemos. Denunciar as causas que fez com que as mudanças sociais tomassem esse rumo requereria uma reflexão muito interessante, mas também muito longa para esta entrevista. Não há dúvida de que, para alguns, também para alguns fieis católicos, é difícil entender alguns aspectos da moral cristã. Talvez seria necessário mais esforço para explicá-la melhor e mais esforço para compreendê-la melhor. Mas, para mim, é muito significativo que a maioria dos fiéis praticantes considerem muito positivo o seu próprio esforço por viver a moral cristã, embora ocasionalmente cometam erros.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Médicos Católicos têm de dar a voz pela Vida disse o Papa

Os Médicos Católicos têm de levantar a voz para o direito pela vida, pediu o Papa Francisco.

Ao dirigir-se na Segunda-Feira a um grupo de médicos, o Papa pediu-lhes para resistir às ideologias que atentam contra a dignidade da vida humana.

"A Igreja está pela vida, e a sua preocupação é que nada esteja contra a vida no caso de uma existência concreta, independentemente do quão fraca ou indefesa possa ser, mesmo se não desenvolvida ou avançada", disse o Papa.

Ele reconheceu que os médicos encontram "dificuldades e obstáculos" quando são fiéis aos ensinamentos da Igreja. No entanto, os médicos não se podem esquecer que devem "afirmar a centralidade do paciente como uma pessoa e da sua dignidade com os seus direitos inalienáveis, em primeiro lugar o direito à vida".

"A tendencia para denegrir a pessoa doente como uma máquina que tem de ser arranjada, sem respeito por princípios morais, e para explorar os mais fracos descartando o que não encaixa numa ideologia de eficiência e lucro tem de ser resistida", acrescentou o Papa.

No seu discurso à delegação da Federação Mundial das Associações de Médicos Católicos, o Papa Francisco disse-lhes que "não é aceitável que o vosso papel seja reduzido ao de um simples cumpridor da vontade do paciente ou das necessidades do sistema de saúde onde trabalham".

Pelo contrário, os médicos devem resistir ao "paradigma cultural tecnocrático" que tomou conta da profissão ao trabalhar com médicos de outras religiões que também partilham a crença Católica na dignidade da vida humana.

"Sejam ministros não só dos cuidados de saúde mas também da caridade fraterna, transmitindo àqueles com quem lidam, além do vosso conhecimento, a riqueza da compaixão humana e evangélica" disse o Papa.



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sábado, 13 de janeiro de 2018

Se Deus não existe tudo é permitido

"Uma vez que a Humanidade tenha negado a Deus... o Homem exaltar-se-á com um espírito divino, de orgulho titânico, e aparecerá como homem-deus... Se Deus não existe, tudo é permitido." 

Fiodor Dostoievski in 'Os Irmãos Karamazov'


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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Entrevista a D. Athanasius Schneider: "Não temos nada a perder quando dizemos a verdade"

Publicamos em seguida a tradução exclusiva duma entrevista a D. Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão), conduzida por Maike Hickson, do OnePeterFive. Dom Athanasius volta a oferecer-nos esperança no meio da crise e encoraja-nos a guardar e proclamar a verdade, mesmo que ameaçados.

Agradecemos profundamente a D. Athanasius pelo seu serviço à Santa Igreja e asseguramos as nossas orações:


℣. Oremus pro Antistite Athanasio.
℞. Stet et pascat, in fortitudine tua, Domine, in sublimitate nominis tui.

℣. Tu es Sacerdos in æternum.
℞. Secundum ordinem Melchisedech.

Oremus: 
Deus, qui populis tuis indulgentia consulis et amore dominaris Antistite Athanasio cui dedisti regimen disciplinæ, da spiritum sapientiæ, ut de profectu sanctarum ovium fiant gaudia æterna Pastoris. Per Christum Dominum Nostrum. Amen.


Maike Hickson (MH): Assinou, juntamente com o Professor Josef Seifert (entre muitos outros), a Declaração de Fidelidade confirmando o ensinamento tradicional da Igreja relativamente ao casamento. O Professor Seifert foi agora removido pelo seu arcebispo espanhol da sua Cátedra Dietrich von Hildebrand na Academia Internacional de Filosofia em Granada, Espanha – com a explícita referência adversa à sua crítica acerca de certas afirmações contidas na Amoris Laetitia. Podemos pedir a sua resposta a esta medida tão punitiva, que foi justificada com o argumento de que o Professor Seifert estava a enfraquecer a unidade da Igreja Católica e a confundir os fiéis?

Bispo Athanasius Schneider (BAS): O Professor Josef Seifert fez um acto urgente e muito meritoso ao formular publicamente e respeitosamente questões críticas acerca de certas afirmações evidentemente ambíguas no documento papal Amoris Laetitia, visto que estas afirmações estão a causar uma anarquia moral e disciplinar na vida da Igreja, uma anarquia que está à vista de todos e que ninguém que use a razão e tenha verdadeira fé e honestidade pode negar. 

A medida punitiva contra o Professor Seifert da parte de um detentor de um posto eclesiástico é não somente injusta, mas representa ultimamente um desvio da verdade, uma recusa a um debate objectivo e a um diálogo, enquanto ao mesmo tempo a cultura do diálogo é proclamada como de maior prioridade na vida da Igreja dos nossos dias. Tal comportamento clerical contra um verdadeiro intelectual católico, como é o Professor Seifert, faz-me lembrar as palavras com que São Basílio Magno descreveu uma situação análoga no séc. IV, quando clérigos arianos invadiram e ocuparam a maioria das posições episcopais: “Apenas uma ofensa é agora vigorosamente punida – uma observância correcta das tradições dos nossos pais. Por esta causa os devotos são levados dos seus países e transportados para desertos. As pessoas religiosas mantêm silêncio, mas todas as línguas blasfemas são deixadas à solta” (Ep. 243)

MH: Quando falamos acerca da unidade da Igreja: qual é a base da unidade? Temos de sacrificar todo o debate racional e prudente acerca de matéria de Fé e Doutrina – se se estiverem a elevar ensinamentos diferentes e incomensuráveis – com o intuito de não causar possíveis fendas dentro da Igreja?

BAS: A base da autêntica unidade da Igreja é a verdade. A Igreja é na sua natureza “a coluna e o firmamento da verdade” (1Tim 3, 15). Este princípio é válido desde os tempos dos Apóstolos e é um critério objectivo para esta unidade: significa a “verdade do Evangelho” (cf. Gal. 2: 5.14). O Papa João Paulo II disse: “Mais do que unidade no amor, a unidade na verdade é sempre urgente para nós” (dirigido à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, 28 de janeiro de 1979). Santo Ireneu ensinou: “A Igreja acredita nas verdades da Fé tal como se tivesse apenas uma só alma, e um só coração, e ela proclama-as, ensina-as, e entrega-as, em perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca” (Adv. haer., I, 10, 2). 

No começo da Igreja, Deus mostrou-nos a obrigação de defender a verdade, quando se encontra em perigo de ser deformada por parte de quaisquer membros da Igreja, mesmo que seja proclamado da parte do Supremo Pastor da Igreja, como foi o caso com São Pedro em Antioquia (cf. Gal 2, 14). Este princípio de correcção fraterna no interior da Igreja foi válido em todos os tempos, mesmo direccionado ao Papa, e por isso deve ser válido no nosso tempo também. Infelizmente, quem quer que se atreva a dizer a verdade nos nossos dias – mesmo quando o faz com respeito para com os Pastores da Igreja – é classificado como um inimigo da unidade, tal como também sucedeu com São Paulo; pois, ele afirmou: “Tornei-me logo vosso inimigo porque vos disse a verdade” (Gal 4, 16). 

MH: Muitos prelados permaneceram agora, no passado recente, em silêncio devido ao medo de causar um cisma na Igreja por fazer publicamente questões ou levantar objecções ao Papa Francisco em relação aos seus ensinamentos acerca do casamento. O que lhes diria acerca da sua escolha pelo silêncio? 

BAS: Primeiro que tudo, devemos ter em mente, que o Papa é o primeiro servo da Igreja (servus servorum). Ele é o primeiro a ter de obedecer de modo exemplar a todas as verdades do Magistério inalterável e constante, porque ele é apenas um administrador, e não um possuidor, das verdades católicas, que recebeu de todos os seus predecessores. O Papa nunca se deve ele próprio comportar em relação às verdades e disciplina constantemente transmitidas referindo-as como fosse um monarca absoluto, dizendo “Eu sou a Igreja” (analogamente ao Rei francês Luís XIV: “L’état c’est moi”). O Papa Bento XVI formulou este ponto aptamente: “O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.” (Homilia de 7 de Maio de 2005). 

Os bispos não são trabalhadores do Papa, mas divinamente constituídos colegas do Papa, apesar de juridicamente subordinados a ele, mas mesmo assim colegas e irmãos. Quando o Papa tolera ele próprio uma ampla disseminação de erros óbvios de fé e de graves abusos dos sacramentos (como a admissão de adúlteros não arrependidos aos sacramentos), os bispos não se devem comportar como empregados servis embrulhando-se no silêncio. Tal atitude demonstraria indiferença em relação à grave responsabilidade do ministério Petrino e contradiria a própria natureza colegial do episcopado e o amor autenticado pelo Sucessor de Pedro. Devemo-nos lembrar das palavras de Santo Hilário de Poitiers, proferidas no tempo da confusão doutrinal geral do século IV: “Hoje, sob o pretexto de uma piedade que é falsa, sob a aparência enganadora de um ensinamento do Evangelho, algumas pessoas estão a tentar negar o Senhor Jesus. Eu digo a verdade, para que a causa da confusão que estamos a sofrer possa ser conhecida por todos. Não posso permanecer silencioso” (Contra Auxentium, 1, 4). 

MH: Voltemos à crítica bem-educada do Professor Seifert à Amoris Laetitia. No seu novo artigo de Agosto de 2017, ele levanta a questão de se afirmar que por vezes casais divorciados e “recasados” devem ter de manter relações sexuais para o bem dos filhos desse novo laço não levar na realidade à conclusão de que já não existem absolutos morais; ou seja, que um pecado mortal pode, em certas situações, já não ser pecaminoso aos olhos de Deus. O Professor Seifert vê esta lógica como uma potencial “bomba atómica moral” que levará ao relativismo moral. Concordaria com ele neste aspeto? 

BAS: Estou completamente de acordo com o Professor Seifert neste ponto, e recomendo vivamente que outros também leiam o seu artigo magistral, intitulado “Does Pure Logic Threaten to Destroy the Entire Moral Doctrine of the Catholic Church?” (Será que a Lógica Pura Ameaça Destruir a Doutrina Moral Inteira da Igreja Católica?). No seu livro “Athanasius and the Church of Our Days” (Atanásio e a Igreja dos Nossos Dias), o Bispo Rudolf Graber de Regensburg escreveu em 1973: “O que aconteceu há 1600 anos atrás está a repetir-se hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria é hoje a Igreja Universal, cuja estabilidade está a ser abalada, e o que estava em questão nessa altura por meios de força física e crueldade está agora a passar para um nível diferente. Exílio é substituído por expulsão para o silêncio de ser ignorado, matando por assassinato de carácter.” Esta descrição também se aplica ao actual caso do Professor Seifert. 

MH: Tendo crescido num país de regime totalitário, quais são as suas próprias considerações acerca da liberdade académica em Espanha, quando um professor internacionalmente reconhecido pode ser removido das suas posições académicas meramente por ter levantado questões, questões educadas, sobre um documento papal e por ter apontado os possíveis perigos de algumas das suas afirmações? 

BAS: Durante décadas tornou-se politicamente correcto e "de bom tom" proclamar e promover praticamente a liberdade de discurso, debate e pesquisa, teológico, na Igreja, tanto que a liberdade de pensamento e de expressão se tornaram um slogan. Em simultâneo, pode agora observar-se o paradoxo desta mesma liberdade ser negada àqueles pertencentes à Igreja que nos nossos dias levantam a voz com respeito e educação na defesa da verdade. Esta situação bizarra lembra-me uma célebre canção que eu tinha de cantar na escola comunista na minha infância, e que dizia: "A União Soviética é a minha pátria amada, e não conheço outro país no mundo onde o homem pode respirar tão livremente." 

MH: Pode dizer-nos algumas palavras que o Cardeal Carlo Caffarra lhe tenha dirigido pessoalmente em relação à actual crise da Igreja, palavras dele que possam constituir, em parte, uma espécie de legado?

BAS: Falei apenas duas vezes com o Cardeal Caffarra. Até mesmo esses encontros e conversas curtas com o Cardeal Caffarra deixaram em mim algumas impressões profundas. Vi nele um verdadeiro homem de Deus, um homem de fé, de visão sobrenatural. Notei nele um amor profundo pela verdade. Quando falei com ele acerca da necessidade dos bispos erguerem a sua voz em relação ao ataque contra a indissolubilidade do matrimónio e a santidade dos laços sacramentais do matrimónio, ele disse: “Quando nós bispos fazemos isto, não devemos temer ninguém nem nada, pois não temos nada a perder.” Uma vez disse a uma senhora católica dos Estados Unidos, com uma fé profunda e grande inteligência, a frase utilizada pelo Cardeal Caffarra, nomeadamente que nós bispos não temos nada a perder quando dizemos a verdade. Em resposta ela disse estas palavras inesquecíveis: “Perderão tudo quando não fizerem isso.”

MH: Considera justificável que outros cardeais – tais como o Cardeal Christoph Schönborn ou o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga – tenham censurado os quatro cardeais por terem publicado os dubia?

BAS: A formulação e publicação dos dubia por parte dos quatro cardeais foi altamente meritória e, de certa forma, também um acto histórico, honrando verdadeiramente o Colégio Sagrado dos Cardeais. Na presente situação, a indissolubilidade e a santidade do matrimónio sacramental estão a ser enfraquecidas e, na prática, negadas através da admissão normativa de adúlteros impenitentes aos sacramentos, banalizando e profanando assim também os sacramentos do Matrimónio, Confissão, e da Eucaristia. Em última instância está em causa a validade dos Divinos Mandamentos e toda a lei moral, tal como o Professor Seifert correctamente afirmou no seu artigo acima mencionado, e pelo qual foi severamente punido. 

Podemos comparar esta situação a um navio num mar turbulento, no qual o capitão ignora os perigos óbvios, enquanto a maioria dos seus oficiais se envolvem em silêncio, dizendo: “Tudo está bem no navio a afundar.” Quando perante tal situação, uma pequena parte dos oficiais do navio levantam a voz pela segurança de todos os passageiros, são grotesca assim como injustamente criticados pelos seus colegas, como amotinadores ou como desmancha-prazeres. Mesmo que o capitão julgue as vozes dos poucos oficiais perturbadoras no momento, ele irá reconhecer agradecidamente a sua ajuda posteriormente, quando tiver de confrontar o perigo, olhando-o nos olhos, e quando estiver diante do Divino Juiz. Também ficarão agradecidos, tanto os passageiros como a História, quando o perigo tiver passado. O acto corajoso e os nomes daqueles poucos oficiais serão lembrados como verdadeiramente altruístas e heroicos; mas certamente não aqueles oficiais, que por ignorância, ou por oportunismo, ou por servilismo, se envolveram em silêncio ou até absurdamente criticaram aqueles que tomaram medidas de salvação naquele navio a afundar. De certa forma, isto corresponde à actual situação ao redor dos dubia dos quatro cardeais. 

Temos de nos relembrar do que Santo Basílio observou durante a crise Ariana: “Os homens com autoridade têm medo de falar, pois os que alcançaram o poder através de interesses humanos são os escravos daqueles a quem devem a sua subida. E agora a própria defesa da ortodoxia é olhada em alguns lugares como uma oportunidade para o ataque mútuo; e homens escondem a sua própria vontade doente e fingem que a sua hostilidade é toda para o bem da verdade. Entretanto os não-crentes riem; homens de pouca fé vacilam; a fé é incerta; almas são submersas na ignorância, porque os adulteradores da palavra imitam a verdade. Os melhores dos leigos evitam as igrejas como escolas de impiedade e levantam as mãos nos desertos com suspiros e lágrimas ao Senhor no céu. A fé dos Padres da Igreja que recebemos; essa fé que sabemos ter o selo com as marcas dos Apóstolos; para aquela fé à qual assentimos, bem como para tudo o que no passado foi canonicamente e legalmente promulgado”. (Ep. 92,2)

MH: Agora que restam apenas dois cardeais dos dubia – depois da morte do Cardeal Carlo Caffarra e do Cardeal Joachim Meisner – quais são as suas próprias esperanças em relação a outros cardeais que possam agora surgir para colmatar este vazio? 

BAS: Espero e desejo que mais cardeais, à semelhança dos oficiais daquele navio num mar turbulento juntem agora as suas vozes às vozes dos quatro cardeais, independentemente de louvor ou culpa. 

MH: Em geral, o que é que os católicos – leigos ou clérigos – fazem agora se estiverem a ser pressionados para aceitar alguns aspectos controversos da Amoris Leatitia, por exemplo em relação aos divorciados “recasados” e à possível permissão do acesso aos Sacramentos? E em relação àqueles padres que se recusam a distribuir a Sagrada Comunhão a esses casais “recasados”? E em relação aos professores católicos leigos que estão a ser ameaçados com o afastamento das suas posições de ensino devido ao seu criticismo, patente ou latente, face à Amoris Leatitia? O que é que podemos todos fazer quando confrontados, na nossa consciência, com as alternativas de trair os ensinamentos de Nosso Senhor, ou seguir em firme desobediência aos nossos superiores? 

BAS: Quando padres ou leigos se mantém fiéis ao imutável e constante ensinamento e prática de toda a Igreja estão em comunhão com todos os papas, bispos ortodoxos e Santos de dois mil anos, estando em especial comunhão com São João Baptista, São Thomas More, São John Fisher e com os inumeráveis esposos abandonados que se mantiveram fiéis aos seus votos, aceitando a vida de continência de maneira a não ofender Deus. A voz constante no mesmo sentido e significado (eodem sensu eademque sentencia) e a respectiva prática de dois mil anos é mais poderosa e segura do que a voz discordante e a prática de admitir adúlteros impenitentes à Sagrada Comunhão, mesmo que esta prática seja promovida por um único Papa ou bispos diocesanos. Neste caso temos de seguir o ensinamento constante e prática da Igreja, pois aqui entra a verdadeira tradição, a “democracia dos mortos”, o que significa a voz maioritária daqueles que nos precederam. 

Santo Agostinho respondeu à errada e não tradicional prática Donatista de re-baptizar e de re-ordenar, afirmando que a constante e imutável prática da Igreja desde o tempo dos Apóstolos corresponde ao juízo seguro do mundo inteiro: “O mundo inteiro julga acertadamente”, i.e., “Securus judicat orbis terrarum” (Contra Parmenianum III, 24). O que significa que toda a tradição Católica julga seguramente e com certeza contra a prática fabricada e de curta-duração que, num ponto importante, contradiz todo o Magistério de todos os tempos. Esses padres, que seriam agora forçados pelos seus superiores a distribuir a Sagrada Comunhão a públicos e impenitentes adúlteros, ou a outros conhecidos e públicos pecadores, devem responder com uma santa convicção: “O nosso comportamento é o comportamento de todo o mundo Católico ao longo de dois mil anos”: “O mundo inteiro julga acertadamente”, “Securus judicat orbis terrarum”! 

O Beato John Henry Newman disse na Apologia pro sua vita: “O juízo intencional, em que toda a Igreja repousa e concorda, é uma prescrição infalível e uma sentença final contra uma novidade temporal.” Neste nosso contexto histórico esses padres e fiéis devem dizer aos seus superiores eclesiásticos, e bispos, tal como devem dizer com caridade e respeitosamente ao Papa o que São Paulo uma vez disse: “Porque, nada podemos contra a verdade, senão pela verdade. Porque nos alegramos de ser fracos, enquanto vós sois fortes. E ainda rogamos pela vossa perfeição.” (2Cor 13, 8-9)


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

É lícito distribuir preservativos para evitar abortos?

cooperação com o mal “é o concurso que se presta à acção má de outro, levando-o a fazer o mal na qualidade de agente principal” (Del Greco, Compêndio de Teologia Moraln. 138). Segundo o mesmo autor, é lícita “quando intervier motivo proporcionado”; e, exemplificando, “pode-se dar vinho a um bêbado para impedir que ele blasfeme” (n. 139).

O moralista é até mais abrangente e chega mesmo a dizer que se pode “sempre cooperar materialmente quando se trata de fazer evitar um mal mais grave” (id. ibid). A esta luz é legítimo — já vi o exemplo algures — procurar persuadir alguém, que esteja disposto a matar um seu rival, a feri-lo “apenas”. Como o pecado é cometido por outrem e como a intervenção fê-lo, na prática, deixar de cometer um pecado mais grave, ela respeita o mandamento da caridade — que obriga a procurar o bem dos outros e se esmerar por atingi-lo. Não só é legítima como, talvez, possa ser moralmente exigida.

Diante destes pressupostos coloca-se a pergunta incómoda: é lícito, portanto, oferecer um contraceptivo a alguém que vai cometer uma relação sexual cujo eventual fruto está disposto a abortar? Em outras palavras: se se sabe que fulano constrangeria a sua namorada a cometer um aborto caso ela engravidasse, será porventura lícito, na eventualidade de não ser possível dissuadir-lhes da fornicação em si, oferecer o preservativo a ele, ou a pílula a ela, a fim de evitar que eles cometam o mal (muito maior) do aborto? O paralelo é notável: a acção é meramente cooperativa e não comissiva, e evitar a morte de um ser humano inocente parece um “motivo proporcionado” a ser levado em consideração.

Não sei se os teólogos morais já se debruçaram sobre o tema, mas penso que há certas particularidades que devem ser levadas em consideração antes de uma resposta ligeira e irrefletida.

Primeiro, a fornicação — ao contrário dos outros exemplos mais fáceis de embriagar ou bater em alguém — é pecado mortal ex toto genere suo (cf. op. cit., n. 82), i.e., não admite parvidade de matéria (não pode nunca constituir pecado venial, ao menos não pelo seu objecto); e embora o que se diga a respeito da cooperação com o mal não faça menção à gravidade do pecado com o qual se coopera, é no mínimo temerário aderir laconicamente à tese de que ela é indiferente. Ou pode-se licitamente tentar convencer a matar um inocente só quem está já disposto a matar dois?

Segundo, e talvez mais importante, porque, in casu, o pecado que se instiga e aquele que se pretende evitar não estão no mesmo plano. O primeiro existe, formalmente, na medida em que o sujeito está decidido a fornicar; já o segundo não, porque a concepção de um filho não lhe é directamente visada, e nem muito menos o eventual aborto com o qual ele teria — presumivelmente — a pretensão de se descartar da sua responsabilidade parental. É muito diferente do caso de convencer fulano a ferir o sujeito que ele pretende matar: aqui já existe o pecado do homicídio, presente no intelecto do agente, em vias de execução quase, e persuadi-lo a “apenas” dar uma surra no seu rival faz, assim, sem dúvidas, e propriamente, o papel de evitar um assassinato concreto.

Não é absolutamente o mesmo o caso do aborto, tanto por ele não passar de uma probabilidade cuja existência não depende do contraceptivo para ser afastada (afinal, a menina pode simplesmente não engravidar e, portanto, a questão do aborto pode não se colocar jamais) quanto porque ele não era, no momento do pecado, objecto do querer do agente (cuja vontade pecaminosa era simplesmente a de fornicar, e não de abortar — e, portanto, diferente do que ocorre no caso do homicida, aqui o pecado efectivamente cometido é exactamente aquele inicialmente desejado, sem diminuição alguma).

Mas há ainda um terceiro ponto que se deve ter em conta, e ele considera os efeitos sociais da atitude de cooperação para o mal. Porque se imagina, no caso do sujeito disposto a matar o seu rival, que convencê-lo a feri-lo não passa de uma solução de emergência, de um caso fortuito, raro e eventual: não passa pela cabeça do moralista, suponho, a possibilidade de que o espancamento público de rivais viesse a generalizar-se — e socialmente aceite — de cercear os instintos assassinos do ser humano. Não se concebe que, de pecado, ferir o seu inimigo passe a ser visto como uma coisa banal e indiferente, ou mesmo positiva até, a ser incentivada e vista com naturalidade.

Ora, no caso dos contraceptivos é exatamente isso o que acontece. Não se vê a pílula como um mal menor a ser eventualmente utilizado em situações excepcionais cuja premência impede uma solução mais adequada: apresenta-se-lhe, ao contrário, como a solução ordinária e definitiva em matéria sexual que, se evita maiores males (como o aborto), fá-lo às custas da naturalização generalizada do pecado — já grave — da fornicação. 

Se é possível contrapesar pecados tratando-se de escolhas individuais, não parece contudo ser lícito institucionalizar alguns pecados nem mesmo para mitigar outros mais graves. A lógica da cooperação com o mal só faz sentido dentro dos estreitos limites em que o pecado é tratado como pecado; é uma lógica de contenção perplexa e não de excepção moral. Se se perde isso de vista e se o mal passa a ser visto com naturalidade, então talvez não se esteja mais a evitar um “mal mais grave” — e, sem isso, cooperar com o pecado alheio deixa de ser lícito.

Jorge Ferraz in Deus lo vult


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sábado, 23 de julho de 2016

3 citações do Papa João Paulo II sobre Moral

1 - “Os preceitos negativos da lei natural são universalmente válidos: obrigam a todos e cada um, sempre e em qualquer circunstância. Trata-se, com efeito, de proibições que vetam uma determinada acção semper et pro semper, sem excepções, porque a escolha de um tal comportamento nunca é compatível com a bondade da vontade da pessoa que age, com a sua vocação para a vida com Deus e para a comunhão com o próximo. É proibido a cada um e sempre infringir preceitos que vinculam, todos e a qualquer preço, a não ofender em ninguém e, antes de mais, em si próprio, a dignidade pessoal e comum a todos.” 
Veritatis Splendor, 52

2 - “A Igreja sempre ensinou que nunca se devem escolher comportamentos proibidos pelos mandamentos morais, expressos de forma negativa no Antigo e no Novo Testamento. Como vimos, Jesus mesmo reitera a irrevogabilidade destas proibições: «Se queres entrar na vida, cumpre os mandamentos (...): não matarás; não cometerás adultério; não roubarás, não levantarás falso testemunho» (Mt 19, 17-18).” 
Veritatis Splendor, 52

3 - “ … abre-se o justo espaço à misericórdia de Deus pelo pecado do homem que se converte, e à compreensão pela fraqueza humana. Esta compreensão não significa nunca comprometer e falsificar a medida do bem e do mal, para adaptá-la às circunstâncias. Se é humano que a pessoa, tendo pecado, reconheça a sua fraqueza e peça misericórdia pela própria culpa, é inaceitável, pelo contrário, o comportamento de quem faz da própria fraqueza o critério da verdade do bem, de modo a poder-se sentir justificado por si só, mesmo sem necessidade de recorrer a Deus e à Sua misericórdia. Semelhante atitude corrompe a moralidade da sociedade inteira, porque ensina a duvidar da objectividade da lei moral em geral e a rejeitar o carácter absoluto das proibições morais acerca de determinados actos humanos, acabando por confundir todos os juízos de valor.” 
Veritatis Splendor, 54



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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Um 'mal menor' nunca pode ser bom

O Natal é o maior hino – o hino de Deus – à vida humana. Apesar de todas as suas limitações, o homem é um ser tão elevado, tão digno, que o Criador não teve pejo em unir a sua natureza à nossa. De facto, o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, justamente para participarem da infinita felicidade divina.

Com todas as limitações de criaturas, há em nós uma tal grandeza que nos leva a aspirar ao infinito – ao infinito poder, à omnisciência, à vida eterna, à suprema beleza, ao amor sem fim... A Deus, numa palavra. E o nosso coração não sossega enquanto em Deus não repousa, como dizia Santo Agostinho.

A consciência intuitiva desta grandeza choca, no entanto, com a fraqueza evidente que a toda a hora sentimos: tanto a fraqueza física como a fraqueza moral. E aí está uma das razões pelas quais muitas vezes perdemos a «auto-estima»: queremos ser fortes, e a doença abate-nos; queremos ser bons, e abatem-nos as tentações... Mas a pior tentação é aquela de que tratávamos no boletim anterior: «Afinal, temos de pecar...»

Já vimos que em boa parte essa ideia errada procede de chamarmos pecado ao que não o é; mas também pode nascer de um princípio mal entendido, que invocamos com frequência: o princípio do «mal menor». Por vezes encontramo-nos perante dois males – dizemos - e havemos por força de escolher algum; logo, o menor! Por exemplo, um polícia persegue um ladrão em flagrante delito; só disparando pode capturá-lo; não deve atirar à cabeça nem ao peito, mas às pernas. É um mal menor... Simplesmente, o exemplo não serve: o polícia faz bem, não faz mal, em tentar apanhá-lo. A sua função é a de manter a ordem social com o menor custo possível de vidas e bens. Não escolhe nesse caso entre dois males, mas entre um bem – cumprir o seu dever  – e um mal: feri-lo desnecessariamente.

Nunca se deve fazer um mal, nem grande nem pequeno. Nem sequer para que daí venha um bem... Temos ouvido falar das chamadas «mentiras piedosas»: - «Minto para que haja paz...» Parece realmente que obtive um bem, porque as pessoas não se zangaram, mas é um bem enganador, porque, se perdemos a confiança mútua, nunca mais haverá paz «sustentável», como agora se diz. Instalando-se a mentira, instala-se a desconfiança.

Por esse caminho errado também se legitimaria matar uma pessoa inocente «para salvar a Nação», como justificavam os fariseus a condenação à morte de Jesus. Também lhes parecia «um mal menor». Não tem faltado mesmo quem cometa genocídios por esse mesmo (desvirtuado) princípio: para «libertar» o país de um sector incómodo e «menor» da população...

E hoje em dia veja-se o aborto legalizado, pior e muito mais extenso  do que todos os genocídios. Não há quem não veja no aborto voluntário um mal, e mesmo um horror, mas há quem o justifique por esse (mal entendido) princípio: «para evitar um mal maior», como seria a sobrepopulação, ou o trauma da mulher, ou a falta de progresso científico, ou até a falta de «qualidade de vida» do nascituro... Acontece, porém, que não há mal maior do que o aborto legal: matar deliberada e legalmente um inocente é a subversão total do direito, da medicina, da ciência, da política, da cultura, da técnica, da civilização, além de ser a destruição deliberada de uma vida humana («inviolável», segundo proclama a nossa Constituição..., violada ela própria por essa lei iníqua). Porque tudo se deve dirigir ao bem do homem, e não ao seu aniquilamento.

Mas, além disso, ainda que nos parecesse um «mal menor», seria um mal; ninguém teria o direito de o cometer. Se não se deve mentir, quanto menos matar - e matar um inocente! Um filho!

Então, que significa esse princípio? Significa, não que possamos cometer um mal, mas sim tolerar algum mal, alheio, para evitar males maiores. É o caso do pai que deixa passar por alto uma impertinência do filho para evitar exasperá-lo, e esperando que se acalme; o caso do professor que tolera alguma indisciplina, esperando que a sua compreensão e amizade acabem por conquistar os alunos; o caso da polícia que não prende todos os carteiristas, porque mais vale conhecê-los e controlá-los do que ignorar os que lhes sucedem nas suas «zonas»; o caso das «toleradas» (assim se chamavam as prostitutas), pela mesma razão; o caso dos juizes que aplicam leves penas ou absolvem as mulheres que abortam, pois sabem que a maior pena delas é a lembrança do filho despedaçado, e para que não façam delas bandeiras políticas; o caso de um empresário, que não expulsa um operário logo ao primeiro abuso registado; o caso dos governos que amnistiam insurreições, para abrir caminho à pacificação do país; etc.

O princípio do «mal menor», portanto, é afinal o princípio da tolerância, que faz parte da prudência doméstica e política. E procede da visão realista da natureza humana: o homem não nasce perfeito: tem de aprender com tempo e esforço, tem de começar e recomeçar; e corrigir-se muitas vezes; e mesmo assim continua fraco, frágil, propenso ao mal... Sejamos pacientes com as fraquezas humanas, inclusive com as nossas; mas não as justifiquemos; não as legitimemos, porque seria um endurecimento da consciência; e não as legalizemos, que é um incentivo ao mal. Não há nenhum «mal menor» que seja bom.

Mons. Hugo de Azevedo in juntospelavida.pt


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