sábado, 7 de novembro de 2015

Co-adopção por pessoas do mesmo sexo: Salomão precisa-se!

Uma falsa solução para um problema que não existe

A co-adopção, mais do que uma questão psicológica ou antropológica, é ética e jurídica. A psicologia e a antropologia são ciências descritivas, que observam as tendências sociais dominantes, mas a ética e o direito são saberes normativos, ou seja, estabelecem os valores e princípios por que se deve reger a vida social. 

O que está em causa é o reconhecimento social e jurídico de uma filiação não-natural que, de algum modo, viria a consagrar as uniões de pessoas do mesmo sexo ao nível das dos casais naturais. Em termos estritamente conjugais, essa equiparação já existe na lei, desde que se permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas não no que respeita à filiação, porque o parceiro do progenitor não pode co-adoptar, nem duas pessoas do mesmo sexo podem ser adoptantes.

Paradoxalmente, os defensores desta reforma legislativa afirmam, por um lado, a necessidade da criança, filha de um progenitor unido a uma outra pessoa do mesmo sexo, poder ser por esta co-adoptada. Mas, por outro, dizem que, de facto, já há menores que vivem com a mãe, ou com o pai, e o respectivo companheiro do mesmo sexo, numa situação da mais absoluta normalidade e felicidade. Ou seja, querem solucionar um problema que, na prática, reconhecem não existir. Se assim é, porque pretendem então alterar o estatuto legal do parceiro do progenitor se, mesmo sem ser legalmente segundo pai, ou segunda mãe, já pode proporcionar e, segundo eles, de facto proporciona, um tão efectivo bem-estar ao menor?! Ao que parece, a criança é apenas um pretexto para uma conquista ideológica que, na realidade, interessa mais aos ditos companheiros dos pais, do que aos filhos destes.

Dir-se-á que, se o parceiro da mãe, ou do pai, for também reconhecido legalmente como segunda mãe, ou pai, terá responsabilidades parentais que beneficiarão o menor em causa. Mas, para ir buscar uma criança à escola, ou para, na ausência de um progenitor, tomar alguma decisão urgente em relação à sua saúde, não é preciso dar-lhe o estatuto de pai, ou de mãe, que, obviamente, seria falso e, até, potenciador de futuros conflitos familiares. 

Com efeito, se já é problemática a regulação do poder paternal em casais desavindos, como será entre um progenitor verdadeiro e o seu duplo?! Uma mãe, ou pai, tem alguns direitos em relação a um seu filho, não por força da sua relação com o pai, ou mãe, mas em virtude da sua própria, pessoal e intransferível parentalidade. Que direito assistiria ao ex-parceiro do pai, ou da mãe, se não fosse progenitor?! O filho tem direitos e deveres em relação aos seus pais, não porque ambos estão casados, ou juntos, mas porque os dois são seus pais, naturais ou adoptivos. Mas, se o menor tiver dois pais, ou duas mães, e estes se desentenderem, será razoável que o direito considere, em pé de igualdade, o verdadeiro pai e o falso pai, a verdadeira mãe e a falsa mãe?! Se, portanto, não são, nem nunca poderão ser, iguais, a que título lhes poderá ser dado o mesmo estatuto legal?! Que legitimidade teria o juiz para favorecer o falso pai, ou a falsa mãe, em detrimento do verdadeiro progenitor? Quer isto dizer que o «pai» ou «mãe», que não é progenitor, é pai e mãe de segunda?! Ou, então, que a relação genética, onde a houver, é absolutamente irrelevante em termos jurídicos?!

A co-adopção não é a solução para um problema, mas muitos problemas para onde não fazia falta nenhuma solução. 

Quando duas mulheres reivindicaram, como seu filho, a mesma criança, Salomão, na sua lendária sabedoria, decidiu cortar ao meio a disputada criatura, para assim conhecer a sua verdadeira mãe. Se o parlamento, num gesto de néscia prodigalidade, der a algumas crianças a infelicidade de terem legalmente duas mães, ou dois pais, em breve vão ser necessários muitos Salomões nos tribunais portugueses.

Pe. Gonçalo Portocarrero in Público


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Curso de Teologia do Corpo para rapazes | 14 e 15 de Novembro

Peguem nos telefones e convidem já os vossos amigos!

No próximo fim-de-semana (dias 14 e 15 de Novembro) será dado em Lisboa, na residência universitária Montes Claros, um curso de Teologia do Corpo para rapazes universitários (e jovens trabalhadores).

O curso é dado pelo Pe. João Paulo Pimentel, um dos maiores gurus de Teologia do Corpo em Portugal e que acabou de lançar um livro muito bom sobre o tema, já aqui referido no blog Senza:

O Pe. Pimentel explica os conceitos mais complicados da Teologia do Corpo de forma muito simples e sempre com imensos exemplos da vida real.

Além disso, haverá melhor forma de conhecer a fundo a mensagem da Igreja Católica sobre a sexualidade do que um curso?
Com a possibilidade de esclarecer todas as dúvidas, o curso é a melhor forma de se informarem sobre a mensagem da Igreja e aprenderem a maneira mais eficaz de explicar tudo aos amigos que não a percebem ou que não concordam com ela.

O curso não tem qualquer custo, mas vale a pena inscreverem-se previamente para assegurar lugar.
Podem fazê-lo para este email: mc+tob@montesclaros.pt

Se quiserem informar-se os conteúdos do curso em detalhe e os horários consultem este site: eepurl.com/bDKtBr.

Como é o fim-de-semana inteiro é possível almoçar e jantar na residência de Montes Claros por uma pequena quantia de 15€ (5€/refeição). Nestes almoços também poderão conversar e trocar ideias com os outros participantes do curso e com o próprio Pe. João Paulo Pimentel.



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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Deixa-te de construir castelos com a fantasia

Deixa-te de construir castelos com a fantasia, decide-te a abrir a tua alma a Deus, pois exclusivamente no Senhor acharás o fundamento real para a tua esperança e para fazer o bem aos outros. 

Quando não lutamos connosco mesmos, quando não rechaçamos terminantemente os inimigos que estão dentro da cidadela interior – o orgulho, a inveja, a concupiscência da carne e dos olhos, a auto-suficiência, a tresloucada avidez da libertinagem – quando não existe essa peleja interior, os mais nobres ideais definham como a flor do feno; ao romper o sol ardente, a erva seca, a flor cai e acaba a sua vistosa formosura. Depois, pela menor fenda brotarão o desalento e a tristeza, como plantas daninhas e invasoras. (...)

Convencer-me-ei de que as tuas intenções de alcançar a meta são sinceras, se te vir caminhar com determinação. Faz o bem, revendo as tuas atitudes habituais quanto à ocupação de cada instante; pratica a justiça, precisamente nos ambientes que frequentas, ainda que a fadiga te vença; fomenta a felicidade dos que te rodeiam, servindo os outros com alegria no lugar do teu trabalho, com esforço para o acabar com a maior perfeição possível, com a tua compreensão, com o teu sorriso, com a tua atitude cristã. 

E tudo por Deus, com o pensamento na sua glória, com o olhar no alto, anelando a Pátria definitiva, pois só esse fim vale a pena. 

S. Josemaria Escrivá in Amigos de Deus, 211


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O privilégio paulino e um recente artigo do Pe. Miguel Almeida SJ

Há pouco tempo, o Pe. Miguel Almeida sj escreveu um artigo na revista Brotéria sobre "a situação dos divorciados recasados na Igreja".

O artigo do Pe. Miguel tem a vantagem de promover uma discussão sobre o assunto. No entanto, como muitas pessoas não estudaram o assunto, poderão seguir ideias erradas com base nas conclusões do artigo (que foi divulgado num formato mais simples no jornal Observador.pt).

Um dos argumentos que o Pe. Miguel utiliza baseia-se numa citação da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios.

Escreve S. Paulo:
Aos que já estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; se, porém, está separada, não se case de novo, ou, então, reconcilie-se com o marido; e o marido não repudie a sua mulher. 
Aos outros, digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem uma esposa não crente e esta consente em habitar com ele, não a repudie. E, se alguma mulher tem um marido não crente e este consente em habitar com ela, não o repudie. Pois o marido não crente é santificado pela mulher, e a mulher não crente é santificada pelo marido; de outro modo, os vossos filhos seriam impuros, quando, na realidade, são santos. Mas se o não crente quiser sepa­rar-se, que se separe, porque, em tais circunstâncias, nem o irmão nem a irmã estão vinculados. Deus chamou-vos para viverdes em paz. Com efeito, ó mulher, sabes se podes salvar o teu marido? E tu, ó marido, sabes se podes salvar a tua mulher? (1Cor 7, 10-16)
O Pe. Miguel utiliza esta passagem para concluir que na Igreja se pode terminar ("dissolver") um casamento e portanto os divorciados recasados podem receber a Sagrada Comunhão, porque já não estão casados.

Mas a visão da Igreja não é essa. A Igreja, como o próprio Jesus ensinou, não tem o poder de "dissolver" matrimónios. Como é sabido, a Igreja só ajuda a "considerar nulo" um matrimónio, isto é, dizer que ele nunca existiu. Isto é diferente de dizer que o casamento terminou, pois o matrimónio é para sempre.

Porque é que o Pe. Miguel não tem então razão nesta conclusão? É que S. Paulo não se refere àquilo a que nós chamamos Matrimónio ou Casamento entre duas pessoas Católicas (o caso que estava em discussão no Sínodo).

S. Paulo refere-se a casamentos em que uma das partes não é cristã ("aos outros"). Quando uma das partes não é cristã (ou seja, não baptizada) o vínculo natural do matrimónio pode-se dissolver em alguns casos, mas isso é algo que a Igreja já ensina há muito tempo.

Esta ideia está muito bem explicada num texto publicado no blog Ad te levavi.

O autor é o Cónego José Manuel Ferreira, Prior da Paróquia de Santa Maria de Belém, conhecida pelo Mosteiro dos Jerónimos, doutorado em Teologia na Universidade Gregoriana (a "universidade dos jesuítas").

S. Paulo adaptou os ensinamentos de Jesus sobre o matrimónio?
O "Privilégio Paulino"

“A Igreja tem vindo a adaptar os ensinamentos de Jesus ao longo da história pelo chamado «privilégio paulino» (e na sua extensão no que ficou conhecido como o «privilégio petrino»).

É o que afirma, num artigo recente, publicado na revista Brotéria, o Pe. Miguel Almeida, S.J.

Mas esta afirmação é imprecisa, porque o “privilégio paulino” não se aplica propriamente aos ensinamentos de Jesus sobre o matrimónio vivido na luz e na graça do seu Evangelho, aos quais S. Paulo se refere em 1 Coríntios 7, 10-11, mas sim ao matrimónio “natural”, instituído por Deus desde o início da Criação, e concretamente ao matrimónio entre um homem e uma mulher «pagãos», dos quais um se converte à fé cristã e é baptizado, e o outro permanece na infidelidade.

O caso é este:

Quando duas pessoas não baptizadas se casam validamente, existe entre elas o vínculo natural. Admitamos, porém, que uma delas se converte à fé e recebe o Baptismo. Se a outra parte continua não baptizada e torna insustentável a vida conjugal, a Igreja reconhece a dissolução desse vínculo natural, para que a parte baptizada possa contrair novo matrimónio, devendo este ser necessariamente sacramental.

Esta prática baseia-se no chamado Privilégio Paulino, segundo o que Apóstolo S. Paulo escreve em 1 Coríntios 7, 12-16: 
"Digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem esposa não cristã, e esta consente em habitar com ele, não a repudie. E, se alguma mulher tem marido não cristão, e este consente em habitar com ela, não o repudie. Pois o marido não cristão é santificado pela esposa, e a esposa não cristã é santificada pelo marido cristão. Se não fosse assim, os vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos. Porém, se a parte não cristã quer separar-se, separe-se! Neste caso, o irmão ou a irmã não estão mais ligados; foi para viver em paz que Deus vos chamou. Porque, porventura sabes tu, ó mulher, se salvarás o teu marido? Ou sabes tu, ó marido, se salvarás a tua mulher?"
Nada nos permite afirmar, portanto, que S. Paulo adapte os ensinamentos de Jesus relativamente ao matrimónio na nova ordem do Reino de Deus, por Ele instituído, embora restrinja o alcance da indissolubilidade do matrimónio “natural”, que é relativizada em favor da fé.

Ainda menos o impropriamente chamado “privilégio petrino” se propõe adaptar quaisquer ensinamentos de Jesus relativos ao matrimónio celebrado e plenamente vivido por um homem e uma mulher no âmbito da Nova Aliança, mas apenas se aplica a diversos casos de matrimónios não sacramentais.

Assim se explica no texto seguinte:

[Carregar no link para ler uma explicação mais desenvolvida]

in adtelevavi.blogspot.com



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terça-feira, 3 de novembro de 2015

"A homossexualidade é uma ferida que não se alivia fazendo sexo"


Quem dá este testemunho é Philippe Ariño, homossexual espanhol de 34 anos, que actualmente lecciona em Paris. Participante do universo activista LGBT, começou-se a falar dele em 2011, quando Phillipe Ariño revelou que havia mudado de vida.

Em 2013, ele guiou, na primeira linha, a batalha contra a legalização do “casamento para todos” francês; é autor do livro “L’homosexualité en vérité”, que em França vendeu mais de 10 mil cópias.

Foi ele quem aconselhou Frigide Barjot, ex-porta-voz da “Manif pour tous”, que não falasse de “heterossexualidade”, porque “assim se perde não só a batalha, mas também a guerra”.

Entrevistado por Tempi.it, Ariño explica que, “para salvar o ser humano, é preciso ir à origem do problema. É isso que tentamos fazer nas ruas com os veilleurs” (os “veladores”).

Conte-nos a sua história. Como cresceu?

Eu tinha uma péssima relação com o meu pai e, na adolescência, eu não conseguia fazer amizades masculinas. Depois entendi e reconheci queas  minhas tendências homossexuais eram sintoma de uma “ferida”: só assim o meu sofrimento começou a diminuir.

Ser homossexual é um sofrimento; não é uma escolha, um pecado ou algo inócuo. Conheço mais de 90 pessoas com pulsões homossexuais que foram estupradas. Agora, o mundo LGBT odeia-me porque conto isso, mas eu repito-lhes também: a homossexualidade é uma ferida que não se alivia fazendo sexo. Se não admitir isso, nunca terá paz.

Quando é que a sua forma de entender a homossexualidade mudou?

Em 2011, descobri a beleza da continência. Eu havia começado a reconhecer que alguma coisa não estava bem e voltei à Igreja. Durante uma conferência, falei da minha situação e percebi que me ajudava. E não só isso: explicando o meu drama, consegui ajudar muitas pessoas, incluindo homens e mulheres casados.

Foi difícil?

Eu encontrei um caminho, mas há muitos. Outros também conseguem superar estas pulsões; eu descobri que, reconhecendo a minha ferida e oferecendo-a a Cristo e à Igreja,a  minha condição dolorosa se transforma numa festa. Ao não praticar a homossexualidade, não estou dizendo “não” às minhas pulsões, mas “sim” a Deus: é um sacrifício para ter o melhor, o máximo, algo que antes eu não tinha. Podemos pensar que o Senhor só nos ama se estivermos bem, mas acontece o contrário: Ele ajuda quem precisa d'Ele e, se lhe oferece os seus limites, Ele faz grandes coisas.

Por que as relações homossexuais não o faziam feliz?

Ao relacionar-me com outros homens ou olhar para eles de maneira possessiva, eu sentia satisfação no momento. Mas estava sozinho e nunca me sentia completo. É então que caímos na ilusão de achar que podemos viver a sexualidade como os outros, mas, na verdade, a sexualidade só pode ser vivida na diferença sexual.

O que mudou concretamente na sua vida?

Antes, eu sentia-me sempre inferior aos homens, porque a​ ​ homossexualidade é invejosa. Agora, após descobrir que Deus me ama e que sou Seu filho, querido e amado, não me sinto inferior a nenhum homem. Assim, depois de muitos anos, descobri a beleza da amizade masculina, que eu não trocaria pelas relações do passado – quando eu fingia estar a realizar-me.

Pessoas assim, que abandonam o seu passado, não são muito queridas pela comunidade LGBT. Como é que se relaciona com o universo que frequentava?

Eles puseram-me na lista negra. Ameaçam-me a toda a hora e chamam-me homofóbico, mas eu não teria sobrevivido junto deles: é um mundo de mentiras, que exteriormente se mostra alegre, mas dentro está cheio de raiva e tristeza. A maioria dos actos homofóbicos e dos insultos contra as pessoas com tendências como as minhas provêm de pessoas que têm feridas como as minhas, que gritam e vociferam porque são frágeis.

Os activistas podem aplaudir quando falas, mas serás apenas visto na tua​ ​sexualidade, como se fosses um animal ou um indivíduo de série B que precisa de ter direitos especiais. É por isso que eu digo que somos os piores inimigos de nós mesmos. Na Igreja, no entanto, encontrei pela primeira vez alguém que me acolheu como pessoa, levando em consideração tudo o que o Philippe é.

Costuma afirmar que a homossexualidade está a propagar-se. Porquê?

A identidade é cada vez mais frágil. Propaga-se porque o homem e a mulher, também os que moram juntos, muitas vezes não reconhecem a beleza da diferença e já não se encontram. Não sabem por que se casam, estão juntos mas ao mesmo tempo sozinhos, vivem a relação de maneira egoísta e não entram em comunhão. Só sobra o sentimento, enquanto este durar.

Porque é que os dois sexos se sentem tão distantes e alheios um do outro?

Penso que, quando se corta o vínculo com Deus, tudo se torna nosso inimigo, e então também surge a desconfiança entre o homem e a mulher. No entanto, as pessoas deveriam casar-se para ajudar-se mutuamente a voltar Àquele que as criou: onde o homem não chega, chega a mulher. De contrário, resta apenas a possessão que divide. E tudo isso prejudica os filhos. Se não partimos dessa consciência, nunca resolveremos o problema. Se jogamos a partida noutros campos, já a perdemos.

A que se refere?

A ministra francesa de Justiça, Christiane Taubira, mãe da lei sobre o casamento gay, começou por dizer que era preciso distinguir entre casamento heterossexual e homossexual. Isso é uma mentira terminológica que não se ajusta à realidade e que não podemos aceitar. É preciso dizer que a heterossexualidade não existe: existem apenas o homem e a mulher, diferentes e complementares.

Além disso, não se deve excluir do debate a questão homossexual em si mesma. Se ela está se propagando, é responsabilidade de cada um de nós entender o que é e de onde vem, fazendo compreender o que estamos enfrentando. Pelo mesmo motivo, sempre digo que não é suficiente fazer um discurso cujo ponto de partida seja o direito das crianças, mas no qual se omite e tolera com indiferença as relações homossexuais. Só entendendo o sofrimento que deriva disso, e o fato de que se trata de uma amizade ambígua, incapaz de amor, se compreende que o único leito de crescimento para uma criança é a família com pai e mãe.

Inclusivamente nos ‘casais’do mesmo sexo mais estáveis, nos quais se procura o respeito, não há felicidade. Conheço alguns e muitas vezes são precisamente eles que me entendem. Durante uma conferência, um homem que vivia uma união estável há mais de 20 anos, disse-me: “Como você tem razão!”. Outros perguntam-se: “Mas que vida estamos vivendo?”. Quando a pessoa entende isso, já não pode dizer: “Coitados; vamos deixar que vivam como quiserem” e fazer o papel de “caridosos”, como ocorre hoje.

O que acontecerá com as crianças que crescem nesse novo modelo de 'família'?

Se a criança não aprende a beleza da diferença, não será capaz de amar. Uma sociedade que finge exaltar as diferenças, mas depois as trata como uma ameaça, está a educar uma geração que não saberá acolher o outro. Vivemos num mundo que se recusa a encarar a realidade, com as suas contradições e limites, como os da sexualidade – vista hoje como um perigo. Esta deformação da realidade humana está conduzindo a um colapso antropológico. E quanto mais avançarmos neste sentido, mais crescerão as formas de solidão, neurose e violência.

O que se pode fazer?

Respeitar a realidade e tentar voltar a entender a sua finalidade. No que diz respeito a mim, eu digo que Jesus, a Sua verdade e a Igreja são o caminho para amar, ser amado e servir.

​in Aleteia (originalmente em 'Religión en Libertad')


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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

10 ideias Cristãs para o Halloween

A
creditam num Halloween Cristão? Preparem-se! Durante esta semana vão ouvir dos vossos amigos, sejam eles Católicos, Protestantes ou outra coisa, a conversa: "Halloween ou não?".
Para os Protestantes, sem a tradição do dia de Todos os Santos, normalmente esta festa torna-se em "Halloween vs Dia da Reforma". Tendo sido neste dia que Martinho Lutero colou as 95 teses a 31 Outubro. Mas mesmo alguns Católicos estão preocupados que o Halloween se tenha tornado "mau".
Bem, aqui estão dez maneiras de manterem o bom velho Halloween divertido e santo.
Christian Halloween 1950s
Festa de Halloween por volta de 1950
10. Não lhe chamem o "dia de Satanás"!
Muitos Cristãos excluiram o Halloween como algum tipo de missa negra diabólica. Na verdade, é a vigília de um feriado Cristão: All Hallows' Eve ou Véspera de Todos os Santos. Foi corrompido pela nossa cultura e mercados consumidores? Podem crer. No entanto, o Natal também descarrilou devido à cultura. Significa isso que vamos entregar o Natal? Claro que não! O mesmo acontece com o Halloween. A Igreja não entrega o que lhe pertence por direito, ganha-o de volta!
9. Não pensem que têm que escolher uma alternativa cristã ao Halloween.
Algumas igrejas (particularmente as Protestantes) estão a organizar "Festas de Outono" no dia 31 de Outubro.
Isso é o equivalente a dizer, "o comercialismo destruiu o Natal por isso vamos então celebrar uma "Festa de Inverno" no dia 25 de Dezembro (Já agora, eu acredito mesmo que Cristo nasceu no Natal: carreguem aqui para o artigo).
Chama-se All Hallows' Eve. Não mudem o nome.
A não ser que desconfiem dos vossos vizinhos, porque não os juntam todos? Pode ser uma grande oportunidade para os conhecer e começar algumas relações de amizade. Eu já conheci alguns vizinhos enquanto estávamos no passeio a ver os nossos miúdos a tocar às campainhas de cada casa da rua.
8. Divirtam-se e não forcem as pessoas a converter-se.
Pensem, ninguém gosta de receber uma coisa religiosa no seu saco de doces. Não passem textos religiosos em vez de doces. Dêem umas grandes mãos cheias de doces e uma barra grande de doce extra, se conseguirem. No final, vão acabar por converter as pessoas com a vossa caridade. Afinal de contas, vão ser conhecidos como "a casa que dá sempre bons doces". Se tiverem uma nova festa pós-Halloween se calhar é esse o momento para darem Terços (Outubro é o mês do Rosário!).
christian halloween baby ruth
A rapariga de fato escuro exclama: "Uau, esta senhora Católica é o máximo - barras grandes Baby Ruth e Butterfingers! Se calhar devia largar o meu disfarce pagão e ir vestida de Santa Joana d'Arc, no próximo ano!!"
7. Sejam audazes. Tentem fazer algum apostolado subtil. Não usem a abordagem evangélica: "Sabiam que Jesus é o vosso único Senhor e Salvador? Gostariam de se baptizar amanhã?" Em vez disso, perguntem às pessoas se sabem a origem do Halloween. Falem sobre "santos". É uma óptima e fácil oportunidade para terem uma conversa espiritual com os vosso vizinhos.
6. Sejam hospitaleiros - Porque não organizam a festa do bairro?
Os Cristãos devem ser hospitaleiros, certo? Está na Bíblia. Espreitem Romanos 12, 13. Porque não darem uma festa pós-Halloween na vossa casa com chocolate quente e café para os adultos? Abram a vossa casa ou o pátio das traseiras para jogos. Lembram-se do jogo de trincar as maçãs? E o de atirar sacos de feijões para o alvo? E do jogo de pôr a cauda no burro?
5. Não se deixem ir abaixo pelo nível macabro do Halloween.
Qualquer grande catedral Católica tem gárgulas cravadas e trabalhadas na pedra. Os manuscritos com iluminuras também estão cheios de espíritos nas margens. Os Católicos estão dentro disto. Porquê? Porque Cristo conquistou a morte e o diabo. Depois de Cristo, a morte perdeu o seu ferrão.
Além disso, o dia de Todos os Santos é seguido pelo dia dos Fiéis Defuntos, por isso não tem problema ser um bocadinho de nada macabro. (Já agora, a palavra "macabro" vem dos Macabeus - aqueles dois livros na Bíblia Católica que os Protestantes deitaram fora). E se viverem numa zona Hispânica, como eu, têm todo o "Dia de Muertos" para brincar.
4. Tenham uma fogueira!
Nós Católicos costumávamos ser especialistas em fogueiras. Um Halloween Cristão pede uma fogueira ao ar livre. Se tiverem um quintal e for permitido, acendam uma. Se os miúdos forem mais velhos, porque não fazer uma data de abóboras acesas e queimar alguns marshmallows sobre o fogo? Se alguém souber tocar violino, melhor ainda.
3. Façam algumas abóboras acesas bem giras.
Façam download de alguns padrões para cortar da internet. Gastem algum tempo em família a cortar algumas abóboras. Ponham velas lá dentro e deixem-nas a queimar fora da vossa casa durante uma semana ou algo parecido antes do Halloween. Os meus miúdos gostam sempre de ver quem é que tem abóboras à frente de casa. Querem fazer vizinhos no bairro? Organizem uma festa só para cortar abóboras e dêem um prémio a quem fizer a melhor.
2. Visitem os túmulos daqueles que vos são mais queridos.
Isto aplica-se mais ao dia dos Fiéis Defuntos (2 de Novembro) do que ao dia de Todos os Santos (1 de Novembro). O ponto é sempre lembrarmo-nos das pessoas que nos eram mais chegadas e rezarmos por aqueles que morreram marcados pelo sinal da fé. A morte não é a última palavra. Cristo superou a morte pela Sua dolorosa paixão e morte, através da ressureição. Esta é a fonte de toda a nossa esperança e a força de todos os santos.
A indulgência dos Fiéis Defuntos funciona de 1 a 9 de Novembro.
1. Sejam santos.
Se perseverarem no amor e na graça de Deus, também serão Santos, com letra maiúscula. O objectivo principal de "All Hallows" é lembrar-nos que temos que ser "hallowed" ou "santificados". A maior parte de nós não vai ter o seu dia de festa particular e portanto o dia de Todos os Santos vai ser o nosso dia de festa. É o dia de festa da maior parte dos santos da Igreja, aqueles que viveram em paz, seguiram Cristo, amaram as suas famílias, cumpriram os seus deveres na vida e seguiram para a vida seguinte. Que as suas orações permaneçam connosco.
Tenham um feliz Halloween Cristão!
Taylor Marshall


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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A Igreja contra a escravatura




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Perseguidos, mas não esquecidos

O sumário do último relatório sobre os cristãos oprimidos por causa da fé (Fundação AIS, Outubro de 2015) estende-se por 170 páginas tristes de ler. Este sumário do relatório é sóbrio, não alimenta aversão contra ninguém, apenas enumera, ao longo daquelas 170 páginas, com factos e datas, a imensa desgraça que aflige grande parte do nosso mundo. Os incidentes de destruição e de sangue estão agrupados por países: a China, a Coreia do Norte, o Vietname, a Indonésia, a Índia, o Sri Lanka, o Paquistão, a Rússia, a Bielorússia, o Turquemenistão, a Turquia, a Ucrânia, a Síria, Israel, a Palestina, o Egipto, o Irão, o Iraque, a Arábia Saudita, a Eritreia, o Sudão, a Nigéria, o Quénia... 

Que montanha de ódio explica esta fúria generalizada? 

O Papa João Paulo II dizia que o século XX tinha sido o século dos mártires. O Papa Francisco continua a queixar-se das notícias que recebe e não se cansa de enviar emissários a todo o lado, para acalmar esta enxurrada de loucura. A situação é, de facto, aflitiva. 

O número de deslocados e refugiados atingiu máximos históricos. 

Grupos islâmicos estão a levar a cabo uma limpeza étnica de cristãos, sobretudo na África e no Médio Oriente. O medo do genocídio – que em vários casos aconteceu, apesar de tudo –, levou multidões de famílias cristãs a tentarem a estrada da fuga, sem lugar para onde ir, nem assistência. A fuga do Iraque é dramática. A fuga da Síria mistura-se com o choque dos exércitos. 

Nos regimes que ainda são comunistas, e nalguns países que foram comunistas até há pouco tempo, reacenderam-se focos de perseguição, como há umas décadas atrás. 

Um pouco por todo o mundo, há grupos nacionalistas que olham para Jesus Cristo como um invasor estrangeiro, que os quer arrancar das superstições ancestrais. O Papa Bento XVI referia que o cristianismo representou para esses povos a grande libertação, ao anunciar que Deus é bom, que o mundo não está sob o domínio oculto do irracional; mas ainda há gente agarrada ao poder do mal. 

O panorama é desolador? 

A introdução do sumário do relatório são umas palavras do Arcebispo Jeanbart, de Aleppo, na Síria, de que fazem parte estas frases: «Estamos expostos à morte o dia inteiro e outros cristãos também (...). Mesmo assim, estamos convencidos de que o nosso amado Senhor Jesus está presente na sua Igreja e que nunca nos vai abandonar. Sabemos que nada pode intrometer-se entre nós e o amor de Cristo. E que, em todas as provações, saímos vencedores graças ao poder daquele que nos ama». 

Há 2000 anos, S. Paulo escrevia aos cristãos recém-chegados a Roma: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (...) Por causa de Ti estamos expostos à morte o dia inteiro, fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isso, saímos mais do que vencedores graças Àquele que nos amou». 

Segundo as estatísticas da Santa Sé, o número de católicos continua a aumentar no mundo inteiro, excepto na nossa Europa, onde já não corre o sangue precioso dos mártires. Talvez não esteja longe: na visita aos Estados Unidos, o Papa Francisco recebeu uma senhora posta na prisão por não aceitar ir contra a sua consciência cristã. 

O título do sumário do relatório AIS é uma interrogação: «Perseguidos e Esquecidos?». Faltou-me coragem para manter a pergunta no cabeçalho deste artigo. 

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 25-X-2015 
Funcionários do Governo chinês queimam o crucifixo no cimo da igreja de Huzhen, na cidade de Lishui (4 de Maio de 2015)
Nota: A AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) é uma fundação da Santa Sé, para ajudar cristãos perseguidos, ou passando grandes necessidades. No início da AIS, a maioria dos crimes cometia-se nas ditaduras comunistas. Hoje em dia, a perseguição estende-se por grande parte da Ásia, pela África do Norte e do Leste e por locais específicos da América Latina.


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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Tradição e as novas gerações



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Confiai a Deus todas as vossas preocupações

Entrou na Ordem um novo aspirante de qualidade e o seu número foi assim elevado para oito. Então o bem-aventurado Francisco reuniu-os a todos e falou-lhes longamente do Reino de Deus, do desprezo do mundo, da renúncia à vontade própria e da docilidade que tinham de exigir ao seu corpo. 

Depois dividiu-os em quatro grupos de dois e disse-lhes: «Ide, meus bem-amados, percorrei dois a dois as diversas regiões do mundo, anunciai a paz aos homens e pregai-lhes a penitência que obtém o perdão dos pecados. Sede pacientes na prova, certos de que Deus cumprirá o que decidiu e manterá as suas promessas. Respondei humildemente a quem vos interrogar, abençoai os que vos perseguirem, agradecei aos que vos insultarem e vos caluniarem, pois esse é o preço do Reino dos Céus (Mt 5,10-11).» 

Eles acolheram com alegria a missão que lhes confiava a santa obediência e prostraram-se aos pés de São Francisco, que abraçou cada um deles ternamente dizendo-lhes com fé: «Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós» (1Pe 5,7). Era a sua frase habitual quando enviava um irmão em missão.

Tomás de Celano (biógrafo de S. Francisco e de S. Clara) in «Vita Prima» de S. Francisco 


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O que diz o Concílio Vaticano II sobre o Casamento?

A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso [10]. (...) E o Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade. Unindo o humano e o divino, esse amor leva os esposos ao livre e recíproco dom de si mesmos, que se manifesta com a ternura do afecto e, com as obras, e penetra toda a sua vida [11]; e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa actuação. Ele transcende, por isso, de longe a mera inclinação erótica, a qual, fomentada egoísticamente, rápida e miseravelmente se desvanece.

Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no acto próprio do matrimónio. São, portanto, honestos e dignos os actos pelos quais os esposos se unem em intimidade e pureza; realizados de modo autenticamente humano, exprimem e alimentam a mútua entrega pela qual se enriquecem um ao outro na alegria e gratidão. Esse amor, ratificado pela promessa de ambos e, sobretudo, sancionado pelo sacramento de Cristo, é indissoluvelmente fiel, de corpo e de espírito, na prosperidade e na adversidade; exclui, por isso, toda e qualquer espécie de adultério e divórcio.

A unidade do matrimónio, confirmada pelo Senhor, manifesta-se também claramente na igual dignidade da mulher e do homem que se deve reconhecer no mútuo e pleno amor. Mas, para cumprir com perseverança os deveres desta vocação cristã, requere-se uma virtude notável; por este motivo, hão-de os esposos, fortalecidos pela graça para levarem uma vida de santidade, cultivar assiduamente e impetrar com a oração a fortaleza do próprio amor, a magnanimidade e o espírito de sacrifício.

O autêntico amor conjugal será mais apreciado, e formar-se-á a seu respeito uma sã opinião pública, se os esposos cristãos derem um testemunho eminente de fidelidade e harmonia e de solicitude na educação dos filhos e se participarem na necessária renovação cultural, psicológica e social em favor do casamento e da família. Os jovens devem ser conveniente e oportunamente instruídos, sobretudo no seio da própria família, acerca da dignidade, missão e exercício do amor conjugal. Deste modo, educados na castidade, poderão, chegada a idade conveniente, entrar no casamento depois dum noivado puro.

in Gaudium et Spes, 49 -- Constituição do Concílio Vaticano II

[10] Cfr. Gén. 2, 22. 24; Prov. 5, 18-20; 31, 10-31; Tob. 8,4-8; Cant. 1, 2-3; 2,16; 4,16-5,1; 7, 8-11; 1 Cor. 7, 3-6; Ef. 5, 25-33.

[11] Cfr. Pio XI, Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p. 547-548; Denz.-Schön. 2232 (3707).


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Comentário ao Relatório Final do Sínodo - George Weigel

A Relatio Finalis [relatório final] do Sínodo-2015, adoptado esta noite pelos Padres Sinodais, representa um melhoramente enorme e encorajador em relação ao Instrumentum Laboris [documento de trabalho] que serviu de base para o trabalho do Sínodo. A tremenda diferença entre os dois documentos ilustra o quão frutífero foi o caminho que o Sínodo percorreu ao longo de três semanas, às vezes desafiantes.

Diferenças consideráveis, melhoramento considerável

Disposto como estava, com sociologia, e sociologia não muito boa, o documento de trabalho era, em mais do que uns pontos, difícil de reconhecer como um documento da Igreja. O relatório final é claramente um texto eclesial, um produto da mediação da Igreja em relação à Palavra de Deus, compreendida como a lente através do qual a Igreja interpreta a experiência contemporânea.

O documento de trabalho era biblicamente anorético. O relatório final é biblicamente rico, mesmo até eloquentemente bíblico, como é próprio de um Sínodo no quinquagésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II e a sua Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum.

Às vezes, o documento de trabalho parecia quase embaraçado com a doutrina estabelecida pela Igreja sobre a indissolubilidade do casamento, sobre as condições necessárias para a digna recepção da Sagrada Comunhão, e sobre as virtudes da castidade e fidelidade. O relatório final reafirma as doutrinas da Igreja sobre o matrimónio, a Sagrada Comunhão e a possibilidade de viver virtuosamente no mundo pós-moderno. E fá-lo sem objecções, mesmo quando exige à Igreja uma proclamação das verdades como património do próprio Senhor Jesus e um cuidado pastoral mais solícito daqueles que estão em circunstâncias de dificuldades maritais e familiares.

O documento de trabalho era praticamente silencioso sobre o dom dos filhos. O relatório final descreve os filhos como uma das maiores bençãos, louva as famílias grandes, tem cuidado em honrar crianças com necessidades especiais e eleva o testemunho de casais felizes e dos seus filhos com muitos frutos como agentes de evangelização.

O documento de trabalho tinha alguma discussão sobre a consciência e o seu papel na vida moral. O relatório final faz um trabalho muito melhor de explicar a compreensão que a Igreja tem de consciência e a sua relação com a verdade, rejeitando a ideia de que a consciência é uma espécie de faculdade flutuante da vontade que funciona de forma equivalente à carta "Pode Sair Livre da Prisão".

O documento de trabalho estava cheio de ambiguidades sobre a prática pastoral e a sua relação com a doutrina. O relatório final, apesar de ainda ter algumas ambiguidades, deixa claro que o cuidado pastoral tem que começar de um ponto de compromisso com o ensinamento estabelecido pela Igreja, e que não existe tal coisa como "Catolicismo de opção local", quer em termos de soluções regionais/nacionais ou de soluções de paróquia-em-paróquia. A Igreja permanece uma Igreja.

O documento de trabalho também era ambíguo na sua descrição de "família". O relatório final sublinha que não pode haver uma analogia bem feita entre a compreensão Católica de "matrimónio" e "família" e outros acordos sociais, independentemente do seu estatuto legal.

A misericórdia e a verdade às vezes pareciam estar em tensão no documento de trabalho. O relatório final está muito mais desenvolvido teologicamente no que toca ao relacionar a misericórdia e a verdade em Deus, que são portanto inseparáveis na doutrina e prática da Igreja.

O documento de trabalho não era nada de especial de um ponto de vista literário e era mais do que difícil para digerir. O relatório final é bastante eloquente em alguns pontos e vai enriquecer as vidas de quem o ler, mesmo que possam não concordar com esta ou aquela formulação.

No fundo, o relatório final, apesar de não estar sem falhas, avança um longo caminho - e anos-luz além do Instrumentum Laboris - ao fazer aquilo que o Papa Francisco e muitos Padres Sinodais queriam fazer com este processo inteiro de dois anos: elevar e celebrar a visão Católica do matrimónio e da família como uma resposta luminosa à crise dessas instituições no século XXI.

Entrelinhas e oportunidade perdidas

O Sínodo-2015 também trouxe à luz alguns problemas sérios que ainda têm que ser respondidos, agora que a Igreja se move para além dos Sínodos gémeos de 2014 e 2015, com o relatório final do Sínodo-2015 como esquema de trabalho para reflexões futuras (e para qualquer documento pós-sinodal que o Papa Francisco eventualmente decida promulgar).

O primeiro destes problemas pode-se chamar problema de digestão pastoral e teológica. Para mim era dolorosamente claro através de algumas intervenções na assembleia geral do Sínodo - e através de alguns dos relatórios dos grupos de discussão do Sínodo separados por línguas - que vastos sectores da Igreja mundial não começaram ainda a interiorizar o ensinamento da Familiaris Consortio (a exortação apostólica de João Paulo II de 1981, que completou o trabalho do sínodo de 1980 sobre a Família), e muito menos a interiorizar a Teologia do Corpo de João Paulo. Pior ainda, algumas zonas da Igreja ocidental na Europa parecem olhar para tais materiais como um chapéu velho sem esperança, apesar de só ter ainda trinta anos. O entusiasmo com que a Teologia do Corpo tem sido recebida nas zonas mais alerta da Igreja na América do Norte foi certamente parte da discussão do Sínodo-2015; mas falta ainda um grande trabalho a ser feito para levar esta perspectiva Católica única sobre o corpo, a sexualidade e o amor humano para uma fruição pastoral na América Latina e Europa.

No entanto, talvez não seja tão surpreendente que demore algum tempo que um ensinamento verdadeiramente original se espalhe e se desenvolva na tradição Católica; estas coisas demoram sempre tempo. Mas dada a velocidade com que a mudança cultural (ou desconstrução cultural) está a lavar o mundo ocidental, certamente que se espera que as igrejas locais que ainda não estão equipadas com estes recursos carreguem no acelerador.

O Sínodo-2015 também teria sido mais honesto se o debate tivesse trazido à superfície o duro facto de que a questão da comunhão e da consciência muitas vezes funcionou como pretexto para bispos, em grande medida do mundo alemão, que querem esquecer a Humanae Vitae e desconstruir a Veritatis Splendor. Essas partes da Igreja universal nunca perdoaram a Paulo VI por reafirmar, na Humanae Vitae, a visão Católica clássica dos meios apropriados para regular a fertilidade. Nem perdoaram a João Paulo II por rejeitar a teologia moral proporcionalista e insistir, na Veritatis Splendor, que alguns actos são, por eles mesmos, gravemente maus (malum in se). Um padre Sinodal proeminente do Catolicismo alemão foi tão longe como sugerir, numa entrevista antes do Sínodo-2015, que se pode encontrar sempre algum bem em todas as situações, que o malum in se não tinha um significado real no mundo de hoje. (Uma pessoa pensa imediatamente na violação, na tortura de crianças, no tráfico sexual de jovens raparigas, nas crucixões e decapitações de Cristãos pelo ISIS, e pergunta-se o que é que se estava a passar nesta afirmação incrível.)

Para além do orgulho intelectual que já referi como problema nestas contestações, uma pessoa não pode deixar de pensar numa certa cegueira à história. O tecido moral do Ocidente que se está a desenrolar está a levar, passo a passo, ao que Bento XVI apropriadamente chamou de "ditadura do relativismo" - o uso do poder coercivo do estado para impor um código com uma moral relativista em toda a sociedade. Porque é que importantes bispos alemães não conseguem ver isto?

Outra ideia nos debates do Sínodo-2015 foi a questão tão velha como a controvérsia entre Agostinho e Pelágio - e provavelmente muito mais velha que isso: nós somos pecadores à procura de redenção ou somos basicamente pessoas boas que conseguem, pelos seus próprios esforços, puxar-se à nobilidade que aspiram? Esta última está hoje carregada de um "individualismo expressivo" - o termo usado pelo professor de direito de Notre Dame, Carter Snead, numas declarações divulgadas esta semana em "Letters to the synod", para resumir a noção pós-moderna da pessoa humana simplesmente como um conjunto de desejos, uma vontade com corpo. É suficiente mau que, como diz o Professor Snead, quando cinco juízes do Supremo Tribunal Americano acreditam nisto e o usam como desculpa para encontrar "direitos" na Constituição que seriam inimagináveis para os que a escreveram e adoptaram esse texto e amendas. É muito pior quando se encontram bispos Católicos que parecem inclinar-se para uma direcção parecida e errónea, agindo sob pressões culturais que parecem criar uma sensação de pastoral do desespero. Aqui, portanto, está um assunto que precisa de sério exame na Igreja pós-Sínodo-2015.

Por fim, e apesar de todas as coisas boas no relatório final, é uma pena que um Sínodo que devia ser sobre mudar o mundo acabasse por ser uma batalha sobre mudar a Igreja - ou permanecer fiel à sua doutrina e forma fundamental. Isto não é, esperamos, o que o Papa Francisco queria, mas é o que aconteceu e isso em si mesmo foi uma oportunidade perdida. Também sugere que a paixão por uma "Igreja permanentemente em missão" de que o Santo Padre fala tem ainda que ser comunicada a muitos sectores importantes da Igreja mundial.

Uma Igreja virada para dentro não é a Igreja da Nova Evangelização. Por isso falta aos que se dedicam ao renascimento evangelizador do Catolicismo do século XXI ligar  a família a essa missão de uma forma mais forte do que o Sínodo-2015 foi capaz de fazer.

 George Weigel, Distinguished Senior Fellow e William E. Simon Chair em Catholic Studies, Ethics e Public Policy Center.

in firstthings.com [Negritos Senza Pagare]




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