segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Cordão de Santa Filomena

Esta piedosa prática nasceu espontaneamente entre os devotos de Santa Filomena. Teve a aprovação da Sagrada Congregação dos Ritos, em 15 de Setembro de 1883, e depois do Papa Leão XIII, que a enriqueceu com numerosas indulgências a 4 de Abril de 1884.

Consiste em trazer junto ao corpo (cintura ou pulso) um cordão feito de lã, linho ou algodão de cores branca e encarnada, proporcionalmente, que indicam a pureza e o martírio de Santa Filomena. Nele deverão ser feitos 3 nós em honra da Santíssima Trindade e deverá ser benzido por um sacerdote antes de ser usado.

Esta devoção, muito usual entre os devotos de Santa Filomena, destina-se a pedir a protecção da Santa a favor da própria pessoa e dos seus familiares.

O uso do Cordão foi um dos vários meios pelos quais ela foi venerada e a sua protecção assegurada. Muitos devotos trazem-no na cintura ou, então e desde há vários anos, optam por usar um pequeno Cordão no pulso. Inúmeros milagres se têm operado e milhares de curas se alcançaram através do cordão Bento de Santa Filomena.

Os devotos que o trazem consigo devem recitar todos os dias a seguinte oração:

“SANTA FILOMENA, VIRGEM E MÁRTIR, ROGAI POR NÓS PARA QUE POSSAMOS OBTER ESSA PUREZA DE ESPÍRITO E DE CORAÇÃO QUE CONDUZ AO PERFEITO AMOR DE DEUS”. AMÉN.

Pe. Henrique Maçarico


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sábado, 10 de agosto de 2024

7 curiosidades sobre São Lourenço

Hoje a Igreja celebra São Lourenço, um dos 7 diáconos de Roma, durante o pontificado do Papa Sisto II.

1. É padroeiro dos cozinheiros

São Lourenço de Roma é o santo padroeiro dos cozinheiros. O santo foi condenado a morrer queimado numa fogueira, especificamente numa grelha de ferro. Segundo a tradição, depois de estar algum tempo na grelha, disse ao juiz: “Vira-me, que já estou bem assado deste lado”. O carrasco mandou que o virassem e assim foi queimado por completo.

2. Tem uma Basílica dedicada em Roma

A Basílica de São Lourenço Extramuros, onde se encontra o túmulo do santo, é uma das cinco basílicas patriarcais ou papais. No interior do templo está uma pedra de mármore onde, segundo a tradição, foi colocado o corpo de São Lourenço imediatamente depois do seu martírio, ficando impressa parte da sua silhueta. Todos os anos é realizada uma peregrinação no bairro de São Lourenço precedida por uma Missa. A romaria é acompanhada por uma relíquia do santo levada numa pequena custódia.

3. Em Roma é o santo mais importante, depois de Pedro e Paulo

Com uma tranquilidade que ninguém imaginaria, durante o seu martírio, rezou pela conversão de Roma e a difusão da religião de Cristo em todo o mundo, até o seu último suspiro.

O professo de teologia sistemática, D. Francesco Moraglia, explica que “a cidade, que lhe atribuía a vitória sobre o paganismo, elegeu-o como o seu terceiro padroeiro e celebra a sua festa desde o século IV, como segunda festa em grau de importância depois da dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo”.

Do mesmo modo, foram erguidas em sua honra “34 igrejas e capelas, sinal tangível de gratidão àquele que, fiel ao seu ministério, tinha sido entre eles um verdadeiro ministro e servidor da caridade.”

4. O seu martírio foi prenunciado pelo Papa São Sisto II

São Lourenço era um dos diáconos que ajudava o Papa Sisto II, o qual foi assassinado pela "polícia" do Imperador enquanto celebrava Missa num cemitério de Roma. A antiga tradição diz que, quando Lourenço viu que iam matar o Sumo Pontífice, este lhe disse:

“A nós, porque somos velhos, foi-nos designado o percurso de um caminho mais fácil; a ti, porque és jovem, corresponde um triunfo mais glorioso sobre o tirano. Deixa de chorar, dentro de três dias seguir-me-ás. Entre um bispo e um levita, é conveniente que exista este intervalo.” (Santo Ambrósio, De Officiis, n. 206).

5. O Papa São Leão Magno dedicou-lhe uma bela homilia

No século V, o Doutor da Igreja e Papa São Leão Magno disse sobre São Lourenço que “as chamas não puderam vencer a caridade de Cristo; e o fogo que o queimava fora era mais débil do que aquele que ardia dentro dele.” Acrescentou: “O Senhor quis exaltar a tal ponto o seu glorioso nome em todo o mundo que do Oriente ao Ocidente, no esplendor vivíssimo da luz que irradiou dos maiores diáconos, a mesma glória concedida a Jerusalém por Estêvão também foi dada a Roma por mérito de Lourenço.” (Homilia 85, 4: PL 54, 486)

6. Um fenómeno astronómico tem o seu nome

“Lágrimas de São Lourenço” é o nome popular com o qual se conhece uma chuva de meteoros (as Perseidas) visíveis todos os anos por volta dos dias 11 e 12 ou 12 e 13 de Agosto. 

7. Um clube de futebol leva o seu nome

O nome do clube de futebol favorito do Papa Francisco, o ‘Club Atlético San Lorenzo de Almagro’, é em honra ao diácono mártir, por desejo do salesiano Pe. Lorenzo Massa.

in acidigital


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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

São João Maria Vianney sobre a Santa Missa

Todas as boas obras do mundo juntas não equivalem ao santo sacrifício da Missa, porque são obras dos homens e a Missa é obra de Deus. Em comparação com ela, o martírio nada é, pois é o sacrifício que o homem faz da sua vida a Deus; ora, a missa é o sacrifício que Deus faz ao homem do seu corpo e do seu sangue.

À voz do sacerdote, Nosso Senhor desce do céu e encerra-Se numa hóstia. Deus poisa o seu olhar sobre o altar, e diz: «Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência» (Mt 3,17). E nada pode recusar aos méritos da oferenda desta vítima.

Que belo! Depois da consagração, o nosso Deus está ali, tal como no Céu! [...] Se o homem conhecesse bem este mistério, morreria de amor. Deus poupa-nos por causa da nossa fraqueza.

Oh!, se tivéssemos fé, se compreendêssemos o preço do santo sacrifício, poríamos bastante mais empenho em assistir a ele!

in 'Pensamentos escolhidos do santo Cura d'Ars'


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Os últimos anos do Cura d'Ars

No último ano da sua vida, o Cura d'Ars viu passar pela sua igreja, pelo menos, uns 100 mil peregrinos. Diante de tal afluência havia em Ars diversos sacerdotes para auxiliar o santo cura. Mas muitos fiéis não se conformavam e preferiam ficar até seis dias à espera para poder falar-lhe por alguns minutos. O abnegado sacerdote embora reduzisse o seu precário descanso a uma ou duas horas por dia não vencia a avalanche dos que o procuravam. Os catecismos a que se dedicava com extremado amor já não passavam duma série de exclamações que acabavam em lágrimas. Apenas a custo se podia ouvi-lo ou entende-lo. Com sobre-humano esforço, a sua voz debilitada por uma tosse intermitente, já quase não lhe permitia articular palavras inteligíveis.

Eis o relato do jornalista, Jorge Seigneur, em Março de 1859, cinco meses antes da sua morte: O Cura d'Ars estava no confessionário. Ao ajoelhar-me ouvi um soluço que não posso reproduzir: era um gemido de sofrimento? Era um grito de amor? O soluço repetia-se a cada 10 minutos.

Enquanto lhe restou um pouco de energia, o santo cura esteve confessando e abençoando. Conscientemente, deixou-se imolar no altar dos seus sagrados deveres. Deu até a sua última gota de sangue e vida por eles. Não lhe restando força alguma resignou-se humildemente a que por mãos de amigos mais chegados repousassem o seu minguado corpo – pobre cadáver – como gostava de chamá-lo, sobre sua humilde enxerga.

Já sem fala e exangue, vez por outra esboçava um doce sorriso de benevolência e agradecimento ao pequeno conforto que lhe buscavam oferecer. Lúcido e em pleno gozo de todas as suas faculdades até o último instante de vida. Depois de receber o viático ainda pôde reconhecer e esboçar com um sorriso, o seu agradecimento pela visita do seu Vispo Mons. Langalerie a quem logo pôde reconhecer.

O mês de Julho de 1859 foi verdadeiramente abrasador. Fora das casas parecia-se respirar fogo. Prostrado já mortalmente no seu leito, ainda pôde pressentir o seu momento derradeiro e pediu que chamassem o seu confessor, o Cura de Jassans. Chamado também o médico este constatou que o enfermo tinha chegado a uma debilidade extrema. E ainda declarou: se o calor diminuir ainda haverá alguma esperança.

Muitos dos seus queridos paroquianos, movidos de terna compaixão pelo seu santo cura, chegaram a estender sobre o telhado grandes toalhas que, trepados em escadas molhavam de quando em quando para mitigar a penúria do seu querido pároco. Era um testemunho silencioso de devoção pelo amoroso pastor que não vacilou em dar toda a sua vida pelo amado rebanho.

Finalmente, no dia 4 de Agosto de 1859, às duas da madrugada, enquanto nos céus de Ars se desencadeava uma violenta tempestade, João Maria Batista Vianney, sem agonia, entregou a sua alma ao seu Bom Deus. Contava então, 73 anos, 10 meses e 27 dias; há 41 anos, 5 meses e 23 dias que era Cura de Ars.

A 14 de Agosto de 1859 o corpo foi depositado numa sepultura aberta no centro da nave. Sobre ela foi colocada uma lápide de mármore preto em que se gravaram em forma de cruz um cálice e esta simples inscrição: Aqui jaz João Maria Batista Vianney, Cura d'Ars.

A 8 de Janeiro de 1905, o Papa Pio X assinou o decreto de beatificação do Cura d'Ars. No dia 12 de Abril de 1905, Pio X declarou-o Patrono de todos os sacerdotes que têm cura de almas em França e nos territórios do seu domínio. E a 28 de Setembro de 1925, 15 dias depois da canonização de Teresinha do menino Jesus, o humilde pároco de Ars era canonizado pelo Papa Pio XI.

Francis Trochu in 'O Santo Cura d'Ars'


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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Redentoristas Transalpinos levam Bispo a Tribunal

Os Redentoristas Transalpinos, que seguem o Rito Romano Tradicional, apresentaram uma queixa canónica contra o bispo Michael Gielen de Christchurch, Nova Zelândia, que os quer expulsar da sua diocese.

No mês passado, uma visita apostólica recomendou que os Redentoristas fossem proibidos de celebrar Missa na diocese. O bispo seguiu de bom grado as instruções do Vaticano.

O advogado canónico da ordem pediu agora formalmente ao bispo que anule a sua decisão. Se esse pedido for recusado, a ordem pretende levar o caso à Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja.

Os Redentoristas devem saber que não há hipótese de ganhar um processo contra o Vaticano no Vaticano.

Espera-se que Mons. Gielen responda ao pedido da Ordem nas próximas semanas. Por enquanto, os Redentoristas permanecem na diocese, celebrando Missas "privadas" com a presença de alguns paroquianos. O Bispo Gielen deu-lhes 90 dias, até ao início de Outubro, para deixarem a diocese.

A comunidade de católicos empenhados em torno dos Redentoristas será deixada à chuva, e a propriedade dos Redentoristas, com um valor estimado de 4,5 milhões de dólares, será perdida.

in gloria.tv


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Noivo reza o Terço com amigos antes de se casar

Fotografia tirada no Santuário de São José, em Detroit.


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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O Indulto Agatha Christie

Em 1970 entrou plenamente em vigor o Missal de Paulo VI (+1978), a Missa a que hoje em dia estamos habituados. Até aí celebrava-se o Missal de S. Pio V (+1572), que era muito semelhante ao Missal que vinha do Papa Gregório, Magno (+604).

Hoje sabemos que a Missa Antiga nunca poderia ter sido proibida. Isto mesmo foi afirmado pela comissão de Cardeais reunida pelo Papa João Paulo II para se pronunciar sobre esta matéria, em 1986. O mesmo afirmou o Papa Bento XVI, em 2007, no Motu Proprio Summorum Pontificum.

Mas em 1970, com a introdução da Missa Nova, criou-se a ideia que a Missa Antiga estaria proibida. Perante isto, em 1971, o Arcebispo de Westminster, Cardeal Heenan, liderou um apelo feito ao Papa Paulo VI para que a Missa Tradicional em latim continuasse a poder ser celebrada em Inglaterra e no País de Gales. Os signatários eram todos conhecidos escritores, académicos, artistas e historiadores residentes em Inglaterra. 

Entre eles estava o nome de Agatha Christie, a famosa escritora de romances policiais. Conta quem estava presente que quando o Papa se deparou com o nome da criadora de Hercule Poirot, exclamou: "Ah, Agatha Christie!", e assinou a aprovação do apelo. Desde aí é conhecido como o 'Indulto Agatha Christie'.

Este é o texto que foi enviado ao Papa Paulo VI (tradução 'Paix-Liturgique'):

Se um qualquer decreto privo de senso viesse ordenar a destruição completa ou parcial das basílicas ou das catedrais, obviamente que as pessoas mais ilustradas — quaisquer que fossem as suas convicções pessoais e o seu credo — se levantariam horrorizadas para se virem opor a uma tal eventualidade. Ora o facto é que as basílicas e as catedrais foram construídas para que aí fosse celebrado um rito que, até há poucos meses, constituía uma tradição viva. Referimo-nos à Missa católica romana. No entanto, de acordo com as últimas informações chegadas de Roma, existe um plano para obliterar essa mesma Missa até ao final do presente ano.

Um dos axiomas da publicidade moderna, e tanto daquela secular como daquela religiosa, é o de que o homem moderno em geral, e os intelectuais em particular, se tornaram intolerantes a todas as formas de tradição, estando ansiosos por suprimi-las e por substituí-las por outra coisa qualquer. Porém, à semelhança do que sucede com muitas outras asserções das nossas máquinas de publicidade, este axioma é falso. No que toca a reconhecer o valor da tradição, hoje, tal como em tempos já idos, as pessoas ilustradas encontram-se na vanguarda, e são as primeiras a fazer soar o alarme quando a mesma é ameaça. Neste momento, o que estamos a considerar não á a experiência religiosa ou espiritual de milhões de indivíduos.

O rito em questão, no seu magnífico texto latino, foi também a inspiração para uma multidão de inestimáveis realizações no campo das artes — e não apenas de obras místicas, mas também de obras deixadas por poetas, filósofos, músicos, arquitectos, pintores e escultores de todos os países e de todas as épocas. E é por isso que ele pertence à cultura universal e não só aos homens de igreja ou aos que se podem dizer formalmente cristãos. Na civilização materialista e tecnocrática que mais e mais ameaça a vida da mente e do espírito naquela que é a sua expressão criativa original — a palavra —, parece algo de particularmente inumano vir privar o homem de algumas formas verbais numa das suas mais grandiosas manifestações.

Os signatários deste apelo, que é inteiramente ecuménico e não político, foram angariados em todos os ramos da cultura moderna, tanto da Europa como noutros lados. O seu desejo é o de chamar a atenção da Santa Sé para a tremenda responsabilidade em que, na história do espírito humano, iria incorrer acaso se recusasse a autorizar a sobrevivência da Missa Tradicional, ainda que esta viesse a sobreviver ao lado de outras reformas litúrgicas.


Assinantes: Harold Acton, Vladimir Ashkenazy, John Bayler, Lennox Berkeley, Maurice Bowra, Agatha Christie, Kenneth Clark, Nevill Coghill, Cyril Connolly, Colin Davis, Hugh Delargy, +Robert Exeter, Miles Fitzalan-Howard, Constantine Fitzgibbon, William Glock, Magdalen Gofflin, Robert Graves, Graham Greene, Ian Greenless, Joseph Grimond, Harman Grisewood, Colin Hardie, Rupert Hart-Davis, Barbara Hepworth, Auberon Herbert, John Jolliffe, David Jones, Osbert Lancaster, F.R. Leavis, Cecil Day Lewis, Compton Mackenzie, George Malcolm, Max Mallowan, Alfred Marnau, Yehudi Menuhin, Nancy Mitford, Raymond Mortimer, Malcolm Muggeridge, Iris Murdoch, John Murray, Sean O'Faolain, E.J. Oliver, Oxford and Asquith, William Plomer, Kathleen Raine, William Rees-Mogg, Ralph Richardson, +John Ripon, Charles Russell, Rivers Scott, Joan Sutherland, Philip Toynbee, Martin Turnell, Bernard Wall, Patrick Wall, E.I Watkin, R.C. Zaehner.


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terça-feira, 6 de agosto de 2024

A Transfiguração do Senhor na tradição bizantina

Hoje a natureza humana readquire a sua antiga beleza

A festa da Transfiguração é uma das doze grandes festividades do calendário bizantino, com uma festa vespertina a 5 de Agosto e uma oitava que se conclui no dia 13. Já a partir do belíssimo mosaico do século VI no mosteiro de Santa Catarina do Sinai, a iconografia retoma a narração evangélica com o Senhor no centro, coberto de luz, Moisés e Elias dos lados e em baixo os três discípulos: Pedro, Tiago e João que quase não ousam olhar a luz deslumbrante.

Num tropário a celebração faz quase uma paráfrase do ícone, como se o hinógrafo a lesse: «O mistério escondido pela eternidade nos últimos tempos foi manifestado a Pedro, João e Tiago pela tua formidável transfiguração. Eles, não suportando o fulgor da tua face e o esplendor das tuas vestes, oprimidos permaneceram curvos com o rosto no chão; na sua êxtase assustavam-se ao ver Moisés e Elias que falavam contigo do que te aconteceria. Uma voz do Pai dava testemunho, dizendo: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado: escutai-o, ele doará ao mundo a grande misericórdia».

A liturgia liga estreitamente o mistério da transfiguração de Cristo à sua paixão: a subida ao Tabor e ao Calvário, onde a presença admirada dos discípulos na hora da transfiguração desaparece no momento da paixão: «Antes que subisses à cruz, Senhor, um monte representou o céu, e uma nuvem elevou-o como tenda. Enquanto tu te transfiguravas e recebias o testemunho do Pai, estavam contigo Pedro, Tiago e João para que, devendo estar contigo também na hora da traição, graças à contemplação das tuas maravilhas não temessem diante dos teus sofrimentos. Antes da tua cruz, ó Senhor, chamando para junto de ti os discípulos para subir a um monte alto, diante deles transfiguraste-te, iluminando-os com raios de poder, querendo mostrar-lhes a maravilha da ressurreição».

Um dos tropários das vésperas aproxima paixão e ressurreição, pondo lado a lado a presença da luz cintilante, os anjos, o tremor da terra diante do Senhor transfigurado e ressuscitado: «Prefigurando a tua ressurreição, ó Cristo Deus, tomaste contigo os teus três discípulos Pedro, Tiago e João para subir ao Tabor. Enquanto te transfiguravas, ó Salvador, o monte Tabor cobria-se de luz. Os teus discípulos, ó Verbo, lançaram-se ao chão, não suportando a visão da forma que não é dado contemplar. Os anjos prestavam o seu serviço com temor e tremor; estremeceram os céus e a terra tremeu, porque sobre a terra viam o Senhor da glória».

A presença de Moisés e Elias expressa a ligação à teofania no Sinai: «Aquele que outrora, mediante símbolos, falou com Moisés no monte Sinai, dizendo: Eu sou Aquele que é, transfigurado hoje sobre o monte Tabor na presença dos discípulos, demonstrou como nele a natureza humana readquire a beleza arquétipa da imagem. Tomando como testemunhas de uma tal graça Moisés e Elias, tornou-os partícipes da sua alegria, enquanto eles prenunciavam o seu êxodo através da cruz e da ressurreição salvífica».

Três textos veterotestamentários estão presentes como fio condutor. O primeiro relaciona-se a Moisés: «Aquele que outrora falou com Moisés no monte Sinai hoje transfigurado no monte Tabor». O segundo (2 Rs 2) a Elias: «Moisés o clarividente e Elias, o cocheiro de fogo, que sem arder percorreu os céus, vendo-te na nuvem no momento da transfiguração, garantiram que tu és, ó Cristo, o autor da Lei e dos Profetas e aquele que os leva ao cumprimento». O terceiro (Sl 88, 12-13) a David: «Prevendo em Espírito a tua vinda entre os homens, na carne, ó Filho Unigénito, já David convidava a criação à festa, exclamando profeticamente: o Tabor e o Hermon exultarão no teu nome».

A beleza e a glória de Cristo transfigurado manifestam também a beleza e a glória da natureza humana renovada: «Hoje o Senhor no monte Tabor, na presença dos discípulos, demonstrou como nele a natureza humana readquire a beleza arquétipa da imagem. De facto, subiste a este monte, ó Salvador, juntamente com os teus discípulos, transfigurando-te tornaste novamente radiosa a natureza outrora obscurecida em Adão, fazendo-a passar para a glória e o esplendor da tua divindade». Enfim, o cânone matutino, obra de são João Damasceno, aproxima a teofania no Sinai à do Tabor: «A glória que outrora obscurecia a tenda e falava com Moisés teu servo era figura da tua transfiguração. Tu que és o Deus Verbo, tornaste-te plenamente homem, unindo na tua pessoa a humanidade à plenitude da divindade».

Manuel Nin in L'Osservatore Romano


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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Beija-se o anel do Bispo, não o anel do homem




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5 de Agosto, o dia em que nevou em Roma por causa de uma Basílica

Roma. Segundo a Tradição, caiu neve em plena seca, delimitando o lugar onde deveria ser edificada uma igreja dedicada à Virgem Maria. É a maior basílica mariana de Roma, por isso conhecida como Santa Maria Maior. 

A Basílica de Santa Maria Maior (Santa Maria Maggiore), também conhecida como Basílica de Nossa Senhora das Neves, ou Basílica Liberiana, é uma das basílicas patriarcais (representada o Patriarcado de Antioquia) de Roma. Foi construída entre 432 e 440, durante o pontificado do Papa Sisto III, e dedicada ao culto de Maria, Mãe de Deus, cujo dogma da Divina Maternidade acabara de ser declarado pelo Concílio de Éfeso (431). Entretanto, a data da fundação da Basílica remonta ao pontificado do Papa Libério (352-366).   

O título de Maria como Nossa Senhora das Neves surgiu por volta do ano de 352, em Roma, onde viviam Giovanni Patritio (João Patrício) e a sua esposa, que não podiam ter filhos. Conformados com a vontade de Deus, pensavam, certo dia, a quem deixariam a fortuna. Por serem muito devotos de Nossa Senhora, queriam torná-lA herdeira de todos os seus bens. E para que Ela aceitasse a oferta fizeram muitas orações, deram muitas esmolas, fizeram muitas penitências. 

Nossa Senhora ouviu a prece desse bondoso e fiel casal e numa noite particularmente quente de Agosto apareceu-lhes num sonho para avisá-los que no dia seguinte fossem ao Monte Esquilino e lá encontrariam tudo coberto de neve. Naquele local deveriam erguer um Templo onde pudesse ser honrada pelos seus devotos. Na manhã seguinte, comentaram o sonho - ou revelação - que ambos tiveram e mandaram comunicar ao Papa Libério, ao qual a Virgem havia feito a mesma revelação. Foi convocado o clero e o povo, e fez-se uma procissão. Quando chegaram no Monte, encontraram coberto de neve um espaço suficiente para uma Igreja bem ampla. O local foi marcado, e o casal erigiu a basílica, adornando-a sumptuosamente.  

Primeiro, foi chamada Santa Maria das Neves, pelo milagre ocorrido. E também Basílica ou Templo de Libério, porque foi no seu tempo que ocorreu o milagre. Depois, foi chamada Basílica de Sisto, por haver Papa Sisto III, sucessor do Papa Celestino, renovado e reedificado a igreja, adornando-a de excelentes imagens e sagradas pinturas. Também foi chamada de Santa Maria do Presépio, por causa do da manjedoura do presépio, na qual Cristo Nosso Senhor fora colocado quando nasceu em Belém, que foi posta numa das capelas. Mas, tendo sido edificadas muitas e muitas igrejas a Nossa Senhora, e sendo esta a maior, ficou o nome de Santa Maria Maggiore, para diferenciá-la das outras e mostrar a excelência desta igreja sobre as demais em Roma.  

Nela, o Senhor operou muitos milagres pela intercessão de Sua bendita Mãe. A esta igreja (fiéis) ordenou São Gregório Magno que andasse em solene procissão, de todos os status, de todas as condições de pessoas que se encontrassem em Roma, quando aquela cruel e horrível peste a infestava e destruía. Desta igreja, ordenou o Papa Estevão II que saísse outra procissão para aplacar a ira de Deus. E Papa Leão IV, no tempo do Imperador Lotário, com outra procissão, da Igreja de Santo Adriano Mártir à de Santa Maria Maior, libertou a Cidade de uma cruel e venenosa serpente que a ameaçava. E São Martinho Papa, celebrando nela, e querendo Olímpio Efsarco matá-lo, por ordem do Imperador seu patrão, que era herético, ficou cego e não conseguiu seu intento, não permitindo a Santíssima Virgem que no seu Templo fosse cometida tão grande maldade. Muitos outros milagres o Senhor operou naquele Templo, por intercessão de sua puríssima Mãe.  

A Basílica de Santa Maria, em Roma, foi consagrada em honra a Nossa Senhora pouco depois do Concílio de Éfeso (431) que proclamara a Divina Maternidade de Maria.

Somos devotos desta Rainha dos Anjos, sirvamo-la com afeição e solicitude, recorramos a Ela em todas as nossas tribulações e necessidades com grandíssima confiança, imitemos as suas virtudes e os exemplos, que nenhum dos que assim fizerem restará confundido. 

Pe. Pietro Ribadeneira in 'Flos sanctorum, historia das vidas, e obras insignes dos santos'


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sábado, 3 de agosto de 2024

Um baptismo para não mais esquecer

A maioria das pessoas não se lembra do seu baptismo mas estas crianças irão certamente recordá-lo. Não há dúvida que esta cerimónia imprime carácter...a vários níveis!


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Festa da Invenção de Santo Estêvão, primeiro mártir

No ano de Nosso Senhor 415, no reinado do Imperador Honório, um Sacerdote chamado Luciano (que morava em Caphargamala, a cerca de vinte milhas de Jerusalém) recebeu uma mensagem de Deus, em consequência da qual foram descobertos os corpos dos Santos Estêvão, o Primeiro Mártir, Gamaliel, Nicodemos e Abibon (o filho de Gamaliel), que há muito jaziam desconhecidos e ignorados. 

Lucian estava a dormir quando Gamaliel lhe apareceu em sonho como um velho alto e formoso, de presença adorável, disse-lhe onde estavam os corpos e ordenou-lhe que fosse ter com João, Patriarca de Jerusalém, e que tratasse com ele para que pudessem ter um enterro mais honroso.
 
Quando o Patriarca de Jerusalém ouviu isto, convocou bispos e sacerdotes das cidades vizinhas e dirigiu-se ao local, onde encontrou os túmulos escavados na rocha, e deles brotava um cheiro muito suave. Tendo o facto sido anunciado, reuniu-se uma grande multidão de pessoas, e muitos dos que estavam doentes e fracos de diversas doenças regressaram sãos a casa. 

O corpo sagrado de Santo Estêvão foi então transportado com grande pompa para a santa Igreja de Sião. Sob o imperador Teodósio, o Jovem, foi levado para Constantinopla e, durante o papado de Pelágio I, foi trazido para Roma, onde foi depositado no sepulcro do santo mártir Lourenço, no Campo del Verano.
 
Lições das Matinas de hoje


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sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O mendigo santo

O Padre João Tauler narra a seguinte história que aconteceu com ele mesmo:

Durante muitos anos pedira fervorosamente ao Senhor que lhe enviasse alguém que o instruísse na vida espiritual. Um dia ouviu uma voz que lhe dizia: Dirige-te a tal igreja: lá encontrarás o que desejas. 

O Padre obedeceu e à porta da igreja indicada encontrou um mendigo, descalço, envolto em trapos, a quem saudou dizendo: 

- Bom dia, amigo. 

- Obrigado, Sr. - respondeu-lhe o mendigo - não me lembro, porém, de ter jamais tido um mau dia. 

- Pois então, conceda-lhe Deus uma vida feliz. 

- Nunca fui infeliz, graças a Deus. Ouça-me, Padre. Não foi sem razão que eu disse nunca ter tido um mau dia, pois, se tenho fome, louvo ao bom Deus; se chove ou neva, bendigo-O; se alguém me despreza, me despede, ou se tenho de suportar outros padecimentos, louvo por isso o Senhor. Disse também que nunca fui infeliz, o que é igualmente verdade, pois estou acostumado a querer incondicionalmente o que Deus quer. Tudo o que vem sobre mim, seja agradável ou desagradável, recebo com alegria de suas mãos como a coisa melhor para mim, e isso constitui a minha felicidade. 

- Mas se Deus quisesse condenar-te, o que dirias então? 

- Se Deus assim o quisesse, com humildade e amor prender-me-ia tão estreitamente a Ele que, precipitando-me ao inferno, arrastá-lo-ia comigo e junto dele achar-me-ia tão feliz no inferno como sem ele infeliz no Céu. 

- Onde encontraste a Deus? 

- Achei-o quando abandonei as criaturas. 

- Quem és tu? 

- Um rei. 

- Onde tens teu reino? 

- No meu coração, onde reina a ordem, pois as minhas paixões obedecem à razão e a minha razão a Deus. 

- Como conseguiste tal perfeição? 

- Calando-me diante dos homens para me ocupar com o meu Salvador e conservando-me continuamente unido a Deus, em Quem encontro o meu descanso e toda a minha felicidade.

Assim, com a sua conformidade com a vontade de Deus, conseguira esse mendigo uma grande perfeição e apesar de sua pobreza sentia-se mais rico que todos os príncipes do mundo e, não obstante seus padecimentos, mais feliz que todos os mundanos na posse das alegrias terrestres.

Santo Afonso de Ligório in 'A Escola da Perfeição Cristã'


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Sobre a celebração da Santa Missa

1º. Importância do santo Sacrifício e cuidado que ele exige do padre

Todo o pontífice eleito dentre os homens é estabelecido a favor dos homens, para desempenhar as funções do culto divino, e oferecer dons e sacrifícios em expiação dos pecados. Oferecer sacrifícios, eis pois o fim para que Deus colocou o padre na sua Igreja; é propriamente a função dos sacerdotes da lei da graça, aos actuais foi dado o poder de oferecer o grande sacrifício do Corpo e Sangue do próprio Filho de Deus; sacrifício supremo e perfeito, infinitamente acima dos sacrifícios antigos, que outro mérito não tinha outrora senão o de serem desse a sombra e figura. As vítimas que então se imolavam eram novilhos e bodes; hoje a nossa Vítima é o Verbo eterno feito homem.

Por isso mesmo, os sacrifícios da lei antiga não tinham poder algum; também o apóstolo os chama observâncias defeituosas e incapazes; o nosso, ao contrário, tem o poder de operar a remissão das penas temporais devidas ao pecado, e além disso - ao menos mediatamente, - de aumentar a graça e obter socorros mais abundantes àqueles por quem é oferecido.

O padre que não está compenetrado da grandeza do sacrifício da missa, jamais o oferecerá como deve. Nada fez de maior na terra Jesus Cristo. É a missa a acção mais santa e mais agradável a Deus que se pode realizar, tanto em razão da Vítima oferecida, que é Jesus Cristo, Vítima duma dignidade infinita, como em razão do sacrificador principal, que é o mesmo Jesus Cristo, a oferecer-se pela mão dos sacerdotes, como no-lo ensina o Concílio de Trento. E São João Crisóstomo diz paralelamente: Quando virdes o sacerdote a oferecer o sacrifício, não penseis no padre, representai-vos antes a mão de Jesus Cristo que obra dum modo invisível.

Todas as honras que têm prestado a Deus os anjos com as suas homenagens, e os homens com as suas virtudes, austeridades, martírios e santas obras, não podem render a Deus tanta glória como uma só missa; porque todas as homenagens das criaturas são finitas, ao passo que a que se presta a Deus com o sacrifício dos nossos altares, é dum valor infinito, por lhe ser prestada por uma pessoa divina. Necessário é pois reconhecer com o Concílio de Trento que a missa é de toda as obras a mais santa e divina.

É pois o sacrifício da missa a obra mais santa e agradável a Deus, como acabamos de ver; é a obra mais capaz de aplacar a cólera de Deus contra os pecadores e abater as forças do inferno; é a obra que obtém graças mais abundantes para os homens na terra, e maior alívio para as almas do Purgatório; é finalmente a obra a que está ligada a salvação do mundo inteiro, segundo o pensamento de Santo Odon, abade de Cluni. E Timóteo de Jerusalém diz que é à missa que a terra deve a sua conservação; a não ser ela, os pecados dos homens a teriam há muito aniquilado.

Segundo São Boaventura, em cada missa faz o Senhor ao género humano um benefício não inferior ao que lhes dispensou, fazendo-se homem. O que é conforme com a célebre exclamação de Santo Agostinho: Ó dignidade venerável a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna, como encarnou no seio da Virgem! De mais, não sendo o sacrifício do altar senão a aplicação e renovação do sacrifício da cruz, Santo Tomás ensina que, para o bem e salvação dos homens, tem cada missa toda a eficácia do sacrifício da cruz. E São João Crisóstomo escreveu: A celebração da missa tem o mesmo valor que a morte de Jesus Cristo na cruz. A Igreja plenamente confirma esta verdade, quando diz nas suas orações: Cada vez que se celebra no altar a memória deste sacrifício, renova-se a obra da nossa redenção. De fato, ajunta o Concílio de Trento, o mesmo Redentor, que se ofereceu por nós na cruz, é quem se oferece no altar por ministério dos sacerdotes.

Numa palavra, segundo a expressão do profeta Zacarias, é a missa o que há de mais excelente e belo na Igreja: Que há de bom, que há de belo, senão o pão dos escolhidos e o vinho que gera virgens? No sacrifício da missa, dá-se Jesus Cristo a nós, mediante o sacramento do altar, que é o fim e consumação de todos os outros sacramentos, como ensina o Doutor angélico. Razão tem pois São Boaventura em chamar à missa o resumo de todo o amor divino e de todos os benefícios de que o Senhor há cumulado os homens. Eis por que o demónio sempre se tem esforçado por arrebatar ao mundo a santa missa por meio dos hereges, como por tantos outros precursores do Anticristo que, antes de tudo, cuidará de abolir e de fato abolirá, em punição dos pecados dos homens, o sacrifício do altar, segundo esta profecia de Daniel: Por causa dos pecados, ser-lhe-á dada força contra o sacrifício perpétuo.

Grande razão tem pois o Concílio de Trento para exigir que os padres ponham todo o seu cuidado, em celebrar a missa com a máxima devoção e pureza de coração que seja possível. Como não menos razão adverte no mesmo lugar, que é precisamente sobre os padres, que celebram com negligência e sem devoção, que recai a maldição anunciada por Jeremias: Maldito o que faz indignamente a obra do Senhor! Segundo São Boaventura, celebra-se ou comunga-se indignamente, quando se chega ao altar com pouco respeito e consideração. Assim, para evitarmos essa maldição, examinemos o que deve fazer o padre antes, durante e depois da celebração da missa: preparação, antes de celebrar; respeito e devoção, enquanto celebra; acção de graças, depois de celebrar. São obrigações indispensáveis para o sacerdote. Segundo o pensamento dum servo de Deus, deveria a vida dum padre ser apenas uma preparação para a missa e uma acção de graças.

2º. Preparação para a Missa

Em primeiro lugar, deve o padre fazer a sua preparação antes de subir ao altar.

Antes de mais nada, pergunto a mim mesmo como é que, havendo no mundo tantos padres, haja tão poucos santos? A missa é chamada por São Francisco de Sales um mistério inefável, que encerra um abismo de caridade divina. Além disto, São João Crisóstomo dizia que o sacramento do altar contém o tesouro inteiro da bondade de Deus. Sem dúvida a sagrada Eucaristia foi instituída para todos os fiéis, mas é um dom especialmente feito aos padres. Não vades, diz o Senhor aos padres, dar a coisa santa aos cães, nem lançar as vossas pérolas a suínos. Notem-se estas palavras: As nossas pérolas. Dá-se em grego o nome de pérolas às espécies sacramentais; e essas pérolas são apontadas aqui como pertença própria dos ministros do altar: Margaritas vestras. Sendo assim, todos os padres deveriam, segundo São João Crisóstomo, descer do altar com um coração todo abrasado do amor divino, a ponto de serem um objeto de terror para o inferno.

Mas não é isso o que se vê: observa-se que a maior parte descem do altar sempre mais tíbios, mais impacientes, mais soberbos, mais invejosos, mais apegados às honras, ao interesse e aos prazeres terrenos. Não é por falta do alimento que tomam no altar, nota o cardeal Bona, porque, no dizer de Santa Maria Madalena de Pazzi, bastaria recebê-lo uma só vez para ficar santo; é pela falta de preparação para celebrar a missa.

Há duas espécies de preparação: uma remota e outra próxima.

A preparação remota consiste na vida pura e virtuosa, que deve ter o padre para celebrar dignamente. Se dos sacerdotes antigos Deus exigia a pureza, só porque deviam transportar os vasos sagrados, - quanto não deverá ser mais puro e santo, observa Pedro de Blois, o padre que deve trazer nas suas mãos e no seu coração o Verbo encarnado! Mas, para ser puro e santo, não lhe basta estar livre das cadeias do pecado mortal, é necessário que esteja isento de pecados veniais; (plenamente deliberados, entende-se) de contrário, Jesus Cristo não o admitirá a ter parte consigo. Guardemo-nos, diz São Bernardo, de fazer pouco caso dessas faltas; pois, como foi dito a Pedro, se não formos purificados por Jesus Cristo, não teremos parte com ele . Necessário é portanto que todas as acções e todas as palavras do padre, que quer celebrar missa, sejam bastante santas, para lhe servirem de preparação.

A preparação próxima exige primeiramente a oração mental. Como quereis que celebre com devoção a santa missa o sacerdote, que sobe ao altar sem primeiro ter feito a sua meditação? Dizia o venerável João de Ávila que o padre deve fazer ao menos hora e meia de oração mental antes da missa. Eu me contentaria com meia hora e, para alguns até com um quarto de hora, ainda que um quarto de hora é muitíssimo pouco.

Há tão belos livros de meditações preparatórias para a santa missa! A missa é uma representação da paixão de Jesus Cristo. Por isso com razão o papa Alexandre I disse que sempre nela se deve comemorar a paixão do Salvador. E foi o que prescreveu o Apóstolo: Todas as vezes que comerdes esse pão e beberdes esse cálice, anunciareis a morte do Senhor. Segundo Santo Tomás, o Redentor instituiu o sacramento do altar, para conservar sempre viva em nós a lembrança do amor que nos testemunhou, e do grande benefício que nos alcançou a sua imolação na cruz. Ora, se todos os homens se devem lembrar continuamente da paixão de Jesus Cristo, - com quanta mais razão o padre, quando vai renovar, ainda que dum modo diferente, o mesmo sacrifício no altar!

Ao padre não lhe basta ter feito a sua meditação; importa-lhe que antes de celebrar se recolha sempre ao menos alguns instantes e considere bem o que vai fazer; foi o que ordenou a todos os padres o primeiro Concílio de Milão, no tempo de São Carlos Borromeu.

Ao entrar na sacristia, deve o celebrante despedir-se de todos os pensamentos do mundo e dizer com São Bernardo: Cuidados, negócios, esperai por mim aqui; eu e o meu servo, isto é a minha razão com a minha indigência, vamos ali adorar a Deus, e logo voltaremos a ter convosco; pois voltaremos, ai!, e demasiado cedo. São Francisco de Sales escrevia a Santa Joana de Chantal: "Quando me volto para o altar para começar a missa, perco de vista todas as coisas da terra". Postos de parte pois todos os pensamentos do mundo, não deve o padre ocupar-se então senão da grande obra, que vai fazer e do pão celeste, de que vai alimentar-se a essa mesa divina: Quando estiveres sentado à mesa do príncipe, considera atentamente as iguarias que te são servidas.

Pense o padre que vai chamar do Céu à terra o Verbo feito homem, para se entreter familiarmente com ele no altar, para o oferecer de novo ao Padre eterno, e para enfim se alimentar da sua carne sagrada.

O venerável João de Ávila, antes de subir ao altar, procurava excitar-se ao fervor, dizendo: "Eis que vou consagrar o Filho de Deus, tê-lo nas minhas mãos, falar-lhe, tratar com ele e recebê-lo no meio seio".

Deve também o padre considerar que sobe ao altar na qualidade de mediador, para interceder por todos os pecadores, como diz São Lourenço Justiniano. Se está colocado entre Deus e os homens, de Deus obterá para estes as graças de que necessitam. É por essa razão, observa Santo Tomás, que se dá o nome de missa ao sacrifício do altar. Na Lei antiga, só ao sumo sacerdote era permitido entrar no Santo dos Santos, e isso uma só vez por ano; mas hoje, diz São Lourenço Justiniano, a todos os padres é dado oferecer cada dia o Cordeiro divino, para obterem para si próprios e para todo o povo as graças de Deus. Donde São Boaventura conclui que o celebrante se deve propor três fins: honrar a Deus, comemorar a paixão do Salvador, e obter graças para toda a Igreja.

3º. Respeito e devoção com que se deve celebrar

Em segundo lugar, é necessário que o sacerdote celebre a missa com respeito e devoção. Sabe-se que o uso do manípulo foi introduzido, para que o padre enxugasse as lágrimas; porque outrora tais sentimentos de devoção experimentavam os sacerdotes, ao celebrarem, que não faziam senão chorar. Já dissemos que o padre ao altar é o representante do próprio Jesus Cristo, como escreveu São Cipriano. É nesta qualidade que diz: Hoc est corpus meum; hic est calix sanguinis mei.

Mas, ó Céu! Que lágrimas, que lágrimas de sangue se deveriam chorar, quando se pensa no modo como a máxima parte dos padres celebram a missa! Causa pena, digamo-lo, ver o desprezo com que Jesus Cristo é tratado por tantos padres, até religiosos, e pertencentes a Ordens reformadas! Ao ver-se a negligência com que esses padres de ordinário dizem a missa, bem se lhes poderia fazer a censura que Clemente de Alexandria dirigia aos sacerdotes pagãos: que faziam do Céu um teatro, e de Deus o objeto da sua comédia.

E que direi? Uma comédia! Ó, se eles tivessem um papel a representar no teatro, que cuidado empregariam! Ao contrário, que fazem eles ao altar? Truncam palavras, fazem genuflexões que mais parecem actos de desprezo e faltas de respeito; traçam bênçãos que não se sabe o que são; esboçam gestos ridículos; falam às rubricas, antecipando cerimónias e misturando-lhes palavras. E no entanto a verdade é que essas rubricas todas são de preceito, por isso que São Pio V, na bula que pôs à frente do missal, manda districte, in virtute sanctae obedientiae, que a missa seja celebrada segundo as rubricas do missal. Donde resulta que quem transgride as rubricas não pode eximir-se de pecado, que será grave desde que a matéria o seja.

Tudo isso procede do desejo de chegar de pressa ao fim da missa. Celebram-na como se a igreja estivesse a desabar, ou como se os bandidos se avizinhasse e não restasse tempo para a fuga.

Eis um padre que, depois de ter dado horas inteiras a uma vida inútil, ou a negócios mundanos, lá vai a celebrar a missa todo apressado!

Começa com precipitação, prossegue do mesmo modo; chega à Consagração, toma Jesus Cristo nas suas mãos, e comunga-o com tanta irreverência como se ali só houvesse um bocado de pão! Seria necessário que tais padres sempre tivessem ao seu lado alguém, para lhes dizer o que um dia o venerável João de Ávila, chegando-se ao altar em que celebrava um desses, lhe disse: "Por piedade tratai-o melhor, que é o filho dum pai respeitável".

Queria o Senhor que os sacerdotes da Lei antiga tremessem de santo respeito ao aproximarem-se do santuário. E um sacerdote da Lei nova, achando-se ao altar, em presença do próprio Jesus Cristo, a falar-lhe, a tomá-lo nas suas mãos, a oferecê-lo a Deus-Pai, a alimentar-se dele, - mostra-se tão irreverente! Na Lei antiga, ameaçou o Senhor com muitas maldições os sacerdotes que fossem negligentes nas cerimónias desses sacrifícios, que eram apenas uma mera figura do nosso: Se cerrares os ouvidos à voz do Senhor teu Deus, que te manda guardar as cerimónias, virão sobre ti todas estas maldições... Serás maldito na cidade e maldito nos campos. Dizia Santa Teresa: "Pela mínima cerimónia da Igreja, daria eu mil vezes a minha vida". E o padre as despreza! Ensina o Padre Suarez que a omissão de qualquer cerimónia, na missa, não pode escusar-se de pecado.

Muitos doutores ajuntam que uma negligência notável nas cerimónias pode chegar a pecado mortal.

Na nossa Teologia moral demonstramos, com a autoridade de muitos doutores, que o que celebra em menos de um quarto de hora não pode escusar-se de falta grave, e isto por duas razões: primeira, por causa da irreverência contra o sacrifício, resultante da sua precipitação; segunda, por causa do escândalo que dá ao povo.

Quanto ao respeito devido ao divino sacrifício, já citamos o que diz o Concílio de Trento: que a missa deve ser celebrada com a máxima devoção possível. E ajunta que a falta de respeito, mesmo exterior, constitui uma irreverência, que de algum modo chega a ser impiedade. Assim como as cerimónias, quando são bem feitas, infundem e significam respeito; também quando são mal executadas denotam irreverência que, em matéria grave, é um pecado mortal. Deve-se notar além disto que, para nas cerimónias haver o testemunho de respeito, que convém a um tão grande sacrifício, não basta fazê-las; porque uma pessoa qualquer poderia ter a língua assás desembaraçada e os movimentos bastante livres para expedir tudo isso em menos de um quarto de hora; mas é preciso que sempre sejam feitas com a gravidade conveniente, que pertence também intrinsecamente ao respeito que se deve ter pela missa.

Por outro lado, celebrar a missa em tão pouco tempo é falta grave, em razão do escândalo que se dá aos fiéis que assistem a ela. Sobre este ponto, é necessário considerar ainda o que noutro lugar diz o Concílio de Trento: que as cerimónias da missa foram instituídas pela Igreja, para inspirar aos fiéis uma alta ideia deste augusto sacrifício, e toda a veneração devida aos divinos mistérios que encerra. Ora, quando estas cerimónias são feitas muito à pressa, nenhuma veneração inculcam ao povo, antes lhe fazem perder o respeito que merece um mistério tão santo. Observa Pedro de Blois que os padres que celebram com pouco respeito, dão ocasião a que os fiéis façam pouco caso do Santíssimo Sacramento. Não se pode dar um tal escândalo sem se incorrer em pecado mortal.

Também o Concílio de Tours, em 1583, mandou que os sacerdotes fossem bem instruídos nas cerimónias da missa, para não destruírem a devoção no coração das suas ovelhas, em vez de as levarem à veneração pelos ministérios sagrados.

Celebrando sem devoção, - como querem esses padres obter de Deus graças, sendo certo que ao oferecerem o santo sacrifício, o ofendam e, quanto deles depende, mais o desonram do que o honram? O padre que não acreditasse no Sacramento do altar, sem dúvida ofenderia a Deus; mas quanto mais o ofende o que nele crê e não só lhe recusa o respeito que lhe é devido, senão que ainda é causa de que outros, à vista da sua conduta, lhe percam igualmente o respeito? Os judeus a princípio respeitaram Jesus Cristo, mas, quando o viram desprezado pelos sacerdotes, perderam então a alta ideia que tinham dele, e acabaram por gritar com os sacerdotes: Tolle, tolle, crucifige eum! Do mesmo modo, para não sairmos do nosso assunto, os seculares que hoje vêem os padres a celebrar com tanta irreverência, perdem toda a estima e veneração por este divino mistério.

Uma missa, celebrada com recolhimento, inspira devoção aos assistentes; pelo contrário, faz-lhes perder a devoção e quase a fé também, quando celebrada sem piedade. Eis um fato passado em Roma e que me foi contado por um religioso de todo o crédito. Tinha um herege resolvido renunciar aos seus erros; mas, tendo visto celebrar a missa sem devoção, foi ter com o papa e disse-lhe que não queria abjurar, porque estava persuadido de que nem os padres nem o papa tinha na Igreja católica uma fé verdadeira: "Se eu fosse papa, dizia ele, e soubesse que um padre celebrava a missa com tão pouco respeito, mandava-o queimar vivo; ao ver porém que os padres dizem assim a missa e não são castigados, persuado-me de que nem o próprio papa acredita nela". Dito isto, retirou-se, e não consentiu que lhe falassem mais em abjuração.

Mas objectam certos padres que os leigos se queixam, quando a missa se prolonga. - O quê! Então, lhes respondo eu de pronto, a pouca devoção dos seculares há de ser a regra do respeito devido ao santo sacrifício! Ouçam mais: se os padres celebrassem a missa com o devido respeito e gravidade, os seculares se compenetrariam da veneração a prestar a tão grande mistério, e não lamentariam a meia hora que lhe devessem consagrar. Como porém, de ordinário, a missa é tão breve e nenhuma devoção inspira, os seculares à imitação dos padres, assistem a ela sem devoção, e com pouca fé; quando vêem que ela dura mais de um quarto de hora, aborrecem-se e queixam-se, em razão do mau hábito contraído.

Assim, os mesmos que sem dificuldade passam muitas horas a uma mesa de jogo, ou numa praça pública, desperdiçando o tempo, não podem sem tédio gastar uma meia hora a ouvir missa! A causa de tudo isso são os padres: É convosco que falo, ó sacerdotes, que desonrais o meu nome e dizeis: Como desonramos nós o vosso nome? Nisso que dizeis: A mesa do Senhor é de pouca importância. O pouco que os padres se importam do respeito devido à missa, faz que também os outros a desprezem.

Pobres padres! Ao saber que um sacerdote acabava de morrer após a sua primeira missa, o venerável João de Ávila exclamou: "Ó que terrível conta esse padre tem de prestar a Deus, por essa primeira missa!" À vista disso, que se deverá dizer dos padres que, no decurso de trinta ou quarenta anos, cada dia deram ao altar o escândalo de que vimos falando! E, repito, - como poderão tais padres tornar o Senhor propício e obter graças da sua misericórdia, celebrando a missa de modo antes a ultrajá-lo que a honrá-lo? Todos os crimes são expiados pelo sacrifício, diz o papa Júlio, mas por que oferenda se há de reparar a ofensa feita ao Senhor, se é na mesma oblação do sacrifício que se peca? Pobres padres! E pobres bispos que permitem a tais padres celebrarem! Segundo o decreto do Concílio de Trento, são os bispos obrigados a impedir as missas celebradas com irreverência.

Notem-se estas expressões: Prohibere curent ac teneantur; significam elas que os bispos estão obrigados a suspender os que celebram sem respeito conveniente; e esta obrigação tanto abrange os sacerdotes regulares como os outros, visto que os bispos a esse respeito são constituídos pelo Concílio legados apostólicos, e por isso obrigados a vigiar pelas missas que se dizem nas suas dioceses.

E nós, padres, irmãos meus, cuidemos de nos corrigir: se no passado temos celebrado o santo sacrifício com pouca devoção e respeito, atalhemos ao mal, ao menos daqui para o futuro. Antes de celebrar, pensemos no que vamos fazer: é a acção maior e mais santa que um homem pode realizar. Demais, que grande bem é uma missa celebrada com devoção, grande bem para o celebrante, e para os ouvintes! - Eis como João Herolt, de sobrenome o Discípulo, fala aos que assistem à missa: Quando fazeis a vossa oração na igreja, na presença de Deus, mais seguramente ela é ouvida... porque todo o sacerdote está obrigado a orar pelos assistentes em cada missa.

Ora, se a oração dum secular, quando feita em união com a do celebrante, é mais prontamente ouvida de Deus, quanto mais ainda a do próprio sacerdote, se celebra com devoção! Um padre que oferece todos os dias o santo sacrifício com alguma devoção, há de receber sempre de Deus novas luzes e novas forças.

Jesus Cristo o instruirá, o consolará, o animará cada vez mais, e lhe concederá as graças que deseja.

É sobretudo depois da consagração que o padre pode estar seguro de conseguir do Senhor todas as graças que pede. O venerável Padre António Colelis dizia: "Quando celebro e tenho o meu Jesus nas minhas mãos, consigo dele quanto quero". O celebrante obtém o que quer para si e para os que assistem à missa. Lê-se na Vida de São Pedro de Alcântara que as missas fervorosas que celebrava produziam mais fruto, que todos os sermões dos pregadores da província em que estava. Quer o Concílio de Rodez que os padres pronunciem as palavras e façam as cerimónias com uma devoção, que dê testemunho da sua fé e amor para com Jesus Cristo, presente no altar. A compostura exterior, diz São Boaventura, manifesta as disposições interiores do celebrante.

Recorde-se aqui de passagem o que ordenou Inocêncio III: Nós ordenamos também que os oratórios, os vasos, corporais e alfaias sagradas se conservem em perfeita limpeza; porque é de todo o ponto contrário ao bom senso abandonar as coisas santas a uma imundícia, que não se sofria nem mesmo nas coisas profanas. Ai! Tinha o papa toda a razão para assim falar, porque se encontram padres que não se envergonham de celebrar com corporais, sanguinhos e cálices, de que não quereriam servir-se à sua mesa.

4º. Acção de graças

Em terceiro lugar, depois da celebração do santo sacrifício, é necessário render graças a Deus. Esta acção de graças deve estender-se ao dia inteiro. Exigem os homens que lhes sejamos reconhecidos e correspondamos aos mínimos favores que nos fazem, nota São Crisóstomo; quanto pois não devemos ser reconhecidos a Deus, que de nós espera, não uma retribuição, mas um ato de agradecimento, e isso somente para nosso bem! Se não podemos, ajunta ele, agradecer-lhe na medida da sua dignidade, agradeçamos-lhe ao menos quanto pudermos.

Mas que pena, que desordem ver tantos padres que, depois da missa, apenas recitam algumas breves orações na sacristia, sem atenção nem devoção, e logo falam de coisas inúteis ou de negócios mundanos, ou até saem da Igreja e vão levar Jesus Cristo ao meio das ruas! Seria necessário proceder sempre com eles, como um dia o venerável João de Ávila: ao ver que um padre saia da Igreja logo depois de celebrar, fê-lo acompanhar de dois clérigos com círios acessos. Perguntou-lhes o padre o que significava aquilo, e eles responderam: "Acompanhamos o Santíssimo Sacramento, que levais ao vosso peito". Bem se podia dizer a tais padres o que São Bernardo um dia escreveu ao arcedíago Foulques: Ai! Como tão depressa vos enfastiais da companhia de Jesus Cristo, que tendes dentro de vós?

Há muitos livros de piedade que recomendam a acção de graças depois da missa, mas quantos são os padres que cumprem este dever? Poderiam apontar-se ao dedo. Fazem alguns a oração mental, e recitam ainda muitas orações vocais; mas depois da missa poucos instantes se entretém com Jesus Cristo, ou até se dispensam disso por completo. Se ao menos o fizessem enquanto as espécies consagradas se conservam no seu estômago! Dizia o venerável João de Ávila que se deve considerar comi infinitamente precioso o tempo que se segue à missa; por isso ele de ordinário, a seguir à missa, passava duas horas recolhido em piedosos entretenimentos com Deus.

Depois da comunhão, dispensa o Senhor as suas graças em mais abundância. Dizia Santa Teresa que Jesus Cristo está então na alma como num trono de graça e lhe diz: Quid vis ut tibi faciam? Recordemos também o que ensinam Suarez, Gonet e outros doutores, - que a alma aufere da comunhão tanto maior fruto, quanto melhor se dispuser por actos de piedade, durante a permanência das espécies sacramentais. A razão é que este divino Sacramento, tendo sido instituído à maneira de alimento, declara o Concílio de Florença que, assim como os alimentos corpóreos sustentam o corpo segundo o tempo que permanecem no estômago, também o Pão celestial continua a alimentar de graças a alma, enquanto permanece no corpo, contanto que as boas disposições do comungante prossigam.

Além disto, os actos de virtude têm então mais valor e merecimento, em razão da alma estar mais unida com Jesus Cristo, que assim o declara: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu permaneço nele.

Então, diz São João Crisóstomo, o comungante forma uma só e mesma coisa com Jesus Cristo. Deste modo, são mais meritórios os actos, por serem praticados por uma alma unida a Jesus Cristo.

Mas, por outro lado, não quer o Senhor que as suas graças se percam, prodigalizando-as a ingratos, segundo a expressão de São Bernardo. Tenhamos pois cuidado de nos entretermos com Jesus Cristo depois da missa, ao menos durante uma meia hora, ou o mínimo um quarto de hora; mas, ai!, um quarto de hora é muitíssimo pouco. Devemos considerar que o padre, desde o dia da sua ordenação, não é de si próprio, mas de Deus. E o próprio Senhor disse: Hão de oferecer ao Senhor, seu Deus, o incenso e o pão; e por consequência serão santos.

5º. O padre que se abstém de celebrar

Há padres que se abstém de celebrar por humildade; uma palavra sobre este assunto. Abster-se de celebrar por humildade é bom, mas não é o que há de melhor: os actos de humildade prestam a Deus uma honra finita, o sacrifício da missa rende-lhe uma honra infinita, que lhe é prestada por uma Pessoa divina. Ouçamos o que diz São Boaventura: Quando o padre deixa de celebrar, sem impedimento legítimo, faz quanto pode para privar a santíssima Trindade da glória que lhe é devida, os anjos de uma grande alegria, os pecadores do perdão, os justos de auxílios, as almas do Purgatório de alívio, a Igreja de um grande bem e a si próprio de remédio.

Achava-se São Caetano em Nápoles, quando soube que em Roma, um seu amigo cardeal, que costumava celebrar todos os dias, impedido por certos negócios, começava a descurar este dever. Era na força do calor do estio, mas o santo, com risco da própria vida, deu-se pressa em ir a Roma instar com o seu amigo, para que retomasse o antigo costume; e só depois de conseguido o que desejava voltou para Nápoles. Eis o que se lê na Vida do venerável João de Avila. Indo um dia a caminho para celebrar num ermitério, sentiu-se tão enfraquecido, que temeu não chegar ao lugar, donde estava ainda bastante distanciado; pensava já em suspender o passo e desistir de celebrar, quando Jesus Cristo lhe apareceu em figura de viageiro e, mostrando-lhe o seu peito, lhe fez ver as chagas, sobretudo a do sagrado lado e lhe disse: "Quando eu estava coberto destas chagas, encontrava-se mais fatigado e enfraquecido que tu"; e desapareceu.

Reanimando com esta visão, o servo de Deus retomou a marcha e teve a felicidade de oferecer o santo sacrifício.

Santo Afonso Maria de Ligório in 'A Selva'


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