terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Novo livro sobre Fátima: Milagre do Sol segundo testemunhas oculares

Poucos sabem que o Milagre do Sol é um dos milagres mais bem documentados da história da Igreja. Este novo livro é a publicação mais completa até hoje de testemunhos deste milagre. Pessoas que realmente observaram o que sucedeu em Fátima no dia 13 de Outubro de 1917. 

Dia 14 de Dezembro às 18h30 na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima (Av. de Berna), em Lisboa. Este lançamento será uma óptima oportunidade para comprar um dos melhores presentes para este Natal.



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sábado, 9 de dezembro de 2017

Costumes, liturgia e igreja doméstica

O genuíno movimento litúrgico deve dar-se não só nas discussões teológicas e históricas acerca dos ritos e cerimónias, mas quando a liturgia começa a "falar" connosco e nos ajuda, mesmo nos pequenos actos da igreja doméstica, a caminhar rumo à santidade.

É por isso que muitas famílias como que transportam os tempos litúrgicos, as festas, as vigílias, para o dia-a-dia em casa, criando ou desenvolvendo costumes piedosos relacionados com a liturgia. Não se tratam, é verdade, de liturgias, mas de devoções pessoais ou tradições pessoais (de enfeites da casa, culinária, etc) que derivam daquelas.

Em nossa casa, a Aline e eu gostamos de fazer isso. Ajuda-nos a viver melhor o ritmo cristão da nossa existência, a andar no compasso do calendário da Igreja, a tornar a liturgia mais “nossa”. Desta forma é mais fácil participar da Missa e do Ofício.

Por exemplo, a partir do V Domingo da Quaresma, antigo I Domingo da Paixão, cobrimos as imagens e quadros com santos de nossa casa, como a Igreja recomenda que se faça nos templos e capelas. É um modo de nos associarmos ao que a Igreja Universal faz, e tornar nossa família realmente uma Igreja doméstica.

Outro costume que tenho, e agora já é algo mais meu do que de minha esposa, é recitar algumas ladainhas e orações conforme o dia. Recito, v.g., o Símbolo Atanasiano no Domingo da Santíssima Trindade, a Sequência do Espírito Santo na novena em preparação à Solenidade de Pentecostes, a Ladainha do Espírito Santo na sua oitava, o Stabat Mater na memória de Nossa Senhora das Dores, o Acto de Consagração do Género Humano ao Sagrado Coração de Jesus na Solenidade de Cristo Rei, o Acto de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus na festa própria, a Ladainha do Sangue de Cristo no dia 1 de Julho, a Ladainha de São José nas festas josefinas etc.

Procuramos também acender uma vela à imagem de Nossa Senhora que temos na sala de visitas de nossa casa quando das festividades marianas, e duas velas no altar do nosso quarto nas solenidades principais. Quando algum dos santos de que temos quadros ou imagens é comemorado, incensamo-lo nesse dia e colocamos flores por perto. Se a festa, entretanto, é do Sagrado Coração de Jesus ou de Cristo Rei, honramos a imagem do Coração do Senhor num lugar de destaque, e colocamos flores.

Para a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, é nosso costume também fazer um “jantar mexicano”, com receitas especiais da terra onde a Mãe de Deus apareceu a São João Diego.

Durante a Quaresma, outro costume é rezar, às sextas-feiras, a Ladainha dos Santos seguida dos Sete Salmos Penitenciais.

Após as I Vésperas do Domingo do Advento é a hora de montar a nossa árvore de Natal, colocar a guirlanda na porta, armar o presépio, e mudar o capacho da frente de casa por um tapete com decoração natalícia. Só removeremos os adereços na Solenidade da Epifania.

Um santo especialmente comemorado por nós é São Patrício. Além de padroeiro da Irlanda – de onde veio parte da família de minha esposa, Aline –, ele é o titular da paróquia itaquiense e patrono da cidade. No seu dia, fazemos um banquete especial, com velas, uma toalha mais solene, e bebemos cerveja irlandesa para acompanhar a comida.

Nas principais festas do calendário litúrgico, costumo assar um churrasco ou uma parrillada especiais também, abrindo um bom vinho ou uma cerveja melhor.

Em 2011, iniciamos uma outra actividade aqui em casa: o jantar especial de "enterro do aleluia", na Terça-Feira de Carnaval. A Aline prepara uma bela receita, tomamos um vinho bem escolhido e harmonizado, colocamos pratos, copos e talheres especiais (não os que usamos no dia-a-dia, mas alguns "de festa"), escolhemos uma toalha mais elegante, e enfeitamos a mesa com flores, velas, uma imagem da Sagrada Família e alguns ícones.

Há uma série de costumes familiares, gastronómicos, devocionais, que estão relacionados à liturgia. 

Rafael Vitola Brodbeck


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"A liturgia celebra-se para Deus, não para nós mesmos" Papa Bento XVI

"A liturgia celebra-se para Deus, e não para nós mesmos; é obra Sua; Ele é o sujeito; e nós devemos abrir-nos a Ele e deixar-nos guiar por Ele e pelo Seu Corpo, que é a Igreja." 

Papa Bento XVI, Audiência Geral (04/10/2012)


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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Imaculada Conceição e o efeito dos Sacramentos

"Cantai ao Senhor um cântico novo, pelas maravilhas que Ele operou" (Sal 97, 1)

Sim, hoje cantamos ao Senhor com um novo júbilo ao contemplarmos, uma vez mais, as maravilhas que fez na sua Mãe. A Imaculada Conceição, pela qual "a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha de pecado original no primeiro instante da sua conceição" [1], é uma dessas maravilhas que nós, unidos a milhões de cristãos de ontem, de hoje e de amanhã, agradecemos a Deus Todo-Poderoso. Agradecemos à Trindade que tenha decretado que a Virgem Santíssima recebesse este imenso dom.

No Evangelho (Lc 1, 26-38), unimo-nos ao Arcanjo S. Gabriel com a sua saudação: Ave, ó Cheia de Graça, o Senhor é convosco! Antes de ser a Mãe de Deus, já se encontra cheia da Graça de Deus!

Escreveu o Papa João Paulo II: "A afirmação do excepcional privilégio concedido a Maria mostra claramente que a acção redentora de Cristo não só liberta, como também preserva do pecado. (...)" [2]

Deixem-me propor uma comparação que ilustra as bonitas palavras de João Paulo II. No fundo, a Graça do Redentor não só cura do mal, mas, como vacina, imuniza contra os males futuros. Por isso, uma pessoa que recebeu com frequência os Sacramentos pode ter a certeza de que recebeu por eles muitas graças de Deus que o ajudaram a fazer o bem e a evitar o mal, permitindo que não caísse  na tentação. S. Josemaria respondia assim a uma pessoa que se queixava de não ver os frutos da comunhão diária: "Quantos anos a comungar diariamente! - Outro seria santo - disseste-me - e eu, sempre na mesma! - Filho - respondi-te - continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comungado?" [3]

Santa Teresinha do Menino Jesus, com toda a inocência, escrevia a uma das suas irmãs: "Asseguro-te que as palavras de Jesus a Madalena: 'Ao que mais se perdoa mais se ama', pode aplicar-se por maioria de razão aos casos em que Jesus perdoa os pecados de uma pessoa adiantadamente. Ele perdoou-me tudo pelo facto de não me ter deixado pecar!" [4] Na História de Uma Alma, a sua autobiografia espiritual, compara o que faz um médico com o seu filho quando trata a perna ferida ou quando evita a ferida afastando a pedra na qual o filho previsivelmente tropeçaria. Ela reconhece que a criança talvez não fique tão agradecida ao pai no segundo caso, quando não se dá conta do que iria suceder. "Mas - acrescenta -, e se descobrir a verdade? O seu amor não será ainda maior? Eu sou essa criança - conclui - (...). Ele quer que eu O ame porque me perdoou, não muito mas tudo." [5]

Assim, a Imaculada Conceição ajuda-nos a querer agradecer ao Senhor por todas as graças que nos concedeu, sobretudo através dos Sacramentos, muitas das quais nós desconhecemos: de quantas tentações não nos livrou o Senhor! De quantos perigos não nos terá protegido! Quantas derrotas nos evitou! E não apenas na nossa vida pessoal. A Santa Missa tem repercussão em todo o mundo. Quantos bens não terão chegado aos homens pela presença de Jesus entre nós! 

Saberemos, queridos irmãos e irmãs, avaliar as graças desta Missa solene em honra de Nossa Senhora? Que "quantidade" de Graça haverá hoje, aqui e agora? Sonhemos e confiemos em Deus!

Padre João Paulo Pimentel in 'Sacramentos e Vida Cristã' (Lucerna, 2011, pp. 109-115)

[1] Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, cit. em Catecismo da Igreja Católica, n. 491.
[2] S. João Paulo II, Audiência geral, 5-6-1996, n. 4
[3] S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 534.
[4] in Ida Gorres, Teresa de Lisieux, ed. Aster, Lisboa, p. 291.
[5] Ibidem.


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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

14 razões para Jerusalém ser uma capital cristã

Os momentos mais determinantes da vida adulta de Nosso Senhor Jesus Cristo - Deus feito Homem - aconteceram em Jerusalém. Nomeadamente, foi ali que fomos resgatados com o Seu Preciosíssimo Sangue e que a morte foi derrotada de uma vez por todas pela misericórdia de Deus. Vejamos outros episódios salvíficos sucedidos na Cidade Santa:

1 - Foi em Jerusalém que o Menino Jesus, aos 40 dias, foi apresentado no Templo (Lc 2, 22);

2 - Foi em Jerusalém que Jesus, aos 12 anos, esteve durante 3 dias à conversa com os doutores, que ficaram estupefactos com as respostas daquele rapaz (Lc 2, 41);

3 - Foi a Jerusalém que o Diabo conduziu Jesus, tentando-O para que se atirasse do pináculo do Templo (Lc 4, 9);

4 - Jesus disse que ia a caminho de Jerusalém porque não era admissível que um profeta não morresse naquela cidade (Lc 13, 33);

5 - Foi em Jerusalém que Jesus se lamentou de todas as vezes que o povo escolhido representado por aquela cidade rejeitou as graças de Deus (Lc, 13, 34-35);

6 - Foi em Jerusalém que Jesus fez a Sua entrada triunfal, tendo sido recebido como o Messias (Lc 19, 29-40);

7 - Jesus ensinou com Autoridade no Templo de Jerusalém, desafiando os sumos sacerdotes (Mt 21, 23-27);

8 - Jesus chorou sobre Jerusalém e profetizou as desgraças que ali haviam de suceder (Lc 19, 41-44);

9 - Foi em Jerusalém que Jesus expulsou os vendilhões do Templo (Lc 19, 45-48);

10 - Foi em Jerusalém que Jesus sofreu a Sua Paixão e nos salvou na Cruz (Lc 22 e 23);

11 - Foi em Jerusalém que Jesus ressuscitado apareceu a Santa Maria Madalena (Jo 20, 11-18);

12 - Foi em Jerusalém que Jesus ressuscitado apareceu diversas vezes aos Apóstolos (Jo 20, 19-28);

13 - Foi em Jerusalém que Jesus ascendeu aos Céus (Mc 16, 19-20);

14 - Foi em Jerusalém que o Espírito Santo desceu sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, ficando completa a fundação e envio da Igreja para evangelizar o Mundo inteiro (At 2, 1-47).


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Cardeal Sarah estará em Fátima nos próximos dias

O Cardeal Robert Sarah vai estar em Fátima de 7 a 9 de Dezembro. O Cardeal Sarah é o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, e ficou bastante famoso depois de escrever o livro 'Deus ou nada', em 2015. Entretanto escreveu também outro bestseller chamado 'A Força do Silêncio'.

O programa da sua visita é o seguinte:

Dia 7: O Cardeal Sarah reza o Terço das 18h30 na Capelinha das Aparições
Dia 8: O Cardeal Sarah reza o Terço das 16h00 na Capelinha das Aparições
Dia 8: O Cardeal Sarah celebra a Santa Missa às 19h45 na Basílica de N.S. Rosário de Fátima
Dia 9: O Cardeal Sarah celebra a Santa Missa às 09h30 na Capelinha das Aparições


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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Vigília de Oração e Missa Rorate

Na próxima madrugada de Sexta-Feira para Sábado, na igreja de São Nicolau na Baixa de Lisboa, será celebrada uma Missa Rorate.

A Missa Rorate, que recebe o seu nome do introito da Missa votiva de Nossa Senhora durante o Advento ("Rorate, caeli, desuper, et nubes pluant justum, aperiatur terra, et germinet Salvatorem." Is, 45, 8), é uma tradicional devoção de Advento em que a Missa honrando especialmente Nossa Senhora é celebrada pela noite, exclusivamente à luz das velas. Este contracenar da luz e da escuridão relaciona-se especialmente com o significado do Advento e da vinda, por Nossa Senhora, da Luz do mundo. Por ser Missa em honra de Nossa Senhora o sacerdote veste os paramentos brancos em vez dos habituais roxos do Advento, antecipando a glória que há-de vir.

A Missa será celebrada no dia 9, pois já terá passado da meia-noite, pelo que não cumprirá o preceito do dia 8, dia de Missa obrigatória por ser dia da Imaculada Conceição, Rainha de Portugal.


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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A comunhão dos 'recasados' foi declarada Magistério pelo Papa Francisco?

Em Setembro de 2016 foi revelada uma carta escrita por um grupo de Bispos da Região Pastoral de Buenos Aires ao Papa Francisco com as directivas que planeavam usar para aplicar a Exortação Apostólica Amoris Laetita nas suas dioceses. No parágrafo 6 dessa carta encontrava-se contemplada a possibilidade de admitir aos sacramentos os 'divorciados recasados', nalguns "casos difíceis". 

Esta prática sempre foi considerada contra a doutrina da Igreja, e foi condenada explicitamente pelos dois Papas anteriores: João Paulo II e Bento XVI. Nessa altura foi também divulgada a resposta privada do Papa Francisco a essa carta, na qual o Papa congratulava os seus autores e dizia que aquele era o único modo de interpretar o polémico capítulo VIII da Amoris Laetita.


Em Agosto de  2017 a carta desses Bispos argentinos, juntamente com a resposta do Papa, foram publicados no site da Santa Sé. Isto causou um certo mal-estar entre muitos católicos. No entanto a situação não ficou por aí: há poucos dias veio a público que a dita carta e a resposta do Papa foram publicadas, em Outubro de 2016, na Acta Apostolicae Sedis, o boletim que regulamenta a promulgação e divulgação de leis e actos da Santa Sé. Além disso, esses dois documentos, por vontade do Papa, passariam a ser considerados "Magistério Autêntico". O que é que tudo isto quer dizer? Deixamos aqui a análise feita por um excelente canonista, Dr. Edward Peters, no seu site 'In the Light of Canon Law':


Há três meses eu previ que a carta do Papa Francisco aos bispos da Argentina, que aprova a sua implementação da Amoris Laetitia viria a encontrar lugar na Acta Apostolicae Sedis. Agora já o tem. Numa nota que a acompanha, escrita pelo Cardeal Parolin é-nos dito que o Papa deseja que o documento argentino tenha “autoridade magisterial” e que esta sua resposta, portanto, tem o estatuto de “carta apostólica”.  Muito bem, Vamos então analisar alguns pontos.

1. O Cânone 915. É essencial perceber que aquilo que hoje impede os ministros da Santa Comunhão de distribuírem a Eucaristia aos católicos “divorciados-e-recasados” é este Cânone 915 e a sua interpretação universal e unânime que este texto legislativo, que é baseado na lei divina, sempre teve. Este Cânone e os valores sacramentais e morais fundamentais em que está baseado podem ser esquecidos, ignorados ou ridicularizados, mesmo da parte de altas entidades na Igreja, mas a não ser e até que este Cânone seja revogado ou modificado por uma iniciativa legislativa papal ou que seja efectivamente anulada por uma “interpretação autêntica” (Código do Direito Canónico 1983, n.16) o Cânone mantém-se e, mantendo-se, obriga os ministros da Sagrada Comunhão.

Nem a carta do Papa aos bispos argentinos nem a carta dos bispos argentinos em si, e nem mesmo a Amoris Laetitia menciona o Cânone 915, nem tampouco nenhum destes documentos abroga, derroga ou interpreta autenticamente esta norma do Código do Direito Canónico. Tendo isto como certo, pouco ou nada nestes documentos se refere ao Cânone 915 e este silêncio que existe nestes dias sobre este Cânone, aparentemente táctico ou planeado, é causa de uma preocupação pastoral grave. No entanto, a lei não esmorece por ser deixada em silêncio.

2. Carta apostólica. Uma “carta apostólica” é uma espécie de mini-encíclica e, independentemente do valor que as encíclicas possam ter pelo seu valor exortativo ou doutrinal, elas não são (salvo raras excepções) textos legislativos usados para formular novas normas legais. Tipicamente as “cartas apostólicas” são escritas a pequenos grupos da Igreja e tratam questões mais limitadas – não questões de relevância para todo o mundo como a questão de admitir os católicos “divorciados-e-recasados” à Sagrada Comunhão. Mesmo no caso de “cartas apostólicas” especiais que são usadas para fazer alterações à lei – como o fez João Paulo II em Ad tuendam fidem (1998), Bento XVI em Omnium in mentem (2009) e Francisco em Magnum Principium (2007) – a “carta apostólica” usada nestes casos tem uma designação adicional, que é de “motu proprio” (que significa da iniciativa do Papa e não em resposta à acção de outrem) e as mudanças que são feitas à lei são aí expressamente identificadas pelo número do Cânone, não são simplesmente implícitas ou supostas, especialmente não o são pelo seu silêncio.

A carta do Papa aos bispos argentinos surge-nos simplesmente como uma “carta apostólica”, não como uma “carta apostólica motu proprio” e não faz qualquer referência a Cânones.

3. Magistério autêntico. Muita gente usa o termo “magistério” como se isso fosse o equivalente a dizer “a autoridade governante da Igreja”, mas no seu sentido canónico “magistério” é usado para referir para a autoridade da Igreja de emitir ensinamentos em questões de fé e moral, não para referir a autoridade da Igreja para compelir disciplina relativamente a questões de fé e moral.

Enquanto o Papa Francisco – ainda que da maneira mais indirecta possível (por uma nota a um funcionário de um dicastério relativa a uma carta escrita por uma conferência episcopal) – indica que a sua carta aos bispos argentinos e que a própria carta da conferência argentina em si são “magistério”, o facto mantém-se em que o conteúdo de qualquer documento da Igreja, para que seja considerado de maneira própria como “magistério” tem de ser relativa a declarações sobre fé e moral, não provisões para questões de disciplina relacionadas com a fé e a moral. Os documentos da Igreja podem ter ao mesmo tempo passagens “magisteriais” e “disciplinares”, está claro, mas geralmente apenas as partes relacionadas com o ensinamento, a doutrina desses mesmos documentos são considerados canonicamente como “magistério”, enquanto que as partes normativas desses documentos são consideradas “disciplinares”.

Na minha opinião, o Papa Francisco designou de forma muito lata outras das suas visões enquanto tendo “autoridade magisterial (lembremos os seus comentários sobre o movimento litúrgico), e ele não é o único a fazer, de tempos a tempos, comentários estranhos sobre o uso do poder papal (lembremos João Paulo II invocando “toda a (sua) autoridade Apostólica” para actualizar as leis de um grupo de trabalho pontifício em 1999).

Este uso inconsistente das palavras apenas destrói o princípio de que todos nós devemos tentar ler este tipo de documentos de acordo com a maneira como a Igreja normalmente os escreve (desejava que fosse sempre, mas contento-me com o normalmente) e perguntar: Há declarações “magisteriais” na Amoris Laetitia, na carta dos bispos de Buenos Aires e na resposta do Papa Francisco? Sim. Muitas, que se dividem em várias gamas, desde as que são obviamente verdadeiras, que são verdadeiras mas escritas-de-forma-estranha-ou-incompletamente-fraseadas, a umas poucas que, ainda que contendo a capacidade de serem entendidas num sentido ortodoxo, são formuladas de forma que se abrem a interpretações heterodoxas (e por esta razão devem ser clarificadas para o bem do bem comum eclesial).  

De qualquer das formas, estas declarações doutrinais, pelo facto de fazerem afirmações sobre fé e moral e virem de bispos e/ou Papas que estão a actuar enquanto bispos ou Papas têm já algum (muito pouco) nível de valor enquanto magistério ordinário, um valor que não é aumentado pelo facto de lhe colarmos a etiqueta “magistério”.

Segunda pergunta, há declarações “disciplinares” na Amoris Laetitia, no documento dos bispos de Buenos Aires e na carta de resposta do Papa Francisco a este documento? Sim, algumas. No entanto, como eu disse outrora, parece-me (n.ed.: enquanto canonista) que nenhuma destas declarações disciplinares é suficiente para revogar, modificar ou derrogar o Cânone 915, que como foi assinalado acima, proíbe a administração da Sagrada Comunhão para os católicos “divorciados-e-recasados”, mesmo aquelas declarações que são mais ambíguas e capazes de deixar a porta aberta para práticas inaceitáveis.

Conclusão. Eu desejaria que o Cânone 915 não fosse o único baluarte de defesa contra o abandono da Eucaristia ao arbítrio das consciências individuais, tantas vezes mal formadas. Eu desejaria que houvesse o um vivo sentimento movido pelo impulso pastoral quanto à premência libertadora do matrimónio cristão, quanto à necessidade universal da Confissão para a reconciliar aqueles que estão em pecado grave, quanto ao poder que tem a Eucaristia para alimentar as almas em estado de graça e quanto à condenação daqueles que a recebem irreverentemente. Tudo isto faria que fosse desnecessário invocar o Cânone 915 na prática pastoral, mas ao que parece em grande parte do mundo católico nos dias de hoje não é isso que observamos, pelo que o Cânone 915 tem de ser apontado como se fosse a única razão pela qual não é possível receber a Sagrada Comunhão nas situações apontadas.

Mas que poderemos então dizer? A não ser que o Cânone 915 seja directamente revogado, esvaziado ou tornado ineficaz ele obriga os ministros da Sagrada Comunhão que este augusto sacramento seja impedido àqueles que, entre outros, estejam na situação de católicos “divorciados-e-recasados” à excepção daqueles casais que vivem como irmãos sem causar escândalo à comunidade.

Nada do que vi até hoje, incluindo o facto de aparecer na Acta Apostolicae Sedis as cartas dos bispos argentinos e a resposta do Papa, faz-me pensar que o Cânone 915 tenha sofrido tal destino.

Tradução: Senza Pagare


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Peregrinação da Fraternidade de São Vicente Ferrer a Fátima

A Fraternidade de São Vicente Ferrer (Fraternité Saint-Vincent-Ferrier) - uma comunidade Tradicional de Dominicanos - fez uma peregrinação de uma semana a pé até Fátima. Juntamente com os frades dominicanos foi também um grupo de 30 jovens que costumam fazer os campos de férias dessa Fraternidade. Depois de Fátima visitaram também a cidade de Lisboa.


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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Quando alguém se ajoelha para comungar e é visto como um excêntrico




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Carta de São Francisco Xavier a Santo Inácio de Loyola

Muitos cristãos se deixam de fazer nestas partes, por não haver pessoas que em tão pias e santas coisas se ocupem. Muitas vezes movem-me pensamentos de ir aos centros de estudos dessas partes – dando gritos, como alguém que tenha perdido o juízo – e principalmente à universidade de Paris, dizendo na Sorbonne aos que têm mais letras que vontade, para dispor-se a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir para a glória e vão para o inferno, pela negligência deles! 

Se, assim como vão estudando em letras, estudassem na conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos deles se moveriam, tomando meios e Exercícios Espirituais para conhecer e sentir dentro, em suas almas, a vontade divina, conformando-se mais com ela que com as suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, aqui estou. Que queres que eu faça ? Envia-me aonde quiseres; e se convém, mesmo aos índios». 

Quanto mais consolados viveriam, e com mais esperança da misericórdia divina à hora da morte, quando entrassem no Juízo particular a que ninguém pode escapar, alegando a seu favor: «Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis aqui outros cinco que eu ganhei com eles!» Receio de que muitos dos que estudam nas universidades, estudem mais para, com as letras, alcançarem dignidades, benefícios, bispados, que com desejo de conformar-se com a necessidade que as dignidades e estados eclesiásticos requerem. 

É costume dizerem os que estudam: Desejo saber letras para alcançar algum benefício ou dignidade eclesiástica com elas e, depois, com a tal dignidade, servir a Deus. De maneira que, segundo as suas desordenadas afeições, fazem as suas eleições, temendo que Deus não queira o que eles querem, não consentindo as suas desordenadas afeições deixar na vontade de Deus Nosso Senhor esta eleição. 

Estive quase movido a escrever à universidade de Paris, ao menos ao nosso Mestre de Cornibus e ao Doutor Picardo, quantos mil milhares de gentios se fariam cristãos se houvesse operários, para que (lá) fossem solícitos em buscar e favorecer as pessoas que não buscam os seus próprios interesses mas os de Jesus Cristo. 

É tão grande a multidão dos que se convertem à fé de Cristo, nesta terra onde ando, que, muitas vezes, me acontece sentir cansados os braços de baptizar; e não poder falar, de tantas vezes dizer o Credo e os Mandamentos, na sua língua, deles, e as outras orações, com uma exortação que sei na sua língua, na qual lhes declaro o que quer dizer cristão, e que coisa é paraíso, e que coisa inferno, dizendo-lhes quais são os que vão a um e quais a outro. Mais que todas as outras orações, digo-lhes muitas vezes o Credo e os Mandamentos. Há dia em que baptizo toda uma povoação e, nesta Costa onde ando, há trinta povoações de cristãos.

in Carta de 15 de Janeiro de 1544


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domingo, 3 de dezembro de 2017

Trump faz o discurso de Natal que Obama nunca fez


Legendas: Gospel Prime


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Um santo é um medicamento por ser um antídoto

Um santo é um medicamento por ser um antídoto. Na verdade, é também por isso que, muitas vezes, ele é um mártir: ele é confundido com um veneno por ser um antídoto. 

Vê-lo-emos geralmente a restaurar a sanidade do mundo exagerando uma coisa qualquer que o mundo esteja a negligenciar, e, seguramente, este elemento não será o mesmo em todas as épocas. 

No entanto, é por instinto que cada geração tenta encontrar o seu santo, e ele não será o que as pessoas querem, mas sim aquilo de que precisam.

G. K. Chesterton in 'São Tomás de Aquino'


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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A Fé vê o que os sentidos não conseguem ver

A Fé é o que faz com que acreditemos do fundo da alma em todas as verdades que a religião nos ensina, logo, no conteúdo da Sagrada Escritura e em todos os ensinamentos do Evangelho, enfim, em tudo o que nos é proposto pela Igreja. O justo vive realmente desta Fé (Rm 1,17) porque, para ele, ela substitui a maior parte dos sentidos da natureza. Ela transforma de tal modo todas as coisas, que os sentidos antigos já mal podem servir à alma: por eles, ela só percebe aparências enganadoras; a Fé mostra-lhe as realidades.

O olho mostra-lhe um homem pobre; a Fé mostra-lhe Jesus (cf Mt 25,40). O ouvido fá-lo ouvir injúrias e perseguições; a Fé canta-lhe: «Alegrai-vos e rejubilai de alegria» (cf. Mt 5,12). O tacto faz-nos sentir o apedrejamento recebido; a Fé diz-nos: «Sentiram grande alegria por terem sido considerados dignos de sofrer alguma coisa pelo nome de Cristo» (cf Act 5,41). O olfacto faz-nos sentir o incenso; a Fé diz-nos que o verdadeiro incenso «são as orações dos santos» (Ap 8,4).

Os sentidos seduzem-nos pelas belezas criadas; a Fé pensa na beleza incriada e compadece-se de todas as criaturas, que são um nada e uma poeira ao lado dessa beleza. Os sentidos têm horror à dor; a Fé bendi-la como a coroa do matrimónio que a une ao seu Bem-amado, a caminhada com o Esposo, a mão na Sua mão divina. Os sentidos revoltam-se contra a injúria; a Fé abençoa-a: «Abençoai os que vos maldizem» (Lc 6,28), achando-a doce porque significa partilhar o destino de Jesus. Os sentidos são curiosos; a Fé nada quer conhecer: anseia por ser sepultada e quereria passar toda a sua vida imóvel ao pé do tabernáculo.

Beato Carlos de Foucauld (1858-1916) eremita e missionário no Saara in Retiro feito em Nazaré (1897)


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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Álbum de canto gregoriano bate recordes de vendas

"Requiem", assim se chama o álbum de canto gregoriano que ocupa há 13 semanas o top na lista de 'música clássica'. As músicas foram gravadas no seminário da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, no Nebraska (Estados Unidos). Os cantores são todos Padres e seminaristas. Vale a pena ouvir, é uma beleza.


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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Concílio Vaticano II e a Mensagem de Fátima

Rorate Coeli, Corrispondenza Romana (Senza Pagare) e outras publicações católicas reproduziram uma valiosa intervenção de D. Athanasius Schneider sobre a “interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a actual crise da Igreja”. De acordo com o Bispo Auxiliar de Astana, o Vaticano II foi um Concílio pastoral e os seus textos devem ser lidos e julgados à luz do ensinamento perene da Igreja.

"Do ponto de vista objectivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de carácter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de carácter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso com a maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II."

Ao artigo de D. Schneider seguiu-se um equilibrado comentário do Padre Angelo Citati, FSSPX, segundo o qual a posição do Bispo alemão se assemelha àquela reafirmada constantemente por D. Marcel Lefebvre: “Dizer que avaliamos os documentos do Concílio ‘à luz da Tradição’ significa, evidentemente, três coisas inseparáveis: que aceitamos aqueles que estão de acordo com a Tradição; que interpretamos segundo a Tradição aqueles que são ambíguos; que rejeitamos aqueles que são contrários à tradição” (Mons. M. Lefebvre, Vi trasmetto quello che ho ricevuto. Tradizione perenne e futuro della Chiesa, editado por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Sugarco Edizioni, Milão 2010, p. 91).

Tendo sido publicado no site oficial do Distrito italiano, o artigo do Padre Citati também nos ajuda a compreender qual poderia ser a base para um acordo visando regularizar a situação canónica da Fraternidade São Pio X. Devemos acrescentar que, no plano teológico, todas as distinções podem e devem ser feitas para interpretar os textos do Concílio Vaticano II, que foi um Concílio legítimo: o vigésimo primeiro da Igreja Católica. Dependendo do respectivo teor, esses textos poderão então ser classificados como pastorais ou dogmáticos, provisórios ou definitivos, conformes ou contrários à Tradição.

Nas suas obras mais recentes, Mons. Brunero Gherardini dá-nos um exemplo de como um juízo teológico, para ser preciso, deve ser articulado (Il Concilio Vaticano II un discorso da fare, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Un Concilio mancato, Lindau, Turim 2011). Para o teólogo, cada texto tem uma qualidade diferente e um grau diverso de autoridade e cogência. Portanto, o debate está aberto.

Do ponto de vista histórico, contudo, o Vaticano II é um bloco inseparável: tem a sua unidade, a sua essência, a sua natureza. Considerado nas suas raízes, no seu desenvolvimento e nas suas consequências, pode ser definido como uma Revolução na mentalidade e na linguagem que mudou profundamente a vida da Igreja, iniciando uma crise religiosa e moral sem precedentes.

Se o juízo teológico pode ser matizado e indulgente, o juízo histórico é implacável e inapelável. O Concílio Vaticano II não foi apenas um Concílio malogrado ou falido: foi uma catástrofe para a Igreja.

Uma vez que este ano marca o centenário das aparições de Fátima, convém debruçar sobre a seguinte questão: quando, em Outubro de 1962, foi inaugurado o Concílio Vaticano II, os católicos de todo o mundo esperavam a revelação do Terceiro Segredo e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Exército Azul de John Haffert (1915-2001) liderou durante anos uma maciça campanha nesse sentido.

Haveria melhor ocasião para João XXIII (falecido em 3 de Junho de 1963), Paulo VI e os cerca de 3000 bispos reunidos em torno deles, no coração da Cristandade, corresponderem em uníssono e solenemente aos desejos de Nossa Senhora? A 3 de Fevereiro de 1964, D. Geraldo de Proença Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI uma petição assinada por 510 bispos de 78 países, na qual se implorava que o Pontífice, em união com todos os bispos, consagrasse o mundo, e de maneira explícita a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O Papa e a maioria dos Padres Conciliares ignoraram o apelo. Se a consagração pedida tivesse sido feita, uma chuva de graças teria caído sobre a humanidade. E um movimento de volta à lei natural e cristã teria iniciado.

O comunismo teria caído com muitos anos de antecedência, de maneira não fictícia, mas autêntica e real. A Rússia ter-se-ia convertido e o mundo teria conhecido uma era de paz e de ordem, como Nossa Senhora prometera. A consagração omitida concorreu para que a Rússia continuasse a espalhar os seus erros pelo mundo, e para que esses erros conquistassem as cúpulas da Igreja Católica, atraindo um castigo terrível para toda a Humanidade. Paulo VI e a maioria dos Padres Conciliares assumiram uma responsabilidade histórica, cujas consequências bem podemos hoje medir.

Roberto de Mattei in 'Corrispondenza Romana' (Tradução: Fratres In Unum)


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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Papa Francisco na Birmânia




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Carta dirigida por dezenas de fiéis ao Sínodo Diocesano

Há 1 ano estava prestes a começar o Sínodo Diocesano 2016 do Patriarcado de Lisboa. Aproveitando a recomendação que a Igreja faz para que os leigos apresentem propostas concretas aos seus Pastores, um grupo de fiéis escreveu uma carta dirigida ao Sínodo. O grupo era constituído por várias dezenas de pessoas, das mais variadas profissões como diplomatas, médicos, professores, advogados, engenheiros, e também muitos estudantes de diversas áreas. 

Na esperança que esta carta possa servir para o bem espiritual dos católicos em geral fica aqui publicada 'ad perpetuam rei memoriam'.


Lisboa, 27 de Novembro de 2016

Eminência Reverendíssima, Senhor D. Manuel Cardeal Clemente, Patriarca de Lisboa,
Excelências Reverendíssimas, Senhores Bispos Auxiliares de Lisboa,
Reverendos Padres,
Excelentíssimos Senhores,

Laudetur Iesus Christus!

Começam neste dia 27 de Novembro do ano de 2016, primeiro Domingo do Advento, os trabalhos do Sínodo Diocesano da nossa diocese de Lisboa. É uma data que não chega imprevista, e que vem sendo preparada com a oração de todos. Fruto dessa oração, e procurando corresponder àquilo que o Senhor Jesus suscita nas nossas vidas, este grupo de fiéis decidiu dirigir ao Venerando Sínodo as palavras que se seguem.

Cumpre, primeiro, uma introdução sobre os subscritores desta carta. Somos mulheres e homens leigos, jovens e adultos, solteiros ou casados, de várias paróquias do Patriarcado de Lisboa, que têm em comum o facto de fazerem uma experiência de Fé comprometida, iluminada pela Tradição da Igreja.

Foi em atitude de esperança orante que recebemos o Documento de Trabalho (doravante, “DT”), datado de Julho de 2016, que expõe as principais conclusões dos grupos de trabalho preparatórios do Sínodo e, como tal, determinará o tom dos trabalhos conclusivos. Escrevemos esta carta movidos por grande amor à Igreja Universal, e à nossa Igreja de Lisboa, e cientes da grande responsabilidade que como leigos também temos no destino desta, em particular conscientes da permissão canónica dada aos leigos de «expor aos Pastores da Igreja as suas necessidades, sobretudo espirituais, e os seus anseios» e do «direito e mesmo por vezes [d]o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja». Escrevemos, por isso, com filial devoção ao Senhor Patriarca, aos seus Bispos Auxiliares, ao Cabido e Presbiterado da Diocese, e com fraterna caridade para com todos os nossos irmãos em Cristo Jesus.

O Sínodo decorre sob o mote «O sonho missionário de chegar a todos», retirado da exortação apostólica Evangelii Gaudium do Santro Padre, o Papa Francisco. É certamente louvável e cristão sonhar com a verdadeira catolicidade da Igreja, isto é, que a Santa Madre, Nossa Mãe, tenha no seu seio todos os homens à face da Terra. Mas mais ainda, corresponde à esperança cristã a ideia certa de converter toda a Terra, mandada por Jesus quando disse aos discípulos «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 19). Por isso, bem entendido, o sonho missionário de chegar a todos é o desejo sincero de dar a conhecer a todos Cristo, para que se salvem.

Assim se há de «escutar o mundo e olhar a Igreja» (DT, I.). Escutar o mundo para auscultar as suas necessidades, os seus gritos de desespero pela distância face a Deus e pela ignorância da invencível misericórdia que é a conversão à vida da graça. Jesus avisou-nos que no mundo haverá tribulações (Jo 16, 33), daí almejarmos o Céu e sermos peregrinos na Terra, exilados enquanto não chegamos à Jerusalém celeste. É por isso fundamental que fique em tudo sempre claro que «os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo». Haverá então que escutar o mundo para o resgatar para Cristo, e não para nos mundanizarmos. Foi aliás este estar no mundo sem ser do mundo que permitiu aos Cristãos, ao longo dos séculos, conviver com todas as culturas e tradições, instaurando tudo em Cristo.

Esse grupo de peregrinos é, de facto, a Igreja numa das suas manifestações clássicas, de Igreja Militante. Não se pode, portanto, olhar a Igreja sem esquecer a Igreja Triunfante que por nós vela no Céu, e a Igreja Padecente que conta com os nosso méritos e intercessão para abreviar o tempo de purga. As três Igrejas – se assim se pode dizer – são no conjunto o Corpo de Jesus, do qual Cristo é a cabeça. Somos por isso constantemente convidados a tornar visível esse Corpo através de uma unidade real, com a Verdade como cabeça, que expresse uma própria catolicidade, unidade que não se há de verificar apenas no agora, mas que contempla unidade com todo o passado eclesial e com o futuro. Destarte, não podemos chamar-nos Igreja Corpo de Cristo se formos uma comunidade irreconhecível para os nossos antepassados, e que julga possível tornar--se irreconhecível aos futuros cristãos. 

É por isso fundamental que pulse neste Corpo uma identidade eficaz em fazer reconhecer, aos cristãos, que comungam todos da mesma Fé. Tal nunca foi problemático para a Igreja: a Tradição, unida ao Magistério e à Escritura, sempre foi a forma privilegiada de garantir sem dúvidas que os cristãos trilham o mesmo caminho que foi trilhado pelos seus antepassados, numa cadeia cronologicamente referenciada a’O Caminho, como de Si próprio disse ser Cristo. Parece-nos por isso de grande relevância que o Sínodo contemple qual o valor dado hoje à Tradição na nossa diocese.

Estamos em crer que o alheamento da Tradição provocou as reconhecidas, entre os fiéis, «debilidades quanto à sua iniciação à oração e à vida sacramental» ou «dificuldades em passar da catequese de infância a uma opção de vida cristã assumida e amadurecida; fragilidades em comunicar a alegre experiência do seguimento de Cristo» (DT, §17). A Tradição da Igreja é rica em formas de enraizar hábitos de oração, como o Santo Rosário, e em criar uma rica vida sacramental, pela activa e devota participação na Santa Missa. Com efeito, a experiência tem provado que é necessário incrementar uma activa adesão espiritual aos Mistérios Sagrados, que ultrapassa em muito a actividade física dos leigos envolvidos na Eucaristia, e que propõe a cada vez maior identificação com Cristo.

Outrossim, a Tradição da Igreja contém um manancial de doutrina formadora e conformadora da alma. Apoiando-nos no projecto patriarcal de conferir a Crisma na idade púbere, convém que a administração deste sacramento signifique uma verdadeira idade adulta da alma. Ora, como tal, a catequese tem de ser o móbil desse amadurecimento, pelo que será bom ponderar até onde é útil manter um estilo catequético infantil e que priva as crianças e jovens das verdades da Fé.

É por isso incompreensível que soluções testadas para problemas de sempre sejam negligenciadas, e por isso pedimos ao Venerando Sínodo que tenha em devida conta o valor da Tradição na vida da Igreja.

Em particular, não nos podemos esquecer da espiritualidade litúrgica que formou tantos santos e incontáveis gerações de cristãos, a qual o Papa Emérito Bento XVI restaurou ao seu devido lugar pelo Motu Proprio Summorum Pontificum (2007), que está ainda longe de realizar na nossa diocese. Em toda a Europa se tem assistido a um revitalizar da devoção eucarística e da frequência dos sacramentos, aliadas a um compromisso efectivo com a vida da graça e concretizadas em copiosos frutos de famílias santas e vocações abundantes, pelo convívio das duas formas do Rito Romano. 

Assim, gostaríamos de propor ao Sínodo que considerasse a possibilidade de, generosamente, concretizar os desejos do Papa Emérito, especialmente aos Domingos, o dia do Senhor. É especialmente relevante que, numa diocese com a vastidão geográfica do Patriarcado, a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano possa estar disponível em algumas igrejas facilmente acessíveis pelos fiéis, e em horários que respeitem os ritmos próprios da vida familiar, de trabalho e de estudo.

Mais ainda, julgamos crucial escutar os apelos do Santo Padre Francisco, e tornar o sacramento da confissão mais disponível em toda a diocese, ministrado por sacerdotes com recta formação moral e humana, e com provada vida espiritual, que sejam imagem de Cristo, Rei de Misericórdia.

Finalmente, é importante salientar que apenas construindo a ponte entre o que sempre foi a Igreja, na sua liturgia, na doutrina entregue aos e pelos apóstolos e transmitida pela sucessão do depósito da fé, e na moral, podemos fazer Cristo reinar no coração de todos. Assim, poderemos actualizar a Igreja naquilo que ela sempre foi. Como diz o DT, «Só encontrando-se com a verdade do que é e tem sido a sua ação poderá esta “porção do Povo de Deus” encetar os caminhos novos que os desafios atuais lhe pedem e a que o Espírito de Deus a quer conduzir».

Asseguramos todos os que participam no Sínodo das nossas constantes orações pelos bons frutos.


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