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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Resoluções de Ano Novo: Recuperar o tempo perdido

I. Um dia de balanço. O nosso tempo é breve. É parte muito importante da herança recebida de Deus.

II. Acto de contrição pelos erros e pecados que cometemos neste ano que termina. Acção de graças pelos muitos benefícios recebidos.

III. Propósitos para o ano que começa.

I. HOJE É UMA BOA OCASIÃO para fazermos um balanço do ano que passou e fixarmos propósitos para o ano que começa. É uma boa oportunidade para pedirmos perdão pelo que não fizemos, pelo amor que nos faltou; um bom momento para agradecermos a Deus todos os benefícios que nos concedeu.

A Igreja recorda-nos que somos peregrinos. 

A nossa vida também é um caminho cheio de tribulações e de “consolos de Deus”. Temos uma vida no tempo, na qual nos encontramos agora, e outra para além do tempo, na eternidade, para a qual nos encaminha a nossa peregrinação. O tempo de cada um é uma parte importante da herança recebida de Deus; é a distância que nos separa do momento em que nos apresentaremos diante de Nosso Senhor com as mãos cheias ou vazias.

Só agora, aqui nesta vida, podemos adquirir méritos para a outra. Na realidade, cada um dos nossos dias é um tempo que Deus nos presenteia para enchê-lo de amor por Ele, de caridade para com aqueles que nos rodeiam, de trabalho bem feito, de virtudes e de obras agradáveis aos olhos do Senhor. Este é o momento de amealhar o “tesouro que não envelhece”. Este é, para cada um, o tempo propício, este é o dia da salvação(1). Passado este tempo, já não haverá outro.

O tempo de que cada um de nós dispõe é curto, mas suficiente para dizer a Deus que o amamos e para concluir a obra de que o Senhor nos encarregou a cada um. Por isso São Paulo nos adverte: Vivei com prudência, não como néscios, mas como sábios, aproveitando bem o tempo(2), pois em breve vem a noite, quando já ninguém pode trabalhar(3). “Verdadeiramente, é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos nem que atiremos irresponsavelmente este tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós”(4).

A brevidade do tempo é um contínuo convite para que tiremos dele o máximo rendimento aos olhos de Deus. Hoje, na nossa oração, podemos perguntar-nos se Deus está contente com a forma como vivemos o ano que passou: se foi bem aproveitado ou, pelo contrário, foi um ano de ocasiões perdidas no trabalho, na acção apostólica, na vida familiar; se fugimos com frequência da Cruz, porque nos queixávamos facilmente ao depararmos com a contrariedade e com o inesperado.

Cada ano que passa é um apelo para que santifiquemos a nossa vida diária e um aviso de que estamos um pouco mais perto do encontro definitivo com Deus. Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos. Por conseguinte, enquanto dispomos de tempo, façamos o bem a todos(5).

II. AO EXAMINAR-NOS, é fácil que verifiquemos ter havido, neste ano que termina, omissões na caridade, pouca laboriosidade no trabalho profissional, mediocridade espiritual consentida, pouca esmola, egoísmo, vaidade, faltas de mortificação na comida, graças do Espírito Santo não correspondidas, intemperança, mau humor, mau génio, distracções mais ou menos voluntárias nas nossas práticas de piedade... São inumeráveis os motivos para terminarmos o ano pedindo perdão a Deus, fazendo actos de contrição e de desagravo. Olhamos para o tempo que passou e “devemos pedir perdão por cada dia, porque cada dia ofendemos”(6). Nem um só dia escapou a essa realidade: foram muitas as nossas falhas e os nossos erros.

No entanto, são incomparavelmente maiores os motivos de agradecimento, tanto no campo humano como no espiritual. Foram incontáveis as moções do Espírito Santo, as graças recebidas no sacramento da Penitência e na Comunhão eucarística, as intervenções do nosso Anjo da Guarda, os méritos alcançados ao oferecermos o nosso trabalho ou a nossa dor pelos outros, as ajudas que nos prestaram. Pouco importa que agora só percebamos uma pequena parte dessa realidade. Agradeçamos a Deus todos os benefícios recebidos ao longo deste ano.

“É essencial conseguirmos novas forças para servir, e que procuremos não ser ingratos, porque o Senhor nos dá essas forças com essa condição; e se não usarmos bem do tesouro e do grande estado em que Ele nos coloca, voltará a tomá-los e ficaremos muito mais pobres, e Sua Majestade dará as jóias a quem as faça brilhar e as aproveite para si e para outros. Pois como poderia aproveitá-las e gastá-las generosamente quem não percebe que está rico? No meu modo de ver, é impossível, de acordo com a nossa natureza, que tenha ânimo para coisas grandes quem não pense estar favorecido por Deus; porque somos tão miseráveis e tão inclinados às coisas da terra, que, na verdade, mal poderá rejeitar todas as coisas daqui de baixo, com grande desprendimento, quem não perceba que tem algum penhor do além”(7).

Temos de encerrar o ano pedindo perdão por tantas faltas de correspondência à graça, pelas inúmeras vezes em que Jesus se pôs ao nosso lado e não fizemos nada para vê-lo e o deixamos passar; e, ao mesmo tempo, encerrá-lo agradecendo a Deus a grande misericórdia que teve connosco e os inumeráveis benefícios, muitos deles desconhecidos por nós mesmos, que Ele nos proporcionou.

III. NESTES ÚLTIMOS DIAS do ano que termina e nos primeiros do que se inicia, desejaremos uns aos outros que tenham um bom ano. Ao porteiro, ao farmacêutico, aos vizinhos..., dir-lhes-emos 'Feliz Ano Novo!' ou coisa parecida. Ouviremos outras tantas pessoas desejar-nos o mesmo e lhes agradeceremos.

Mas o que é que muita gente entende por 'Feliz Ano Novo'? “É, certamente, que vocês não sofram no novo ano nenhuma doença, nenhuma pena, nenhuma contrariedade, nenhuma preocupação, antes pelo contrário, que tudo lhes sorria e lhes seja favorável, que ganhem muito dinheiro e não tenham que pagar muitos impostos, que os salários aumentem e o preço dos artigos diminua, que o rádio lhes dê boas notícias todas as manhãs. Em poucas palavras, que não experimentem nenhum contratempo”(8).

É bom desejar estes bens humanos para nós mesmos e para os outros, se não nos separam do nosso fim último. O novo ano nos trará, em proporções desconhecidas, alegrias e contrariedades. Um ano bom, para o cristão, terá sido aquele em que tanto umas como outras lhe serviram para amar um pouco mais a Deus. Ano bom para o cristão não terá sido aquele que veio carregado – na hipótese de que isso fosse possível – de uma felicidade natural à margem de Deus. Ano bom terá sido aquele em que servimos melhor a Deus e aos outros, ainda que do ponto de vista humano tenha sido um completo desastre. Pode ter sido, por exemplo, um ano bom aquele em que apareceu a grave doença tantos anos latente e desconhecida, se soubemos santificar-nos com ela e com ela santificar aqueles que estavam à nossa volta.

Qualquer ano pode ser “o melhor ano” se aproveitarmos as graças que Deus nos reserva e que podem converter em bem a maior das desgraças. Para este ano que começa, Deus preparou-nos todas as ajudas de que necessitamos para que seja “um ano bom”. Não desperdicemos nem um só dos seus dias. E quando chegar a queda, o erro ou o desânimo, recomecemos imediatamente. Em muitos casos, através do sacramento da Penitência.

Que todos tenhamos “um bom ano novo”! Oxalá possamos apresentar-nos diante do Senhor, no fim deste ano que começa, com as mãos cheias de horas de trabalho oferecidas a Deus, de empenho apostólico junto dos nossos amigos, de incontáveis pormenores de caridade para com aqueles que nos rodeiam, de muitas pequenas vitórias, de encontros irrepetíveis na Comunhão...

Façamos o propósito de converter as derrotas em vitórias, recorrendo a Deus e começando de novo. E peçamos à Virgem Maria, nossa Mãe, a graça de viver este ano que se inicia lutando como se fosse o último que o Senhor nos concede.

Francisco Fernandez Carvajal

(1) 2 Cor 6, 2; (2) Ef 5, 15-16; (3) Jo 9, 4; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 39; (5) Gál 6, 9-10; (6) Santo Agostinho, Sermão 256; (7) Santa Teresa, Vida, 10, 3; (8) Georges Chevrot, O Evangelho ao ar livre.


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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Belíssima carta de Sammy Basso sobre a morte

Morreu Sammy Basso, biólogo italiano de 28 anos, doente de progeria e um dos mais velhos sobreviventes conhecidos da doença.

A progeria, também conhecida como Síndrome de Hutchinson-Gilford, é causada por uma mutação num único gene que faz com que os doentes envelheçam mais depressa do que o normal. As pessoas que nascem com progeria vivem normalmente até aos meados da adolescência ou até aos vinte e poucos anos. Apenas 130 casos de progeria foram identificados em todo o mundo.

Em 2021, Basso concluiu um mestrado em biologia molecular e contribuiu para esforços significativos de investigação para compreender e tratar a doença. A 5 de outubro de 2024, morreu subitamente de complicações cardiovasculares enquanto jantava com a família e amigos num restaurante em Asolo, perto de Treviso.

Na carta que Sammy Basso escreveu para o seu funeral, afirmou “Ele, o nosso Deus, o único Deus verdadeiro, é a causa primeira e o fim de todas as coisas”. Excertos da sua carta:

“Pensemos na morte de uma forma positiva: se ela não existisse, provavelmente não terminaríamos nada na nossa vida, porque há sempre o amanhã. A morte, pelo contrário, faz-nos saber que não há sempre um amanhã, que se queremos fazer alguma coisa, o momento é agora! Mas para um cristão, a morte é também outra coisa! Uma vez que Jesus morreu na cruz como sacrifício por todos os nossos pecados, a morte é a única forma de viver verdadeiramente, é a única forma de regressar finalmente à casa do Pai, é a única forma de ver finalmente o Seu rosto. E, como cristão, enfrentei a morte. Não queria morrer, não estava preparado para morrer, mas estava preparado. A única coisa que me deixa melancólico é não estar presente para ver o mundo mudar e seguir em frente. Quanto ao resto, espero que no meu último momento tenha podido ver a morte como São Francisco, cujas palavras me acompanharam durante toda a minha vida. Espero que também eu tenha sido capaz de acolher a morte como “irmã morte”, da qual nenhum ser vivo pode escapar. Se fui digno em vida, se carreguei a minha cruz como me foi pedido, agora estou com o Criador”.

“Estou agora com o meu Deus, o Deus dos meus pais, na sua casa indestrutível. Ele, o nosso Deus, o único Deus verdadeiro, é a causa primeira e o fim de todas as coisas. Perante a morte, nada tem sentido senão Ele. Por isso, embora não seja necessário dizê-lo, pois Ele sabe tudo, tal como vos agradeci, também eu gostaria de lhe agradecer. Devo toda a minha vida, todas as coisas boas, a Deus. A fé acompanhou-me e, sem a minha fé, não seria o que sou. Ele mudou a minha vida, tomou-a, fez dela algo de extraordinário, e fê-lo na simplicidade da minha vida quotidiana. Nunca se cansem, meus irmãos, de servir a Deus e de agir de acordo com os seus mandamentos, porque sem Ele nada tem sentido e porque todas as nossas acções serão julgadas e decidirão quem viverá para sempre e quem terá de morrer”.

“Não fui certamente o melhor dos cristãos, fui certamente um pecador, mas isso não importa agora: o que importa é que dei o meu melhor e que o faria de novo. Nunca vos canseis, meus irmãos, de carregar a cruz que Deus atribuiu a cada um de nós, e não tenhais medo de ser ajudados a carregá-la, como Jesus foi ajudado por José de Arimateia”.

in gloria.tv


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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Cardeal Newman fala sobre o aparente triunfo dos inimigos da Igreja

Outrora, era uma fonte de perplexidade para quem crê, como lemos nos salmos e nos profetas, ver que os maus tinham êxito onde os servos de Deus pareciam fracassar. E o mesmo se passa ao tempo do Evangelho. E no entanto a Igreja possui este privilégio especial, que mais nenhuma outra religião tem, de saber que, tendo sido fundada aquando da primeira vinda de Cristo, não desaparecerá antes do Seu regresso.

Contudo, em cada geração, parece que sucumbe e que os seus inimigos triunfam. O combate entre a Igreja e o mundo tem isto de particular: parece sempre que o mundo a vence, mas é Ela que de facto ganha. Os seus inimigos triunfam constantemente, dizendo-a vencida; os seus membros perdem frequentemente a esperança. Mas a Igreja permanece. […] Os reinos fundam-se e desmoronam; as nações espraiam-se e desaparecem; as dinastias começam e terminam; os príncipes nascem e morrem; as coligações, os partidos, as ligas, os ofícios, as corporações, as instituições, as filosofias, as seitas e as heresias fazem-se e desfazem-se. Elas têm o seu tempo, mas a Igreja é eterna. E contudo, no seu tempo, elas parecerem ter uma grande importância. […]

Neste momento, muitas coisas põem a nossa fé à prova. Não vemos o futuro; não vemos que o que parece agora ter êxito não durará muito tempo. Hoje, vemos filosofias, seitas e clãs alastrarem, florescentes. A Igreja parece pobre e impotente. […] Peçamos a Deus que nos instrua: temos necessidade de ser ensinados por Ele, estamos cegos. Quando as palavras de Cristo puseram os apóstolos à prova, eles pediram-Lhe: «Aumenta a nossa fé» (Lc 17,5). 

Procuremo-Lo com sinceridade: nós não nos conhecemos; temos necessidade da Sua graça. Qualquer que seja a perplexidade a que o mundo nos induza […], procuremo-Lo com um espírito puro e sincero. Peçamos humildemente que nos mostre o que não compreendemos, que suavize o nosso coração quando ele se obstina, que nos dê a graça de O amarmos e de Lhe obedecermos fielmente na nossa procura.

Cardeal John Henry Newman in 'Sermões sobre os temas do dia', nº 6, «Fé e Experiência», 2.4


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quinta-feira, 27 de junho de 2019

A impressionante Peregrinação Paris-Chartres

Este ano fui pela primeira vez à Peregrinação Paris-Chartres. Esta peregrinação começou em 1983 com o objectivo de reunir os franceses afectos ao Rito Tradicional Romano, que tinha então sido posto de lado por grande parte dos Bispos e sacerdotes, como se pudesse ser proibido. O número de peregrinos foi aumentando e, no ano 2000, a peregrinação começa a ser organizada pela associação Notre-Dame de Chrétienté.

Normalmente a peregrinação une as duas catedrais góticas de Paris e Chartres. No entanto, devido ao incêndio que destruiu parte da Catedral de Notre Dame em Paris, a peregrinação saiu da igreja de Saint-Sulpice em Paris. O destino continuou a ser a Catedral de Chartres, que é um destino de peregrinações já desde o séc. XII. 

A peregrinação está divida em dois grupos: adultos (no qual se incluem jovens) e famílias. O primeiro grupo percorre um caminho que pode ser considerado duro: são 100 quilómetros em dois dias e meio. O segundo grupo faz um caminho mais tranquilo, percorrendo menos quilómetros. Os dois grupos vão-se encontrando: para a Santa Missa, refeições ou pernoitar no mesmo local. Estima-se que este ano, na Catedral de Chartres (dentro e fora), tenham estado cerca de 15 mil pessoas.

A organização é admirável: mais de 1000 voluntários. A logística necessária numa peregrinação com 15 mil pessoas é de loucos! Tudo tem de estar organizado até ao mais ínfimo pormenor. E nisso os franceses deram uma prova de grande capacidade. O despertar era às 5 da manhã. Levantar e arrumar as coisas porque as enormes tendas começavam logo a ser desmontadas. Comer qualquer coisa e às 6h30 começavam a andar os primeiros peregrinos.

Os peregrinos estão divididos em capítulos. Os capítulos podem representar uma língua, um país ou apenas um grupo que se organizou para que pudesse caminhar junto. Este ano houve um capítulo português pela primeira vez. Estavam presentes bastantes capítulos "estrangeiros", dos mais variados países. Mas muito mais capítulos franceses, obviamente. Os capítulos seguem-se uns aos outros, segundo a ordem estipulada pela organização. 

Esta peregrinação é um verdadeiro desapego das coisas mundanas. Além do caminho que implica esforço e sofrimento, os luxos são poucos ou inexistentes. Cada um leva a própria comida, o que dá lugar a grandes "partilhas". A organização oferece café de manha, água durante o dia e sopa à noite. Nas refeições oferece também algumas pequenas 'baguettes', pão típico francês. Os banhos são escassos. As tendas estão normalmente a abarrotar de gente. Cá fora está um frio de rachar.

Na peregrinação há centenas de sacerdotes. Quase todos fazem a peregrinação de batina. Muitos deles também com sobrepeliz e estola roxa porque vão confessando peregrinos ao longo do caminho. São milhares e milhares de confissões! Também se encontram religiosos e religiosas de inúmeras congregações religiosas tradicionais. A maioria são novas vocações.
O ambiente de oração é fantástico. A começar pelas Missas, celebradas em Rito Tradicional com toda a solenidade possível, silêncio absoluto e um coro belíssimo. Os capítulos rezam alguns terços durante o dia. Era normal ouvir Avé-Marias cantadas em latim, em francês e noutras línguas. Os capítulos tinham ainda catequeses próprias, dadas enquanto se andava porque parar é morrer!

Uma peregrinação com 15 mil pessoas é impressionante. Uma peregrinação com 15 mil pessoas na Europa descristianizada é muito impressionante. Mas uma peregrinação na Europa descristianizada com 15 mil pessoas, das quais a grande maioria são jovens, é uma visão do Céu. A média de idades no ano passado foi 21 anos. Este é, sem dúvida, o futuro da Igreja. 

Estes católicos franceses têm vindo a preparar os seus filhos para o combate. Combate espiritual e não só. Na peregrinação havia muitos grupos de jovens com espírito verdadeiramente militante: obedientes, respeitando uma hierarquia e seguros dos valores que querem para as suas famílias e para a sociedade. Eram muitos os hinos patrióticos cantados - às vezes berrados até! - a plenos pulmões. As bandeiras e pendões eram incontáveis e do mais variado.

Na Peregrinação Paris-Chartres respira-se a fé católica e respira-se a civilização católica. Isto, como não poderia deixar de ser, no meio de uma grande alegria que é própria de quem se sabe amado por Deus e chamado a ser santo. Vale a pena experimentar aquele santo ambiente, nem que seja uma vez na vida.

João Silveira


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

3 ideias a não perder em Star Wars Rogue One

O novo Star Wars já estreou. Vale muito a pena verem o filme com amigos. Vão-se divertir imenso, mas também porque há ideias boas para retirar do filme. 

(Atenção: no fim há spoilers que contam o fim do filme)

1. Divina Providência

Chirrut, um dos personagens mais importantes, é um guardião das minas de cristais de sabres de luz. Apesar de não ser Jedi, Chirrut tem uma relação muito próxima com a Força que lhe dá grande agilidade em combate e uma enorme segurança. Chirrut é cego mas, pela confiança que tem na Força, consegue ver muito mais do que qualquer outro personagem.

Isto lembra a confiança dos Cristãos na Divina Providência. Os Cristãos sabem que Deus sustenta continuamente o Universo e que os protege mesmo nas piores adversidades. Por isso é que, mesmo numa situação difícil, é possível viver em paz, sabendo que Deus está a ver. Os Cristãos que vivem assim, como foi o caso dos Santos, vêem muito mais longe do que os outros, pois vêem o mundo com um olhar sobrenatural. 

É verdade que há momentos de muita dor e que não passam, ao ponto de quem sofre pensar que Deus não existe. Mas confiar em Deus não é fácil, apesar de simples. Na verdade, no filme, Chirrut também sabe que confiar na Força não é fácil, por isso é que ele está constantemente a repetir para si que confia na Força (“I am one with the Force, the Force is with me.”) Ele repete isto não para se unir mais à Força mas para confiar mais, para se convencer a si mesmo disso. Os Cristãos também usam há séculos truques não para que Deus os proteja, mas para se lembrarem da presença de Deus. Os Santos repetiam continuamente jaculatórias (como “Jesus, eu confio em Vós”) para confiarem mais em Deus. Como mostra a história de Chirrut neste Star Wars, a repetição vocal e contínua de uma pequena oração é útil para a vida espiritual e tem grandes efeitos na vida real.

2. Coisas pequenas

Este novo Star Wars, ao contrário dos outros, não pertence a uma trilogia. É um filme sobre uma história secundária que conta como a Aliança Rebelde roubou os planos da Estrela da Morte, essenciais para o episódio IV. Sem esta história, nunca o Luke Skywalker, a Princesa Leia e o Han Solo se teriam tornado amigos e mudado a história do universo (e do cinema). Este filme dá voz a membros da Aliança Rebelde que nem sequer sabíamos que existiam. Estas pessoas tinham vidas valiosas que ganharam forma através de decisões complicadas que tiveram de tomar ao longo do filme. 

Todas os grandes sucessos têm sempre coisas aparentemente pequenas, mas muito valiosas, por trás. Uma grande construção torna o arquitecto famoso, mas por trás há imensas pessoas envolvidas: engenheiros, construtores, empresas de materiais, os professores que ensinaram todas estas pessoas, ... Isto é especialmente verdade na vida Cristã. Quando Jesus diz em Lc 16, 10 que “quem é fiel no pouco, também é fiel no muito”, está a demonstrar a importância das coisas pequenas para uma vida grande. O caminho de santidade ensinado por Santa Teresinha é inteiramente feito de coisas pequenas. E São Josemaria ensinou que quem não souber viver os pequenos sacrifícios do dia-a-dia, nunca conseguirá ser verdadeiramente Santo e vencer os grandes obstáculos que a vida lhe porá à frente. Como Cristãos gostamos de ver o louvor das coisas pequenas precisamente porque isso nos mostra que mesmo as coisas que parecem mais pequenas têm um fruto muito grande. E este novo Star Wars mostra isso. 

3. Esperança

O filme acaba de uma forma totalmente inesperada. Todos os heróis do filme morrem, mas nenhuma das suas mortes foi em vão. No filme, cada personagem morre imediatamente depois de completar a sua missão. Mas o interessante é que nenhum deles sabe se o que fez foi bem sucedido ou não. Todos os Rebeldes que foram roubar os planos da Estrela da Morte morrem sem nunca saber se a Aliança Rebelde recebeu os planos. Pior ainda, o que eles viam era que tudo parecia falhar. Mas, ainda assim, eles fizeram o que tinham a fazer. Porquê? Porque estavam alimentados pela esperança de que iam conseguir.

A Igreja Católica ensina que a Esperança é a virtude pela qual temos a certeza da Ressurreição. Tal como disse Nossa Senhora em Fátima, no fim, “o meu Imaculado Coração Triunfará.” Todas as acções dos Cristãos devem ser animadas pela certeza de que, se forem fiéis, no fim da vida vão para o Céu. Vemos isso na ousadia dos Santos que fizeram coisas impensáveis aos olhos do mundo e que mesmo assim sucederam. Um Cristão fiel é um verdadeiro rebelde contra as modas do mundo. Como diz Jyn Erso, a personagem principal do filme, “we have hope. Rebellions are built on hope.” E o filme a seguir a este chama-se “Uma Nova Esperança.” Também pelos mártires e pelos santos, vê-se que a esperança de um Cristão, dá esperança a muitos outros por gerações fora.

Nuno CB

English Version (via Google Translator):

The new Star Wars: Rogue One is already out. You should watch the movie with friends. Not only you will have lots of fun, but there are also great ideas to take from the film.

(Warning: there are some spoilers in the end)

1. Divine Providence

Chirrut, one of the most important characters, is a guardian of the mines of lightsaber crystals. Although not a Jedi, Chirrut has a close relationship with the Force that gives him a great agility in combat and an enormous sense of security. Chirrut is blind but, due to his trust in the Force, he can see more than any other character.

This reminds us of the trust that Christians have in Divine Providence. Christians know that God continually sustains the Universe and protects them, even before the worst adversities. That is why, even in a difficult situation, it is possible to live in peace, knowing that God is watching. The Christians who live like this, as the Saints did, see beyond what others see, for they see the world with a supernatural look.

It is true that there are times of much pain that take long to go away. They so hard to the point of thinking that God does not even exist. But trusting in God is not easy, although it is simple. In fact, in the film, Chirrut also knows that relying on the Force is not easy, that is why he is constantly repeating to himself that he trusts the Force. "I am one with the Force, the Force is with me," he says. He repeats this not to join the Force more but to trust more, to convince himself of it. Christians have also used these tricks for centuries, not for God to protect them, but to remember the presence of God. The Saints continually repeated their aspirations (like "Jesus, I trust in You") to trust God more. As Chirrut's story in this Star Wars episode shows, the vocal and continuous repetition of a little prayer is useful for the spiritual life and has great effects in real life.

2. Small things

This new Star Wars, unlike the others, does not belong to a trilogy. It is a film about a secondary story that tells how the Rebel Alliance stole the Death Star plans, leading up to Episode IV. Without this story, Luke Skywalker, Princess Leia and Han Solo would never have become friends and changed the history of the universe (and of cinema). This film gives voice to members of the Rebel Alliance that we did not even know existed. These people had valuable lives that took shape through the complicated decisions they had to make throughout the film.

All great successes always have seemingly small things behind, that are at the same time very valuable. A great building makes the architect famous, but behind  it there are many people involved: engineers, builders, material companies, teachers who taught all these people, ... This is especially true in the Christian life. When Jesus says in Luke 16:10 that "he who is faithful in the least is also faithful in much," he is demonstrating the importance of small things to a great life. The path of holiness taught by St. Theresa is entirely made up of small things. And Saint Josemaría taught that anyone who does not know how to live the small sacrifices of everyday life will never be truly holy and overcome the great obstacles that life will put before him. As Christians, we like to see the praise of small things precisely because it shows us that even things that look smaller have a large fruit. And this new Star Wars shows it.

3. Hope

The film ends in a completely unexpected way. All the heroes in the movie die, but none of these deaths were in vain. In the movie, each character dies immediately after completing his or her mission. But the interesting thing is that none of them knew if what they did was successful or not. All the Rebels who were stealing the Death Star's plans die without ever knowing whether the Rebel Alliance received the plans. Even worse, what they saw made it seem that everything was failing. And yet, they did what they had to do. Why? Because they were moved by the hope that they would succeed.


The Catholic Church teaches that Hope is the virtue by which we are assured of the Resurrection. As Our Lady at Fatima said: in the end, "my Immaculate Heart will triumph." All the actions of Christians should be moved by the certainty that, if they are faithful, they will go to Heaven at the end of their lives. We see that in the audacity of the Saints, who did unthinkable things in the eyes of the world and yet succeeded. A faithful Christian is a true rebel against the trends of this world. As Jyn Erso, the lead character in the film, says, "we have hope. Rebellions are built on hope." And so the film following this is "A New Hope. From the martyrs and saints, we see that the hope of one Christian gives hope to many others, for generations to come.


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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Papa Francisco fala sobre enxugar as lágrimas

Na sequência dos testemunhos que escutamos e à luz da Palavra do Senhor que clarifica a nossa situação de sofrimento, comecemos por invocar a presença do Espírito Santo, para que venha entre nós. Seja Ele a iluminar a nossa mente, a encontrar as palavras certas e capazes de proporcionar conforto; seja Ele a abrir o nosso coração, para ter a certeza da presença de Deus que não nos abandona na provação. O Senhor Jesus prometeu aos seus discípulos que nunca os deixaria sozinhos: em cada situação da vida, estaria junto deles com o envio do Espírito Consolador (cf. Jo 14, 26) que havia de os ajudar, sustentar e confortar.

Nos momentos de tristeza, na tribulação da doença, na angústia da perseguição e na desolação do luto, cada um de nós procura uma palavra de consolação. Temos intensa necessidade de alguém que esteja ao nosso lado e sinta compaixão por nós. Experimentamos o que significa estar desorientados, confusos, feridos profundamente como nunca tínhamos pensado acontecer-nos. Incertos, olhamos em redor para ver se encontramos alguém que possa realmente compreender a nossa dor. A mente enche-se de interrogações, mas as respostas não chegam. A razão, sozinha, não é capaz de iluminar o nosso íntimo, compreender a dor que sentimos e dar a resposta que esperamos. Nestes momentos, temos mais necessidade das razões do coração, as únicas capazes de nos fazerem entender o mistério que envolve a nossa solidão.

Quanta tristeza nos acontece vislumbrar em tantos rostos que encontramos! Quantas lágrimas são derramadas, em cada instante, no mundo; uma diferente da outra; e, juntas, formam como que um oceano de desolação, que invoca piedade, compaixão, consolação. As mais amargas são as lágrimas causadas pela maldade humana: as lágrimas de quem viu arrancar-lhe violentamente uma pessoa querida; lágrimas de avós, de mães e pais, de crianças... Há olhos que muitas vezes param fixos no pôr-do-sol e têm dificuldade em ver a alvorada dum dia novo. Precisamos de misericórdia, da consolação que vem do Senhor. Todos nós precisamos dela; é a nossa pobreza, mas também a nossa grandeza: invocar a consolação de Deus, que, com a sua ternura, vem enxugar as lágrimas do nosso rosto (cf. Is25, 8; Ap 7, 17; 21, 4).

Nesta nossa dor, não estamos sozinhos. Também Jesus sabe o que significa chorar pela perda duma pessoa amada. Uma das páginas mais comoventes do Evangelho é esta: quando Jesus vê Maria a chorar pela morte do irmão Lázaro, também Ele não conseguiu conter as lágrimas. Emocionou-Se profundamente e desatou a chorar (cf. Jo 11, 33-35). Com esta descrição, o evangelista João quer mostrar como Jesus toma parte na tristeza dos seus amigos e Se solidariza com o seu desconforto. As lágrimas de Jesus baralharam muitos teólogos ao longo dos séculos, mas sobretudo lavaram tantas almas, aliviaram tantas feridas! Também Jesus experimentou, em Si mesmo, o medo do sofrimento e da morte, a deceção e o desconforto pela traição de Judas e de Pedro, a dor pela morte do amigo Lázaro. Jesus «não abandona aqueles que ama» (Agostinho, In evangelium Johannis 49, 5). 
Se Deus chorou, também eu posso chorar, ciente de que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença face ao sofrimento dos meus irmãos. Aquele pranto ensina-me a assumir a dor dos outros, a tornar-me participante do incómodo e do sofrimento de quantos vivem nas situações mais dolorosas. Mexe comigo para me fazer perceber a tristeza e o desespero de quantos viram até roubar-lhes o corpo dos seus entes queridos, e já não têm sequer um lugar onde possam encontrar consolação. O pranto de Jesus não pode ficar sem resposta por parte de quem acredita n’Ele. Como Ele consola, assim somos chamados nós a consolar.

No momento do pavor, da comoção e do pranto, surge no coração de Cristo a oração ao Pai. A oração é o verdadeiro remédio para o nosso sofrimento. Na oração, também nós podemos sentir a presença de Deus ao nosso lado. A ternura do seu olhar consola-nos, a força da sua palavra sustenta-nos, incutindo esperança. Junto do túmulo de Lázaro, Jesus rezou dizendo: «Pai, dou-Te graças por Me teres atendido. Eu já sabia que sempre Me atendes» (Jo 11, 41-42). Precisamos de ter esta certeza: o Pai escuta-nos e vem em nosso auxílio. 

O amor de Deus, derramado nos nossos corações, permite-nos dizer que, quando se ama, nada e ninguém poderá jamais separar-nos das pessoas que amamos. Assim no-lo recorda, com palavras de grande consolação, o apóstolo Paulo: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (...) Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores, graças Àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8, 35.37-39). A força do amor transforma o sofrimento na certeza da vitória de Cristo e da nossa vitória, com Ele, e na esperança de que um dia estaremos juntos de novo e contemplaremos para sempre o rosto da Trindade Santíssima, fonte eterna da vida e do amor.

Junto de cada cruz, está sempre a Mãe de Jesus. Com o seu manto, Ela enxuga as nossas lágrimas. Com a sua mão, faz-nos levantar e acompanha-nos pelo caminho da esperança.

Basílica Vaticana, 5 de Maio de 2016



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