terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A mensagem de Fátima continua por cumprir



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PSD - Perversão Sacripanta Dacnomaníaca

A deriva putrefacta e totalitária do psd tem vindo a acentuar-se ao longo dos anos.  A sanha furiosa e selvagem da mentalidade frenética, danada, homicida e satânica, foi paulatinamente ganhando força até tomar o poder, seduzindo e ilusionando os militantes do boa-vontade, muitos deles católicos que, não obstante o seu espírito sincero de missão, se tornaram “companheiros de jornada” ou, como outros interpretam, ‘idiotas úteis’.

Nas eleições de ontem foi escolhido, pelos militantes do partido,  por larga maioria, uma candidato que se empenhou, pública e activamente, na campanha para liberalizar o homicídio-aborto e, mais recentemente se pronunciou, por escrito público, como favorável ao homicídio sob a forma de eutanásia/suicídio assistido.

De nada adianta afirmar que o partido não tem uma posição sobre esses temas e que os deixa à consciência de cada um dos deputados – mutatis mutandi  seria o mesmo que, perante o holocausto, uma força política de então dissesse que o problema da matança dos judeus, e de tantos outros, era uma questão da consciência de cada um. Acresce que, consequentemente, não haverá um critério adequado para a escolha dos órgãos partidários, dos deputados e de um hipotético governo. 

De modo, que os denominados católicos que militam neste partido estão a repetir o erro crasso de outros irmãos na Fé que, há alguns anos, cooperaram com o Partido Socialista. Servem para angariar, votos, promover o partido, iludindo os votantes crentes, e, ainda, para perpetuar as gravíssimas injustiças ‘legisladas’, contribuindo desse modo para impregnar a cultura e mentalidade das gentes não só com uma indiferença, fruto da não impugnação por parte de quem o devia fazer, mas, mais grave ainda, suscitando a conformidade e concordância com aquilo que deveria ser adversado e repugnado. 

Já se sabe que para isto contribui a Rádio Renascença, agências eclesiais e a repetição, monótona e bocejante de um Episcopado que em vez de promover uma formação contínua e sistemática, repete há décadas, como um gravador avariado, que é preciso um grande debate (?) na sociedade portuguesa que, evidentemente, é perpetuamente adiado.

Se era já extremamente difícil admitir, tentando justificar, a presença de católicos e apoiantes no psd, a partir de ontem parece impossível fazê-lo, uma vez que não se vê  como poderão evitar a cooperação formal ou gravemente material com o mal, o que nunca è permissível, mesmo que seja como meio para alcançar um fim considerado bem.

O dever grave de não cooperar com forças políticas ou partidos que lesionam os princípios básicos da Fé e da Moral não exime os católicos da responsabilidade pelo Bem-comum. Afinal o empenho político não se esgota –e frequentemente mesmo distorce-se - na partidocracia nem no voto nem na maioria como critério do justo e do injusto, do bem e do mal, do verdadeiro e do falso.

Pe. Nuno Serras Pereira


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Polónia: Partido do Governo propõe que bebés com deformações graves possam nascer para receberem o baptismo

Jaroslaw Kaczynski, o Presidente do PiS (Partido que está no Governo na Polónia), fez uma proposta que escandalizou a União Europeia porque reconhece a dignidade do nascituro e a importância do baptismo:

«Queremos chegar a um ponto em que, mesmo nos casos de gravidezes muito difíceis, em que a criança está condenada à morte, com deformações graves, estas terminem num parto, para que a criança possa ser baptizada, enterrada, ter um nome. 

Queremos que isto seja possível tendo em conta a ajuda real que será prestada também através de meios públicos. Claro que estamos a falar de casos de gravidezes difíceis, em que não há risco para vida e saúde da Mãe.»


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sábado, 13 de janeiro de 2018

Se Deus não existe tudo é permitido

"Uma vez que a Humanidade tenha negado a Deus... o Homem exaltar-se-á com um espírito divino, de orgulho titânico, e aparecerá como homem-deus... Se Deus não existe, tudo é permitido." 

Fiodor Dostoievski in 'Os Irmãos Karamazov'


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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Por quê o sofrimento?

O sofrimento parece a alguns ser um argumento contra o poder ou a bondade de Deus. A mensagem cristã responde que Deus não é – nem pode ser – o autor de algum mal; mas Ele permite que as criaturas, limitadas como são, cometam males físicos e morais; Ele não quer “policiar” o mundo artificialmente, mas se encarrega de tirar dos males produzidos pelas criaturas bens ainda maiores. 

Isto em vários casos é evidente, pois se verifica que, para muitas pessoas, o sofrimento é uma escola que converte e transfigura. Em outros casos, os frutos positivos do sofrimento não são tão perceptíveis; não obstante, o cristão tem certeza de que a Providência Divina não falha e um dia ele compreenderá plenamente o plano de Deus, do qual actualmente ele só percebe segmentos e facetas.

A figura do Filho de Deus, que, feito homem, assumiu a dor e a morte a fim de fazê-las passagem para a ressurreição e a glória, é o testemunho mais eloquente de que o sofrimento não é mera sentença da justiça ou castigo, mas está intimamente associado ao amor que Deus tem para conosco. Aceito em união com Cristo, o sofrimento vem a ser fonte de salvação para o paciente e de expiação dos pecados do mundo.

Um dos temas que mais vêm à tona nos círculos filosóficos e religiosos de nossos dias, é o do sofrimento. Quanto mais se alastra e intensifica a dor dos homens provocada pela fome, o terrorismo, as guerras…, tanto mais indagam a respeito do sentido do sofrimento. Frequentemente nasce daí a objecção; se Deus existe, como pode permitir tanta desgraça, especialmente quando afecta pessoas inocentes? Se tanto mal acontece, ou Deus não pode ou não quer evitá-lo. No primeiro caso, Ele não é todo-poderoso (então não é Deus); no segundo caso, Ele não ama seus filhos, pois nenhum pai assiste indiferente ao sofrimento dos seus filhos. Em consequência de tais raciocínios, parece lógico a muitos negar a existência do próprio Deus.

Eis por que as páginas subseqüentes serão dedicadas ao estudo de tal problema. Pode-se-lhe apresentar solução?… ou ao menos alguma luz que o esclareça? – Aliás, também o último Sínodo Mundial dos Bispos, encerrado em dezembro de 1985, chamou a atenção para a recrudescência do mal em nossos dias (tão marcados pela fome e pela ameaça de catástrofes nucleares) e solicitou especial atenção para a Teologia da Cruz:

“Percebemos que os sinais dos tempos são, em parte, diferentes daqueles dos tempos do Concílio, com problemas e angústias ainda mais graves. Com efeito; assistimos em toda parte ao aumento da fome, da opressão, da injustiça; a guerra domina em vários lugares, com os sofrimentos que ela acarreta, enquanto o terrorismo e a violência, sob mil formas, se manifestam um pouco por toda parte. Isto nos obriga a nova e mais profunda reflexão teológica para interpretar esses sinais à luz do Evangelho…

Parece que nas actuais dificuldades Deus nos quer ensinar mais profundamente o valor, a importância e a centralidade da Cruz de Jesus Cristo” (D, nº. 1 e 2).

Examinemos agora as objecções que, em vista do sofrimento da humanidade, são actualmente levantadas contra a existência ou os atributos de Deus.

1.    Se o mal existe, Deus existe?

Eis quatro objecções que a opinião pública formula:

1.1.        Deus sem poder ou sem amor

“Diante do sofrimento no mundo, Deus não pode ou não quer intervir. No primeiro caso, Ele é fraco ou destituído de poder; no segundo caso, Ele carece de amor para com seus filhos”.

– Esta objecção já foi longamente desenvolvida por Voltaire após o terremoto de Lisboa em 1755 e pelo filósofo Arthur Schopenhauer (+1860). Houve quem lhe respondesse, admitindo que Deus é muito sábio e muito poderoso, mas não todo-poderoso (assim Voltaire, Stuart Mill, M. Schiller). – Todavia quem assim pensa, está praticamente negando a existência de Deus, pois, por definição, ou Deus é a Suma Perfeição, sem limites, ou simplesmente não existe.

A resposta católica a tal objecção já foi formulada por S. Agostinho (+ 430), ao qual S. Tomás de Aquino (+ 1274) fez eco: “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem. – Nulo modo sineret aliquid mali esse in operibus suis, nisi esset adeo omnipotens et bonus ut bene faceret etiam de malo” (Enchiridion, c. 11; ver Suma Teológica Ia q. 22, art. 2, ad 2). Estas palavras, aliás, sintetizam toda a doutrina católica relativa à origem do mal:

1) O mal não é uma entidade positiva; mas uma carência do ser (ou do bem) devido. Assim a cegueira é a falta de olhos (é um mal nas criaturas às quais a natureza concede olhos); o pecado é a falta de concordância do ato humano com o Fim Supremo da moralidade, que é Deus.

2) Ora o não ser ou a carência como tal não tem causa. Só pode ser indirectamente causado por um agente falível ou uma criatura que, ao agir, seja capaz de produzir um efeito incompleto, carente de sua perfeição.

3) Por conseguinte, Deus, sendo por definição o Ser Perfeitíssimo, não pode ser causa do mal, Esta há de ser a criatura, que pode falhar ao agir no plano físico (um desastre de automóvel, uma enchente, uma seca…) ou no plano moral (o pecado).

4)  Deus permite que as criaturas exerçam a sua actividade conforme a natureza de cada uma; permite, pois, as falhas respectivas. Ele não fez um mundo artificialmente policiado ou de marionetas. Todavia em sua sabedoria e bondade. Ele se compromete a aproveitar o próprio mal cometido pelas criaturas para daí tirar bens maiores.

5) Não raro é-nos dado perceber os bens que se seguem aos males decorrentes da acção das criaturas. Com efeito, sabemos que muitas e muitas pessoas se transformaram e nobilitaram em consequência de uma moléstia grave, de um baque ou insucesso na vida. Em outros casos não nos é possível indicar os frutos positivos procedentes de algum mal; mas o cristão tem a certeza de que, no final dos tempos, lhe será concedido contemplar o plano de Deus e as ligações existentes entre os factos que ele abrange.

A resposta teológica aqui esboçada será mais amplamente explanada sob o título 2 deste artigo. Importa aqui mostrar apenas que a existência do mal no mundo não significa falta de poder ou de bondade em Deus. Os caminhos de Deus não são os dos homens, diz o Profeta (Is 55,8); a visão que Deus tem das criaturas e da história, é muito mais extensa do que a que nós temos. Por causa de nossas perspectivas limitadas, corremos o risco de apontar sem mais um mal ou um desastre onde há apenas o preâmbulo de um grande benefício arquitectado sobre a própria falibilidade das criaturas.

1.2.        Insistindo…

“Não aceito a explicação, pois frequentemente me parece que a desgraça é tão-somente desgraça, longe de qualquer plano providencial de Deus”.

A propósito formularemos três observações:

1) É preciso  que a criatura não faça de si mesma o padrão ou o critério para avaliar felicidade ou desventura. Não diga: “Se eu não vejo o lado positivo de uma desgraça, tal lado positivo não existe”. Somente Aquele cujo olhar abarca toda a história da humanidade pode definir o sentindo real que cada acontecimento tem nesse conjunto.

2) Se determinado mal não tem realmente uma contra-parte positiva ou valiosa, isto se deve muitas vezes ao endurecimento ou à indisposição do ser humano. Deus não constrange ninguém a acolher a sua graça. Com outras palavras: a pessoa que sofre, pode fechar-se numa atitude de revolta, que a torna impermeável à acção  do Espírito de Deus.

3) Se alguém insiste em negar a existência de Deus por causa das desgraças existentes no mundo, elimina do seu horizonte um factor de esperança e coragem, e não resolve o problema do sofrimento. Ao contrário, cria para si um novo problema. Com efeito, verifica-se que muitas e muitas pessoas, quando sofrem, apelam espontaneamente para Deus; assim nos cárceres, nos hospitais, nas trincheiras de guerra… é mais frequente o clamor que pede ajuda, do que a blasfémia. Quem sofre, experimenta muitas vezes a necessidade de um auxílio mais do que humano para tirá-lo da sua dor e salvar da desgraça os seus semelhantes.

Mais: se alguém nega a existência de Deus, vê-se diante de um mundo marcado pela injustiça e retido pelas leis do mais forte que esmaga o mais fraco… sem que possa haver esperança de restauração da ordem ou do reconhecimento dos verdadeiros valores. Já Platão (+ 347 a.C.), diante da injusta morte de Sócrates, afirmava a necessidade de haver uma justiça superior ou divina para que a morte de Sócrates não fosse um mero absurdo ou o triunfo do mal sobre o bem (ver os diálogos República e Fedon).

1.3.        Só para os maus…

“Somente os criminosos deveriam sofrer, ao passo que os justos haveriam de gozar de paz e felicidade. Ora às vezes parece que se dá contrário”.

A respeito ponderamos:

1) Todos os seres humanos são portadores de pecado. Não os dividamos em criminosos, de um lado, e inocentes, de outro lado. Os que não cometem graves faltas morais, trazem dentro de si a potencialidade ou a capacidade de as cometer.

2) O sofrimento não deve ser considerado apenas como punição ou sanção devida a um réu. Ao contrário, o sofrimento tem significado muito mais largo e nobre. Com efeito.

a) o sofrimento físico é decorrente da própria natureza do homem. A dor é sinal de alarme que torna o homem consciente de uma moléstia ou um distúrbio do seu organismo; se não fosse a dor, o mal progrediria sem que o paciente pudesse perceber adequadamente. O natural desgaste dos órgãos (coração, pulmões, fígado…) provoca dores que vêm a ser salutar advertência ou ensinamento para o homem.

b) O sofrimento está também muito ligado ao amor e à nobreza de carácter. Longe de ser castigo, o sofrimento decorre muitas vezes do facto de que alguém ama outra pessoa e compartilha as dores desta. Pode-se mesmo dizer: quanto mais alguém é digno e magnânimo, tanto mais sofre; quanto mais mesquinho ou desnaturado, tanto menos sofre. Qual a mãe que não sofre por causa da dor de seu filho?

c) De modo geral, o sofrimento é escola para o ser humano. Contribui para vencer o egoísmo e tornar a pessoa mais voltada para o próximo; torna actuantes muitas energias e potencialidades que  nunca desabrochariam se não fosse o sofrimento. Esta verdade é tão óbvia que já os antigos gregos a formularam no trocadilho: pathos mathos (sofrimento é ensinamento ou aprendizagem). Quem não passa pelo cadinho do sofrimento, muitas vezes é egocêntrico, e insensível para com os outros; desfigura-se no plano da personalidade.

1.4.        Ao menos, não seja excessivo!

Dirá alguém: “Se  o sofrimento tem suas vantagens, é para desejar que não se torne excessivo. Deus deveria saber moderá-lo”.

–  Respondemos que as expressões “excessivo” e “pouco demais” são relativas. Quem gosta de trabalhar, se dá por feliz quando desempenha uma tarefa grande e importante, que a pessoa vadia rejeitaria como “excessiva”. Caminhar um quilómetro, para uns, é excessivo, enquanto para outros é insuficiente. – Por conseguinte, é difícil levar em consideração a reivindicação do sofrimento não excessivo, já que este termo é vago ou genérico demais. Como dito, não devo fazer de minhas categorias de pensamento e afecto os critérios de aferição do que acontece aos outros principalmente se não conheço esses outros.

Passemos agora à explanação da resposta cristã ao problema do sofrimento.

2.    A resposta cristã

2.1.        Observação prévia

A fé ajuda o cristão a esclarecer o problema do sofrimento, mas não dissipa todo enigma a tal propósito. Especialmente quando se consideram casos particulares, como a morte desta mãe ou deste pai, que deixam crianças pequenas, não é possível oferecer explicação cabal e precisa para o ocorrido; nem nos é possível dizer por que tal desgaste de automóvel se deu precisamente em tal dia de festa. O livro de Jó nos recorda a insondabilidade do sofrimento, quando, referindo-se às tentativas de explicar o sofrimento, põe nos lábios de Jó as seguintes palavras:

“Eis que falei levianamente; poderei responder-te? Porei minha mão sobre a boca; Falei uma vez, não replicarei… Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te os meus olhos; por isto retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 40, 4s; 42, 3-6).

Todavia a fé cristã projecta o mistério do sofrimento a perspectiva do amor de Deus; como é difícil dar explicação cabal para o mistério do amor, também é árduo explicar o mistério do sofrimento. A fé católica enquadra o mistério do sofrimento dentro do mistério  maior do amor. Com efeito, o amor de Deus, que criou o homem num misterioso ato de benevolência, jamais o abandona; certamente exerce seus planos através dos percalços da caminhada que a criatura percorre na terra. Todas as respectivas ocorrências estão sob o signo desse amor primeiro gratuito e irreversível (cf. 1Jo 4, 10, 19).

Examinemos agora, de mais perto, a explicação teológica.

2.2.        A origem do mal no mundo

A S. Escritura refere que o mal no mundo teve origem por violação (por parte dos primeiros pais) da ordem instaurada pelo Criador.

Com efeito. Deus quis dotar os primeiros homens de grande riqueza interior: 1) a graça santificante, que lhes comunicava a filiação divina e 2)  os dons preternaturais (a isenção da morte, do sofrimento, da desordem de tendências interiores…). Tal era o estado de justiça original.

Estes dons estavam condicionados à fidelidade do homem ao plano de Deus. Sim; deviam ser livremente aceites pela criatura. Por isto o Criador propôs a esta um modelo de vida (figurado pela proibição da fruta da árvore da ciência do bem e do mal, Gn 2,16s). Aceitando-o, o homem significaria sua entrega ao desígnio de Deus; recusando-o, exprimiria o seu Não e sua auto-suficiência. 

Ora na verdade os primeiros pais rejeitaram o modelo de vida apresentado pelo Senhor Deus; pecaram por soberba, que os levou à desobediência. Em consequência, perderam a chamada “justiça original” e caíram num estado em que existem a morte, o sofrimento, as tendências desregradas… Verdade é que tanto a morte como o sofrimento e os apetites instintivos são algo de natural; todavia após o pecado dos primeiros pais trazem a marca da desordem e da desobediência. 

O mundo que, por dom de Deus, estava harmoniosamente sujeito ao homem, já não é tal; enquanto o homem se mantinha submisso e fiel a Deus, o mundo inferior estava subordinado ao homem; todavia, rompida a sujeição do homem ao Criador, rompe-se a serventia das criaturas irracionais ao homem; estas o maltratam e esmagam, negam-lhe os frutos da terra e, não raro, as condições de sobrevivência.

Por conseguinte, conforme o texto sagrado e a doutrina da fé, a origem do mal no mundo está no pecado ou no plano moral. Este suscitou o mal físico (doenças, mortes, catástrofes, calamidades…).

A doutrina do pecado original assim concebida tem sido questionada ou posta em dúvida por parte de alguns teólogos e exegetas. Estes afirmam que o pecado começou sua história no mundo sem o quadro ou a moldura que o texto sagrado lhe assinala; não importaria o modo de suas origens. Tal teoria destrói a cosmovisão cristã. Por isto o S. Padre João Paulo II, em suas audiências de Quarta-feira, tem insistido no assunto, incutindo a doutrina de fé na Igreja; tenha-se em vista L’Osservatore Romano, edições semanais de setembro-outubro 1986.

Eis, porém, que, na história das relações do homem com Deus, a última palavra não foi a do pecado nem a da desordem. O Senhor Deus não se quis deixar vencer pelo mal, mas venceu o mal com o bem (cf. Rm 12,21). É o que veremos a seguir.

2.3.        O resgate da dor

Diz São Paulo: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo” (Ef 2,4s). Ou ainda: “Onde abundou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm 5,20). Com outras palavras: Deus não ficou indiferente à desgraça na qual o homem se atirou pelo pecado; não assistiu “friamente” à tragédia; mas houve por bem assumi-la em toda a sua realidade concreta.

O testemunho do amor de Deus foi precisamente a obra de Cristo. Enviando seu Filho ao mundo, o Pai constituiu um segundo Adão ou um novo Cabeça da humanidade. Este assumiu a dor e a morte do homem até as últimas consequências, numa atitude de entrega e de amor ao Pai. Desta maneira mudou o significado do sofrimento humano; este já não é mera consequência do pecado ou sanção da justiça divina; ele foi redimido vindo a ser a vida de volta do homem a Deus. O homem sofre e, sofrendo, se encaminha para o Pai com Cristo.

Os teólogos costumam deter-se na explanação do valor do sacrifício de Cristo, valendo-se do texto de São Paulo: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por nós a fim de que nos tornássemos justiça de Deus por Ele” (2Cor 5,21). Estes dizeres significam que Cristo foi constituído sacrifício pelo pecado; Ele fez partir da própria natureza humana o amor e a dedicação ao Pai que o primeiro Adão recusou.

O cristão, sofrendo com Cristo, pode até mesmo tornar-se co-redentor com Jesus, expiando em sua carne os pecados da humanidade, como lembra o S. Padre Pio XII na encíclica Mystici Corporis Christi. Desta maneira, o sofrimento, além de ser escola benéfica (como foi dito à p. 65 deste artigo), é também ocasião de derramamento de graças sobre o mundo. O sofrimento dos inocentes há de ser visto à luz desta verdade: como Cristo inocente padeceu transfigurando a dor, assim o cristão santamente configurado a Cristo, padece oferecendo ao Pai o repúdio ao pecado e o amor que os pecadores deveriam tributar a Deus. 

O Pai celeste dispôs salvar os homens mediante Cristo e aqueles que se unem a Cristo pela santidade de sua vida. Assim a própria dor das pessoas retas e justas toma sentido. São Paulo dizia: “Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Quando o cristão sofre, não é simplesmente um ser biológico que sofre, mas é o próprio Redentor que estende a sua Paixão aos membros do seu Corpo Místico, associando-os à sua obra redentora: na verdade, o sacrifício de Cristo na Cruz foi infinitamente meritório, mas cada cristão pode dar-lhe o suporte ou a moldura da sua vida pessoal…, suporte que a Paixão de Cristo não teria se não fosse a vida de cada discípulo de Cristo.

O valor do sacrifício do cristão unido ao de Cristo foi realçado pelo Cardeal Frantisek Tomasek, de Praga, numa entrevista concedida ao periódico italiano II Sabato. O prelado falou então dos graves problemas que o regime comunista suscita para a Igreja na Tchecoslováquia (cerceamento de actividades pastorais, dificuldades para a nomeação de Bispos, encarceramento de sacerdotes e leigos…). O repórter então lhe perguntou:

“Eminência, não está cansado de combater uma batalha sem êxito?”

Respondeu o Cardeal: “A situação é difícil; não se vê como e quando possa melhorar. Mas tenho sempre esperança. Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus, faz muito, quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que fazemos entre nós, na Tchecoslováquia”.

Quem sofre, faz tudo, desde que unido a Cristo, pois toma parte íntima na Paixão Redentora do Senhor, fonte de salvação para o mundo inteiro.

3.    Conclusão

Eis a maneira como a mensagem cristã responde ao problema do sofrimento humano. Aos olhos da fé, é plenamente satisfatória; tem suscitado grandes heróis e heroínas através dos séculos. O que esta explicação possui de mais típico, é o facto de conjugar entre si justiça e amor. Sim; o sofrimento, de um lado, é a justa consequência do Não dito pelo homem a Deus no início da sua história; por outro lado, é o testemunho do amor de Deus que, assumindo o sofrimento e a morte, demonstra ao homem que lhe quer bem e não desiste de o chamar à Vida; Cristo transfigurou o sofrimento e o fez caminho de conversão ou de retorno ao Pai.

D. Estevão Bettencourt, osb in 'Revista: Pergunte e Responderemos'Nº 297 – Ano 1987 – Pág. 61.


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Andrea Bocelli conta como os médicos aconselharam que a Mãe o abortasse



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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Igreja do século XIX demolida na Alemanha

A enorme igreja de São Lamberto, em Immerath (Alemanha), foi demolida. O lugar de culto tinha sido construído no séc. XIX e o seu estilo era neo-românico. Naquele lugar passará a existir uma mina.






A nova igreja já foi construída, mas infelizmente não é tão bonita


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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Escolher um Santo para 2018

E que tal escolher um Santo protector para este ano? Um Santo a quem rezar constantemente, pedir ajuda e companhia.

Basta entrar neste site e seguir as instruções: Santo para 2018

(Quem puder faça uma pequena oração antes: uma Avé-Maria, por exemplo)


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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Cardeal Burke celebra Missa da Epifania em Roma















Igreja Trinità dei Pellegrini


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Papa Francisco critica o aborto e "novos direitos" surgidos depois de 1968

No discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, o Papa Francisco criticou os "novos direitos" que surgiram depois do 'Maio de 68', especialmente o "direito" ao aborto. O Papa criticou ainda a colonização ideológica dos países mais ricos em relação aos mais pobres, numa referência que já antes tinha usado em relação à ideologia de género e "direitos LGBT" que estão a ser impostos em muitos países como condição para a ajuda financeira ou humanitária por parte de poderosas organizações como a ONU:

«Todavia deve notar-se que, ao longo dos anos – sobretudo depois das agitações sociais de 1968 –, se foi progressivamente modificando a interpretação de alguns direitos, a ponto de se incluir uma multiplicidade de «novos direitos», não raro contrapondo-se entre si. Isto nem sempre favoreceu a promoção de relações amigas entre as nações, porque se afirmaram noções controversas dos direitos humanos que contrastam com a cultura de muitos países, que, por isso mesmo, não se sentem respeitados nas suas próprias tradições socioculturais, antes veem-se transcurados nas necessidades reais que têm de enfrentar. Consequentemente pode haver o risco – de certa forma paradoxal – de que, em nome dos próprios direitos humanos, se venham a instaurar formas modernas de colonização ideológica dos mais fortes e dos mais ricos em detrimento dos mais pobres e dos mais fracos. Ao mesmo tempo, é bom ter presente que as tradições dos diversos povos não podem ser invocadas como pretexto para descurar o devido respeito dos direitos fundamentais enunciados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Setenta anos depois, faz pena assinalar como muitos direitos fundamentais são violados ainda hoje. E, primeiro dentre eles, o direito à vida, à liberdade e à inviolabilidade de cada pessoa humana. A lesá-los, não são apenas a guerra ou a violência. No nosso tempo, há formas mais subtis: penso antes de mais nada nas crianças inocentes, descartadas ainda antes de nascer; às vezes não queridas, apenas porque doentes ou mal-formadas ou pelo egoísmo dos adultos. Penso nos idosos, também eles muitas vezes descartados, sobretudo se estão doentes, porque considerados um peso. Penso nas mulheres, que muitas vezes sofrem violências e prepotências, mesmo no seio das suas famílias. Penso depois em todos aqueles que são vítimas do tráfico de pessoas, que viola a proibição de toda e qualquer forma de escravatura. Quantas pessoas, especialmente em fuga da pobreza e da guerra, acabam objecto de tal traficância perpetrada por sujeitos sem escrúpulos!»

Papa Francisco in 'Discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé' (8.I.2018)


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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Cavaleiros e Imperadores nas Matinas Papais

Em L'année liturgique, Dom Prosper Guéranger conta o que deve ter sido uma das mais sublimes cerimónias da Cristandade: As Matinas Papais. O cerimonial exige que um cavaleiro leia a quinta lição e que o próprio Sacro Imperador Romano leia a sétima, testemunhando toda a variedade orgânica existente na sociedade medieval.

O Divino Infante, que nascerá entre nós, é o Deus forte, o Príncipe da Paz, e foi posto o principado sobre o seu ombro (Isaías 9, 6), como cantaremos amanhã com a Igreja. Já vimos como o Deus dos exércitos honrou esse poder de Emanuel, conduzindo Nações poderosas a reconhecê-lo deitado no berço de Belém como o Senhor a quem deviam sua fidelidade.

O mesmo reconhecimento desse bebé como o Deus Poderoso é feito pela cerimónia a que nos referimos anteriormente. O Soberano Pontífice, o Vigário do nosso Emanuel, abençoa, em seu nome, uma Espada e um Capacete, que devem ser enviados a algum guerreiro Católico cujo braço vitorioso foi reconhecidamente meritório na república Cristã. 

Numa carta dirigida à Rainha Maria de Inglaterra e a Filipe, seu marido, o Vigário de Cristo explica esse ritual tão solene. A espada é enviada a algum Príncipe, que o Vigário de Cristo deseja honrar em nome de Jesus, que é Rei; pois o Anjo disse a Maria: O Senhor Deus lhe dará o Trono do seu antepassado, o Rei David (Lucas 1, 19). É só dele que vem o poder da espada (Romanos 13, 3:4); porque Deus disse a Ciro: Eu te cingi (Isaías 45, 5); e o salmista fala assim ao ungido de Deus: Cinge a tua espada ao teu lado, ó (rei) poderosíssimo, tua gala e teu ornato! (Salmo 44, 4).

E porque a Espada não deve ser usada excepto numa causa justa, e é por isso que a espada é abençoada nesta noite, na qual nasce para nós o divino Sol de Justiça. No Capacete, que é tanto o ornamento quanto a protecção da cabeça, está trabalhada em pérolas, a Pomba, que é o símbolo do Espírito Santo; isto para ensinar a quem usa o elmo que o uso da espada não deve vir da paixão ou da ambição, mas apenas sob a orientação do Espírito Divino e com o motivo de estender o Reino de Cristo na terra.

[... durante o segundo nocturno, depois dos salmos serem cantados], o Livro dos Sermões dos Santos Padres é aberto, e uma passagem é lida de um desses magníficos discursos de São Leão Magno, que enamorou o povo de Roma no século V.

Em Roma, se o cavaleiro a quem o capacete e a espada foram destinados (que foram abençoados antes das Matinas pelo Soberano Pontífice) está presente, ele mesmo deve ler a quinta Lição, porque fala da grande batalha entre Cristo e Satanás no glorioso mistério da Encarnação. Enquanto o Coro está cantando o responsório O magnum mysterium, o Cavaleiro é levado pelo Mestre das Cerimónias ao Papa. De pé diante do Santo Padre, ele retira a sua espada, três vezes toca com a ponta da espada no chão, três vezes a brande no ar marcialmente e depois limpa a lâmina sobre o braço esquerdo. Ele é então levado para o púlpito, tira o seu capacete e coloca o pluvial (Capa que se usa na Asperges) sobre a armadura e, finalmente, lê a Lição. 

Tais são as disposições do Cerimonial da Santa Igreja Romana, elaboradas num momento em que a força material estava inclinada a curvar-se à ideia moral, onde o cavaleiro com capa de ferro testemunha que deseja seguir Cristo, o vencedor de Satanás. Havia algo estranho ao expressar isso por uma cerimónia sagrada?

[… Depois da terceira nocturna] lemos sucessivamente o início dos vários textos do Santo Evangelho que serão lidos mais adiante, em cada uma das três Missas, pelas quais a Igreja honra o nascimento do Salvador. Para cada passagem dos Evangelhos são usadas homilias dos Doutores da Igreja.

O primeiro dos três textos, que é de São Lucas, é explicado por São Gregório Magno. Ele relata o édito do Imperador Augusto a exigir um censo a todo o Império Romano. Esta Sétima Lição, após o Cerimonial da Santa Igreja Romana, deve ser lida pelo próprio Imperador, se ele estiver em Roma, para honrar o poder Imperial, cujos decretos chamaram a Belém Maria e José, e assim procurando cumprir da vontade do Altíssimo, manifestadas pelos profetas. 

O Imperador é levado perante o Papa, da mesma forma que foi o cavaleiro que cantou a quinta lição; está vestido com o pluvial; Dois Cardeais-Diáconos cingem-lhe a espada e acompanham-no até o púlpito. Com a lição concluída, o Imperador apresenta-se novamente diante do Pontífice e beija o seu pé, como sendo o Vigário de Cristo, o qual acaba de anunciar. Esta cerimónia foi novamente observada em 1468 pelo imperador Frederico III, na presença do Papa Paulo II.

in sicutincensum.wordpress.com


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"Verdade e caridade são inseparáveis" Papa Bento XVI

"O poder do mal é a mentira. O poder da fé, o poder de Deus é a verdade. A verdade sobre o mundo e sobre nós mesmos torna-se visível quando olhamos para Deus. E Deus torna-se-nos visível no rosto de Jesus Cristo. Olhando para Cristo, reconhecemos mais uma coisa: verdade e caridade são inseparáveis."

Papa Bento XVI, homilia no encerramento do Ano Paulino


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domingo, 7 de janeiro de 2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

Os presentes dos Reis e os nossos presentes

Na vizinha Espanha, só agora se trocam os presentes de Natal, à imitação dos Reis, que neste dia ofereceram ao Menino os seus presentes. É aliás a partir deste gesto simpático dos Magos que nasceu a nossa tradição de trocar prendas no dia de Natal. E que bela tradição! De regresso às aulas, faço com os meus alunos uma atividade de Speaking: em inglês, pergunto sobre as férias, as prendas, o dia de Natal. Chego à conclusão que quase todos os alunos receberam as mesmas coisas: roupa, dinheiro, alguns telemóveis. E fico a pensar…
Dar dinheiro a um adolescente ou jovem que esteja a poupar com um fim especial – uma viagem, a carta de condução, a compra de uma máquina fotográfica, etc – é uma ideia feliz. Mas dar dinheiro porque sim, para que a criança pequena o gaste a seu bel prazer, ou apenas porque não temos imaginação para outra coisa, é uma ideia triste. Cá em casa, os mais velhos sabem bem o uso a dar ao dinheiro que recebem. Mas os mais novos ficam confusos: “Podemos comprar todas as gomas que quisermos?” “Podemos ir à loja dos chineses buscar aquelas coisas todas que queremos?” Claro que faz parte da educação ensinar a usar e a poupar dinheiro, mas será esse o objetivo da troca de presentes na noite de Natal?

Oferecer roupa ou acessórios pode ter a sua utilidade, mas também pode ser apenas mais uma forma de reforçarmos a vaidade. Hoje preocupamo-nos pouco com a vaidade infantil, e até a estimulamos. Associada à vaidade vem aquilo a que os psicólogos já chamam de “erotização da infância”. Uma das atitudes mais comuns no Facebook é a colocação de “likes” em fotos que não mostram nada a não ser a própria pessoa numa nova pose. “Que bonita!” “Que sexy!” “Que rapariga gira!” Será mesmo este o caminho para desenvolver a autoestima dos nossos filhos, num mundo cada vez mais obcecado com as aparências? Recordo aqui uma passagem da autobiografia de Santa Teresinha, escrita para a sua irmã mais velha, na altura sua “Madre” em religião:
“Lembro-me de que, enquanto passeávamos na praia, um senhor e uma senhora viram-me correr alegremente à volta do papá e, aproximando-se, perguntaram se eu era dele e disseram que eu era uma menina muito bonita. O papá respondeu-lhes que sim, mas apercebi-me que lhes fez sinal para não me elogiarem… Era a primeira vez que ouvia dizer que era bonita, o que me agradou muito, pois eu não me julgava tal. Vós, minha madre, estáveis muito atenta a que ao pé de mim não houvesse nada que pudesse manchar a minha inocência, sobretudo, a não me deixar ouvir nenhuma palavra capaz de insinuar a vaidade no meu coração.”
Talvez nos choque este excesso de zelo. Mas estes pais zelosos criaram uma família de santos. Nós enaltecemos a vaidade, os pais de santos enaltecem a modéstia. Quem é que hoje fala em modéstia? Que o excesso destes pais nos faça abrandar um bocadinho no nosso excesso contrário.

Fica então a pergunta: que presentes oferecer aos filhos no Natal, quando já passou o tempo das bonecas ou dos carrinhos e ainda não chegou o tempo para ajudar com a carta de condução ou a viagem de finalistas? Que forma encontrar para, no Natal, oferecermos um presente que não afaste os nossos filhos do verdadeiro Presente, o Menino nas palhinhas? Que privilegie os mesmos sentimentos e valores do Presépio? Que não valha pelo valor material, mas pelo que possibilita de abertura ao outro e a Deus e de descoberta dos seus próprios talentos divinos?

Imaginação a trabalhar! Ofereçamos aos adolescentes ou às crianças mais velhas, e de acordo com as nossas possibilidades, um par de patins, uma prancha de skate, uma corda ou um elástico para saltar, uma tabela de basquetebol para interior ou exterior, um bilhete de cinema, um arco e flecha, um boomerang, um instrumento musical, uma caixa de costura, uma máquina de costura, uma caixa de ilusionismo.

“Mas o meu filho não sabe fazer nada disso!” Talvez o nosso presente o encoraje a começar, por que não? Irá certamente encorajá-lo a desligar o computador, o telemóvel ou o televisor para brincar, aprender novas coisas, partilhar momentos felizes com amigos e família, prolongando o tempo de infância até onde o puder prolongar. Cada vez encontramos mais crianças a viver vidas de adolescentes, adolescentes a viver vidas de jovens, jovens a viver vidas de adultos, e depois – surpresa? – adultos a viver como se ainda fossem crianças ou jovens descomprometidos, gastando horas em jogos de telemóvel e trocando de namorado e namorada como nos tempos de liceu.

Ena, Teresa, até onde nos pode levar uma reflexão sobre os presentes de Natal! É verdade. Educar é não deixar nada ao acaso, nem mesmo os presentes de Natal. E as Famílias de Caná educam para a santidade. Nem mais, nem menos…

Teresa Power in familiasdecana.pt


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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Escolher o último lugar e evitar comparações

Se soubéssemos claramente em que lugar Deus coloca cada um de nós, aceitaríamos tal decisão sem nunca nos colocarmos nem acima nem abaixo desse lugar. Mas, no nosso estado presente, os decretos de Deus estão envoltos em trevas e a sua vontade está-nos oculta. 

Por isso, o mais seguro, de acordo com o conselho da própria Verdade, é escolhermos o último lugar, de onde nos tirarão depois com honra, para nos darem um melhor. Ao passarmos debaixo de uma porta muito baixa, podemos baixar-nos tanto quanto quisermos sem nada temer; mas, se nos levantarmos um dedo que seja acima da altura da porta, bateremos com a cabeça. É por isso que não devemos recear nenhuma humilhação, mas antes temer e reprimir o menor movimento de auto-suficiência.

Não vos compareis, nem com os que são maiores que vós, nem com os vossos inferiores, nem com quaisquer outros, nem sequer com um só. Que sabeis sobre eles? Imaginemos um homem que parece o mais vil e desprezível de todos, cuja vida infame nos horroriza. Pensais que o podeis desprezar, não só por comparação convosco mesmos, que aparentemente viveis em sobriedade, justiça e piedade, mas até por comparação com outros malfeitores, dizendo que ele é o pior de todos. Mas sabeis se ele não será um dia melhor que vós e se o não é já aos olhos do Senhor? 

Por isso é que Deus não quis que ocupássemos um lugar intermédio, nem o penúltimo, nem sequer um dos últimos, mas disse: «Toma o último lugar», a fim de ficarmos verdadeiramente sós na última fila. Desse modo não pensareis, já não digo em preferir-vos, mas simplesmente em comparar-vos com quem quer que seja.

São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense, doutor da Igreja in Sermão 37, sobre o Cântico dos Cânticos 


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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Henrique Raposo, os fariseus e o "recomeço dos recasados"

Num lamaçal de ideias o cronista Henrique Raposo disse que existe um grupo de fariseus separatistas que defende erradamente que quem se encontra em relações extraconjugais não pode receber o sacramento da Eucaristia. O Henrique Raposo diz que eles estão errados, porque o verbo cristão por excelência é "recomeçar".

E o que significa este "recomeçar", perguntamos? O Henrique diz que está em jogo um duplo discernimento, um exame de consciência, sobre o compromisso com o Evangelho e com a ideia de família. Cabe ao sacerdote vigiar e avaliar este exame interno. Se o exame for honesto, se quem quiser receber o sacramento da eucaristia quiser crescer em caridade, se o sacerdote levantar o polegar para cima, então qual é o mal? Pergunta o Henrique Raposo.

O "recomeçar" que o Henrique tanto fala não vive sozinho num mundo de ideias bonitas sobre o cristianismo. Recomeçar apenas significa alguma coisa se existir arrependimento e propósito de não voltar a pecar. Isto estará assim, tal e qual, em qualquer pequeno e humilde catecismo que se preze. O Henrique Raposo faz uma interessante tentativa no artigo. Primeiro chama muitos nomes a quem tem uma opinião diferente da dele e depois manda um argumento completamente falacioso para o ar, para ver se alguém o apanha.

As respostas aos argumentos estão dadas, existia apenas um. Mas o Henrique Raposo também faz algumas perguntas. "Se a misericórdia do Senhor pode ser recebida por todos, até pelo violador e pedófilo, porque é que continuam a ostracizar o divorciado? Porque é que continuam a negar os mandamentos da reconciliação e da eucaristia ao divorciado recasado? Onde é que está escrito que o divórcio é o único pecado sem acesso ao perdão?"

O que nos diz o dicionário da doutrina católica sobre a palavra divórcio:

DIVÓRCIO é a separação dos cônjuges com a intenção de não tornarem a viver sob o mesmo tecto. Pode ser: a) — pleno, e consiste na separação para passar a outras núpcias, o que nunca é lícito; b) — semipleno, e consiste na separação dos cônjuges sem intenção de romperem o vínculo conjugal, o que é lícito havendo causa. As causas são: adultério de um dos cônjuges; afastamento da verdadeira Religião para a apostasia ou heresia; grave dano para a alma ou para o corpo; mútuo consentimento. O Matrimónio válido e consumado não pode ser dissolvido por nenhuma Autoridade humana (C. 1118).  

Sobre a indissolubilidade do Matrimónio escreveu o Apóstolo São Paulo o seguinte: «Aqueles que estão unidos em Matrimónio mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido e, se se separa (por causa justa) que fique sem casar ou que se concilie com seu marido. E o marido, da mesma maneira, não deixe a sua mulher» (Ep. I Cor. VII, 10, 11). 

E Jesus Cristo já tinha condenado o divórcio com estas palavras: «Qualquer que repudiar a sua mulher e se casar com outra comete adultério contra a sua primeira mulher. E, se a mulher repudiar o seu marido e se casar com outro, comete adultério» (Ev. S. Mar. X, 11). É, pois, absolutamente proibido por lei divina que os casados, se tiverem de se separar por causa justa, façam novo casamento, enquanto ambos forem vivos. Não podem os fiéis aceitar o divórcio pleno embora seja admitido pelo Poder civil.

O divórcio, por si só, não é o problema em causa. O problema prende-se no facto de o marido/mulher viverem ou não uma vida celibatária, depois de separados. Não viver uma vida celibatária após a separação é pecado grave e quem vive em pecado grave não pode comungar. Ou seja, o pecado de dormir com outra mulher, se existir arrependimento e intenção de não voltar a pecar, pode ser perdoado, mas se não existe arrependimento nem intenção de não voltar a pecar, então não existe perdão. O pedófilo e o criminoso são perdoados apenas se estas duas condições existam, se não existirem estão no mesmo caso que os divorciados.

Os nomes que o Henrique Raposo chama aos católicos também são engraçados. Vale a pena dizer que os fariseus são como Henrique Raposo, são os que põem as leis dos homens à frente das leis de Deus. Exactamente o que ele pretendeu fazer com o seu artigo.

Miguel P. Silva


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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Missa Solene nas ruínas da II Guerra Mundial

Catedral de São Paulo em Münster (30 de Setembro de 1945)


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Contra a confusão doutrinal: 3 Bispos publicaram uma profissão das verdades imutáveis do matrimónio

Profissão das verdades imutáveis em relação ao matrimónio sacramental

Depois da publicação da Exortação Apostólica “Amoris laetitia” (2016), vários bispos emanaram, a nível local, regional e nacional, normas aplicativas acerca da disciplina sacramental daqueles fiéis, ditos “divorciados recasados”, que, vivendo ainda ligados ao cônjuge ao qual estão unidos por um vínculo matrimonial válido, iniciaram no entanto uma convivência more uxorio estável com uma pessoa que não é o seu cônjuge legítimo.

As normas mencionadas contemplam, entre outras coisas, que, em casos individuais, as pessoas ditas “divorciadas recasadas” possam receber o sacramento da Penitência e a Sagrada Comunhão, mesmo continuando a viver habitual e intencionalmente more uxorio com uma pessoa que não é o seu cônjuge legítimo. Tais normas pastorais receberam a aprovação de várias autoridades hierárquicas. Algumas destas normas receberam, até, a aprovação da suprema autoridade da Igreja.

A difusão de tais normas pastorais aprovadas eclesiasticamente causou uma notável e sempre crescente confusão entre os fiéis e o clero, uma confusão que toca as manifestações centrais da vida da Igreja, como o matrimónio sacramental, a família, a igreja doméstica e o sacramento da Santíssima Eucaristia.

Segundo a doutrina da Igreja, apenas através do vínculo matrimonial sacramental se constitui uma igreja doméstica (cfr. Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 11). A admissão dos fiéis chamados “divorciados recasados” à Sagrada Comunhão, a qual é a expressão máxima da unidade de Cristo-Esposo com a Sua Igreja, significa, na prática, um modo de aprovação ou de legitimação do divórcio e, neste sentido, uma espécie de introdução do divórcio na vida da Igreja.
As mencionadas normas pastorais revelam-se de facto, e com o tempo, como um meio de difusão da “chaga do divórcio”, uma expressão usada no Concílio Vaticano II (cfr. Gaudium et Spes, 47). Trata-se da difusão da “chaga do divórcio” até mesmo na vida da Igreja, quando na verdade a Igreja deveria ser a causa da fidelidade incondicional à doutrina de Cristo, um baluarte e um sinal inconfundível de contradição contra a chaga cada dia mais difundida do divórcio na sociedade civil.

De modo inequívoco, e sem admitir qualquer excepção, o Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo reconfirmou solenemente a vontade de Deus em relação à proibição absoluta do divórcio. Uma aprovação ou legitimação da violação do vínculo sacramental matrimonial, ainda que através da referida nova disciplina sacramental, contradiz de modo grave a expressa vontade de Deus e o Seu mandamento. Tal prática representa, assim, uma alteração substancial da bimilenária disciplina sacramental da Igreja. Para além disto, uma disciplina substancialmente alterada comportará, com o tempo, também uma correspondente alteração na doutrina.

O Magistério constante da Igreja, começando com os ensinamentos dos Apóstolos e de todos os Sumos Pontífices, conservou e transmitiu fielmente, quer na doutrina (na teoria) quer na disciplina sacramental (na prática), de modo inequívoco, sem qualquer sombra de dúvida e sempre no mesmo sentido e no mesmo significado (eodem sensu eademque sententia), o cristalino ensinamento de Cristo acerca da indissolubilidade do matrimónio.

Por causa da sua natureza divinamente estabelecida, a disciplina dos sacramentos não deve jamais contradizer a palavra revelada por Deus e a fé da Igreja na indissolubilidade absoluta do matrimónio rato e consumado. “Os sacramentos não só supõem a fé, mas também a alimentam, fortificam e exprimem por meio de palavras e coisas, razão pela qual se chamam sacramentos da fé” (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, 59). “Nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia” (Catecismo da Igreja Católica, 1125). A fé católica, pela sua natureza, exclui uma contradição formal entre a fé professada, por um lado, e a vida e a prática dos sacramentos, pelo outro. Neste sentido também se pode entender as afirmações do Magistério: “Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo(Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 43) e “a pedagogia concreta da Igreja deve estar sempre ligada e nunca separada da sua doutrina” (João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 33).

Em virtude da importância vital que constituem a doutrina e a disciplina do matrimónio e da Eucaristia, a Igreja é obrigada a falar com a mesma voz. As normas pastorais em relação à indissolubilidade do matrimónio não devem, portanto, contradizer-se entre uma diocese e outra, entre um país e outro. Desde o tempo dos Apóstolos, a Igreja observou este princípio, como o atesta Santo Ireneu de Lião: “A Igreja, ainda que difundida por todo o mundo até às extremidades da terra, tendo recebido dos Apóstolos e dos seus discípulos a fé, conserva esta pregação e esta fé com zelo e, come se habitasse numa única casa, crê num mesmo modo idêntico, come se tivesse uma única alma e um único coração, e prega as verdades de fé, ensina-as e transmite-as com voz unânime, como se tivesse uma só boca” (Adversus haereses, I, 10, 2). São Tomás de Aquino transmite-nos o mesmo princípio perene da vida da Igreja: “Existe uma só fé dos antigos e dos modernos, caso contrário não existiria a única e mesma Igreja” (Questiones Disputatae de Veritate, q. 14, a. 12c).

Permanece actual e válida a seguinte admoestação: “confusão criada na consciência de muitos fiéis pelas divergências de opiniões e de ensinamentos na teologia, na pregação, na catequese e na direcção espiritual, acerca de questões graves e delicadas da moral cristã, acaba por fazer diminuir, quase até à sua extinção, o verdadeiro sentido do pecado” (Exortação Apostólica Reconciliatio et paenitenia, 18).

À doutrina e disciplina sacramental relativas à indissolubilidade do matrimónio rato e consumado é plenamente aplicável o sentido das seguintes afirmações do Magistério da Igreja:

· “A Igreja de Cristo, diligente custódia e defensora dos dogmas a ela confiados, jamais os mudou em nada, nem diminuiu, nem acrescentou, antes, tratando, fiel e sabiamente, com todos seus recursos as verdades que a antiguidade tem esboçado e a fé dos Padres tem semeado, de tal maneira trabalha por arquivá-las e poli-las, para que os antigos dogmas da celestial doutrina recebam claridade, luz, precisão, sem que se percam, sem restrição, sua plenitude, sua integridade, sua índole própria e se desenvolvam tão só segundo sua natureza; e dizer o mesmo dogma, no mesmo sentido e parecer” (Pio IX, Bula dogmática Ineffabilis Deus).

· “Quanto à própria substância da verdade, a Igreja tem, diante de Deus e dos homens, o sacro dever de anunciá-la, de ensiná-la sem qualquer atenuação, como Cristo a revelou, e não existe qualquer condição de tempos que possa fazer declinar o rigor desta obrigação. Esta obriga em consciência todos os sacerdotes a quem é confiada a assistência de formar, advertir e de guiar os fiéis” (Pio XII, Discurso aos párocos e aos pregadores quaresmalistas, 23 Março 1949).

· A Igreja nem historiciza nem relativiza em metamorfoses da cultura profana a natureza da Igreja, sempre igual e fiel a si mesma, como Cristo a quis e a autêntica tradição a aperfeiçoou” (Paulo VI, Homilia de 28 Outubro 1965).

· “Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas” (Paulo VI, Encíclica Humanae Vitae, 29).

· As eventuais dificuldades conjugais sejam resolvidas sem nunca falsificar e comprometer a verdade” (João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 33).

· De tal norma [da lei moral] a Igreja não é, certamente, nem a autora nem o juiz. Em obediência à verdade que é Cristo, cuja imagem se reflecte na natureza e na dignidade da pessoa humana, a Igreja interpreta a norma moral e propõe-na a todos os homens de boa vontade, sem esconder as suas exigências de radicalidade e de perfeição” (João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 33).

· O outro é o princípio da verdade e da coerência, pelo qual a Igreja não aceita chamar bem ao mal e mal ao bem. Baseando-se nestes dois princípios complementares, a Igreja mais não pode do que convidar os seus filhos, que se encontram nessas situações dolorosas, a aproximarem-se da misericórdia divina por outras vias, mas não pela via dos Sacramentos, especialmente da Penitência e da Eucaristia, até que não tenham podido alcançar as condições requeridas” (João Paulo II, Exortação Apostólica Reconciliatio et paenitentia, 34).

· “A firmeza da Igreja em defender as normas morais universais e imutáveis, nada tem de humilhante. Fá-lo apenas ao serviço da verdadeira liberdade do homem: dado que não há liberdade fora ou contra a verdade” (João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, 96).

· “Diante das normas morais que proíbem o mal intrínseco, não existem privilégios, nem excepções para ninguém. Ser o dono do mundo ou o último «miserável» sobre a face da terra, não faz diferença alguma: perante as exigências morais, todos somos absolutamente iguais” (João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, 96).

· “O dever de reafirmar esta impossibilidade de admitir à Eucaristia é condição de verdadeira pastoralidade, de autêntica preocupação pelo bem destes fiéis e de toda a Igreja, porque indica as condições necessárias para a plenitude da conversão à qual todos estão sempre convidados pelo Senhor” (Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração acerca da admissão à Sagrada Comunhão dos divorciados recasados, de 24 Junho de 2000, n. 5)

Como bispos católicos, os quais – segundo o ensinamento do Concílio Vaticano II – devem defender a unidade da fé e a disciplina comum da Igreja e procurar que surja para todos os homens a luz da plena verdade (cfr Lumen gentium, 23), somos forçados em consciência a professar, diante da actual e difusa confusão, a imutabilidade do matrimónio segundo o ensinamento bimilenário e inalterado do Magistério da Igreja. Neste espírito, reiteramos:

· As relações sexuais entre pessoas que não estão ligadas entre elas pelo vínculo de um matrimónio válido – coisa que se verifica no caso dos chamados “divorciados recasados” – são sempre contrárias à vontade de Deus e constituem uma grave ofensa a Deus.

· Nenhuma circunstância ou finalidade, nem mesmo uma possível inimputabilidade ou culpa diminuída, podem tornar tais relações sexuais uma realidade moral positiva e agradável a Deus. O mesmo vale para os outros preceitos negativos dos Dez Mandamentos de Deus. Porque “há determinados actos que, por si mesmos e em si mesmos, independentemente das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos, por motivo do seu objecto” (João Paulo II, Exortação Apostólica Reconciliatio et paenitentia, 17).

· A Igreja não possui o carisma infalível de julgar sobre o estado interno de graça de um fiel (cfr. Concílio de Trento, sess. 24, cap. 1). A não admissão à Sagrada Comunhão dos ditos “divorciados recasados” não significa, portanto, um juízo sobre os seus estados de graça diante de Deus, mas um juízo sobre o carácter visível, público e objectivo das suas situações. Por causa da natureza visível dos sacramentos e da própria Igreja, a recepção dos sacramentos depende necessariamente da correspondente situação visível e objectiva dos fiéis.

· Não é moralmente lícito manter relações sexuais com uma pessoa que não é o próprio cônjuge legítimo para supostamente evitar um outro pecado. Porque a palavra de Deus ensina-nos que não é lícito “fazer o mal para que venha o bem” (Rm 3, 8).

· A admissão de tais pessoas à Sagrada Comunhão só pode ser permitida quando, com a ajuda da graça de Deus e um acompanhamento pastoral paciente e individual, elas fazem um propósito sincero de cessar desse momento em diante o hábito de tais relações sexuais e de evitar o escândalo. Nisto se expressou sempre, na Igreja, o verdadeiro discernimento e o autêntico acompanhamento pastoral.

· As pessoas que têm relações sexuais não conjugais habituais violam, com tal estilo de vida, os seus indissolúveis vínculos nupciais sacramentais em relação aos seus legítimos cônjuges. Por esta razão, não são capazes de participar “em espírito e em verdade” (cfr. Jo 4, 23) na ceia nupcial eucarística de Cristo, tendo em conta também as palavras do rito da Sagrada Comunhão: “Felizes os convidados para ceia nupcial do Cordeiro!” (Ap 19, 9).

· O cumprimento da vontade de Deus, revelada nos Seus Dez Mandamentos e na Sua explícita e absoluta proibição do divórcio, constitui o verdadeiro bem espiritual das pessoas, aqui na terra, e conduzi-las-á à verdadeira alegria do amor, na salvação da vida eterna.

Sendo os bispos, no seu ofício pastoral aqueles “que velam pela fé católica e apostólica” (cfr. Missale Romanum, Canon Romanus), somos conscientes desta grave responsabilidade e do nosso dever diante dos fiéis, que esperam de nós uma profissão pública e inequívoca da verdade e da disciplina imutável da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio. Por esta razão, não nos é possível calar.

Afirmamos, portanto, no espírito de São João Baptista, de São João Fisher, de São Tomás More, da Beata Laura Vicuña e de numerosos conhecidos e desconhecidos confessores e mártires da indissolubilidade do matrimónio:

Não é lícito (non licet) justificar, aprovar ou legitimar, nem directa nem indirectamente, o divórcio ou uma relação sexual estável não conjugal através da disciplina sacramental da admissão dos chamados “divorciados recasados” à Sagrada Comunhão, tratando-se neste caso de uma disciplina alheia à inteira Tradição da fé católica e apostólica.

Fazendo esta pública profissão diante da nossa consciência e diante de Deus que nos julgará, estamos sinceramente convictos de ter prestado um serviço, da caridade na verdade, à Igreja dos nossos dias e ao Sumo Pontífice, Sucessor de São Pedro e Vigário de Cristo na terra.

31 de Dezembro de 2017, Festa da Sagrada Família, no ano do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima.

+ Tomash Peta, Arcebispo Metropolita da arquidiocese de Santa Maria em Astana
+ Jan Pawel Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda
+ Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana


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