Uma meditação sobre a Pandemia
No Ocidente, a Igreja tem sido razoavelmente imune à interferência
governamental na prática da Fé. Existem impostos sobre os salários,
regulamentos laborais e outros processos do género. Ocasionalmente, há um
desafio ao selo sacrossanto da Confissão: litígios que geralmente são
resolvidos antes de chegar aos tribunais.
Mas a pandemia actual colocou as autoridades do governo contra as
autoridades da Igreja em matéria de celebração da missa, com alguns bispos a
renderem-se à pressão do governo. Resultado: Muitos líderes da Igreja acordaram
em suspender a celebração pública da Missa.
Às vezes, cancelar a Missa faz sentido: uma ameaça de bomba, um
cenário de crime, preocupações com a segurança, equívocos, etc. Os
cancelamentos são anomalias, geralmente com a intenção de retomar após um
intervalo razoável. Mas a suspensão voluntária de missas públicas por dioceses
inteiras é um fenómeno inusitado numa situação que não seja de zonas de guerra
nem de estados totalitários.
A pandemia actual é um enigma para os líderes católicos. Como é
que poderíamos celebrar a missa em público e evitar o contágio? Obviamente, há
uma diferença significativa entre uma resposta razoáveis a ameaças à saúde e reacções histéricas. Os
julgamentos prudenciais são subjectivos, e é difícil identificar uma linha clara de distinção. Mas os
açambarcadores que esvaziaram as prateleiras dos supermercados de papel
higiénico e desinfectantes para as mãos claramente cruzaram essa linha. O
egoísmo aumentou o risco de doenças porque a escassez de desinfectantes afecta
todos os locais públicos, inclusive as igrejas.
O pânico - alimentado por alguns políticos e por boa parte da
media - resultou na emergência desnecessária, a roubos de medicamentos e de
farmacêuticos. O frenesim alcançou o que os nazistas e comunistas - e 2000
anos de bispos e padres corruptos (parafraseando uma piada de um assessor de
Napoleão) - não foram capazes de realizar: a supressão do culto público da
Igreja. Por quanto tempo e a que custo espiritual?
Os líderes da igreja vêem-se apanhados no fogo cruzado da opinião
pública. É conveniente satisfazer as autoridades do governo fechando as igrejas
e alienando muitos dos fiéis. É mais desafiador manter as igrejas abertas -
mesmo com as devidas precauções de saúde nas práticas litúrgicas - do que
arriscar acusações de negligência em cuidados de saúde.
Muitas das medidas de saúde definidas são prudentes. Felizmente,
os bispos suspenderam a troca do aperto de mão do Sinal de Paz (espera-se que
para sempre). Nunca saberemos quantos vírus são trocados com cada aperto de mão
não lavado. Sempre foi costume que católicos em risco devido à idade ou à saúde
fossem dispensados da missa dominical. E agora há ainda mais tolerância quanto
a isso. Talvez estejamos no momento ideal de redescobrir as práticas sanitárias
que as mães costumavam ensinar aos filhos. Mas em muitas partes do país, essas
práticas razoáveis não satisfazem as autoridades civis.
A raiz subjacente da histeria é o ateísmo, ou a falta de fé do
ateísmo implícito enraizada nos confortos do consumismo. Segundo o credo ateu,
o maior mal da vida é o sofrimento ou uma vida interrompida por causa de uma
doença catastrófica. Para um ateu crente, o sofrimento pode ser pior que a
morte. (O que em si explica o surgimento de legislação que aprova o suicídio
assistido em vários países.) Mas uma “morte prematura” também aterroriza. O
credo ateu é fácil de entender, simples de viver quando as coisas são boas, mas
termina sempre em desespero. O sofrimento humano é um mal insuperável.
Os cristãos acreditam que Deus não é o autor do sofrimento e da
morte. "... Deus não fez a morte, nem se alegra com a destruição dos
vivos." (Sabedoria 1, 13). A morte é o resultado da inveja do diabo
(Sabedoria 2, 24) e do pecado, original e pessoal (cf. Gen 3).
Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, veio ao mundo para nos
resgatar dos nossos pecados. Ele enfrentou o mal em obediência ao Pai e
suportou a Sua terrível Paixão pela nossa salvação. A Sua poderosa ressurreição
revela-nos a Sua vitória final sobre o pecado, o sofrimento e a morte. Ele
oferece-nos a Sua nova e eterna aliança para nos libertar da desgraça e
horrores eternos.
Portanto, no baptismo, morremos espiritualmente com Cristo e
emergimos das águas em união com Ele, incorporados ao seu corpo místico. Quando
morremos em amizade com Jesus ressuscitado, “a vida muda, não acaba” (Prefácio,
Missa Funeral).
Todos os confortos da vida, incluindo os melhores cuidados de
saúde, não podem substituir o estado de graça santificadora no momento da morte.
Por isso, estando nós nesse “vale de lágrimas”, proclamamos alegremente com São
Paulo: “Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?
(1Cor 15, 55)
A narrativa cristã, resumida no Credo dos Apóstolos, é realista.
Ela confronta o mistério do sofrimento e da morte e oferece a esperança da vida
eterna. A nossa batalha é pela vida eterna, e todas as gerações devem escolher
o Caminho da Cruz. "Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome
a sua cruz e siga-Me." (Mt 16, 24) Viver essa narrativa não é fácil. O
Caminho requer a graça, fé, oração, estudo, coragem e esperança em Deus na
nossa vitória final em Cristo.
Mas, acima de tudo, para viver, precisamos da reconstituição
dominical (e diária) daquele amor da nova e eterna aliança que ocorre na Missa.
Durante as perseguições do imperador romano Diocleciano na Igreja
primitiva, os cristãos desobedeciam à ordem do imperador de cancelar as suas
reuniões religiosas. E enfrentara a morte, dizendo:
«Não podemos omitir a celebração dos mistérios divinos. O cristão
não pode viver sem a Eucaristia e a Eucaristia sem o Cristão. Vós não sabeis
que o cristão existe para a Eucaristia e a Eucaristia para o Cristão? Sim,
participei com os irmãos na reunião, celebrei os mistérios do Senhor e tenho
aqui comigo, escritos no meu coração, as Escrituras Divinas. A Eucaristia é a
esperança e a salvação dos cristãos.»
Desculpe, governador. Lamento, Meritíssimo. A celebração da Missa
não é negociável e não é da sua conta. Faremos o nosso melhor - sem garantias -
com higiene pessoal e distâncias seguras. Mas nós “procuramos as coisas do
alto” (Col 3, 1) e vivemos e morremos pela Missa.
Fr. Jerry Pokorsky in catholicculture.org
Tradução: André Pires