sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Missa dos Fiéis Defuntos em Chicago

Missa dos Fiéis Defuntos num altar lateral da igreja 
dos Cónegos Regulares de São João Câncio, em Chicago.


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quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O que diz a Igreja sobre as sociedades secretas?

O que diz a Doutrina da Igreja sobre a adesão de baptizados às sociedades secretas e relacionado a esse tema da excomunhão?

I. O Código Pio-Beneditino previa, no Cân. 2335, explicitamente, excomunhão automática, reservada à Sé Apostólica, para quem aderisse à maçonaria:

Cân. 2335. Nomen dantes sectae massonicae aliisve eiusdem generis associationibus quae contra Ecclesiam vel legitimas civiles potestates machinantur, contrahunt ipso facto excommunicationem Sedi Apostolicae simpliciter reservatam. [Quem inscrever o seu nome na seita maçónica ou em outras associações, do mesmo género, que conspiram contra a Igreja ou contra as legítimas autoridades civis, incorre ipso facto em excomunhão reservada à Sé Apostólica]

II. Em 1981, antes da entrada em vigor do novo Código, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma declaração onde dizia que «não foi modificada de algum modo a actual disciplina canónica» e, portanto, que não foi tampouco «ab-rogada a excomunhão nem as outras penas previstas». O antigo cânone, então, «veta[va] aos católicos, sob pena de excomunhão, inscreverem-se nas associações maçónicas e outras semelhantes».

Ou seja: nesta época, embora houvesse um cuidado (que se pode dizer pastoral) para distinguir as responsabilidades individuais em cada caso concreto, a Igreja absolutamente não mudara nem estava em vias de mudar o seu «juízo de carácter geral sobre a natureza das associações maçónicas», que permanecia negativo.

III. No final de 1983, no ano em que foi publicado o novo Código de Direito Canónico, a mesma Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma segunda declaração onde dizia que continuava «imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas». Ainda, acrescentou que os «fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão».

Há aqui uma mudança de direito eclesiástico: ab-rogado o antigo Cân. 2335 sem que se lhe tenha colocado no novo Codex dispositivo correspondente, permanecia contudo a proibição aos católicos de ingressarem na maçonaria, sob pena não mais de excomunhão, mas de pecado grave.

Continuava e ainda continua vigente, não obstante, o Cân. que prevê excomunhão automática para «o apóstata da Fé, o herege e o cismático» (CIC 1364). Portanto, se a adesão a uma loja maçónica ou a qualquer outra associação análoga importar em um pecado contra a Fé, o sujeito fica excomungado automaticamente: não mais pela inscrição na maçonaria (pena do antigo Cân. 2335), mas pelo pecado contra a Fé Católica (pena do actual Cân. 1364). É o mesmo raciocínio aplicável à questão da excomunhão dos comunistas.

IV. Pouco depois de um ano, em 1985, foi emitida pela CDF uma terceira declaração, mais longa que as anteriores. Esta é muito interessante e vale uma leitura na íntegra, porque distingue bem as questões morais (aquilo que é pecado) das penais (o subconjunto dos pecados ao qual são impostas determinadas penas pelo Direito Canónico). Além disso, explica detalhadamente os princípios que norteiam o parecer negativo da Igreja sobre a maçonaria:

Mesmo quando, como já se disse, não houvesse uma obrigação explícita de professar o relativismo como doutrina, todavia a força “relativizante” de uma tal fraternidade, pela sua mesma lógica intrínseca[,] tem em si a capacidade de transformar a estrutura do acto de fé de modo tão radical que não é aceitável por parte de um cristão, “ao qual é cara a sua fé” (Leão XIII).

Esta solução canónica, conclua-se, é a que está actualmente vigente: participar da maçonaria ou de outras sociedades secretas é pecado grave e, na medida em que esta participação leve a um pecado contra a Fé, conduz à excomunhão por heresia, apostasia ou cisma do Cân. 1364.

V. Para fins informativos — pois os aspectos normativos vigentes são os que foram acima expostos — é interessante anotar o seguinte: um recente “questionário sobre a descrença” coloca a maçonaria (cf. q. 3.4) entre os «fenómenos ou movimentos para-religiosos»; e o Papa Francisco, quando esteve em Turim, fez uma referência bem pouco positiva aos maçons:

Em finais do século XIX a juventude crescia nas piores condições: a maçonaria estava no auge, até a Igreja nada podia fazer, havia o anticlericalismo, o satanismo… Era um dos momentos mais obscuros e um dos lugares mais tristes da história de Itália.

VI. Em resumo:

A mera inscrição na maçonaria ou em outras sociedades secretas já não implica uma pena de excomunhão automática. Todavia, mesmo a mera inscrição é matéria de pecado grave, conforme reiteradas manifestações da Congregação para a Doutrina da Fé o afirmam (naturalmente, aplicam-se aqui os critérios morais genéricos dos pecados mortais, para cuja concretização exige-se conhecimento e livre consentimento).

Os princípios da maçonaria são irreconciliáveis com os da Fé Católica, de tal sorte que a adesão àqueles «tem em si a capacidade de transformar a estrutura do acto de fé» católico. Na medida em que o católico inscrito na maçonaria tenha a sua fé deturpada, aplica-se-lhe a pena de excomunhão do Cân. 1364 — não mais pelo mero ingresso na loja maçónica, mas sim pela deturpação da sua fé provocada por ela.

Jorge Ferraz in Deus lo vult


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Oração de Santa Gertrudes para libertar Almas do Purgatório

Eterno Pai,
ofereço o Preciosíssimo Sangue
de Vosso Divino Filho Jesus,
em união com todas as missas
que hoje são celebradas
em todo o Mundo,
por todas as santas Almas
do Purgatório,
pelos pecadores, em todos os lugares,
pelos pecadores,
na Igreja Universal,
pelos da minha casa e meus vizinhos.
Ámen.



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quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Incensação do Altar no início da Missa Solene



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Quem são os 37 Doutores da Igreja?

O que é um Doutor da Igreja?

Doutor da Igreja é um cristão que se distinguiu por notório saber teológico numa época da História. Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia da sua fé, e pelo eminente sa­ber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja.

Qual é a diferença entre Doutor e Padre da Igreja?

Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a recta formulação das ver­dades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos. ..) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu acaba em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente. 

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor. Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explícita feita por um Papa ou por um Concílio. Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto. 

Por conseguinte, o que caracteriza um Padre da Igreja é princi­palmente a sua antiguidade; ao contrário, o Doutor se identifica, principalmente, pelo seu saber notório. No entanto, isto também não impede que haja Padres da Igreja que também sejam Doutores, como é o caso de S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerónimo, S. Gregório Magno, entre outros.

A Igreja conta com 36 santos declarados doutores, sendo o último nomeado o monge Gregório de Narek, em Setembro de 2015. Vale a pena conhece-los e estudar mais sobre a vida e obra deles:

(Nome, função, ano de falecimento, país de origem e principais obras):

1) Hilário de Poitiers, Bispo, 367, França (A Trindade; Comentário aos Salmos; Comentário a S. Mateus);

2) Atanásio, Bispo, 373, Egipto (A Encarnação do Verbo; Apologia Contra os Arianos);

3) Efrém, Diácono, 378, Síria (Comentários a Bíblia, Poemas de Nísibe);

4) Basílio, Bispo, 379, Turquia (Tratado do Espírito Santo);

5) Cirilo, Bispo, 386, Palestina (Catequeses; Jerusalém);

6) Gregório Nazianzeno, Bispo, 390, Turquia (Homilias; Cartas, Versos);

7) Ambrósio, Bispo, 397, Itália (Comentário do Evangelho de Lucas; Tratado da Virgindade);

8) João Crisóstomo, Bispo, 407, Turquia (O Sacerdócio; Homilias, Cartas);

9) Jerónimo, Monge, 419, Jugoslávia (Vulgata);

10) Agostinho, Bispo, 430, Argélia (Confissões; Cidade de Deus; A Trindade; Cartas);

11) Cirilo de Alexandria, Bispo, 444, Egipto (Comentário de S. João; Contra Nestório);

12) Pedro Crisólogo, Bispo, 450, Itália (Homilias);

13) Leão Magno, Papa, 461, Itália (Homilias; Cartas);

14) Gregório Magno, Papa, 604, Itália (Moral; Diálogos);

15) Isidoro de Sevilha, Bispo, 636, Espanha (Etimologias);

16) Beda, o Venerável, Monge, 735, Inglaterra (História Eclesiástica dos Anglos);

17) João Damasceno, Monge, 749, Síria (Contra os Iconoclastas);

18) Pedro Damião, Cardeal, 1072, Itália (O Livro de Sodoma; Vida de S. Romualdo; Sermões);

19) Anselmo, Bispo, 1109, Inglaterra (Monologion; Proslogion; A Verdade; Cartas);

20) Bernardo, Abade, 1153, França (A Graça; Para Eugénio III; Sermões sobre o Cântico dos Cânticos);

21) António de Lisboa, Frade, 1231, Portugal (Sermões);

22) Tomás de Aquino, Frade, 1274, Itália (Suma Teológica; Contra Gentiles; Com. de Pedro Lombardo);

23) Boaventura, Cardeal, 1274 Itália (Apologia dos Pobres; Itinerário do Espírito a Deus);

24) Alberto Magno, Bispo, 1280, Alemanha. (38 vol.s sobre Ciência, Teologia, Filosofia, Bíblia);

25) Catarina de Sena, Religiosa, 1380, Itália (Diálogo, Cartas);

26) Teresa de Ávila, Monja, 1582, Espanha (Autobiografia; Caminho da Perfeição; Castelo Interior ou As Moradas);

27) João da Cruz, Frade, 1591, Espanha (Cântico Espiritual; Subida do Carmelo; Noite Obscura);

28) Pedro Canísio, Padre, 1597, Alemanha (Catecismo);

29) Lourenço de Brindisi, Frade, 1619, Itália (Comentário do Gênesis; Sermões);

30) Roberto Belarmino, Cardeal, 1621, Itália (Controvérsias);

31) Francisco De Sales, Bispo, 1622, França (Introdução à vida devota; Tratado do Amor de Deus);

32) Afonso Maria de Ligório, Bispo, 1787, Itália (Prática de amar a Jesus Cristo; A oração);

33) Teresa de Lisieux, Monja, 1897, França (Autobiografia);

34) João de Ávila, Presbítero, 1569, Espanha (Audi, filia; Epistolário Espiritual para todos os Estados; O Conhecimento de Si Mesmo; Tratado sobre o Sacerdócio);

35) Santa Hildegarda de Bingen, 1179, Alemanha (Trilogia Liber scivias Domini, Liber Vitae Meritorum, Liber Divinorum Operum);

36) Gregório de Narek, Monge, 1005, Arménia (O Livro das Lamentações ou Narek);

37) Irineu de Lião, 202, Adversus Haereses.

in Cleofas


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terça-feira, 14 de novembro de 2023

Assassinada! Indi, reza por nós

Por ordem dos tribunais britânicos, a menina Indi Gregory morreu no dia 13 de Novembro, à 1h45 da manhã. Os tribunais queriam-na morta, apesar de lhe ter sido concedida a cidadania italiana e de lhe ter sido oferecido tratamento no Bambino Gesù, o hospital pediátrico do Vaticano. Na foto, ela está vestida com o seu vestido de baptismo.

O pai Dean Gregory (que sempre se disse ateu) disse que, no tribunal, sentiu como "se o inferno me puxasse" e pensou que "se o diabo existe, então Deus também deve existir". Ele viu "como é o inferno" e queria que "Indi fosse para o Céu". Por isso, pediu o seu baptismo e considera a possibilidade de ele próprio ser baptizado.

Histórias semelhantes de bebés britânicos incluem Charlie Gard (2017) e Alfie Evans (2018).

in gloria.tv


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Oração para ser rezada todos os dias de Novembro pelas Almas do Purgatório

Ó Pai de misericórdia, Deus de infinita bondade, humildemente vos rogamos tenhais piedade das almas santas que estão penando no purgatório, especialmente das dos nossos parentes e benfeitores. Lançai um olhar propício sobre elas e chamai-as para a posse da pátria celestial. Lembrai-vos que elas são obras de vossas mãos e o preço do sangue preciosíssimo de vosso divino Filho Jesus.

Dignai-vos, pois, usar para com elas a vossa infinita misericórdia. Ouvi, Senhor, o pedido que vos fazemos com toda confiança, em vista dos merecimentos da paixão e morte de Jesus, e fazei que elas fiquem consoladas, indo gozar sem demora aquela glória imortal que tendes preparado para os vossos eleitos.

V. Misericordioso Senhor.
R. Tende piedade das benditas almas do purgatório.
V. Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso.
R. E entre os resplendores da luz perpétua fazei que descansem em paz. Ámen.


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segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Arcebispo de Washington esvaziou igreja

Em Setembro de 2022, o Arcebispo de Washington (EUA), Cardeal Wilton Gregory, proibiu a Missa Tradicional na paróquia de Santa Maria Mãe de Deus. Essa Missa tinha mais de 400 fiéis, que ocupavam todos os bancos da igreja (fotografia da direita). De um dia para o outro, os fiéis viram-se privados da Missa a que iam, sem qualquer justa-ausa.

Agora, pouco mais de 1 ano depois, o Cardeal Gregory visitou a paróquia e celebrou Missa. A igreja estava practicamente vazia, om menos de 30 fiéis (fotografia da esquerda).


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Meu Senhor e meu Deus




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domingo, 12 de novembro de 2023

Declaração de D. Athanasius Shneider sobre a destituição do Bispo Strickland

“A única acusação que agora certamente garantirá punição severa é a de manter cuidadosamente as tradições dos Padres”. Estas palavras de São Basílio (Ep. 243) são mais apropriadas para ilustrar a destituição do Bispo de Tyler, TX/EUA, Sua Excelência Joseph E. Strickland. A deposição do Bispo Joseph E. Strickland significa hoje um dia negro para a Igreja Católica.

Assistimos a uma flagrante injustiça para com um bispo que cumpriu o seu dever de pregar e defender com parrhesia a imutável fé e moral católica e de promover a sacralidade da liturgia, especialmente no imemorial rito tradicional da Missa. Todos compreendem, e mesmo os inimigos declarados deste bispo confessor, que as acusações feitas contra ele são, em última análise, insubstanciais e desproporcionais; tendo sido utilizadas como uma boa oportunidade para silenciar uma incómoda voz profética dentro da Igreja.

O que aconteceu aos bispos durante a crise ariana no século IV, que foram depostos e exilados apenas porque pregavam destemidamente a fé católica tradicional, está a acontecer novamente nos nossos dias. Ao mesmo tempo, vários bispos que apoiam publicamente a heresia, abusos litúrgicos, a ideologia de género e convidam abertamente os seus sacerdotes a abençoar casais do mesmo sexo não são de forma alguma incomodados ou sancionados pela Santa Sé.

O Bispo Strickland provavelmente entrará na história como um “Atanásio da Igreja nos Estados Unidos”, que, ao contrário de Santo Atanásio, não é perseguido pelo poder secular, mas incrivelmente pelo próprio Papa. Parece que uma espécie de “purga” dos bispos, fiéis à imutável fé católica e à disciplina apostólica, que já dura há algum tempo, atingiu agora uma fase decisiva.

Que o sacrifício que Nosso Senhor pediu ao Bispo Strickland dê frutos espirituais abundantes para o tempo e a eternidade. Dom Strickland e outros bispos fiéis, que já foram convidados a renunciar, que estão actualmente marginalizados ou que serão os próximos na fila, deveriam dizer com toda a sinceridade ao Papa Francisco:

“Santo Padre, por que o senhor nos persegue e nos bate? Tentamos fazer o que todos os santos Papas nos pediram? Com amor fraterno oferecemos o sacrifício deste tipo de perseguição e exílio pela salvação da Sua alma e pelo bom estado da Santa Igreja Romana. Na verdade, somos os seus melhores amigos, Santíssimo Padre!”

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana


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sábado, 11 de novembro de 2023

A feliz morte de São Martinho de Tours

Hoje é dia de São Martinho, convertido de pagão a cristão, foi Bispo de Tours (França). Lemos aqui a sua gloriosa entrada no Céu.

Martinho soube com muita antecedência o dia da sua morte e comunicou aos seus irmãos que a separação do seu corpo estava iminente. Entretanto, viu-se obrigado a visitar a diocese de Candes. Tinham surgido, com efeito, desavenças entre os clérigos desta igreja e Martinho desejava restaurar a paz. Apesar de não ignorar o fim próximo dos seus dias, não recusou partir perante motivo desta natureza, por considerar como bom termo da sua actividade deixar a paz restabelecida nessa igreja. Permaneceu algum tempo nessa povoação ou comunidade para onde se dirigia. 

Depois de feita a paz entre os clérigos, pensou em regressar ao mosteiro. Mas de repente sentiu que lhe faltavam as forças do corpo. Reuniu os irmãos e participou-lhes que ia morrer. Então começou o pranto, a consternação e o lamento unânime de todos: «Pai, porque nos abandonas? A quem nos confias na nossa orfandade? Lobos ferozes assaltam o teu rebanho; quem nos defenderá das suas mordeduras, se nos falta o pastor? Sabemos sem dúvida que suspiras por Cristo, mas a tua recompensa está assegurada e não será diminuída se for adiada. Antes de mais, compadece te de nós, que nos deixas abandonados».

Então, comovido por estes lamentos e transbordando da terna compaixão que sempre sentia no Senhor, diz se que Martinho se associou ao seu pranto e, voltando se para o Senhor, assim falou diante daqueles que choravam: «Senhor, se ainda sou necessário ao vosso povo, não me recuso a trabalhar; seja feita a vossa vontade».

Oh homem extraordinário, que não fora vencido pelo trabalho nem o haveria de ser pela morte e que, igualmente disposto a uma ou outra coisa, nem teve medo de morrer nem se furtou a viver! Entretanto, com as mãos e os olhos sempre elevados para o céu, o seu espírito invencível não abandonava a oração. 

Quando os presbíteros, que se tinham reunido à sua volta, lhe pediram para aliviar o seu pobre corpo mudando de posição, disse: «Deixai-me, irmãos, deixai-me olhar antes para o Céu do que para a terra, para que a minha alma, ao iniciar a sua marcha para Deus, siga bem o seu caminho». Ao dizer isto, reparou que o diabo se encontrava perto. «Porque estás aqui, disse, besta sanguinária? Nada encontrarás em mim, maldito; o seio de Abraão me recebe».

Depois de pronunciar estas palavras, entregou o seu espírito ao Céu. Martinho, cheio de alegria, foi acolhido no seio de Abraão. Martinho, pobre e humilde, entrou rico no Céu. 

in Cartas de Sulpício Severo (séc.V)


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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

São Bento aos seus monges

É este zelo que, com ardentíssimo amor, devem exercitar os monges:

- antecipem-se uns aos outros na estima recíproca;
- suportem com muita paciência as vossas enfermidades, físicas ou morais;
- rivalizem em prestar mútua obediência;
- ninguém procure o que julga útil para si, mas antes o que o é para os outros;
- amem-se mutuamente com pura caridade fraterna;
- vivam sempre no temor e no amor de Deus;
- amem o vosso abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente anteponham a Cristo, o qual nos conduza todos juntos à vida eterna."


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Novembro, mês das almas (do Purgatório)




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quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Fraternidade de São Pedro contraria a decadência da Igreja

Actualmente, a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro conta com 569 membros (368 sacerdotes, 22 diáconos e 179 seminaristas).

Os padres servem 146 dioceses em 249 lugares de culto, incluindo 48 paróquias pessoais em 20 países. O número de seminaristas é o mais elevado desde a fundação da Fraternidade. Em Setembro, mais de 46 jovens entraram nos seminários da Fraternidade.

32% dos membros são americanos (183), 25% franceses (143) e 10% alemães (55).

in gloria.tv


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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

O Monge Cartuxo que morreu com uma espingarda na mão

O site CartusiaLover.Wordpress.com contou a história do Cartuxo Padre Pedro de Mortisac.

- Foi o último amante de Mata Hari, a famosa dançarina, atriz e agente secreta holandesa, e assistiu à sua execução pelos franceses em 1917.

- Pertencente a uma família francesa muito rica, Mortisac foi educado pelos jesuítas e tornou-se um mulherengo.

- Uma adolescente que ele tinha usado e descartado suicidou-se.

- Após a morte de Mata Hari, Mortisac vendeu tudo: um castelo perto de Paris, uma casa de campo perto de Londres e uma vivenda em San Sebastián.

- Antes de entrar na Cartuxa de Miraflores, em Burgos (Espanha), por volta de 1920, vagueia sem abrigo durante dias pelos subúrbios.

- Mais tarde, foi transferido para a Cartuxa de Aula Dei, em Saragoça, que foi atacada em Julho de 1936, durante a guerra civil espanhola, por criminosos comunistas, agora glorificados pelos regimes ocidentais.

- Os Cartuxos foram informados do assalto iminente e o prior ordenou aos monges que se vestissem como civis e que rapassem as suas tonsuras e barbas.

- Os monges mais jovens tentaram salvar os objectos de culto e negociaram para que o mosteiro da Cartuxa não fosse incendiado.

- Segundo uma história não confirmada, Mortisac recusou-se a sair e defendeu a casa de Deus com uma espingarda, mas foi assassinado.

in gloria.tv


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terça-feira, 7 de novembro de 2023

Quando a morte era levada a sério

Antigamente, em algumas comunidades religiosas, deixava-se desocupado na capela e no refeitório, durante 40 dias, o lugar de um irmão que tinha falecido. 

Na capela faziam-se-lhe as saudações do costume, como se ele estivera presente; dava-se-lhe o ósculo da paz e dizia-se, na sua direção, o 'resquiescant in pace' do ofício coral.

No refeitório serviam-lhe a refeição diária e, acabada a refeição comum, vinha um pobre comê-la de joelhos, rezando pelo defunto.

Mons. José Basílio Pereira in 'Mês das Almas do Purgatório'


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Peregrinação em Rito Tradicional com mais de 2 mil pessoas






Mais de 2000 pessoas participaram na Peregrinação dos Três Corações, de Rito Romano Tradicional, em Oklahoma. A Abadia Beneditina de Clear Creek foi o ponto de chegada da peregrinação de dois dias. A Missa final na Abadia foi celebrada pelo Cardeal Burke.


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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

São Nuno de Santa Maria: exemplo de Amor à Pátria e Santidade

A pátria não se discute, nem se condiciona a acordos e juramentos; está acima dos direitos dos homens. Se for necessário mudam-se as constituições, alteram-se os tratados, mas salva-se a pátria. A pátria não se discute porque não se escolhe, como não se escolhe a família em que nascemos; ama-se, defende-se e engrandece-se, à custa da própria vida, se for preciso.

Tinha então apenas dois séculos a Pátria portuguesa. Mas já possuía um património bem definido. Estava estabelecido o seu território continental. Já possuía língua própria e rica literatura. Tinha a sua Universidade como expressão da sua cultura. Tinha os seus santos, e tinha sobretudo uma grande vontade de viver. E viveu pela espada do Condestável, porque este a amou com o mesmo amor que amava a Deus.

Eu creio que se pode amar a pátria sem ser santo, mas também que só os santos encontram a medida exacta do amor da pátria no amor de Deus. Seria um erro pensar que os santos se esquecem da sua pátria. Seria erro pensar que o Cristianismo, por ser religião universal e chamar o homem constantemente à Pátria do Céu, o desintegra da Pátria da Terra. O próprio Cristo, exemplo máximo da santidade, amou a sua pátria e chorou por ela quando a viu encaminhar-se para a ruína.

O amor da pátria é uma das mais belas virtudes ensinadas pelo Cristianismo.

Santidade e patriotismo são coisas tão unidas que eu tive o atrevimento de procurar os exemplos de santidade de Nuno Álvares, não nos claustros do Carmo, mas nos campos de batalha. É mais eloquente a santidade vestida de guerreiro do que vestida de frade carmelita.

Eu tenho receio de que haja quem imagine a santidade em formas tão exóticas que só se vejam noutro mundo. Quando afinal é uma coisa muito simples. A santidade começa no fiel cumprimento dos nosso deveres cristãos e acaba numa intensa união com Deus. Talvez esteja nesta definição a essência da santidade. O santo começa onde começa o cristão; nem pensemos que se possa separar um do outro.

Eu já disse que escolhia apenas dois testemunhos da santidade de Nuno Álvares, e que os escolhia nas batalhas de Aljubarrota e Valverde. Na primeira eu fixo-me no pormenor que se repete em todas as histórias. O Exército Português confessou-se, comungou e jejuou. O jejum era preceito da Igreja, a confissão e a comunhão foram por devoção.

Não faltaria decerto quem tranquilizasse a consciência de Nuno Álvares dizendo-lhe que em campo de batalha não estaria obrigado ao preceito do jejum. Mas ele não precisava de tal conselho, não queria tal dispensa. Jejuou, sem receio de ver enfraquecidas as forças para manejar a espada. Jejuou e comungou, porque sabia por experiência, costumava dizer, que da comunhão "lhe resultava todo o esforço e fortaleza com que vencia e desbaratava seus contrários". E naquele dia não se enganou, porque com 7.000 portugueses em jejum venceu 30.000 castelhanos que talvez não fossem tão cuidadosos em respeitar o preceito da Igreja.

Da batalha de Valverde destacarei apenas o pormenor, sempre apregoado, do chefe que se ausenta no momento mais crítico da peleja, para ajoelhar e rezar.

Dizem que é gesto de cavaleiro medieval. Talvez hoje nenhum general assim fizesse. Até mesmo porque já se afirmou que o homem quando ajoelha perde um terço da sua altura. É assim que o orgulho mede o homem.

Mas alguém respondeu que nunca o homem é tão grande como quando ajoelha diante de Deus. É doutrina do Evangelho perder para ganhar; perder altura física pode ser a condição para ganhar a altura moral.

Por isso, os séculos admiram a figura do Condestável ajoelhado entre os penedos de Valverde, em íntima união com Deus. O gesto não é medieval, é do Evangelho, é expressivo da autêntica santidade do herói de Portugal.

Eu disse, a principiar, que subordinaria as minhas palavras ao tema Nuno Álvares Pereira, Sempre. Se há valores na vida humana, que transcendem os escassos limites do tempo, são precisamente o amor da pátria e o amor de Deus.

A Pátria Portuguesa tem oito séculos de história. Nasceu em Guimarães e tomou o nome desta gloriosa cidade do Porto; estendeu-se a Coimbra, Santarém, Lisboa, Évora e Algarve. Passou à África, estabeleceu-se na Guiné, em Angola, em Moçambique. Chegou à Índia, à China, à Oceânia.

Criou-a a espada do Fundador, que desceu até aos campos de Ourique, e consolidou-a a espada do Condestável, que tornou possível a era do Infante das Caravelas.

Quando olhamos, ainda que de relance, a história da nossa pátria, sentimos nobre orgulho de sermos Portugueses. Não é orgulho, é amor. E a herança mais preciosa que nos deixaram os nossos antepassados, mais do que os feitos gloriosos das batalhas e das descobertas, foi precisamente a lição do seu amor a Portugal. Os feitos têm o carácter do tempo em que se realizam. Nem sempre é preciso pegar em armas para defender a pátria, como nem sempre há ocasião de desbravar terrenos incultos; mas de uma forma ou de outra é sempre necessário que vibre nos corações um intenso amor à Pátria.

E quando eu penso na idade que tinha Nuno Álvares Pereira quando assumiu a defesa nacional, quando penso que o Condestável do Reino, o braço direito do Mestre de Avis, a lutar contra o poderio ambicioso de Castela, era um jovem de 24 anos; quando penso que a batalha de Aljubarrota marcou o apogeu do génio militar, numa estratégia que ainda hoje causa a admiração dos generais de todo o mundo, e quando penso que ele tinha então 25 anos, convenço-me de que não foi apenas um herói, foi um génio. E direi até que foi um autêntico dom de Deus à Pátria Portuguesa.

Em muitas outras ocasiões Portugal sentiu que tinha Deus por si, a marcar-lhe um destino e a ajudá-lo na sua realização.

Atrevo-me até a dizer que Portugal tem Deus por si a fazer milagres quando é preciso.

A Idade Média viu um milagre em Ourique. Eu creio realmente que Ourique foi um milagre, se não no sentido em que o viu a Idade Média, no sentido não menos admirável de uma ajuda extraordinária da Providência a uma nação que nascia naquela hora.

E não será milagre o génio de Nuno Álvares, o valor desse jovem de 25 anos que salva a pátria numa das horas mais graves da sua história? Terá realmente explicação natural a série de triunfos que se chama Atoleiros, Aljubarrota, Valverde, com exércitos inimigos quatro e cinco vezes superiores?

Não será milagre a história dos nossos descobrimentos, da nossa civilização, da nossa evangelização?

Milagre não é só aquilo que se apresenta com o cenário deslumbrante do acontecimento que excede as leis comuns. Num sentido talvez mais modesto, mas não menos verdadeiro, a mão de Deus através da História portuguesa é um verdadeiro milagre da Providência.

Nuno Álvares, Hoje, foi o tema que me pediram. Pensei que deveria limitar-me a meditar os gestos rasgados do seu heroísmo e da sua virtude. Fazer a aplicação desses gestos à época conturbada em que vivemos, VV.Ex.as a farão com facilidade.

Tenho para mim que a actualidade de Nuno Álvares está no apelo que o seu heroísmo e a sua santidade fazem constantemente. A cada um de nós. Já no seu tempo ele soube galvanizar a alma da melhor juventude portuguesa. Esses moços da sua idade ouviram um dia a exposição do seu ideal, mas ouviram ao mesmo tempo a exposição das dificuldades que os esperavam. E todos à uma dispuseram-se a segui-lo para formar a invencível Ala dos Namorados.

A mensagem de Nuno Álvares é hoje exactamente a mesma, e os bons portugueses serão dignos dele na medida em que se dispuserem a tudo sacrificar pela Pátria. Mas a mensagem do Condestável é ao mesmo tempo apelo ao amor de Deus.

Do acampamento de Nuno Álvares foram banidos os jogos de perdição e os elementos de corrupção dos costumes. Rezavam em comum, jejuavam, ouviam missa e comungavam. O cronista diz que me mais parecia uma comunidade de religiosos de que um acampamento de soldados. Era um santo que arrastava os outros, se não para o heroísmo da santidade, ao menos para a integridade do dever cristão.

Havemos de reconhecer que o Condestável ainda não teve a consagração que merece. As grandes praças, as grandes avenidas, têm outros nomes, não o dele. Há estátuas de figuras bem secundárias; ele não tem estátua. Até nas nossas igrejas é raro encontrar a imagem do santo herói de Portugal. Parece que ainda não o compreendemos.

Muito se enganam ao apelidar de medieval a sua vida cristã. O Evangelho não é medieval, é de sempre; e o Condestável, porque é santo, dá testemunho do Evangelho, numa actualidade impressionante.

Saiba Portugal meditar o exemplo dos seus heróis e dos seus santos; saiba meditar e seguir o exemplo deste que é dos maiores da nossa História, e Deus mais uma vez nos salvará.

D. Francisco Rendeiro, O.P., (Bispo do Algarve, 1961) in 'S. Nuno de Santa Maria, Nuno Álvares Pereira, Antologia de Documentos e Estudos sobre a sua Espiritualidade' (selecção e apresentação de J. Pinharanda Gomes, Lisboa, Zéfiro, 2009, páginas 120 a 124)


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sábado, 4 de novembro de 2023

A 'Sinodalidade' explicada por um perito

Depois destas várias experiências [nas comissões do Concílio Vaticano II], compreende-se que eu não tenha conservado muito do meu entusiasmo juvenil pela 'conciliaridade' em geral. E ainda menos por esta conciliaridade de trazer por casa, a que hoje se chama abusivamente 'colegialidade' [sinodalidade]; com a qual gente insidiosa, através de artimanhas, faz crer às pessoas, que compõem esses órgãos colegiais, que tomaram decisões quando, na realidade, foram outros que as tomaram.

Padre Louis Bouyer in 'Mémoires'


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O grande Bispo São Carlos Borromeu

Peça-mestra da Contra-Reforma católica, grande propugnador do Concílio de Trento, realizou profunda reforma na arquidiocese de Milão. Foi um exemplo de verdadeiro Pastor, por seu zelo pelas almas e santidade de vida.

Carlos Borromeu nasceu no castelo de Arona, nas margens do Lago Maior, Ducado de Milão, a 2 de Outubro de 1538, filho dos condes Gilberto e Margarida de Médici. A mãe era irmã do Cardeal João Ângelo, que seria elevado ao sólio pontifício com o nome de Pio IV. Dizia-se do conde que levava mais a vida de monge que a de grande senhor, rezando diariamente o breviário e dedicando muitas horas à oração e às boas obras. A condessa emulava com ele em piedade.

Todos os biógrafos do futuro santo mencionam uma claridade extraordinária que envolveu o castelo de Arona quando nascia o menino, tomada como sinal a denotar a luz de santidade que o recém-nascido projectaria em toda a Cristandade.

Com pais tão virtuosos, era natural que também se desse logo cedo à piedade, sendo as suas distrações montar altares e repetir cerimónias que via na igreja. Desabrochou logo cedo em Carlos a vocação sacerdotal, de modo que já aos oito anos recebeu a primeira tonsura; aos 12, o seu tio, Júlio César Borromeu, resignou em seu nome a Abadia de São Graciano e São Felino. Apesar da pouca idade, Carlos estava ciente de que as rendas da abadia eram património dos pobres. Pediu ao pai que as considerasse assim, e que fossem empregadas exclusivamente para esse fim.

A sua infância e juventude, como predestinado desde o berço, foi de grande inocência e perfeita integridade de costumes. Mesmo quando foi terminar os seus estudos na Universidade de Pavia, geralmente conhecida pela debochada vida dos seus estudantes, Carlos soube permanecer ileso naquele ambiente, com o auxílio da Virgem Santíssima, por quem nutria filial e confiante devoção, e dos sacramentos da confissão e comunhão.

Cardeal Arcebispo aos 22 anos

Aos 21 anos Carlos doutorou-se nos Direitos civil e eclesiástico. Os seus pais tinham já falecido. A sua carreira começaria cedo, pois no ano seguinte o seu tio, João Ângelo, eleito Papa, chamou-o para junto de si e fê-lo Cardeal Arcebispo de Milão. Encarregou-o, apesar dos seus 22 anos, da maior parte do governo da Igreja. Isto é, fê-lo Secretário de Estado sem o título, além de Protonotário Apostólico da firma pontifícia e várias outras honrarias.

Não movido pela ambição, mas pela obediência, Carlos entregou-se ao trabalho. Diz um biógrafo: “Foi coisa admirável que quanto possuía (causa comumente de ruína para os demais) foi-lhe de não pouca ajuda para a perfeição a que anelava, porque, ocupando tão grande posto e gozando de todos os bens que o ânimo mais altivo apenas atreveria prometer-se, achava tudo tão sem gosto e substância, que generosamente se deu a buscar um só e perfeito bem no qual achasse plena satisfação e cabal paz”.(1)

Carlos alojou-se, vestiu-se e mobiliou seus aposentos com magnificência, para sustentar a sua qualidade de príncipe, de cardeal e de sobrinho do Papa.

Mas repentinamente ocorreu o falecimento do Conde Frederico, seu irmão mais velho, a quem o Papa chamara também a Roma e cumulara de honras. Todos esperavam que Carlos, não tendo ainda sido ordenado sacerdote e sendo agora o único herdeiro do nome da família, deixasse a carreira eclesiástica e se casasse para perpetuar o nome. Ele, pelo contrário, acelerou a sua ordenação e consagração total a Deus de modo irrevogável.

Considerando então a sublime dignidade sacerdotal e a obrigação que tinha de ser o bom odor de Cristo, despojou-se das ricas vestes de seda, simplificou o serviço de sua casa e escolheu o piedoso Pe. João Battista Ribeira, jesuíta, para seu diretor espiritual. Vendeu também boa parte do seu património, entregando o valor aos tios com a condição de darem parte da renda para a assistência dos seminários, escolas gratuitas, hospitais, conventos e pobres.

Grande propugnador do Concílio de Trento

Uma das suas iniciativas mais importantes foi trabalhar para a conclusão do Concílio de Trento, que fora interrompido. Não podendo dele participar, por causa de seus afazeres em Roma, empenhou-se na publicação de suas Actas e do Catecismo Romano, conforme dispunha o Concílio, e da reforma do breviário. Trabalhou também para pôr em prática as resoluções dessa assembleia conciliar, principalmente no que diz respeito à reforma do clero, contando para isso com a ajuda muito eficaz de São Felipe Néri. Cooperou também para a reforma da música sacra, decretada pelo Concílio, e pela adopção da polifonia proposta e executada pelo grande compositor Giovanni Pierluigi da Palestrina.

Como a missão de um bispo é guiar as suas ovelhas, começou, para esse fim, a exercitar-se na pregação, com assombro de todos, pois não era costume na época que cardeais se entregassem a esse ministério. As suas palavras penetravam a fundo, obtendo grande fruto.

Sabendo como era necessário aos bispos o conhecimento da doutrina católica para opor-se às falsas doutrinas dos hereges, começou o estudo de lógica e filosofia. Mas, sobretudo, queria pôr em prática as normas do Concílio na sua Arquidiocese de Milão, como pastor de almas que era. Depois de muito insistir, obteve do Papa licença para dela tomar posse.

Autêntica reforma na diocese

Chegando a Milão, o Cardeal Borromeu, seguindo a orientação do Concílio, começou a reforma do clero. Que este necessitava urgentemente de reforma, é certo, pois “os padres eram ainda mais desregrados que o povo; a sua ignorância era tão grande, que a maioria não sabia as fórmulas dos sacramentos; alguns não acreditavam mesmo que fossem obrigados a confessar-se, porque confessavam os outros. A bebedeira e o concubinato eram muito comuns entre eles, e acrescentavam a esses sacrilégios outros mais execráveis, pela administração dos sacramentos e celebração dos Santos Mistérios num estado criminoso e escandaloso. [...] Os mosteiros femininos estavam [também] abertos a toda a dissolução”.(2) 

Como o mal não era somente da cidade de Milão, mas de toda a arquidiocese, Carlos convocou um concílio provincial para promulgar os decretos do Concílio de Trento. A ele acorreram 11 bispos da região. Chegou a convocar seis concílios provinciais e 11 sínodos diocesanos com o mesmo fim.

Começou por sua própria casa a reforma que pregava, estabelecendo nela um regulamento para que todos vivessem com simplicidade e modéstia. Havia horário para as orações vocal e mental e para o exame de consciência, e ninguém podia ausentar-se desses actos sem permissão. Os sacerdotes eram obrigados a confessar-se todas as semanas e a celebrar o Santo Sacrifício diariamente. Os não-sacerdotes deveriam confessar-se e comungar semanalmente e assistir à Missa diariamente. 

As refeições eram em comum, com a leitura de algum livro de vida espiritual. Enfim, ordenou a sua casa como se fosse um colégio da Companhia de Jesus, com exercícios, costumes e ofícios semelhantes aos que há nas casas da Companhia. Ele dava o exemplo, sendo o mais observante de todos. Mas, como tinha mais responsabilidade, pois era o pastor, passou a levar uma vida de verdadeiro anacoreta: dormia poucas horas, sobre umas pranchas, flagelava-se impiedosamente e comia pouco, chegando no fim da vida a viver só de pão e água uma vez por dia. A sua delicada saúde ressentiu-se disso, e foi necessário apelar para o novo Papa, São Pio V, para que lhe ordenasse atenuar um tanto as suas penitências.

Na terrificante peste de 1576

As obras do santo foram incontáveis. “Estabeleceu uma ordem edificante na catedral de Milão; a devoção dos eclesiásticos, a magnificência dos ornamentos, o esplendor das cerimónias formavam um conjunto do mais tocante efeito. Edificou muitos seminários, fundou um colégio de nobres; os edifícios eram soberbos e as regras traziam o cunho da sabedoria do santo fundador. Estabeleceu em Milão os padres teatinos. [...] Recebeu os padres da Companhia de Jesus. Fundou também uma congregação de sacerdotes sem votos (Padres Oblatos de Santo Ambrósio), dependentes só dele como seu chefe imediato, a fim de os ter à mão para os empregar consoante o pedissem as necessidades da diocese”.(3)

Entretanto, onde o zelo do santo mais se desdobrou foi por ocasião da violenta peste que assolou Milão em 1576. Todos que puderam fugiram, inclusive as autoridades civis. Mas o Pastor não podia abandonar as suas ovelhas feridas. Vendeu toda a prataria do palácio episcopal para socorrer os atingidos, deu-lhes todos os móveis da sua casa e até o seu próprio leito. Ele ia confessá-los e administrar-lhes os últimos sacramentos, visitava-os nos hospitais ou nos tugúrios, ordenou preces e procissões para pedir o fim da epidemia, e ofereceu-se como vítima pelos pecados de toda a sua diocese. As coisas que fez durante essa epidemia foram tão admiráveis, que encheram de assombro toda a corte romana e toda a Cristandade.

São Carlos Borromeu morreu aos 46 anos, a 4 de Novembro de 1584, tendo sido canonizado em 1610.(4)

Plínio Solimeo in catolicismo.com.br

Notas:
1. Pe. Pedro Ribadaneira, Flos Sanctorum, in Dr. Eduardo Ma. Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia, Barcelona, 1897, tomo 4º, p. 237.
2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, 1882, tomo 13, pp. 180-181.
3. Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo III, pp. 263 e ss.
4. Outras obras consultadas: Fr. Justo Perez de Urbel, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo IV, pp. 264 e ss.; Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, Saragoça, 1949, tomo VI, p.41 e ss.


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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Recordando a Missa Pontifical do Cardeal Raymond Burke em Fátima

Há 6 anos, neste dia, o Cardeal Burke celebrou uma Missa Pontifical em Fátima. Discutiu-se muito a roupa do Cardeal mas nada se disse sobre a beleza e sacralidade da celebração. Fica aqui uma pequena amostra.


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Conferência de D. Athanasius Schneider em Lisboa




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