quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Comunhão Espiritual - Santo Afonso Maria de Ligório

Os meum aperui, et attraxi spiritum — “Abri a minha boca, e atraí o alento” (Ps. 118, 131).

Sumário. A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus sacramentalmente e num amoroso amplexo, como se fosse recebido realmente. Esta devoção é um meio eficacíssimo para chegar à perfeição e ao mesmo tempo é uma devoção facílima, porque pode ser praticada todos os dias, por todos, e quantas vezes se quiser, sem ser vista ou observada por pessoa alguma. Pratica-a, pois, com frequência, em particular, na oração mental, na visita ao Santíssimo Sacramento e na assistência à Missa à hora da comunhão do sacerdote.

I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental. 

Mais tocante é o que um autor fidedigno (1) refere de outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentira a partícula consagrada levar-se-lhe aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom Servo.

Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A Bem-aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser.

A já mencionada Joana da Cruz exclamava: “Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta a meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!”


II. Procura fazer com frequência a comunhão espiritual; tanto mais que ela é também um meio valiosíssimo para dispor a alma a fazer com mais fruto a comunhão sacramental. Por isso, nas tuas visitas ao Santíssimo Sacramento, na tua oração mental, em cada missa que ouvires, no momento da comunhão do celebrante, faze a comunhão espiritual.

Faze então um ato de fé, crendo firmemente que na Eucaristia está o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo, tão vivo como está no céu. Faze também um ato de amor, unido ao arrependimento dos teus pecados; e em seguida um ato de desejo, convidando Jesus Cristo a entrar em tua alma afim de a fazer toda sua. Agradece-lhe, afinal, como se já o tivesses recebido. 

Para que essas comunhões espirituais te sejam mais proveitosas, une-as aquelas que fizeram todos os santos e em particular a tua querida Mãe Maria. Quantos frutos colherás desta forma para tua alma! Representa-te que cada uma de tuas comunhões será uma pedra preciosa que ornará a tua coroa no céu.

Ó meu Redentor amabilíssimo, agradeço-Vos o me haverdes ensinado este grande meio de santificação e com o vosso auxilio quero aproveitá-lo sempre, a começar pelo dia de hoje. Sim, meu Jesus, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-Vos sobre todas as coisas e desejo possuir-Vos em minha alma. Visto que não posso agora receber-Vos sacramentalmente, vinde ao menos espiritualmente ao meu coração. Abraço-Vos, como se já tivesses vindo, e me uno inteiramente a Vós; não permitais que jamais me aparte de Vós.

Ó Maria, vós que tanto desejais ver vosso Filho amado de todos, se me amais, eis aí a graça que vos peço e que me haveis de alcançar: obtende-me um grande amor a Jesus. Obtende-me também um grande amor a vós, que sois a criatura mais amante, a mais amável e a mais amada de Deus. O amor para convosco é uma graça que Deus não concede senão a quem deseja salvar. 

(1) P. J. Bider O. P.

Santo Afonso Maria de Ligório in 'Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano' (Tomo III)


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terça-feira, 4 de agosto de 2020

Os Sete Sacramentos e a Confissão de Fé de Westminster

No Capítulo XXVII da Confissão de Fé de Westminster (calvinista), lemos o seguinte: 

IV. Há apenas dois sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho; que são, o Baptismo e a Ceia do Senhor: nenhum dos quais pode ser celebrado por qualquer pessoa, mas por um ministro da Palavra legitimamente ordenado. 

Esta afirmação contradiz a Fé Católica de duas formas: 

Primeiro, não há dois sacramentos "instituídos por Cristo" mas sete sacramentos e isto pode ser provado só pela Sagrada Escritura. 

Em segundo lugar, há uma tradição antiga de que o sacramento do Baptismo pode ser administrado por leigos (em caso de perigo de morte) e não somente por "um ministro da Palavra legitimamente ordenado." 

Vejamos o primeiro erro. Cristo instituiu dois ou sete sacramentos? É um facto óbvio que Cristo instituiu sete sacramentos na Nova Aliança. Isto tem sido confirmado uma e outra vez em Concílios, tanto no Oriente como no Ocidente. 

Tal como aprendemos da epístola de S. Paulo aos Hebreus, a Nova Aliança baseia-se no juramento de Deus. Em hebreu, jurar é, literalmente, "fazer-se em sete ou ligar-se a si mesmo por sete coisas." Vejam שָׁבַע no léxico hebreu para detalhes. Portanto, devemos esperar que a Nova e Eterna Aliança tenha sete partes e seja ractificada por sete indicadores da aliança: os sacramentos. 

É por isso que a Sagrada Escritura detalha a instituição de exactamente sete sacramentos:

1. Baptismo – Mt 28, 19

2. Confirmação – João 16, 7; João 7, 39; Lucas 3, 22; Actos 8, 14-17; Heb 6, 2

3. Eucaristia – Mt 26, 26-29; Jo 6

4. Penitência – João 20, 21-23

5. Extrema Unção – Mc 6, 13; Tiago 5, 14-15

6. Sagradas Ordens – Mt 26, 26-29, Actos 6, 3-6; 1Tim. 3, 1; 1Tim. 3, 8-9; 1Tim. 4, 14-16; 1Tim. 5, 17-19-22

7. Matrimónio – Jo 2; Mt 19, 10-11; Ef 5, 31-32 

Esta é a verdadeira fé dos Apóstolos, Padres e Doutores da Santa Igreja Católica. Mais, é evidente que são necessários mais de dois sacramentos. Se o baptismo nos lava dos nossos pecados, então como é que se absolvem os pecados pós-baptismais? Obviamente que isto requer o sacramento da Penitência (que, já agora, foi ensinado por Santo Agostinho). 

Mais ainda, se a salvação depende em perseverar na hora da morte (e não o "uma vez salvo, salvo para sempre" ou outra coisa parecida), então deve haver um sacramento apontado para essa última hora - a Extrema Unção. Mais ainda, se o matrimónio deve ser dirigido pela Igreja e não pelo estado (uma heresia terrível de Lutero que levou ao debate reconhecido pelo estado do "casamento gay"), então o matrimónio tem que ser um sacramento. E assim por diante. As afirmações protestantes de "dois sacramentos" falham biblicamente e na prática.

Em segundo lugar, será verdade que o baptismo só pode ser administrado por "um ministro da Palavra legitimamente ordenado", como diz a Confissão de Fé de Westminster? Não, a Igreja Católica sempre disse que o baptismo pode ser ministrado por qualquer pessoa.

O baptismo sacramental é o meio pelo qual Cristo regenera a alma, lava do pecado original e incorpora a pessoa no Seu Corpo místico. Confere infalivelmente a graça. Cristo disse que a não ser que uma pessoa seja baptizada, não pode entrar no reino dos Céus (cf. Jo 3, 3-5). E visto que Deus "quer que todos os homens se salvem" (1Timóteo 2, 4), dava jeito que este sacramento fosse administrado por qualquer pessoa e com um elemento que está disponível em todo o mundo - a água. Onde quer que haja humanos, há água. O desejo universal pela salvação da humanidade pode ser compreendido pela generosidade de Deus neste sentido.

Visto que o baptismo é necessário para a salvação, o Papa Gelásio I (Papa de 492 dC até 496) disse que os baptismos dos leigos e leigas eram válidos e aceites por Cristãos em todo o lado. A Sagrada Tradição até regista que o eunuco da Etiópia, baptizado por S. Filipe em Actos 8, trouxe o sacramento salvador do Baptismo para a Etiópia.

Concluindo, a teologia sacramental da Confissão de Fé de Westminster falha em apreciar aquilo que os Cristãos já acreditavam muito antes do século XVII - nomeadamente, que a economia sacramental de Cristo é mais generosa e completa do que os protestantes dizem e que o chamamento ao Baptismo é mais generoso e gracioso do que a Confissão de Fé de Westminster estipula.

Taylor Marshall



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