sábado, 12 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Senza a Blog do Ano!
Amigos, podemos fazer com o Senza seja o Blog do Ano, ou pelo menos não ficar em último.
Para votar basta clicar onde diz clicar: CLICAR, ir até à categoria "Religião e Espiritualidade" e o Senza está lá mesmo em último.
Tempus fugit!
Tempus fugit!
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O silêncio - Beata Teresa de Calcutá
Todos nós devemos consagrar tempo ao silêncio e à contemplação, especialmente
se vivemos em grandes cidades como Londres e Nova Iorque, onde só há agitação.
Foi por isso que eu decidi abrir a nossa primeira casa de irmãs
contemplativas, cuja vocação é rezar durante a maior parte do dia, em Nova
Iorque e não nos Himalaias, porque senti que são as cidades que mais precisam
de silêncio e de contemplação.
Começo sempre a minha oração pelo silêncio, porque é no silêncio do coração que Deus fala. Deus é o amigo do silêncio: devemos escutar Deus, porque não são as nossas palavras que contam, mas o que Ele nos diz e o que Ele diz através de nós. A oração alimenta a alma: o que o sangue é para o corpo, é a oração para a alma. Ela aproxima-nos de Deus; dá-nos um coração purificado e limpo. Um coração puro pode ver a Deus (Mt 5,8), falar com Ele e ver o Seu amor na pessoa de cada um dos nossos irmãos. Se o vosso coração é puro, sois transparentes diante de Deus, não dissimulais nada, e Ele pode retirar do vosso coração o que quiser.
in Um caminho simples
Começo sempre a minha oração pelo silêncio, porque é no silêncio do coração que Deus fala. Deus é o amigo do silêncio: devemos escutar Deus, porque não são as nossas palavras que contam, mas o que Ele nos diz e o que Ele diz através de nós. A oração alimenta a alma: o que o sangue é para o corpo, é a oração para a alma. Ela aproxima-nos de Deus; dá-nos um coração purificado e limpo. Um coração puro pode ver a Deus (Mt 5,8), falar com Ele e ver o Seu amor na pessoa de cada um dos nossos irmãos. Se o vosso coração é puro, sois transparentes diante de Deus, não dissimulais nada, e Ele pode retirar do vosso coração o que quiser.
in Um caminho simples
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Frase do dia
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Bebé agarra a mão do médico durante uma cesariana
domingo, 6 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
Profetas há muitos - Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
É infalível como o destino: sempre que se conclui um ano surgem, a par
das inevitáveis retrospectivas fotográficas, as profecias para o novo
ciclo. Nas rádios e televisões, nos jornais e nos blogues, não há quem
não dê o seu palpite, mais ou menos sábio ou prudente. Os vaticínios são
de todo o tipo: desde as ponderadas análises dos comentadores
oficiosos, até às aldrabices dos tolos, no seu estado mais puro e bruto.
O que há mais, sobretudo na comunicação social, é profetas de
desgraças, porque a desgraça vende bem. Por exemplo, a esperada pandemia
da gripe A foi manchete, até ao seu estrepitoso malogro. O aquecimento
global deu que falar mas, mais uma vez, a montanha pariu um rato e,
mesmo esse, simplesmente morno. Também a ameaçadora gripe das aves, que
tinha todos os ingredientes para ser a peste bubónica do terceiro
milénio, não resultou, porque as ditas não aderiram, ou porque tinham
sido prevenidas, ou porque já estavam vacinadas. Mas uma catástrofe é
sempre um bom negócio, um óptimo produto mediático e, por isso, os
correspondentes profetas têm sempre assegurada a mais ampla publicidade
para os seus tremendos augúrios.
Dados estes e outros insucessos, há quem prefira apostar em vaticínios
seguros, para garantir o negócio e a fidelização da clientela. Sem cair
no exagero do provérbio – «chuva em Novembro, Natal em Dezembro» – cuja
autenticidade os especialistas em sabedoria popular não confirmam, os
astrólogos cultivam um tipo de profecias deste género. As suas previsões
são sempre cautelosas e infalíveis: «nesta semana, importa cuidar da
sua saúde!». Não se pense que é fácil acertar no horóscopo de um
determinado signo pois que, embora pareça uma verdade de La Palice, na
realidade esconde um profundo conhecimento do futuro. E, por incrível
que pareça, dá sempre certo. Formidável, não é? É o que dá ser a
astrologia uma ciência exacta!
Outro tipo de profecias muito em voga e não menos certeiras, são as
retroactivas. Nestes casos, como o próprio nome esclarece, o prudente
visionário, já não necessariamente um vidente encartado, não se antecipa
ao facto mas, uma vez verificado o acontecimento, afirma triunfalmente:
«eu sempre disse que isto ia acontecer!». Se o não disse logo que teve
essa premonitória intuição, não foi por cobardia ou acanhamento, mas
para poupar aos outros a humilhação correspondente.
Não é menos corrente a modalidade portuguesa, o adivinho lusitano,
vulgus velho do Restelo. Requer-se, para o caso, uma voz grave, cheia de
enigmáticos silêncios, a apontar para fatídicos malefícios: «Isto vai
mal!». E, caso alguém manifeste alguma incredulidade ante o seu
pessimismo crónico, o profeta nacional não só não desiste como insiste:
«Isto está muito mal!». E está tudo dito.
São deste tipo alguns políticos, que nunca conseguiram ser eleitos,
alguns ex-governantes ressabiados por terem sido apeados do poder e que,
por isso, agora barafustam contra o escândalo da governação. Também os
há nas lides desportivas: são os treinadores de bancada que, mesmo sem
nunca terem dado nenhum pontapé na bola, marcam imaginários golos na
grande área do seu lúcido e profético discernimento, ao mesmo tempo que
se insurgem contra a inépcia dos jogadores em campo, pela sua manifesta
incapacidade de realização das suas geniais tácticas. Para já não falar
das menos canónicas referências ao treinador titular, ao árbitro e
respectivas progenitoras.
Decididamente, o nosso problema não é de falta de profecias, nem de
profetas de mau agoiro. Falta apenas quem trabalhe e, já agora, quem
saiba apoiar e animar os órgãos de soberania, a administração pública, a
família, o ensino, as empresas e todos os âmbitos da actividade humana.
Em poucas palavras, a selecção que somos todos nós.
Frase do dia
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
O Júbilo Imenso do Amante Infinito - Pe. Nuno Serras Pereira
Imenso, Infinito, parecem ser termos grandemente exagerados para falar do amor, talvez desculpáveis por causa de uma paixão que enlouquece aquele que a padece. Não assim, no entanto, se considerarmos que o único Amor Verdadeiro, fonte e origem de qualquer genuíno amor, é Deus, na essencial Comunhão da única Natureza Divina em três Pessoas iguais e distintas entre Si: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este Amor libérrimo, que Se basta a Si mesmo, quis gratuitamente, portanto, sem necessidade ou precisão alguma da Sua parte, criar-nos para nos fazer participantes dessa felicidade incomparável, desmedida, impensável. Numa centragem soberba e egoísta primordial, instigada pelo Antiamor, o Maligno, dispensámos essa Amigança como se fora um fardo, como se fora uma mesquinhez invejosa que nos impediria de ser plenamente.
Quando o Amor Se fez um de nós, ao ser concebido, por virtude do Espírito de Amor, no seio da Virgem amada e amante do Altíssimo ensinou-nos por palavras a desmesura do Amor que nos mostrou com a Sua vida, a Sua Paixão e Ressurreição.
No capítulo 15 do evangelho segundo S. Lucas o Amor Infinito revela-nos que Ele é exultação eterna de alegria e que esse gaudio pode ser jubilosamente intensificado sempre que um desamor, um inimigo, um egoísta, um traidor, um homicida, um luxurioso, um intrujão, um avarento, enfim, um miserável pecador, se reconhece tal e se abre ao fidelíssimo Amante, que o chama e o espera, tomando o caminho de regresso ao Seu acolhimento amistoso, paterno, caloroso, jubilosamente febril, delirante de alegria, endoidado de contentamentos e de regozijos pelo achamento do amado que estava perdido, pelo ressurgimento do bem-amado, que estando morto volta à Vida.
Para os baptizados (= mergulhados no Amor de Cristo morto e Ressuscitado), este reencontro jucundo com o Amor, que os Criou e Libertou, acontece nos afáveis amplexos e santos ósculos do Ressuscitado, através da confissão sacramental.
A Confissão ou Reconciliação embora tenha as mais das vezes como ponto de partida, da nossa parte, uma necessidade de restauração, de salvamento, de fome desesperada de Amor, de sede prementíssima de Verdade, de reconciliação, de Comunhão, de recuperação da harmonia connosco mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus, poderá, no entanto, ser um enorme acto de gratidão, de amor, ao Amor Daquele que muito nos Amou e que nós desistimos de amar. O Amor somente Se alegra como o Amor e unicamente Se ofende do desamor. Quando Jesus Cristo ensina através do Seu Corpo, que é a Igreja, que o pecado é uma ofensa a Deus está a dizer-nos que o Amor Infinito de Deus Se deixa ferir por tudo aquilo, consciente e livremente escolhido, que nos arreda do Amor, da Verdade, e consequentemente da nossa identidade, que nos destrói, que nos impede a felicidade e bem-aventurança eternas e o antegosto dela mesmo, ou através da, na Cruz do nosso caminhar neste mundo.
Aqueles bens que o filho ingrato e esbanjador dissipou não são necessariamente riquezas materiais herdadas, mas sim os talentos recebidos enquanto imagem e semelhança de Deus, e Seu filho adoptivo, pelo baptismo: os dons da natureza, os quais sem a Graça, isto é a Comunhão com Deus, não se sustentam mas, pelo contrário, deperecem e se derrancam – a inteligência, a memória, a vontade, a formusura, a corporeidade, etc., etc. Claro que se poderá argumentar que o Diabo é mais inteligente que todos os crentes juntos mas a verdade é que essa é uma inteligência imbecil, estólida, estúpida, esparvoada, sem entendimento, capaz das maiores artimanhas e astúcias, mas totalmente inábil para a Sabedoria, impossibilitada para o Amor, incapaz de servir na entrega de si mesmo aos outros: é uma escravidão, uma teia cheia de subtilezas e argúcias em que se enreda a si mesmo, rebeldemente encasmurrando-se cegamente, e a todos os seus escravos, na masmorra da sua soberba por toda a eternidade.
Se com alegria, cuja fonte é Deus, queremos dar a Jesus Cristo a enorme alegria de nos Salvar, de recuperarmos a nossa Comunhão de Amor com Ele, teremos então de fazer uma Confissão, ou Reconciliação, bem-feita.
Uma grande vantagem de nos confessarmos a um Padre, como o fazem também os Papas, ou melhor a Jesus Cristo que quer tornar-Se presente no Sacerdote, é a de ser sujeito às mesmas fraquezas que os demais podendo assim compreendê-los melhor. De si, qualquer ser humano é susceptível de cometer qualquer pecado, mesmo que nunca o venha a fazer. S. Junípero, um dos primeiros companheiros de S. Francisco de Assis, sendo posto a ferros por suspeito de querer assassinar um alto aristocrata, como fosse interrogado se intentava fazê-lo respondia com todo sossego: se não fora a Graça de Deus seria capaz disso e de muito pior. E como a questionação prosseguisse sondando intencionalidades de mais patifarias e malvadezas ele sempre respondia tranquilamente a mesma coisa. Valeu-lhe S. Francisco que posto ao facto do caso pressurosamente foi ao seu encontro testemunhando em seu favor. Outros Santos quando sabiam que algum terrível criminoso ia a ser enforcado diziam aos seus companheiros: vamos acompanhar com as nossas orações aquele desgraçado em cujo lugar estaríamos se não fora a Graça de Deus.
Por mais hediondo, abominável e ignóbil que seja qualquer pecado, ou uma multidão infinda deles, perante a Misericórdia Infinita de Deus Amor não passam, como dizia o Santo Cura de Ars, de grãozinhos de areia. Com isto não queria ele apoucar a gravidade do mesmo mas sim proclamar a Omnipotência do Amor Divino, para que a Ele rendidos, arrependidos, nos despojássemos das nossas absurdas defesas, deixando-nos conquistar e transfigurar para nosso bem.
Consideremos agora, ainda que brevemente, as condições para uma confissão como deve ser.
1 – Dar-se conta do mal feito ou do bem que se podia e devia ter realizado e não se levou a cabo. A isto se chama exame de consciência. Não será preciso recordar que pecado não é aquilo que cada um arbitrariamente acha ou decide, mas sim aquilo que vai contra a Lei de Deus (o Seu Amor) e o Evangelho, tal como apresentado pela Doutrina da Igreja.
2 – Desgosto pelo que se fez ou deixou de fazer. Por outras palavras, arrependimento. Não é necessário que esta dor seja sensível. Com isto quer significar-se um perceber a malícia ou fraqueza que levou a cair, um apoucamento da grandeza e dignidade que isso significa, e a infidelidade à Aliança de Amor com o Senhor. O arrependimento por desilusão connosco mesmos ou por temor das penas, ou consequências, eternas que o pecado implica, é imperfeito e chama-se atrição, sendo no entanto suficiente para o perdão. O perfeito, que se alcança por puro amor de Deus, designa-se contrição, sendo que esta nos livra também das consequências temporais do pecado.
3 – Querer mudar, ou regressar ao Amor do Pai. Quer dizer o propósito de emenda, ou seja, a determinação de permanecer no Amor, na casa do Pai, do Amigo. Claro que este objectivo brota de uma confiança na Graça de Deus, com qual, somos chamados a cooperar, e não de uma presunção das nossas próprias forças.
4 – Honestidade e sinceridade connosco mesmos, com o confessor e com Deus. Trata-se aqui da acusação corajosa e verdadeira de todos e cada um dos pecados graves, ou mortais, de que se lembra, ainda não confessados ou mal confessados (sendo de grande proveito confessar também as faltas leves ou veniais). Quem propositadamente (por vergonha ou outro motivo) ocultasse um pecado grave (mortal) não faria uma confissão bem-feita, mas um cometeria sacrilégio, não lhe aproveitando pois a absolvição, antes acrescentando mais um grave pecado. Por isso, quem tiver consciência de uma ou mais confissões mal feitas deverá fazer uma confissão geral, dizendo os pecados das confissões mal feitas e os sacrilégios cometidos. Depois disso experimentará uma grande paz e uma enorme alegria. Quem isto escreve fez uma confissão geral no Sacro Convento de S. Francisco, em Assis, aos 28 anos. O confessor, um sacerdote franciscano, polaco, experimentado, ajudou a desenterrar enormidades tamanhas que o penitente sentiu grandes suores frios e transpiração das mãos, cousa que nunca mais lhe sucedeu, ao recordar a fealdade medonha de seus pecados passados, mas ficou de bem com Deus e inundado da Sua Misericórdia.
S. Francisco de Sales conta que o lobo voraz e predador quando quer devorar uma ovelha, para que o pastor não dê tento, arrebata-a abocanhando-a pelo pescoço para que ela não possa balir, uma vez que de outro modo não a lograria pois seria destroçado à cajadada. Assim, continua o Santo, procede o demónio com as almas que quer perder: incute-lhes um bloqueio para que não confessem todos os pecados ao Pastor, Jesus Cristo no Sacerdote, que as protege e as salva.
Importa muito acrescentar que a confissão bem-feita pede a descrição das circunstâncias para um entendimento adequado da mesma.
Consideremos alguns exemplos:
- Uma pessoa acusa-se de faltar à Missa ao Domingo ou dia Santo de Guarda. Mas faltou uma vez ou 30 vezes ou um número que não consegue contabilizar por terem passados muitos anos? É bem de ver que a culpa é diferente. Ou faltou a esse preceito, acto de amor para com Deus Amor que Se torna presente e Se quer dar em alimento, porque estava de viagem na China e não encontrou nenhuma Igreja: claramente não há pecado algum; ou porque estava a cuidar da mãe doente que não podia ficar sozinha: não é evidentemente um pecado mas um acto de caridade; ou porque ficou a ver na televisão o dancing days ou a casa dos segredos: provavelmente serão dois pecados…
- Alguém confessa, roubei, sem mais. Mas roubou o quê? Um milhão de euros? 20 euros, cinquenta cêntimos? A um milionário ou ao desgraçado de um pobretana? A gravidade, naturalmente varia, podendo mesmo ser leve. Ou furtou para comer, uma vez que não conseguiu honestamente garantir a subsistência de outro modo: não há pecado nenhum, mas sim o exercício do direito à vida, a desfrutar dos bens da Terra que Deus destinou a todos.
- Beltrano se argui de faltar à castidade. Falta saber uma vez, ou um número indeterminado? Por pensamento consentidos, por visionamentos deliberados impróprios, por palavras conscientemente obscenas ou por outros actos livres? Consigo mesmo, ou com outra pessoa, neste caso do mesmo sexo ou de sexo oposto, é casado ou solteiro, tem votos religiosos, ou é sacerdote, ou Bispo? Foi em local Sagrado? Estava embriagado ou consciente? Foi premeditado ou compulsivo? Foi com besta, animal, (não é necessário indicar com que tipo)? Foi com adolescente, ou com criança, ou com bebé? É doente contagioso que possa colocar em grave risco ou mesmo provocar a morte do outro/s? Os actos foram contraceptivos? Recorreu a abortivos precoces? Haverá ainda algumas outras questões que convirá abordar, mas sempre sem entrar em minuciosidades perniciosas à imaginação e serenidade da alma e do corpo.
- Sicrano confessa que abortou. É a mãe? Ou o serial killer que ganha dinheiro à custa da matança? É a avó (e/ou outros) que pressionou intoleravelmente a filha ao abortamento do neto? No caso de ser a mãe, foi contra a vontade do pai da criança que se prestou a todo o apoio ou foi num acto de desespero ou de depressão profunda? Ou foi contra tudo e contra todos, porque sim, ou por colocar em primeiro lugar os estudos, a carreira, enfim, qualquer outro objectivo que por maior que seja é sempre incomparavelmente inferior ao valor sublime e transcendente da vida da pessoa nascitura exterminada? Ou terá sido uma intervenção médica cujo objectivo era salvar a vida da mãe implicando embora a morte indirecta da criança nascitura que, apesar de prevista, não era de modo nenhum procurada ou querida; não se trata então, do ponto de vista moral, de um abortamento.
Muito se poderia dissertar ainda sobre isto, mas creio que estes breves tópicos darão uma ideia do que pretendo transmitir.
5 – Ter Fé, ou seja, Acreditar no Excesso de Amor do Pai, na Infinita Amizade de Jesus Cristo, na Imensa Consolação do Espírito Santo, ou seja na Misericórdia jubilosa de Deus, que mostra que é Omnipotente principalmente quando perdoa.
6 – Aceitar com gratidão e simplicidade o abraço e os festejos do Pai, a Alegria de Jesus, o Regozijo do Espírito Santo. Por outras palavras, acolher a absolvição concedida por Cristo Vivo e Ressuscitado, através do Padre.
7 – Cumprir a penitência dada pelo Sacerdote como preparação para o Banquete da Eucaristia, que não nos serve um vitelo gordo mas sim o Próprio Jesus-Amor-Amizade como iguaria e nutrimento, para em nós estabelecer a Sua morada, de maneira a que antegozemos as delícias do Céu e nos preparemos para o Grande Banquete definitivo e eterno onde todos os contentamentos, ledices, alegrias, deleites, letícias, enlevos, exultações, gáudios, gozos, comprazimentos, regozijos e jucundíssimos júbilos nos satisfarão plena e absolutamente porque Deus será tudo em todos. Foi para essa Glória inexprimível que Ele nos Criou e Redimiu. À honra de Cristo. Ámen.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Em vez de maldizer, bendizer - São Francisco de Assis
No amor que é Deus, suplico a todos os meus irmãos – aos que pregam, aos que
oram, aos que trabalham manualmente, aos clérigos e leigos – que cultivem a
humildade, em tudo: que não se gloriem, que não exultem nem se orgulhem
interiormente por boas palavras e acções, nem mesmo por algum bem que Deus
tenha dito, feito ou cumprido, neles ou através deles. Pois o Senhor diz estas
palavras: «Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem». Convençamo-nos
disto com firmeza: apenas são nossos os erros e os pecados. [...] Aquele que é
dócil ao Espírito do Senhor deseja mortificar e humilhar esta carne egoísta;
cultiva a humildade e a paciência, a simplicidade pura e a verdadeira paz de
espírito.
Ofereçamos todos os bens ao Senhor, Deus altíssimo e soberano: reconheçamos que todos os bens Lhe pertencem; demos-lhe graças por tudo, pois é d'Ele que procedem todos os bens. Que Ele, o altíssimo e soberano Deus, o Deus único e verdadeiro, receba e obtenha todas as honras e todo o respeito, todos os louvores e bençãos, todo o reconhecimento e toda a glória: pois n'Ele está todo o bem, e só Ele é bom (Mc 10,18).
E nós, pela nossa parte, quando virmos ou ouvirmos maldizer, bendigamos; quando virmos fazer o mal, façamos o bem; quando ouvirmos ou virmos blasfemar, louvemos o Senhor, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amen.
1ª Regra, § 17
Ofereçamos todos os bens ao Senhor, Deus altíssimo e soberano: reconheçamos que todos os bens Lhe pertencem; demos-lhe graças por tudo, pois é d'Ele que procedem todos os bens. Que Ele, o altíssimo e soberano Deus, o Deus único e verdadeiro, receba e obtenha todas as honras e todo o respeito, todos os louvores e bençãos, todo o reconhecimento e toda a glória: pois n'Ele está todo o bem, e só Ele é bom (Mc 10,18).
E nós, pela nossa parte, quando virmos ou ouvirmos maldizer, bendigamos; quando virmos fazer o mal, façamos o bem; quando ouvirmos ou virmos blasfemar, louvemos o Senhor, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amen.
1ª Regra, § 17
Frase do dia
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Mensagem do Papa Bento XVI para o dia mundial da Paz 2013
Obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua
integridade
4. Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o
respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a
começar da concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural.
Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem
a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar
atentados e crimes contra a vida.
Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana, chegando a
defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não se dêem conta de
que assim estão a propor a prossecução duma paz ilusória. A fuga das
responsabilidades, que deprecia a pessoa humana, e mais ainda o assassinato de
um ser humano indefeso e inocente nunca poderão gerar felicidade nem a paz. Na
verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento integral dos
povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem estar tutelado o direito à vida
dos mais frágeis, a começar pelos nascituros? Qualquer lesão à vida, de modo
especial na sua origem, provoca inevitavelmente danos irreparáveis ao
desenvolvimento, à paz, ao ambiente. Tão-pouco é justo codificar ardilosamente falsos direitos ou
opções que, baseados numa visão redutiva e relativista do ser humano e com o
hábil recurso a expressões ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao
aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida.
Também a estrutura natural do matrimónio, como união entre um homem e uma
mulher, deve ser reconhecida e promovida contra as tentativas de a tornar,
juridicamente, equivalente a formas radicalmente diversas de união que, na
realidade, a prejudicam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo
o seu carácter peculiar e a sua insubstituível função social.
Estes princípios não são verdades de fé, nem uma mera derivação do direito à
liberdade religiosa; mas estão inscritos na própria natureza humana – sendo
reconhecíveis pela razão – e consequentemente comuns a toda a humanidade. Por
conseguinte, a acção da Igreja para os promover não tem carácter confessional,
mas dirige-se a todas as pessoas, independentemente da sua filiação religiosa.
Tal acção é ainda mais necessária quando estes princípios são negados ou mal
entendidos, porque isso constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana,
uma ferida grave infligida à justiça e à paz.
Por isso, uma importante colaboração para a paz é dada também pelos ordenamentos
jurídicos e a administração da justiça quando reconhecem o direito ao uso do
princípio da objecção de consciência face a leis e medidas governamentais que atentem contra a dignidade
humana, como o aborto e a eutanásia.
Entre os direitos humanos basilares mesmo para a vida pacífica dos povos,
conta-se o direito dos indivíduos e comunidades à liberdade religiosa. Neste
momento histórico, torna-se cada vez mais importante que este direito seja
promovido não só negativamente, como liberdade de – por exemplo, de
obrigações e coacções quanto à liberdade de escolher a própria religião –, mas
também positivamente, nas suas várias articulações, como liberdade para:
por exemplo, para testemunhar a própria religião, anunciar e comunicar a sua
doutrina; para realizar actividades educativas, de beneficência e de assistência
que permitem aplicar os preceitos religiosos; para existir e actuar como
organismos sociais, estruturados de acordo com os princípios doutrinais e as
finalidades institucionais que lhe são próprias. Infelizmente vão-se
multiplicando, mesmo em países de antiga tradição cristã, os episódios de
intolerância religiosa, especialmente contra o cristianismo e aqueles que se
limitam a usar os sinais identificadores da própria religião.
O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo
radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião
pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à
custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da
sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres
são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos
civis e políticos.
E, entre os direitos e deveres sociais actualmente mais ameaçados,
conta-se o
direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez
mais, de o
trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores
não
serem adequadamente valorizados, porque o crescimento económico
dependeria
sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é
considerado uma
variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros. A propósito
disto,
volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões
económicas,
sociais e políticas exigem que se continue « a perseguir como
prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua
manutenção ». Para se realizar este ambicioso objectivo, é condição preliminar uma renovada
apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que
revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a
sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e
ousadas políticas de trabalho para todos.
O resto da mensagem está aqui: Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2013
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Ano novo, ano bom - Pe.Gonçalo Portocarrero de Almada
A propósito de uma efeméride significativa do seu longo pontificado, o
Beato João Paulo II foi confrontado com as impressionantes estatísticas
relativas ao seu ministério petrino. Eram às dezenas as suas encíclicas,
às centenas os países visitados, aos milhares os fiéis que tinha
recebido e aos milhões os quilómetros percorridos na ânsia de levar a
todo o mundo, literalmente, a Boa Nova do Evangelho. Qualquer um se
poderia ter sentido ufano ante aqueles resultados, que atestavam, com
rigor matemático, um imenso trabalho. Qualquer pessoa teria ficado
satisfeita por um tão positivo saldo.
Contudo, o Papa Wojtyla não se impressionou com a grandeza dos números, nem se deixou seduzir pela magnanimidade da obra realizada. E, por isso, num murmúrio, que mais parecia uma oração, interrogou-se: “Sim, é verdade tudo isso, mas… Terei eu amado o bastante?!” Esse seu comentário humilde fazia eco, sem dúvida, ao ensinamento paulino: “Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não serei nada” (1Cor 13, 2).
Contudo, o Papa Wojtyla não se impressionou com a grandeza dos números, nem se deixou seduzir pela magnanimidade da obra realizada. E, por isso, num murmúrio, que mais parecia uma oração, interrogou-se: “Sim, é verdade tudo isso, mas… Terei eu amado o bastante?!” Esse seu comentário humilde fazia eco, sem dúvida, ao ensinamento paulino: “Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não serei nada” (1Cor 13, 2).
A única realidade verdadeiramente importante, a
única que de nós depende e da qual depende a nossa salvação, é a
caridade. Não o amor que os outros nos têm, mas o que nós damos, ou não,
àqueles que são o nosso próximo, ou seja, o nosso caminho para o céu.
Santo Agostinho dizia: “Pondus meus, amor meus”, isto é, valho o que
amo, porque cada um de nós não vale o que vale o seu dinheiro, a sua
saúde, o seu poder ou a sua inteligência, mas o seu amor. “Ainda que
distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres e entregasse o
meu corpo às chamas, se não tiver caridade, não valho nada” (1Cor 13,
3).
O ano novo só será bom se for, efectivamente, um tempo vivido na graça
d’ Aquele que, sendo Deus, é, sobretudo, amor. Santo e feliz 2013!
Frase do dia
domingo, 30 de dezembro de 2012
Discurso do Papa à Cúria: a Nova Evagelização
Dito isto, gostava de chegar ao segundo grande tema que, desde
Assis até ao
Sínodo sobre a Nova Evangelização, permeou todo o ano que chega ao fim: a
questão do diálogo e do anúncio. Comecemos pelo diálogo. No nosso tempo, para a
Igreja, vejo principalmente três campos de diálogo, onde ela deve estar presente
lutando pelo homem e pelo que significa ser pessoa humana: o diálogo com os
Estados, o diálogo com a sociedade – aqui está incluído o diálogo com as
culturas e com a ciência – e, finalmente, o diálogo com as religiões. Em todos
estes diálogos, a Igreja fala a partir da luz que a fé lhe dá. Ao mesmo tempo,
porém, ela encarna a memória da humanidade que, desde os primórdios e através
dos tempos, é memória das experiências e dos sofrimentos da humanidade, onde a
Igreja aprendeu o que significa ser homem, experimentando o seu limite e
grandeza, as suas possibilidades e limitações.
A cultura do humano, de que ela
se faz garante, nasceu e desenvolveu-se a partir do encontro entre a revelação
de Deus e a existência humana. A Igreja representa a memória do que é ser homem
defronte a uma civilização do esquecimento que já só se conhece a si mesma e só
reconhece o próprio critério de medição. Mas, assim como uma pessoa sem memória
perdeu a sua identidade, assim também uma humanidade sem memória perderia a
própria identidade. Aquilo que foi dado ver à Igreja, no encontro entre
revelação e experiência humana, ultrapassa sem dúvida o mero âmbito da razão,
mas não constitui um mundo particular que seria desprovido de interesse para o
não-crente.
Se o homem, com o próprio pensamento entra na reflexão e na
compreensão daqueles conhecimentos, estes alargam o horizonte da razão e isto
diz respeito também àqueles que não conseguem partilhar a fé da Igreja. No
diálogo com o Estado e a sociedade, naturalmente a Igreja não tem soluções
prontas para as diversas questões. Mas, unida às outras forças sociais, lutará
pelas respostas que melhor correspondam à justa medida do ser humano. Aquilo que
ela identificou como valores fundamentais, constitutivos e não negociáveis da
existência humana, deve defendê-lo com a máxima clareza. Deve fazer todo o
possível por criar uma convicção que possa depois traduzir-se em acção política.
Na situação actual da humanidade, o diálogo das religiões é uma condição
necessária para a paz no mundo, constituindo por isso mesmo um dever para os
cristãos bem como para as outras crenças religiosas. Este diálogo das religiões
possui diversas dimensões. Há-de ser, antes de tudo, simplesmente um diálogo da
vida, um diálogo da acção compartilhada. Nele, não se falará dos grandes temas
da fé – se Deus é trinitário, ou como se deve entender a inspiração das
Escrituras Sagradas, etc. –, mas trata-se dos problemas concretos da convivência
e da responsabilidade comum pela sociedade, pelo Estado, pela humanidade. Aqui é
preciso aprender a aceitar o outro na sua forma de ser e pensar de modo diverso.
Para isso, é necessário fazer da responsabilidade comum pela justiça e a paz o
critério basilar do diálogo. Um diálogo, onde se trate de paz e de justiça indo
mais além do que é simplesmente pragmático, torna-se por si mesmo uma luta ética
sobre a verdade e sobre o ser humano; um diálogo sobre os valores que são pressupostos em tudo. Assim o diálogo,
ao princípio meramente prático, torna-se também uma luta pelo justo modo de ser
pessoa humana.
Embora as escolhas básicas não estejam enquanto tais em
discussão, os esforços à volta duma questão concreta tornam-se um percurso no
qual ambas as partes podem encontrar purificação e enriquecimento através da
escuta do outro. Assim estes esforços podem ter o significado também de passos
comuns rumo à única verdade, sem que as escolhas básicas sejam alteradas. Se
ambas as partes se movem a partir duma hermenêutica de justiça e de paz, a
diferença básica não desaparecerá, mas crescerá uma proximidade mais profunda
entre eles.
Hoje em geral, para a essência do diálogo inter-religioso, consideram
fundamentais duas regras:
1ª) O diálogo não tem como alvo a conversão, mas a compreensão. Nisto se
distingue da evangelização, da missão.
2ª) De acordo com isso, neste diálogo, ambas as partes permanecem
deliberadamente na sua identidade própria, que, no diálogo, não põem em questão
nem para si mesmo nem para os outros.
Estas regras são justas; mas penso que assim estejam formuladas demasiado
superficialmente. Sim, o diálogo não visa a conversão, mas uma melhor
compreensão recíproca: isto é correcto. Contudo a busca de conhecimento e
compreensão sempre pretende ser também uma aproximação da verdade. Assim, ambas
as partes, aproximando-se passo a passo da verdade, avançam e caminham para uma
maior partilha, que se funda sobre a unidade da verdade.
Quanto a permanecer
fiéis à própria identidade, seria demasiado pouco se o cristão, com a sua
decisão a favor da própria identidade, interrompesse por assim dizer por vontade
própria o caminho para a verdade. Então o seu ser cristão tornar-se-ia algo de
arbitrário, uma escolha simplesmente factual. Nesse caso, evidentemente, ele não
teria em conta que a religião tem a ver com a verdade. A propósito disto, eu
diria que o cristão possui a grande confiança, mais ainda, a certeza basilar de
poder tranquilamente fazer-se ao largo no vasto mar da verdade, sem dever temer
pela sua identidade de cristão. Sem dúvida, não somos nós que possuímos a
verdade, mas é ela que nos possui a nós: Cristo, que é a Verdade, tomou-nos pela
mão e, no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua
mão nos sustenta firmemente.
O facto de sermos interiormente sustentados pela
mão de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se
somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer
diálogo. Seguros, porque Ele não nos deixa, a não ser que sejamos nós
mesmos a desligar-nos d’Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Discurso do Papa à Cúria: O perigo da ideologia de género
A grande alegria, com que se encontraram em Milão
famílias vindas de todo o mundo, mostrou que a família, não obstante as
múltiplas impressões em contrário, está forte e viva também hoje; mas é
incontestável – especialmente no mundo ocidental – a crise que a ameaça até nas
suas próprias bases. Impressionou-me que se tenha repetidamente sublinhado, no Sínodo,
a importância da família para a transmissão da fé como lugar autêntico onde se
transmitem as formas fundamentais de ser pessoa humana. É vivendo-as e
sofrendo-as, juntos, que as mesmas se aprendem. Assim se tornou evidente que,
na questão da família, não está em jogo meramente uma determinada forma social,
mas o próprio homem: está em questão o que é o homem e o que é preciso fazer
para ser justamente homem.
Os desafios, neste contexto, são complexos. Há,
antes de mais nada, a questão da capacidade que o homem tem de se vincular ou
então da sua falta de vínculos. Pode o homem vincular-se para toda a vida? Isto
está de acordo com a sua natureza? Ou não estará porventura em contraste com a
sua liberdade e com a auto-realização em toda a sua amplitude? Será que o ser
humano se torna-se ele próprio, permanecendo autónomo e entrando em contacto
com o outro apenas através de relações que pode interromper a qualquer momento?
Um vínculo por toda a vida está em contraste com a liberdade? Vale a pena
também sofrer por um vínculo? A recusa do vínculo humano, que se vai
generalizando cada vez mais por causa duma noção errada de liberdade e de
auto-realização e ainda devido à fuga da perspectiva duma paciente suportação
do sofrimento, significa que o homem permanece fechado em si mesmo e, em última
análise, conserva o próprio «eu» para si mesmo, não o supera verdadeiramente.
Mas, só no dom de si é que o homem se alcança a si mesmo, e só abrindo-se ao
outro, aos outros, aos filhos, à família, só deixando-se plasmar pelo
sofrimento é que ele descobre a grandeza de ser pessoa humana. Com a recusa de
tal vínculo, desaparecem também as figuras fundamentais da existência humana: o
pai, a mãe, o filho; caem dimensões essenciais da experiência de ser pessoa
humana.
Num tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovente, o
rabino-chefe de França, Gilles Bernheim, mostrou que o ataque à forma autêntica
da família (constituída por pai, mãe e filho), ao qual nos encontramos hoje
expostos – um verdadeiro atentado –, atinge uma dimensão ainda mais profunda.
Se antes tínhamos visto como causa da crise da família um mal-entendido acerca
da essência da liberdade humana, agora torna-se claro que aqui está em jogo a
visão do próprio ser, do que significa realmente ser homem. Ele cita o célebre
aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On
ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o
fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - género», é
apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o
sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e
preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual
decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. Salta
aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que
lhe está subjacente.
O homem contesta o facto de possuir uma natureza
pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua
própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto
pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração
bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por
Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano,
como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é
contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: «Ele
os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para
valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a
determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre
isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana,
já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e
vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio
ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora
existe apenas o homem em abstracto, que em seguida escolhe para si,
autonomamente, qualquer coisa como sua natureza.
Homem e mulher são contestados
como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se
completam mutuamente. Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um
dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade
pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar
que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria;
Bernheim mostra como o filho, de sujeito jurídico que era com direito próprio,
passe agora necessariamente a objecto, ao qual se tem direito e que, como
objecto de um direito, se pode adquirir. Onde a liberdade do fazer se torna
liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio
Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como
imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser. Na luta pela família, está
em jogo o próprio homem. E torna-se evidente que, onde Deus é negado,
dissolve-se também a dignidade do homem. Quem defende Deus, defende o homem.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Frase do dia
"É forte quem persevera no cumprimento do que entende dever fazer, segundo a sua consciência; quem não mede o valor de uma tarefa exclusivamente pelos benefícios que recebe, mas pelo serviço que presta aos outros. O homem forte às vezes sofre, mas resiste; talvez chore, mas traga as lágrimas. Quando a contradição aumenta, não se curva."
S. Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, 77)
S. Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, 77)
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Missa da Noite de Natal 2012 - Papa Bento XVI
A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar.
Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo facto de não termos tempo para Deus. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido.
Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua. E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projectos pessoais e das nossas intenções. Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros.
A partir duma frase simples como esta sobre o lugar inexistente na hospedaria, podemos dar-nos conta da grande necessidade que há desta exortação de São Paulo: «Transformai-vos pela renovação da vossa mente» (Rm 12, 2). Paulo fala da renovação, da abertura do nosso intelecto (nous); fala, em geral, do modo como vemos o mundo e a nós mesmos. A conversão, de que temos necessidade, deve chegar verdadeiramente até às profundezas da nossa relação com a realidade. Peçamos ao Senhor para que nos tornemos vigilantes quanto à sua presença, para que ouçamos como Ele bate, de modo suave mas insistente, à porta do nosso ser e da nossa vontade. Peçamos para que se crie, no nosso íntimo, um espaço para Ele e possamos, deste modo, reconhecê-Lo também naqueles sob cujas vestes vem ter connosco: nas crianças, nos doentes e abandonados, nos marginalizados e pobres deste mundo.
Na narração do Natal, há ainda outro ponto que gostava de reflectir juntamente convosco: o hino de louvor que os anjos entoam depois de anunciar o Salvador recém-nascido: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens do seu agrado». Deus é glorioso. Deus é pura luz, esplendor da verdade e do amor. Ele é bom. É o verdadeiro bem, o bem por excelência. Os anjos que O rodeiam transmitem, primeiro, a pura e simples alegria pela percepção da glória de Deus. O seu canto é uma irradiação da alegria que os inunda. Nas suas palavras, sentimos, por assim dizer, algo dos sons melodiosos do céu. No canto, não está subjacente qualquer pergunta sobre a finalidade; há simplesmente o facto de transbordarem da felicidade que deriva da percepção do puro esplendor da verdade e do amor de Deus. Queremos deixar-nos tocar por esta alegria: existe a verdade; existe a pura bondade; existe a luz pura. Deus é bom; Ele é o poder supremo que está acima de todos os poderes. Nesta noite, deveremos simplesmente alegrar-nos por este facto, juntamente com os anjos e os pastores.
E, com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz. Hoje, porém, há correntes generalizadas de pensamento que afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo; primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única.
É verdade que, na história, o monoteísmo serviu de pretexto para a intolerância e a violência. É verdade que uma religião pode adoecer e chegar a contrapor-se à sua natureza mais profunda, quando o homem pensa que deve ele mesmo deitar mão à causa de Deus, fazendo assim de Deus uma sua propriedade privada. Contra estas deturpações do sagrado, devemos estar vigilantes. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros.
Os tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado. Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por mais miserável que seja a sua situação, a sua dignidade é inviolável. Na Noite Santa, o próprio Deus Se fez homem, como anunciara o profeta Isaías: o menino nascido aqui é «Emmanuel – Deus-connosco» (cf. Is 7, 14). E verdadeiramente, no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar.
Assim, Cristo é a nossa paz e anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2, 14.17). Quanto não deveremos nós suplicar-Lhe nesta hora! Sim, Senhor, anunciai a paz também hoje a nós, tanto aos que estão longe como aos que estão perto. Fazei que também hoje das espadas se forjem foices (cf. Is 2, 4), que, em vez dos armamentos para a guerra, apareçam ajudas para os enfermos. Iluminai a quantos acreditam que devem praticar violência em vosso nome, para que aprendam a compreender o absurdo da violência e a reconhecer o vosso verdadeiro rosto. Ajudai a tornarmo-nos homens «do vosso agrado»: homens segundo a vossa imagem e, por conseguinte, homens de paz.
Logo que os anjos se afastaram, os pastores disseram uns para os outros: Coragem! Vamos até lá, a Belém, e vejamos esta palavra que nos foi mandada (cf. Lc 2, 15). Os pastores puseram-se apressadamente a caminho para Belém – diz-nos o evangelista (cf. 2, 16). Uma curiosidade santa os impelia, desejosos de verem numa manjedoura este menino, de quem o anjo tinha dito que era o Salvador, o Messias, o Senhor. A grande alegria, de que o anjo falara, apoderara-se dos seus corações e dava-lhes asas.
Vamos até lá, a Belém: diz-nos hoje a liturgia da Igreja. Trans-eamus – lê-se na Bíblia latina – «atravessar», ir até lá, ousar o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração.
Vamos até lá, a Belém! Ao dizermos estas palavras uns aos outros, como fizeram os pastores, não devemos pensar apenas na grande travessia até junto do Deus vivo, mas também na cidade concreta de Belém, em todos os lugares onde o Senhor viveu, trabalhou e sofreu. Rezemos nesta hora pelas pessoas que actualmente vivem e sofrem lá. Rezemos para que lá haja paz. Rezemos para que Israelitas e Palestinianos possam conduzir a sua vida na paz do único Deus e na liberdade. Peçamos também pelos países vizinhos – o Líbano, a Síria, o Iraque, etc. – para que lá se consolide a paz. Que os cristãos possam conservar a sua casa naqueles países onde teve origem a nossa fé; que cristãos e muçulmanos construam, juntos, os seus países na paz de Deus.
Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Amen.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Conto de Natal - João César das Neves
Não sei bem o
que aconteceu. Foi uma espécie de ataque, que me atirou paralisado para
esta cama de hospital. Ouvi há pouco o médico dizer à minha mulher que
há hipóteses de eu sobreviver.
Ainda de manhã me levantei cheio de vigor e dinamismo, pleno de ocupações e projectos. Agora estou aqui, prostrado, inútil, vegetativo. Não sei o que foi, mas sei que não consigo falar nem mexer o lado direito. Tenho dores não sei bem onde. A minha tentativa de sorrir deu um esgar que assustou a enfermeira. Acabou tudo, mesmo que haja hipóteses de sobreviver. A minha vida, se ainda lhe posso chamar assim, mudou para sempre. Ou melhor, a vida que eu tinha acabou.
Foi então que me lembrei da pergunta que decidira fazer sempre: "Senhor, o que é que Tu queres disto?" Foi há anos que, perante novidades e acasos que me sucedem, quis ver tudo a partir de Deus. Qual a atitude que Ele quer que eu tome agora? Esta pergunta salvou-me de muitas situações difíceis, onde a minha mesquinhez me ia meter em sarilhos. As coisas vistas de cima ficam muito diferentes. S.Paulo disse que "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rm 8, 28). Do ponto de vista de Deus as coisas são sempre boas, belas, grandes. O Senhor do universo tem sempre uma saída, uma solução, um projecto grandioso ligado a tudo o que faz. O que é que o Senhor quer disto?
Aqui, mais até que nos problemas do emprego ou perplexidades de família, a pergunta parece fazer todo o sentido. Esta cama de hospital é tão inesperada e surpreendente que tem de ter uma razão. O Senhor podia ter-me levado, mas não levou. Não me quis levar. A minha vida acabou mas eu continuo aqui. Porquê? Devo ser preciso para algo. Ou isto tem lógica, ou então nada tem.
Mas que pode o Senhor querer de um paralítico? Qual a tarefa que me compete? O que pretende o Senhor disto? Ser testemunha d'Ele aqui, claro. O Senhor precisa agora de alguém neste sítio e mandou-me a mim. A resposta é a mesma que eu tinha ouvido tantas vezes: "Nada temas, continua a falar e não te cales, porque Eu estou contigo e ninguém porá as mãos em ti para te fazer mal, pois tenho um povo numeroso nesta cidade" (Act 18, 9-10). Ser sua testemunha aqui, paralítico na cama. É isso mesmo. Ainda me falta mais isso, antes de o Senhor me levar.
O meu sofrimento, paciência, alegria na adversidade testemunharão uma presença diferente. "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la" (Lc 9, 23-24). A minha cruz agora é a paralisia, as dores. Já foi o desemprego, a falência, o insulto, agora é a cama de hospital. Ligada à Mangedoura e Calvário é testemunha e presença salvadora, de mim e outros, neste sítio.
Mas como? Não consigo falar e mal me posso mexer. As visitas, doentes e pessoal do hospital não entendem o que penso, não ouvem o que digo, não percebem o que sinto. Não pode ser isso. Uma testemunha precisa de meios para testemunhar. Mesmo cheio de boas intenções e propósitos elevados, ninguém dará por eles. Quando ninguém ouve, como se pode ser apóstolo?
Então percebi. Um consegue ouvir-me. Para Ele falo. S. Inácio disse: "O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e mediante isto salvar a sua alma" (Exercícios Espirituais, 23). Nesta cama não tenho préstimo como servidor, nada posso dizer ou testemunhar, mas posso louvar e reverenciar o Senhor. Neste Natal devia haver falta de quem glorificasse a Deus neste canto do mundo, e por isso Ele me mandou vir. Para a harmonia do universo é preciso que alguém louve a divindade aqui, agora. É isso que o Senhor quer. Essa é a minha tarefa. A última tarefa da minha vida.
Louvar a Deus, paralítico mudo numa cama de hospital no tempo de Natal. Aquilo que os Anjos e os Santos fazem no Céu, que os coros fazem nas igrejas, que em todo o mundo se ouve nesta noite, eu tenho de o fazer aqui. Isso fará deste Natal o mais feliz da minha vida. O último.
domingo, 23 de dezembro de 2012
sábado, 22 de dezembro de 2012
Papa contra a "identidade do género" - Aura Miguel
Após a queda das grandes
ideologias políticas, surge agora uma outra, a ideologia hedonista, que
se reflecte a vários níveis, incluindo esta "identidade de género". Não é a primeira vez que o Papa critica a chamada “ideologia de género”.
A expressão de Bento XVI reflecte as sucessivas denúncias da Santa Sé,
sobretudo nos fóruns internacionais, a começar pelas Nações Unidas.
Durante as Conferências Mundiais da ONU no Cairo (sobre População e Desenvolvimento, 1994) e em Pequim (sobre a Mulher, 1995) a Santa Sé opôs-se à estratégia mundial sobre conceitos relativos à orientação sexual e à chamada “identidade de género”.
Nessa altura em Pequim a maioria dos Estados membros da ONU – incluindo Portugal – votou favoravelmente a substituição da palavra “sexo” pela palavra “género”, considerada mais abrangente. É que sexo só pode ser feminino ou masculino, enquanto género inclui cinco tipos: masculino, feminino, homossexual masculino, homossexual feminino e híbrido.
Esta terminologia está hoje em vigor e Bento XVI tem vindo a denunciá-la como reflexo da crise antropológica do próprio homem. Com frequência o Papa tem defendido uma ecologia do humano, contra a manipulação da natureza – quer no ambiente, quer na identidade do homem e da mulher. Após a queda das grandes ideologias políticas, surge agora uma outra, a ideologia hedonista que se reflecte a vários níveis, incluindo esta “identidade de género”.
Bento XVI acrescentou hoje que “está em jogo a visão do próprio ser e o que significa ser homem”. Na raiz está “uma noção errada de liberdade que recusa vínculos de qualquer tipo, incluindo o sexo com que se nasceu. Quando, na verdade, não é o homem mas é Deus quem define a natureza da pessoa humana.”
O Natal do Ano da Fé - Pe.Gonçalo Portocarrero de Almada
Quando o Bernardo e o Nuno nasceram, vieram ao
mundo dois príncipes, porque filhos de Deus. Mas aqueles que os geraram
não eram verdadeiramente seus pais. Se o fossem, não os teriam abandonado à nascença.
A deficiência profunda do Bernardo e a exigência de não separar os dois
gémeos ditou uma história triste, que se escreve na penosa via-sacra
dos diversos serviços por que foram passando e em que, não obstante a
dedicação do pessoal da instituição, não encontraram nunca uma
verdadeira família, nem o calor de um lar.
Pessoas houve que se interessaram pelos irmãos, mas porque não eram aqueles que estavam chamados a ser os seus verdadeiros pais, declinaram sempre a eventualidade da adopção. Mais pesava, decerto, a despesa e o incómodo de acarretar o inválido, do que a satisfação de os ter e de lhes dar o aconchego de uma casa. Mais pôde o egoísmo do que o amor.
Os anos foram passando e, à medida que o Nuno e o Bernardo cresciam, diminuíam as hipóteses de um seu acolhimento por uma família adoptiva. E aumentavam os riscos sociais inerentes a uma não integração familiar.
Mas Deus escreve direito por linhas tortas e nunca abandona os seus filhos e, por isso, deu a conhecer a existência e a triste sorte dos gémeos ao Rodrigo e à Helena, já com um filho mas impossibilitados de mais geração. E, para o casal, foi amor ao primeiro sinal.
Apesar da sua disponibilidade, não foi fácil conseguir as necessárias autorizações para a adopção dos gémeos. A Helena e o Rodrigo tiveram que travar uma verdadeira batalha contra a morosidade das entidades sociais, a burocracia dos organismos estatais, o cepticismo e a desconfiança dos responsáveis pela tutela dos menores institucionalizados e um sem-fim de obstáculos de toda a espécie que, diariamente, durante meses de ansiedade e sofrimento, puseram à prova a sua resistência psicológica e espiritual. Se houve quem, entre os seus familiares e amigos mais próximos, os apoiasse neste seu propósito, também não lhes faltaram incrédulas reticências e veladas críticas, disfarçadas de prudência: Afinal, para quê complicar a vida?!
Mas, contra toda a esperança, esperaram em Deus e mais pôde o seu amor ao Bernardo e ao Nuno. Mais pôde a sua fé. Ontem vi e abençoei a nova família: que alegria se espelhava nos rostos daquelas duas crianças que, finalmente, encontraram os seus verdadeiros pais! Que alegria no primogénito, enriquecido pelo dom dos seus dois novos irmãos! Que alegria também nos olhos cansados do Rodrigo e da Helena, felizes na dupla experiência daquela sua nova paternidade e maternidade, que nasce directamente da sua fé e do seu amor a Deus!
O Natal do Ano da Fé vai ser diferente para esta família. Como há mais gente em casa, vai haver mais trabalho e não haverá tantos presentes para cada um. Será talvez mais sóbria a ceia, à conta da crise que pesa sobre o remediado orçamento familiar, agravado com as despesas inerentes à nova situação. Mas, finalmente, haverá Natal nos corações daqueles dois príncipes que, depois de tão longo exílio e dolorosa peregrinação pelos desertos do egoísmo humano, descobriram por fim, graças à estrela da fé de seus verdadeiros pais, a grandíssima alegria do amor de Deus, feito vida nossa no dom do seu Filho, Jesus*. Santo Natal!
* A história é real mas os nomes, como é óbvio, são fictícios.
Pessoas houve que se interessaram pelos irmãos, mas porque não eram aqueles que estavam chamados a ser os seus verdadeiros pais, declinaram sempre a eventualidade da adopção. Mais pesava, decerto, a despesa e o incómodo de acarretar o inválido, do que a satisfação de os ter e de lhes dar o aconchego de uma casa. Mais pôde o egoísmo do que o amor.
Os anos foram passando e, à medida que o Nuno e o Bernardo cresciam, diminuíam as hipóteses de um seu acolhimento por uma família adoptiva. E aumentavam os riscos sociais inerentes a uma não integração familiar.
Mas Deus escreve direito por linhas tortas e nunca abandona os seus filhos e, por isso, deu a conhecer a existência e a triste sorte dos gémeos ao Rodrigo e à Helena, já com um filho mas impossibilitados de mais geração. E, para o casal, foi amor ao primeiro sinal.
Apesar da sua disponibilidade, não foi fácil conseguir as necessárias autorizações para a adopção dos gémeos. A Helena e o Rodrigo tiveram que travar uma verdadeira batalha contra a morosidade das entidades sociais, a burocracia dos organismos estatais, o cepticismo e a desconfiança dos responsáveis pela tutela dos menores institucionalizados e um sem-fim de obstáculos de toda a espécie que, diariamente, durante meses de ansiedade e sofrimento, puseram à prova a sua resistência psicológica e espiritual. Se houve quem, entre os seus familiares e amigos mais próximos, os apoiasse neste seu propósito, também não lhes faltaram incrédulas reticências e veladas críticas, disfarçadas de prudência: Afinal, para quê complicar a vida?!
Mas, contra toda a esperança, esperaram em Deus e mais pôde o seu amor ao Bernardo e ao Nuno. Mais pôde a sua fé. Ontem vi e abençoei a nova família: que alegria se espelhava nos rostos daquelas duas crianças que, finalmente, encontraram os seus verdadeiros pais! Que alegria no primogénito, enriquecido pelo dom dos seus dois novos irmãos! Que alegria também nos olhos cansados do Rodrigo e da Helena, felizes na dupla experiência daquela sua nova paternidade e maternidade, que nasce directamente da sua fé e do seu amor a Deus!
O Natal do Ano da Fé vai ser diferente para esta família. Como há mais gente em casa, vai haver mais trabalho e não haverá tantos presentes para cada um. Será talvez mais sóbria a ceia, à conta da crise que pesa sobre o remediado orçamento familiar, agravado com as despesas inerentes à nova situação. Mas, finalmente, haverá Natal nos corações daqueles dois príncipes que, depois de tão longo exílio e dolorosa peregrinação pelos desertos do egoísmo humano, descobriram por fim, graças à estrela da fé de seus verdadeiros pais, a grandíssima alegria do amor de Deus, feito vida nossa no dom do seu Filho, Jesus*. Santo Natal!
* A história é real mas os nomes, como é óbvio, são fictícios.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
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