sábado, 17 de janeiro de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
"Proclamai a beleza do matrimónio cristão" - Papa Francisco
Continua a viagem apostólica do Papa Francisco pela Ásia, tendo já deixado o Sri-Lanka e chegado às Filipinas. Hoje de manhã, na Catedral da Imaculada Conceição, em Manila, celebrou a Santa Missa para os Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Religiosas e recomendou na homilia:
"Proclamai a beleza e a verdade do matrimónio cristão a uma sociedade que é tentada por apresentações confusas da sexualidade, do matrimónio e da família.
Como sabeis, estas realidades estão cada vez mais sob ataque de forças poderosas que ameaçam desfigurar o plano criador de Deus e trair os verdadeiros valores que inspiraram e moldaram quanto de belo existe na vossa cultura."
Hoje à tarde, o Santo Padre fez um discurso muito bonito no encontro com as famílias:
"Repousar na oração é particularmente importante para as famílias. É, antes de tudo, na família que aprendemos como rezar. Não esqueçais: quando a família reza unida, permanece unida. Isto é importante. Nela chegamos a conhecer Deus, a crescer como homens e mulheres de fé, a considerar-nos como membros da família mais ampla de Deus, a Igreja. Na família, aprendemos a amar, a perdoar, a ser generosos e disponíveis e não fechados e egoístas. Aprendemos a ir além das nossas próprias necessidades, para encontrar outras pessoas e partilhar as nossas vidas com elas. Por isso é tão importante rezar como família. Tão importante! É por isso que as famílias são tão importantes no plano de Deus para a Igreja. Repousar no Senhor é rezar, unidos em família.
Queria ainda dizer-vos algo de pessoal. Amo muito São José, porque é um homem forte e silencioso. Na minha escrivaninha, tenho uma imagem de São José que dorme e, enquanto dorme, cuida da Igreja. Sim! Pode fazê-lo, como sabemos. E, quando tenho um problema, uma dificuldade, escrevo um bilhetinho e meto-o debaixo de São José, para que o sonhe. Este gesto significa: reza por este problema. (...)
Tal como o dom da Sagrada Família foi confiado a São José, assim também o dom da família e o seu lugar no plano de Deus estão confiados a nós. Como a São José. O dom da Sagrada Família foi confiado a São José, para que o levasse por diante. A cada um de vós – e de nós, porque também eu sou filho duma família – é confiado o plano de Deus, para que seja levado por diante. O Anjo do Senhor revelou a José os perigos que ameaçavam Jesus e Maria, obrigando-os a fugir para o Egipto e, em seguida, estabelecer-se em Nazaré. De igual modo, no nosso tempo, Deus chama-nos a reconhecer os perigos que ameaçam as nossas próprias famílias e a protegê-las do mal.
Existem colonizações ideológicas que procuram destruir a família. Não nascem do sonho, da oração, do encontro com Deus, da missão que Deus nos dá. Provêm de fora; por isso, digo que são colonizações. Não percamos a liberdade da missão que Deus nos dá, a missão da família E assim como os nossos povos, num determinado momento da sua história, chegaram à maturidade de dizer «não» a qualquer colonização política, assim também como família devemos ser muito sagazes, muito hábeis, muito fortes, para dizer «não» a qualquer tentativa de colonização ideológica da família. E pedir a intercessão de São José, que é amigo do Anjo, para saber quando podemos dizer «sim» e quando devemos dizer «não».
Hoje os pesos que gravam sobre a vida da família são muitos. Aqui, nas Filipinas, inumeráveis famílias sofrem ainda as consequências das catástrofes naturais. A situação económica provocou a fragmentação das famílias com a emigração e a busca de um emprego, para além dos problemas financeiros que atormentam muitos lares domésticos. Enquanto muitas pessoas vivem em pobreza extrema, outras caem nas malhas do materialismo e de estilos de vida que abolem a vida familiar e as exigências mais fundamentais da moral cristã. Estas são as colonizações ideológicas. A família está ameaçada também pelos crescentes esforços de alguns em redefinir a própria instituição do matrimónio mediante o relativismo, a cultura do efémero, a falta de abertura à vida."
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Visita ao Cardeal Burke
Tivemos o enorme privilégio de ser recebidos pelo Cardeal Raymond Burke, em sua casa. Americano, 66 anos, o Cardeal Burke foi até há pouco tempo o Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e é o actual Patrono da Ordem Soberana Militar de Malta.
É muito simpático e muito simples, ao contrário do que alguns dizem por aí, e põe-nos completamente à vontade para fazermos perguntas, às vezes um pouco indiscretas, sobre a sua vida, como descobriu a vocação, o que conhece de Portugal, etc...
Além de ser bastante inteligente, o que permite que se fale de tudo, tem um óptimo sentido de humor, o que faz com que a conversa flua com grande facilidade, e quase nos esquecemos que estamos a falar com um Príncipe da Igreja.
O Cardeal Burke ficou interessadíssimo no blogue Senza, achou muita graça ao nome Senza Pagare (repetiu-o várias vezes e ria-se), e explicámos-lhe em que consistia o Espírito Senza, e a "filosofia" por trás deste blogue. Garantiu que nos visitaria, o que é um motivo de grande orgulho.
Da minha parte garanti que os nossos leitores iriam rezar por ele. Não me deixem ficar mal!
Os verdadeiros cristãos são os filhos da Igreja e da Virgem Maria
Há duas frases tradicionais que sintetizam de maneira admirável a necessidade da Fé Católica para agradar a Deus, entre as quais há uma bonita relação de paralelismo que faz com que, uma vez que as tenhamos aprendido (talvez, numa catequese infantil), delas não nos esqueçamos mais. Uma: não pode ter Deus por Pai no Céu quem não tem a Igreja por Mãe na Terra, de São Cipriano de Cartago (De Ecclesiae Catholicae unitate, 6). A outra: quem não tem a Virgem Maria por Mãe, não tem Deus por Pai, de (certamente entre outros) S. Louis de Montfort (Tratado da Verdadeira Devoção, 30).
A Virgem Mãe de Deus e a Igreja, longe das quais não é possível encontrar a Nosso Senhor Jesus Cristo! A Igreja Católica e a Santíssima Virgem, cuja maternidade é essencial àqueles que se pretendam filhos de Deus neste mundo e no vindouro! As frases podem soar um pouco politicamente incorretas nesta época de caricata tolerância religiosa em que vivemos (como se “tolerância” fosse sinônimo de dizer “está tudo muito bem e qualquer coisa é a mesma coisa”); não obstante, são profundamente verdadeiras e atravessam os séculos com o mesmo vigor original – uma vez que obtêm a sua força do sagradoDepositum Fidei, que não muda ao sabor dos ventos de opiniões de cada momento histórico.
Quem quer ser filho de Deus tem que ser filho da Igreja, quem quer ser filho de Deus precisa ser filho da Virgem Maria: é o que dizem os santos de todos os tempos. Trata-se, perceba-se, de uma forma indireta de repetir o dogma – mil-vezes odiado! – de que fora da Igreja não há salvação. É a mesma coisa: dizer que é preciso ser filho da Igreja e filho da Virgem Santíssima é o perfeito equivalente (*) de dizer que é necessário ser Católico Apostólico Romano. Hoje parece ser um pecado imperdoável repetir que fora da Igreja Católica não é possível encontrar salvação. Contudo, parece que o mundo ainda se permite ouvir que é mister ser filho da Igreja e da Virgem Maria.
[(*) A primeira parte – filho da Igreja – exclui, sem sombra de dúvidas, todos os não-cristãos. A Igreja, mesmo em sentido lato, é uma instituição cristã por essência e sequer se concebe usar o mesmo termo para se referir às (eventuais) estruturas institucionais de religiões outras que o Cristianismo. A segunda parte – filho de Maria – exclui, inequivocamente, os protestantes, ao menos a imensíssima maior parte dos protestantes que desconhecem a veneração dos santos – e, em particular, o culto de hiperdulia que é devido à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Sobram, talvez, expandindo a interpretação, os cismáticos orientais, que perfazem Igrejas Particulares e guardam a veneração devida à SSma Virgem. Este sentido é, parece-me, o único em que talvez seja possível afirmar imperfeita a equivalência entre as duas sentenças e o nulla salus. Mesmo assim, elas abarcam a esmagadora maior parte daquilo a que se refere o dogma – e, portanto, dizê-las é já dizer muito.]
Onde ressoam, ainda hoje, essas expressões [que se diriam] tão anacrônicas?! De que obscuro gueto saem essas pregações [consideradas] tão intolerantes? Não é [somente] na blogosfera ultra-radical ou nas seitas cripto-cismáticas dos saudosistas dos tempos passados. Essas palavras reverberam na Praça de São Pedro e, de lá, para todo o orbe. Quem as pronuncia é o homem que sempre se encontra nas capas dos veículos de imprensa mundo afora. É o Papa Francisco – o Papa mais amado e bajulado pelos inimigos da Igreja de todos os naipes – quem o afirma com todas as letras: é preciso ser filho de Maria! Não existe Cristo sem a Igreja!
Deixemos falar o Papa Francisco (itálicos no original, negritos meus):
E, para além de contemplar a face de Deus, podemos também louvá-Lo e glorificá-Lo como os pastores, que regressaram de Belém com um cântico de agradecimento depois de ter visto o Menino e a sua jovem mãe (cf. Lc 2, 16). Estavam juntos, como juntos estiveram no Calvário, porque Cristo e a sua Mãe são inseparáveis: há entre ambos uma relação estreitíssima, como aliás entre cada filho e sua mãe. A carne de Cristo – que é charneira da nossa salvação (Tertuliano) – foi tecida no ventre de Maria (cf. Sal 139/138, 13). Tal inseparabilidade é significada também pelo facto de Maria, escolhida para ser Mãe do Redentor, ter compartilhado intimamente toda a sua missão, permanecendo junto do Filho até ao fim no calvário.
Maria está assim tão unida a Jesus, porque recebeu d’Ele o conhecimento do coração, o conhecimento da fé, alimentada pela experiência materna e pela união íntima com o seu Filho. A Virgem Santa é a mulher de fé, que deu lugar a Deus no seu coração, nos seus projectos; é a crente capaz de individuar no dom do Filho a chegada daquela «plenitude do tempo» (Gl 4, 4) na qual Deus, escolhendo o caminho humilde da existência humana, entrou pessoalmente no sulco da história da salvação. Por isso, não se pode compreender Jesus sem a sua Mãe.
Igualmente inseparáveis são Cristo e a Igreja, porque a Igreja e Maria caminham sempre juntas, sendo isto exactamente o mistério da mulher na comunidade eclesial, e não se pode compreender a salvação realizada por Jesus sem considerar a maternidade da Igreja. Separar Jesus da Igreja seria querer introduzir uma «dicotomia absurda», como escreveu o Beato Paulo VI (cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 16). Não é possível «amar a Cristo, mas sem amar a Igreja, ouvir Cristo mas não a Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja» (Ibid., 16). Na verdade, é precisamente a Igreja, a grande família de Deus, que nos traz Cristo. A nossa fé não é uma doutrina abstracta nem uma filosofia, mas a relação vital e plena com uma pessoa: Jesus Cristo, o Filho unigénito de Deus que Se fez homem, morreu e ressuscitou para nos salvar e que está vivo no meio de nós. Onde podemos encontrá-Lo? Encontramo-Lo na Igreja, na nossa Santa Mãe Igreja hierárquica. É a Igreja que diz hoje: «Eis o Cordeiro de Deus»; é a Igreja que O anuncia; é na Igreja que Jesus continua a realizar os seus gestos de graça que são os sacramentos.
Esta acção e missão da Igreja exprimem a sua maternidade. Na verdade, ela é como uma mãe que guarda Jesus com ternura, e O dá a todos com alegria e generosidade. Nenhuma manifestação de Cristo, nem sequer a mais mística, pode jamais ser separada da carne e do sangue da Igreja, da realidade histórica concreta do Corpo de Cristo. Sem a Igreja, Jesus Cristo acaba por ficar reduzido a uma ideia, a uma moral, a um sentimento. Sem a Igreja, a nossa relação com Cristo ficaria à mercê da nossa imaginação, das nossas interpretações, dos nossos humores.
A Igreja Católica é a fiel depositária de um determinado conjunto de verdades imutáveis, as quais tem o mandato divino de anunciar ao mundo como as recebeu de Cristo – sem as aumentar nem as diminuir. Os dogmas não ficam nunca “ultrapassados”, a Doutrina Cristã não “deixa de valer” jamais. E o Papa – qualquer que seja o Papa! – é o guardião da Fé. Não deveria ser estranho que o Vigário de Cristo agisse como Vigário de Cristo. Nestes tempos que correm, no entanto, e como há um evidente empenho em sequestrar o Papa Francisco, é importante registrar e documentar com bastante cuidado: o Papa Francisco é Papa católico. E, por mais que o desejem os anti-clericais, ele não pode ser outra coisa. Não gostam de ouvir o Pontífice Argentino falar? Que ouçam, portanto, o que fala o Papa Francisco! Que o ouçam e, ouvindo-o, se convertam. Pois – Franciscus dixit! – não é possível separar Cristo de Sua Mãe Santíssima. Porque – Bergoglio garante! – não se encontra a Cristo fora da Igreja Católica e Apostólica.
Que a SSma. Virgem, Aquela «que deu uma face humana ao Verbo eterno, para que todos nós O pudéssemos contemplar» (Papa Francisco, id. ibid.), rogue pela Igreja, pelo Papa Francisco e por todos nós. Que Ela, de novo e mais uma vez, nos traga o Seu Divino Filho, diante do qual as Trevas não podem subsistir. Que Ela nos possa sempre valer, em meio às tentações desta vida conturbada. Que nos livre, sempre, das ciladas que o Maligno nos arma nestes dias difíceis em que vivemos.
Jorge Ferraz in Deus lo vult
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Inquisição à luz da doutrina de S. Tomás de Aquino (2)
Continuação do artigo cuja primeira parte se encontra aqui: Primeira parte
Partindo do princípio de que quando a autoridade se põe a legislar deve considerar a situação histórica real e não apenas a lei natural e divina tomadas em abstracto, analisemos o caso histórico concreto em que se deu a constituição de uma inquisição católica.
No século XII a Igreja enfrentava fortes contestações de uma série de movimentos que defendiam a pobreza: uma marca comum de todos eles era a denúncia que a Igreja Católica era uma instituição muito rica e que tal riqueza, fruto de doações de terras feitas por reis, príncipes, senhores ao longo de séculos, contrastava com a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo. O poder económico da Igreja permitia aos Bispos, Cardeais e também aos Papas o controle de vastas áreas feudais, e uma vida de certo luxo, uma corte principesca e diversos privilégios. É bem verdade que tal critica não carecia de um certo sentido: existiam clérigos que descuravam a vida espiritual e as obrigações pastorais para se dedicarem aos gozos da vida terrena e à procura das ambições transitórias. Contra isto mesmo já vários movimentos se tinham levantado, em épocas de crise semelhante, dentro da Igreja; cabe lembrar aqui o movimento de restauração do monaquismo iniciado em Cluny, França, num momento em que o monaquismo havia relaxado do ideal de oração e trabalho.
Mas além da crítica, esses movimentos passaram a defender a destruição da Igreja institucional, para no lugar dela criar uma nova igreja, puramente espiritual, guiada por profetas iluminados pelo Espírito Santo de modo directo. Uma igreja sem poder temporal, sem bens, sem clero, sem autoridade, sem padres, bispos e papas. Qual seria o efeito para a sociedade feudal se tais propostas tivessem vingado? O mundo feudal era baseado nas relações de solidariedade e nas relações de subordinação às autoridades naturais e espirituais. A sociedade era uma teia de inter-relações de confiança, daí a importância dos juramentos de fidelidade entre senhores e cavaleiros. As relações de dependência de todos para com todos era a base moral e jurídica do mundo medieval europeu. Destruir a instituição que garantia tais juramentos e que era a portadora máxima da confiança dos contractos e dos poderes a que os homens estavam sujeitos, pelo seu carácter sobrenatural e divino, era pôr em xeque a existência da sociedade; sem a autoridade da Igreja que sacralizava as relações sociais não haveria nada capaz de manter os laços entre os indivíduos e as ordens sociais (nobreza, povo, burgueses, cavaleiros, etc...) de pé permanentemente. Assim, os chamados movimentos heréticos eram não só ameaças à autoridade da Igreja ou aos dogmas católicos mas ameaçavam gravemente a continuidade da sociedade medieval.
As heresias do século XII agitavam multidões. Amauri defendeu teses que deram origens ao movimento dos irmãos do livre espírito, que pregavam a libertação de todas as regras morais, chegando a defender a partilha das esposas (poligamia). As doutrinas heréticas de Pedro de Bruys, que acusava a Igreja de ser uma imundície, estimularam o ataque aos feudos da Igreja; por onde passassem os seus seguidores as igrejas eram incendiadas, cruzes derrubadas e padres perseguidos. Já o padre que se tornou herético, Arnaldo de Brescia, formou um movimento revolucionário onde reunia multidões para atacar cidades e feudos em nome dos pobres, em nome da pilhagem dos bens da Igreja e da nobreza. Mas destes movimentos o mais violento era o catarismo (do grego καϑαρός katharós, "puro"): considerado herético pela Igreja Católica manifestou-se no sul da França e no norte da Itália do final do século XI até meados do séculos XIV.
As suas ideias tinham fortes ligações ao gnosticismo do início da era cristã. Os historiadores dizem que se terá formado a partir da expansão das crenças dos Bogomilos (Reino dos Búlgaros) e dos Paulicianos (Médio Oriente). Eles diziam ser os verdadeiros cristãos. Traziam na sua doutrina a assinatura da mensagem sincrética do iniciado persa Mani, que tinha espalhado pelo mundo antigo a sua doutrina gnóstica. A salvação para o catarismo era a libertação da alma do seu invólucro, isto é, o corpo material, impuro, portanto consideravam que Deus havia criado apenas o Céu. A Terra seria criação de um génio mau, o demiurgo. Negavam portanto a teologia da criação. Devido a essa concepção, viam com bons olhos o suicídio. Os "sacerdotes" cátaros, ou 'bons homens', como se auto-denominavam, levavam vidas simples, desprovidos de quaisquer posses materiais, procurando afastar-se ao máximo da corrupção do mundo. Isso fez desta seita uma perigosa concorrente da Igreja Católica, que na época tinha um clero em crise moral.
O exemplo de pobreza e desapego dos cátaros acabava convencendo muitos católicos a passarem para o seu lado; recebiam o consolamentum, um rito que representava de maneira simbólica a sua morte com relação ao mundo corrupto. O anti-cristianismo dos cátaros era total: se a terra era criação de Lucibel, o demiurgo mau que aprisionou as almas em corpos de matéria, nega-se a encarnação de Deus, a paixão e a ressurreição de Cristo perdem o valor e a vida humana deixa de ser santificada e exaltada. O ideal cátaro é de negação absoluta da vida. Os cátaros perfeitos viviam uma vida rigorosa: se tinham esposas recusavam manter vida sexual com elas, não comiam carne, viviam como faquires hindus, desprendidos de tudo que fosse material. Em suma, o catarismo era uma anarquia espiritual que, se tivesse vencido historicamente, significaria o fim da civilização humana tal como a conhecemos.
As suas ideias tinham fortes ligações ao gnosticismo do início da era cristã. Os historiadores dizem que se terá formado a partir da expansão das crenças dos Bogomilos (Reino dos Búlgaros) e dos Paulicianos (Médio Oriente). Eles diziam ser os verdadeiros cristãos. Traziam na sua doutrina a assinatura da mensagem sincrética do iniciado persa Mani, que tinha espalhado pelo mundo antigo a sua doutrina gnóstica. A salvação para o catarismo era a libertação da alma do seu invólucro, isto é, o corpo material, impuro, portanto consideravam que Deus havia criado apenas o Céu. A Terra seria criação de um génio mau, o demiurgo. Negavam portanto a teologia da criação. Devido a essa concepção, viam com bons olhos o suicídio. Os "sacerdotes" cátaros, ou 'bons homens', como se auto-denominavam, levavam vidas simples, desprovidos de quaisquer posses materiais, procurando afastar-se ao máximo da corrupção do mundo. Isso fez desta seita uma perigosa concorrente da Igreja Católica, que na época tinha um clero em crise moral.
O exemplo de pobreza e desapego dos cátaros acabava convencendo muitos católicos a passarem para o seu lado; recebiam o consolamentum, um rito que representava de maneira simbólica a sua morte com relação ao mundo corrupto. O anti-cristianismo dos cátaros era total: se a terra era criação de Lucibel, o demiurgo mau que aprisionou as almas em corpos de matéria, nega-se a encarnação de Deus, a paixão e a ressurreição de Cristo perdem o valor e a vida humana deixa de ser santificada e exaltada. O ideal cátaro é de negação absoluta da vida. Os cátaros perfeitos viviam uma vida rigorosa: se tinham esposas recusavam manter vida sexual com elas, não comiam carne, viviam como faquires hindus, desprendidos de tudo que fosse material. Em suma, o catarismo era uma anarquia espiritual que, se tivesse vencido historicamente, significaria o fim da civilização humana tal como a conhecemos.
O problema cátaro era grave, era uma heresia anti-cristã e anti-social. Defendia a derrocada de todas as leis, tradições, moral, instituições existentes .Segundo o líder cátaro, Limosus Negro, tudo que havia "debaixo da lua e do sol era corrupção e confusão", restando apenas destruir tudo o que a civilização havia conquistado. Mais grave ainda era a existência de autoridades coniventes com a expansão cátara: já haviam pessoas de alta estirpe que eram membros do movimento. Quase todas as famílias da nobreza do sul da França tinham filhos seus no movimento. Filhos da nobreza eram educados em escolas cátaras; as viúvas e muitos jovens retiravam-se para conventos cátaros. O desejo de uma vida mais pura que agitava a cristandade beneficiava a heresia. Mas para muitos, passar para o lado da heresia significava poder apoderar-se dos bens da Igreja, coisa que interessava a muitos nobres.
Apesar da gravidade do perigo, a Igreja durante meio século usou apenas das armas da caridade, da pregação e da discussão pública para trazer os cátaros de volta para o seu ao seio. Apenas quando já não era mais possível esperar, em vista de um gravíssimo risco de destruição da civilização, da sociedade, das leis, dos poderes religiosos e civis, a Igreja resolveu agir com mais rigor. Inocêncio III, que começou o seu pontificado em 1189, mandou excluir dos cargos públicos os hereges e confiscar os seus bens; ameaçou os nobres dizendo que se não combatessem a heresia permitiria que o rei da França lhes tomassem as terras. Em 1208 ordenou uma cruzada contra os hereges: os cavaleiros tinham o mesmo direito que os cruzados da Terra Santa de aprisionar os bens dos inimigos para si. O Papa proibiu aos cavaleiros massacres e roubos mas eles aconteceram com frequência. Em 1211 os cavaleiros católicos e os exércitos cátaros enfrentaram-se numa nova cruzada marcada, novamente por carnificinas.
Justamente para evitar mortes e condenações de hereges sem o devido processo legal é que se instaurou o Tribunal da Santa Inquisição. Foi instituído em 1231 por Gregório IX. Tal instituto tinha um fim: investigar e reprimir a anarquia espiritual e as acções dos heréticos, garantindo a solidez dos fundamentos da civilização cristã. Era um tribunal de defesa, de salvação pública, criado numa época de perturbações extremas.
A inquisição funcionava assim: numa região em que se suspeitava de actividades heréticas chegavam 4 inquisidores, no mínimo, normalmente frades franciscanos ou dominicanos. Convidavam a multidão para uma pregação na igreja, aconselhando os rebeldes a pedir perdão a Deus. No princípio a inquisição apresentava-se como um tribunal de penitência que tem primeiro a finalidade de reconciliar os pecadores com Deus e a Igreja através da confissão. Oferecia-se um prazo para a confissão da falta. No caso da sua heresia nunca ter causado escândalo público ser-lhe-ia imposta uma simples penitência secreta. Se tivesse sido pública, o confesso receberia uma indulgência e penas públicas, como por exemplo peregrinar a locais santos ou ficar algum tempo num convento. Os que não confessavam e tinham sido denunciados eram investigados e levados a um julgamento onde por regra não se permitia advogado; mas segundo fontes autorizadas muitos réus tiveram advogados; o Manual do Inquisidor de Bernardo Guy proíbe a intervenção de advogados sob a suspeita de que possam ser hereges como os réus ou pagos para encobrir os seus crimes; já no de Eymeric diz-se que “não se deve privar os réus do direito de defesa e de advogados”.
O Papa Inocêncio IV instituiu o júri para garantir a justiça da sentença pois considerava que numa matéria tão grave como a heresia devia-se proceder com muita prudência, garantindo o máximo de rigor no processo para que não resultasse numa condenação injusta. Em suma, graças à inquisição católica é que temos diversos mecanismos modernos de justiça que garantem o devido processo legal e os direitos básicos da pessoa no âmbito da aplicação da justiça. Embora excessos possam ter sido cometidos no uso dos instrumentos inquisitoriais, eles justificavam-se tendo em vista a grave situação social e histórica que vivia a comunidade medieval.
Ninguém em sã consciência poderia defender a abolição da polícia apenas por que abusos são cometidos por policias no exercício da sua função; assim também em termos gerais a função da inquisição foi positiva e necessária para abrandar o impacto social das heresias e permitir que os heréticos não fossem mortos sumariamente, como ocorria durante as cruzadas contra eles operadas pelos nobres, e que tivessem direitos mínimos, inclusive o de se arrepender e emendar-se, o que era afinal o objectivo da Igreja: a conversão e salvação das almas. As cruzadas não tinham sido capazes de sufocar a influência das heresias; apenas o braço jurídico da inquisição, associado ao trabalho religioso dos frades mendicantes (franciscanos e dominicanos), conseguiu refrear o acelerado crescimento das doutrinas heréticas, mantendo de pé a civilização católica.
Ninguém em sã consciência poderia defender a abolição da polícia apenas por que abusos são cometidos por policias no exercício da sua função; assim também em termos gerais a função da inquisição foi positiva e necessária para abrandar o impacto social das heresias e permitir que os heréticos não fossem mortos sumariamente, como ocorria durante as cruzadas contra eles operadas pelos nobres, e que tivessem direitos mínimos, inclusive o de se arrepender e emendar-se, o que era afinal o objectivo da Igreja: a conversão e salvação das almas. As cruzadas não tinham sido capazes de sufocar a influência das heresias; apenas o braço jurídico da inquisição, associado ao trabalho religioso dos frades mendicantes (franciscanos e dominicanos), conseguiu refrear o acelerado crescimento das doutrinas heréticas, mantendo de pé a civilização católica.
"A História é necessária, não apenas para tornar a vida agradável, mas também para lhe dar um significado moral. O que é mortal em si mesmo consegue a imortalidade através da História; o que é ausente torna-se presente; velhas coisas rejuvenescem, e um jovem logo iguala a maturidade dos velhos. Se um homem de setenta anos é considerado sábio devido à sua experiência, quão mais sábio aquele cuja vida abrange o espaço de mil ou três mil anos! Pois, na verdade, pode-se dizer que um homem viveu tantos milénios quantos os abarcados pelo alcance de seu conhecimento de História."
Marsílio Ficino (1433-1499), Carta a Giacomo Bracciolini
in catolicidadetradit.blogspot.pt
Papa Francisco canoniza mais um português: São José Vaz
O Papa Francisco canonizou hoje, na cidade de Colombo (Sri-Lanka), mais um santo português: São José Vaz. Aqui fica uma parte da homilia do Santo Padre:
«Todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus» (Is 52, 10).
Esta é a magnífica profecia que ouvimos na primeira leitura de hoje. Isaías prediz o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo até aos confins da terra. Esta profecia tem um significado especial para nós, que celebramos a canonização do grande missionário do Evangelho, São José Vaz. Ele, como tantos outros missionários na história da Igreja, respondeu à ordem dada pelo Senhor ressuscitado para fazer discípulos de todas as nações (cf. Mt 28, 19). Com as suas palavras e, o mais importante, com o exemplo da sua vida, conduziu o povo desta nação à fé que nos concede «parte na herança com todos os santificados» (Act 20, 32).
Em São José, vemos um sinal eloquente da bondade e do amor de Deus pelo povo do Sri Lanka. Mas, nele, vemos também um estímulo para perseverar no caminho do Evangelho a fim de crescermos nós próprios em santidade e testemunharmos a mensagem evangélica de reconciliação à qual dedicou a sua vida.
Padre do Oratório, José Vaz deixa Goa, sua terra natal, e chega a este país movido apenas pelo zelo missionário e por um grande amor a estes povos. Por causa da perseguição religiosa em acto, vestia-se como um mendigo, cumpria os seus deveres sacerdotais encontrando secretamente os fiéis, muitas vezes durante a noite. Os seus esforços deram energia espiritual e moral à população católica assediada. Sentia uma ânsia particular de servir os doentes e atribulados.
O seu ministério em favor dos enfermos, durante uma epidemia de varíola em Kandy, foi tão apreciado pelo rei, que lhe foi concedida maior liberdade de ministério. A partir de Kandy, pôde alcançar outras partes da ilha. Deixou-se consumir pelo trabalho missionário e morreu, exausto, aos cinquenta e nove anos de idade, venerado pela sua santidade.
Chesterton descreve na perfeição o espírito da Europa de hoje
A antiga humildade levava um homem a não confiar excessivamente no seu próprio esforço, o que podia levá-lo a trabalhar mais. A nova humildade, porém, leva um homem a duvidar dos seus objectivos, o que faz com que ele pare por completo de trabalhar.
Não nos será difícil encontrar, em qualquer esquina, um sujeito que nos lance em cara a afirmação – a frenética e blasfema afirmação – de que poderá estar enganado. Todos os dias nos cruzamos com pessoas que afirmam que, naturalmente, poderão não ter a opinião mais correcta.
Claro que a opinião dessas pessoas é a mais correcta, senão elas não teriam essa opinião. Estamos em vias de produzir uma raça de homens mentalmente tão modestos, que não acreditam na tabuada. Corremos o risco de vir a conhecer filósofos que duvidam da lei da gravitação universal, considerando que se trata de uma simples fantasia sua.
Antigamente, os cínicos mostravam-se excessivamente orgulhosos para se deixarem convencer; hoje, mostram-se excessivamente humildes para se deixarem persuadir. Os mansos herdarão de facto a terra; mas os modernos cépticos são excessivamente mansos para reclamarem sequer essa herança.
G. K. Chesterton in Ortodoxia
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Frase do dia
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O profético discurso do Papa Bento XVI sobre o Islão
A 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento XVI fazia um magistral discurso na Universidade de Ratisbona, intitulado: "Fé, razão e universidade". As palavras do Papa, nomeadamente as que passamos a citar, foram mal interpretadas e geraram uma onda de indignação no mundo islâmico, mas não só. Esta lição é profética e explica o porquê da violência associada ao Islão e como isso nunca poderia ser vontade do verdadeiro Deus.
«No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: «Nenhuma coacção nas coisas de fé». Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado.
Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o «Livro» e os «incrédulos», ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: «Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava».[3]
O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: «Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – «σὺν λόγω» – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não da violência nem da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor do próprio braço, nem de instrumentos para ferir ou de qualquer outro meio com que se possa ameaçar de morte uma pessoa...».[4]
Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o «Livro» e os «incrédulos», ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: «Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava».[3]
O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: «Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – «σὺν λόγω» – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não da violência nem da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor do próprio braço, nem de instrumentos para ferir ou de qualquer outro meio com que se possa ameaçar de morte uma pessoa...».[4]
Nesta argumentação contra a conversão através da violência, a afirmação decisiva está aqui: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus.[5] E o editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, como bizantino que cresceu na filosofia grega, esta afirmação é evidente; mas não o é para a doutrina muçulmana, porque Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está vinculada a nenhuma das nossas categorias, incluindo a da razoabilidade.»
[4] Controvérsia VII 3b-c: Khoury, pp. 144-145; Förstel, vol. I, VII Dialog 1.6, pp. 240-243.
[5] Foi unicamente por esta afirmação que citei o diálogo entre Manuel e o seu interlocutor persa. É nesta afirmação que surge o tema das minhas afirmações seguintes.
Papa celebra a Santa Missa na Capela Sistina e baptiza 33 crianças
domingo, 11 de janeiro de 2015
Charlie Hebdo despediu cartonista por anti-semitismo
A sátira do Charlie Hebdo sempre foi implacável com o Cristianismo e o Islão, mas teve de recuar perante a indignação judaica.
Em 2008, a direcção do jornal demitiu Maurice Sinet, ou ‘Siné', autor de um ‘cartoon' considerado anti-semita. Siné, hoje com 86 anos, classificou de "oportunista" o filho do então presidente Sarkozy por se converter ao judaísmo antes de casar com uma rica herdeira judia. "Vai longe na vida, este rapazola", lia-se no ‘cartoon'.
Pró-palestiano e de esquerda, Siné rejeitou qualquer pedido de desculpa, aliás, disse mesmo que preferia cortar os próprios testículos. O director do jornal, Philippe Val, acabou por despedir o cartonista, uma decisão apoiada pelo próprio governo e pelo Congresso Judaico da Europa.
O ‘caso Siné' fez ainda correr muita tinta e críticas a Val, por em nome da liberdade de expressão ter republicado os ‘cartoons' dinamarqueses sobre o profeta Maomé mas ter traçado uma linha vermelha no humor sobre judeus. Siné recorreu aos tribunais e, em 2010, o Charlie Hebdo foi condenado e obrigado a pagar uma indemnização de 90 mil euros.
O ‘cartoon' da polémica, esse, é difícil de encontrar no ciberespaço.
in economico.pt
sábado, 10 de janeiro de 2015
A Providência Divina segundo Isaías
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| Providência Divina - Pietro da Cortona (Palácio Barberini) |
Ai daquele que discute com quem o formou, vaso entre os vasilhames de terra! Acaso diz a argila ao oleiro: Que fazes? Acaso diz a obra ao operário: És incompetente?
Ai daquele que ousa dizer a seu pai: Por que me geraste? E à sua mãe: Por que me concebeste?
Eis o que diz o Senhor, o Santo de Israel e seu criador: Pretendeis pedir-me conta do futuro, ditar-me um modo de agir?
Fui eu quem fez a terra, e a povoou de homens; foram minhas mãos que estenderam os céus, e eu comando todo o seu exército.
Isaías 45, 9-12
Frase do dia
"(A Igreja) É santa porque Jesus Cristo, o Santo de Deus (cf Mc 1,24), Se une a ela de modo indissolúvel (cf Mt 28,20); é santa porque se deixa guiar pelo Espírito Santo, que purifica, transforma e renova. Não é santa pelos nossos méritos, mas porque Deus a torna santa, porque é fruto do Espírito Santo e dos seus dons. Não somos nós que a santificamos. É Deus, o Espírito Santo que, no seu amor, santifica a Igreja."
Papa Francisco in Audiência-Geral, 02/X/2013
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Cardeal Ratzinger fala sobre S. Josemaria Escrivá
![]() |
| Cardeal Ratzinger e o Beato Álvaro del Portillo, sucessor de S. Josemaria |
Transcrição de uma intervenção oral do Cardeal Joseph Ratzinger, publicada no suplemento especial do «Osservatore Romano» de 6 de Outubro de 2002
Sempre me chamou a atenção o sentido que Josemaria Escrivá dava ao nome Opus Dei; uma interpretação que poderíamos chamar biográfica e que permite entender o fundador na sua fisionomia espiritual. Escrivá sabia que devia fundar algo, e ao mesmo tempo estava convencido de que esse algo não era obra sua: ele não tinha inventado nada: simplesmente o Senhor tinha-se servido dele e, em consequência, aquilo não era obra sua, mas sim a Obra de Deus. Ele era somente um instrumento através do qual Deus tinha actuado.
Sempre me chamou a atenção o sentido que Josemaria Escrivá dava ao nome Opus Dei; uma interpretação que poderíamos chamar biográfica e que permite entender o fundador na sua fisionomia espiritual. Escrivá sabia que devia fundar algo, e ao mesmo tempo estava convencido de que esse algo não era obra sua: ele não tinha inventado nada: simplesmente o Senhor tinha-se servido dele e, em consequência, aquilo não era obra sua, mas sim a Obra de Deus. Ele era somente um instrumento através do qual Deus tinha actuado.
Ao considerar esta atitude
vêm-me à mente as palavras do Senhor recolhidas no evangelho de São João 5, 17:
«O Meu Pai trabalha sempre». São palavras pronunciadas por Jesus no
curso de uma discussão com alguns especialistas da religião que não queriam
reconhecer que Deus pode trabalhar no dia de Sábado. Um debate todavia aberto e
actual, de certo modo, entre os homens – incluindo os cristãos – do nosso
tempo. Alguns pensam que Deus, depois da criação, se «retirou» e já não mostra
nenhum interesse pelos nossos assuntos diários. Segundo este modo de pensar,
Deus não poderia intervir no tecido da nossa vida quotidiana; todavia, as
palavras de Jesus Cristo indicam-nos antes o contrário. Um homem aberto à
presença de Deus dá-se conta que Deus trabalha sempre e de que também actua
hoje; por isso devemos deixa-lo entrar e facilitar-lhe que actue em nós. É
assim que nascem tantas coisas que abrem o futuro e renovam a humanidade.
Tudo isto ajuda-nos a
compreender porque Josemaria Escrivá não se considerava «fundador» de nada, e
porque se via somente como um homem que quer cumprir uma vontade de Deus,
secundar essa acção, a obra - com efeito – de Deus. Neste
sentido, constitui para mim uma mensagem de grande importância o teocentrismo
de Escrivá de Balaguer: está em coerência com essas palavras de Jesus essa
confiança em que Deus não se retirou do mundo, porque está actuando
constantemente; e que a nós apenas nos corresponde pormo-nos à sua disposição,
estar disponíveis, sendo capazes de responder à sua chamada. É uma mensagem que
também ajuda a superar o que pode considerar-se como a grande tentação do nosso
tempo: a pretensão de pensar que depois do big bang, Deus se
retirou da história. A acção de Deus «não se deteve» no momento do big
bang, antes continua no curso do tempo, tanto no mundo da natureza como no
dos homens.
O fundador da Obra dizia: eu
não inventei nada; é outro que fez tudo; eu procurei estar disponível e
servi-lo como instrumento. a palavra e toda a realidade que chamamos Opus Dei
está profundamente enxertada com a vida do Fundador, que ainda que procurando
ser muito discreto neste ponto, dá a entender que permanecia em diálogo
constante, em contacto real com Aquele que nos criou e actua por nós e
connosco.
De Moisés diz-se no livro de
Êxodo (33,11) que Deus falava face a face com ele, como um amigo fala com um
amigo». Parece-me que, se bem que o véu da discrição esconde alguns pequenos
sinais, há fundamento suficiente para muito bem por aplicar a Josemaria Escrivá
isso de «falar como um amigo fala com um amigo», que abre as portas do mundo
para que Deus possa tornar-se presente, fazer e transformar tudo.
Nesta perspectiva
compreende-se melhor o que significa santidade e vocação universal à santidade.
Conhecendo um pouco da história dos santos, e sabendo que nos processos de
canonização se procura a virtude «heróica» podemos ter, quase inevitavelmente,
um conceito errado da santidade porque tendemos a pensar: «isto não é para mim»;
«eu não me sinto capaz de praticar virtudes heróicas»; «é um ideal demasiado
alto para mim». Nesse caso a santidade estaria reservada para alguns «grandes»
dos quais vemos as imagens nos altares e que são muito diferentes de nós,
normais pecadores. Essa seria uma ideia totalmente errada da santidade,
uma concepção errónea que foi corrigida – e isto parece-me um ponto central –
precisamente por Josemaría Escrivá.
Virtude heróica não quer
dizer que o santo seja uma espécie de «ginasta» da santidade, que realiza uns
exercícios inexequíveis para as pessoas normais. Quer dizer, pelo contrário,
que na vida de um homem se revela a presença de Deus, e fica mais patente tudo
quanto o homem não é capaz de fazer por si mesmo. Talvez, no fundo, se trate de
uma questão terminológica, porque o adjectivo «heróico» foi com frequência mal
interpretado. Virtude heróica não significa exactamente que alguém faz coisas
grandes por si mesmo, mas que na sua vida aparecem realidades que ele não fez,
porque ele só esteve disponível para deixar que Deus actuasse. Por outras
palavras, ser santo não é outra coisa que falara com Deus como um amigo fala
com o amigo. Isto é a santidade.
Ser santo não implica ser
superior aos outros; pelo contrário, o santo pode ser muito débil, e contar com
numerosos erros na sua vida. A santidade é o contacto profundo com Deus: é
fazer-se amigo de Deus, deixara o Outro operar, o Único que realmente pode
fazer com que este mundo seja bom e feliz. Quando
Josemaría Escrivá diz que todos os homens são chamados a ser santos, parece-me
que, no fundo, está a referir-se à sua experiência pessoal, porque nunca fez,
por si mesmo, coisas incríveis, antes se limitou a deixar Deus operar. E, por
isso, nasceu uma grande renovação, uma força de bem no mundo, ainda que continuem
presentes todas as debilidades humanas.
Verdadeiramente todos somos
capazes, todos somos chamados a abrir-nos a essa amizade com Deus, a não nos
desprender-mos das suas mãos, a não nos cansarmos de voltar e regressar ao
Senhor falando com Ele como se fala com um amigo sabendo, com certeza, que o
Senhor é o verdadeiro amigo de todos, também de todos os que não são capazes de
fazer por si mesmos coisas grandes.
Por tudo isto compreendi
melhor a fisionomia do Opus Dei: a forte ligação que existe entre uma
fidelidade absoluta à grande tradição da Igreja, a sua fé, com simplicidade
desarmante, e abertura incondicional a todos os desafios deste mundo, seja no
âmbito académico, no do trabalho ordinário, na economia, etc. Quem tem este
vínculo com Deus, quem mantém com Ele um colóquio ininterrupto, pode atrever-se
a responder a novos desafios., e não tem medo; porque quem está nas mãos de
Deus, cai sempre nas mãos de Deus. É assim que o medo
desaparece e nasce a valentia de responder aos desafios do mundo de hoje.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
O jornal Charlie Ebdo merecia o ataque?
Pelo menos doze morreram no ataque ao jornal francês satírico Charlie Hebdo. O escândalo veio antes do luto, como talvez deva ser. Foi assim que também vieram as várias explicações do ataque. Dentro das mais previsíveis e desprezíveis estão os comentários que terminam quase antes de dizerem que os que morreram já estavam a pedi-las.
Tenho a certeza que os autores em questão não acreditam verdadeiramente nisso e é por isso que se deviam preocupar por os seus comentários estarem tão perto de implicar isso. Se uma amiga vossa fosse violada, não lhe deviam dizer que a saia dela era demasiado curta ou que o seu vestido era demasiado "provocante." Se um jornalista foi assassinado, a vossa primeira resposta também não devia ser sobre a linha editorial do seu empregador.
Tony Barber, um autor do Financial Times, discorda:
O Charlie Hebdo tem um longo historial de fazer troça, atrair e espicaçar os muçulmanos franceses. Ainda que a revista acabe os seus textos no ponto antes de começar aos insultos, não é de maneira nenhuma nenhuma campeã do princípio da liberdade de expressão. A França é a terra de Voltaire, mas disparates editoriais prevaleceram demasiadas vezes no Charlie Hebdo.
Isto não implica de todo que se desculpe os assassinos, que devem ser apanhados e punidos, ou para sugerir que a liberdade de expressão não se deve extender a retratos satíricos da religião. Simplesmente quer dizer que algum bom senso teria sido útil em publicações tais como o Charlie Hebdo ou o Jyllands-Posten da Dinamarca, que se propõem dar um golpe pela liberdade quando provocam os muçulmanos, mas na verdade estão a ser estúpidos.
Os problemas não desaparecem pela especial ressalva ("Não estou a desculpar o homocídio, a sério!"). Porque primeiro há a culpa do estatuto da vítima, a implicação de que o Charlie Hebdo estava a merecer. Segundo é a sugestão de que os assassinos são de alguma forma representativos dos muçulmanos, um grupo que Barber - na sua abundante condescendência liberal - aparentemente vê como fáceis de provocar para matar.
No Twitter, Adam Kotsko [famoso teólogo protestante] foca o mesmo ponto num tweet que o fez, rapidamente e correctamente, voltar atrás:
[Já não é surpreendente alguém atacar um jornal dedicado ao "discurso de ódio", tal como alguém agredir os protestantes de Westboro.]
[Eu não "apoio" atacar um jornal dedicado ao "discurso de ódio" ou agredir os aderentes de Westboro, mas por amor de Deus!]
Estou contente com este retratamento, mas dificilmente me conformo com a razão dele para o ter feito:
[Fiquei com a impressão de que o jornal atacado era um farrapo de ódio da extrema direita.]
Sim, como se nesse caso o comentário fosse justificável.
Os nossos princípios serão postos à prova na defesa de vítimas que não nos são queridas. As velhas complacência e condescendência ("Oh, a saia dela era demasiado curta." ou "Oh, ele não conseguia não o fazer.") não vão ser suficientes.
Matthew Schmitz, editor chefe da First Things.
in First Things
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Inquisição à luz da doutrina de S. Tomás de Aquino (1)
A inquisição é um dos temas mais controversos da História medieval. Este estudo tenta torná-la mais clara, lançando sobre ela a luz da doutrina de Santo Tomás quanto a natureza das relações Estado-Igreja, quanto a natureza da sociedade política.
Em primeiro lugar ressaltemos alguns princípios de análise histórica fundamentais para compreendermos a inquisição.Já dizia o filósofo Dilthey que uma das disposições mais próprias para conhecermos uma época passada é a empatia.A empatia é identificação com o objecto de estudo. Consiste em penetrar nele para poder compreendê-lo.Mas como penetrar num objecto do passado, numa sociedade morta?
A forma mais viável é a tentativa de reconstruir a mentalidade da época e colocar-se no lugar dos actores humanos, sermos possuídos pelas suas vivências, amores, temores, desejos, imaginários, formas de vida, organização política, leis. Esse método é o mais válido para entendermos uma sociedade do passado nos seus próprios termos, sem desrespeitá-la, sem tentar dar-lhe um significado ou qualificativo baseado numa leitura da História à luz de um futuro ou de um presente, como fazem as leituras marxistas e liberais da História que vêem o passado em função do progresso das liberdades ou da igualdade no presente. Segundo esta visão o passado é tido apenas como mero tempo preparatório para uma época superior ou melhor, ou como era de estagnação como fazem por exemplo quando qualificam a idade media de idade das trevas.
Vamos então à visão de mundo do século XIII, século em que nasceu a inquisição, percorrendo o pensamento político de S. Tomás. A instituição inquisição obedecia aos critérios colocados pelo Doutor Angélico.
Primeiro é preciso dizer que S. Tomás se diferencia do pensar de S. Agostinho, que via o Estado como uma instituição directa de Deus, ligada ao pecado original: o Estado nasce da necessidade de impor um lei que facultasse o convívio entre os homens e o respeito a justiça através do uso da violência institucionalizada para a repressão dos maus. S. Tomás vê o estado como questão humana, ligado a providência divina de modo geral e dependente da razão: Deus não institui o Estado directamente mas deixa aos homens que organizem a sociedade política, por meio da razão, deixando à Igreja o cuidado da salvação das almas.
Neste sentido a sociedade política (Estado) deve levar em conta a lei divina na sua organização legal, mas também o direito natural, perscrutado pela razão, e os costumes dos povos. Tudo isto em vista do Bem, tal como pode ser realizado nesta terra. Ao Estado cabe criar leis positivas (escritas) com base em três fontes: Lei de Deus, razão humana e história. Assim, serão uma aplicação concreta a cada situação histórica da lei divina e eterna e da lei natural.
S. Tomás vale-se então do exemplo do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Sagrada Escritura) onde Moisés, o divino legislador do povo hebreu, ao receber a lei divina institui uma série de regras positivas de pureza, impureza, legalidade, ilegalidade, adequadas aos estado histórico do povo de Israel. É de notar que a lei divina proibia o assassinato, mas Moisés permitia em certos casos a aplicação da pena de morte (em caso de adultério, actos homossexuais, etc..) para certos actos previstos na lei como criminosos. Alguns poderiam perguntar se tal instituto legal estabelecido por Moisés não feria a lei divina do respeito absoluto pela vida humana, presente no Decálogo (dez mandamentos), ao que responderíamos que bem pelo contrário: as penas de morte estabelecidas pela lei mosaica atendiam as necessidades pedagógicas do povo de Israel naquela época e a cultura jurídica da mesopotâmia baseada amplamente na lei do talião.
Para um povo recém formado e sem raízes éticas firmes, tendente à idolatria e à desobediência da lei recém-outorgada por Deus no Monte Sinai, o uso de penas capitais era a única forma de garantir a unidade e a ordem mínima necessária para o seu desenvolvimento histórico. Moisés levou em conta os costumes da época para legislar, e não apenas a lei divina tomada abstractamente. Aplicou as circunstâncias históricas sem ferir o espírito essencial.
Para um povo recém formado e sem raízes éticas firmes, tendente à idolatria e à desobediência da lei recém-outorgada por Deus no Monte Sinai, o uso de penas capitais era a única forma de garantir a unidade e a ordem mínima necessária para o seu desenvolvimento histórico. Moisés levou em conta os costumes da época para legislar, e não apenas a lei divina tomada abstractamente. Aplicou as circunstâncias históricas sem ferir o espírito essencial.
As penas capitais eram usadas para garantir a vida do povo e a sua continuidade, ou seja, em função do princípio de legítima defesa. Qualquer pessoa que mata em legítima defesa não pratica assassinato pois visa primeiro a defesa da sua vida. Portanto aplica ao caso concreto a máxima divina: “Não matarás”, pois a primeira vida que se deve defender é a própria. Moisés ao instituir penas capitais na lei hebraica fazia valer o princípio de defesa do bem geral do povo ou do bem comum, tão bem elucidado por S. Tomás.
O bem comum não é o somatório dos interesses individuais, como diria Rosseau (com a sua tese da vontade geral), mas sim o bem de toda pessoa humana feita a imagem de Deus. Assim sendo, quando uma pessoa fere a justiça, que deve reger sua conduta em sociedade, pode ser castigada para restaurar a ordem. Note-se que o bem comum não é uma noção individualista. Para os pensadores liberais qualquer acção contra a liberdade do indivíduo é sempre negativa, sendo que para eles a melhor sociedade seria aquela em que os indivíduos estivessem menos “limitados” por uma lei.
O bem comum é um princípio segundo o qual a pessoa deve ordenar sua acção em função do Sumo Bem e não das suas vontades individuais. Para o liberal não há um Sumo Bem mas apenas a soma das vontades e interesses individuais – essas é que deveriam ser o critério da lei. A noção de Sumo Bem e de bem comum estão relacionadas: implicam a certeza da existência de uma ordem inteligível pela razão à qual o homem deve submeter a sua vontade para a realização das suas virtudes naturais e de sua autêntica liberdade e felicidade.
Postos tais princípios continuaremos a tratar do assunto na segundo parte do artigo, que se encontra aqui: Segunda parte
Postos tais princípios continuaremos a tratar do assunto na segundo parte do artigo, que se encontra aqui: Segunda parte
in catolicidadetradit.blogspot.pt
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Dia de Reis
Hoje lembramos a chegada dos Reis Magos ao Presépio:
"Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho."
Mt 2, 11-12
Ouro porque aquele Menino é Rei.
Incenso porque é Deus.
Mirra porque é homem.
Que podemos oferecer nós ao Senhor?
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Muita gente se perde porque se ama mal
Deus não te pede muitas coisas porque, por si mesma, a caridade é o pleno cumprimento da Lei (Rom 13,10). Mas este amor é duplo: amor a Deus e amor ao próximo. Quando Deus te manda amar o próximo, não te diz: ama-o com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente; mas diz-te: ama o teu próximo como a ti mesmo. Portanto, ama a Deus com todo o teu ser, porque Ele é maior do que tu; ama o teu próximo como a ti mesmo, porque ele é como tu.
Mas, se há três objectos do nosso amor, porque é que há apenas dois mandamentos? Vou dizer-te: Deus não julgou necessário encarregar-te de te amares a ti próprio porque não há ninguém que não se ame a si mesmo. Mas muita gente se perde porque se ama mal.
Ao mandar-te amá-Lo com todo o teu ser, Deus deu-te a regra segundo a qual deves amar. Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser. Com efeito é nele que te encontrarás, evitando assim perderes-te em ti. Deste modo é-te dada a regra segundo a qual deves amar-te: ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo.
Ao mandar-te amá-Lo com todo o teu ser, Deus deu-te a regra segundo a qual deves amar. Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser. Com efeito é nele que te encontrarás, evitando assim perderes-te em ti. Deste modo é-te dada a regra segundo a qual deves amar-te: ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo.
Santo Agostinho in Sermão inédito sobre a carta de São Tiago
domingo, 4 de janeiro de 2015
Papa Francisco escolhe D. Manuel Clemente para Cardeal
O Papa Francisco anunciou hoje os nomes dos novos cardeais e entre eles está D. Manuel Clemente. O Patriarca de Lisboa será assim feito cardeal no Consistório do próximo dia 14 de Fevereiro.
Por tradição, o Patriarca de Lisboa costumava ser feito Cardeal no primeiro Consistório depois de ser Patriarca, mas isso não aconteceu no passado Consistório de 22 de Fevereiro de 2014. Provavelmente terá sido porque Lisboa tinha já um cardeal-eleitor - o Patriarca emérito, D. José Policarpo - entretanto falecido a 12 de Março de 2014.
Ao todo são 15 novos cardeais-eleitores - que podem eleger o novo Papa no Conclave - pertencentes a 14 países:
- D. Dominique Mamberti, Arcebispo de Sagona, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica;
- D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente, Patriarca de Lisboa (Portugal);
- D. Berhaneyesus Demerew Souraphiel, C.M., Arcebispo de Addis Abeba (Etiópia);
- D. John Atcherley Dew, Arcebispo de Wellington (Nova Zelândia);
- D. Edoardo Menichelli, Arcebispo de Ancona-Osimo (Itália);
- D. Pierre Nguyên Văn Nhon, Arcebispo de Hanóid (Vietname);
- D. Alberto Suárez Inda, Arcebispo de Morelia (México);
- D. Charles Maung Bo, S.D.B., Arcebispo de Yangon (Myanmar);
- D. Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, Arcebispo de Bangkok (Tailândia);
- D. Francesco Montenegro, Arcebispo de Agrigento (Itália);
- D. Daniel Fernando Sturla Berhouet, S.D.B., Arcebispo de Montevidéu (Uruguai);
- D. Ricardo Blázquez Pérez, Arcebispo de Valladolid (Espanha);
- D. José Luis Lacunza Maestrojuán, O.A.R., Bispo de David (Panamá);
- D. Arlindo Gomes Furtado, Bispo de Santiago de Cabo Verde (Cabo Verde);
- D. Soane Patita Paini Mafi, Bispo de Tonga (Ilhas de Tonga).
Serão ainda criados cinco cardeais sem direito a voto no Conclave, por terem mais de 80 anos:
- D. José de Jesús Pimiento Rodríguez, Arcebispo emérito de Manizales (Colômbia);
- D. Luigi De Magistris, Arcebispo de Nova, Pró-Penitencieiro Maior emérito (Itália);
- D. Karl-Joseph Rauber, Arcebispo de Giubalziana, Núncio Apostólico; (Alemanha)
- D. Luis Héctor Villalba, Arcebispo emérito de Tucumán (Argentina);
- D. Júlio Duarte Langa, Bispo Emérito de Xai-Xai (Moçambique).
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