segunda-feira, 19 de agosto de 2019

São João Eudes, precursor da devoção aos Sagrados Corações

Fundador de duas congregações religiosas e de seis seminários, foi grande pregador popular, realizando mais de cem missões. Deixou escritas inúmeras obras ascéticas e místicas.

São João Eudes nasceu na pequena cidade de Ry (diocese de Séez, na Baixa-Normandia, França), no dia 13 de Novembro de 1601. O seu pai, Isaac, havia tentado a carreira sacerdotal, mas fora obrigado a abandoná-la devido à morte de quase toda a família, vítima da peste. Dedicou-se então à agricultura, exercendo também as funções de médico rural. Rezava diariamente o breviário e rivalizava em virtude com a esposa, Marta. O primogénito dos sete filhos que tiveram, João Eudes, foi mais “fruto da oração que da natureza”. Por isso ofereceram-no a Nossa Senhora do Socorro, em acção de graças pelo seu nascimento.

O menino correspondeu ao desvelo dos pais, e aos 14 anos fez o voto de perpétua virgindade. Nessa época, foi enviado ao colégio dos padres jesuítas de Caen, onde estudou com brilho humanidades, retórica e filosofia. Desde muito pequeno, por inspiração do Divino Espírito Santo, João Eudes tinha profunda devoção aos Corações de Jesus e Maria. Em 1618 entrou para a Congregação Mariana do colégio, para incrementar ainda mais a sua devoção a Nossa Senhora. Recebeu então da Mãe de Deus inúmeras graças.

Em 1623, desejando tornar-se sacerdote, entrou para a Sociedade do Oratório de Jesus, fundada pouco antes pelo famoso Cardeal de Bérulle. O fundador concebeu por João Eudes uma estima tal, que o fazia pregar em público antes mesmo de sua ordenação sacerdotal. Esta deu-se em 1625. Apenas ordenado, foi cuidar de pessoas infectadas pela peste. Passou depois para o Oratório de Caen, tendo em vista preparar-se para a sua carreira missionária.

Recolhimento forçado por dois anos

Desde os 22 anos de idade, trabalhou incansavelmente no campo das missões populares. Pregador nato, tornou-se famoso como missionário. Dizia-se que, desde São Vicente Ferrer, a França não tivera um maior do que ele. Maravilhosamente bem dotado para a eloquência popular, entusiasmava as multidões e lograva copiosíssimos frutos de penitência. Impugnava com vigor todos os vícios, cortava na raiz os escândalos, e a todos pregava a verdade salvadora. A ardente caridade que manifestava no confessionário atraía os penitentes, porque ele, ao fulminar os vícios, sabia apiedar-se do pecador.

No ano de 1641, São João Eudes cumpria 40 anos de idade. Foi então atacado subitamente por grave enfermidade, que o levou a um repouso forçado, absoluto, durante dois anos. A Providência Divina queria que ele se preparasse no recolhimento para nova fase da sua vida, talvez a mais proveitosa: “Deus deu-me estes dois anos para empregá-los no retiro, para vagar na oração, na leitura de livros de piedade e em outros exercícios espirituais, a fim de preparar-me melhor para as missões.”

Ao recuperar a saúde, lançou-se novamente à vida missionária com novo fruto. Entretanto, afligia-se ao ver os resultados pouco duradouros das missões. Atribuía isso à falta de pastores cultos e piedosos que continuassem a acção dos missionários, mantendo aceso o fervor adquirido durante as missões. Para isso faltavam seminários nos quais os seminaristas recebessem, a par das virtudes próprias do seu sagrado estado, preparação para exercer os ofícios do seu ministério missionário. Se não havia seminários, por que não fundá-los? Muitos aconselhavam-no nesse sentido. Mas, devido às oposições, ele titubeava diante de tamanha responsabilidade.

Por outro lado, nas missões ele havia convertido um bom número de mulheres perdidas. Tocadas pela graça, elas queriam expiar, numa existência consagrada, a sua má vida. O missionário reuniu-as numa casa que alugara. Mas era difícil dirigi-las sem estarem ligadas por votos religiosos. O que fazer?

O encontro com Maria des Vallées

Foi então que, em meados de 1643, quando pregava na cidade de Coutances, recebeu um dos maiores favores da sua vida, como ele mesmo declara, ao encontrar-se com Maria des Vallées, uma virgem favorecida por fama de santidade. Filha de pobres agricultores, atraía os olhares de todos quando tratavam com ela das coisas da religião. Inteligente, bela, recusou diversas propostas de casamento, pois escolhera a Jesus Cristo como seu único Esposo. Ela havia se oferecido como vítima expiatória pelos pecados do mundo.

Um dos seus pretendentes recorreu à bruxaria para fazê-la mudar de ideias, e lançou sobre a jovem um malefício obtido de uma bruxa. Imediatamente Maria des Vallées foi possuída pelo demónio. O príncipe das trevas teve assim poder sobre o seu corpo, mas não podia penetrar na sua vontade. Frades e bispos exorcizaram-na sem sucesso.

Maria des Vallées aceitou com docilidade o facto, submetendo-se resignadamente à vontade de Deus. Assim, mesmo no meio das piores crises provocadas pelo pai da mentira, ela não perdia a sua admirável calma e fé invencível. Nos momentos em que o demónio a deixava, ela rezava, trabalhava e fazia penitência pela conversão dos pecadores.

Apesar das crises e das tentações, ela passou por quase todos os fenômenos da vida mística, inclusive o da troca de vontades com o supremo Senhor do Céu e da Terra. Durante dois anos sofreu em espírito os suplícios do inferno, e durante doze participou dos tormentos de Cristo.

Culto aos Sagrados Corações de Jesus e Maria

São João Eudes ficou sumamente cativado pela virtude dessa mulher heróica. Escutava-a com admiração e respeito, recebia os seus conselhos com avidez, e seguia-os escrupulosamente. Durante 15 anos, Maria des Vallées ofereceu-lhe a sua preciosa ajuda e poderoso apoio, tornando-se por vezes para o santo uma divina conselheira e inspiradora.

Foi ela quem incentivou São João Eudes a fundar uma ordem religiosa destinada à formação do clero nos seminários, e uma congregação de religiosas cuja missão seria a regeneração das mulheres arrependidas: “O projecto é sumamente agradável a Deus, e foi o próprio Deus Quem o inspirou”, disse-lhe, depois de muito rezar.

Assim incentivado, São João Eudes desligou-se da Congregação do Oratório e dedicou-se às novas fundações. Compôs um ofício em honra do Sagrado Coração de Maria, e começou a propagar o culto aos Sagrados Corações. Note-se que a sua pregação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus deu-se antes mesmo das revelações deste Coração divino a Santa Margarida Maria Alacoque.

Assim nasceram as Congregação de Jesus e Maria, ou dos Padres Eudistas, e a de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, ou Irmãs do Bom Pastor. O Instituto dos Padres Eudistas era secular, como o do Oratório, e tinha como fim principal a formação de sacerdotes zelosos, por meio de seminários e exercícios espirituais. Só após concluírem essa obra primordial, podiam seus membros pregar missões nas paróquias.

São João Eudes fundou também, para leigos que desejavam viver uma vida de perfeição, a Sociedade do Coração da Mãe Mais Admirável, que se assemelha às Ordens Terceiras de São Francisco e São Domingos, e dedicou as capelas dos seus seminários de Caen e Coutances aos Sagrados Corações. Neles estabeleceu confrarias em honra desses Sagrados Corações.

Persuadido de que não havia melhor modo de inspirar sólida piedade e de manter fervor durável do que a devoção aos Sagrados Corações, pregava por toda parte essa dupla devoção, que conhecia melhor do que ninguém. No fim das missões, ele estabelecia uma confraria, a do Santíssimo Coração de Maria.

São João Eudes fez celebrar a festa do Santíssimo Coração de Maria, pela primeira vez, em 1648. E mais tarde, em 1672, podia afirmar que essa comemoração se celebrava em toda a França. Nesse mesmo ano ele ordenou que, em todas as casas do seu Instituto, se celebrasse no dia 20 de Outubro a festa do Sagrado Coração de Jesus. O Ofício próprio e a Missa para essas solenidades foram compostos por ele, antecipando-se a Santa Margarida Maria no culto ao Sagrado Coração de Jesus. Com efeito, esta santa teve as suas revelações sobre o Sagrado Coração de Jesus em 1674, época na qual tal festa já se celebrava publicamente na família religiosa do Pe. Eudes, com os ofícios aprovados pelos bispos locais. Por isso, o Papa Leão XIII, ao proclamar em 1903 a heroicidade das suas virtudes, denominou-o “Autor do Culto Litúrgico do Sagrado Coração de Jesus e do Santo Coração de Maria”. 

São João Eudes pode ser considerado o doutor desses cultos, por ter exposto seu fundamento teológico, apresentado as fórmulas precisas de sua inovação, determinado o seu sentido prático e litúrgico, obtendo assim a aprovação da Hierarquia e os breves apostólicos destinados a propagar e perpetuar essa devoção.

Perseguido por inimigos internos

São João Eudes foi um inimigo declarado da heresia jansenista, essa espécie de protestantismo, que levava as pessoas a afastarem-se dos Sacramentos sob pretexto de indignidade. Os adeptos dessa heresia foram os que mais combateram as devoções pregadas pelo Santo. Se bem que não fosse partidário de disputas públicas e violentas, refutava esses inimigos disfarçados da Igreja, apoiando-se na doutrina tradicional católica e nas constituições pontifícias.

No ocaso de sua vida, São João Eudes teve que suportar muitas e pesadas cruzes, como enfermidades e lutos por amigos e benfeitores; murmurações e calúnias, não só da parte dos jansenistas, mas também de pessoas consagradas a Deus, que o acusavam de zelo indiscreto; manobras que visavam desacreditá-lo ante o Papa e o rei da França; e também a publicação de um libelo difamatório. Tudo isso perseguiu-o até o túmulo. 

Já no ano de 1680, tinha ele renunciado ao cargo de superior geral da sua congregação. Preparando-se com todos os tesouros espirituais que a Igreja possui para a última hora, rendeu o seu espírito no dia 19 de Agosto de 1680, aos 79 anos de idade.

Plinio Maria Solimeo in catolicismo.com.br

Obras utilizadas:

– Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XV, pp. 542 e ss.
– Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo III, pp. 381 e ss.
– Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1948, tomo IV, pp. 503 e ss.
– Charles Lebrun, Saint John Eudes, The Catholic Encyclopedia, tomo V, online edition,www.NewAdvent.org


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domingo, 18 de agosto de 2019

Cardeal Arinze celebra Missa Pontifical na Nigéria

O Cardeal Francis Arinze, ex-Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramento, celebrou uma Missa Pontifical na paróquia Nne Enyemaka. Esta paróquia está situada em Umuaka (Imo) e pertence a sacerdotes missionários da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro (FSSP). À celebração acorreu uma grande multidão de fiéis, sequioso do silêncio e sacralidade da Missa em latim. Uma verdadeira "Missa afro".








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Santíssimo Milagre Eucarístico de Santarém



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sábado, 17 de agosto de 2019

Se nos amamos e vamos casar, por que não podemos ter relações?

Esta é uma pergunta que alguns namorados cristãos comprometidos fazem. Se eles vivem um amor real, por que não podem expressá-lo num gesto de intimidade que poderia ajudar a crescer o afecto entre os dois? Se a união corporal será comum dentro de pouco tempo, por que não iniciá-la quando o amor parece já estar maduro? Certamente, a maioria dos cristãos aceita que uma relação realizada por pessoas que mal se conhecem é irresponsável e pecaminosa. Mas não seria exagerado dizer o mesmo do acto realizado por namorados sinceros, fiéis e que estão (quase) decididos a casar-se? 

Para responder a essa questão é preciso lembrar que a Igreja não tem autoridade para mudar o que Deus revelou. A Palavra de Deus é sempre viva e eficaz, é uma luz que guia nossos passos. E ela ensina: “O corpo não é para a fornicação, e sim para o Senhor, e o Senhor é para o corpo”; “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”[1]

Estes textos expressam o valor altíssimo do corpo humano, que é templo do Espírito Santo, e não algo que possa ser usado ou abusado. E a fornicação (acto sexual fora do casamento) é um acto pecaminoso, porque reduz o valor do corpo humano ao de uma coisa, a algo utilizável. As relações sexuais não são meros actos físicos, mas devem ser expressão de algo mais profundo: a doação total e incondicional de uma pessoa a outra. E essa doação é real e concretiza-se com o pacto matrimonial. Por isso, o acto sexual é bom quando procura o bem do casal e está aberto à transmissão da vida[2]. Esses são os dois fins do matrimónio.

Mas como aceitar isso nos nossos dias? Há algum motivo racional que poderia convencer-nos da verdade destes ensinamentos? Cremos que há vários motivos. Apresentamos agora alguns.

1. A relação sexual dentro do matrimónio defende especialmente a mulher e o possível fruto dessa relação: o filho. Se a geração de um filho se dá antes do matrimónio, o que geralmente ocorre? Esse novo ser passa a ser visto mais como um problema do que como um dom. Pois a concepção de um filho não obriga ao homem (o pai) a casar. Se o pai é recto e tem um sentido apurado de justiça, manterá as suas obrigações financeiras para com esse filho e para com a mulher. Mas isso não basta para a criança. Cada filho tem o direito de nascer dentro de um matrimónio sólido, no qual os pais procurem a felicidade juntos. Dentro do matrimónio, o filho é o seu fruto natural, está protegido social e juridicamente e é naturalmente visto como um dom, e não como um fruto indesejável;

2. Em geral, quem vive a castidade no namoro terá menos dificuldades de viver a fidelidade ao matrimónio. Hoje em dia, o “permissivismo” moral é grande. A “educação sexual” transmitida pelos meios de comunicação e, às vezes, pelas escolas, diz apenas: “Faz o que quiseres, desde que seja com preservativos e escondido dos teus pais”. Para vencer nesse ambiente hostil e irresponsável é necessária uma verdadeira educação à castidade, que é a protecção do amor autêntico. E o período de namoro serve para isso: para que o casal cresça no conhecimento mútuo, elabore projectos comuns e adquira virtudes indispensáveis para a vida matrimonial.

Se o casal vive bem esse período, sem chegar a ter intimidades próprias da vida matrimonial, passará por uma verdadeira escola de castidade e de fidelidade. Constatamos que pecar contra a castidade antes do matrimónio é tão fácil quanto pecar contra a fidelidade dentro dele. Assim, estará mais preparado para viver a fidelidade quem se preparou bem antes, vivendo a castidade no namoro;

3. O amor matrimonial não se reduz a um exercício físico, mas é a comunhão total de vida. Certa vez, disse Chesterton: «Em tudo o que vale a pena, até em cada prazer, há um ponto de dor ou tédio que deve ser preservado, para que o prazer possa reviver e durar. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; a alegria em ler Virgílio vem depois do tédio de aprendê-lo; o brilho no banhista vem depois do choque gelado do banho do mar; e o sucesso do casamento vem depois da decepção com a lua-de-mel»[3]. O que diz esse autor, que foi um homem bem casado durante muitos anos, é uma verdade comprovável. O prazer do acto sexual certamente existe, mas não é tudo na vida matrimonial.

O acto sexual é, como todos os actos humanos, sempre ambíguo, pois ao mesmo tempo em que realiza quem o faz, causa certa frustração, porque o coração humano é feito para o infinito e não se contenta com actos singulares. Todo o jovem deve reconhecer isto, que faz parte de todo processo de maturação, e o ideal é que isso ocorra dentro do matrimónio. Só quem supera a “decepção” inicial pode ser feliz no matrimónio, pois a felicidade vem de Deus, do amor fiel e responsável renovado diariamente em actos de doação mútua. O amor não é o mesmo que o prazer, mas é uma entrega voluntária e fiel, que supera todas as dificuldades.

4. Boa parte dos casais que fazem planos sérios de casamento acabam por separar-se antes que isso aconteça. Nem o namoro e nem o noivado dão ao casal o mesmo nível de compromisso um com o outro que dá o matrimónio. Por isso, quem tem relações sexuais antes do casamento corre o sério risco de se entregar a alguém com quem acabrá por não se unir sacramentalmente. E tal pecado marca sempre profundamente a alma e traz sérias consequências (principalmente afectivas), ainda que seja plenamente perdoado por Deus após uma boa Confissão.

Nos tempos actuais as pessoas “usam” o sexo como se fosse um jogo. E o que acontece? Cada vez menos pessoas adquirem a capacidade de fazer escolhas definitivas, cada vez menos pessoas se casam. O acto matrimonial, ao qual Deus quis unir um prazer sensível, deve produzir um prazer superior, de natureza espiritual: a alegria de saber que se está a cumprir a vontade de Deus. E o acto de gerar um filho é algo de milagroso, no qual se dá a união das partes materiais provenientes dos pais e a criação de uma nova alma humana, directamente por Deus. O prazer que os pais têm ao saber que estão colaborando com Deus é algo único.

A resposta à pergunta diz, portanto, que o amor não é somente um sentimento vago, nem mesmo se reduz ao prazer. Mas é algo bem prático e exigente, que implica a vontade concreta de colaborar com os planos de Deus, que concebeu o acto matrimonial como a expressão perfeita de uma doação integral de duas pessoas, um homem e uma mulher, colaborando assim com a mesma obra criadora de Deus.

[1] I Cor. 6,13 e 18; cfr.: Tob. 4,13; At, 21,25; Ef. 5,3.
[2] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, § 2361-2363.
[3] Chesterton, O que há de errado no mundo, Editora Ecclesiae,Campinas2012.

Pe. Anderson Alves in Zenit


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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Não alimentar o ódio contra o pecador

Não alimentes o ódio contra o pecador, porque todos somos culpados. Se, por amor a Deus, tiveres contra ele motivos de censura, lamenta-o. Porque lhe terias tu ódio? É o seu pecado que deves odiar, e rezar por ele, se quiseres ser como Cristo, que, longe de Se indignar com os pecadores, rezava por eles: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). 

Que razão terias, pois, para odiar o pecador, tu que não passas de um homem? Seria por ele não estar à altura da tua virtude? Mas onde está a tua virtude se te falta a caridade?

Isaac o Sírio (século VII), monge perto de Mossul in Sentenças 117, 118 


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A heresia é o pecado dos pecados

A suprema deslealdade para com Deus é a heresia. É o pecado dos pecados, a mais repugnante das coisas que Deus desdenha neste mundo enfermo. No entanto, quão pouco entendemos da sua enorme odiosidade! É a poluição da verdade de Deus, o que é a pior de todas as impurezas.

Porém, quão pouca importância damos à heresia! Fitamo-la e permanecemos calmos... Tocamo-la e não trememos. Misturamos-nos com ela e não temos medo. Vemo-la tocar nas coisas sagradas e não temos nenhum sentido do sacrilégio. Inalamos o seu odor e não mostramos qualquer sinal de abominação ou de nojo. De entre nós, alguns simpatizam com ela e alguns até atenuam a sua culpa. Não amamos a Deus o suficiente para nos enraivecermos por causa da Sua glória. Não amamos os homens o suficiente para sermos caridosamente verdadeiros por causa das suas almas.

Tendo perdido o tato, o paladar, a visão e todos os sentidos das coisas celestiais, somos capazes de morar no meio desta praga odiosa, imperturbavelmente tranquilos, reconciliados com a sua repulsividade, e não sem proferirmos declarações em que nos gabamos de uma admiração liberal, talvez até com uma demonstração solícita de simpatia tolerante.

Por que estamos tão abaixo dos antigos santos, e até dos modernos apóstolos destes últimos tempos, na abundância das nossas conversões? Porque não temos a antiga firmeza! Falta-nos o velho espírito da Igreja, o velho génio eclesiástico. A nossa caridade não é sincera porque não é severa, e não é persuasiva porque não é sincera. 

Falta-nos a devoção à verdade enquanto verdade, enquanto verdade de Deus. O nosso zelo pelas almas é fraco, porque não temos zelo pela honra de Deus. Agimos como se Deus ficasse lisonjeado pelas conversões, e não pelas almas trémulas, salvas por uma abundância de misericórdia. 

Dizemos aos homens a metade da verdade, a metade que melhor convém à nossa própria pusilanimidade e aos seus próprios preconceitos. E, então, admiramo-nos que tão poucos se convertam e que, desses tão poucos, tantos apostatem. 

Somos tão fracos a ponto de nos surpreendermos que a nossa meia-verdade não tenha tanto sucesso como a verdade completa de Deus. 

Onde não há ódio à heresia, não há santidade. Um homem, que poderia ser um apóstolo, torna-se uma úlcera na Igreja por falta de reta indignação.

Pe. Frederick William Faber in 'The Precious Blood' (Tan Books and Publishers - 2009)


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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Festa da Assunção em Cantilhana (Sevilha)



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Assunção de Nossa Senhora aos Céus

Nosso Senhor quis subir aos Céus contemplado pelos homens. Mas quis também que a Assunção de Nossa Senhora ao Céu, depois da d'Ele, se desse diante do olhar humano. Por quê?

Era preciso que a Ascensão fosse vista por homens que pudessem dar testemunho desse facto histórico duplo: não só de que Nosso Senhor ressuscitou, mas de que tendo ressuscitado Ele subiu aos Céus.

Subindo ao Céu, Ele abriu o caminho para as incontáveis almas que estavam no Limbo, à espera da Ascensão para poderem subir ao Padre Eterno. Antes de Nosso Senhor Jesus Cristo ninguém podia entrar no Céu. Apenas Anjos estavam lá. Como Redentor, Nosso Senhor abriu a porta dos Céus aos homens. Também era preciso que Ele, que sofreu todas as humilhações, tivesse todas as glorificações.

E glória maior e mais evidente não pode haver do que o subir aos Céus, porque significa ser elevado por cima de todas as coisas da Terra e unir-se com Deus Pai transcendendo este Mundo onde nós estamos para se unir eternamente com Deus no Céu Empíreo.

Jesus Cristo quis que Nossa Senhora tivesse a mesma forma de glória.

Assim como Ela tinha participado como ninguém do mistério da Cruz, que Ela participasse também da glorificação d'Ele. A glorificação d'Ela deu-se sendo levada aos céus. 

Foi uma Assunção e não uma ascensão. A ascensão foi a de Nosso Senhor ao Céu por Sua própria força e poder. A Assunção não é igual. Nossa Senhora não subiu ao Céu por um poder próprio, mas pelo ministério Aos anjos. Ela foi levada aos Céus pelos Anjos. Foi a grande glorificação d'Ela nesta Terra, prelúdio da glorificação d'Ela no Céu.

No momento em que entrou ao Céu, foi coroada como Filha dilecta do Pai Eterno, como Mãe admirável do Verbo Encarnado e como Esposa fidelíssima do Divino Espírito Santo.

A Assunção é um fenómeno gloriosíssimo!

Quando se quer glorificar alguém, põem-se nos seus melhores trajes; em casa exibem-se os melhores objectos, ornamenta-se com flores, tudo aquilo que há de mais nobre é exibido para glorificar a pessoa a quem se quer homenagear. 

Esta regra da ordem natural das coisas é seguida também no Céu. Então é claro que o maior brilho da natureza angélica, o fulgor mais estupendo da glória de Deus deve ter aparecido no momento em que Nossa Senhora subiu ao Céu. 

Muitas vezes na História, a presença dos Anjos faz-se sentir de um modo imponderável, embora não seja uma revelação deles. Mas nesta ocasião, deveriam estar rutilantíssimos, num esplendor invulgar. 

É natural também que o Sol tenha brilhado de um modo magnífico, que o Céu tenha ficado com cores variadas reflectindo a glória de Deus como numa verdadeira sinfonia. 

É natural que as almas das pessoas que estavam na Terra tenham sentido essa glória de um modo extraordinário, a verdadeira manifestação do esplendor de Deus em Nossa Senhora. 

Nenhum dos esplendores da natureza podia comparar-se com o esplendor pessoal de Nossa Senhora que subia ao Céu. À medida que Ela ia subindo, como num verdadeiro monte Tabor, a glória interior d'Ela ia transparecendo aos olhos dos homens. 

O Antigo Testamento diz: Omnis glória eius filia regis ab intus (Ps 44, 10) – Toda a glória da filha do Rei lhe vem de dentro. 

Com certeza essa glória interna manifestou-se do modo mais estupendo quando, já no alto da sua trajetória celeste, Ela olhou uma última vez para os homens, antes de deixar definitivamente este vale de lágrimas e ingressar na glória de Deus.

Foi o acontecimento mais esplendorosamente glorioso da História depois da Ascensão de Nosso Senhor. Comparável apenas com o dia do Juízo Final em que Nosso Senhor Jesus Cristo virá em grande pompa e majestade para julgar os vivos e os mortos. Junto com Ele, toda reluzente da glória d'Ele, aparecerá também Nossa Senhora. 

Devemos considerar a impressão que tiveram os apóstolos e os discípulos quando A viram subir ao Céu. Os Evangelhos narram que o apóstolo São Tomé duvidou da Ressurreição. Por isso foi convidado por Nosso Senhor a meter a mão na chaga sagrada do flanco d'Ele. Ele recebeu a Pentecostes e ficou confirmado em graça e um grande santo. 

Mas conta uma tradição venerável que, porque ele duvidou da Ascensão, na hora da morte e da Assunção de Nossa Senhora ele não estava presente. Quando ele chegou Nossa Senhora já estava a certa distância da Terra. Foi um castigo pungente e merecido por uma culpa tão reparada. Então, conta-se que Ela sorrindo, concedeu uma graça a ele que não concedeu a nenhum outro: 

Ela desatou o seu cinto e de lá de cima fez cair o cinto sobre ele, que ele recebeu – não como um perdão, porque ele já estava perdoado – mas como uma suprema graça, que era uma relíquia caída do alto dos Céus.

Assim faz Nossa Senhora quando tem algo a perdoar a algum filho muito dilecto. As vezes em que pune fá-lo com um sorriso tão bondoso, de um perdão tão completo e de uma graça tão grande que São Tomé poderia mostrar esse presente e dizer: “O felix culpa - Ó culpa feliz! Eu tive a desgraça de duvidar do meu Salvador, mas em compensação tive a felicidade de receber esta relíquia directa e celeste de minha Mãe Santíssima.”

Isto deve-nos encorajar. Não há nenhum de nós que não tenha falhas, não tenha algum perdão a pedir. Nós devemos pedir a Nossa Senhora na festa da Assunção que Ela olhe para nossas falhas, e nos dê um presente.

Se nós chegarmos atrasados, que Ela nos dê o favor especial, particularmente rico e suave, de maneira tal que quando surgirem os acontecimentos anunciados por Nossa Senhora em Fátima nós estejamos prontos. Em Fátima durante no Milagre do Sol, este manifestou-se de um modo esplêndido, num espectáculo de terribilidade.

Na Assunção de Nossa Senhora podemo-nos ir preparando para os grandes momentos previstos em Fátima com a certeza de que Ela nos sorrirá com a maternidade com que tratou São Tomé.


Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 10.VIII.1968


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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Milagre do Sol em Roma e o Dogma da Assunção de Nossa Senhora

Em 1950, a poucos dias da proclamação do Dogma da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao Céu, Pio XII presenciou, no jardim do Vaticano, o mesmo fenómeno extraordinário que os peregrinos viram em Fátima, a 13 de Outubro de 1917, quando o sol dançou, mudou de cor e se podia olhar directamente sem ferir os olhos. 

Pio XII referiu aos seus colaboradores mais próximos o que tinha visto e o Cardeal Tedeschini contou-o durante uma homilia. Há alguns anos, descobriu-se a folha manuscrita pelo próprio Pio XII com a descrição do que aconteceu. Como costumava fazer, Pio XII escrevia em folhas de rascunho, utilizadas pelo outro lado.

Pelas 4 horas da tarde do dia 30 de Outubro, «quando dava a passeata habitual pelo jardim do Vaticano, lendo e estudando», ao sair da praceta onde está a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, levantou os olhos das folhas que lia. «Assisti a um fenómeno que nunca tinha visto. O sol, que ainda ia bastante alto, parecia um disco amarelado, circundado de uma auréola luminosa», que não feria os olhos. Havia uma pequenina nuvem diante. «O disco opaço movia-se ligeiramente na periferia ora girando, ora inclinando-se para a esquerda ou para a direita. Mas no interior do disco viam-se com toda a clareza uns movimentos fortíssimos, sem interrupção».

Pio XII voltou a assistir a este fenómeno no dia seguinte, 31 de Outubro, e novamente no dia a seguir, 1 de Novembro, no qual definiu, numa sessão solene em S. Pedro, o referido Dogma da Assunção de Nossa Senhora.

Nos dias seguintes, Pio XII tentou voltar a olhar para o Sol, para ver o mesmo fenómeno, mas só voltou a acontecer uma vez, no dia 8 de Novembro. Tentou várias vezes, mas nem sequer conseguia fixar directamente a luz solar sem ficar ofuscado.

O Cardeal Tedeschini, legado pontifício a Fátima, mencionou estes acontecimentos, apesar de o próprio Papa preferir não lhes dar muita publicidade. Pio XII compreendeu que a mensagem era principalmente para ele e não devia transformar-se numa distracção para o anúncio do Evangelho.

Quando teve notícia das aparições de Fátima, Pio XII compreendeu outro pequeno sinal do Céu. É que o Papa da época tinha-o ordenado bispo na capela Sistina, exactamente no 13 de Maio de 1917.

Segundo a «Agência Ecclesia», o Papa Pio XII ter-se-ia encontrado com a Irmã Lúcia e ordenou-lhe que transcrevesse as mensagens recebidas de Nossa Senhora. Não conseguimos confirmar esta notícia, mas é verdade que foi a autoridade eclesiástica que pediu à Irmã Lúcia que escrevesse em pormenor sobre as aparições e foi Pio XII o primeiro Papa que reconheceu a credibilidade das aparições.

José Maria C.S. André


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Um Santo no Campo de Concentração

Recordemos um dos exemplos admiráveis de São Maximiliano Maria Kolbe, o Santo mártir polaco, "louco da Imaculada".

Quando o Santo foi preso, fecharam-no no famigerado cárcere de Varsóvia, o Pawiak. Um dia passou pelo controlo dos prisioneiros um chefe de repartição alemão mais feroz do que qualquer outro. Entrando na cela onde estavam três deportados, ao ver o hábito de frade de São Maximiliano, aquele chefe de repartição enfureceu-se cegamente. Aproximou-se imediatamente de São Maximiliano, agarrou-lhe o crucifixo que lhe pendia do Rosário à cintura e, puxando-o aos safanões, gritou com voz de ódio:

- Mas tu acreditas nisto?

- Acredito, e de que maneira! - respondeu calmo o Santo.

Imediatamente um murro brutal acertou no rosto do Santo. Depois, novamente, por mais duas vezes, a mesma pergunta, a mesma resposta, e as mesmas violentas pancadas. Os companheiros de cela ficavam horrorizados e estremeciam de raiva contra aquele oficial, mas sem poder fazer nada; e quando ele se foi embora, foi o próprio São Maximiliano que procurou acalmar a ira dos seus companheiros, dizendo-lhes: "Deixem lá! Isto não foi nada, é tudo pela Mãezinha."

Pe. Stefano Manelli in 'A Devoção a Nossa Senhora: Vida Mariana na Escola dos Santos', Cidade do Imaculado Coração de Maria, Fátima, 2015


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terça-feira, 13 de agosto de 2019

O dia em que Nossa Senhora não apareceu em Fátima porque os Pastorinhos foram presos

Há 100 anos Nossa Senhora ia aparecer na Cova da Iria, como tinha prometido aos Pastorinhos. No entanto, o Governo Republicano tinha sufocado a Igreja com um conjunto de leis injustas e não permitia qualquer manifestação pública da Fé católica que não tivesse sido aprovada. O Administrador de Ourém mandou aprisionar os Pastorinhos nesse dia 13 de Agosto e fez-lhes todo o tipo de ameaças cruéis. Eis como a Irmã Lúcia descreveu a situação, nas suas Memórias:

Quando, passado algum tempo, estivemos presos, a Jacinta, o que mais Ihe custava era o abandono dos pais; e dizia, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces: 

– Nem os teus pais nem os meus nos vieram ver. Não se importaram mais de nós! 
– Não chores – Ihe disse o Francisco.
 – Oferecemos a Jesus, pelos pecadores. 
E levantando os olhos e mãozinhas ao Céu, fez ele o oferecimento:
– Ó meu Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores. 
A Jacinta acrescentou: 
– É também pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria. 

Quando, depois de nos terem separado, voltaram a juntar-nos em uma sala da cadeia, dizendo que dentro em pouco nos vinham buscar para nos fritar, a Jacinta afastou-se para junto duma janela que dava para a feira do gado. Julguei, a princípio, que se estaria a distrair com as vistas; mas não tardei a reconhecer que chorava. Fui buscá-la para junto de mim e perguntei-Ihe por que chorava: 

– Porque – respondeu – vamos morrer sem tornar a ver nem os nossos pais, nem as nossas mães! E com as lágrimas as correr-lhe pelas faces: – Eu queria sequer, ver a minha mãe! 
– Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão dos pecadores? 
– Quero, quero. E com as lágrimas a banhar-lhe as faces, as mãos e os olhos levantados ao Céu, faz o oferecimento: 

– Ó meu Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria. Os presos que presenciaram esta cena quiseram consolar-nos: 
– Mas vocês – diziam eles – digam ao Senhor Administrador lá esse segredo. Que Ihes importa que essa Senhora não queira? 
– Isso não! – respondeu a Jacinta com vivacidade. – Antes quero morrer.

Determinámos, então, rezar o nosso Terço. A Jacinta tira uma medalha que tinha ao pescoço, pede a um preso que Ihe pendure em um prego que havia na parede e, de joelhos diante dessa medalha, começamos a rezar. Os presos rezaram connosco, se é que sabiam rezar; pelo menos estiveram de joelhos. 

Terminado o Terço, a Jacinta voltou para junto da janela a chorar. 

– Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso Senhor? – Ihe perguntei. 
– Quero; mas lembro-me de minha mãe e choro sem querer. 

Então, como a Santíssima Virgem nos tinha dito que oferecêssemos também as nossas orações e sacrifícios para reparar os pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria, quisemos combinar a oferecer cada um pela sua intenção. Oferecia um pelos pecadores, outro pelo Santo Padre e outro em reparação pelos pecados contra o Imaculado Coração de Maria. Feita a combinação, disse à Jacinta que escolhesse qual a intenção por que queria oferecer. 

– Eu ofereço por todas, porque gosto muito de todas.


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Nossa Senhora prometeu acabar com o comunismo na Rússia


"É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio."


Nossa Senhora de Fátima à Irmã Lúcia (Tuy - 13.VI.1929)


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A oração é necessária à salvação da alma?



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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Cardeal Pell quebra silêncio e escreve uma carta da prisão

O Cardeal George Pell foi preso - injustamente - há 6 meses. Desde aí tem estado em silêncio mas resolveu manifestar-se agora publicamente para agradecer o enorme apoio que tem recebido por parte dos fiéis e também comentar a polémica em torno do Sínodo da Amazónia, que terá lugar em Outubro no Vaticano:

Querida Kathy e irmãos e irmãs em Cristo do grupo Support Cardinal Pell,

Antes de tudo, deixem-me agradecer-vos as orações e mensagens de apoio, que trazem imenso consolo, humana e espiritualmente.

Uma explicação prévia: Eu recebi entre 1500 a 2000 cartas e serão respondidas. Até agora, apenas respondi a alguns dos meus companheiros de prisão e alguns outros casos especiais. A vossa gentileza não será esquecida e sempre será lembrada com carinho.

A minha Fé em Nosso Senhor, assim como a vossa, é uma fonte de força. Saber que o meu pequeno sofrimento pode ser usado com bons propósitos através da união com o sofrimento de Jesus motiva-me e mostra-me o caminho a seguir. Desafios e problemas na vida da Igreja devem ser confrontados com essa Fé.

Devemos ter sempre presente que a Igreja Católica é una, não apenas como uma família que permanece unida nos momentos difíceis, mas porque a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, que constitui o Corpo de Cristo. Um ditado antigo ensina que deve haver unidade no essencial e diversidade no que não é essencial. Mas em sempre e em tudo devemos ter caridade.

Concordo que temos motivos para ficarmos preocupados com o Instrumentum Laboris do Sínodo da Amazónia. Este não é o primeiro documento de má qualidade apresentado pelo secretariado do Sínodo. O Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu uma excelente crítica. Não sou especialista na região, mas estive no Equador e na Amazónia Peruana, onde um sacerdote de Sydney, o Padre John Anderson, administra uma paróquia de exemplar piedade, actividade pastoral e ortodoxia. Como na Amazónia ainda falta muita água correr antes do fim do Sínodo.

Um ponto é fundamental. A tradição dos Apóstolos, os ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos, tirados do Novo Testamento e ensinados por Papas e concílios, pelo Magistério, é o único critério doutrinal para o ensino sobre doutrina e prática. Na Amazónia ou fora da Amazónia, em qualquer lado, a Igreja não pode permitir confusão, muito menos algum ensinamento contrário à Tradição Apostólica.

O Espírito continua a estar na Igreja. Vocês têm todo o direito a fazer com que as vossas vozes sejam ouvidas, razoavelmente e com caridade. Não precisamos de esperar o pior.

Vosso no Senhor,
Vosso grato irmão

+ George Card Pell


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Cardeal Burke ordena um Ermita de Nossa Senhora do Monte Carmelo

Graças a Deus ainda existem ermitas hoje em dia. Um deles foi hoje ordenado sacerdote pelo Cardeal Burke na Diocese de Harrisburg, no Estado da Pensilvânia (EUA). O Padre Thomas Mary pertence aos ermitas de Nossa Senhora do Monte Carmelo; uma comunidade que observa o carisma dos primeiros ermitas do Monte Carmelo e a regra primitiva de Santo Alberto de Jerusalém. 










Fotografias: An American Photographer


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domingo, 11 de agosto de 2019

A incrível história de Santa Filomena

Santa Filomena foi uma mártir do séc. III, conhecida mundialmente pelos seus muitos milagres. Muitos santos tinham-lhe grande devoção, como São Pio X, São João Maria Vianney, São Bartolomeu Longo ou São Pio de Pietrelcina, o Padre Pio.

Segue-se a descrição da vida de Santa Filomena extraída do relato oficial do Padre Francesco di Lucia, intitulado 'Relazione Istorici di Santa Filomena', e subsequentes actualizações, a partir das locuções recebidas pela irmã Luísa de Jesus em Agosto de 1833; relatos estes que receberam autorização oficial do então Santo Ofício (hoje a Congregação para a Doutrina da Fé) a 21 de Dezembro de 1833:

«Minha querida irmã, sou a filha de um Príncipe que governava uma pequena cidade-estado na Grécia. A minha mãe era também de sangue real. Os meus pais não tinham filhos. Eles eram idólatras; continuamente ofereciam sacrifícios e orações aos falsos deuses. Um doutor proveniente de Roma, chamado Publius, vivia no palácio ao serviço de meu pai. Este doutor professava o Cristianismo. Vendo a aflição dos meus pais, pelo impulso do Espírito Santo, falou-lhes do Cristianismo, e prometeu rezar por eles se eles consentissem em receber o Baptismo.

A Graça que acompanhava as suas palavras iluminou-lhes a razão e triunfou sobre as suas vontades. Eles tornaram-se cristãos e obtiveram a tão desejada felicidade que Publius lhes havia assegurado, como recompensa da sua conversão. No momento de meu nascimento, eles deram-me o nome de 'Lumena', uma alusão à luz da Fé da qual eu tinha sido. No dia de meu Baptismo, eles chamaram-me 'Filomena', ou 'Filha da Luz', porque naquele dia eu nascera para a Fé.

A afeição que os meus pais tinham por mim era tanta que eles me tinham sempre consigo. Foi por conta disto que me levaram a Roma numa viagem que meu pai foi obrigado a fazer por ocasião de uma guerra injusta com a qual ele foi ameaçado pelo arrogante Imperador Diocleciano. Eu tinha então 13 anos. Fomos conduzimos ao palácio do Imperador e recebidos numa audiência.

Tão logo Diocleciano me viu, os seus olhos fixaram-se sobre mim. Ele aparentava estar perturbado a este respeito durante todo o tempo em que meu pai estava a falar com sentimentos animados tudo o que pudesse servir para sua defesa. Tão logo o meu pai cessou de falar, o Imperador disse-lhe que não mais ficasse preocupado, que banisse todo o medo, que pensasse apenas em viver em felicidade.

Estas foram as palavras do Imperador, “Eu colocarei à sua disposição toda a força do Império. Eu peço apenas uma coisa, que é a mão da sua filha”.

Meu pai, ofuscado com uma honra que lhe era distante de ser esperada, livre e instantaneamente aderiu à proposta do imperador. Quando retornamos a nossa casa, os meus pais fizeram de tudo que podiam para induzir-me a sucumbir às vontades de Diocleciano e deles mesmos.

Eu chorei, e disse: “Desejam que, pelo amor de um homem, eu quebre a promessa que fiz a Jesus Cristo? A minha virgindade pertence-Lhe. Eu não mais posso dispor dela.”

“Mas tu eras jovem, demasiadamente jovem para ter formado tal compromisso”, respondeu o meu pai. Ele juntou as mais terríveis ameaças à ordem que havia me dado de aceitar a mão de Diocleciano. A Graça do meu Deus tornou-me invencível, e o meu pai, não sendo capaz de dissuadir o Imperador, de forma a libertar-se da promessa que fizera, foi obrigado por Diocleciano a levar-me à presença do Imperador.

Tive que resistir por algum tempo diante da fúria do meu pai. A minha mãe, unindo os seus esforços aos dele, decidiu fazer qualquer coisa de forma a conquistar minha determinação. Carinhos, ameaças, tudo foi empregue de forma a reduzir-me à submissão. Cheguei a vê-los ambos caírem aos meus joelhos e dizer-me com lágrimas nos olhos: “Minha criança, tem piedade do teu pai, da tua mãe, do teu país, do nosso país, das nossas pessoas.”
“Não! Não”, respondi. “A minha virgindade, que eu consagrei a Deus, vem antes de tudo, antes de vocês, antes do meu país. O meu reino é o Céu.”

As minhas palavras mergulharam-nos em desespero, e eles levaram-me diante do Imperador, que da sua parte fez de tudo para me vencer. Contudo, as suas promessas, as suas seduções, as suas ameaças foram igualmente inúteis. Foi tomado por uma súbita ira e, influenciado pelo Demónio, lançou-me numa das prisões do palácio, onde me manteve aprisionada com correntes. 

Pensando que a dor e a vergonha me iriam enfraquecer a coragem com que o meu Divino Esposo me tinha inspirado, ele vinha ver-me todos os dias. Depois de vários dias, o Imperador deu ordem para que as minhas correntes fossem afrouxadas, para que eu pudesse tomar uma pequena porção de pão e água.

Ele renovou os seus ataques, alguns dos quais teriam sido fatais à pureza não fosse pela Graça de Deus. As derrotas que ele experimentava eram também prelúdio de novas torturas para mim. A oração era o meu sustento. Eu não cessava de me recomendar a Jesus e à sua mais pura Mãe. O meu cárcere havia já durado 37 dias, quando, no meio de uma luz celestial, eu vi Maria que segurava o Divino Filho nos seus braços.

“Minha filha”, disse, “mais três dias de prisão e depois de 40 dias deixarás este estado de dor.” Esta boa notícia fez com que o meu coração pulasse de alegria. Mas a Rainha dos Anjos acrescentou que eu iria sair da minha prisão, para sustentar, em tormentos amedrontadores, um combate muito mais terrível que aqueles precedentes. Caí instantaneamente da alegria para a mais cruel angústia; pensei que isto iria matar-me.

“Tenha coragem, minha criança”, disse Nossa Senhora, “não estás ciente do predilecto amor que guardo por ti? O nome que recebeste no baptismo é a tua segurança, pela semelhança com o nome do meu Filho e com o meu. Chamas-te 'Lumena', como o teu Esposo é chamado por Luz, Estrela, Sol, como eu mesma sou chamada por Aurora, Estrela, a Lua no esplendor do seu brilho, e Sol. Não tenhas medo, ajudar-te-ei. A natureza, que agora te humilha, assevera as suas leis. No momento do combate, a Graça virá emprestar-te a sua força. O teu Anjo, que também foi meu, Gabriel, cujo nome expressa fortaleza, virá em teu auxílio. Eu recomendar-te-ei especialmente ao seu cuidado, como a bem amada dos meus filhinhos.”

Estas palavras da Rainha das Virgens deu-me coragem novamente, e a visão desapareceu, deixando a prisão repleta de um perfume celestial. Experimentei uma alegria fora deste mundo. Algo indefinível. Aquilo para o qual a Rainha dos Anjos me preparou foi logo experimentado. Diocleciano, desesperado em dobrar-me, decidiu pôr um castigo público que ofendesse a minha virtude. Ele condenou-me a ser despida e açoitada como o Esposo que eu preferi. Estas foram as suas horrificantes palavras: 

“Dado que ela não está envergonhada de preferir a um Imperador como eu um malfeitor condenado a uma morte infame pela sua própria gente, ela merece que a minha justiça a trate como ele foi tratado”.

Os guardas da prisão hesitaram em despir-me inteiramente, mas eles ataram-me a uma coluna na presença de um grande homem da corte. Chicotearam-me com violência, até que eu estivesse banhada em sangue.O meu corpo inteiro parecia uma única ferida aberta, mas não sucumbi. O tirano arrastou-me de volta ao cárcere, aguardando que eu morresse. Eu esperava juntar-me ao meu Divino Esposo. Dois anjos, resplandecentes de luz, apareceram na escuridão. Eles vertiam um confortante bálsamo nas minhas feridas, garantindo-me um vigor que eu não possuía antes da tortura. Quando o imperador foi informado da mudança que se operou em mim, mandou chamar-me

Ele olhou para mim e ficou estupefacto. Tentou persuadir-me de que eu devesse a minha cura e vigor renovado a Júpiter, um outro deus, que ele, o Imperador, me tinha enviado. Ele tentou impressionar-me com a sua crença de que Júpiter me desejava para ser a Imperatriz de Roma. Juntando a estas palavras sedutoras promessas de grandes honrarias, incluindo as mais bajuladoras palavras, Diocleciano tentou acariciar-me. Amigavelmente, tentou completar o trabalho do Inferno que ele havia iniciado. O Divino Espírito, a Quem eu sou devedora pela constância em preservar minha pureza, parecia encher-me com luz e conhecimento. A nenhuma das provas que lhes dei a respeito da solidez da nossa Fé, nem Diocleciano nem os seus cortesãos puderam encontrar qualquer resposta. 

Então, a sua insanidade de Imperador voltou, ordenando a um guarda que me prendesse a uma âncora em volta de meu pescoço e enterrar-me nas águas do rio Tibre. A ordem foi executada. Fui lançada dentro d’água, mas Deus enviou-me dois anjos que me desamarraram da âncora. Os anjos transportaram-me gentilmente à vista da multidão até o leito do rio. Voltei ilesa, depois de ser imersa juntamente com a pesada âncora. Este milagre felizmente produziu efeitos sobre uma grande número dos espectadores, e eles converteram-se à fé. Mas Diocleciano atribuiu a minha preservação a uma mágica secreta.

Então, o Imperador fez com que eu fosse arrastada pelas ruas de Roma e que fosse alvejada por uma saraivada de flechas. O meu sangue verteu, mas não desanimei. Diocleciano pensou que eu estava para morrer e ordenou aos guardas que me conduzissem de volta ao cárcere. 

Novamente ali, o Céu honrou-me com mais um novo favor. Caí num doce sono, e encontrei-me perfeitamente curada quando acordei. Diocleciano sabendo disto: “Bem, então,” ele gritou com veemência, “deixemo-la ser transpassada com flechas pontiagudas uma segunda vez, e deixemo-la morrer durante a tortura.” 

Novamente, os arqueiros curvaram os seus arcos. Eles acumularam toda a sua força, mas as flechas recusaram-se a seguir as suas intenções. O Imperador estava presente. Transtornado, chamou-me de bruxa. Pensando que a acção do fogo pudesse destruir o encanto, ordenou que as flechas fossem tornadas incandescentes numa fornalha e apontados para o meu coração.

Foi obedecido mas estas flechas, depois de terem percorrido uma parte da distância devida para me atingir, tomaram a direcção contrária e retornaram para atingir aqueles pelos quais haviam sido arremessadas. Seis dos arqueiros foram mortos por elas. Muitos deles renunciaram ao paganismo, e o povo começou a render testemunho público ao poder de Deus que me protegera. 

Estes murmúrios e aclamações enfureceram o tirano. Ele determinou que apressassem a minha morte ordenando que eu fosse decapitada. A minha alma alçou vôo em direcção de meu celestial Esposo, que me colocou, com a coroa da virgindade e a palma do martírio, num lugar distinto entre os eleitos.

O dia que foi tão feliz para mim e me viu entrar na glória foi uma Sexta-Feira, e a hora da minha morte foi a terceira hora depois do meio dia, ou seja, a mesma hora que viu o meu Divino Mestre expirar.»


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