segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cardeal Dolan fala em incluir a nova minoria: os Católicos fiéis

O Cardeal Dolan, Arcebispo de Nova Iorque, escreveu um texto no seu blog oficial, dirigido aos Católicos norte-americanos, mas válido para os Católicos de todo o mundo.

Incluir a nova minoria
Um tema muito refrescante e constante do sínodo foi a inclusão. A Igreja, a nossa família espiritual, recebe toda a gente, especialmente os que se possam sentir excluídos. Entre esses excluídos, tenho ouvido comentar entre os padres sinodais e outros, estão os solteiros, os que sentem atracção pelo mesmo sexo, os casados, os viúvos, os emigrantes, os que têm deficiências, os idosos, os sem-abrigo e as minorias raciais e étnicas. Na família da Igreja amamo-los, recebemo-los e precisamos deles.
Posso sugerir também que agora há uma nova minoria no mundo e até mesmo na Igreja? Estou a pensar naqueles que, apoiando-se na graça e misericórdia de Deus, lutam pela virtude e fidelidade: os casais que - dado o facto de que, pelo menos na América do Norte, só metade das pessoas recebem o sacramento do matrimónio - se aproximam da Igreja pelo sacramento; casais que, inspirados pelos ensinamentos da Igreja de que o casamento é para sempre, têm perseverado através de obstáculos; casais que aceitam muitos bébés como dons de Deus; um rapaz e uma rapariga que decidiram não viver juntos até se casarem; uma pessoa que sente atracção por pessoas do mesmo sexo e decide ser casta; um casal que decidiu que a mulher ia sacrificar uma carreira profissional promissora para ficar em casa e educar os seus filhos. 

Estas pessoas maravilhosas sentem-se muitas vezes uma minoria, certamente na cultura de hoje, mas também às vezes na Igreja! Eu acredito que são muitos mais do que pensamos, mas, dada a pressão dos dias de hoje, muitas vezes sentem-se excluídos.
Onde é que eles recebem apoio e motivação? Da televisão? Das revistas ou jornais? Dos filmes? Da Broadway? Dos seus colegas? Esqueçam!
Eles olham para a Igreja, para nós, à procura de apoio e motivação, um sentido acolhedor de inclusão. Não os podemos desiludir!
in cardinaldolan.org


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domingo, 18 de outubro de 2015

Procissão com Nossa Senhora de Fátima nas ruas de Londres





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Papa Francisco canonizou os pais de S. Teresinha do Menino Jesus

O Papa Francisco canonizou, hoje na Praça de S. Pedro, 4 beatos:

- Vicenzo Grossi, sacerdote diocesano, fundador do Instituto das Filhas do Oratório;
- María de la Inmaculada Concepción, religiosa, superiora geral da Congregação das Irmãs da Companhia da Cruz;
- Louis Martin, fiel leigo e pai de família, e Marie Azélie (Zélie) Guérin, fiel leiga e mãe de família (cônjuges).

Estes dois últimos são os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das missões e uma das santas mais queridas do Papa Francisco, proclamada doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II em 1997.

Além disso, foi o primeiro casal a ser canonizado enquanto tal, os dois ao mesmo tempo.

Casados em 1858, tiveram nove filhos, dos quais cinco seguiram a vida religiosa.

As 218 cartas que se conservam de Zélie, de 1863 até à sua morte em 1877, registam o ritmo da vida com a guerra de 1870, as crises económicas, os nascimentos e as mortes dos seus quatro bebés. 

Missa diária às cinco e meia da manhã, Angelus e Vésperas, descanso aos Domingos, jejuns na Quaresma e Advento... mas também brincadeiras e jogos, Louis gostava de pescar e jogar bilhar.

Convidavam pessoas pobres para comer em sua casa e visitavam os idosos. Também ensinaram as suas filhas a tratar os mais desfavorecidos como iguais.

Zélie morreu de cancro dolorosíssimo aos 46 anos. Louis ficou com cinco filhas pequenas: Marie, Pauline, Léonie, Céline e Teresinha, que só tinha quatro anos e meio mas que sempre se recordaria da mãe como uma santa. Louis morreu 17 anos depois (em 1894) depois de padecer de uma doença mental grave.

Foram ambos beatificados a 19 de Outubro de 2008 por Bento XVI. Com esta canonização, durante o Sínodo sobre a Família, este casal é proposto como modelo de santidade para os casais e para as famílias de todo o mundo.

S. Louis e S. Zélie, rogai por nós!


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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Bispo Bizantino no Sínodo: o Demónio é que está a atacar a família

Intervenção de D. Fülöp Kocsis, Arcebispo de Hajdúdorog (Arquidiocese Católica na Hungria de Rito Bizantino) no Sínodo dos Bispos.

Vou focar a minha a observação no parágrafo 8 do capítulo 1 [do Instrumentum Laboris do Sínodo], mas na verdade sinto uma deficiência geral no texto todo, a falta de algo que devia penetrar a nossa visão no que toca a estes temas. Por esta razão, podia ainda indicar todos os parágrafos que, ao analisar a situação contemporânea, falam de uma sociedade e de uma época alteradas, chamando "desafios" a estas dificuldades que apareceram nos últimos tempos.
Parece-me que falta ao texto uma clarificação que seja mais precisa desde a sua origem, desde a raiz destas mudanças: de onde é que elas vêm? A maior parte delas não são compatíveis com o plano de Deus; não vêm dEle. Se é assim, então deve ser dito: de onde é que derivam estas mudanças, estas dificuldades?
Temos que dizer com claridade que, neste mundo estragado, a família e o homem de boa vontade com boas intenções estão sob ataque, sob um feroz e enorme ataque. E este ataque é do Demónio. Temos que chamar pelo nome estas forças diabólicas que têm um papel a desempenhar nestes fenómenos, desta forma conseguimos encontrar algumas orientações, mesmo para a procura de possíveis soluções.
"A nossa batalha de facto não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e as Potestades, contra as dominções deste mundo das trevas, contra os espíritos malignos que vivem nas regiões celestes." (Efésios 6, 12)
Portanto conseguimos ver claramente que é necessário uma luta espiritual para lutar contra os ataques de Satanás nestes nossos tempos. Eu seria muito favorável a uma séria ênfase a esta batalha espiritual, mesmo no final do documento onde as propostas e as possíveis soluções são formuladas.
"Por isso, tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia do mal e permaneceis firmes depois de ter vencido todos os obstáculos." (Efésios 6, 13)
Tradução portuguesa a partir da versão inglesa in voiceofthefamily.com


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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A mulher do Pedro divorciou-se contra a vontade dele. E agora?

O Pedro é um velho amigo meu, participativo na sua paróquia, generoso como não se julga ser possível ser. Há cerca de quatro anos atrás, depois de 30 anos de casamento, a esposa dele abandonou-o. Pedro ficou arrasado: "Padre, eu não desejaria este sofrimento ao meu pior inimigo", dizia.

Depois de terminado o processo de divórcio civil, vários parentes e amigos, muitos deles católicos, aconselharam o Pedro a tirar a aliança do dedo e "seguir em frente". Os conselhos deles, em resumo, repetiam mais ou menos as seguintes mensagens: "Ela não vai mais voltar", "O vosso casamento acabou", "Há mais peixes no mar", "Deus quer que sejas feliz", "Não faz sentido ficares a sofrer assim".

Pedro, e isto deve honrá-lo muito, não deu ouvidos a esses conselheiros. Ele apontou para a sua aliança e respondeu-lhes: "Eu sou um homem casado. Nós sabíamos o que estávamos a fazer no dia do nosso casamento. Sabíamos o que estávamos a prometer um ao outro e também a Deus. Sabíamos o que Deus nos tinha prometido". Pedro mergulhou nos sacramentos. Ele não sabe viver sem a adoração eucarística, o terço e a misericórdia divina. "Eu não vou parar de rezar pela reconstrução da minha família até o dia em que eu morrer". E, porque conheço o Pedro muito bem, eu acredito nele.

Estou orgulhoso do Pedro pela sua firmeza na decisão de pagar o alto preço da fidelidade. Estou orgulhoso do Pedro pela herança que ele está a deixar aos seus jovens filhos. Dentro de alguns anos, os filhos dele poderão dizer aos seus próprios filhos: "Quando a vida bateu com dureza no avô, ele não desistiu da avó e não desistiu de Cristo. Ele carregou a sua cruz e seguiu a Cristo até o fim. E, desta forma, não há como fingir que se segue a Cristo. O avô carregou a cruz dele todos os dias". Que legado para os filhos e netos! Que dignidade no seu sereno sofrimento diário! Que generosidade na sua humilde esperança diária!

Pergunto-me o que é que algumas pessoas envolvidas no Sínodo poderiam dizer ao Pedro. Alguns diriam: "Pedro, sorria! Porquê tanta seriedade? Deus não espera isso de si! Deus sozinho não é suficiente para o seu coração. Porquê esperar tanto assim da graça de Deus? Não vai conseguir viver assim até morrer! Porque é que não faz o que é preciso para ser feliz? Por que não tirar o melhor de uma má situação, como tanta gente faz?".

Tenho certeza de que Pedro responderia: "Mas eu sei o que nós prometemos e sei o que Deus prometeu. Deus é fiel e eu tenho que ser fiel também. E Deus está a ajudar-me a ser fiel!" 

Como li a tempestade de palavras à volta do Sínodo, sou quase obrigado a pensar que pelo menos algumas pessoas achariam Pedro um idiota ou, pelo menos, um homem constrangedor. Lembro-me da unção de Betânia, em Marcos 14,4 ("Alguns dos presentes, indignados, diziam uns aos outros: Por que este desperdício?"). Será que diriam ao Pedro que a sua custosa fidelidade é uma extravagância desnecessária? Pedro diria que apenas cumpriu o seu dever (Lc 17,10) – e que ele é um homem melhor graças a isso. Ele sabe que Deus, quando revela a Sua vontade, também concede a graça para que essa vontade seja vivida – e concede-a a todos aqueles que pedem essa graça. Pedro sabe que Deus revelou que, como homem casado, ele deve permanecer fiel até a morte. Pedro pediu essa graça e está a recebê-la. 

Ainda assim, custa ao Pedro ouvir os apelos de amigos bem-intencionados e ler muitas opiniões que pululam ao redor dos Sínodos; opiniões que parecem sugerir que a sua fidelidade não é o que Deus manda, não é o que Deus espera, não é o que Deus ajuda a transformar em realidade. Dói-lhe acima de tudo que a fidelidade do próprio Deus, a generosidade do próprio Deus em conceder a graça suficiente para vivermos os Seus mandamentos, pareça ser negligenciada ou menosprezada por tanta gente, inclusive por muitos dos católicos. Pedro insistiria: "Eles falam da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é encontrada na Sua graça, que nos é concedida para vivermos a Lei do Amor. A misericórdia de Deus nunca pode ser procurada nas desculpas inventadas para não se fazer o que o amor exige." 

Ao longo dos últimos quatro anos, Pedro e eu conversamos várias vezes por semana. Centenas e centenas de telefonemas. Eu sei que ele sofre mais quando é atormentado pelas pessoas mais próximas, que insistem para que ele "encare os factos" e "siga em frente". Ele perguntou-me muitas vezes: "Porque é que eles se incomodam com o facto de que uso a minha aliança e me comporto como o homem casado que eu sou?" 

Eu tenho pensado muito nesta questão. E repito-a aqui porque acho que pesa em vários dos relatórios que ouvimos ao longo do Sínodo. Eu disse ao Pedro que algumas pessoas não gostam de vê-lo usando a aliança de casamento pela mesma razão que não gostam de visitar os doentes nos hospitais. Nos dois casos, elas são forçadas a lembrar-se da sua própria vulnerabilidade. Ao visitar um paciente numa cama de hospital, nós não ficamos inclinados a pensar: "Eu também posso ficar doente e morrer?" Não conseguimos suportar a ideia da nossa própria vulnerabilidade à doença; por isso, evitamos os “lembretes” de que a doença e a morte vêm para todos. 

Da mesma forma, o abandono que Pedro sofreu por parte da esposa recorda-nos que todos nós somos vulneráveis ​​à decepção e à traição (e que todos nós somos capazes de decepcionar e trair). A dor de Pedro foi dilacerante nos últimos quatro anos e desejo-lhe o alívio; mas não à custa da sua alma. Pedro concorda comigo. Assim, ele confia-se aos tesouros da graça, que lhe são oferecidos pela Igreja fundada por Cristo. Ele vive a sua custosa fidelidade – diariamente – com a indispensável ajuda da graça de Deus. 

E é isto o que assusta as pessoas. As pessoas olham para o abandono de Pedro e para a sua dor e afastam-se, como se afastariam de um paciente acamado para se esquecerem da doença e da morte. Elas olham para a dor do Pedro e pensam: "Podia ser eu". É claro que essa perspectiva é aterrorizante. Imaginam que, no meio de uma dor tão grande, procurariam o caminho mais rápido para o alívio mais óbvio: "seguir em frente". Se Pedro se rendesse, essas pessoas provavelmente dariam um suspiro de alívio, porque aquela desistência significaria que é inevitável a busca delas próprias por atalhos para escapar da dor, já que "toda a gente faz isso" e "Deus só quer que nós sejamos felizes". 

Eu suspeito que ao verem Pedro algumas pessoas ficam com medo e com ressentimento – medo porque ele foi traído; ressentimento porque ele se manteve fiel. Qualquer um de nós pode ser traído; sem a graça de Deus, qualquer um de nós pode ser um traidor. Se Pedro, pela graça de Deus, permanece fiel, então não é impossível permanecer fiel à difícil Lei do Amor – difícil sim, mas não impossível. Isto significa que a vontade das pessoas de seguir o caminho mais fácil é uma questão de escolha e não uma questão de acaso. Elas são realmente responsáveis ​​pelas decisões que tomam. E se alguém não consegue confiar na fidelidade de Deus, então é quase impossível que assuma a responsabilidade por essas decisões. 

O Pedro, com o sustento da graça de Deus, deveria ser um tema de conversa séria para toda a Igreja, de agora até o final do próximo Sínodo. À luz da lei moral e da Sagrada Revelação, nós temos que dizer ao Pedro se Cristo o considera um fiel idiota, ou, como o próprio Cristo, um fiel amigo, que amou até o fim (Jo 13,1).

Pe. Robert McTeigue, SJ in Aleteia 


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Vossa sou, para Vós nasci - Santa Teresa d'Ávila

Vossa sou, para Vós nasci, 
Que quereis fazer de mim? 

Soberana Majestade, 
Eterna Sabedoria, 
Bondade tão boa para a minha alma, 
Vós, Deus, Alteza, Ser Único, Bondade, 
Olhai para a minha baixeza, 
Para mim que hoje Vos canto o meu amor. 
Que quereis fazer de mim? 

Vossa sou, pois me criastes, 
Vossa, pois me resgatastes, 
Vossa, pois me suportais, 
Vossa, pois me chamastes, 
Vossa, pois me esperais, 
Vossa pois não estou perdida, 
Que quereis fazer de mim? 

Que quereis então, Senhor tão bom, 
que faça tão vil servidor? 
Que missão destes 
a este escravo pecador? 

Eis-me aqui, meu doce amor, 
Meu doce amor, eis-me aqui. 
Que quereis fazer de mim? 

Eis o meu coração, 
que coloco em Vossas mãos, 
com o meu corpo, minha vida, 

minha alma, minhas entranhas 
e todo o meu amor. 

Doce Esposo, meu Redentor, 
para ser Vossa, me ofereci, 
que quereis fazer de mim? 

Dai-me a morte, dai-me a vida, 
a saúde ou a doença 
dai-me honra ou desonra 
a guerra, ou a maior paz, 
a fraqueza ou a paz plena, 
a tudo isso, digo sim: 
Que quereis fazer de mim? 

Vossa sou, para Vós nasci, 
Que quereis fazer de mim?









  (Letra da música)

Vuestra soy pues me criasteis
vuestra pues me redimisteis
vuestra pues que me sufristeis
vuestra pues que me llamasteis
vuestra porque me esperasteis
vuestra porque no me perdì :
que mandais hacer de mì?

Que mandais pues, buen Señor,
que haga tan vil criado?
Cual officio le habeis dado
aeste esclavo pecador?

Veis me aqui mi dulce amor,
amor dulce veis me aqui
que mandais hacer de mì?

Veis aqui mi corazòn,
io lo pongo en vuestra palma:
mi cuerpo, mi vida y alma,
mis entrañas y affliccion.


Dulce esposo y Redentor,
pues por vuestra me ofreci
que mandais hacer de mì?

Haga fruto o non lo haga,
estè callando o hablando,
muestrame la ley mi llaga,
goce de Evangelio hablando.
Estè penando o gozando
solo vos en mi vivìs.
Que mandais hacer de mi?


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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Papa Francisco: crianças já são amadas na barriga, "isto é amor"

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter meditado sobre a figura da mãe e do pai, nesta catequese sobre a família gostaria de falar sobre o filho, ou melhor, os filhos. Inspiro-me numa linda imagem de Isaías. Escreve o profeta: «Os teus filhos vêm ter contigo para se reunir ao teu redor; chegam de longe. E as tuas filhas são carregadas no colo. Esta visão tornar-te-á radiante; o teu coração palpitará e dilatar-se-á!» (60, 4-5a). É uma imagem maravilhosa, uma imagem da felicidade que se realiza na reunião entre os pais e os filhos, que juntos caminham rumo a um futuro de liberdade e paz, após um longo período de privações e separação, quando o povo judeu está distante da pátria.

Com efeito, há um vínculo estreito entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. Devemos pensar bem sobre isto. Com efeito, há um vínculo estreito entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. A alegria dos filhos faz palpitar o coração dos pais e reabre o porvir. Os filhos são a alegria da família e da sociedade. Não são um problema de biologia reprodutiva, nem um dos numerosos modos de se realizar. E muito menos uma posse dos pais... Não, os filhos constituem um dom, um presente: entendestes? Os filhos são uma dádiva! Cada um é único e irrepetível; mas, ao mesmo tempo, está inconfundivelmente ligado às suas raízes. Com efeito, ser filho e filha, segundo o desígnio de Deus, significa trazer em si a memória e a esperança de um amor que se realizou precisamente acendendo a vida de outro ser humano, original e novo. E para os pais cada filho é singular, diferente, diverso. Permiti-me mencionar uma recordação de família. Lembro-me que de nós a minha mãe dizia — éramos cinco: «Tenho cinco filhos!». Quando lhe perguntavam: «Qual é o teu preferido?», ela respondia: «Tenho cinco filhos, como cinco dedos. [Mostra os dedos da mão] Se batem num, faz-me mal; se batem noutro, também me faz mal. Em todos me faz mal. Todos eles são meus filhos, mas são diferentes como os dedos de uma mão». E assim é a família! Os filhos são diferentes, mas todos são filhos.

Um filho é amado porque é filho: não porque é bonito, nem porque é assim ou diverso;  mas porque é filho! Não porque pensa como eu, nem porque encarna as minhas aspirações. O filho é filho: uma vida gerada por nós, mas destinada a ele, ao seu bem, ao bem da família, da sociedade, da humanidade inteira.

Daqui deriva também a profundidade da experiência humana do ser filho e filha, que nos permite descobrir a dimensão mais gratuita do amor, que nunca cessa de nos surpreender. É a beleza de ser amado primeiro: os filhos são amados antes de chegar. Quantas vezes encontro na praça mães que me mostram a sua barriga, pedindo a bênção... estas crianças são amadas antes de vir ao mundo. É algo gratuito, isto é amor; elas são amadas antes do nascimento, como o amor de Deus que nos ama sempre antes. São amadas antes de ter feito algo para o merecer, antes de saber falar ou pensar, até antes de vir ao mundo! Ser filho é a condição fundamental para conhecer o amor de Deus, que é a fonte derradeira deste autêntico milagre. Na alma de cada filho, por mais vulnerável que seja, Deus põe o selo deste amor, que está na base da sua dignidade pessoal, uma dignidade que nada, ninguém, poderá destruir.

Hoje parece mais difícil para os filhos imaginar o seu futuro. Os pais — disse-o nas catequeses precedentes — deram, talvez, um passo atrás e os filhos tornaram-se mais incertos na hora de dar passos em frente. Podemos aprender a relação entre as gerações do nosso Pai celeste, que deixa cada um de nós livre mas não sozinho. E quando erramos, Ele continua a acompanhar-nos com paciência, sem diminuir o seu amor por nós. O Pai celeste nunca desiste no seu amor por nós! Progride sempre e se não pode ir em frente, espera por nós, mas nunca caminha para trás; quer que os seus filhos sejam corajosos e que vão em frente.

Os filhos, por sua vez, não devem ter medo do compromisso de construir um mundo novo: é bom que eles desejem que seja melhor do que aquilo que receberam! Mas isto deve ser feito sem arrogância, nem presunção. É preciso saber reconhecer o valor dos filhos, e os pais devem ser sempre honrados.

(...) Uma sociedade de filhos que não honram os pais é uma sociedade sem honra; quando não se honram os pais perde-se a própria honra! É uma sociedade destinada a encher-se de jovens áridos e ávidos. Contudo, inclusive uma sociedade avarenta de geração, que não gosta de se circundar de filhos, que os considera sobretudo uma preocupação, um peso, um risco, é uma sociedade deprimida. Pensemos nas várias sociedades que conhecemos aqui na Europa: são sociedades deprimidas, porque não querem filhos, não têm filhos, e o nível de nascimentos não alcança nem sequer 1%. Porquê? Cada um de nós pense e responda. Se uma família generosa de filhos é considerada como se fosse um peso, algo não funciona! A geração de filhos deve ser responsável, como ensina a Encíclica Humanae vitae, do Beato Papa Paulo VI, mas ter mais filhos não pode tornar-se automaticamente uma escolha irresponsável. Não ter filhos é uma escolha egoísta.

A vida rejuvenesce e adquire energias multiplicando-se: enriquece-se, não empobrece! Os filhos aprendem a responsabilizar-se pela sua família, amadurecem na partilha dos seus sacrifícios, crescem no apreço dos seus dons. A feliz experiência da fraternidade anima o respeito e a atenção aos pais, aos quais devemos a nossa gratidão. Muitos de vós aqui presentes têm filhos, e todos nós somos filhos. Façamos algo, um minuto de silêncio. Cada um de nós pense intimamente nos seus próprios filhos — se os tiver — mas em silêncio. E todos nós pensemos nos nossos pais e demos graças a Deus pelo dom da vida. Em silêncio! Quantos têm filhos, pensem neles, e todos pensemos nos nossos pais. [silêncio]. O Senhor abençoe os nossos pais e os vossos filhos!

Jesus, o Filho eterno, que se tornou filho no tempo, nos ajude a encontrar o caminho de uma nova irradiação da experiência humana, tão simples e tão grandiosa, de ser filho. Na multiplicação da geração há um mistério de enriquecimento da vida de todos, que vem do próprio Deus. Devemos voltar a descobri-lo, desafiando os preconceitos; e vivê-lo na fé, na alegria perfeita. E digo-vos: como é agradável quando passo no meio de vós e vejo pais e mães que erguem os seus filhos para ser abençoados; é um gesto quase divino. Obrigado porque o fazeis!

Audiência Geral do Papa Francisco, 11 de Fevereiro de 2015 in vatican.va


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Bispos polacos lembram ensinamentos de S. João Paulo II no Sinodo


Intervenção de Mons. Stanisław Gądecki, Arcebispo Metropolitano de Poznań e Presidente da Conferência dos Bispos Polacos

Para começar, gostava de enfatizar que esta intervenção não reflecte apenas a minha opinião pessoal, mas a opinião de toda a Conferência dos Bispos Polacos.

1. Não há dúvida que a Igreja do nosso tempo deve – num espírito de misericórdia – ajudar os divorciados recasados civilmente com especial caridade, para que estes não se considerem separados da Igreja, quando de facto podem, como baptizados, participar na Sua vida.

Encorajê-mo-los, portanto, a ouvir a Palavra de Deus, a frequentarem o Sacrifício da Missa, a perseverarem em oração, a contribuírem para obras de caridade e para esforços comunitários em favor da justice, a educarem os seus filhos na fé crista, a cultivarem o espírito e a prática da penitência e assim a implorarem, dia-a-dia, a graça de Deus. Que a Igreja ore por eles, os encoraje e se mostre como Mãe misericordiosa, e assim os sustenha em fé e esperança (cf. João Paulo II, Familiaris Consortio, 84).

2. No entanto, a Igreja – no Seu ensinamento acerca da admissão de divorciados recasados – não pode vergar-se à vontade do homem, mas apenas à vontade de Cristo (cf. Paulo VI, Discurso à Rota Romana, 01.28.1978; João Paulo II, Discursos à Rota Romana, 01.23.1992, 01.29.1993 e 01.22.1996). Consequentemente, a Igreja não pode deixar-se levar por sentimentos de falsa compaixão pelas pessoas ou por formar de pensar que – apesar da sua popularidade mundial – estão enganadas. Admitir à Comunhão aqueles que continuam a coabitar more uxorio [como homem e mulher] sem o vínculo sacramental seria contrário à Tradição da Igreja. Os documentos dos primeiros sínodos de Elvira, Arles e Neocesareia, que tiveram lugar nos anos 304-319, já confirmavam a doutrina da Igreja de não admitir à Comunhão Eucarística os divorciados que se casaram de novo.

Esta posição é baseada no facto de que “o seu estado e condição de vida objectivamente contradizem a união amorosa entre Cristo e a Igreja que é significada e tornada efectiva pela Eucaristia” (João Paulo II, Familiaris Consortio, 84; 1 Cor 11:27-29; Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 29; Francisco, Angeluz, 16.08.2015).

3. A Eucaristia é o sacramento dos baptizados que estão em estado de graça sacramental. Admitir os divorciados recasados civilmente à Santa Comunhão causaria grande dano não apenas ao ministério pastoral da família, mas também à doutrina da Igreja acerca da graça santificante.

De facto, a decisão de os admitir à Santa Comunhão abriria a porta para este sacramento a todos os que vivem em pecado mortal. Isto por sua vez levaria à eliminação do Sacramento da Penitência e distorceria o significa de viver em estado de graça santificante. Outrossim, deve notar-se que a Igreja não pode aceitar a frequentemente chamada “gradualidade da Lei” (João Paulo II, Familiaria Consortio, 34).

Como o Papa Francisco nos lembrou, os que estamos aqui não queremos e não temos o poder de mudar a doutrina da Igreja. 


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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A profundidade do Milagre do Sol (e o Sínodo pela Família)

Quando aconteceu o Milagre do Sol, também os pastorinhos para lá se voltaram: porque foi junto do sol que viram o que se seguiu: primeiro, a Família de Nazaré completa: "S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o mundo com uns gestos que faziam com a mão, em forma de cruz." 

Terminada esta aparição, viram Nosso Senhor e Nossa Senhora: E apareceu-lhes Nossa Senhora das Dores; Ele fazia uns gestos como os de S. José, parecendo abençoar o mundo. Por último, voltaram a ver a Nossa Senhora e ficaram com a impressão de ser sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo.

Terminava assim o ciclo das Aparições da Cova da Iria, terminavam os encontros com Nossa Senhora, vividos em conjunto pelos três primos. A partir daquele momento, a história de cada um deles começaria a tomar um caminho próprio. E cada um sabia bem o que lhe era pedido.

Ela era a Senhora do Rosário. Não poderia ter-Se apresentado com outro nome, depois de repetidamente lhes pedir: "Rezem o terço todos os dias." 

O pedido que lhes fazia tornava-os missionários, porque era ao mundo inteiro, mais do que aos seus três pastorinhos, que Ela o dirigia. Pedia conversão, naquele momento derradeiro, pedia mudança, pedia regresso. E pedia-o com o semblante de uma Mãe aflita.

Só eles o tinham ouvido. Mas, sobretudo, só eles Lhe tinham visto aquela tristeza presente no olhar, que falava mais do que as Suas próprias palavras. Não se tratava simplesmente da reposição formal de uma disciplina perdida. Era um olhar amargurado pelo engano com que os homens traíam e esqueciam a sua Origem e o seu Destino, à custa da sua própria felicidade e da realização da sua humanidade, indelevelmente marcada por uma atracção pelo infinito.

Antes de partir definitivamente, Nossa Senhora mostrava-Se-lhes e mostrava o seu Filho, em facetas bem significativas.

Primeiro, a Família de Nazaré. Impressiona pensar que, logo a seguir ao "Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido", a Família de Nazaré faz-Se ver no céu da Cova da Iria. Como a lembrar que tudo parte da família, e que é ferindo a família que se torna quase inevitável ofender cada vez mais "a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido."

Depois, Nosso Senhor a abençoar o mundo, tendo a Seu lado Nossa Senhora das Dores: a certeza de que nunca nos faltará a presença e a benção de Cristo, Senhor da História, mas que não O encontraremos sem passar pela Cruz.

Por fim, Nossa Senhora do Carmo, uma das mais antigas devoções a Nossa Senhora, como a confirmar que agora, como em toda a História, quem vai por Ela não se engana.

Madalena Fontoura in Bem-Aventurados (2000)


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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Rainha da Família, rogai por nós




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Intervenção do Arcebispo Charles Chaput de Filadélfia no Sínodo


Intervenção de D. Charles Chaput, Arcebispo de Filadélfia, no Sínodo da Família, Sábado passado:

Irmãos,

O Santo Padre sabiamente encorajou-nos a ser fraternais e sinceros ao dizer o que pensamos durante este sínodo.

Tal como os nossos pensamentos dão forma à linguagem que usamos, também a linguagem que usamos forma o nosso pensamento e o conteúdo das nossas discussões. Uma linguagem imprecisa leva a um pensamento confuso que às vezes pode conduzir a resultados infelizes. Queria partilhar convosco dois exemplos que nos deviam preocupar um bocado, pelo menos onde se fala inglês.

O primeiro exemplo é a palavra inclusivo. Nós ouvimos muitas vezes que a Igreja devia ser inclusiva. E se por "inclusiva" queremos dizer uma Igreja que é paciente e humilde, misericordiosa e aberta - então aqui todos concordamos. Mas é muito difícil incluir aqueles que não querem ser incluídos, ou que insistem em ser incluídos nos seus próprios termos. Para dizer de outra forma: eu posso convidar pessoas para minha casa e posso tornar a minha casa tão calorosa e acolhedora quanto possível. Mas a pessoa fora de minha casa tem ainda que decidir entrar. Se eu reconstruir a minha casa de acordo com a personalidade do visitante ou do estranho, a minha família irá carregar o custo e a minha casa não irá mais ser a sua casa. A lição é simples. Temos que ser uma Igreja acolhedora que oferece refúgio a quem quer que esteja a procurar Deus honestamente. Mas temos que permanecer uma Igreja comprometida com a Palavra de Deus, fiel à sabedoria da tradição Cristã e a pregar a verdade de Jesus Cristo.

O segundo exemplo é a expressão unidade na diversidade. A Igreja é "católica" ou universal. Temos que honrar as muitas diferenças de personalidade e cultura que existem entre os fiéis. Mas vivemos num tempo de intensa mudança global, confussão e agitação. A nossa necessidade mais urgente é a unidade e o nosso maior perigo é a fragmentação. Irmãos, temos que ser muito cuidadosos ao delegar assuntos disciplinares e doutrinais importantes às conferências episcopais nacionais e regionais - especialmente quando a pressão nessa direcção é acompanhada por um espírito implícito de auto-afirmação e resistência.

Há quinhentos anos, num tempo muito parecido com o nosso, Erasmus de Roterdão escreveu que a unidade da Igreja é o atributo mais importante que Ela tem. Podemos discutir o que é que Erasmus pensava mesmo e o que é que ele queria dizer com o que escreveu. Mas não podemos discutir sobre as consequências de quando a necessidade de unidade na Igreja foi ignorada [1]. Nos próximos dias do nosso sínodo, temos que nos lembrar com actos da importância da nossa unidade, do que é que essa unidade requer e o que é que a desunidade implica substancialmente.

in Catholic News Agency 

[1] Eramus de Roterdão foi um sacerdote e intelectual do século XVI que se opunha à "reforma" protestante de Martinho Lutero.


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domingo, 11 de outubro de 2015

Papa: a ausência do pai na família causa feridas muito graves

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Retomamos o caminho das catequeses sobre a família. Hoje deixamo-nos guiar pela palavra «pai». Uma palavra que a nós cristãos é muito querida, porque é o nome com o qual Jesus nos ensinou a dirigir-nos a Deus: pai. O sentido deste nome recebeu uma nova profundidade precisamente a partir do momento em que Jesus o usava para se dirigir a Deus e manifestar a sua relação especial com Ele. O mistério bendito da intimidade de Deus, Pai, Filho e Espírito, revelado por Jesus, é o coração da nossa fé cristã.

«Pai» é uma palavra que todos conhecem, é uma palavra universal. Ela indica uma relação fundamental cuja realidade é antiga como a história do homem. Contudo, hoje chegou-se a afirmar que a nossa seria «uma sociedade sem pais». Noutros termos, sobretudo na cultura ocidental, a figura do pai estaria simbolicamente ausente, esvaecida, removida. Num primeiro momento, isto foi sentido como uma libertação: libertação do pai-patrão, do pai como representante da lei que se impõe de fora, do pai como censor da felicidade dos filhos e impedimento à emancipação e à autonomia dos jovens. Por vezes havia casas em que no passado reinava o autoritarismo, em certos casos até a prepotência: pais que tratavam os filhos como servos, sem respeitar as exigências pessoais do seu crescimento; pais que não os ajudavam a empreender o seu caminho com liberdade — mas não é fácil educar um filho em liberdade —; pais que não os ajudavam a assumir as próprias responsabilidades para construir o seu futuro e o da sociedade.

Certamente, esta não é uma boa atitude; mas, como acontece muitas vezes, passa-se de um extremo ao outro. O problema nos nossos dias não parece ser tanto a presença invadente dos pais, mas ao contrário a sua ausência, o seu afastamento. Por vezes os pais estão tão concentrados em si mesmos e no próprio trabalho ou então nas próprias realizações pessoais, que se esquecem até da família. E deixam as crianças e os jovens sozinhos. Quando eu era bispo de Buenos Aires apercebia-me do sentido de orfandade que vivem os jovens de hoje; e muitas vezes perguntava aos pais se brincavam com os seus filhos, se tinham a coragem e o amor de perder tempo com os filhos. E a resposta era feia, na maioria dos casos: «Mas, não posso, porque tenho tanto trabalho...». E o pai estava ausente daquele filho que crescia, não brincava com ele, não, não perdia tempo com ele.

Mas, neste caminho comum de reflexão sobre a família, gostaria de dizer a todas as comunidades cristãs que devemos estar mais atentos: a ausência da figura paterna da vida das crianças e dos jovens causa lacunas e feridas que podem até ser muito graves. Com efeito os desvios das crianças e dos adolescentes em grande parte podem estar relacionados com esta falta, com a carência de exemplos e de guias respeitáveis na sua vida de todos os dias, com a falta de proximidade, com a carência de amor por parte dos pais. É mais profundo de quanto pensamos o sentido de orfandade que vivem tantos jovens.

São órfãos na família, não dão aos filhos, com o seu exemplo acompanhado pelas palavras, aqueles princípios, aqueles valores, aquelas regras de vida das quais precisam como do pão. A qualidade educativa da presença paterna é tanto mais necessária quanto mais o pai é obrigado pelo trabalho a estar distante de casa. Por vezes parece que os pais não sabem bem que lugar ocupar na família e como educar os filhos. E então, na dúvida, abstêm-se, retiram-se e descuidam as suas responsabilidades, talvez refugiando-se numa relação improvável «ao nível» dos filhos. É verdade que deves ser «companheiro» do teu filho, mas sem esquecer que és o pai! Se te comportas só como um companheiro igual ao teu filho, isto não será bom para o jovem. (...)


E então fará bem a todos, aos pais e aos filhos, ouvir de novo a promessa que Jesus fez aos seus discípulos: «Não vos deixarei órfãos» (Jo 14, 18). De facto, Ele é o Caminho a percorrer, o Mestre a ouvir, a Esperança de que o mundo pode mudar, de que o amor vence o ódio, que pode haver um futuro de fraternidade e de paz para todos. Algum de vós poderia dizer-me: «Mas Padre, hoje foi demasiado negativo. Só falou da ausência dos pais, do que acontece quando os pais não acompanham o crescimento dos filhos... É verdade, quis frisar isto, porque na próxima quarta-feira continuarei esta catequese pondo em evidência a beleza da paternidade. Por isso escolhi começar pela escuridão para chegar à luz. Que o Senhor nos ajude a compreender bem estas coisas. Obrigado.


in Audiência do Papa Francisco de 28 de Janeiro de 2015, in vatican.va


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Intervenção de D. Manuel Clemente no Sínodo dos Bispos

No número 53 do Instrumentum Laboris (II Parte, Capítulo II: Família e vida da Igreja), encontramos um passo fundamental para a compreensão do que deve ser a família, como base e critério da nossa vida comunitária em geral. Aí se diz que a comunidade cristã não pode resumir-se a uma “agência de serviços” e deve tornar-se no lugar onde as famílias nascem sacramentalmente, se encontram e caminham na fé, em entreajuda e partilha. 
  

Como sabemos, a crescente concentração de pessoas em grandes espaços urbanos e a separação dos familiares uns dos outros, para procurarem trabalho ou por outras razões, alterou profundamente o antigo quadro rural e localizado onde a vida geralmente decorria, com grande vinculação familiar. A maioria da população mundial vive já em meio urbano e o movimento crescerá sempre mais, em grandes concentrações, de muitos milhões de habitantes.


Dificilmente se reconstruirão solidariedades como as que tivemos anteriormente, ou as vizinhanças estáveis onde as gerações se sucediam e reconheciam. Também se tornou difícil dar condições materiais e sociais suficientes a todos os que querem constituir famílias e criar filhos, com a dimensão que tinham décadas atrás. Por outro lado, o individualismo cultural hoje prevalecente não motiva compromissos duradouros e fecundos, como os familiares.


Se o número 53 do Instrumentum Laboris nos adverte que a comunidade cristã não se pode resumir a uma “agência de serviços”, é porque muitas vezes trazemos para dentro da própria Igreja as práticas habituais da “sociedade de consumo”, em que o intercâmbio se faz mais de coisas do que propriamente de relações pessoais autênticas. São recorrentes as queixas de quem não é verdadeiramente acolhido nem atendido, mesmo quando contacta as instituições da Igreja. Nem sempre podemos corresponder ao que nos é pedido, mas nunca podemos desprezar quem nos pede alguma coisa.

Este passo do Instrumentum Laboris diz-nos ainda mais. Diz-nos que a formação e acompanhamento das famílias cristãs, assim como a partilha crente e existencial que estas mesmas façam entre si, devem caracterizar a comunidade cristã no seu todo. Enunciado doutro modo, podemos concluir que a renovação das comunidades, no presente contexto socio-cultural, se há de fazer com critério familiar, tonando-as efectivamente “famílias de famílias”.


Sabemos que isto mesmo vai acontecendo, quando a preparação para o matrimónio começa cedo, na família e na catequese da infância e da adolescência, com o envolvimento directo dos pais, bem como nos grupos juvenis orientados por casais jovens; quando as famílias são espiritualmente acompanhadas na comunidade e em grupos de casais; quando os serviços comunitários de cada um têm em conta os seus laços familiares; quando famílias inteiras praticam voluntariado ou missões temporárias e a comunidade as acompanha na oração e na partilha de notícias.


Neste caminho devemos prosseguir, rumo à «conversão pastoral e missionária» das comunidades, que o Papa Francisco apresentou como programa para toda a Igreja (cf. Evangelii Gaudium, 25). Por seu lado, as comunidades cristãs, renovadas com critério familiar, devem ser “proféticas” para uma sociedade que se renovará também assim, valorizando a respectiva base familiar e inter-familiar. Incorporando certamente as possibilidades tecnológicas e mediáticas hoje disponíveis, mas não se deixando desvirtuar por elas.


Retomaremos a verdade cristã das origens, como o Novo Testamento nos revela. De Belém ao Egipto e do Egipto a Nazaré, os primeiros trinta anos da vida de Jesus acontecem em contexto familiar, com as vicissitudes de tantas outras famílias de qualquer tempo e lugar. Quando sai de Nazaré, não constitui uma família de sangue, mas sublima e alarga a todos os sentimentos familiares que vivera como filho e parente: para constituir a família dos filhos de Deus que, por isso mesmo, são universalmente irmãos. 


Na primeira evangelização, os Atos dos Apóstolos referem muitas vezes a importância de casais e famílias na vida da Igreja, como é o caso de Áquila e Priscila, em Corinto e Éfeso, ou daqueles que Paulo lembra nas saudações das suas cartas. E também na transmissão da fé, o mesmo Paulo não se esquece de lembrar a Timóteo o papel que tinham tido a sua mãe e a sua avó. 
  

Face aos grandes desafios que hoje enfrentamos, em termos de sociedade e evangelização, importa encontrar a base firme para a resposta cristã. Encontramo-la na família e devemos oferecê-la no testemunho fecundo das famílias cristãs.

Roma, Sínodo dos Bispos, Outubro de 2015
+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa

in www.patriarcado-lisboa.pt/


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