quarta-feira, 15 de novembro de 2017
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Entrevista do Cardeal Burke sobre os "dubia" um ano depois da sua publicação
O Cardeal Raymond Burke dirige um último pedido ao Papa Francisco para que esclareça as dúvidas, dizendo que a situação está cada vez pior, e afirmando a urgência que o Papa confirme os seus irmãos na Fé.
P. – Vossa Eminência, em que ponto estamos desde que, faz esta semana um ano, os “dubia” foram tornados públicos por Vossa Eminência, pelo Cardeal Walter Brandmüller, e pelos dois Cardeais recentemente falecidos, Carlo Caffarra e Joachim Meisner?
R. – Um ano depois da publicação dos “dubia” a respeito de “Amoris Laetitia”, que não receberam qualquer resposta por parte do Santo Padre, observamos que é cada vez maior a confusão acerca da interpretação da Exortação Apostólica. Torna-se por isso mais urgente ainda a minha preocupação pela situação da Igreja e pela sua missão no mundo. Naturalmente, continuo em contacto regular com o Cardeal Walter Brandmüller acerca destes assuntos de extrema gravidade. Ambos permanecemos em profunda unidade com os saudosos Cardeais Joachim Meisner e Carlo Cafarra, que nos deixaram nos últimos meses. É assim que de novo reitero a gravidade desta situação que se tem vindo a agravar continuamente.
P. – Muito se tem dito acerca dos perigos inerentes à natureza ambígua do Capítulo 8 de “Amoris Laetitia”, sublinhando-se como dá azo a interpretações diversas. Porque é que a clareza é tão importante?
R. – A clareza no ensinamento não implica de todo qualquer rigidez que pudesse impedir as pessoas de caminhar; bem pelo contrário, já que é precisamente essa clareza que vem trazer a luz necessária para se poder acompanhar as famílias a seguirem o caminho próprio dos discípulos de Cristo. É ao invés a obscuridade, e ela somente, que, impedindo que se enxergue o caminho, vem prejudicar a acção evangelizadora da Igreja, como nos diz Jesus: “Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9, 4).
P. – Poderia explicar algo mais, à luz dos “dubia”, acerca do que se está a acontecer na presente situação?
R. – A presente situação, longe de diminuir a importância dos “dubia” ou perguntas, torna-os ainda mais prementes. Não se trata de todo, como houve quem dissesse, de uma “ignorantia affectata”, que levanta dúvidas por não se querer aceitar um determinado ensinamento. Do que se trata nos dubia é sim, em vez disso, de determinar com precisão o que o Papa quis ensinar como sucessor de Pedro.
Assim, as perguntas nascem precisamente do próprio reconhecimento daquele ofício petrino que o Papa Francisco recebeu de Nosso Senhor para confirmar na fé os seus irmãos, que é a sua finalidade. O Magistério é um dom de Deus à Igreja, para que faça clareza sobre pontos relativos ao depósito da fé. Afirmações em que falte essa mesma clareza, pela sua própria natureza, não podem ser qualificadas como expressões do Magistério.
P. – Do ponto de vista de Vossa Eminência, porque é que se torna tão perigoso que haja interpretações divergentes de “Amoris Laetitia”, em especial no que toca ao tratamento pastoral a dispensar a quantos vivam numa união irregular, e mais particularmente, no que diz respeito aos divorciados civilmente “recasados” que não vivem em perfeita continência e à questão de estes poderem ou não receber a Sagrada Eucaristia?
R. – É hoje evidente que foram sendo propostas várias interpretações, divergentes e até mesmo incompatíveis entre si, para certas indicações contidas em “Amoris Laetitia” e relativas a aspectos essenciais da fé e da prática da vida cristã. Este facto incontestável confirma que tais indicações aí contidas são ambivalentes e permitem diversas leituras, muitas das quais em contraposição com a doutrina católica.
Assim sendo, as questões que nós Cardeais levantámos dizem respeito a saber o que foi exactamente que o Santo Padre ensinou e de que modo o seu ensinamento se harmoniza com o depósito da fé, dado que o magistério “não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado” (Concílio Vaticano II, Constituição dogmática “Dei Verbum”, n. 10).
P. – Não será que o Papa já não deixou claro qual seja a sua posição por meio da carta que endereçou a alguns bispos argentinos, na qual afirmou que “não há outra interpretação” senão a das linhas directrizes promulgadas por esses bispos – linhas directrizes essas que deixaram aberta a possibilidade de conviventes sexualmente activos não casados receberem a comunhão?
R. – Ao contrário do que foi dito entretanto, não podemos considerar como resposta adequada às questões levantadas a carta escrita pelo Papa pouco antes de receber os “dubia”, dirigida aos bispos da região de Buenos Aires e versando sobre as linhas directrizes estabelecidas por estes prelados. Por um lado, tais linhas directrizes podem elas próprias ser interpretadas de maneiras diferentes; e, por outro, não fica claro que a carta em questão seja um texto magisterial, mediante o qual o Papa tenha querido falar à Igreja universal enquanto sucessor de Pedro.
O facto de que essa carta se tenha tornado conhecida porque houve uma fuga de informação para a imprensa – só depois tendo sido tornada pública pela Santa Sé – levanta uma dúvida razoável sobre se o Santo Padre teria a intenção de a dirigir à Igreja universal. Além do mais, seria bastante estranho – e contrário ao desejo manifestado explicitamente pelo Papa Francisco de deixar aos bispos de cada país a aplicação concreta de “Amoris Laetitia” (cf. AL, n. 3) – que agora o Papa viesse impor a toda a Igreja universal aquelas que são apenas as directivas concretas de uma pequena região.
A ser assim, não deveriam porventura passar a considerar-se inválidas as diversas disposições promulgadas por vários bispos para as suas dioceses, desde Filadélfia até Malta? Um ensinamento que não é suficientemente determinado, seja quanto à respectiva autoridade como quanto ao seu efectivo conteúdo, não pode pôr em dúvida a clareza do ensinamento constante da Igreja, que, aliás, qualquer que seja o caso, permanece sempre normativo.
P. – Também está preocupado pelo facto de que certas conferências episcopais, ao permitirem que alguns divorciados “recasados” e que vivam “more uxorio” (isto é, que continuem a manter relações sexuais) possam receber a Sagrada Eucaristia sem um firme propósito de emenda, elas estejam com isso a contradizer o precedente ensinamento papal, em particular o contido na exortação apostólica “Familiaris consortio”, do Papa São João Paulo II?
R. – Sim, os “dubia”, as nossas questões continuam em aberto. Quantos afirmam que disciplina ensinada por “Familiaris consortio” n. 84 mudou, mostram-se em oposição entre si logo que se trata de explicar as razões e as consequências. Alguns há que chegam ao ponto de defender que os divorciados com uma nova união e que continuam a viver “more uxorio” não se encontrariam num estado objectivo de pecado mortal (citando em seu apoio AL n. 303); outros negam esta interpretação (citando em seu apoio AL n. 305), e no entanto, deixam depois completamente entregue ao juízo da consciência a determinação dos critérios de acesso aos sacramentos. Parece pois que o objectivo dos intérpretes seja aquele de se chegar a todo o custo a uma mudança da disciplina, sem importar os argumentos que para tal fim se aduzam, e sem ter em consideração o quanto põem em perigo pontos essenciais do depósito da fé.
P. – Que efeito tangível tem tido esta mistura de interpretações?
R. – Tamanha confusão hermenêutica já produziu, de facto, um triste resultado. Verificamos que a ambiguidade a respeito de um ponto concreto da pastoral familiar conduziu alguns a propor uma mudança de paradigma acerca de toda a prática moral da Igreja, cujos fundamentos foram ensinados com autoridade por São João Paulo II na encíclica “Veritatis splendor”.
A verdade é que se activou um processo de subversão de partes essenciais da Tradição. No que toca à moral cristã, alguns sustentam que é necessário relativizar as normas morais absolutas e que se deve dar à consciência subjectiva, a uma consciência auto-referencial, um primado – em última análise equívoco – em matéria de moral. Por conseguinte, o que aqui está em jogo não é um elemento tão-só secundário do “kerygma”, da mensagem fundamental do Evangelho.
Do que estamos a falar é de saber se sim ou não, o encontro de uma pessoa com Cristo pode, por meio da graça de Deus, configurar o caminho da vida cristã, de modo a que este possa estar de acordo com o plano sapiente do Criador. Para melhor se compreender o alcance das mudanças que assim se propõem, basta pensar no que aconteceria se esse raciocínio viesse a ser aplicado a outros casos, como o do médico que pratica abortos, o do político que está ligado a uma rede de corrupção ou o de alguém que, estando em sofrimento, decida recorrer a uma modalidade de suicídio assistido…
P. – Alguns disseram que o efeito mais pernicioso é que tudo isto representa não só um ataque ao ensinamento moral da Igreja, mas também aos Sacramentos. De que modo?
R. – Para além do debate em torno da moral, está a provocar-se na Igreja uma erosão cada vez mais evidente do significado da sua prática sacramental, especialmente no que toca à Penitência e à Eucaristia. O critério decisivo para a admissão aos sacramentos sempre foi o da coerência do modo como uma pessoa vive com os ensinamentos de Jesus. Se agora, em vez disso, o critério decisivo passasse a ser a ausência de culpabilidade subjectiva das pessoas – como o fazem alguns dos intérpretes de “Amoris Laetitia” – não se estaria com isso a mudar também a própria natureza dos sacramentos?
De facto, estes não são encontros privados com Deus nem meios sociológicos de integração comunitária. São sim sinais visíveis e eficazes da nossa incorporação em Cristo e na Sua Igreja, pelos quais e nos quais a Igreja professa publicamente a sua fé e a realiza. Assim, em se assumindo a culpabilidade subjectiva diminuída de uma pessoa ou a ausência de tal culpabilidade como critério decisivo para a admissão aos sacramentos, estar-se-ia a pôr em perigo a própria “regula fidei”, a regra da fé, que os sacramentos proclamam e realizam, não somente por meio de palavras mas também com gestos visíveis. Mais: como poderia a Igreja continuar a ser sacramento universal de salvação, se se esvaziasse de conteúdo o significado próprio dos sacramentos?
P. – Apesar de Vossa Eminência e muitos outros, incluindo mais de 250 académicos e sacerdotes que emitiram uma “correcção filial”, terem claramente sérias apreensões e reservas acerca dos efeitos destas passagens de Amoris Laetitia, e porque, até ao presente, não obteve ainda qualquer resposta por parte do Santo Padre, pode-se dizer que está aqui a dirigir-lhe um último apelo?
R. – Sim, por estas graves razões, um ano depois de se ter tornado públicos os “dubia”, de novo me dirijo ao Santo Padre e a toda a Igreja, sublinhando vigorosamente o quanto é urgente que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, confirme os seus irmãos na fé, com uma manifestação clara da doutrina atinente tanto à moral cristã como ao significado da prática sacramental da Igreja.
Sandro Magister in Settimo Cielo
Desta vez em Paris: Católicos interromperam comemorações protestantes em Igreja Católica
À semelhança do que aconteceu há 2 semanas na Catedral de Bruxelas, um grupo de católicos interrompeu uma comemoração dos 500 anos da 'Reforma' protestante que decorria na igreja de Notre-Dame des Blancs Manteux, em Paris. Uma 'pastora' protestante fazia a sua pregação nessa igreja católica quando foi interrompida por este grupo de rapazes. O método de protesto foi o mesmo: Rezar o Terço de joelhos. E o resultado também: O sacrilégio ficou por ali e os rapazes católicos foram parar à prisão.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
domingo, 12 de novembro de 2017
Debates doutrinais e critérios da teologia católica
Nos ambientes católicos, mas não só, têm-se, ultimamente, multiplicado os artigos, comentários e muitos outros modos de expressão pública veiculados pelos diversos media, sobre temas actuais da doutrina católica - de que a generalizada polémica suscitada pela Exortação Apostólica pós-Sinodal Amoris Laetitia (de 19 de Março de 2016) do Papa Francisco já é um paradigma.
Pode então colocar-se a seguinte questão aos leitores: como podemos nós os leigos, os mais ou os menos ou os assim-assim instruídos na verdade católica, na religião cristã, na doutrina, fazer um juízo acertado sobre um determinado texto que envolva temas de doutrina ou moral? Ou seja, como avaliar se o conteúdo de um texto teológico é propriamente teologia católica?
«Observamos que os noviços nesta doutrina encontram grande dificuldade nos escritos de diferentes autores, seja pelo acúmulo de questões, artigos e argumentos inúteis; seja porque aquilo que lhes é necessário saber não é exposto segundo a ordem da própria disciplina, mas segundo o que vai sendo pedido pela explicação dos livros ou pelas disputas ocasionais; seja ainda pela repetição frequente dos mesmos temas, o que gera no espírito dos ouvintes cansaço e confusão.» (sublinhados meus).
Inutilidades, desordem, disputas, repetições, cansaço, confusão, etc. … Não se pense que estas observações aqui citadas foram escritas nos nossos dias, suscitadas pelas polémicas actuais; não, não foram. O seu autor viveu no século XIII e foi um frade da Ordem dos Pregadores (vulgo dominicanos) de seu nome próprio Tomás: São Tomás de Aquino (1225-1274). São das primeiras palavras do Prólogo da sua obra maior, escrita em latim – a Summae Theologiae – em rigor, traduzir-se-ia por Suma de teologia ou, melhor, Suma da teologia, mas que ficou conhecida por Suma teológica.
«No empenho de evitar esses e outros inconvenientes [atrás sublinhados], tentaremos, confiando no auxilio divino, apresentar a doutrina sagrada sucinta e claramente, conforme a matéria o permitir.» Assim termina São Tomás o curto Prólogo da Suma que escreveu sobretudo, como ele enuncia, para os principiantes (incipientes), os iniciantes (incipientium) e os noviços (novitios).
Mas nem todos, infelizmente, pelas mais diversas razões, teremos acesso a São Tomás de Aquino, aquele que «foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao recto modo de fazer teologia», como confirmou o Papa São João Paulo II na sua encíclica Fides et Ratio (nº 43), de 14 de Setembro de 1998, sobre as relações entre a fé e a razão.
Como escreveu em livro a ser lançado muito brevemente na Itália o Cardeal Gerhard Müller, Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, invocando a necessidade neste momento da Igreja de discutir serenamente os argumentos de uns e outros, «os critérios [para tal discussão serena] devem ser as regras da teologia católica e não aqueles de uma posição que utiliza e instrumentaliza as doutrinas da fé da Igreja apenas como matéria para a construção de uma “outra Igreja”» (1) (sublinhado meu).
Ora, já em 2012, a Comissão Teológica Internacional (CTI) que é um importante organismo da Santa Sé, dependente da Congregação para Doutrina da Fé, veio justamente publicar um documento sobre o que deve ser a teologia para se poder afirmar católica – uma vez que já então se fazia sentir essa necessidade, devido a muitas filosofias e/ou ideologias que se afirmam teologias e até católicas, mas que na sua substância não obedecem aos critérios definidos para tal.
São estes critérios – à luz dos quais é muito útil lermos o que actualmente circula nos infindáveis media, católicos ou não - que já abaixo transcrevo do referido documento da CTI, saído durante o pontificado de Bento XVI, em 2012, e que foi aprovado em detalhe (de forma específica) e mandado publicar pelo então Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé, o Cardeal William Levada.
Os números que precedem cada um dos 12 critérios elencados são os constantes do documento original; os negritos sãos meus:
«Critérios pelos quais teologias diversas e múltiplas possam ser reconhecidas como autenticamente católicas (cf. n.3):
9. Um critério da teologia católica é o reconhecimento da primazia da Palavra de Deus. Deus fala “muitas vezes e de modos diversos”: na criação, através dos profetas e sábios, por meio das Sagradas Escrituras e, de forma definitiva, através da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Verbo feito carne (cf. Hb 1,1-2).
15. Um critério da teologia católica é que ela tem a fé da Igreja como fonte, contexto e norma. A teologia mantém a fides qua e a fides quae unidas. Ela expõe o ensinamento dos apóstolos, a Boa Nova sobre Jesus Cristo, “segundo as Escrituras” (1Cor 15,3-4), como regra e estímulo da fé da Igreja.
19. Um critério da teologia católica é que, precisamente como a ciência da fé, a “fé busca compreender” (fides quaerens intellectum), ela tem uma dimensão racional. A teologia se esforça para compreender o que a Igreja crê, e que pode ser conhecido sub specie Dei. Como scientia Dei, a teologia procura compreender de forma racional e sistemática a verdade salvífica de Deus.
24. Um critério da teologia católica é que ela deve atingir constantemente o testemunho canónico da Escritura e deve promover que tal testemunho esteja ancorado em toda a doutrina e prática da Igreja, uma vez que “toda a pregação da Igreja, como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura”. A teologia deve esforçar-se para abrir amplamente a Escritura aos fiéis cristãos, de modo que estes possam entrar em contacto com a Palavra viva de Deus (cf. Hb 4,12).
32. A fidelidade à Tradição Apostólica é um critério da teologia católica. Essa fidelidade requer uma recepção activa e com discernimento dos vários testemunhos e expressões da Tradição Apostólica até agora em curso. Isso implica o estudo da Sagrada Escritura, da liturgia e dos escritos dos Padres e Doutores da Igreja, além da atenção ao ensinamento do Magistério.
36. Atenção ao sensus fidelium é um critério para a teologia católica. A teologia deve esforçar-se para descobrir e articular com precisão no que os fiéis católicos realmente acreditam. Ela deve falar a verdade no amor, para que os fiéis possam amadurecer na fé, e não serem “joguetes das ondas e agitados por todo vento de doutrina” (Ef 4,14-15).
44. Dar adesão responsável ao Magistério em suas várias gradações é um critério da teologia católica. Os teólogos católicos devem reconhecer a competência dos bispos e, especialmente, do colégio dos bispos com o chefe, o Papa, para dar uma interpretação autêntica da Palavra de Deus transmitida na Escritura e na Tradição.
50. Um critério da teologia católica é que ela deve ser exercida em colaboração profissional, na oração e na caridade, com toda a comunidade de teólogos católicos na comunhão da Igreja, em espírito de estima e apoio mútuos, atenta tanto às necessidades e aos comentários dos fiéis quanto à orientação dos pastores da Igreja.
58. Um critério da teologia católica é que ela deve estar em constante diálogo com o mundo. Ela deve ajudar a Igreja a ler os sinais dos tempos, iluminados pela luz que vem da revelação divina, e nisso fazer ganhar em sua vida e missão.
73. Um critério da teologia católica é que ela se deve esforçar para fazer uma apresentação científica e racional das verdades da fé cristã. Para isso, necessita fazer uso da razão e deve reconhecer a forte relação entre a fé e a razão, em primeiro lugar razão filosófica, de modo a superar tanto o fideísmo quanto o racionalismo.
85. Um critério da teologia católica é que ele tenta integrar uma pluralidade de questões e métodos para o projecto unificado do intellectus fidei, e insiste na unidade da verdade e, portanto, sobre a unidade fundamental da própria teologia. A teologia católica reconhece os métodos próprios de outras ciências e os utiliza criticamente em sua própria pesquisa. Ela não se isola da crítica e está aberta ao diálogo científico.
99. Um critério da teologia católica é que ela deve procurar e alegrar-se com a sabedoria de Deus, que é loucura para o mundo (cf. 1Cor 1,18-25; 1Cor 2,6-16). A teologia católica deve enraizar-se na grande tradição sapiencial da Bíblia, conectar-se com as tradições do cristianismo do Oriente e do Ocidente, e procurar estabelecer uma ponte com todas as tradições de sabedoria. Na busca da verdadeira sabedoria no estudo do Mistério de Deus, a teologia reconhece a prioridade absoluta de Deus; pretende não possuir, mas ser possuída por Deus. Ela deve, portanto, estar atenta ao que o Espírito diz às Igrejas, por meio do “conhecimento dos santos”. A teologia comporta um esforço para a santidade e uma consciência cada vez mais profunda da transcendência do mistério de Deus».
Será que o que lemos para nos instruir, aprofundar ou esclarecer a nossa fé cristã e católica segue estes critérios? Que eles possam então servir-nos também a nós leigos de orientação prática e segura quando acompanhamos os debates e as polémicas em causa, pois penso que constituem um excelente guia para um juízo verdadeiramente católico, sobre o que possamos ler e ouvir.
A versão integral, em português, do documento, intitulado Teologia Hoje: Perspectivas, Princípios e Critérios (28 pp), encontra-se no endereço abaixo, para os mais empenhados e corajosos:
João Duarte Bleck, médico e leigo Católico
1 – Ver o documento Così scrisse Müller, em La Nuova Bussola Quotidiana, de 09-11-2017, em:
http://www.lanuovabq.it/it/cosi-scrisse-mueller, onde aquele blog publica algumas extensas passagens relevantes do texto com que o cardeal introduz o livro de Rocco Buttiglione, Risposte amichevoli ai critici di Amoris Laetitia (Edizioni Ares, Novembro 2017).
sábado, 11 de novembro de 2017
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
"Não existe qualquer texto da Tradição que sustente a Comunhão na mão”
Monsenhor Nicola Bux foi entrevistado por Bruno Volpe, do Pontifex. O perito em liturgia desenvolveu o tema da Comunhão na mão, do ponto de vista histórico e das implicações na devoção dos fiéis.
Monsenhor Bux, qual é a maneira mais correta de comungar?
Mons. Bux: Diria que são duas. Há a posição de pé, recebendo a partícula na boca, ou de joelhos. Não vejo uma terceira via.
Falemos da posição vertical…
Mons. Bux: Está bem, não tenho nada contra ela. O importante é que o fiel esteja intimamente consciente do que vai receber, isto é, que não se aproxime da Comunhão com uma despreocupação que demonstra imaturidade e absoluta distância de Deus.
Comunhão de pé… mas o que é melhor?
Mons. Bux: Veja, até a Comunhão de pé, se feita com devoção, compunção e sentido do sagrado, não está mal. Seria belo e conveniente, sem dúvida, que a Comunhão (inclusive quando de pé) fosse precedida por um sinal formal de reverência, ou seja, a cabeça coberta para as mulheres, o sinal da cruz ou uma inclinação de amor.
Mas, por que é que tantas vezes as pessoas se aproximam da Comunhão como se fosse um buffet?
Mons. Bux: Gosto dessa expressão e em parte é também correta. Muitos levantam-se mecanicamente e não sabem, e nem sequer imaginam, o que recebem. Pensa-se que a participação na Missa inclui automaticamente a Comunhão, mas apenas se devem aproximar aqueles que estão realmente na graça de Deus.
O Papa Bento XVI administrava a Comunhão de joelhos…
Mons. Bux: Fez muito bem. Considero que o ajoelhar-se para receber a Comunhão ajuda a recolher o espírito e a compreender mais o mistério. Ajoelhar-se diante do Corpo de Cristo é um acto de amor e de humildade agradável a Deus, que nos faz reavaliar este sentido do sagrado actualmente à deriva e perdido, ou, ao menos, diminuído.
Em resumo, a Comunhão de joelhos ajuda o espírito…
Mons. Bux: Certamente, favorece o recolhimento e a espiritualidade. Considero que a posição de joelhos para receber a Comunhão é a que mais responde ao sentido do mistério e do sagrado.
E a comunhão na mão?
Mons. Bux: Lamento, mas não existe nenhum texto da Tradição que a sustente. Nem sequer o "tomai e comei todos": não há nenhuma menção da mão e, se quisermos, os apóstolos eram sacerdotes e tinham o direito à Comunhão na mão. Os orientais não a permitem.
Numa igreja de Roma, a da Caravita, geralmente muito concorrida especialmente pela comunidade católica mexicana, um sacerdote jesuíta faz os fiéis tomarem pessoalmente a partícula e molhá-la no cálice. É correto?
Mons. Bux: Trata-se de um abuso gravíssimo e intolerável, do qual faz bem em me avisar e do qual o bispo deve tomar consciência e conhecimento. Os parágrafos 88 e 94 da Redemptionis Sacramentum afirmam que não é permitido aos fiéis tomar por si mesmos a hóstia ou passar o cálice de mão em mão. Creio que a Comunhão não é válida. Analisarei o problema, mas estamos diante de um abuso inadmissível que deve ser reprimido o quanto antes.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Franciscano escreve carta ao Papa Francisco
Um Franciscano Capuchinho resolveu escrever uma carta ao Papa Francisco acerca das suas inquietações sobre o estado da Igreja. Thomas G. Weinandy é um teólogo, membro da Comissão Teológica Internacional e era, até há pouco tempo, consultor teológico da Conferência Episcopal dos Estado Unidos (foi obrigado a demitir-se depois de ter tornado pública esta carta).
O Padre Weinandy conta que estava bastante indeciso entre escrever e não escrever esta carta. Rezou por esse assunto nas Basílicas Papais em Roma, especialmente na Basílica de São Pedro. Depois disso pediu um sinal inequívoco a Nosso Senhor que esta carta correspondia à vontade de Deus. Contra todas as probabilidades o sinal que pediu aconteceu e, no dia de Santo Inácio de Loyola (31 de Julho), escreveu o seguinte texto dirigido ao Papa:
Santidade,
Escrevo esta carta com amor pela Igreja e sincero respeito pela vossa cátedra. Sois o vigário de Cristo na terra, o pastor do Seu rebanho, o sucessor de São Pedro e, portanto, a rocha sobre a qual Cristo irá construir a sua Igreja. Todos os católicos, clérigos e leigos, devem olhar para vós com lealdade e obediência filial fundamentadas na verdade. A Igreja volta-se para vós num espírito de fé, com a esperança de que vós a guieis no amor.
No entanto, Vossa Santidade, uma confusão crónica parece marcar o vosso pontificado. A luz da fé, da esperança e do amor não está ausente, mas muitas vezes é obscurecida pela ambiguidade das vossas palavras e acções. Isto promove entre os fiéis um crescente desconforto. Compromete sua capacidade de amar, a sua alegria e a sua paz. Permiti que eu ofereça alguns exemplos breves.
Primeiro, há o discutido Capítulo 8 de Amoris Laetitia. Não necessito compartilhar as minhas próprias preocupações sobre o seu conteúdo. Outros, não só teólogos, mas também cardeais e bispos, já o fizeram. A principal fonte de preocupação é a forma do vosso magistério. Em Amoris Laetitia, as vossas orientações parecem por vezes intencionalmente ambíguas, convidando tanto uma interpretação tradicional do magistério católico sobre o casamento e o divórcio, como também uma interpretação que pode implicar uma mudança nesse magistério.
Como vós observais sabiamente, os pastores devem acompanhar e encorajar pessoas em ‘casamentos’ irregulares; mas a ambiguidade persiste sobre o que realmente significa esse "acompanhamento". Ensinar com uma aparentemente intencional falta de clareza inevitavelmente corre o risco de pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade. O Espírito Santo é dado à Igreja, e particularmente a vós mesmo, para dissipar o erro e não para o promover. Mais, somente onde existe a verdade pode haver amor autêntico, pois a verdade é a luz que liberta mulheres e homens da cegueira do pecado, uma escuridão que mata a vida da alma.
No entanto, vós pareceis censurar e até mesmo zombar dos que interpretam o Capítulo 8 de Amoris Laetitia de acordo com a tradição da Igreja [apelidando-os de] lançadores de pedras farisaicos que encarnam um rigorismo implacável. Esse tipo de calúnia é estranho à natureza do ministério petrino. Alguns dos vossos conselheiros parecem lamentavelmente envolver-se em acções semelhantes. Esse comportamento dá a impressão de que os vossos pontos de vista não podem sobreviver ao escrutínio teológico e, portanto, devem ser sustentados por argumentos ad hominem.
Em segundo lugar, muitas vezes o vosso comportamento parece diminuir a importância da doutrina da Igreja. Uma e outra vez, vós retratais a doutrina como morta e livresca, e longe das preocupações pastorais da vida quotidiana. Os vossos críticos foram acusados, nas vossas próprias palavras, de fazer da doutrina uma ideologia. Mas é precisamente a doutrina cristã - incluindo as cuidadas distinções feitas em relação a crenças centrais como a natureza trinitária de Deus; a natureza e o fim da Igreja; a Encarnação; a redenção; e os sacramentos - que liberta as pessoas das ideologias mundanas e assegura que eles estão realmente a pregar e ensinar o autêntico Evangelho que dá vida. Aqueles que desvalorizam as doutrinas da Igreja separam-se de Jesus, o autor da verdade. O que eles possuem, e apenas podem possuir, é uma ideologia - que está em conformidade com o mundo do pecado e da morte.
Em terceiro lugar, os católicos fiéis só podem ficar desconcertados perante a escolha de alguns bispos, homens que parecem não apenas abertos àqueles defendem pontos de vista contrários às crenças cristãs, mas que os apoiam e até defendem. O que escandaliza os crentes, e até alguns bispos, não é apenas o facto de que vós designastes estes homens para serem pastores da Igreja, mas que pareceis permanecer em silêncio perante o seu magistério e práticas pastorais. Isto enfraquece o zelo das muitas mulheres e homens que defenderam os autênticos ensinamentos católicos durante longos períodos de tempo, muitas vezes arriscando a sua própria reputação e bem-estar. Como resultado, muitos dos fiéis, que incorporam o sensus fidelium, estão a perder a confiança no seu pastor supremo.
Em quarto lugar, a Igreja é um corpo, o corpo místico de Cristo, e vós fostes investido pelo Senhor da obrigação de promover e fortalecer a sua unidade. Mas as vossas acções e palavras muitas vezes parecem ter o objetivo de fazer o contrário. Encorajar uma forma de "sinodalidade" que permite e promove várias opções doutrinais e morais dentro da Igreja só poderá levar a maior confusão teológica e pastoral. Essa sinodalidade é imprudente e, na prática, funciona contra a união colegial entre os bispos.
Santo Padre, isto leva-me à minha última preocupação. Muitas vezes falastes sobre a necessidade de transparência dentro da Igreja. Vós frequentemente encorajastes, particularmente durante os dois últimos sínodos, todas as pessoas, especialmente os bispos, a expressarem as suas opiniões sem medo do que o papa possa pensar. Mas haveis reparado que a maioria dos bispos de todo o mundo tem permanecido em silêncio? Por que razão isto acontece? Os bispos aprendem depressa, e o que muitos aprenderam durante o vosso pontificado não é que vós estais aberto a críticas, mas antes que vos ressentis delas. Muitos bispos permanecem em silêncio porque desejam ser leais para convosco e, portanto, não expressam - pelo menos publicamente; em particular, é outra questão - as preocupações que o vosso pontificado suscita. Muitos temem que se expressarem as suas opiniões serão marginalizados ou pior.
Muitas vezes perguntei a mim próprio: "Por que razão permitiu Jesus que tudo isto acontecesse?" A única resposta que me vem à mente é que Jesus quer manifestar quão fraca é a fé de muitos dentro da Igreja, mesmo entre demasiados dos seus bispos. Ironicamente, o vosso pontificado deu aos que têm visões teológicas e pastorais prejudiciais a licença e a confiança para trazer à luz a sua escuridão anteriormente escondida. Ao reconhecer esta escuridão, a Igreja precisará humildemente de se renovar, e assim continuar a crescer em santidade.
Santo Padre, rezo por vós constantemente e continuarei a fazê-lo. Que o Espírito Santo vos conduza à luz da verdade e à vida de amor para que possais dissipar a escuridão que agora esconde a beleza da Igreja de Jesus.
Sinceramente em Cristo,
Thomas G. Weinandy, O.F.M., Cap.
Papa Francisco critica os que não largam o telefone durante a Missa
terça-feira, 7 de novembro de 2017
A campanha injusta contra o Cardeal Burke
Criou bastante burburinho a visita do Cardeal Burke a Portugal e as Missas que celebrou. Diversos sacerdotes católicos, com o apoio de alguns leigos, demonstraram a sua revolta publicamente nas redes sociais. O nível das prosas - em geral bastante ofensivas - foi abaixo da Fossa das Marianas. Mas de que se queixam, ao certo, esses sacerdotes?
Queixam-se de excesso de protagonismo do Cardeal, clamam que "aquela Missa" não faz sentido e é ilegal. Começando pelo fim, "aquela Missa" está perfeitamente de acordo com a lei da Igreja. A primeira parte da afirmação é auto-contraditória porque "naquela Missa" o protagonista é Deus, já que todos estão virados para Ele, por isso o padre assume um papel secundário, de instrumento. É exactamente o contrário das Missas nas nossas paróquias onde o protagonista é o padre. Todos estão virados para ele e o padre é o animador, o que improvisa, o que entretém a "plateia". O Cardeal Ratzinger alertou para este problema no livro 'Introdução ao Espírito da Liturgia'. Depois há a questão do silêncio. "Naquela Missa" há bastante silêncio, o que ajuda muito a rezar. O mesmo já não se pode dizer das Missas a que estamos habituados.
Confessam-se escandalizados com a (suposta) desobediência à "Igreja dos nossos dias" e manifestam-se veementemente contra os paramentos que usou o Cardeal, quando aquela indumentária está de acordo com o que prescreve o Cerimonial dos Bispos e foi usada por um sem-número de santos. Já as roupas que esses sacerdotes apresentam diariamente estão em contradição directa com o que a Igreja ordena aos seus sacerdotes. Como é que alguém que é visivelmente desobediente vem acusar os outros de desobediência enquanto estão a cumprir o que a Igreja prescreve? Mistério.
Dizem, depois, que Jesus não usou capas nem rendas. Mas Jesus também não usou sapatos de vela nem polos da Ralph Lauren ou da Lacoste; nem sequer as, tão populares entre o clero, camisas aos quadradinhos. Se é para imitar Jesus em tudo força aí nas sandálias e túnicas! Dica: A batina é relativamente parecida com uma túnica.
Jesus também não usou facebook, por isso - em nome da coerência! - façam o favor de manifestar a vossa revolta em pergaminhos. Demora mais tempo mas é "à maneira do Evangelho".
Lendo os seus manifestos percebemos também que estes sacerdotes têm dons sobrenaturais: Basta olharem para uma fotografia e automaticamente percebem que aquela pessoa é orgulhosa. Têm o dom de perscrutar os corações, apenas olhando para uma imagem, e fazem um julgamento imediato sem apelo nem agravo. Não deixa de ser curioso vindo de quem repete 'ad nauseam': "Quem sou eu para julgar?". Seja como for é um dom que certamente lhes será bastante útil durante as longas horas que passam no confessionário a ouvir os penitentes.
Além disso têm um dom que inveja a qualquer inspector das finanças: Olhando para uma fotografia conseguem saber imediatamente quanto dinheiro a pessoa tem no banco, se é rica ou pobre. Como a Igreja é só para os pobres, dizem, expulsam imediatamente os ricos como se fossem cães sarnentos. Afinal esta "Igreja da Misericórdia" que proclamam aos 4 ventos tem lugares limitados.
Como se tudo isto não bastasse ainda usam o Papa Francisco como arma de arremesso contra o pobre Cardeal. Mas o Papa Francisco, há cerca de 1 mês, nomeou o Cardeal Burke juiz do Tribunal da Assinatura Apostólica, o mais importante tribunal da Igreja.
Os muitos portugueses que estiveram com o Cardeal durante estes dias - que tiveram a oportunidade de rezar com ele, falar com ele, pedir-lhe favores, mais que não fosse uma fotografia - foram os que ficaram mais chocados e escandalizados com os textos que leram. Eles não conhecem o Cardeal Burke soberbo, ávido de riqueza, desejoso de fausto e afastado das pessoas que aqueles sacerdotes portugueses descreveram. Não conhecem porque não existe!
Quem esteve com ele pôde testemunhar a sua grandeza de coração, a sua enorme humildade, o seu cuidado com todas as pessoas e acima de tudo o seu enorme amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais do que eu, que digam eles de sua justiça.
João Silveira
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
Cardeal Burke celebra Missa Pontifical em Fátima
No passado dia 3 de Novembro, o Cardeal Raymond Burke celebrou uma Missa Pontifical na Basílica da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima. Esta celebração deu-se em virtude da peregrinação do Instituto Cristo Rei Sumo Sacerdote por ocasião do centenário das aparições em Fátima.
A Santa Missa foi belíssima - como se pode ver nas fotografias - e contou com a presença de mais de 4000 fiéis. O Instituto Cristo Rei Sumo Sacerdote, que conta já com vários seminaristas portugueses e brasileiros, celebra exclusivamente a liturgia tradicional.
sábado, 4 de novembro de 2017
A efeméride luterana
Tenho acompanhado, sobretudo desde há um ano, o recente empenho da Igreja católica na efeméride dos 500 anos do gesto que deu início ao luteranismo, ou seja, a suposta (porque há quem desconfie da sua veracidade histórica) afixação pelo monge agostinho alemão Martin Luter (1483-1546) das suas celebres 95 Teses sobre as indulgências na porta da igreja do castelo de Vurtemberga, no dia 31 de Outubro de 1517. De qualquer maneira, terá sido a data em que as tornou públicas.
Parafraseando o ditado popular, começo por dizer que de crentes e teólogos todos temos (ou poderíamos ter) um pouco, para além de loucos. Aconteceu assim, que li certamente alguns dos principais documentos e declarações, com origem católica institucional, produzidos, entretanto, para o efeito da efeméride em causa; mas também li alguns outros documentos anteriores definidores da visão católica da separação então começada, desde as bulas de Leão X (Papa de 11-03-1513 a 01-12-1521) dos anos 1520 e 1521, até alguns dos escritos mais relevantes da Igreja relativos ao ecumenismo (o movimento que tem como finalidade a «restauração da unidade de todos os cristãos») saídos desde o Concílio Vaticano II até agora.
É completamente impossível num artigo destes transcrever as citações extraídas de muitos desses documentos que, penso, seriam muito oportunas recordar nesta ocasião e dia. Mas no final deste artigo segue uma lista de alguns deles, com um ou outro excerto e/ou pequeno comentário meu, além de alguns sublinhados, para quem queira explorá-los através da Internet.
Entretanto, na autorizada revista dos jesuítas La Civiltà Cattolica, no seu quaderno 4016, publicou-se um artigo intitulado Martin Lutero, cinquecento anni dopo / Martinho Lutero quinhentos anos depois, onde se pode ler o seguinte (sublinhados meus):
Il 31 ottobre 2016 papa Francesco ha partecipato alla preghiera ecumenica nella cattedrale di Lund, per l’apertura dell’anno evocativo dell’evento. Dopo secoli di incomprensioni, di contrasti e di controversie, per la prima volta un Papa si è recato di persona alla celebrazione dell’anniversario della Riforma. In quell’occasione, il Papa ha definito Lutero un «riformatore» e ha riconosciuto l’errore della Chiesa nei suoi confronti.
Eppure nel mondo cattolico, Martin Lutero è stato considerato per secoli «l’eretico» per antonomasia. Oggi, a cinquecento anni di distanza, la ricerca storica e gli studi recenti portano a chiederci: «eretico» lo era davvero? Onestà e amore per la verità dovrebbero sostenere la ricerca e guidare il nostro sguardo: è infatti necessaria e urgente una rilettura del passato, libera da luoghi comuni e da «vulgate» trasmesse acriticamente; libera anche da posizioni e pregiudizi affermatisi lungo i secoli a scapito del vero.
[…] A cinque secoli dalla Riforma è possibile volgersi a Lutero con uno sguardo nuovo, per coglierlo nella sua verità e nel suo contesto. Le Tesi di Wittenberg non sono né una sfida né una ribellione all’autorità, ma la proposta di rinnovamento dell’annuncio evangelico, nel desiderio sincero di una «riforma» nella Chiesa. La questione dirimente è stata forse la pretesa, da parte sia della Chiesa di Roma sia di Lutero, di incarnare in toto la verità e di esserne dispensatori. Eppure, nonostante tutto, non si può negare il ruolo che Lutero ha avuto come testimone della fede.
E como não bastasse tanto arrojo, tivemos hoje a surpresa da divulgação de um selo emitido pelos serviços filatélicos da Cidade do Vaticano onde aos lados de um Cristo crucificado, em vez das tradicionais e evangélicas figuras de Maria, Mãe de Jesus, e São João, aparecem as figuras, à direita de Cristo, a de Martinho Lutero com a Bíblia - ao que diz uma explicação, arrependido - e do lado esquerdo, a do seu sequaz Philipp Melanchethon (1497-1560), com a sua Confissão [luterana] de Augsburgo. Se o caso fosse para gracinhas daria para perguntar se se trata de uma nova figuração dos dois ladrões: o arrependido e o contumaz?
Apenas questiono: como conjugar, com um mínimo de coerência racional, o conteúdo substancial e condutor dos diversos pronunciamentos constantes dos documentos abaixo elencados? Mesmo tendo em conta o devir dos séculos, que é como quem diz das épocas históricas; e tendo em conta o carácter diferentemente autoritativo das diversas instâncias de onde provêm.
Como conciliar a vigorosa condenação dos 41 erros de Lutero que motivaram a sua excomunhão pelo Papa Leão X no primeiro quartel do século XVI (cf. Docs. 2 e 3 abaixo) – dos quais não consta ter-se alguma vez retractado - com «as perspectivas sobre as quais hoje podemos dizer que estamos de acordo» (cf. Doc. 21 abaixo)?
Um artigo do Cardeal Muller deste mesmo mês de Outubro, é muito esclarecedor. Com efeito, começa ele por afirmar, sem equívocos (sublinhados meus):
«C’è grande confusione oggi nel parlare di Lutero, e bisogna dire chiaramente che dal punto di vista della teologia dogmatica, dal punto di vista della dottrina della Chiesa non fu affatto una riforma, ma una rivoluzione, cioè un cambiamento totale dei fondamenti della fede cattolica. Non è realistico sostenere che la sua intenzione fosse solo di lottare contro alcuni abusi delle indulgenze o contro i peccati della Chiesa rinascimentale.»
Quanto a outras recentes declarações cardinalícias mais conformadas ao espírito da nova e agora correcta hermenêutica da história, dispenso-me de as referir, pois abundam já os comentários.
Como se relaciona em tudo isto o conteúdo da perene fé católica com as perenes regras da razão? Onde está aí, nesse evoluir, a unidade e integridade e coerência do Depósito da Fé com o Verbo, o Logos eterno? Andou a Igreja substancialmente enganada durante quase cinco séculos dos mais de vinte que já conta de idade? Esteve ela in toto apartada da verdade?
O que dizer aos simples crentes das confissões cristãs com origem no gesto de Lutero, de tempos remotos ou contemporâneos e que nenhuma culpa tenham pela tradição cristã em que foram gerados e vivem?
- Deixem-se estar como estão, sem qualquer necessidade de se virarem para a Igreja que Cristo fundou, sem com Ela e n’Ela partilharem a plenitude da Fé e a totalidade dos sacramentos, na obediência à sucessão apostólica. Não dizer isto, mas antes o seu contrário - venham, integrem-se - será proselitismo? Será pecado?
A verdade, agora, é, como escreveu já em 1946 o Padre Garrigou-Lagrange, uma engenhosa “conformidade da mente à vida”, aceite esta de modo puramente pragmático; e não mais e tão simplesmente é a racional “conformidade do intelecto à realidade” do ser em si, das coisas em si mesmas?
Estaremos agora, porventura, num ecumenismo de simples fusão entre iguais e de compromisso de tipo negocial, almejando uma unidade da Igreja que se julga ainda não (nem nunca) realizada na história? Ou seguimos um ecumenismo integrador na única Igreja de Cristo, a mesma que subsiste na Igreja católica (cf. LG, 8) e onde se encontra já a unidade e a plenitude dos meios da salvação – como o declara explicitamente o Concílio (cf. UR, 3-4) - ainda que a unidade da Igreja esteja obviamente sempre sujeita a crescer e ao dever de ser cada vez mais perfeita, enquanto peregrina na terra?
Estamos a lidar com uma comunidade religiosa bimilenária apenas e simplesmente humana? Ou acreditamos, com todas as consequências desse acto de fé pessoal, que nela também age Deus, se revela Deus, se vive a vida de Deus nos seus sete sacramentos; e que é visivelmente governada por uma hierarquia divinamente instituída, a qual não pode enganar-se sempre e totalmente, durante cinco séculos?
“Pela primeira vez, luteranos e católicos observaram a Reforma desde uma perspectiva ecuménica. O que permitiu uma nova visão sobre os acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”, assinalam os signatários da declaração oficial publicada hoje, precisamente 500 anos depois do gesto “iniciático” de Lutero (cf. Doc. 22 abaixo).
Pergunto ainda: descobriram-se algures irrefutáveis documentos históricos do século XVI que se desconheciam? Se sim, porque razão não se divulgaram convenientemente para o grande público ao longo deste ano? Houve em consequência algum sério avanço da historiografia católica, protestante ou até neutra, sobre este tema, para se poder falar com honestidade intelectual de uma “nova visão dos acontecimentos do século XVI”?
De que olhares provem esta referida “nova visão”? Não é a esta atitude de revisão da história conforme a conveniência política aquilo a que se chama revisionismo? Há agora, desde há um ano, um novo tipo de ecumenismo que se apresentou à urbe e ao mundo “pela primeira vez” desde o Concílio Vaticano II? Se sim, em que consiste e quais os seus fundamentos?
“Suspiros, ais e dores: o meu coração sente tudo e a minha boca não diz nada”, proclama o prudente e sábio provérbio popular que ainda hoje uma Colega me recordava. Quem me dera ter essa sabedoria popular! Mas eu – graças a Deus - não sou provérbio; sou gente e crente! E por isso falo, escrevo e pergunto, pois, gostava de entender!
31 de Outubro-1 de Novembro de 2017
João Duarte Bleck, médico e leigo Católico
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Lista dos documentos referidos atrás no terceiro paragrafo
Do século XVI:
1. Decreto Cum postquam de Leão X de 9 de Novembro de 1518, ao Cardeal Caetano de Vio, onde o Papa expõe a doutrina da Igreja sobre as indulgências, nove dias depois do gesto de Martinho Lutero;
2. Bula Exsurge Domine do Papa Leão X, de 15 de Junho de 1520, sobre 41 erros declarados de Martinho Lutero e onde o Papa apela à sua retractação; bula esta, queimada publicamente por Lutero a 10 de Dezembro do mesmo ano;
3. Bula Decet Romanum Pontificem do mesmo Papa Leão X, de 03 de Janeiro de 1521, onde decreta a excomunhão de Martinho Lutero e seus sequazes contemporâneos;
Do Concilio Vaticano II, ocorrido nos pontificados de João XXIII e Paulo VI:
4. Decreto Unitatis Redintegratio, sobre a promoção da restauração da unidade entre todos os cristãos (o Ecumenismo), de 21 de Novembro de 1964;
Do pontificado de João Paulo II, Bento XVI e Francisco:
5. Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992: nn 813-822 sobre a unidade da Igreja, as feridas dessa unidade e o caminho da unidade; ver também os nn 1398-1400, sobre a Eucaristia e a unidade dos cristãos;
6. Nota sobre a expressão «Igrejas irmãs», da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), de 30 de Junho de 2000, especialmente o indicado na secção II, nn9-12;
7. Memória e Reconciliação: a Igreja e as culpas do passado, da Comissão Teológica Internacional, do ano 2000, especialmente o nº 5.2. A divisão dos cristãos;
8. Declaração Dominus Jesus, da CDF, sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, de 06 de Agosto de 2000; sobretudo a propósito do ecumenismo, importa a secção IV, nn 16-17;
9. Discurso do papa Bento XVI em Colónia por ocasião do encontro ecuménico, dia 19 de Agosto de 2005, em que desenvolve a questão da tríplice existência na Igreja do cânone das Escrituras, da sucessão apostólica e da regra da fé como chave interpretativa;
10. Respostas a [cinco] questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja, da CDF, de Junho de 2007; e repectivo comentário e entrevista do secretário da CDF, de Julho de 2007; onde se esclarece a subsistência da mesma Igreja instituída por Cristo na Igreja católica, (subsistit in Ecclesia catholica);
11. Nota Doutrinal Sobre Alguns aspectos da Evangelização, da CDF, de 03 de Dezembro de 2007; sobretudo a secção IV, sobre algumas implicações ecuménicas da evangelização, muito oportunas face a eventuais receios de proselitismo;
12. Discurso do Papa Bento XVI à sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), de 31 de Janeiro de 2008, onde o Papa reforça o conteúdo doutrinal dos documentos aqui referidos acima com os nn 10 e 11;
13. Discurso do Papa Bento XVI no encontro com os representantes do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha, de 23 de Setembro de 2011, onde comenta as inquietações de Lutero, e questões que se colocam ao ecumenismo perante o secularismo actual;
14. From Conflict to Comunion, Lutheran-Catholic Common Commemoration of the Reformation in 2017, Report of the Lutheran-Roman Catholic Commission on Unity: documento da Federação Luterana Mundial e do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, publicado em 2013;
15. Audiência do Papa Francisco aos participantes na Conferência dos Secretários da Christian World Communions, dia 12 de Outubro de 2016, onde, fazendo referência ao «ecumenismo de sangue», afirma que para os perseguidores dos cristãos a denominação ou comunidade eclesial a que pertencem é indiferente, acrescentando: «O inimigo não se engana, sabe bem reconhecer onde está Jesus»;
16. Visita do Santo Padre Francisco à Comunidade Evangélica Luterana de Roma, dia 15 de Novembro de 2015: como compreender, à luz do nº 22 do Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Vaticano II, aliás citado no nº 1400 do Catecismo da Igreja Católica - que refere o motivo da impossibilidade, por parte da Igreja Católica, da intercomunhão eucarística com as comunidades saídas da Reforma - o tom da resposta do Papa Francisco a uma Senhora luterana casada com um católico? Afirmou o Papa, no final da sua resposta: «Alla sua domanda Le rispondo soltanto con una domanda: come posso fare con mio marito, perché la Cena del Signore mi accompagni nella mia strada? E’ un problema a cui ognuno deve rispondere. Ma mi diceva un pastore amico: “Noi crediamo che il Signore è presente lì. E’ presente. Voi credete che il Signore è presente. E qual è la differenza?” – “Eh, sono le spiegazioni, le interpretazioni…”. La vita è più grande delle spiegazioni e interpretazioni. Sempre fate riferimento al Battesimo: “Una fede, un battesimo, un Signore”, così ci dice Paolo, e di là prendete le conseguenze. Io non oserò mai dare permesso di fare questo perché non è mia competenza. Un Battesimo, un Signore, una fede. Parlate col Signore e andate avanti. Non oso dire di più.»;
17. Catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, dia 20 de Janeiro de 2016, em plena semana de oração pela unidade dos cristãos. Na síntese lida pelo leitor, em português, é afirmado que «somos convidados a redescobrir a importância do dom recebido no Baptismo, vínculo sacramental da unidade que vigora entre todos os discípulos de Cristo. Todos nós, católicos, ortodoxos e protestantes recebemos o mesmo e único Baptismo […].»;
18. Audiência do Papa Francisco aos participantes numa peregrinação de luteranos, dia 13 de Outubro de 2016, perante a presença, inédita no Vaticano, de uma imagem do heresiarca Martinho Lutero colocada numa mesa no palco;
19. Homilia do Papa Francisco na Oração ecuménica comum na Catedral Luterana de Lund, dia 31 de Outubro de 2016: «[…] Temos a possibilidade de reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos que impediram frequentemente de nos compreendermos uns aos outros. […] Também nós devemos olhar, com amor e honestidade, para o nosso passado e reconhecer o erro e pedir perdão, só Deus é o juiz. E, com a mesma honestidade e amor, temos de reconhecer que a nossa divisão se afastava da intuição originária do povo de Deus, cujo anélito é naturalmente estar unido, e, historicamente, foi perpetuada mais por homens de poder deste mundo do que por vontade do povo fiel, que sempre e em toda parte precisa de ser guiado, com segurança e ternura, pelo seu Bom Pastor. Entretanto havia, de ambos os lados, uma vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé, mas estamos conscientes também de que nos fechamos em nós mesmos com medo ou preconceitos relativamente à fé que os outros professam com uma acentuação e uma linguagem diferentes.
[…] Com este novo olhar ao passado, não pretendemos fazer uma correcção inviável do que aconteceu, mas «contar essa história de maneira diferente» (Comissão Luterana-Católica Romana para a Unidade, Do conflito à comunhão, 17 de Junho de 2013, 16).
[…] Com gratidão, reconhecemos que a Reforma contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja.
[…] A experiência espiritual de Martinho Lutero interpela-nos lembrando-nos que nada podemos fazer sem Deus.»;
20. Declaração Conjunta do Papa Francisco e do Presidente da federação Mundial Luterana, por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana da Reforma, em Lund (na Suécia), a 31 de Outubro de 2016; «[…] Ao mesmo tempo que estamos profundamente gratos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, também confessamos e lamentamos diante de Cristo que luteranos e católicos tenham ferido a unidade visível da Igreja. Diferenças teológicas foram acompanhadas por preconceitos e conflitos, e instrumentalizou-se a religião para fins políticos. A nossa fé comum em Jesus Cristo e o nosso Baptismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação. Enquanto o passado não se pode modificar, aquilo que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados. Rezamos pela cura das nossas feridas e das lembranças que turvam a nossa visão uns dos outros. Rejeitamos categoricamente todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar.
[…] Muitos membros das nossas comunidades anseiam por receber a Eucaristia a uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Temos experiência da dor de quantos partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na Mesa Eucarística. Reconhecemos a nossa responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que o nosso povo tem de ser um só em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objectivo dos nossos esforços ecuménicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico.»;
21. Discurso do Papa Francisco à Delegação ecuménica da Finlândia por ocasião da Festa de Santo Henrique, dia 19 de Janeiro de 2017, onde declara, comentando a visita a Lund de 31 de Outubro de 2016: «Esta comemoração conjunta da Reforma teve um significado importante a nível humano e teológico-espiritual. Depois de cinquenta anos de diálogo ecuménico oficial entre católicos e luteranos, conseguimos expor claramente as perspectivas sobre as quais hoje podemos dizer que estamos de acordo. Por isto estamos gratos. Ao mesmo tempo mantemos vivo no coração o arrependimento sincero pelas nossas culpas. Neste espírito, em Lund foi recordado que a intenção de Martinho Lutero, há quinhentos anos, era renovar a Igreja, não dividi-la»;
22. Joint Statement by the Lutheran World Federation and the Pontifical Council for Promoting Christian Unity on the conclusion of the year of the common commemoration of the Reformation, 31st October 2017 / Declaração Conjunta da Federação Luterana Mundial e do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos na conclusão do ano da comemoração da Reforma, 31 de Outubro de 2017:
«On 31st of October 2017, the final day of the year of the common ecumenical Commemoration of the Reformation, we are very thankful for the spiritual and theological gifts received through the Reformation, a commemoration that we have shared together and with our ecumenical partners globally. Likewise, we begged forgiveness for our failures and for the ways in which Christians have wounded the Body of the Lord and offended each other during the five hundred years since the beginning of the Reformation until today.
[…] Among the blessings of this year of Commemoration is the fact that for the first time Lutherans and Catholics have seen the Reformation from an ecumenical perspective. This has allowed new insight into the events of the sixteenth century which led to our separation. We recognize that while the past cannot be changed, its influence upon us today can be transformed to become a stimulus for growing communion, and a sign of hope for the world to overcome division and fragmentation. Again, it has become clear that what we have in common is far more than that which still divides us.
[…] Looking forward, we commit ourselves to continue our journey together, guided by God's Spirit, towards the greater unity according to the will of our Lord Jesus Christ. With God’s help we intend to discern in a prayerful manner our understanding on Church, Eucharist and Ministry, seeking a substantial consensus so as to overcome remaining differences between us. With deep joy and gratitude we trust “that He who has begun a good work in [us] will complete it until the day of Jesus Christ” (Phil 1:6).»
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