Gaetano Tinnirello era um sem-abrigo que pedia dinheiro à porta da paróquia Trinità dei Pellegrini, a igreja da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro em Roma. A sua morte repentina, sendo relativamente jovem, deixou consternada a paróquia, que prontamente organizou a Missa de Requiem pela sua alma. Este é o sermão das exéquias, proferido pelo Padre Vilmar Pavesi:
"Tenho sede.” Na cruz, durante a sua agonia, Jesus estava com sede. Era uma sede imensa, causada pelas suas feridas. Mas era acima de tudo uma sede espiritual. Jesus tinha, e ainda tem, sede de almas, porque procura almas para as salvar, sem desprezar nenhuma delas.
Caetano também estava com sede. Quando fui ter com ele ao hospital a sua boca estava seca. “Padre, estou com sede, dê-me de beber”, foi a primeira coisa que me pediu. Depois de perguntar se eu poderia fazer isso, comecei a dar-lhe uma bebida com uma palhinha. Ele não conseguia mover-se. Depois de ter bebido meia garrafa de água, disse-lhe: “Caetano, pensa em Jesus Cristo na cruz. Ele também estava com sede, mas ninguém Lhe deu nada para beber. Agora podes entender melhor.” Ele acenou com a cabeça. Então perguntei se ele se queria confessar. Respondeu que sim. Ele estava perfeitamente lúcido. Confessou-se com as melhores disposições da alma, com humildade e sinceridade. E, depois, rezámos a sua penitência juntos. Depois, vendo sinais de sofrimento no seu rosto, por causa das dores, aconselhei-o a oferecer tudo pelo amor de Deus: “Jesus, eu ofereço isto por amor a Vós”. E ele repetia comigo, como uma criança: “Jesus, eu ofereço isso por amor a Vós”.
Então, perguntei-lhe se queria também receber a Extrema Unção, e ele concordou. Depois da Extrema Unção pediu-me mais água, porque ainda estava com sede. O nosso pobre Caetano, que ainda tinha sede, com a sua confissão e com a extrema-unção aliviava a sede que Deus sentia na Sua alma. Antes de deixá-lo, conversamos sobre várias coisas e como seria a sua vida quando saísse do hospital: pediu para que eu encontrasse um lugar onde pudesse morar, e prometi que o faria.
Depois perguntou onde ele estava naquele momento? “No hospital San Camillo”, respondi. “A que distância fica da paróquia?” “10 minutos de tram(transporte público)”, disse-lhe. “Quando vou andar de tram novamente?” “Quando Deus quiser, não precisas de te preocupar com o futuro. Senhor, seja feita a Vossa vontade.” E ele, mais uma vez, como uma criança, repetiu: “Senhor, seja feita a Vossa vontade”. Entreguei a Caetano as saudações de todos os sacerdotes da paróquia, especialmente do pároco, e de todas as pessoas que por ele tinham afecto e piedade. Nessa altura tive que sair. “Ah, o Padre tem que ir. Então, por favor, dê-me um pouco mais de água”. Após a última bênção e saudação, disse-me: “Padre, obrigado. Fez-me muito feliz. ”
A primeira vez que fui vê-lo no hospital foi no Sábado, após a primeira cirurgia. Ele estava em coma e em grave perigo de morte. Normalmente, tenho sempre comigo o óleo dos doentes, mas naquele dia, por acaso, não o tinha. E como era tarde, eles não me deixaram vê-lo. Voltei na Segunda-Feira, desta vez com os óleos sagrados. Caetano estava perfeitamente lúcido. No dia seguinte voltaria ao coma, seria submetido a outra operação e permaneceria em coma até ao dia de sua morte. Ele parece ter voltado ao estado de lucidez apenas durante algumas horas, como aquela criança que ressuscitou diante de São Filipe Néri apenas para poder confessar-se e receber a Extrema Unção, e, depois, morrer novamente.
Falando de São Filipe Néri, Caetano, sem saber, viveu um de seus conselhos: todos os dias entrava na igreja e cumprimentava todos os santos. Quando se aproximava do altar-mor se prostrava-se no chão, beijava o chão e rezava. Foi exactamente isso que São Filipe Neri ensinou: “Quando tens pouco tempo ou não consegues rezar bem vai a uma igreja e cumprimenta os santos. Terás feito uma oração excelente.” Sempre pensei que o Senhor o salvaria por este acto de piedade, feito com tanta sinceridade, e também pelo rosário e pela medalha milagrosa que ele carregava ao pescoço.
Uma vez encontrei-o na igreja consertando o chão. Sem dizer nada a ninguém, começou a arrumar as placas de mármore, nas quais mais de uma pessoa havia tropeçado. "Caetano, o que fazes?" “Estou a arranjar o chão! Isto assim é perigoso. Não estou a fazer isto por dinheiro, mas sim porque é a casa de Deus e a casa de Deus é minha também.”
Ele queria trabalhar. Ele queria ser útil. Ele limpou a rua porque disse que morava lá e, portanto, queria que ela estivesse limpa. Ele também limpou a escada da igreja. Já o vi mais de uma vez ajudando espontaneamente o lixeiro a recolher o lixo. Ele fez isso sem nenhum interesse pessoal, apenas para ajudar. Quando ele chegou cá usava brincos. Não suporto homens com brincos, por isso um dia pedi-lhe para me vender seus brincos. Quando Caetano entendeu por que razão eu queria comprá-los, tirou-os, deitou-os no esgoto, prometeu-me que nunca mais ia mais usar e não queria o dinheiro. E assim foi.
A morte de Caetano aos 33 anos é uma grande tristeza para todos nós. A sua presença deu um rosto pitoresco à nossa paróquia. A sua presença era boa. Ele sabia como fazer com que todos gostassem dele. A morte de Caetano é uma grande dor para todos, porque, no fundo das nossas almas, todos nos sentimos um pouco responsáveis. Ele foi um dos irmãos menores de Cristo, porque tinha uma necessidade imensa de ser ajudado no corpo e na alma. Mais do que dinheiro, ele precisava de afecto sincero.
Quantas vezes respondemos ao seu espontâneo “Boa tarde” com indiferença, frieza ou pressa? Quantas vezes passamos por ele, sem sequer olhar para ele, quando ele não estava bem? "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes" (Mt 25, 40).
Senhor, perante este corpo pedimos perdão por todo o bem que poderíamos ter feito a Caetano e não fizemos. Senhor, perante este corpo, te prometemos receber com generosidade e amor os pobres que a tua Providência se dignar enviar-nos.
No entanto, eu seria injusto se apenas tivesse reprovações perante este corpo. A morte de Caetano já começou a dar frutos. Muitos se sentiram tocados no coração e se abriram mais à caridade. É muito edificante o número de pessoas que continuamente pedem Missas pela sua alma. Esta é uma grande obra de caridade. Outros ofereceram-se para lhe dar um enterro decente. Esta também é uma obra de misericórdia, agradável ao Senhor. Alguns jovens cuidaram de Caetano com amor verdadeiro durante as suas últimas semanas. Foram eles que me levaram e acompanharam até ao hospital. Que o Senhor vos abençoe.
Caetano tem uma grande missão entre nós. Na verdade, a sua missão ainda agora começou. Ele, pobre, mas abençoado pelo Senhor, deve ensinar-nos a ser caridosos. Ele deve-nos ensinar a ter grande esperança em Deus. O Senhor aproximou-o desta paróquia. Ele fez com que Caetano encontrasse o afecto cristão dos seus fiéis e sacerdotes, porque queria dar-lhe a felicidade eterna no Céu. Gaetano também tem a missão de dar à Arquiconfraria da Santíssima Trindade um novo impulso nas suas obras de caridade espiritual e corporal.
São Filipe Neri, rogai por ele.
São Bento José Labre, rogai por ele.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por ele.
















