quarta-feira, 4 de agosto de 2021
1ª Peregrinação Nuestra Señora de la Cristiandad - Espanha 2021
Resumo da Peregrinação a Covadonga, que juntou mais de 450 pessoas, na maioria jovens, que frequentam a Missa Tradicional.
terça-feira, 3 de agosto de 2021
Entrevista com Pe. Claude Barthe: “Traditionis custodes: Uma Nova Guerra Litúrgica”
Com
o motu proprio Traditionis Custodes, publicado a 16 de Julho, o Papa Francisco
colide com o motu proprio do seu antecessor Bento XVI – Summorum Pontificum –
de 7 de julho de 2007, limitando drasticamente a celebração da Missa
tradicional.
Padre,
rumores sobre a eventual publicação deste motu proprio - que praticamente
cancela o de Bento XVI de 7 de Julho de 2007 - haviam já surgido. Esperava que
estivesse para tão cedo a sua publicação, 16 de Julho?
Ninguém
tinha a certeza, eram múltiplos os rumores. Em Roma tanto se falava de uma
publicação iminente bem como de uma para sair em agosto. A primeira versão
acabou por ser a correcta. O Secretário de Estado, que esteve sempre por trás
desse assunto, foi extremamente discreto, temos de admitir.
Os
eventos mais recentes pareciam apontar para uma possibilidade de apaziguamento–
reflectida nas palavras do Cardial Gambetti, arcipreste da Basílica de São
Pedro, que apelava à Summorum Pontificum numa recente entrevista à Vatican
News. Será que teriam fundamento estas esperanças?
Desconheço
o que terá ou não dito o Cardeal Gambetti ao Papa, contudo é certo que foram
vários os pedidos feitos para que se adiasse a publicação deste documento de
forma a evitar o começo de uma nova guerra litúrgica no seio da Igreja. Nomeadamente,
tem-se dito que o Cardial Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da
Fé, reteve o máximo que pode, tal como muitos outros o fizeram. No final, a
decisão foi tomada pelo Papa e pelo seu lobby, especialmente o seu Secretário de
Estado, Cardeal Parolin, o substituto, Cardeal Peña Parra, Cardeal Versaldi, e
todos os quantos participavam nestas reuniões inter-discatério (reuniões entre
os perfeitos das congregações visadas: Culto Divino, Clero, Bispos e a
Secretaria de Estado) que haviam estado a trabalhar neste documento durante longo período de tempo.
Como
é que os apoiantes do motu proprio do Papa Francisco levaram a melhor?
Fizeram
o suficiente para convencer o Papa! Ele tem o poder de ir contra todos... Neste
caso o maior lobby da Conferência Episcopal Italiana posicionou-se contra o
Summorum Pontificum, principalmente porque na Itália, mais tarde do que em
França, os padres mais jovens têm começado a celebrar a Missa tradicional e a
adoptar as ideias tradicionalistas. A Conferência Episcopal tem reparado numa
“tradicionalização” dos seminários, algo que os preocupa sobejamente. Também na
Cúria e indivíduos como o Cardeal Parolin e o Cardeal Stella na Congregação do
Clero, etc., têm-se preocupado bastante.
Quais
são os argumentos para questionar o documento de Bento XVI?
Todos
eles se encontram claramente expostos na carta aos Bispos. Também se
podem encontrar no blog de Andrea Grillo, um leigo professor de liturgia em
Santo Anselmo que se tem mostrado hostil com o Summorum Pontificum. A sua
ideia, reutilizada pelo Papa e pelos redatores do presente motu proprio, é que
a Missa tradicional representa o estado doutrinal precedente ao Vaticano II,
enquanto a nova Missa representa a doutrina do Vaticano II – algo que já
conhecíamos. Assim, já não é necessário conceber a Missa tradicional como um
direito, mas somente uma tolerância, e mesmo apenas uma tolerância concedida
unicamente a fiéis e sacerdotes para os ajudar na transição gradual para a nova
Missa.
Então,
a principal razão é doutrinal?
Sim,
e é muito importante dizê-lo e estar ciente disso porque, paradoxalmente, isto
é tudo muito providencial. É obviamente muito doloroso e vai dificultar a
difusão da Missa tradicional. Vai culminar em novas perseguições. Coloca, por
outro lado, o dedo na ferida, nomeadamente na condição doutrinal do Vaticano
II, a qual nunca foi estabelecida.
Como
é que este motu proprio vai afectar as comunidades Ecclesia Dei – se é que ainda
as podemos tratar desse modo?
Vai
afectá-las e colocá-las certamente sob mira. O documento di-lo claramente e a
carta Papal indica-o cinicamente. É uma questão de destruir a celebração
tradicional da Missa, assegurando que não existem mais padres para a celebrar.
Estas comunidades são particularmente visadas pois são “fábricas” de tais
padres, tal como o é a Fraternidade de São Pio X, que no início os fabricava
sozinha.
Doravante, estas instituições não estarão sob a jurisdição da Ecclesia
Dei, que cessou de existir, nem sob a da Congregação da Fé, o que seria
relativamente protector, mas sob a jurisdição da Congregação para a Vida Religiosa. Foram reduzidas do seu anterior direito pontifício. A Congregação para os
Religiosos, presidida pelo Cardeal Braz de Aviz, está alinhada com o Papa e
terá trabalho a colocar tudo em ordem.
Por exemplo, serão feitas visitas aos
seminários para verificar que o ensino prestado está em conformidade com o do
Vaticano II, e assegurar que se estuda celebra a nova
liturgia. Em suma: o objectivo será o desencorajamento das vocações. Quando
contestamos: “Mas isso vai causar que as vocações nessas instituições desçam
abruptamente”, eles respondem: “Nós não precisamos desse tipo de vocações,
elas são inúteis”. (Isto foi, na verdade, uma resposta que obtive duma pessoa
que não posso mencionar!).
Então, para eles o bem das almas pouco importa?
Na
verdade, sim. Para eles, o bem das almas é o Vaticano II. Preferem não ter
padres a ter aqueles que eles pensam ser maus padres. É terrível – até
diabólico. Tem de ser dito: este pontificado tem atacado todos os locais onde
se verifica uma renovação sacerdotal. Os Franciscanos da Imaculada são um
exemplo, mas existem muitos mais.
De facto, o motu
proprio do Papa Bento XVI nunca foi completamente posto em prática, mas
permitiu que o motu proprio de 1988 de São João Paulo II fosse aplicado. Será
que com o Papa Francisco estamos a regressar ao período pós-conciliar dos anos
70?
Esquecemo-nos
do quão terríveis foram esses anos. Mas é diferente porque passaram 50 anos e
os perseguidores perderam a força que tinham nesse tempo. A Igreja conciliar
está muito doente, está inclusivamente a morrer nalguns sítios, como é o caso
de muitas dioceses francesas. Escassez de paroquianos, bem como de padres.
Por
exemplo, estamos a voltar à execrável situação dos anos 70, quando múltiplos pedidos
para a celebração de funerais tradicionais foram sistematicamente negados?
Teoricamente
sim. Este motu proprio não desenvolve essa questão, mas estabelece o que é
permitido, e isso não é uma delas. Eu vou celebrar um funeral tradicional na
Provença dentro de poucos dias. Teoricamente, posso ser proibido de o fazer. Para
um casamento que tenho marcadoo para Setembro, o mesmo.
Mesmo que se peça
permissão?
Nós
pedimos permissão para as Missas públicas. Regra geral, o melhor é não pedir
esclarecimentos, apenas celebrar a Missa…
O
que vai acontecer com a autorização garantida pelo Papa Francisco aos
sacerdotes da Fraternidade São Pio X para celebrar casamentos e funerais em paróquias?
Não se verifica aqui uma contradição?
Isso
não mudou! Sim, verifica-se uma contradição... Mas será que esses sacerdotes
continuam a ter o direito de celebrar publicamente numa paróquia? Reitero: é
melhor não explorar demasiado esta questão. Cada qual deve interpretar por si
próprio ou deixar o seu Bispo fazê-lo, em vez de discutir os seus detalhes.
Que reação espera
dos Bispos? Tenho em mente o Arcebispo de Ferrara, que não sendo de todo
conservador, fundou uma paróquia privada para a forma extraordinária 15 dias
antes do anúncio deste documento do Papa.
O
caso de Ferrara é muito interessante. Temos a emancipação de um Bispo
progressista do Papa Francisco. Em Itália, e na Cúria, muitos se estão a
afastar do pontificado. Sentem que o
Papa está no fim da sua carreira e estão a pensar no futuro. Descrevem o
governo presente como caótico, e desejam algo mais sério e verdadeiramente
liberal. Quanto ao Bispo de Ferrara, o caso é claro: ciente do documento e
sabendo que não iria ser permitido fundar novas paróquias privadas, ele fundou
uma de imediato: é óptimo!
Como
imagina que será a reação dos Bispos franceses?
As
reações irão variar. Alguns irão usar o texto papal para reprimir o máximo
possível. Outros irão simplesmente ser realistas, pois não quererão começar
fogos debaixo do seu tecto. Penso no Bispo de Versailles, que publicou um
comunicado que é de difícil interpretação, mas no qual parece nada dizer sobre o
que vai acontecer de momento. Existem outros que estão a favor, não existem
dúvidas, da vida tradicional nas suas dioceses, mesmo que não partilhem as suas
ideias. Vão fugir do assunto e ganhar tempo...
Se
quiserem resistir, terão de o fazer canonicamente: Código de Direito Canônico Cân. 87, parágrafo 1: “Um Bispo diocesano, quando julga que tal poderá contribuir para o
bem-estar espiritual, está capaz de dispensar os fiéis de universais ou
particulares leis disciplinares mandatadas pelo seu país ou pela suprema
autoridade da Igreja.” Isto abre incontáveis possibilidades. O Bispo contínua a
ter de ter vontade de actuar. Agora, contrariamente ao que nos foi dito pelo Sínodo,
realmente só funciona para um lado – o dos Bispos que pensam como o Papa. Mas
quando tal não é o caso... Lembro-me das palavras do Arcebispo Roche, o novo
perfeito da Congregação para o Culto Divino, que recentemente disse – rindo-se:
“Vamos destruir o Summorum Pontificum. O poder litúrgico vai ser dado aos Bispos...
mas não aos Bispos conservadores!”
São Pio V declara
que esta Missa não pode ser revogada, Paulo VI proibi-a, Bento XVI
reconstitui-a, o Papa Francisco tenta de novo fazê-la desaparecer: assim sendo,
como podemos levar a sério as decisões da Igreja?
Tem
razão. É necessário rever o texto Quo
Primum e o que é realmente dito por São Pio V: é dito que ninguém pode
impedir um padre de celebrar esta Missa, independentemente da sua posição na
Igreja, de forma a ter de celebrar esta Missa em qualquer um dos ritos
particulares (Lyon, etc.) …
Não
se verifica já isso de certa forma?
De
certa forma, sim, realmente já se verifica isso. A Missa de São Pio V, quando
foi revogada por Paulo VI (porque foi realmente revogada, como apontava
certeiramente Jean Madiran), era idêntica, quase ao detalhe, com aquela do século
XI. Bento XVI no Summorum Pontificum disse que nunca havia sido revogada. Agora
o Papa Francisco volta a revogá-la... Isto não parece nada sério.
A verdade é que
todas as experiências são permitidas, incluindo as bênçãos de casais
homossexuais (que são proibidas pela Igreja), excepto “a experiência da
Tradição”, na expressão usada pelo Arcebispo Lefebvre…
Tudo
é permitido, qualquer heresia pode ser professada por homens da Igreja, que
mesmo assim se continuam a identificar como católicos – excepto àqueles que
celebram a Missa tradicional. Não, esses são acusados pelo próprio Papa de
dilacerar a união da Igreja.
Então podemos
chegar à conclusão de que este ódio pela Missa tradicional tem uma base
doutrinal?
Sem
dúvida. É o ódio pela eclesiologia Tridentina, assim como por tudo o que esta
Missa representa no que toca à doutrina Eucarística e à doutrina da Igreja.
Padre, como capelão
da Peregrinação Summorum Pontificum, muitas vezes mencionada nas nossas páginas,
está capaz de nos responder: pensa que esta peregrinação tem um futuro
promissor?
Quem
sabe? Temos de esperar para ver!
in present.fr
(Tradução: Margarida Vilan e Manuel Maia Simões)
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
6 conselhos de Santo Afonso Maria de Ligório sobre educar os filhos
1 - Para bem educar os filhos, as palavras não são suficientes, é preciso sobretudo o exemplo dos pais. Como podem eles esperar formá-los na vida cristã se lhes dão maus exemplos? Assim, não é de espantar que se repreenda um jovem por sua má conduta e ele responda: Que querem que eu faça? O meu pai faz ainda pior! "Os filhos de um homem ímpio queixam-se do seu pai, porque é por culpa dele que estão na humilhação." (Ecl. 41, 7)
2 - Há pais que, por vezes, corrigem os filhos, mas, que podem todas as palavras se as obras as desmentem pelo mau exemplo? É conhecido este provérbio: Os homens crêem mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Santo Ambrósio disse no mesmo sentido: "O que vêem os meus olhos impressiona-me mais que as palavras que ouvem os meus ouvidos."
3 - É inútil dizer: Os meus filhos já nasceram com uma natureza má. Eis o que diz Séneca: "É um erro crer que o vício nasce connosco. Não. O vício é introduzido em nós". E como é introduzido? Precisamente pelos maus exemplos.
4 - Senhores pais, se não derdes bons exemplos os vossos filhos não serão virtuosos. Frequentai os sacramentos, recitai cada dia o terço, dai um basta às solicitações desonestas, às blasfémias, às rixas e vereis os vossos filhos se confessando, rezando o terço, falando de coisas apropriadas, praticando o respeito para com Deus e a caridade para com o próximo.
5 - Mas notai bem na sentença já citada: "Tens filhos? Educa-os, acostuma-os à obediência, desde a infância." (Ecl. 7, 23). É preciso que as crianças sejam, desde os primeiros anos, formadas nos bons costumes. Pois, à medida que elas crescem e que os maus hábitos se fortificam, encontrareis sempre mais dificuldades em fazer aceitar as vossas sábias advertências.
6 - Empenhai-vos em inculcar nos vossos filhos as máximas cristãs, por exemplo, a necessidade de fugir das más companhias e ocasiões perigosas, a conformidade com a vontade divina, o paciente sofrimento das adversidades da vida, a insignificância das riquezas e prazeres terrestres, etc. Ponde muitas vezes diante dos seus olhos a desgraça imensa dos que vivem em pecado mortal e a importância do negócio da nossa salvação. Preveni-os contra a vaidade do mundo, lembrai-os a hora da morte com a qual tudo se acaba.
6 - Empenhai-vos em inculcar nos vossos filhos as máximas cristãs, por exemplo, a necessidade de fugir das más companhias e ocasiões perigosas, a conformidade com a vontade divina, o paciente sofrimento das adversidades da vida, a insignificância das riquezas e prazeres terrestres, etc. Ponde muitas vezes diante dos seus olhos a desgraça imensa dos que vivem em pecado mortal e a importância do negócio da nossa salvação. Preveni-os contra a vaidade do mundo, lembrai-os a hora da morte com a qual tudo se acaba.
Sermões de Santo Afonso Maria de Ligório
domingo, 1 de agosto de 2021
A importância do respeito devido à Missa
sábado, 31 de julho de 2021
Exame dos Pensamentos - Santo Inácio de Loyola
Exame Geral de Consciência para se purificar e para melhor se confessar: Pensamentos.
Há duas maneiras de merecer no mau pensamento que vem de fora:
A primeira, vem, por exemplo, um pensamento de cometer um pecado mortal. Resisto-lhe prontamente, e fica vencido.
A segunda maneira de merecer é quando me vem aquele mesmo mau pensamento e eu lhe resisto, e torna-me a vir, uma e outra vez, e eu resisto sempre, até que o pensamento se vai vencido. Esta segunda maneira é de mais merecimento que a primeira.
Peca-se venialmente, quando vem o mesmo pensamento de pecar mortalmente, e a pessoa lhe dá atenção, demorando-se um pouco nele, ou recebendo alguma deleitação sensual, ou havendo alguma negligência em rejeitar o tal pensamento.
Há duas maneiras de pecar mortalmente:
A primeira é quando se dá consentimento ao mau pensamento, para o pôr logo em prática conforme consentiu, ou para o executar se pudesse.
A segunda maneira de pecar mortalmente é quando se põe em acto aquele pecado; e é maior por três razões: a primeira, pelo maior espaço de tempo; a segunda, pela maior intensidade; a terceira, pelo maior dano das duas pessoas.
sexta-feira, 30 de julho de 2021
Missa e Memória - Martin Mosebach
Em
Traditionis Custodes, o Papa Francisco deu uma ordem. Fá-lo numa altura em que
a autoridade papal está a desmantelar-se como nunca antes. A Igreja há muito
que avançou para uma fase ingovernável. Mas o papa continua a batalhar.
Abandona os seus mais caros princípios – " escuta",
"ternura", "misericórdia"
– que recusam julgar ou dar
ordens. O Papa Francisco é agitado por algo que o perturba: a tradição da
Igreja.
O limitado
espaço de respiração que os antecessores do Papa concederam à tradição
litúrgica já não é ocupado apenas por nostálgicos senis. A Missa Tradicional
Latina também atrai jovens, que descobriram e aprenderam a amar o "tesouro
enterrado no campo", como o Papa Bento XVI chamou à antiga liturgia. Aos
olhos do Papa Francisco, isto é tão grave que tem de ser suprimido.
A
veemência da linguagem do motu proprio sugere que esta directiva chegou tarde
demais. Os círculos que aderem à tradição litúrgica mudaram, de facto,
drasticamente nas últimas décadas. A Missa Tridentina já não é frequentada
apenas por aqueles que sentem falta da liturgia da sua infância, mas também por
pessoas que descobriram de novo a liturgia e estão fascinadas por ela – incluindo muitos convertidos, muitos que há
muito se encontravam afastados da Igreja. A liturgia é a sua paixão e
conhecem-na em todos os seus detalhes. Há muitas vocações sacerdotais entre
eles.
Estes jovens não frequentam apenas os seminários mantidos pelas
fraternidades sacerdotais da tradição. Muitos deles seguem a formação habitual
para o sacerdócio, e estão no entanto convencidos de que a sua vocação é
reforçada precisamente pelo conhecimento do rito tradicional. A curiosidade
sobre a suprimida Tradição católica cresceu, apesar de muitos terem retratado esta
tradição como obsoleta e sem consistência. Aldous Huxley ilustrou este tipo de
assombro no Admirável Mundo Novo, no qual um jovem da elite moderna, sem
sentido da história, descobre as riquezas transbordantes da cultura pré-moderna
e fica encantado por elas.
A
intervenção do papa pode impedir o crescimento da recuperação litúrgica da
Tradição durante algum tempo. Mas ele só poderá detê-la durante o resto do seu
pontificado. Porque este movimento tradicional não é uma moda superficial.
Demonstrou nas décadas da sua repressão anterior ao motu proprio Summorum
Pontificum de Bento XVI que subsiste uma
devoção séria e entusiástica em relação à inteira plenitude do catolicismo. A
proibição do Papa Francisco irá suscitar resistência naqueles que ainda têm as
suas vidas pela frente e não permitirão que o seu futuro seja obscurecido por
ideologias obsoletas. Não foi bom, mas também não foi sensato, sujeitar a
autoridade papal a este teste.
O Papa
Francisco proíbe as missas no rito antigo em igrejas paroquiais; exige aos
padres que obtenham permissão para celebrar a missa antiga ; exige mesmo aos
padres que ainda não celebraram no rito antigo que obtenham essa permissão não
do seu bispo, mas do Vaticano; e exige um exame de consciência dos
participantes na missa antiga. Mas o motu proprio Summorum Pontificum de Bento
XVI raciocina num plano totalmente diferente.
O Papa Bento XVI não
"permitiu" a "Missa antiga", e não concedeu qualquer
privilégio para a celebrar. Numa palavra, não tomou uma medida disciplinar que um
sucessor possa revogar. O que foi novo e surpreendente no Summorum Pontificum
foi o facto de declarar que a celebração da Missa antiga não necessita de
qualquer permissão. Nunca havia sido proibida porque nunca poderia ser
proibida.
Poder-se-ia
concluir que aqui encontramos um limite fixo e insuperável para a autoridade de
um Papa. A Tradição está acima do Papa. A antiga Missa, enraizada nas
profundezas do primeiro milénio cristão, está, por princípio, para além da
autoridade pontifícia de proibir. Muitas disposições do motu proprio do Papa
Bento XVI podem ser postas de lado ou modificadas, mas esta decisão magisterial
não pode ser tão facilmente abolida. O Papa Francisco não tenta fazê-lo -
ignora-a. Ela ainda se mantém depois de 16 de Julho de 2021, reconhecendo a
autoridade da Tradição que todo o padre tem o direito moral de celebrar o rito
antigo, nunca proibido.
A maioria
dos católicos do mundo não se interessará de todo pela Traditionis Custodes.
Tendo em conta o pequeno número de comunidades tradicionalistas, a maioria
dificilmente compreenderá o que se está a passar. De facto, temos de nos
perguntar se o Papa não tinha tarefas mais urgentes – no meio da crise dos abusos sexuais, dos
escândalos financeiros da Igreja, dos movimentos cismáticos como o caminho
sinodal alemão, e da situação desesperada dos católicos chineses – do
que suprimir esta pequena e devota comunidade.
Mas os
adeptos da Tradição devem conceder isto ao Papa: Ele leva a Missa tradicional,
que data pelo menos da época de Gregório Magno, tão a sério como eles. Ele,
contudo, julga-a perigosa. Ele escreve que os papas, no passado, criaram
repetidas vezes novas liturgias e aboliram as antigas. Mas o oposto é verdade.
Em vez disso, o Concílio de Trento prescreveu o antigo missal dos papas romanos
– que tinha surgido na Antiguidade tardia –
para uso geral, porque este era o único que não tinha sido desvirtuado
pela Reforma.
Talvez a
Missa não seja o que mais preocupa o Papa. Francisco parece simpatizar com a
"hermenêutica da ruptura" – essa escola teológica que afirma que, com
o Concílio Vaticano II, a Igreja rompeu com a sua tradição. Se isso for
verdade, então, de facto, qualquer celebração da liturgia tradicional deve ser
impedida. Enquanto a antiga Missa latina for celebrada em qualquer garagem, a
memória dos dois mil anos anteriores não terá sido extinta.
Esta
memória, contudo, não pode ser erradicada pelo exercício tosco do positivismo
jurídico papal. Ela voltará uma e outra vez, e será o critério pelo qual a
Igreja do futuro terá de se medir a si própria.
Publicado em: First Things
(Tradução: Maria Armanda de Saint-Maurice)
quinta-feira, 29 de julho de 2021
quarta-feira, 28 de julho de 2021
A importância e obrigatoriedade do hábito religioso - Irmã Lúcia
Comentário da Irmã Lúcia à aparição de Nossa Senhora do Carmo no dia 13 de Outubro de 1917, no momento do milagre do Sol:
A aparição de Nossa Senhora do Carmo tem, a meu ver, o significado de uma plena consagração a Deus. Mostrando-Se revestida de um hábito religioso, Ela quis representar todos os outros hábitos pelos quais se distinguem as pessoas inteiramente consagradas a Deus, dos simples cristãos seculares.
Os hábitos são o distintivo de uma consagração, um resguardo do decoro e da modéstia cristã, uma defesa da pessoa consagrada. São para as pessoas consagradas o mesmo que a farda é para os soldados, e os galões para um graduado: distingue-os e mostra o que são e o lugar que ocupam, obrigando-os também a um comportamento digno da respectiva condição.
Por isso, deixar o hábito religioso é retroceder; é confundir-se com aqueles que não foram chamados nem escolhidos para mais; é despojar-se de uma insígnia que os distingue e eleva; é descer a um nível inferior, para poder viver como aqueles que não são tanto.
Por isso, deixar o hábito religioso é retroceder; é confundir-se com aqueles que não foram chamados nem escolhidos para mais; é despojar-se de uma insígnia que os distingue e eleva; é descer a um nível inferior, para poder viver como aqueles que não são tanto.
in Irmã Lúcia, Apelos da Mensagem de Fátima
Comunicado da Una Voce Portugal sobre o último Motu Proprio do Papa Francisco
Comunicado Oficial
UNA VOCE PORTUGAL
1. A Una Voce Portugal acolheu
com tristeza, no passado dia 16 de julho, Festa de Nossa Senhora do Carmo, o Motu Proprio “Traditionis Custodes”, do
Santo Padre, o Papa Francisco. Subscrevemos integralmente o comunicado da Fœderatio Internationalis Una Voce,
Federação da qual a Una Voce Portugal
é associada[1].
2. A Una Voce Portugal tem desenvolvido um
esforço, em particular no último ano, de articulação com os Bispos portugueses
no sentido do estabelecimento formal de novos grupos de fiéis ou a consolidação
de outros já existentes, em diversas dioceses, para que possam ter acesso
pacífico e regular ao usus antiquior do Rito Romano, sempre num espírito
filial e de união. Este esforço baseia-se no interesse de muitos fiéis que já
haviam manifestado esse ensejo, e tem tido o propósito de formalizar o
estabelecimento de novos grupos, seja absolutamente novos, seja além de algum
queporventura já exista formalmente.
3. Neste sentido, não ficámos
surpreendidos com as novas normas que fazem recair sobre os Bispos
responsabilidades acrescidas. Com efeito, na prática é o que já estava a
acontecer em Portugal, uma vez que, nos últimos tempos, com alguma eventual excepção,
nunca houve verdadeira aplicação prática das normas que se encontravam vertidas
no Motu Proprio “Summorum Pontificum”, do
Papa Bento XVI, que eram particularmente respeitadoras tanto da capacidade de
discernimento in loco dos párocos como dos direitos dos fiéis, tal como
se encontram recebidos no Código de Direito Canónico vigente, nomeadamente no
cânone 214.
4. Por este motivo, lamentamos que o
ensejo pela aplicação estrita do mais recente Motu Proprio não se houvesse já verificado aquando e após a publicação
do Motu Proprio “Summorum Pontificum”,
desatendido e desobedecido de forma continuada e ostensiva ao longo dos últimos
14 anos, em tantas paróquias e dioceses e, em Portugal, na maioria delas,
sempre que a solicitação era legitimamente apresentada pelos leigos ou por quem
os representasse, mesmo que todos os requisitos da lei papal e universal se
encontrassem preenchidos.
5. Rejeitamos terminantemente a acusação relativa a uma eventual rejeição
ou negação do Concílio Vaticano II e seus documentos. Recordamos, aliás, que a Una Voce é uma associação de fiéis
leigos que, vivendo no seu tempo, mantêmsempre o propósito de estar unidos à
Santa Madre Igreja e ao seu Magistério. Neste sentido, importa também recordar
o que diz a constituição conciliar “Sacrosanctum
Concilium” sobre a sagrada liturgia, por exemplo, em relação ao uso do
latim e do Gregoriano nos sacros ritos[2].
6. Não existe unidade sem verdade, e, na
Igreja, a unidade só pode assentar nela, segundo a Fé católica integral e o
respeito pela tradição. Fora da verdade, não existe obediência capaz de
vincular. A única possibilidade que resta é a da resistência, defendendo a
verdade através da acção litúrgica, e não abdicando de uma liturgia que a
tradição confirmou e em nada faz decrescer a completa e reverente expressão e
transmissão da verdade da fé. Da mesma
forma que Roma falou duas vezes, nada impede que, no futuro, fale uma terceira.
A Missa tradicional - cuja antiguidade imemorial está mais que provada -
permanecerá,nunc et semper!Foi essa mesma antiguidade que São Pio V
conseguiu compreender, detectando-lhe a catolicidade da tradição em que
assentava, e por isso respeitando até ritos mais recentes, desde que perdurassem
há mais de 200 anos. Ao contrário de nós, Deus não envelhece e não abandona nem
a sua obra, nem quem Lhe presta preito de louvor em “odor de suavidade”,
segundo a tradição da Igreja, sem nada que se lhe aponte de desrespeito do
sagrado, da fé e do reverente culto devido a Deus.
7. Consideramos alarmante e ficamos
apreensivos com a atitude de culpabilização e descrédito movida contra os fiéis
católicos que amam a liturgia antiga, alegando que forçaram o Papa a tomar
estas medidas. Sendo a união o objectivo, é estranho que as medidas aplicadas
sejam de exclusão e de fomento de divisão.
8. A Una Voce Portugal não deixa
de se regozijar com muitas notícias que tem recebido, de todo o mundo, sobre a
continuação da celebração da Missa tradicional em paróquias, apostolados e
locais de culto de inúmeras dioceses e sobre tantos Bispos que mostraram uma
atitude de verdadeira unidade, acolhendo paternalmente os fiéis na sua
diversidade, por contraste a tantos que, noutras dioceses, se vêem relegados a
uma inflexível e irracionalmarginalização. Da mesma forma, alegramo-nos com as
notícias do aumento do número de fiéis na assistência a essas mesmas Missas.
Não deixamos de lamentar, é claro, as notícias também chegadas sobre proibições
de Missas em algumas partes do mundo e as consequências que isso trará a tantas
almas.
9. A Una Voce Portugal não esquece todos os sacerdotes, seminaristas e
consagrados que dependem dos institutos e sociedades tradicionais e que agora
podem estar apreensivos sobre o seu futuro, ao verem comprometido o futuro de
tantas iniciativas em torno da Missa segundo o usus antiquior, apesar de
as mesmas estarem claramente a contribuir grandemente para a “nova
evangelização”, a apreensão de quantos têm no coração o zelo pelas almas e que
vêem tristemente cerceado um instrumento de verdade, louvor, fiel e profunda
espiritualidade e beleza que tão grandes resultados tem trazido para as almas.
Referimo-nosnomeadamente à Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, ao Instituto
Cristo-Rei Sumo Sacerdote e ao Instituto do Bom Pastor, os quais contam já com
tantos seminaristas portugueses: a todos
eles manifestamos e sublinhamos publicamente todo o nosso apoio e a garantia de
que poderão sempre contar com aUna Voce Portugal.
10. Não esquecemos também todos os
sacerdotes e seminaristas diocesanos que celebram, estão a aprender ou desejam
aprender a celebrar no usus antiquior;
animamos a todos a perseverarem nos seus esforços e no apostolado que fazem,
que será sempre frutífero. Estamos sempre disponíveis para ajudar em tudo o que
pudermos ser úteis.
11. A Una Voce Portugal compromete-se, por
último, a ser incansável na defesa e promoção da Tradição da Santa Igreja
Católica e dos Seus ritos e liturgia em Portugal e da liberdade que assiste a
todos os fiéis de se unirem para viver deste modo a sua Fé, apoiando as
paróquias e grupos que já existem, bem como todos os demais que se queiram
constituir, e assim prosseguindo aqueles que são os objectivos da Federação Internacional Una Voce desde
a sua constituição formal, em 1967.
“Combati o
bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”
UNA VOCE PORTUGAL
www.unavoce.pt
[1]
Publicado no dia 19 de Julho, disponível em:
http://www.fiuv.org/2021/07/oficial-statement-of-fderatio.html
[2]Cfr.
ponto 36. § 1.” Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o
direito particular” e ponto 116 “A Igreja reconhece como canto próprio da
liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em
igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.
terça-feira, 27 de julho de 2021
Nesta cidade não há divórcios, por que será?
A cidade de Siroki Brijeg (na Bósnia e Herzegovina), tem uma maravilhosa particularidade: ninguém se lembra que tenha existido um só divórcio, entre os seus milhares de habitantes, nem alguma família que tenha deixado a Fé católica. A população é quase toda composta por croatas, que são católicos fervorosos.
O segredo é simples: os habitantes croatas têm mantido a sua fé católica, suportando por causa disso a perseguição dos turcos durante séculos, e depois dos comunistas. A sua Fé está fortemente arraigada no conhecimento do poder salvador da Cruz de Jesus Cristo.
Esse povo possui uma grande sabedoria, que vem sabendo aplicar ao Matrimónio e à Família. Eles sabem de que o Matrimónio está indissoluvelmente ligado à Cruz de Cristo. O sacerdote diz-lhes: “Encontraste a tua cruz. É uma cruz para amar, levá-la contigo, uma cruz que não se tira, mas que se guarda, enterra-se na tua alma”. Quando um casal se prepara para contrair Matrimónio, não lhes dizem que encontraram a “pessoa perfeita”. Não! A Cruz representa o Amor Maior e o Crucifixo é o tesouro da casa. Quando os noivos vão à Igreja, levam o Crucifixo com eles. O sacerdote benze o Crucifixo.
Quando chega o momento de afirmar os seus votos, a noiva põe a sua mão direita sobre o crucifixo e o noivo põe a sua mão sobre a dela, de maneira que as duas mãos estão unidas à cruz. O sacerdote cobre as mãos deles com a sua estola, enquanto proclamam as suas promessas segundo o rito da Igreja: de serem fiéis um ao outro, nas alegrias e nas penas, na saúde e na enfermidade, até a morte.
Depois, os noivos não se beijam, mas ambos beijam a cruz. Se um dos dois abandona o outro, abandona a Cristo na Cruz. Depois da cerimónia, os recém-casados levam o crucifixo para casa, onde é posto num lugar de honra. Será para sempre o ponto de referência e o lugar de oração familiar.
Em tempo de dificuldades não vão ao advogado, nem ao psiquiatra, mas vão juntos diante da cruz em busca da ajuda de Jesus. Chorarão e abrirão os seus corações, pedindo perdão ao Senhor e um ao outro. E irão dormir em paz porque no seu coração receberam o consolo e o perdão do Único que tem o poder para salvar.
Ensinarão os filhos a beijar a cruz cada dia, e a não irem dormir como os pagãos sem dar graças primeiro a Jesus. Sabem que Jesus os tem nos Seus braços e não há nada a temer.
in catholic.net
in catholic.net
Maria ganhou por humildade o que Lúcifer perdeu por orgulho
O que Lúcifer perdeu por orgulho, ganhou-o Maria pela sua humildade; o que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria obedecendo. Eva, ao obedecer à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e entregou-os ao demónio. Maria, tendo sido perfeitamente fiel a Deus, salvou juntamente consigo todos os Seus filhos e servos, e consagrou-os à Divina Majestade.
São Luís Maria Grignion de Monfort in 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem'
Temas:
Demónio,
Frase do dia,
Humildade,
Nossa Senhora
segunda-feira, 26 de julho de 2021
Uma Missa ecuménica? O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita
Quando, a 5 de Novembro [ndr: na primeira
sessão do Concílio], foram retomados os debates conciliares, um dos
vinte e quatro oradores que tomaram a palavra foi Mons. Duschak[1],
bispo titular de Abida e vigário apostólico de Calapan, nas Filipinas,
mas alemão de nascimento, que defendeu a necessidade de uma “Missa
ecumênica” decalcada na Última Ceia[2].
“Cristo celebrou a primeira Missa
diante dos Apóstolos — voltado para o povo, seguindo o costume então
vigente durante as ceias. Cristo falou em voz alta, de maneira que
todos, por assim dizer, ouvissem o Cânone desta primeira Missa. Cristo
serviu-se da língua falada, para que todos O compreendessem sem qualquer
dificuldade, a Ele e às palavras que disse. Nas palavras “fazei isto”,
de acordo com o seu significado completo, parece estar contido o
preceito de celebrar a Missa como uma ceia, de frente, ou pelo menos em
voz alta, e numa língua que os comensais compreendam.”
Mons. Duschak convidava pois: “a uma colaboração entre os especialistas de todos os ritos e das Igrejas que conservam a fé na eucaristia; para se compor uma Missa que se possa chamar verdadeiramente ecumênica ou “Missa do mundo”, e com ela a tão desejada unidade, pelo menos na memória eucarística do Senhor. O povo de Deus gozaria assim da participação perfeita e íntima de que gozaram os Apostolos na Última Ceia.”[3]
À tarde, Mons. Duschak explicou a sua intervenção aos jornalistas, salientando que a sua ideia consistia em “introduzir
uma Missa ecumênica, despojada, na medida do possível, das
superestruturas históricas, baseadas na essência do Santo Sacrifício e
firmemente radicada na Sagrada Escritura”[4].
O Prelado chegava ao ponto de pretender alterar as palavras tradicionais do Cânone:
“Se os homens dos séculos passados puderam escolher e inventar os ritos
da Missa, por que não pode o maior de todos os concílios fazer a mesma
coisa? Por que não havemos de decretar a elaboração de uma fórmula da
Missa, adaptada ao homem moderno, para corresponder, com toda a
reverência, aos desejos deste?”[5] Toda a Missa, insistia Duschak,
devia ser celebrada em voz alta, em língua vernácula, e voltada para o
povo. Estas propostas, que na altura pareceram radicais, seriam postas
em prática ainda antes do encerramento do Concílio.
Mas as réplicas não faltaram. Ao Cardeal
Döpfner, que tinha afirmado que era necessário introduzir as línguas
vernáculas também porque os candidatos ao sacerdócio, formados nas
escolas públicas, já não sabiam latim, respondeu Mons. Carli salientando
que os referidos candidatos também não conheciam a filosofia e a
teologia cristã e ninguém se lembrava de os ordenar antes de terem
completado os seus estudos nestas matérias[6].
Estava-se em presença de um confronto
entre a Cúria Romana e algumas conferências episcopais, sobretudo a
francesa e a alemã, apoiadas por determinados bispos dos países do
Terceiro Mundo, como Mons.D’Souza que, nas suas intervenções de 27 de
Outubro e 7 de Novembro de 1962[7], solicitou que se atribuísse às
conferências episcopais o direito de escolherem a língua em que queriam
fazer o rito, mas também o direito “de adaptarem a liturgia dos Sacramentos”[8]; e Mons. Bekkers[9], que afirmou que apenas “o núcleo sacramental fundamental de todos os sacramentos” tinha de ser “universal”, “mas
que, para uma celebração mais evoluída e mais ampla deste núcleo
sacramental, seja concedida uma amplíssima liberdade, de cujos limites
apenas a conferência de bispos de cada povo pode julgar adequada,
contanto que os actos sejam aprovados pela Santa Sé”[10].
Para o partido anti-romano, o latim era o
instrumento de que a Cúria se servia para exercer o seu poder. Enquanto
o latim fosse a única língua da Igreja, Roma teria competência para
controlar e verificar os ritos; se, porém, se introduzissem na liturgia
centenas de línguas e costumes e línguas locais, a Cúria perderia
automaticamente as suas prerrogativas e as conferências episcopais
passariam a ser os juízes desta matéria. “Era precisamente neste
ponto que insistia a maioria que começava a perfilar-se, e que pretendia
que as conferências episcopais fossem autorizadas a tomar determinadas
decisões importantes em matéria de usos litúrgicos”, sublinha Wiltgen[11].
A aliança progressista recebeu na aula o
apoio de um numeroso grupo de bispos da América Latina, chefiados pelo
Cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago do Chile; estes Padres,
recorda ainda Wiltgen, manifestavam o seu reconhecimento pelas
importantes ajudas financeiras que tinham recebido durante os últimos
anos do Cardeal Frings de Colónia, através das Associações Misereor e Adveniat: “Um
número significativo daqueles aproveitaram a ocasião do Concílio para
fazer uma visita ao Cardeal Frings, e agradecer-lhe pessoalmente, vieram
a encontrar-se envolvidos na aliança.”[12]
Roberto de Mattei in O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita (Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 214-216)
[1] Wilhelm Josef Duschak (1903-1997), alemão, da Sociedade do Verbo Divino, ordenado em 1930, bispo de Abida (1951) e vigário apostólico em Calapan (Filipinas) entre 1951 e 1973.
[2] AS, I/1, pp. 109-112.
[3] Ibid, pp. 111-112.
[4] WILTGEN, P. 37.
[5] Ibid, p. 38.
[6] AS, I/2, PP. 398-399.
[7] AS I/2, pp. 497-499 e AS, I/2, pp. 317-319.
[8] AS I/2, p. 318. “Seria óptimo que o poder se alargasse a todo o rito e ao uso da língua falada. É isto que esperamos do Concílio porque é realmente necessário a sua actuação” (ibid.).
[9] Wilhelm Marinus Bekkers (1908-1966), holandês, ordenado em 1933, bispo coadjutor em 1956 e depois bispo de Bois-le-Duc até a morte. O seu funeral foi uma espécie de manifestação pública da corrente ultraprogressista holandesa (Actes et Acteurs, p. 372).
[10] AS I/1, pp. 313-314.
[11] WILTGEN, p. 42.
[12] Ibid., p. 53
sábado, 24 de julho de 2021
Grandeza do verdadeiro Cristão resumida em poema
Ter o olhar voltado para as claras estrelas
Não temer as duras batalhas, mas querê-las.
Águia fitando o sol, viver para as alturas,
desprezando as coisas baixas, vis e obscuras.
Amar só os horizontes vastos e azuis.
Odiar os negros charcos e os mortos pauis.
Ter a alma sem medo, covardias, tremores,
valente e forte como o rufar dos tambores.
Ter na alma claras notas de clarins de prata,
e nos lábios um canto ardente que arrebata.
Ser impelido pelos ventos da epopeia,
longe das calmarias podres de vida ateia.
Entre nuvens de fumo, de ódio e de poeira,
ousada e desafiante, desfraldar bandeira.
Qual falcão atacar, desprezando o perigo,
tendo olhos só para Deus e para o inimigo.
Não temer jamais nem as armas, nem as vaias,
nem o combate franco, nem as vis tocaias.
E, não fugindo nem da arena, nem do sorriso,
ver, na morte e cruz, as portas do Paraíso.
Jamais calcular o número do inimigo.
Mas contar só com Deus, com Santiago e consigo.
Por justo combater, mesmo que solitário,
sem ver o número, enfrentar o adversário.
Viver abrasado de amor pela verdade,
encantado pela beleza e poesia,
mantendo no coração a fidelidade
aos ecos longínquos de uma canção bravia.
Escutar, escutar sempre os clarins de glória,
chamando ao combate, proclamando a vitória.
Amar a solidão do deserto ou do mar
ser fiel até a morte e jamais capitular.
Não temer ser desprezado e tido por nada,
não querer senão o triunfo da cruzada.
Ter uma alma agressiva que não retroceda.
Não ter no coração nem baixeza, nem lama,
mas de heroísmo, ser ardente labareda,
ser da verdade arauto, da pureza, chama.
Viver sempre enamorado pela proeza,
a alma sempre firme ancorada na certeza
sedenta de Deus, de infinito e de grandeza.
Orlando Fedeli (São Paulo, 1975)
Jovens de todo o Mundo juntos em defesa da Missa Tradicional
quinta-feira, 22 de julho de 2021
terça-feira, 20 de julho de 2021
Na autobiografia o Papa Bento XVI lamenta a "proibição" da Missa Antiga
O segundo grande acontecimento que ocorreu no começo dos meus anos de Ratisbona foi a publicação do "Missal", de Paulo VI, com a proibição quase total do "Missal" anterior, após uma fase de transição de cerca de seis meses. O facto de, após um período de experiências, que amiúde desfiguraram por completo a liturgia, se passar a ter um texto litúrgico vinculativo, era de saudar como algo seguramente positivo.
Mas fiquei estupefacto com a proibição do "Missal" antigo, dado que nunca na história da liturgia se verificara uma situação semelhante. Quis-se passar a ideia de que era uma coisa normal. O "Missal" anterior tinha sido publicado por Pio V em 1570, na sequência do Concílio de Trento; era portanto normal que, passados quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo "Missal".
Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a reelaborar o "Missal" romano que se utilizava na época, coisa que aliás sempre acontecera ao longo dos séculos. Por seu lado, muitos dos seus sucessores reelaboraram ulteriormente este "Missal", sem nunca, porém, contraporem um "Missal" ao outro. Tratou-se sempre de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, no entanto, a continuidade nunca era posta em causa. Um "Missal" de Pio V que tenha sido criado por ele, simplesmente nunca existiu.
O que existe é a reelaboração que ele mandou fazer, como fase de um longo processo de crescimento histórico. A novidade, após o Concílio de Trento, foi de outra natureza: a invasão súbita da reforma protestante fizera-se sentir sobretudo na modalidade das reformas litúrgicas. Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante, postas uma ao lado da outra, a divisão da Igreja ocorreu quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva nas mudanças ao nível da liturgia.
Estas mudanças resultaram de tal maneira diversificadas ao nível local, que o limite entre o que era e não era católico se tornou, amiúde, bem difícil de definir. Esta situação de confusão, criada pela ausência de uma normativa litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, fez com que Pio V decidisse que o "Missale Romanum", o texto da liturgia da cidade de Roma, por ser seguramente católico, devia ser introduzido em todo o lado onde não houvesse uma liturgia com, pelo menos, duzentos anos de existência. Onde este critério se verificava, podia manter-se a liturgia anterior, dado que o seu carácter católico era considerado seguro. Não se pode, por isso, falar de uma proibição relativa aos "Missais" anteriores e até ao momento regularmente aprovados.
Agora, pelo contrário, a promulgação do impedimento do "Missal" que se tinha desenvolvido ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da Igreja antiga, implicou uma ruptura na história da liturgia, cuja consequências não podiam deixar de ser trágicas. Tal como já tinha acontecido muitas vezes, era razoável e plenamente em linha com as disposições do Concílio que se fizesse uma revisão do "Missal", sobretudo, tendo em consideração a introdução das línguas nacionais. Mas nesse momento aconteceu algo mais: destruiu-se o edifício antigo e, embora utilizando o material e o projecto deste, construiu-se um novo.
Não há dúvida de que, em algumas partes, este novo "Missal" trouxe verdadeiros melhoramentos e um real enriquecimento. Contudo, o facto de ter sido apresentado como um edifício novo - contraposto ao que fora construído ao longo da história - que se proibisse este último e que, de certa maneira, se concebesse a liturgia já não como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves.
Com efeito, deste modo desenvolveu-se a ideia de que a liturgia se "faz", de que não é uma realidade que exista antes de nós, - algo de "dado" -, mas que depende das nossas decisões. Consequentemente, esta capacidade de decisão não é só reconhecida aos especialistas ou a uma autoridade central, mas também em definitivo a qualquer comunidade que queira ter uma liturgia própria.
O problema é que, quando a liturgia é algo que cada qual pode fazer à sua maneira, ela deixa de nos poder dar aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é produto das nossas acções, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida. Para a vida da Igreja, é dramaticamente urgente um renovamento da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica, que volte a reconhecer a unidade da história da liturgia e compreenda o Vaticano II não como ruptura, mas como momento evolutivo.
Estou convencido de que a crise eclesial em que actualmente nos encontramos depende, em grande parte, da decadência da liturgia, que, por vezes, é mesmo concebida "etsi Deus non daretur": "como se se já não interessasse se Deus está ou não presente nela", se Ele nos fala e ouve ou não. Mas se na liturgia já não aparece a comunhão da fé, a unidade universal da Igreja e da sua história, o mistério de Cristo vivo, de que modo é que a Igreja manifesta a sua substância espiritual? Nesse caso, a comunidade celebra-se apenas a si mesma, coisa que não tem qualquer valor.
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) in 'A Minha Vida' (Livros do Brasil, 2010 - pág. 106 a 108)
O verdadeiro Progresso
Todos nós queremos progresso. Mas progredir significa chegar mais perto do lugar onde desejamos estar. E se o caminho que escolhemos é o errado, então, ir em frente não nos levará mais perto. Se estamos no caminho errado, progredir significa dar meia-volta e regressar ao caminho certo; e, nesse caso, quem mais cedo o fizer mais será progressista.
C. S. Lewis in 'Mere Christianity'
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