terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Em Loreto está a casa onde o Verbo de Deus encarnou

A casa onde a Sagrada Família viveu, em Nazaré, foi transportada por Anjos até Loreto (Itália)

Vem-me à lembrança a viagem que fiz a Loreto, em 15 de Agosto de 1951, para visitar a Santa Casa por motivo muito íntimo. Celebrei lá a Santa Missa. Queria dizê-la com recolhimento mas não tinha contado com o fervor da multidão. Não tinha calculado que nesse grande dia de festa muitas pessoas dos arredores viriam a Loreto – com a bendita fé dessa terra e com o amor que têm à Madonna. E a sua piedade, considerando as coisas – como diria? – só do ponto de vista das leis rituais da Igreja, levava-as a manifestações não muito correctas. 

E assim, enquanto eu beijava o altar, nos momentos prescritos pelas rubricas da Missa, três ou quatro camponeses beijavam-no ao mesmo tempo. Distraía-me mas estava emocionado. E também me atraía a atenção a lembrança de que naquela Santa Casa – que a tradição assegura ser o lugar onde viveram Jesus, Maria e José – na mesa do altar tinham gravado estas palavras: Hic Verbum caro factum est. Aqui, numa casa construída pelas mãos dos homens, num pedaço de terra em que vivemos, habitou Deus!

S. Josemaria Escrivá - Homilia pronunciada no dia 24 de Dezembro de 1963


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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Terra redonda e diversidade de religiões

Eu creio - porque o afirmam fontes credíveis - que o mundo é redondo. Que possam existir tribos que crêem que é triangular ou rectangular não altera o facto que o mundo tem uma forma determinada e não outra. 

Portanto, ninguém diga que a variedade de religiões o impede de crer numa delas. Não seria um comentário inteligente.

G. K. Chesterton in Daily News


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sábado, 7 de dezembro de 2019

Ordenações na Abadia Beneditina de Clear Creek

O Bispo de Tulsa, Mons. David Konderla, ordenou um diácono e um sacerdote entre os monges beneditinos da Abadia de Clear Creek. Este mosteiro beneditino foi fundado em 1999 em Oklahoma (EUA), tem tido bastantes vocações e segue, em exclusivo, a Liturgia Tradicional.


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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Nações Unidas minimizam o crime de pornografia infantil

A Assembleia Geral da ONU irá adoptar uma resolução sobre a exploração sexual de crianças online que endossa a substituição do termo "pornografia infantil" por "material de abuso sexual infantil" como parte da luta contra a pornografia infantil. 

Os defensores dessa abordagem dizem que isso ajudará a polícia a distinguir entre pornografia legal para adultos e imagens sexuais criminais de crianças. Mas os especialistas da polícia dos EUA alertaram contra essa abordagem no passado, alertando que ela pode dificultar os esforços para processar casos de pornografia infantil.

Os países europeus vêm promovendo o novo idioma há vários anos, e a resolução a ser adoptada pode ter implicações de longo alcance sobre como o sistema da ONU, e dos países do Mundo, combatem a pornografia infantil. Como a pornografia infantil é um fenómeno global da Internet, a luta contra a pornografia infantil exige uma abordagem globalizada.

A resolução da Assembleia Geral observa que “em alguns Estados-Membros o termo 'pornografia infantil' vem a ser cada vez mais referido como 'material de exploração sexual infantil' ou 'material de abuso sexual infantil' para reflectir melhor a natureza desse material e a gravidade do dano sofrido pela criança neste contexto."

O problema é que não está claro se o uso do termo "material de abuso sexual infantil" se refere apenas a imagens produzidas como resultado de ou no processo de abuso sexual da criança ou a qualquer representação sexualmente explícita de crianças.

A confusão foi uma das razões pelas quais Kenneth V. Lanning, especialista em investigação de longa data para o FBI, se opôs ao uso de uma nova terminologia para combater a pornografia infantil.

"A lei federal agora não exige que as crianças na pornografia infantil sejam abusadas sexualmente ... Se isso acontecesse, isso poderia exigir mais provas e evidências para processar um caso", escreveu Lanning ,um manual sobre agressores sexuais usado pelo Departamento de Justiça.

“Como algumas pessoas pensam que 'pornografia' não é uma questão importante, não justifica a mudança de um termo (pornografia infantil) com 30 anos de jurisprudência para um termo (imagens de abuso infantil) sem histórico jurídico e exigindo um ónus adicional de prova . Porquê começar a usar um novo termo de significado pouco claro que confundirá ainda mais as pessoas?”, pergunta Lanning.

Os defensores da nova linguagem respondem que qualquer imagem sexualmente explícita de uma criança é inerentemente abusiva e, portanto, esta é uma falsa questão.

“Se uma imagem mostra uma criança envolvida em conduta sexualmente explícita, a imagem é pornografia infantil ou uma imagem sexualmente abusiva de uma criança. A imagem em si é prejudicial ”, escreveu a ex-promotora federal e professora de direito da Universidade Católica da América, Mary Graw Leary, num livro que publicou recentemente.

Mas os países europeus que promovem o novo idioma são signatários da Convenção de Lanzarote, que é conhecida por deixar espaço aos países sobre o que deve ser considerado abuso sexual de crianças. A Convenção de Lanzarote é consideravelmente menos protectora do que o Protocolo Opcional à Convenção sobre os Direitos da Criança na Venda de Crianças, da qual os EUA fazem parte.

O Protocolo Opcional considera qualquer imagem sexualmente explícita de uma criança, com menos de 18 anos, como pornografia infantil e exige que os Estados proíbam a produção, distribuição e posse de tais imagens. A convenção de Lanzarote, por outro lado, não exige a acusação de pornografia infantil virtual ou a criminalização da pornografia infantil produzida ou distribuída consensualmente por menores de idade acima do consentimento.

 Stefano Gennarini, J.D. in C-Fam


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Os Olhos Daquela Aquela - Cante Alentejano

Além daquela janela
Dois olhos me estão matando:

Matem-me devagarinho,
Que eu quero morrer cantando!
 
Matem-me devagarinho
Que eu quero morrer cantando;

Que eu quero morrer cantando
Nos braços duma donzela!
Dois olhos me estão matando,
Além daquela janela.
 

Os olhos daquela, aquela;
Os olhos daquela além,
São os olhos duma rosa:
Parecem os do mê' bem!


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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Admirabile signum: Carta Apostólica do Papa Francisco sobre o significado e valor do Presépio

1. O Sinal Admirável do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De facto, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrir que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele. 

Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente dum exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente com os avós, transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar. 

2. A origem do Presépio fica-se a dever, antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (2, 7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio. 

Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo 6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: «Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento».[1] Na realidade, o Presépio inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária. 

Passemos agora à origem do Presépio, tal como nós o entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra em 29 de Novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura. 

As Fontes Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro».[2] Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do Santo. 

No dia 25 de Dezembro, chegaram a Gréccio muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em Gréccio, naquela ocasião, não havia figuras; o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes.[3] 

Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério. 

O primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite, à simples e comovente representação se veio juntar o dom duma visão maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas cheios de inefável alegria»[4]. 

3. Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé. Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita estes sentimentos. Gréccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na rocha, deixando-se envolver pelo silêncio. 

Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que Aquele que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado. 

Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele Acontecimento; mas, a sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afectos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e actual nos mais variados contextos históricos e culturais. 

De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontrá-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46). 

4. Gostava agora de repassar os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf. Lc 1, 79). 

Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio; muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que, nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas ruínas são sinal visível sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a novidade no meio dum mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário. 

5. Uma grande emoção se deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas, que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à gruta adorar o Senhor. 

«Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas, os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação. A Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza singular, que transparece de modo particular no Presépio. 

6. Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém possa expulsá-las ou afastá-las dum berço de tal modo improvisado que os pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós. 

No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado. 

Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha connosco a sua vida divina. 

7. A pouco e pouco, o Presépio leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-Lo. A sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5). 

Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egipto (cf. Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré, onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus; homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática. 

8. O coração do Presépio começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus. Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja. 

O nascimento duma criança suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida. Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida. 

«De facto, a vida manifestou-se» (1 Jo 1, 2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação. O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos, antes e depois do nascimento de Cristo. 

O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida. 

9. Quando se aproxima a festa da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro, incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade sagrada que experimentará a morte e a sepultura. 

Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a reflectir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e fá-lo com acções concretas de misericórdia. 

Os Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios, sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva até Belém (cf. Mt 2, 1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias, inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios. 

10. Diante do Presépio, a mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito, transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre. 

Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida, educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e acreditar que Deus está connosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos. 

Dado em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de Dezembro de 2019, sétimo do meu pontificado. 

FRANCISCO 

[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. ibid., 85: o. c., 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.


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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A ditadura da opinião pública segundo o Cardeal Ratzinger

O homem tem mais medo do poder da opinião pública do que da luz distante e indefesa da verdade. Ele curva-se ao poder da opinião, tornando-se seu aliado, um de seus portadores. Torna-se escravo da aparência. Nas suas acções ele já não se orienta de acordo com a realidade, mas de acordo com as reacções dos outros.

Deste modo, chegamos ao domínio de opinião, ao domínio do falso. E assim, toda a vida de uma sociedade - decisões políticas e pessoais - baseiam-se na ditadura do falso.

Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
Roma, Quarta-Feira de Cinzas de 1989


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A crise de saúde mental entre os jovens é real e assustadora

The National Survey on Drug Use and Health, gerida pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, fez uma pesquisa que a mais de 600.000 americanos. As tendências recentes são surpreendentes.

De 2009 a 2017, a depressão grave entre jovens de 20 a 21 anos mais que duplicou, passando de 7% para 15%. A depressão aumentou 69% entre os adolescentes de 16 a 17 anos. O sofrimento psicológico grave, que inclui sentimentos de ansiedade e desespero, aumentou 71% entre as pessoas dos 18 aos 25 anos, de 2008 a 2017.

As tentativas de suicídio entre os 22 e 23 anos de idade duplicaram, a comparar com 2008, e mais 55% tiveram pensamentos suicidas. Os aumentos foram mais pronunciados entre meninas e mulheres jovens. Em 2017, uma em cada cinco meninas de 12 a 17 anos havia sofrido uma depressão grave no ano anterior.

Houve uma mudança social na última década que influenciou a vida dos adolescentes e jovens de hoje mais do que qualquer outra geração: a disseminação de smartphones e tecnologias digitais, como redes sociais, mensagens de texto e jogos.

Embora os mais velhos também usam essas tecnologias, foram adoptadas pelos mais jovens de maneira mais rápida e completa, e o impacto nas suas vidas sociais é mais acentuado. Na realidade, reestruturou drasticamente as suas vidas diárias.

Em comparação com seus antecessores, hoje os adolescentes passam menos tempo com os seus amigos pessoalmente e mais tempo comunicando "electronicamente". Vários estudos descobriram que isso está associado a problemas de saúde mental.

O aumento das questões de saúde mental entre adolescentes e jovens adultos merece atenção, não um desdém como se fosse um "mito". Com mais jovens em sofrimento - incluindo mais tentativas de suicídio e mais suicídios - a crise da saúde mental entre os jovens já não pode ser ignorados.

Jean Twenge (Professor de Psicologia na Universidade Estadual de San Diego) in 'The Conversation'


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sábado, 30 de novembro de 2019

A necessidade do exame de consciência diário

Nunca te deites sem antes examinares a tua consciência sobre o dia que passou. Dirige todos os teus pensamentos a Deus, consagra-Lhe todo o teu ser e também todos os teus irmãos. 

Oferece à glória de Deus o repouso que vai iniciar e não te esqueças do teu Anjo da Guarda que está sempre contigo.

Padre Pio de Pietrelcina


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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Mais um Católico que descobriu o Tesouro escondido

Este é o testemunho de um leitor do nosso blog que conta como descobriu numa cave, na longínqua Rússia, o que lhe tinha sido escondido no seu País:

Sigo o blog há algum tempo com bastante interesse, como tal em primeiro lugar gostava de agradecer pelo mesmo.

Acabei de ver o vídeo da sua apresentação na Catholic Identity Conference e achei-a muito interessante.

Chamou-me particularmente à atenção a pequena nota que deixou sobre o trabalho da Paix Liturgique na Rússia, pois foi em Moscovo, durante uma estadia em trabalho, na Catedral da Imaculada Conceição da Virgem Maria, que, ao procurar uma Missa Dominical, soube da existência na cave da catedral de uma missa em latim. Como as minhas hipóteses de entender latim me pareciam superiores às de entender russo decidi experimentar.

O que lá descobri mudou a forma como vivo e vejo a fé para sempre.

Tendo sido baptizado em criança e feito a primeira comunhão, a realidade é que a minha formação e catequese foi muito deficiente e limitou-se aos mínimos que o catolicismo “cultural” da minha família exigia. Afastei-me muito rápido e cedo da igreja e não tive qualquer interesse em Deus e na igreja até aos meus 30 anos, quando passei por uma conversão tardia, que se fez por meio de algumas igrejas evangélicas mas que me trouxe eventualmente de volta ao catolicismo. 

Mas no clima de hoje infelizmente há pouco interesse na tradição, e o que encontrei foi uma igreja demasiado antropocêntrica, politicamente correcta, que despreza as suas próprias tradições, com abusos litúrgicos demasiado frequentes (como um Padre que vinha uma vez por semana à minha paróquia local e insistia em se referir durante toda a Missa a Deus não como Deus Pai, mas como Deus que é Pai e Mãe).

A sensação que tive nessa manhã de Domingo em Moscovo, numa capela minúscula na cave de uma catedral foi literalmente de ter descoberto um tesouro enorme, que me tinha sido escondido. É difícil descobri-lo e voltar atrás. Tenho desde então frequentado sempre que possível a Missa Tradicional, aos Domingos, na paróquia de São Nicolau.


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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Os efeitos colaterais da Pornografia



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Instituto de Cristo Rei compra igreja vendida pelos protestantes

O Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote - uma sociedade de vida apostólica que celebra o Rito Romano Tradicional - comprou uma igreja que pertencia aos presbiterianos. Trata-se da igreja de Fortwilliam et Macrory, em Belfast, capital da Irlanda do Norte. 

O Instituto assegurava já naquela cidade uma Missa dominical, na igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus. 

Além de Belfast, o Instituto está presente em mais 3 cidades irlandesas: Limerick, Galway e Ennis (diocese de Killalœ). 

Que mais igrejas protestantes fechem e mais igrejas católicas abram!


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sábado, 23 de novembro de 2019

Arcebispo de São Francisco chora depois de celebrar Missa em Rito Antigo

O Arcebispo de São Francisco, Mons. Salvatore Cordileone, celebrou uma Missa Pontifical, em Rito Antigo, na Basílica da Imaculada Conceição em Washington DC. Estiveram presentes mais de 10 mil fiéis. No final da Missa, o Arcebispo comoveu-se e começou a chorar.


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13 definições Pontifícias desde a fundação da Igreja até hoje

1) Ano: 449. O Papa São Leão Magno expõe a doutrina do mistério da encarnação. Em Cristo há uma só pessoa (divina) e duas naturezas (divina e humana). Debela-se, assim, a heresia de Nestório.
2) Ano: 680. O Papa Santo Agatão ensina haver em Cristo duas vontades distintas, a divina e a humana, ficando a vontade humana moralmente submissa à divina. O objectivo da definição era reprimir uma nova modalidade de monotelitismo, que dizia haver em Cristo unicamente a vontade divina.
3) Ano: 1302. O Papa Bonifácio VIII declara que toda criatura humana está sujeita ao pontífice romano. 
4) Ano: 1336. O Papa Bento XII definia que, logo após a morte, as almas sem nenhum pecado, nem venial, são admitidas à visão beatífica ou contemplação de Deus. 

5) Ano: 1520. O Papa Leão X condenou 41 proposições de Martinho Lutero. Sabe-se que o aludido frade agostiniano fixara 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha. Cuida-se das famigeradas heresias protestantes, como, por exemplo, a justificação só pela fé, o esquecimento da tradição e a sobrevalorização da Bíblia, a negação do papel de Maria Santíssima na economia da salvação, entre tantos postulados do século XVI.
6) Ano: 1653. O Papa Inocêncio X reprova o jansenismo, que nutria um conceito pessimista da natureza humana. 
7) Ano: 1687. O Papa Inocêncio XI denunciou a heresia das proposições de Miguel de Molinos, as quais queriam identificar a perfeição espiritual com tranquilidade e passividade da alma (quietismo).
8) Ano: 1699. O Papa Inocêncio XII condenou as assertivas de François de Fénelon, que queriam renovar o quietismo, anteriormente exprobrado por Inocêncio XI.

9) Ano: 1713. O Papa Clemente XI novamente o jansenismo expresso na obra de Pascásio Quesnel.
10) Ano: 1794. O Papa Pio VI denunciou 85 teses heréticas promulgadas em Toscana, no Sínodo de Pistoia, que retratavam o nacionalismo e depotismo do Estado. Uma dessas teses defendia que a Missa deveria ser dita em vernáculo.
11) Ano: 1854. O Papa Pio IX define o dogma da Imaculada Conceição de Maria. Numa prerrogativa especial, Nossa Senhora foi concebida sem a mancha do pecado original.
12) Ano: 1950. O Papa Pio XII define o dogma da Assunção de Maria ao Céu, em corpo e alma. Este dogma é corolário da Imaculada Conceição. 
13) Ano: 1994. O Papa João Paulo II, na carta apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”, define o non possumus (impossibilidade) da Igreja no que concerne à ordenação de mulheres. O argumento básico é que Jesus, o divino fundador da Igreja católica, não escolheu mulheres para o grupo dos apóstolos, embora pudesse fazê-lo. 

adaptado de Zenit


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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Oração do Cardeal Newman pelas almas do purgatório

O Cardeal John Henry Newman, que foi canonizado há umas semanas, compôs uma bela oração pelas almas do purgatório que seria bom que rezássemos muitas vezes, pelo descanso eterno dos nossos mortos:

Ó Deus dos espíritos de toda a carne, ó Jesus, amante das almas, recomendamos a vós as almas de todos os vossos servos, que partiram com o sinal da fé e dormem o sono da paz. Nós vos suplicamos, ó Senhor e Salvador, que, assim como em Vossa misericórdia para com eles vos tornastes homem, assim também apresseis o tempo e os admitais em vossa presença.

Lembrai-vos, Senhor, de que eles são criaturas vossas, feitas não por deuses estranhos, mas por Vós, o único Deus vivo e verdadeiro; pois não há outro Deus senão Vós e não há ninguém que possa igualar as vossas obras. Deixai que as suas almas se regozijem na vossa luz e não imputeis a elas as suas antigas iniquidades, que cometeram por causa da violência da paixão ou dos hábitos corruptos da sua natureza caída. Apesar de terem pecado, eles sempre acreditaram firmemente no Pai, Filho e Espírito Santo; e, antes de morrerem, reconciliaram-se convosco pela verdadeira contrição e pelos sacramentos da vossa Igreja.

Ó Senhor da graça, nós vos suplicamos: não vos lembreis, contra eles, dos pecados da sua juventude e das suas ignorâncias, mas, conforme a vossa grande misericórdia, estai-lhes atento em vossa glória celestial.

Que os Céus se lhes abram e os anjos com eles se alegrem. Que possa o arcanjo São Miguel conduzi-los a Vós. Que possam os vossos santos anjos ir ao seu encontro e levá-los à cidade da Jerusalém celeste. Que possa São Pedro, a quem destes as chaves do reino dos Céus, recebê-los. Que possa São Paulo, o vaso de eleição, lhes dar apoio. Que possa São João, o discípulo amado a quem foi dada a revelação dos segredos do Céu, interceder por eles. Que todos os Santos Apóstolos, que receberam de Vós o poder de ligar e desligar, rezem por eles. 

Que todos os santos e eleitos de Deus, que neste mundo sofreram tormentos por vosso nome, lhes sejam amigos. Que, libertos da prisão inferior, sejam eles admitidos na glória do reino em que, com o Pai e o Espírito Santo, viveis e reinais como único Deus pelos séculos dos séculos.

Vinde em seu auxílio, vós todos, ó santos de Deus; ganhai-lhes a libertação do seu lugar de punição; ide ao seu encontro, todos vós, ó anjos; recebei essas almas santas e apresentai-as perante o Senhor.

Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno e a luz perpétua brilhe sobre eles. Que descansem em paz. Ámen


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Dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos


Hoje é dia Santa Cecília, padroeira dos músicos. Foi martirizada em Roma, por volta do ano 180, e o seu corpo foi encontrado no ano 1599, ainda incorrupto. O corpo, juntamente com esta escultura de Stefano Maderno, encontram-se na Basílica de Santa Cecília, em Roma.


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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Resumo da Catholic Identity Conference 2019

A Catholic Identity Conference juntou Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Leigos em Pittsburgh (Estados Unidos) para falar sobre o que significa ser católico e sobre os desafios que a Igreja que a Igreja enfrenta hoje em dia. 


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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Liturgia Tradicional: Norma de Beleza, Oração e Reverência


Peter Kwasniewski, nascido em 1971 no Illinois, é uma das figuras mais marcantes do catolicismo tradicional americano, que, como bem sabemos hoje, é a linha da frente do renascimento católico, mostrando-se extremamente vigoroso e rico em vocações. Músico por vocação, Peter Kwasniewski recebeu também uma excelente formação filosófica (a sua tese de doutoramento versou sobre “L’extase d’amour chez Thomas d’Aquin”).

Publicou também numerosos artigos sobre filosofia, liturgia, música, em particular no que toca ao restabelecimento e à renovação da música sacra no seio da Igreja contemporânea, e ainda uma série de livros muito marcantes, tais como: Tradition and Sanity. Conversations and Dialogues of a Postconciliar Exile("Tradição e Sanidade. Conversas e diálogos de um exílio pós-conciliar"; Angelico Press, 2018) ; Noble Beauty, Transcendent Holiness: Why the Modern Age Needs the Mass of Ages ("Nobre beleza, santidade transcendente: Porque é que a Era Moderna precisa da Missa de todas as eras"; Angelico Press, 2017) ; Resurgent in the Midst of Crisis: Sacred Liturgy, the Traditional Latin Mass, and Renewal in the Church ("Ressurgimento no meio da crise: a sagrada liturgia, a Missa latina tradicional e a renovação na Igreja"; Angelico Press, 2015). Agradecemos-lhe muito vivamente que se tenha disposto a conversar conosco.

Paix liturgique – Muitos católicos não querem sequer conhecer a liturgia tradicional porque a consideram uma coisa do passado. Crê tratar-se de uma coisa do passado ou antes do presente, ou até mesmo talvez do futuro?

Peter Kwasniewski – Parece-me haver um problema fundamental quando se pensa na liturgia em termos de ser algo exclusivamente do passado ou do presente, ou aliás do futuro, porque os católicos sempre pensaram na liturgia como participando do agora eterno de Deus. Isto é, na liturgia encontramo-nos face a face diante dos mistérios de Jesus Cristo, que é o eterno Sumo Sacerdote, que vive e age no seio da Igreja neste preciso momento, pelo que a liturgia está sempre no momento presente. Todavia, como é óbvio, ela foi-nos dada por Nosso Senhor na Última Ceia, sendo assim a ratificação da Nova Aliança, o Seu Sangue sobre a Cruz. 

Por conseguinte, a liturgia está constantemente a olhar para trás, para o passado, e também para o futuro: está a olhar para a segunda vinda de Cristo, o escathon, a Jerusalém celeste. Assim, a liturgia é intemporal e está também ligada a cada momento do tempo. Uma parte do problema das revisões litúrgicas pós-conciliares está em terem tentado ligar a liturgia a um tempo particular, designadamente o tempo do homem moderno e a modernidade – seja lá o que for que modernidade quer dizer. De repente, viu-se aparecer um antagonismo entre a liturgia do passado e a liturgia do presente, e este é um antagonismo que é completamente estranho ao modo católico de olhar para a liturgia.

Paix liturgique – Sabemos que escreveu muito sobre a transcendência na liturgia tradicional. Como é que esta transcendência responde de modo particularmente adequado às expectativas do homem moderno, tão ocupado com as redes sociais e sem tempo para experimentar o silêncio?

Peter Kwasniewski – Se me é permitido usar uma metáfora, direi que a liturgia tradicional é um alimento nutritivo, cheio de vitaminas, de que o homem moderno tem falta. Falou de negócios e activismo. Nos tempos modernos, há uma clara tendência para o imanentismo. As pessoas estão mergulhadas nas suas actividades do dia-a-dia e estão encurraladas por elas, estão como que aprisionadas pelo mundo contemporâneo. Na verdade, a liturgia é a passagem, a porta que se abre para outro reino. Um reino que não é aprisionante, mas libertador. 

A liturgia tradicional provoca um encontro com a verdade eterna e realidades eternas que podem salvar o homem, e em particular o homem moderno, daquele cerco, daquela prisão. Outro aspecto que muitos têm realçado é o facto de que é próprio da natureza dos seres humanos serem extáticos: eles querem sair de si próprios, entregarem-se a si mesmos a uma causa. Querem entregar-se por amor a outra pessoa, e chegam a entregar-se a uma ideologia. A nossa vontade é de vivermos fora de nós mesmo, não queremos ficar encurralados dentro de nós. O homem moderno depara-se com muitos falsos êxtases: desde logo, as drogas são um óptimo exemplo disso mesmo, de pessoas que tentam escapar de si próprias, mas isso é falso, não conseguem, não passa de uma ilusão temporária de libertação. Ratzinger fala disto em diversos lugares. 

Outro exemplo são os concertos de rock… Há toda uma gama de experiências pseudo-litúrgicas e pseudo-místicas que as pessoas procuram, enquanto que o que a Igreja Católica oferece é a experiência mística real, uma real auto-transcendência, um êxtase real. E é por isso que a liturgia tradicional é hoje mais urgente do que nunca. 

A Paix Liturgique levou a cabo em diversas partes do mundo várias sondagens de opinião que mostram que mais de 30% dos católicos de Missa dominical gostariam de viver a sua fé ao ritmo da liturgia tradicional. Isto surpreende-o? Acha que isto deveria surpreender os bispos diocesanos?

Peter Kwasniewski – A percentagem de 30% surpreende-me. Creio que seria ainda maior se os católicos tomassem conhecimento da liturgia tradicional. Muitos há que não têm conhecimento dela. Nas minhas viagens e debates, encontro-me com católicos que só agora se dão conta de que há outra liturgia além do Novus Ordo promulgado por Paulo VI. E compreendo o porquê: 50 anos após a propagação do Novus Ordo, a grande maioria dos católicos praticantes não têm outra coisa. Por outro lado, são os próprios bispos a subestimarem continuamente o número de católicos atraídos pela tradição em todas as suas manifestações. 

Querem acreditar que se trata apenas de uma pequeníssima minoria de católicos com uma espécie de fascinação de tipo estético, quando não com uma tendência para o que é inusual e estranho, uma espécie de excentricidade; é assim que tendem a pensar acerca dessa atracção. O que lhes escapa é que as pessoas, hoje, já não estão a pensar segundo os paradigmas dos anos 60 ou 70, onde parece que os bispos ainda estão presos.

A reforma litúrgica baseou-se num princípio primário, o de que a única maneira de a liturgia ser acessível às pessoas e de estas nela poderem participar é através de uma compreensão verbal e racional; foi esse o princípio básico motor de tudo o resto. Assim sendo, como pretendamos que as pessoas compreendam tudo o que acontece na Missa, lá teremos de a simplificar, de a abreviar, teremos de a dizer em vernáculo, temos de dizer tudo em voz alta, tudo tem de ser alto e bom som. E tudo isto se faz ao serviço da comunicação de um conteúdo racional conceitual às pessoas sentadas nos bancos. É esse, sem tirar nem pôr, o princípio por detrás da reforma. 

Os jovens, hoje, se têm fé ou se estão à procura de Deus, no começo, não estão a tentar encontrar um conteúdo racional. Poderá ser que mais tarde venham a estudar teologia, mas aquilo de que estão à procura é o sentido de que há algo mais nesta vida e no mundo para além do que os olhos podem ver, do que se vê nos media, algo para além da experiência da nossa vida do dia-a-dia. Querem que a sua visão seja aberta para qualquer coisa, diria mesmo, para qualquer coisa de celestial. Será que o céu existe realmente? A liturgias deveria ser uma prova de que ele existe de facto, e se o não é, é apenas mais conversa. E então, é mais do mesmo, do mesmo que se pode encontrar em todo o lado. O mundo já está inundado de conversa. 

Percebe-se, assim, que os bispos pertencem a uma geração que partiu do princípio de que a liturgia tinha só a ver com uma compreensão racional conceitual; e é isso que significa a participação. Estão realmente a leste e estão a perder o comboio; hoje em dia, a questão já não está aí.

Paix liturgique – Ao longo da sua vida, viu pessoas a mudarem de opinião acerca da missa tradicional, isto é, que a odiavam e passaram a amá-la? E poderia dar-nos o seu testemunho acerca dos frutos espirituais ou dos benefícios que os fiéis recebem da Missa antiga?

Peter Kwasniewski – O que, em geral, vi foi que todos os católicos sérios em matéria de doutrina, sérios no que toca a viver uma vida moralmente direita e a uma vida pessoal de oração, agarrados à recitação do terço, esses são naturalmente atraídos pela liturgia tradicional. Mal a descobrem, mostram-se abertos a ela, porque já vivem de uma maneira que está de acordo com a liturgia tradicional. A liturgia tradicional é profundamente doutrinal, ela põe os dogmas da Igreja num pedestal, e é ascética e exigente. Assim, se estiver a tentar viver uma vida moralmente direita, a liturgia tradicional vai apoiá-lo nisso e vai-lhe fazer exigências que são de tipo moral. Penso, por isso, que existe uma adequação natural entre uma vida católica séria e a liturgia tradicional.

É óbvio que também se pode viver uma vida católica séria de outras maneiras, noutros contextos, mas creio que ali existe uma harmonia e uma abertura. Já não noto hostilidade contra a Missa tradicional a não ser entre pessoas que se autointitulam liberais ou progressistas, que têm um plano a cumprir, essas fazem uma oposição ideológica. Mas, curiosamente, estas pessoas opõem-se porque ela expressa uma visão dogmática, moral e cósmica do mundo que é antitética em relação ao seu paradigma liberal e progressista; por isso, o que vêem nela é uma ameaça ao conjunto do “projecto Vaticano II”. 

Já no que toca aos frutos espirituais, tenho dito amiúde que, na realidade, nunca soube como rezar durante a Missa até que comecei a ir à Missa antiga. Em toda a minha experiência de católico enquanto ia crescendo, sempre partira do princípio de que a oração litúrgica mais não era do que uma espécie de superficial vai-e-vem entre o sacerdote e o povo, cantar umas quantas canções, e tudo muito pela superfície como quando se patina sobre o gelo. 

Depois, ao começar a frequentar a liturgia tradicional, era já como um mergulho em mar alto: temos de vestir o equipamento de mergulho e penetrar bem em profundidade no oceano. Há aí uma profundidade, uma profundidade sem fim, que é o que explica porque é que eu e muitos dos meus amigos nunca nos cansamos de ir à Missa tradicional, estamos sempre ansiosos de lá voltar. Onde quer que ela seja celebrada, queremos ir lá. Já com o Novus Ordo, começamos a sentir falta de entusiasmo e torna-se mais fácil acabar por não ir, porque dele se tira menos benefícios.

Paix liturgique – Em que é que se pode ver que o sacrifício sacramental parece ser melhor exprimido pela Missa tradicional?

Peter Kwasniewski – A Missa é a re-presentação sacramental do sacrifício oferecido por Nosso Senhor do Seu Corpo e do Seu Sangue, sobre a cruz. Isto não é apenas uma opinião, nem é apenas um ponto de vista escolástico, é o ensinamento dogmático de fide da Igreja proferido pelo Concílio de Trento. Por conseguinte, nesse sentido, a liturgia não é primeiramente uma refeição, não é primeiramente a comemoração da ressurreição, nem algo relativo primariamente ao Corpo místico de Cristo. É sim o sacrifício que torna possível o Corpo místico de Cristo. 

É o sacrifício que, obviamente, em certo sentido, é cumprido na ressurreição e glorificação de Cristo. Todavia, na realidade, a Missa põe-nos em contacto com o Sangue de Cristo redentor que nos salva. É disso que precisamos para sermos salvos, é isso a nossa salvação. Por isso, é de grande importância para a liturgia que ela nos possa comunicar que é esse o mistério. O mistério primário da Eucaristia, como nos diz São Tomás, é Christus passus, Cristo que sofreu pelos nossos pecados. É com isso que que a liturgia nos põe misticamente em contacto, põe-nos realmente em contacto sob o véu do pão e do vinho.

Se, no seu aspecto exterior, a liturgia der ideia de algo completamente diferente disso mesmo, ou se primariamente se assemelhar a um banquete, uma refeição fraterna, então estará a despistar-nos e a induzir-nos em erro, e está, de facto, a dar-nos uma catequese falsa acerca do que estamos lá a fazer. Não há dúvida de que o rito antigo, não só pela orientação para Leste (que também se pode ter na nova Missa), mas em todos os seus aspectos, em especial no ofertório da Missa e nos gestos, nas cerimónias, põe uma grande ênfase no altar do sacrifício. 

Claro que a Missa também é um banquete, mas é um banquete sacrificial, é primeiro um sacrifício e só depois é tomamos parte na vítima sacrificial. A prioridade está sempre em oferecer a Deus a oblação pura do Cordeiro de Deus e, só depois, é que, se estivermos em estado de graça, podemos ter o privilégio de tomar parte desse banquete sacrificial, desse oferecimento sacrificial.  

Paix liturgique – Jamais, em toda a história da humanidade, houve tantas pessoas tão afastadas do lugar onde nasceram, seja por habitarem noutro país seja simplesmente por estão em viagem. Não será que a Missa em latim não poderia servir de objectivo pastoral ao tornar possível que cada um tenha a “sua” Missa, ainda que a ela assista noutro país? Acha que podemos dizer que a Missa em latim esteve ao serviço do objectivo do “mundialismo” nas épocas antigas?

Peter Kwasniewski – Não há qualquer dúvida de que, se olhar para a civilização europeia – e aqui, estou a falar da Europa Ocidental, e não tanto da Europa Oriental, que tem uma sua própria história –, a presença da fé Católica Romana, do Rito Romano e de vários outros usos relacionados com o Rito Romano, além da língua latina, foram grandes forças unificadoras que permitiram que as pessoas pudessem comunicar entre elas. Isto serviu de fertilizante para as artes e para a vida intelectual através duma multiplicidade de fronteiras de terras e de línguas. Vejo uma suprema ironia no facto de que no século XX, no preciso momento em que a aviação permitia que as pessoas viajassem com mais facilidade do que nunca, e os automóveis se tornavam omnipresentes, nesse preciso momento em que as pessoas já viajavam com grande frequência, de repente, se tenha decidido vernaculizar a liturgia e, de facto, excluir quem quer que não fosse de uma dada comunidade local.

Nos meus anos mais tenros, tive ocasião de viajar bastante, antes de tomar conhecimento da Missa em latim. Então, ia à igreja, ao Novus Ordo, qualquer que fosse a língua aí falada, e quase não entendia o que quer que fosse. Entendia “Amém” e pouco mais. É verdade que, como disse antes, não se pode reduzir a uma compreensão racional, mas é muito frustrante ir a uma liturgia que se supõe girar em torno de palavras, como é o caso do Novus Ordo, e depois acabar por não entender palavra alguma. Ironicamente, se alguma vez houve uma liturgia que devesse ser em latim, é precisamente o Novus Ordo, porque, a não ser assim, acaba por se excluir muitas pessoas. 

Um outro ponto é que é igualmente irónico que, num momento da história mundial em que há mais pessoas a saber ler e escrever do que nunca, e em que todos, se o quiserem, podem facilmente ter acesso a saber o que é que as orações significa, nesse momento decidiu-se: «De maneira nenhuma, o que temos é de pôr tudo numa linguagem vernácula de todos os dias, em vez de continuarmos a usar esta linguagem de refinada poesia e teologicamente rica que as liturgias sempre usaram. O que temos de fazer é simplificar tudo.» Mas porquê? Parece-me que temos aqui mais um exemplo de juízo histórico errado e de confusão cultural por parte do reformadores da liturgia.

Paix liturgique – Em geral, as pessoas começam por conhecer a Missa tradicional, depois vem o canto gregoriano, mas no seu caso foi ao contrário. Na sua opinião, a música sacra pode desempenhar um papel na renovação litúrgica?

Peter Kwasniewski – Exactamente! Tem toda a razão: eu cheguei à liturgia tradicional através da música sacra e, em particular, por meio do canto gregoriano. Nunca tinha assistido ao culto em latim antes de ter descoberto o canto gregoriano, mais, nunca me tinha passado pela cabeça rezar em latim. Assim que, até mesmo o facto de me dar conta do latim enquanto língua, no meu caso, ficou a dever-se ao canto gregoriano. A beleza do canto fascinou-me, tomou conta do meu coração e inspirou-me. No começo, nem sequer vi nele uma linguagem musical, e também não reparei no texto latino, mas compreendia que havia aí algo de esplendoroso, de divino, algo de muito especial e diferente, e tudo isso me fascinava. É como diz Rudolf Otto: o «mysterium tremendum et fascinans». Há nesse canto algo de extremamente poderoso e como de um outro mundo. Foi esse, ao princípio, o anzol que agarrou este peixe.

Quando descobri a liturgia tradicional, aquilo de que imediatamente me apercebi foi que a liturgia tradicional tinha crescido juntamente com o canto; o canto e o Rito Romano são como corpo e alma, há entre ambos uma relação muito próxima. Não aconteceu que primeiro tenha aparecido a liturgia me que depois tenha aparecido alguém que lhe tenha juntado o canto como se junta uma roupagem exterior. O que aconteceu, sim, foi que a liturgia romana e o canto cresceram juntos, de mão dada. O canto gregoriano é a liturgia romana cantada. Por isso, bem cedo me dei conta de que o canto encaixava, que ali, na liturgia tradicional, estava como em sua casa. Aí, tem espaço suficiente para respirar, e o timing adequado, o ritmo da liturgia é calculado à perfeição, os cantos têm a duração justa para cobrirem as acções que devem ser acompanhadas, e os textos do canto são perfeitos para esses momentos.

Há, portanto, aqui uma estreitíssima adequação entre música e liturgia. O mesmo acontece com a polifonia: a grande polifonia pode ser composta porque há lugar para ela nesta liturgia. Como o ofertório leva tempo, os grandes compositores puderam escrever motetes para esse lapso de tempo. O Novus Ordo é tão racionalístico e tão verbal e breve, que o canto gregoriano e a polifonia se mostram sempre inadequados. Parecem ser sempre uma espécie de interrupção e de atraso. Por exemplo, quando se está numa Missa Novus Ordo e chega o momento de uma leitura em vernáculo feita por um leitor leigo de frente para o povo, e, em seguida, depois que todos responderam dizendo “Graças a Deus”, a schola começa então a cantar uma peça de gregoriano em latim – o Gradual –, é tudo muito estranho, não encaixa bem. 

Enquanto que, na liturgia tradicional, o que notamos é um fluxo natural das coisas, onde tudo parece estar no seu lugar e tudo encaixa. Por isto mesmo, parece-me que, para as pessoas do mundo moderno reaproximar-se da beleza da música sagrada é praticamente equivalente a uma reaproxiamação da liturgia tradicional. Não quer isso dizer que não devamos utilizar o canto e a polifonia em todas as liturgias, mas apenas que que o gregoriano e a polifonia têm na liturgia tradicional o seu habitat natural.

Paix liturgique – Um último apontamento: poderia deixar-nos uma mensagem para as jovens famílias que estão preocupadas em conseguir preservar-se e preservar os seus filhos de toda a confusão que reina na sociedade actual?

Peter Kwasniewski – Diria que nada há de mais importante para as famílias católicas jovens do que conseguir encontrar uma boa comunidade de católicos fiéis com um espírito tradicional. E mais, que façam todos os esforços que seja preciso para levarem a sua família a essa igreja junto dessa comunidade, porque todos aí frequentarão a liturgia pelos motivos certos: o que pretendem é glorificar a Deus, santificar as próprias almas, iniciar as suas crianças ne beleza e riqueza da tradição católica – e assim, poderão encontrar outras pessoas que pensam como eles que passarão a ser seus amigos e uma rede de apoio; e as suas crianças encontrarão aí outras crianças com quem brincar com toda a segurança e que não é provável que passem o seu tempo a ver vídeos tremendos e outras coisas desse género. No mundo moderno, temos de ser muito realistas e não podemos partir do princípio de que a maioria dos lugares continuam a ser lugares seguros. Na verdade, a maioria dos lugares são hoje lugares perigosos, de um ponto de vista moral.

De um ponto de vista intelectual, acrescentaria ainda que como o erro e a depravação são a norma na sociedade ocidental moderna, é preciso que façamos o esforço, mesmo se isto custa algum incómodo, de ir à procura de comunidades onde a norma seja a beleza, a oração e a reverência. E é isso precisamente que encontramos na liturgia tradicional.


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