quinta-feira, 16 de junho de 2016

Santa Sé e os Movimentos na Igreja

A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) apresentou esta semana um novo documento promulgado pelo Papa Francisco e assinado pelo Prefeito da CDF, o Cardeal Muller. Chama-se Iuvenescit Ecclesia (A Igreja rejuvenesce) e é sobre os Movimentos e outras realidades institucionais na Igreja.

O aparecimento de Movimentos  e outros carismas na Igreja é uma realidade do início do século XX mas que ganhou um novo impulso com o Concílio Vaticano II. Muitos dos nossos leitores pertencem ou identificam-se com vários movimentos da Igreja. Penso em Comunhão e Libertação, no Movimento Apostólico de Schoenstatt, nas Equipas de Nossa Senhora ou no Renovamento Carismático, mas há muitos outros.

O documento pode ser encontrado em inglês aqui: Iuvenescit Ecclesia. Apesar de não estar disponível uma tradução para português, deixamos uma pequena selecção de excertos do documento.

Os excertos não estão relacionados uns com os outros.

Congregação para a Doutrina da Fé
Carta Iuvenescit Ecclesia aos Bispos da Igreja Católica
sobre a Relação entre os Dons Hierárquicos e Carismáticos na Vida e na Missão da Igreja

1. A Igreja rejuvenesce no poder do Evangelho e o Espírito renova-a continuamente, levanta-a e guia-a "com diversos dons hierárquicos e carismáticos". [1]  (...)

4. (...) 

Ao contrário das graças fundamentais como a graça santificante ou os dons da fé, da esperança e da caridade, que são indispensáveis para qualquer cristão, um carisma individual não tem de ser um dom dado a todos (cf. 1 Cor 12:30) (...)

5. (...)

Uma passagem importante do Evangelho de Mateus (Mt 7:22-23) expressa a mesma realidade: o exercício dos carismas mais visíveis (profecia, exorcismos, milagres) pode infelizmente coexistir com a ausência de uma verdadeira relação com o Salvador. (...)

6. (...)

Noutro lugar, por exemplo, Paulo sugere que a escolha do celibato por amor a Cristo deve ser entendido como o fruto de um carisma, tal como o matrimónio (cf. 1 Cor 7:7 no contexto de todo o capítulo) (...)

7. (...)

A antítese entre uma Igreja institucional do tipo judaico-cristã e uma Igreja carismática do tipo paulino, afirmada por certas interpretações eclesiásticas redutoras, na realidade carece de fundamento nos textos do Novo Testamento. Longe de situar os carismas de um lado e a entidade institucional do outro, opondo a Igreja "da caridade" e a Igreja "institucional", Paulo reúne numa lista os destinatários  dos carismas da autoridade e do ensino, de carismas que são úteis para a vida normal da comunidade, e dos carismas mais impressionante (...) Eles [Pedro e Paulo] não consideram, no entanto, que esses dons [os carismas] autorizem a não ter a obediência devida à hierarquia eclesial, ou dêem o direito a um ministério autónomo (...) 

11. (...)

Por isto [uma vez que os dons vêm sempre do Pai, através Filho, pelo Espírito Santo], o Espírito Santo não pode de forma nenhuma inaugurar uma economia [da salvação] diferente da divina Logos [palavra], crucificada e ressuscitada. (...) Precisamente para evitar posições teológicas equívocas que colocariam uma "Igreja do Espírito", distinta e separada da Igreja hierárquica e institucional, tem de ser reafirmado que as duas missões divinas se implicam mutuamente em cada dom concedido gratuitamente à Igreja. (...)

17. (...)

Os fiéis têm "o direito de ser informados pelos seus pastores acerca da autenticidade dos carismas e da veracidade daqueles que se apresentam como os respectivos destinatários" [2]. (...)

18. Critérios para discernir os dons carismáticos (...)

c) Profissão de fé Católica. Todas as entidades carismáticas devem ser um lugar de educação na fé na sua plenitude "abrangendo e proclamando a verdade sobre Cristo, a Igreja e a humanidade, na obediência pelo magistério da Igreja, tal como a Igreja o interpreta" [3]; por esta razão estas têm de evitar aventurar-se "para além da doutrina e da comunidade eclesial". De facto se "não nos mantivermos dentro deles, não estaremos unidos a Deus e a Jesus Cristo (cf. 2 Jn 9)”.  (...)

e) Reconhecimento da e estima pela complementaridade recíproca dos outros elementos da Igreja (...)


21. Os dons carismáticos na Igreja universal e particular (...)

Por esta razão é necessário clarificar que a Igreja de Cristo, como professamos no símbolo dos Apóstolos, "é a Igreja universal, isto é, a comunidade mundial de discípulos do Senhor, que está presente e activa no meio das características particulares e da diversidade de pessoas, grupos, tempos e espaços". A dimensão particular é, portanto, intrínseca à universal e vice-versa; existe uma "interioridade mútua" entre as Igrejas particulares e a Igreja Universal.  

24. Conclusão (...)

Maria é reconhecida como Mãe da Igreja e nós, cheios de confiança, recorremos a ela de modo a que, através da sua ajuda eficaz e poderosa intercessão, os carismas, abundantemente derramados pelo Espírito Santo entre os fiéis, possam ser recebidos com docilidade e dar fruto para a vida e a missão da Igreja e para o bem do mundo.

Roma, Escritórios da Congregação para a Doutrina da Fé, 15 de Maio, 2016, Solenidade de Pentecostes.
Gerhard Card. Müller
Prefeito
+ Luis F. Ladaria, S.J.
Secretário


[1] Lumen Gentium, 4. (Concílio Vaticano II)
[2] João Paulo II, Catequese (9 Março 1994), 6: Insegnamenti 17/1 (1994), 641
[3] João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles Laici, 30: AAS 81 (1989), 446-447.

Selecção e tradução dos excertos por Bernardo Brochado


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quarta-feira, 15 de junho de 2016

O amor começa em casa

Digo sempre que o amor começa em casa. Primeiro está a família, depois a cidade. É fácil fingir amar as pessoas que estão longe; mas é muito menos fácil amar aqueles que vivem connosco ou que estão muito perto de nós. Desconfio dos grandes projectos impessoais, porque o importante são as pessoas. Para se amar alguém, é preciso estar perto dessa pessoa. Toda a gente precisa de amor. Todos nós precisamos de saber que temos importância para os outros e que temos um valor inestimável aos olhos de Deus.


Cristo disse: «Que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei.» E disse também: «Aquilo que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos, a Mim o fazeis» (Mt 25,40). É a Ele que amamos em cada pobre, e todos os seres humanos são pobres de alguma coisa. Disse Ele também: «Tive fome e destes-Me de comer, estava nu e vestistes-Me» (Mt 25,35). Recordo sempre às minhas irmãs e aos nossos irmãos que o nosso dia consiste em passar as vinte e quatro horas com Jesus.


Beata Teresa de Calcutá in 'A Simple Path'


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Se Barack Obama fosse a favor da vida...

Barack Obama é o presidente americano mais pró-aborto de sempre. A sua luta pelo aborto livre, inclusive até aos 9 meses de gravidez, vem já dos seus tempos como senador em Illinois. Desde que se tornou o homem mais poderoso do mundo vai colecionando condecorações da Planned Parenthood, que gere o rentável negócio do aborto no Estados Unidos da América e no resto do mundo, através das suas filiais. No meio disto tudo os seus "médicos" ainda conseguem vender partes de bebés abortados para ganharem uns trocos extra, como foi denunciado por um estudante com uma câmara oculta.

Ao mesmo tempo, Barack Obama luta também pela proibição do porte de arma no seu país. Num acalorado discurso, como é seu apanágio, chegou mesmo a chorar (?) quando falava das crianças americanas que morrem por causa das armas.

Os organizadores da Marcha pela Vida aproveitaram essas declarações de Obama, defendendo a vida das crianças, e usaram-nas para o vídeo promocional da luta contra o aborto nos Estados Unidos. De facto o discurso de Obama encaixa que nem uma luva na defesa da vida, só é lamentável que em vez disso defenda o aborto, que é a morte duma criança inocente. 

Aqui fica o vídeo que o presidente Obama nunca fez mas deveria ter feito.








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terça-feira, 14 de junho de 2016

A culpa pelo atentado em Orlando é do cristianismo?

Que fique desde já bem claro que o que se passou naquela discoteca em Orlando foi um acto abominável sem qualquer tipo de justificação racional. Um indivíduo privou 50 pessoas do direito à vida, do direito que cada um tinha à sua vida. Sempre que o direito à vida é tirado a alguém, seja por homicídio violento (como aconteceu neste caso), por um crime passional, por aborto, eutanásia, etc…comete-se uma grave injustiça. E infelizmente essa injustiça não pode ser corrigida de modo perfeito porque quem tirou a vida a alguém não tem o poder de a devolver.


Quase todos os indignados com este acontecimento preferiram ignorar o facto que aquele indivíduo era muçulmano e que foi isso que o levou a fazer o que fez. Quer isto dizer que todos os muçulmanos são como ele? Felizmente não, mas não existe uma autoridade islâmica para declarar que os pacíficos são os verdadeiros muçulmanos e os violentos não. O que sabemos é que nos últimos anos os cristãos foram praticamente dizimados no Médio Oriente às mãos dos islâmicos sem que o mundo ocidental se desse ao trabalho de dizer “Je suis cristão do Médio Oriente”.

Ironicamente, passando o Islão incólume nesta história, muitos apontaram a “homofobia” dos cristãos por este crime. As pessoas deveriam entender duma vez por todas que os cristãos não são homofóbicos. Os cristãos não odeiam as pessoas que sentem atracção por pessoas do mesmo sexo. Aliás, amam-nas tanto que arriscam (e cada vez é mais arriscado) dizer: “Ter uma relação com uma pessoa do mesmo sexo não te vai fazer feliz, foste feito para algo maior, para uma felicidade muito maior do que essa momentânea.”

A verdadeira homofobia é a dos 11 países islâmicos nos quais sentir atracção por pessoas do mesmo sexo dá "direito" a pena de morte. E essa sentença é executada das formas mais brutais. Mas esta homofobia é calada pelo lobby LGBT, que se mostra muito mais preocupado em atacar a Igreja Católica.

A nossa luta contra a ideologia LGBT é o contrário da homofobia, parte da preocupação com a pessoa e com a sociedade. Uma pessoa que anda à procura da felicidade nos locais errados deve ser aconselhada a não o fazer, cabendo-lhe em última análise essa escolha. Por outro lado, uma sociedade saudável não pode permitir que o que é diferente seja tratado de modo igual: uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo não é a mesma coisa do que uma relação entre duas pessoas de sexo diferente. O ser humano divide-se em dois sexos: homem e mulher, sendo que é evidente (ou pelo menos era até há poucas décadas atrás) que o homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem.

Afirmar que defender esta verdade básica, que hoje em dia está a ser posta em causa de modo completamente irracional, pode levar alguém a disparar indiscriminadamente com o objectivo de matar dezenas de pessoas é um insulto às próprias vítimas deste atentado.

É por elas, pelas suas famílias, e inclusive pelo terrorista que devemos rezar, como tem sido pedido insistentemente até por pessoas que se dizem sem fé.

João Silveira


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sábado, 11 de junho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Mãe morreu mas o filho nasceu

Veio recentemente a público a invulgar notícia duma criança que nasceu duma mulher que já tinha morrido. A morte cerebral da Mãe foi pronunciada há 4 meses atrás, quando o filho tinha apenas 17 semanas de vida. Nasceu agora de cesariana, às 32 semanas, e encontra-se de perfeita saúde.

Este acontecimento foi notícia em quase todos os órgãos de comunicação social. A história rapidamente se tornou "viral", sendo notório o júbilo e o regozijo nas redes sociais. Parecia quase como uma lufada de ar fresco em toda a cultura de morte que nos rodeia.

O aborto foi legalizado em 2007. Durante este 9 anos foi feitos cerca de 180 mil abortos legais e gratuitos (20 mil por ano). 180 mil casos nos quais os médicos não salvaram vidas mas acabaram com elas. 180 mil mortes pagas com dinheiro dos contribuintes que supostamente seria destinado a salvar vidas. 180 mil situações nas quais o sistema nacional de saúde foi substituído pelo sistema nacional de morte.

Mas no caso deste bebé foi diferente. Neste caso a Comissão de Ética decidiu que deviam ser feitos os possíveis para proteger aquela vida inocente. Perguntaram ao presidente dessa Comissão o que teriam decidido fazer se o Pai da criança dissesse que o filho deveria ser abortado, ao que respondeu que mesmo nesse caso o Ministério Público iria garantir a sobrevivência daquela criança porque os pais não são donos dos filhos. Que resposta tão acertada! Os pais não são donos dos filhos. Estes são-lhes confiados, para que os eduquem o melhor que sabem, mas não lhes cabe decidir sobre a sua morte e a sua vida, uma vez que esta exista. 

Um bebé dentro da barriga da sua Mãe, que deveria ser o local mais seguro do mundo, é já uma vida humana que existe e por isso não é apenas um conjunto de células pertencente ao corpo da sua progenitora, embora, por agora, precise desse corpo para se desenvolver. 

A criança da notícia cresceu no corpo da sua Mãe já morta. Foi um caso peculiar de morte que gera vida. Tal como é peculiar esta notícia de vida no meio duma cultura de morte.

Este pequeno oásis é uma prova de como é diferente (para melhor) uma sociedade que defende a vida desde a sua concepção até à sua morte natural. Os esforços que foram feitos entre a Comissão de Ética, as equipas de obstetrícia e a própria família, que apoiou todo o difícil procedimento, mostram como nós somos capazes de unir esforços para defender o que mais importa. E haverá um direito maior a defender do que o direito à vida? Sem este mais nenhum interessa.

Testemunhos dizem que depois do parto os médicos choraram. Médicos habituados a fazer centenas de partos, milhares. Uns mais difíceis, outros mais fáceis. Estes médicos choraram. Porquê? Porque salvaram uma vida. Porque cumpriram a sua vocação, a sua missão de ajudar os que mais precisam. Choraram porque a cultura da vida - a defesa da vida em todas as circunstâncias, especialmente nas mais difíceis - enche-nos o coração, responde aos desejos do nosso coração.

Esperemos que esta boa notícia seja fonte de inspiração para que todos os médicos defendam sempre a vida humana. Esperemos que todos os médicos se tornem objectores de consciência em relação ao aborto e à eutanásia, caso venha a ser aprovada. Esperemos que todos médicos, mesmo com más condições e excesso de trabalho, se sintam recompensados pela incomparável sensação de saberem que, naquele dia, salvaram uma vida.

João Silveira


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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cardeal Patriarca de Lisboa sobre a Amoris Lætitia - Oficial

Em linha com o que outros Bispos fizeram pelo mundo inteiro, o Cardeal Patriarca fez um pequeno comunicado sobre a Exortação do Papa Francisco sobre as famílias, Amoris Lætitia (AL).

O Senza recomenda a leitura integral do documento, que podem encontrar aqui:

Transcrevemos em baixo parte do documento, que se refere ao tão polémico acesso à Comunhão dos divorciados re-casados.
Os negritos são responsabilidade do blog Senza.

Uma leitura breve

Do muito que a presente exortação refere, sublinho apenas quatro pontos: 1) a análise da situação; 2) a pastoral do vínculo; 3) o sujeito principal da pastoral familiar; 4) a lógica da integração. Vários outros merecem ser ponderados, como o que se refere à vida e à fecundidade, o direito inquestionável dos pais no respeitante à educação dos filhos, o diálogo e acompanhamento intergeracional, a pedagogia sacramental do matrimónio, etc.   

(...)

«Acolho as considerações de muitos Padres sinodais que quiseram afirmar que “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo” (Relatio Finalis 2015, 84)» (AL, 299). Como é sabido, este ponto teve referência prioritária nos media, como já a tivera antes e durante as assembleias sinodais. 

Se tivermos bem presentes duas exortações apostólicas pós-sinodais anterioresFamiliaris Consortio, nº 84, de João Paulo II, e Sacramentum Caritatis, nº 29, de Bento XVI – nem esta nem outras afirmações decorrentes nos trazem novidade substancial: discernimento das situações e das responsabilidades, distinção entre objetivo e subjetivo, gradualidade, participação na vida comunitária, de tudo isto nos dão conta os textos dos Papas Wojtyla e Ratzinger. Entretanto, a integração de todos e tanto quanto possa ser é uma das insistências maiores do atual pontificado, em grande correspondência à misericórdia divina e aos dramas duma sociedade tão desintegrada como a atual. Daqui a insistência do Papa Francisco, em relação a estas situações: «A lógica da integração é a chave do seu acompanhamento pastoral […]. São batizados, são irmãos e irmãs, o Espírito Santo derrama neles dons e carismas para o bem de todos. A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais, sendo necessário, por isso, discernir quais as diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas” (Relatio Finalis 2015, 84)» (AL, 299). Reparemos que, neste elenco das exclusões a rever, não se mencionam as sacramentais. 

Na verdade, o Papa não dá novas normas, antes reforça as exigências de discernimento já indicadas pelos seus antecessores: «… é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento e um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos” (Relatio Finalis 2015, 84), as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos. Os sacerdotes têm o dever de “acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo” (Ibidem, 85)» (AL, 300). 

Evitando qualquer arbitrariedade no acompanhamento pastoral dos casos concretos, em que hão de prevalecer «a humildade, a privacidade, o amor à Igreja e à sua doutrina, a busca sincera da vontade de Deus». Na verdade, «estas atitudes são fundamentais para evitar o grave risco de mensagens equivocadas, como a ideia de que algum sacerdote pode conceder rapidamente “exceções”, ou de que há pessoas que podem obter privilégios sacramentais em troca de favores» (AL, 300).

O Papa Francisco retoma a já conhecida distinção entre objetividade e subjetividade, nos seguintes termos: «Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas [que] subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente -, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja» (AL, 305). E especifica na nota 351: «Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso “aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor” (Evangelii gaudium, 44). E de igual modo assinalo que a Eucaristia “não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (Ibidem, 47)».    

Para compreendermos melhor o que possa acontecer no âmbito da Penitência e da Eucaristia – certamente mais vasto do que a absolvição e a comunhão propriamente ditas – atendamos, para já, ao recente conselho do Papa: «Tenho de dizer aos confessores: falem, ouçam pacientemente e acima de tudo digam às pessoas que Deus quer o seu bem. E se o confessor não pode absolver, que explique porquê, mas que não deixe de dar uma bênção, mesmo sem absolvição sacramental. O amor de Deus também existe para quem não está disponível para receber o sacramento» (Francisco, O nome de Deus é Misericórdia, Lisboa, Planeta, 2015, p. 33). Sem esquecer a possibilidade já prevista de acesso aos sacramentos por parte de recasados plenamente continentes, ou a crescente verificação da validade ou nulidade dos matrimónios, cumprindo as determinações do Código de Direito Canónico e do Motu Proprio Mitis Iudex Dominus Iesus, de 15 de agosto de 2015.    

Concluindo: A intenção prevalecente do Papa Francisco é propor o matrimónio cristão, realmente possível com a graça divina: «Para evitar qualquer interpretação tendenciosa, lembro que, de modo algum, deve a Igreja renunciar a propor o ideal pleno do matrimónio, o projeto de Deus em toda a sua grandeza: “É preciso encorajar os jovens batizados para não hesitarem perante a riqueza que o sacramento do Matrimónio oferece aos seus projetos de amor, com a força do apoio que recebem da graça de Cristo e da possibilidade de participar plenamente da vida da Igreja” (Relatio Synodi 2014, 26). […] Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falhanços é o esforço pastoral para consolidar os matrimónios e assim evitar as ruturas» (AL, 307).  

+ Manuel Clemente

Reunião de Vigários do Patriarcado de Lisboa, 19 de abril de 2016


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domingo, 5 de junho de 2016

15 tipos de homilia que os Padres devem evitar

Como é difícil dar uma boa homilia! Mas qual será a melhor maneira de fazer uma pregação na Missa? Bem, o que parece estar claro é o que NÃO se deve fazer. Apresentamos alguns exemplos:

1. Homilia improviso: é aquela em que o sacerdote “prepara” enquanto veste a alba, o cíngulo, a estola e a casula para a Santa Missa.

2. Homilia livresca: homilia com bastante cheiro a livro e escrivaninha; homilia académica, marmórea, mas carente de coração e de conhecimento dos ouvintes.

3. Homilia arqueológica: homilia em que o pregador quer fazer incursões em detalhes secundários sobre os fariseus, os essénios, as dracmas, os estádios, a hora sexta, o átrio, o poço... Não explica a mensagem de Deus, e sim curiosidades periféricas.

4. Homilia romântica: aquela que quer promover lágrimas, sorrisos e água com açúcar, à base de exclamações, interjeições, gritos, linguagem paternalista com adjectivos ternos, diminutivos e aumentativos.

5. Homilia demagógica: com palavras e mais palavras, quer ficar de bem com o público, traindo tanto a mensagem evangélica quanto o destinatário, desfigurando e distorcendo a doutrina de Cristo.

6. Homilia literária: mais que uma prédica sagrada é um exercício literário ou poético.

7. Homilia antológica: aquela que se transforma numa oportunidade para recordar todas as frases, sentenças, textos, poesias e definições que o pregador aprendeu de memória ou encontrou nos seus arquivos.

8. Homilia molusco: invertebrada, gelatinosa, sem argumento, sem conteúdo, sem tema. Nem termina um tema, já começa outro.

9. Homilia tijolo: puras ideias, sem relação com a vida prática dos ouvintes. A homilia deveria chegar, por assim dizer, até a cozinha da dona de casa, até o trabalho do pai de família, até a cadeira dos estudantes... Mas a homilia tijolo é pesada demais para chegar lá.

10. Homilia espaguete: enrola, enrola, enrola... Chateia os ouvintes e provoca bocejos. 

11. Homilia cursinho: aborda muitos temas sem concretizar nenhum.

12. Homilia repetição do evangelho: não consegue tirar uma mensagem do evangelho para os ouvintes, limitando-se a repetir o que foi lido no evangelho. 

13. Homilia técnica: usa o tempo todo uma linguagem teológica que as pessoas não entendem: metanoia, anáfora, parusia, epifânico, histérico, pneumático, mistagogo, escatologia, transubstanciação… A homilia não é uma aula de teologia, e sim uma conversa cordial com os ouvintes e paroquianos.

14. Homilia baixo-nível: o pregador salpica a sua fala o tempo todo com gírias vulgares. Assim é rebaixada a palavra de Deus, a dignidade do profeta e a dignidade dos fiéis, que São Paulo chama de “santos no Senhor”. O pregador não se deve rebaixar, pois fala em nome de Cristo e da Igreja.

15. Homilia do mau piloto: o pregador não sabe descolar nem aterrar. Dá voltas e mais voltas e nunca termina. Até anuncia: “E para terminar”... mas volta às nuvens... “E agora para terminar”… e lá vai de novo para mais uma volta. Por favor, termine e pronto.

Pe. Antonio Rivero in Zenit


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A excepção mais a excepção da excepção

As escolas não estatais financiadas pelo Governo português viveram até agora de uma excepção muito curiosa.

Há mais de um século que os nossos Governos se propõem controlar a 100% a educação, mas a sociedade resiste e, enquanto não têm força, os Governos transigem nalgumas excepções. Foi assim com os maçons da Primeira República, com Salazar e Marcello Caetano e é assim com os Governos posteriores ao 25 de Abril. Nuns casos, a motivação é tirar a liberdade aos católicos, noutros casos é tirar a liberdade a todos. O facto é que avançam sempre no mesmo sentido.

A Primeira República chegou à violência física. Salazar foi menos agressivo, mas criou todos os entraves possíveis, chegando a limites caricatos. Por exemplo, as escolas não estatais que colaborassem na alimentação dos alunos, pagavam imposto hoteleiro.

Em tempos de Marcello Caetano, o Ministro Veiga Simão fechou administrativamente um bom número de escolas e, na província, construiu escolas estatais ao lado dos colégios com mais êxito. O mapa escolar ficou cómico: em extensas regiões com falta de escolas, só havia duas escolas, exactamente ao lado uma da outra! Demorou alguns anos, mas as dificuldades económicas levaram a melhor: perante uma escola boa que tinham de pagar e uma escola má que o Estado lhes oferecia, muitas famílias tiveram de mudar para a escola estatal. Assim o Governo conseguiu fechar muitas escolas da Igreja.

Depois do 25 de Abril, ao mesmo tempo que a estatização progredia, introduziu-se uma excepção curiosa. Para fomentar a alfabetização, o Estado decidiu que, quando não houvesse escolas estatais próximas, o Governo pagaria a propina nas escolas não estatais. Isto só se aplicava a poucas escolas, muito afastadas de centros urbanos grandes. Além disso, sujeitava-as a limitações: os alunos inscreviam-se na escola do Estado mais próxima que autorizava a transferência; as escolas não estatais ficavam obrigadas a receber todos os que lhes fossem enviados pela escola do Estado; a propina que o Estado pagava era inferior ao custo médio de um aluno nas escolas estatais; finalmente, as escolas não estatais não podiam receber mais dinheiro dos alunos, além da propina paga pelo Estado.

Obviamente, o objectivo de acabar com a liberdade de ensino mantinha-se. Por isso, depois de ter tolerado esta pequena excepção, conhecida como «contrato de associação», o Ministério prosseguiu a política de construir escolas novas ao lado das escolas não estatais, para lhes fazer concorrência. Assim, todos os anos, a excepção encolheu.

Perante uma escola melhor em que a propina é paga pelo Estado e uma escola pior, as famílias não têm dúvidas. Por isso a excepção resiste o mais que pode. Os Governos contra-atacam com mais dinheiro para as suas escolas, mas não conseguem atrair alunos enquanto não cortam a propina nas escolas melhores.

Finalmente, o actual Governo decidiu erradicar de vez a pequena excepção e forçar os alunos a frequentar as escolas do Estado, mesmo que tenham de andar uma grande distância.

A operação deparou-se com alguns problemas práticos, porque a escola do Estado é sempre pior. Se fosse melhor, nem havia necessidade de o Ministério intervir. Outro problema é que as propinas das escolas não estatais são mais baixas que o custo médio no Estado. No entanto, o problema verdadeiramente difícil são as famílias descontentes.

Aqui, começou outra pequena excepção. As famílias falaram com as autarquias, estas pediram ao Governo e este aceitou: talvez porque as eleições autárquicas se aproximam, as escolas situadas em autarquias controladas pelo partido do Governo não vão fechar já este ano.

Tanto trabalho, só para tirar autonomia às famílias e concentrar poder no Ministério!

Sem dúvida, mas ainda mais admirável é o esforço de quem insiste em trabalhar para que a juventude deste país tenha uma educação melhor. 

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 5-VI-2016


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sábado, 4 de junho de 2016

O triunfo do Imaculado Coração de Maria

Há uma misteriosa relação entre as aparições marianas da Cova da Iria, a «conversão» da Rússia e o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

É sabido que uma parte importante do segredo de Fátima tem a ver com a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Na terceira aparição, a 13 de Julho de 1917, a «Senhora mais branca do que o sol» veio «pedir a consagração da Rússia» ao seu Imaculado Coração. Se assim se tivesse feito, esse país ter-se-ia então convertido e teria havido paz, mas como assim não aconteceu, espalhou os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja e, por isso, os bons foram martirizados, o Santo Padre teve muito que sofrer e várias nações foram aniquiladas, perdendo a sua independência e liberdade.

Hoje é sabido que a queda do muro de Berlim, em 1989, a derrocada pacífica da cortina de ferro, o colapso da antiga URSS e a implosão de todos os seus satélites, os países do Pacto de Varsóvia, não eram humanamente expectáveis, nem foram de facto previstos por nenhum politólogo. Para o crente, contudo, aquela impressionante reviravolta política, que devolveu a liberdade a milhões de cidadãos escravizados por uma das piores tiranias de que há memória, ficou-se a dever à consagração realizada pelo Beato João Paulo II, em Roma, a 25 de Março de 1984, e reconhecida formalmente como válida pela própria vidente.

É certo que alguns pontífices tinham querido realizar esse mandato da Mãe de Deus mas, por incumprimento de algumas das condições estipuladas por Nossa Senhora, essas tentativas malograram-se. Também é verdade que a diplomacia da Santa Sé há já várias décadas que procurava reatar relações com os Estados comunistas do leste europeu, mas sem resultados significativos ou, pelo menos, absolutamente incapazes de explicar a «conversão da Rússia» e do seu império do mal.

O que, em 1917, era uma incrível profecia, é hoje história. Tanto mais inacreditável se se tiver em conta que, só depois de concluídas as aparições de Fátima, isto é em Novembro de 1917, é que a Rússia se torna um Estado totalitário. Além do mais, os confidentes da celestial Senhora nem sequer sabiam da existência dessa potência estrangeira, situada no extremo oposto do continente europeu. Muito menos podiam estar a par das suas convulsões internas, nem do regime implacável que nessas vastos domínios da Europa oriental se iria instalar em breve, com tão funestas consequências para a liberdade religiosa de todos os crentes dos países integrados ou submetidos à URSS.

Todavia, a conversão da Rússia, que talvez só se complete com o regresso da ortodoxia à catolicidade da Igreja, não era a única bênção que Nossa Senhora prometia, se essa nação a Ela fosse consagrada: «O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz». «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará». Assim se entende que o Papa emérito Bento XVI, na solene homilia da celebração eucarística de 13 de Maio de 2010, tenha dito: «Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída». De forma ainda mais explícita, expressou nessa mesma ocasião o seguinte voto: «Possam os sete anos que nos separam do centenário das aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria».

Pe. Gonçalo Portocarrero in Voz da Verdade


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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mãe e filho

Desafiados a identificarem um 'misfit', um inconformado, alguém que foi capaz de ‘dar a volta’, os alunos fizeram a sua cartografia de talentos iluminantes. Este rapaz levantou-se e disse: a minha mãe.
Ele é um rapaz calado e observador que parece interessar-se por tudo e está sempre com um meio sorriso. Senta-se atrás nas salas e fala pouco, mas é capaz de alimentar conversas mais longas quando conhece as pessoas. Tem olhos claros, limpos, e esse meio sorriso que nunca se desvanece. Tranquilo e confiante, pode dar a ilusão de ser tímido, mas é a ilusão que criam os que falam pouco e ouvem muito.

Nas aulas ocupa o seu espaço com naturalidade, não interrompe os outros, permanece atento horas a fio e responde criativamente a todos os desafios que lhe são feitos. Discreto, pode parecer que passa despercebido entre os estudantes, mas é impossível não reparar nele porque tem uma presença forte, e sempre aquele meio sorriso desenhado na cara. Se calhar nem sabe isso. Não sabe que os seus olhos e a sua cara sorriem mesmo quando está sério.

Estuda tanto como os seus pares e, tal como eles, tem fases mais e menos difíceis na universidade. É um entre mil a atravessar corredores e a cruzar caminhos com colegas e professores. Podia ser realmente apenas mais um bom aluno numa boa universidade, mas há qualquer coisa nele que desperta a atenção. Que interpela e faz parar.

Comporta-se nas aulas como tantos outros. Cumpre, é inteligente, focado e bem-educado. Os pares gostam dele porque está sempre pronto a ouvir e a ajudar. Os professores, esses, apreciam sempre a atitude tranquila e sem perturbações dos seus alunos. Deste ou de outros. O rapaz afinal é sem história. Ou talvez não.

Na última aula do semestre foi o primeiro a levantar-se perante a turma, para dizer o nome da pessoa que mais o inspira no mundo. Desafiados a procurarem e identificarem um misfit, um inconformado, alguém que foi capaz de ‘dar a volta’, os alunos fizeram todos a sua cartografia de talentos iluminantes. Este rapaz levantou-se e com a tranquilidade do costume, disse: a minha mãe.

Comove sempre ver um rapaz de vinte anos assumir publicamente com gratidão o amor pela sua mãe, mas mesmo assim continuaria a não haver história, digamos assim. E foi então que ele resumiu o essencial em poucas linhas. A mãe apesar de ser nova já passou por muito. Há um par de anos teve aquilo que pareceu a todos ser apenas uma gripe, mas degenerou numa septicemia e culminou numa decisão dramática, radical: ou lhe eram amputados todos os membros ou morria.

A decisão foi cortar. Do dia para a noite esta mulher de pouco mais de 40 anos viu-se amputada de mãos e pés, braços e pernas. E passou o inimaginável em dores e sofrimentos, padecimentos e angústias, pesadelos e membros fantasmas, martírios, tormentos e lágrimas. Claro que o filho, contido como é, não falou de nada disto. Apenas disse o essencial. Relatou o facto, resumiu o sucedido e sublinhou que, por tudo aquilo que viu e viveu nestes anos em casa; por toda a força e coragem que reconhece na mãe, em cada dia; por cada gesto de superação dela que reforça a fortaleza interior do pai, dos filhos e restante família, não conhece nem nunca vai conhecer ninguém mais forte e mais inspirador que a mãe.

Ficamos calados. Sem palavras, apenas silêncio. O rapaz voltou a sentar-se tranquilamente, com aquele seu meio sorriso, aqueles seus olhos claros e limpos. Voltou a apagar-se, dando espaço e foco aos outros trinta que falaram depois dele, mas não como ele.

No fim da aula todos saíram, mas o rapaz atrasou o passo e pudemos falar só os dois. Percebi que não se importava de me contar o que não tinha dito em alto a toda a turma. E contou. E eu fiz perguntas e ele deu respostas. Despedimos-nos já no corredor e vi-o ir, afastar-se com o seu ar firme e tranquilo. E pensei na mãe, claro, mas sempre de olhos fixos neste filho. No rapaz discreto, de aparência banal, que ninguém diria ser um dos pilares diários que amparam a sua mãe e a ajudam a caminhar, pois para quem nasceu com mãos e pés, braços e pernas, não é fácil adaptar-se à nova realidade depois de lhe serem amputados todos os membros.

Passaram semanas e voltei a estar com o rapaz na tarde em que todos os alunos, de todas as turmas, fazem uma apresentação de palco, um grande espectáculo que deixa marcas em todos os que participam e assistem. São mais de duzentos e entre eles há muitos outros como ele, corajosos, valentes, bravos e discretos. Rapazes e raparigas alegres e aparentemente leves que afinal vivem situações familiares exigentes. Estudantes que atravessaram e atravessam realidades difíceis, e até alguns que carregam verdadeiras cruzes. Olhando para eles, ninguém diz. Mas conhecendo-os melhor ficamos a saber que são verdadeiros heróis.

O grupo do rapaz pediu-lhe para trazer a mãe ao palco, mas ninguém sabia se ela aceitaria vir. Nem se seria capaz de subir e descer os degraus de cena. No segredo próprio de cada grupo ensaiaram um teatro de sombras, com as luzes certas e um pano branco ao alto e a todo o comprido. No dia do grande espectáculo foram os penúltimos a representar a sua peça. Do lado de cá não se percebia bem quem estava do lado de lá. Sombras a fazerem sombras para contarem uma história de amor. Quando baixou o pano e se acenderam as luzes, o rapaz avançou para a boca de cena e falou da sua mãe. Depois deu um passo atrás e abraçou-a. Ela estava de pé, sobre as suas pernas artificiais, e devolveu o abraço em silêncio, com lágrimas. O rapaz deu à sua mãe bonita uma flor também muito bonita, de pé muito alto, que ela segurou amorosamente entre os ganchos que fazem de dedos. A mãe não falou e o rapaz não recitou versos, nem disse nada que já não tivesse dito antes, mas as suas palavras, o seu abraço demorado e a flor de pé alto bem segura pelos ganchos que servem de mãos foram o poema vivo mais belo que vi até hoje.

A imagem desta mãe e deste filho hão-de acompanhar-me por toda a vida.

Laurinda Alves (professora universitária) in Observador


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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Querem mudar Portugal

No passado dia 13 de Maio (ele há coincidências… ou não!) fomos surpreendidos com a aprovação no Parlamento de uma lei sobre as “barrigas de aluguer”. Não houve discussão pública; ninguém informou ninguém. A lei surgiu praticamente do nada, veio silenciosa para não existir oposição.

O tema constava apenas do programa eleitoral de um partido – o habitual. Poucos deputados tiveram a coragem de votar contra esta lei. Afinal estas matérias prestam-se a tornar-se “moeda de troca” dentro dos partidos políticos: não dizem respeito à economia; não se fazem sentir directamente no bolso dos contribuintes; fazem parte dos temas rotulados como “progressistas” (e todos querem ser “progressistas”, pelo menos “nestas fotos”: parece bem à comunicação social, e com este “leve toque progressista” fica equilibrada a balança com aquelas vezes em que é necessário votar medidas mais desagradáveis).

Poucos se questionaram seriamente. Afinal, de quem é o filho que vai nascer? Daquela que, durante 9 meses o gerou no seu seio – que o alimentou, que sofreu com ele, que lhe transmitiu alegria ou tristeza, e a quem o bebé viveu ligado por um cordão umbilical? Ou será filho de quem pagou o aluguer do ventre materno, porque gostava desesperadamente de “ter” um filho (entenda-se: inteligente, de corpo perfeito e sem defeitos)? Pobres seres humanos…

E não se defenda que isto diz apenas respeito a quem acha que “tem direito” a ter um filho assim (como se um ser humano pudesse ser fruto de um direito de outro sobre ele).

Como me parece óbvio, este assunto diz respeito a toda a sociedade portuguesa. Porque o nascer, o viver e o morrer dizem respeito a todos. Têm a ver com o que somos e com o que queremos ser. Não só individualmente mas como sociedade.

O facto é que querem mudar Portugal. Daqui por uns tempos, também a nossa nação não se irá reconhecer nas leis que a regem e na sociedade que elas criam. É assim como uma “barriga de aluguer”… Não se sabe quem o gerou, nem o próprio país irá saber quem é, de onde vem e para onde vai.

Entretanto, vivemos felizes e contentes porque nos garantem que a austeridade acabou.

D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar de Lisboa
in Voz da Verdade


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terça-feira, 31 de maio de 2016

A fidelidade dos casais - um sinal para o mundo

"Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais preciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo. (…)

Louvo e encorajo os numerosos casais que, embora encontrando não pequenas dificuldades, conservam e desenvolvem o dom da indissolubilidade: cumprem desta maneira, de um modo humilde e corajoso, o dever que lhes foi confiado de ser no mundo um “sinal” – pequeno e precioso sinal, submetido também às vezes à tentação, mas sempre renovado – da fidelidade infatigável com que Deus e Jesus Cristo amam todos os homens e cada homem.

Mas é também imperioso reconhecer o valor do testemunho daqueles cônjuges que, embora tendo sido abandonados pelo consorte, com a força da fé e da esperança cristãs, não contraíram uma nova união. Estes cônjuges dão também um autêntico testemunho de fidelidade, de que tanto necessita o mundo de hoje."

S. João Paulo II, Familiaris Consortio, 50.


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domingo, 29 de maio de 2016

O Santíssimo Sacramento nas ruas de Roma

Santissima Trinità dei Pellegrini (Roma) - Corpus Christi 2016















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sexta-feira, 27 de maio de 2016

As Mãos de Deus: Casamento, família e S. Josemaria

Lançamento amanhã (Sábado, 28 de Maio) às 17h00m
no Auditório da Feira do Livro de Lisboa



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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Testemunho sobre as Hóstias roubadas em Pamplona

Em Agosto de 2015, em Pamplona, foram expostas Hóstias Consagradas ao público numa exposição.

As hóstias foram roubadas em paróquias de Espanha e, só isso, já surpreende. Como é possível as autoridades compactuarem com expor ao público algo que foi previamente roubado?

Mas o problema maior não é esse, Hóstias Consagradas são o próprio Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor, do próprio Deus. De todos os pecados que se pode cometer, este é certamente dos mais graves possíveis.

Felizmente os Católicos em Pamplona reagiram para desagravar este abuso, tanto na própria exposição, prestando a devida reverência (de joelhos) ao Corpo de Deus, mas também noutros contextos.

Deixamos aqui um testemunho de alguém que viveu todos estes momentos. O texto é partilhado por uma professora  do colégio La Vall, ligado ao Opus Dei, na Catalunha:

"Uma ex-aluna de La Vall, que estuda na Universidade de Navarra, escreve assim:
Ontem cheguei a casa a seguir ao Terço diante da sala exposições, onde estão as fotos das espécies consagradas postas no chão. Havia centenas de pessoas a rezar o Terço de joelhos. 
Hoje estive na Missa que o Bispo de Pamplona convocou para pedir perdão a Jesus pela profanação do Seu Corpo. Foi incrível. 
Havia mais de 100 sacerdotes a concelebrar a Missa. O Bispo falou de caridade e de misericórdia. Pediu aos jovens que sentem a chamada de Deus no seu coração, que abram as portas a Cristo e se entreguem a Ele, os rapazes ao sacerdócio e as raparigas no cuidado dos mais pobres e necessitados. 
Deu graças pela presença de tanta gente na Missa. Depois da homilia pediu que fizéssemos uns momentos de silêncio. Víamo-lo tão tão magoado. Fiquei impressionada porque as pessoas estavam magoadas de verdade, realmente doía-lhes que se tivesse feito isto a Jesus. E impressionou-me porque isso significa que muitíssimas pessoas dão muito valor à Eucaristia e amam-na. 
Fiquei louca. Não têm noção do ambiente que havia: de recolhimento, de oração, de arrependimento, de desculpa, de silêncio, de carinho. Todos super concentrados, cantando as músicas com o coração. A algumas pessoas saltavam lágrimas e outras não conseguiam acabar de cantar porque falhava-lhes a voz. Eu tinha pele de galinha.
Padres, freiras, meninos, universitários, monges, gente do Opus Deis, pais e mães de família...
O Bispo pediu que comungássemos com a boca para evitar que acontecessem coisas más como as que se passaram. Leu-se o Evangelho, penso, de S. Lucas: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue habita em Mim e Eu nele." Falou-se muito da Eucaristia. 
Ao terminar a Comunhão disse-se ao microfone que se tinham preparado 4000 particulas consagradas para que todos comungassem e mesmo assim houve pessoas que ficaram sem comungar. Houve pessoas que esperaram mais de 20 minutos na fila para comungar e mesmo assim não havia partículas para todos.
Estava à pinha. As pessoas ajoelhavam-se, embora não coubessem muito bem. Foi impressionante: a fé das pessoas e a dor que sentiam por se ter ofendido tão gravemente a Jesus. 
Ao terminar a Missa houve uma procissão de Jesus Sacramentado pela Catedral. E quando saíam os sacerdotes e o Bispo, todos começaram a aplaudir de tão bonito que tinha sido."
Inédito Senza Pagare




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quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Ninguém vai ao Pai senão por Mim."

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida." Cristo parece dizer-nos: "Por onde queres passar? Eu sou o caminho. Onde queres chegar? Eu sou a verdade. Onde queres ficar? Eu sou a vida." Caminhemos pois em plena segurança por este caminho; e, fora do caminho, tenhamos cuidado com as armadilhas. Porque dentro do caminho o inimigo não ousa atacar - o caminho é Cristo -, mas fora do caminho monta os seus ardis. [...]

O nosso caminho é Cristo na sua humildade; Cristo verdade e vida é Cristo na sua grandeza, na sua divindade. Se seguires o caminho da humildade, chegarás ao Altíssimo; se, na tua fraqueza, não desprezares a humildade, permanecerás cheio de força no Altíssimo. Porque foi que Cristo tomou o caminho da humildade? Foi por causa da tua fraqueza, que era um obstáculo intransponível; foi para te libertar dela que tão grande médico veio a ti. Tu não podias ir até ele; por isso, veio Ele até ti. Veio ensinar-te a humildade, que é um caminho de regresso, porque era o orgulho que nos impedia de retornar à vida que o mesmo orgulho nos tinha feito perder. [...]

Assim, tornando-Se nosso caminho, Jesus grita-nos: "Entrai pela porta estreita!" (Mt 7,13). O homem esforça-se por entrar, mas o inchaço do orgulho impede-o de tal. Aceitemos o remédio da humildade, bebamos esse medicamento amargo, mas salutar. [...] O homem inchado de orgulho pergunta: "Como poderei entrar?" Cristo responde-lhe: "Eu sou o caminho, entra por Mim. Eu sou a porta (Jo 10,7), porque procuras noutro sítio?" Para que não te percas, Ele fez-Se tudo por ti e diz-te: "Sê humilde, sê manso" (Mt 11,29).   

Santo Agostinho in Sermão 142


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O Santo que começou a contar os anos 'antes e depois de Cristo'

Quando S. Beda escreveu a Historia Ecclesiastica, havia duas maneiras frequentes de referir as datas. Uma era usar indicções, que eram ciclos de 15 anos, contados a partir de 312 d.C. (o ano em que Constantino se tornou imperador de Roma). Havia três tipos diferentes de indicções, cada um começando num dia diferente do ano. A outra maneira era usar anos de reinado - o reinado do imperador romano, por exemplo, ou do governante do reino em questão. Isto significa que ao discutir conflictos entre reinos, a data teria que ser dada em anos de reinado de todos os reis envolvidos. S. Beda usou ambas as maneiras, mas adoptou uma terceira como o seu método principal: o anno domini (AD) inventado por Dionísio Exíguo [NT: em português "depois de Cristo"] [1]. Apesar de S. Beda não ter inventado este método, o facto de o ter adopptado e de o ter recomendado em De Temporum Ratione, a sua obra sobre cronologia, é a razão principal pela qual é hoje muito usado [1,2].

[1] Colgrave, Bertram; Mynors, R. A. B. (1969). "Introduction". Bede's Ecclesiastical History of the English People. Oxford: Clarendon Press.
[2] Stenton, F. M. (1971). Anglo-Saxon England (Third ed.). Oxford: Oxford University Press.

adaptado de en.wikipedia.org


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