domingo, 1 de agosto de 2021

Festa de São Pedro ad Vincula

No dia 1 de Agosto, a liturgia da Igreja comemora a Festa de São Pedro ad Vincula, honrando as correntes que aprisionaram o Santo Apóstolo e o facto histórico da sua libertação do cárcere, por meio de um Anjo (Actos 12, 1-19). Esta festa foi retirada do calendário e da liturgia pelos destruidores da liturgia da igreja pós-conciliar.

A festa de São Pedro ad Vincula é celebrada no dia 1 de Agosto em referimento ao Titulus Apostolorum que comemorava nesta data as correntes de São Pedro e a sua milagrosa libertação ocorrida por meio de um anjo do Senhor. É uma festa romana. Está ligada à dedicação da igreja de S. Pietro in Vincoli, na colina Oppio, em Roma; basílica que foi restaurada por Sixto III às expensas da família imperial.

No calendário litúrgico, as festas dedicadas a Cátedra de São Pedro são três: a de hoje, a de 18 de Janeiro (Cathedra Romana) e a de 22 de Fevereiro (Cathedra Antiochena) (Cf. A.P. FRUTAZ - E. JOSI, ad vocem Cattedra di S. Pietro, in Enciclopedia Cattolica, III, Roma, 1949, colI. 1172-1173).

A festa do dia 22 de Fevereiro, é relacionada ao Magistério de Pedro. Na Depositio martyrum (sec. IV), esta data é associada à comemoração do "Natale Petri de Cathedra" (cf. P. DELEHA YE, Les origines du culte des martyrs, Bruxelles, 1933, p. 263-269).

S. Agostino, no seu Sermão 190, (pl 39, col. 2100) considera o dia 22 de Fevereiro como a data de início do episcopado romano de Pedro. A data do dia 18 de Janeiro foi introduzida pelo rito galicano (metà VI sec.). Depois do ano mil, as duas datas aparecem nos livros litúrgicos romanos (Cf. P. FRUTAZ - E. JOSI, op. cit., 1949, col. 1173).

in Pale Ideas


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sábado, 31 de julho de 2021

Exame dos Pensamentos - Santo Inácio de Loyola

Exame Geral de Consciência para se purificar e para melhor se confessar: Pensamentos. 

Há duas maneiras de merecer no mau pensamento que vem de fora:

A primeira, vem, por exemplo, um pensamento de cometer um pecado mortal. Resisto-lhe prontamente, e fica vencido.
A segunda maneira de merecer é quando me vem aquele mesmo mau pensamento e eu lhe resisto, e torna-me a vir, uma e outra vez, e eu resisto sempre, até que o pensamento se vai vencido. Esta segunda maneira é de mais merecimento que a primeira.

Peca-se venialmente, quando vem o mesmo pensamento de pecar mortalmente, e a pessoa lhe dá atenção, demorando-se um pouco nele, ou recebendo alguma deleitação sensual, ou havendo alguma negligência em rejeitar o tal pensamento.

duas maneiras de pecar mortalmente:

A primeira é quando se dá consentimento ao mau pensamento, para o pôr logo em prática conforme consentiu, ou para o executar se pudesse.
A segunda maneira de pecar mortalmente é quando se põe em acto aquele pecado; e é maior por três razões: a primeira, pelo maior espaço de tempo; a segunda, pela maior intensidade; a terceira, pelo maior dano das duas pessoas.


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Dia de Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas

Santo Inácio foi uma conversão tardia, como acontece hoje a tantas pessoas, mas entregou o resto da sua vida pela Igreja. Podemos ver algumas das exortações que fazia frequentemente aos outros jesuítas nesta carta de 1555:

Parece-me que deveríeis decidir-vos a fazer calmamente o que podeis. Não vos inquieteis com o resto, mas deixai nas mãos da divina Providência o que não podeis cumprir por vós mesmos. São agradáveis a Deus a solicitude e o cuidado que, com razoabilidade, pomos nas tarefas que nos competem, para conseguirmos concretizá-las da melhor maneira. 

Não Lhe são agradáveis a ansiedade e a inquietação do espírito: o Senhor quer que os nossos limites e fraquezas encontrem apoio na sua fortaleza e omnipotência, quer que tenhamos confiança em que a sua bondade suprirá a imperfeição dos nossos meios. 

Os que se ocupam com muitos assuntos, mesmo que o façam com boas intenções, devem resolver-se a fazer apenas o que está ao seu alcance. Se tivermos de deixar de lado certas coisas, há que ter paciência, e não pensar que Deus espera de nós o que não podemos fazer. 

Ele não quer que o homem se atormente com as próprias limitações; não é preciso cansarmo-nos excessivamente. Quando de facto nos esforçámos por dar o melhor de nós, podemos deixar o resto nas mãos daquele que tem o poder de realizar tudo o que quer. 

Que a bondade divina nos comunique sempre a luz da sabedoria, para que possamos ver com clareza e realizar a sua vontade com profunda convicção, em nós e nos outros […], para que das suas mãos aceitemos o que nos envia, considerando o que é de maior importância: a paciência, a humildade, a obediência e a caridade.

Carta de 17/11/1555


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sexta-feira, 30 de julho de 2021

Missa e Memória - Martin Mosebach

Em Traditionis Custodes, o Papa Francisco deu uma ordem. Fá-lo numa altura em que a autoridade papal está a desmantelar-se como nunca antes. A Igreja há muito que avançou para uma fase ingovernável. Mas o papa continua a batalhar. Abandona os seus mais caros princípios – " escuta", "ternura", "misericórdia"  – que  recusam julgar ou dar ordens. O Papa Francisco é agitado por algo que o perturba: a tradição da Igreja.
 
O limitado espaço de respiração que os antecessores do Papa concederam à tradição litúrgica já não é ocupado apenas por nostálgicos senis. A Missa Tradicional Latina também atrai jovens, que descobriram e aprenderam a amar o "tesouro enterrado no campo", como o Papa Bento XVI chamou à antiga liturgia. Aos olhos do Papa Francisco, isto é tão grave que tem de ser suprimido.
 
A veemência da linguagem do motu proprio sugere que esta directiva chegou tarde demais. Os círculos que aderem à tradição litúrgica mudaram, de facto, drasticamente nas últimas décadas. A Missa Tridentina já não é frequentada apenas por aqueles que sentem falta da liturgia da sua infância, mas também por pessoas que descobriram de novo a liturgia e estão fascinadas por ela –  incluindo muitos convertidos, muitos que há muito se encontravam afastados da Igreja. A liturgia é a sua paixão e conhecem-na em todos os seus detalhes. Há muitas vocações sacerdotais entre eles. 

Estes jovens não frequentam apenas os seminários mantidos pelas fraternidades sacerdotais da tradição. Muitos deles seguem a formação habitual para o sacerdócio, e estão no entanto convencidos de que a sua vocação é reforçada precisamente pelo conhecimento do rito tradicional. A curiosidade sobre a suprimida Tradição católica cresceu, apesar de muitos terem retratado esta tradição como obsoleta e sem consistência. Aldous Huxley ilustrou este tipo de assombro no Admirável Mundo Novo, no qual um jovem da elite moderna, sem sentido da história, descobre as riquezas transbordantes da cultura pré-moderna e fica encantado por elas.
 
A intervenção do papa pode impedir o crescimento da recuperação litúrgica da Tradição durante algum tempo. Mas ele só poderá detê-la durante o resto do seu pontificado. Porque este movimento tradicional não é uma moda superficial. Demonstrou nas décadas da sua repressão anterior ao motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI que subsiste  uma devoção séria e entusiástica em relação à inteira plenitude do catolicismo. A proibição do Papa Francisco irá suscitar resistência naqueles que ainda têm as suas vidas pela frente e não permitirão que o seu futuro seja obscurecido por ideologias obsoletas. Não foi bom, mas também não foi sensato, sujeitar a autoridade papal a este teste.
 
O Papa Francisco proíbe as missas no rito antigo em igrejas paroquiais; exige aos padres que obtenham permissão para celebrar a missa antiga ; exige mesmo aos padres que ainda não celebraram no rito antigo que obtenham essa permissão não do seu bispo, mas do Vaticano; e exige um exame de consciência dos participantes na missa antiga. Mas o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI raciocina num plano totalmente diferente. 

O Papa Bento XVI não "permitiu" a "Missa antiga", e não concedeu qualquer privilégio para a celebrar. Numa palavra, não tomou uma medida disciplinar que um sucessor possa revogar. O que foi novo e surpreendente no Summorum Pontificum foi o facto de declarar que a celebração da Missa antiga não necessita de qualquer permissão. Nunca havia sido proibida porque nunca poderia ser proibida.
 
Poder-se-ia concluir que aqui encontramos um limite fixo e insuperável para a autoridade de um Papa. A Tradição está acima do Papa. A antiga Missa, enraizada nas profundezas do primeiro milénio cristão, está, por princípio, para além da autoridade pontifícia de proibir. Muitas disposições do motu proprio do Papa Bento XVI podem ser postas de lado ou modificadas, mas esta decisão magisterial não pode ser tão facilmente abolida. O Papa Francisco não tenta fazê-lo - ignora-a. Ela ainda se mantém depois de 16 de Julho de 2021, reconhecendo a autoridade da Tradição que todo o padre tem o direito moral de celebrar o rito antigo, nunca proibido.
 
A maioria dos católicos do mundo não se interessará de todo pela Traditionis Custodes. Tendo em conta o pequeno número de comunidades tradicionalistas, a maioria dificilmente compreenderá o que se está a passar. De facto, temos de nos perguntar se o Papa não tinha tarefas mais urgentes  – no meio da crise dos abusos sexuais, dos escândalos financeiros da Igreja, dos movimentos cismáticos como o caminho sinodal alemão, e da situação desesperada dos católicos chineses  –  do que suprimir esta pequena e devota comunidade.
 
Mas os adeptos da Tradição devem conceder isto ao Papa: Ele leva a Missa tradicional, que data pelo menos da época de Gregório Magno, tão a sério como eles. Ele, contudo, julga-a perigosa. Ele escreve que os papas, no passado, criaram repetidas vezes novas liturgias e aboliram as antigas. Mas o oposto é verdade. Em vez disso, o Concílio de Trento prescreveu o antigo missal dos papas romanos – que tinha surgido na Antiguidade tardia –  para uso geral, porque este era o único que não tinha sido desvirtuado pela Reforma.
 
Talvez a Missa não seja o que mais preocupa o Papa. Francisco parece simpatizar com a "hermenêutica da ruptura" – essa escola teológica que afirma que, com o Concílio Vaticano II, a Igreja rompeu com a sua tradição. Se isso for verdade, então, de facto, qualquer celebração da liturgia tradicional deve ser impedida. Enquanto a antiga Missa latina for celebrada em qualquer garagem, a memória dos dois mil anos anteriores não terá sido extinta.
 
Esta memória, contudo, não pode ser erradicada pelo exercício tosco do positivismo jurídico papal. Ela voltará uma e outra vez, e será o critério pelo qual a Igreja do futuro terá de se medir a si própria.

Publicado em: First Things
(Tradução: Maria Armanda de Saint-Maurice)


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Santos Abdão e Sénen, Mártires

Durante a época de Décio, dois persas, Abdão e Sénen, foram acusados de enterrar na sua própria propriedade os corpos dos cristãos que haviam sido martirizados. 

Por ordem do Imperador, foram presos e ordenados a sacrificar aos deuses. Como se recusaram a obedecer e, além disso, com a maior firmeza proclamaram Jesus Cristo como Deus, foram colocados em confinamento cerrado e, quando mais tarde Décio voltou a Roma, foram acorrentados durante a sua marcha triunfal. 

Eles foram arrastados para os ídolos romanos, mas, para mostrar o seu ódio aos demónios, cuspiram neles. Por causa disto foram expostos à fúria de leões e ursos, mas os animais não ousaram tocar neles. Por fim foram mortos à espada. Os seus corpos foram arrastados pelos pés até a estátua do sol, mas foram levados, em segredo, e enterrados pelo diácono Quirino em sua própria casa.

Dom Prosper Guéranger in 'O Ano Litúrgico'


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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Os abusos litúrgicos que a Autoridade da Igreja nunca combateu



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Santo Ambrósio fala sobre Marta e Maria

A virtude não tem apenas um rosto. O exemplo de Marta e de Maria mostram-nos a devoção activa nas obras de uma, e a atenção religiosa do coração à palavra de Deus na outra. Se a tal atenção estiver unida uma fé profunda, ela é preferível às obras: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada». 

Esforcemo-nos portanto, também nós, por possuir aquilo que ninguém nos poderá tirar, escutando com ouvido atento e não distraído; porque por vezes acontece que o grão da palavra vinda do céu é tirado, se for semeado à beira do caminho (Lc 8, 5.12).

Anima-te pois pelo desejo de sabedoria, como Maria: essa é uma obra maior, mais perfeita. Que as preocupações com o serviço não te impeçam de acolher a palavra vinda do céu. Não critiques nem tenhas por ociosos os que vires ocupados em adquirir a sabedoria, pois Salomão, esse homem de paz, convidou-a para sua casa para que ficasse com ele (Sb 9,10). 

Não se trata, porém, de reprovar a Marta os seus bons serviços: Maria tem preferência porque escolheu uma parte melhor. Jesus tem múltiplas riquezas, e distribui-as com prodigalidade; a mulher mais sábia reconheceu e escolheu o que é mais importante. 

Também os apóstolos entenderam que era preferível não abandonar a palavra de Deus para servir às mesas (Act 6,2). Mas ambas as coisas são obras de sabedoria: Estêvão foi escolhido como servo, como diácono, e estava cheio de sabedoria (Act 6,5.8). 

Com efeito, o corpo da Igreja é um, e se os seus membros são diversos, têm necessidade uns dos outros: «Não pode o olho dizer à mão: «não tenho necessidade de ti», nem tão-pouco a cabeça dizer aos pés: «não tenho necessidade de vós» (1Cor 12,21). Se alguns membros são mais importantes, os outros são todavia necessários. A sabedoria reside na cabeça; a actividade, nas mãos.

in Comentário ao Evangelho de São Lucas, 7, 85-86; SC 52


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quarta-feira, 28 de julho de 2021

A importância e obrigatoriedade do hábito religioso - Irmã Lúcia

Comentário da Irmã Lúcia à aparição de Nossa Senhora do Carmo no dia 13 de Outubro de 1917, no momento do milagre do Sol:

A aparição de Nossa Senhora do Carmo tem, a meu ver, o significado de uma plena consagração a Deus. Mostrando-Se revestida de um hábito religioso, Ela quis representar todos os outros hábitos pelos quais se distinguem as pessoas inteiramente consagradas a Deus, dos simples cristãos seculares.

Os hábitos são o distintivo de uma consagração, um resguardo do decoro e da modéstia cristã, uma defesa da pessoa consagrada. São para as pessoas consagradas o mesmo que a farda é para os soldados, e os galões para um graduado: distingue-os e mostra o que são e o lugar que ocupam, obrigando-os também a um comportamento digno da respectiva condição. 

Por isso, deixar o hábito religioso é retroceder; é confundir-se com aqueles que não foram chamados nem escolhidos para mais; é despojar-se de uma insígnia que os distingue e eleva; é descer a um nível inferior, para poder viver como aqueles que não são tanto. 

in Irmã Lúcia, Apelos da Mensagem de Fátima


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Comunicado da Una Voce Portugal sobre o último Motu Proprio do Papa Francisco


Comunicado Oficial
UNA VOCE PORTUGAL
 
1. A Una Voce Portugal acolheu com tristeza, no passado dia 16 de julho, Festa de Nossa Senhora do Carmo, o Motu Proprio “Traditionis Custodes”, do Santo Padre, o Papa Francisco. Subscrevemos integralmente o comunicado da Fœderatio Internationalis Una Voce, Federação da qual a Una Voce Portugal é associada[1].

2. A Una Voce Portugal tem desenvolvido um esforço, em particular no último ano, de articulação com os Bispos portugueses no sentido do estabelecimento formal de novos grupos de fiéis ou a consolidação de outros já existentes, em diversas dioceses, para que possam ter acesso pacífico e regular ao usus antiquior do Rito Romano, sempre num espírito filial e de união. Este esforço baseia-se no interesse de muitos fiéis que já haviam manifestado esse ensejo, e tem tido o propósito de formalizar o estabelecimento de novos grupos, seja absolutamente novos, seja além de algum queporventura já exista formalmente.


3. Neste sentido, não ficámos surpreendidos com as novas normas que fazem recair sobre os Bispos responsabilidades acrescidas. Com efeito, na prática é o que já estava a acontecer em Portugal, uma vez que, nos últimos tempos, com alguma eventual excepção, nunca houve verdadeira aplicação prática das normas que se encontravam vertidas no Motu Proprio “Summorum Pontificum”, do Papa Bento XVI, que eram particularmente respeitadoras tanto da capacidade de discernimento in loco dos párocos como dos direitos dos fiéis, tal como se encontram recebidos no Código de Direito Canónico vigente, nomeadamente no cânone 214.


4. Por este motivo, lamentamos que o ensejo pela aplicação estrita do mais recente Motu Proprio não se houvesse já verificado aquando e após a publicação do Motu Proprio “Summorum Pontificum”, desatendido e desobedecido de forma continuada e ostensiva ao longo dos últimos 14 anos, em tantas paróquias e dioceses e, em Portugal, na maioria delas, sempre que a solicitação era legitimamente apresentada pelos leigos ou por quem os representasse, mesmo que todos os requisitos da lei papal e universal se encontrassem preenchidos.


5. Rejeitamos terminantemente a acusação relativa a uma eventual rejeição ou negação do Concílio Vaticano II e seus documentos. Recordamos, aliás, que a Una Voce é uma associação de fiéis leigos que, vivendo no seu tempo, mantêmsempre o propósito de estar unidos à Santa Madre Igreja e ao seu Magistério. Neste sentido, importa também recordar o que diz a constituição conciliar “Sacrosanctum Concilium” sobre a sagrada liturgia, por exemplo, em relação ao uso do latim e  do Gregoriano nos sacros ritos[2].

6. Não existe unidade sem verdade, e, na Igreja, a unidade só pode assentar nela, segundo a Fé católica integral e o respeito pela tradição. Fora da verdade, não existe obediência capaz de vincular. A única possibilidade que resta é a da resistência, defendendo a verdade através da acção litúrgica, e não abdicando de uma liturgia que a tradição confirmou e em nada faz decrescer a completa e reverente expressão e transmissão da verdade da fé. Da mesma forma que Roma falou duas vezes, nada impede que, no futuro, fale uma terceira. A Missa tradicional - cuja antiguidade imemorial está mais que provada - permanecerá,nunc et semper!Foi essa mesma antiguidade que São Pio V conseguiu compreender, detectando-lhe a catolicidade da tradição em que assentava, e por isso respeitando até ritos mais recentes, desde que perdurassem há mais de 200 anos. Ao contrário de nós, Deus não envelhece e não abandona nem a sua obra, nem quem Lhe presta preito de louvor em “odor de suavidade”, segundo a tradição da Igreja, sem nada que se lhe aponte de desrespeito do sagrado, da fé e do reverente culto devido a Deus.


7. Consideramos alarmante e ficamos apreensivos com a atitude de culpabilização e descrédito movida contra os fiéis católicos que amam a liturgia antiga, alegando que forçaram o Papa a tomar estas medidas. Sendo a união o objectivo, é estranho que as medidas aplicadas sejam de exclusão e de fomento de divisão.


8. A Una Voce Portugal não deixa de se regozijar com muitas notícias que tem recebido, de todo o mundo, sobre a continuação da celebração da Missa tradicional em paróquias, apostolados e locais de culto de inúmeras dioceses e sobre tantos Bispos que mostraram uma atitude de verdadeira unidade, acolhendo paternalmente os fiéis na sua diversidade, por contraste a tantos que, noutras dioceses, se vêem relegados a uma inflexível e irracionalmarginalização. Da mesma forma, alegramo-nos com as notícias do aumento do número de fiéis na assistência a essas mesmas Missas. Não deixamos de lamentar, é claro, as notícias também chegadas sobre proibições de Missas em algumas partes do mundo e as consequências que isso trará a tantas almas.


9. A Una Voce Portugal não esquece todos os sacerdotes, seminaristas e consagrados que dependem dos institutos e sociedades tradicionais e que agora podem estar apreensivos sobre o seu futuro, ao verem comprometido o futuro de tantas iniciativas em torno da Missa segundo o usus antiquior, apesar de as mesmas estarem claramente a contribuir grandemente para a “nova evangelização”, a apreensão de quantos têm no coração o zelo pelas almas e que vêem tristemente cerceado um instrumento de verdade, louvor, fiel e profunda espiritualidade e beleza que tão grandes resultados tem trazido para as almas. Referimo-nosnomeadamente à Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, ao Instituto Cristo-Rei Sumo Sacerdote e ao Instituto do Bom Pastor, os quais contam já com tantos seminaristas portugueses: a todos eles manifestamos e sublinhamos publicamente todo o nosso apoio e a garantia de que poderão sempre contar com aUna Voce Portugal.


10. Não esquecemos também todos os sacerdotes e seminaristas diocesanos que celebram, estão a aprender ou desejam aprender a celebrar no usus antiquior; animamos a todos a perseverarem nos seus esforços e no apostolado que fazem, que será sempre frutífero. Estamos sempre disponíveis para ajudar em tudo o que pudermos ser úteis.


11. A Una Voce Portugal compromete-se, por último, a ser incansável na defesa e promoção da Tradição da Santa Igreja Católica e dos Seus ritos e liturgia em Portugal e da liberdade que assiste a todos os fiéis de se unirem para viver deste modo a sua Fé, apoiando as paróquias e grupos que já existem, bem como todos os demais que se queiram constituir, e assim prosseguindo aqueles que são os objectivos da Federação Internacional Una Voce desde a sua constituição formal, em 1967.

                              “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”

UNA VOCE PORTUGAL
www.unavoce.pt

[1] Publicado no dia 19 de Julho, disponível em: http://www.fiuv.org/2021/07/oficial-statement-of-fderatio.html
[2]Cfr. ponto 36. § 1.” Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular” e ponto 116 “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.



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terça-feira, 27 de julho de 2021

Nesta cidade não há divórcios, por que será?

A cidade de Siroki Brijeg (na Bósnia e Herzegovina), tem uma maravilhosa particularidade: ninguém se lembra que tenha existido um só divórcio, entre os seus milhares de habitantes, nem alguma família que tenha deixado a Fé católica. A população é quase toda composta por croatas, que são católicos fervorosos.

O segredo é simples: os habitantes croatas têm mantido a sua fé católica, suportando por causa disso a perseguição dos turcos durante séculos, e depois dos comunistas. A sua Fé está fortemente arraigada no conhecimento do poder salvador da Cruz de Jesus Cristo.

Esse povo possui uma grande sabedoria, que vem sabendo aplicar ao Matrimónio e à Família. Eles sabem de que o Matrimónio está indissoluvelmente ligado à Cruz de Cristo. O sacerdote diz-lhes: “Encontraste a tua cruz. É uma cruz para amar, levá-la contigo, uma cruz que não se tira, mas que se guarda, enterra-se na tua alma”. Quando um casal se prepara para contrair Matrimónio, não lhes dizem que encontraram a “pessoa perfeita”. Não! A Cruz representa o Amor Maior e o Crucifixo é o tesouro da casa. Quando os noivos vão à Igreja, levam o Crucifixo com eles. O sacerdote benze o Crucifixo.

Quando chega o momento de afirmar os seus votos, a noiva põe a sua mão direita sobre o crucifixo e o noivo põe a sua mão sobre a dela, de maneira que as duas mãos estão unidas à cruz. O sacerdote cobre as mãos deles com a sua estola, enquanto proclamam as suas promessas segundo o rito da Igreja: de serem fiéis um ao outro, nas alegrias e nas penas, na saúde e na enfermidade, até a morte.

Depois, os noivos não se beijam, mas ambos beijam a cruz. Se um dos dois abandona o outro, abandona a Cristo na Cruz. Depois da cerimónia, os recém-casados levam o crucifixo para casa, onde é posto num lugar de honra. Será para sempre o ponto de referência e o lugar de oração familiar.

Em tempo de dificuldades não vão ao advogado, nem ao psiquiatra, mas vão juntos diante da cruz em busca da ajuda de Jesus. Chorarão e abrirão os seus corações, pedindo perdão ao Senhor e um ao outro. E irão dormir em paz porque no seu coração receberam o consolo e o perdão do Único que tem o poder para salvar.

Ensinarão os filhos a beijar a cruz cada dia, e a não irem dormir como os pagãos sem dar graças primeiro a Jesus. Sabem que Jesus os tem nos Seus braços e não há nada a temer.

in catholic.net


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Maria ganhou por humildade o que Lúcifer perdeu por orgulho

O que Lúcifer perdeu por orgulho, ganhou-o Maria pela sua humildade; o que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria obedecendo. Eva, ao obedecer à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e entregou-os ao demónio. Maria, tendo sido perfeitamente fiel a Deus, salvou juntamente consigo todos os Seus filhos e servos, e consagrou-os à Divina Majestade.

São Luís Maria Grignion de Monfort in 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem'


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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Uma Missa ecuménica? O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita

Quando, a 5 de Novembro [ndr: na primeira sessão do Concílio], foram retomados os debates conciliares, um dos vinte e quatro oradores que tomaram a palavra foi Mons. Duschak[1], bispo titular de Abida e vigário apostólico de Calapan, nas Filipinas, mas alemão de nascimento, que defendeu a necessidade de uma “Missa ecumênica” decalcada na Última Ceia[2].

Cristo celebrou a primeira Missa diante dos Apóstolos — voltado para o povo, seguindo o costume então vigente durante as ceias. Cristo  falou em voz alta, de maneira que todos, por assim dizer, ouvissem o Cânone desta primeira Missa. Cristo serviu-se da língua falada, para que todos O compreendessem sem qualquer dificuldade, a Ele e às palavras que disse. Nas palavras “fazei isto”, de acordo com o seu significado completo, parece estar contido o preceito de celebrar a Missa como uma ceia, de frente, ou pelo menos em voz alta, e numa língua que os comensais compreendam.”

Mons. Duschak convidava pois: a uma colaboração entre os especialistas de todos os ritos e das Igrejas que conservam a fé na eucaristia; para se compor uma Missa que se possa chamar verdadeiramente ecumênica ou “Missa do mundo”, e com ela a tão desejada unidade, pelo menos na memória eucarística do Senhor. O povo de Deus gozaria assim da participação perfeita e íntima de que gozaram os Apostolos na Última Ceia.”[3]

À tarde, Mons. Duschak explicou a sua intervenção aos jornalistas, salientando que a sua ideia consistia em “introduzir uma Missa ecumênica, despojada, na medida do possível, das superestruturas históricas, baseadas na essência do Santo Sacrifício e firmemente radicada na Sagrada Escritura”[4]. 

O Prelado chegava ao ponto de pretender alterar as palavras tradicionais do Cânone: “Se os homens dos séculos passados puderam escolher e inventar os ritos da Missa, por que não pode o maior de todos os concílios  fazer a mesma coisa? Por que não havemos de decretar a elaboração de uma fórmula da Missa, adaptada ao homem moderno, para corresponder, com toda a reverência, aos desejos deste?”[5] Toda a Missa, insistia Duschak, devia ser celebrada em voz alta, em língua vernácula, e voltada para o povo. Estas propostas, que na altura pareceram radicais, seriam postas em prática ainda antes do encerramento do Concílio.

Mas as réplicas não faltaram. Ao Cardeal Döpfner, que tinha afirmado que era necessário introduzir as línguas vernáculas também porque os candidatos ao sacerdócio, formados nas escolas públicas, já não sabiam latim, respondeu Mons. Carli salientando que os referidos candidatos também não conheciam a filosofia e a teologia cristã e ninguém se lembrava de os ordenar antes de terem completado os seus estudos nestas matérias[6].

Estava-se em presença de um confronto entre a Cúria Romana e algumas conferências episcopais, sobretudo a francesa e a alemã, apoiadas por determinados bispos dos países do Terceiro Mundo, como Mons.D’Souza que, nas suas intervenções de 27 de Outubro e 7 de Novembro de 1962[7], solicitou que se atribuísse às conferências episcopais o direito de escolherem a língua em que queriam fazer o rito, mas também o direito “de adaptarem a liturgia dos Sacramentos”[8]; e Mons. Bekkers[9], que afirmou que apenas “o núcleo sacramental fundamental de todos os sacramentos” tinha de ser “universal”, “mas que, para uma celebração mais evoluída e mais ampla deste núcleo sacramental, seja concedida uma amplíssima liberdade, de cujos limites apenas a conferência de bispos de cada povo pode julgar adequada, contanto que os actos sejam aprovados pela Santa Sé”[10].

Para o partido anti-romano, o latim era o instrumento de que a Cúria se servia para exercer o seu poder. Enquanto o latim fosse a única língua da Igreja, Roma teria competência para controlar e verificar os ritos; se, porém, se introduzissem na liturgia centenas de línguas e costumes e línguas locais, a Cúria perderia automaticamente as suas prerrogativas e as conferências episcopais passariam a ser os juízes desta matéria. “Era precisamente neste ponto que insistia a maioria que começava a perfilar-se, e que pretendia que as conferências episcopais fossem autorizadas a tomar determinadas decisões importantes em matéria de usos litúrgicos”, sublinha Wiltgen[11].

A aliança progressista recebeu na aula o apoio de um numeroso grupo de bispos da América Latina, chefiados pelo Cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago do Chile; estes Padres, recorda ainda Wiltgen, manifestavam o seu reconhecimento pelas importantes ajudas financeiras que tinham recebido durante os últimos anos do Cardeal Frings de Colónia, através das Associações Misereor e Adveniat: “Um número significativo daqueles aproveitaram a ocasião do Concílio para fazer uma visita ao Cardeal Frings, e agradecer-lhe pessoalmente, vieram a encontrar-se envolvidos na aliança.”[12]

Roberto de Mattei in O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita (Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 214-216)

[1] Wilhelm Josef Duschak (1903-1997), alemão, da Sociedade do Verbo Divino, ordenado em 1930, bispo de Abida (1951) e vigário apostólico em Calapan (Filipinas) entre 1951 e 1973.
[2] AS, I/1, pp. 109-112.
[3] Ibid, pp. 111-112.
[4] WILTGEN, P. 37.
[5] Ibid, p. 38.
[6]  AS, I/2, PP. 398-399.
[7] AS I/2, pp. 497-499 e AS, I/2, pp. 317-319.
[8] AS I/2, p. 318. “Seria óptimo que o poder se alargasse a todo o rito e ao uso da língua falada. É isto que esperamos do Concílio porque é realmente necessário a sua actuação” (ibid.).
[9] Wilhelm Marinus Bekkers (1908-1966), holandês, ordenado em 1933, bispo coadjutor em 1956 e depois bispo de Bois-le-Duc até a morte. O seu funeral foi uma espécie de manifestação pública da corrente ultraprogressista holandesa (Actes et Acteurs, p. 372).
[10] AS I/1, pp. 313-314.
[11] WILTGEN, p. 42.
[12] Ibid., p. 53


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Sant'Ana, Mãe de Nossa Senhora e Avó de Jesus

Santa Ana, ou Sant'Ana - do hebraico Hannah: Graça - foi a Mãe de Maria Santíssima e pertencia à família do sacerdote Aarão. O seu marido, São Joaquim, homem pio, fora censurado pelo sacerdote Rúben por não ter filhos. Segundo narra a Tradição, Rubén parou Joaquim quando este estava para entrar no Templo para levar a sua costumeira oferenda anual em dinheiro e disse: “Tu não tens o direito de ser o primeiro, porque não geraste prole”. 

Sant’Ana já era idosa e estéril, e São Joaquim não queria tomar outra mulher para gerar filhos, segundo os costumes hebraicos, porque amava a esposa. Confiando no poder divino, São Joaquim retirou-se ao deserto para rezar e fazer penitência. Ali um anjo do Senhor apareceu-lhe e disse que Deus havia ouvido as suas preces. Tendo voltado a Jerusalém, ambos se encontraram na Porta Áurea. 

Algum tempo depois Sant’Ana, a quem também aparecera concomitantemente um anjo (“Ana, Ana, o Senhor ouviu a tua prece e tu conceberás e parirás e falar-se-á da tua prole em todo o mundo”), ficou grávida. A paciência e a resignação com que sofriam a esterilidade deu-lhes o prémio de ter por filha aquela que havia de ser a Mãe de Jesus. 

O santo casal residia em Jerusalém, perto da Porta dos Leões, ao lado da piscina de Betesda, onde hoje se ergue a Basílica de Sant'Ana, construída pelos Cruzados e cuidada pelos Padres Brancos (Sociedade dos Missionários da África). Num Sábado, 8 de Setembro do ano 20 a.C., nasceu-lhes uma filha que recebeu o nome de Miriam - do hebraico: "Senhora da Luz", passado para o latim como Maria. 

Os pais de Maria nunca foram nomeados nos textos bíblicos; a sua história foi narrada pela primeira vez nos apócrifos¹ Protoevangelho de Tiago e Evangelho do Pseudo-Mateus². Depois foi enriquecida de detalhes hagiográficos no curso dos séculos, incluindo a Legenda Aurea de Jacopo de Varazze. 

A Tradição conta que as relíquias de Sant’Ana foram salvas de serem destruídas pelo centurião Longinho. Os restos foram custodiados na Terra Santa até que, por obra de alguns monges, chegaram a França, onde permaneceram durante anos. Durante as incursões otomanas, o inteiro corpo da Santa foi guardado num caixão de cipreste e murado, por precaução, que se encontrava numa capela escavada sob a nascente catedral de Apt. Muitos anos depois, o corpo foi encontrado, graças a diversos milagres e graças também a uma inscrição em grego. De seguida, o corpo foi desmembrado e as relíquias enviadas por toda parte do Ocidente. Actualmente, o crânio está em Castelbuono, na Sicília, onde no dia 27 de Julho é levado em procissão. Entre os milagres, conta-se o do "lumezinho" que permaneceu aceso ao lado do caixão durante anos, apesar da ausência de ar.

A mãe da Virgem possui os mais diferentes patronatos, quase todos ligados a Maria; por ter levado no ventre a Esperança do Mundo (Maria), o manto de Sant'Ana é verde. Por isso na Bretanha, onde são devotíssimos, é invocada na colheita do feno. Por ter custodiado Maria como uma jóia num cofre, ela é patrona dos ourives e tanoeiros. Protege também os mineiros, os marceneiros, os carpinteiros e os oleiros. 

Por ter ensinado à Virgem a cuidar da casa, tecer e costurar, é a padroeira dos fabricantes de vassouras, dos tecelões, dos costureiros, dos fabricantes e comerciantes de tecidos. É sobretudo a padroeira das mães de família, das viúvas, e, por ter concebido a mais alta das criaturas humanas, sobretudo das parturientes; é invocada nos partos difíceis e nos casos de esterilidade conjugal.

in Pale Ideas


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domingo, 25 de julho de 2021

O valor da Santa Missa



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Santiago Matamouros, modelo dos hérois cruzados

As proporções que a devoção a Santiago de Compostela tomou em toda a Espanha medieval apenas podem ser entendidas no contexto da invasão muçulmana. 

Tudo começou pelo ano de 813, quanto um eremita de nome Pelayo acompanhado por alguns pastores, se deparou com uma estranha luminosidade que se espalhava sobre um pequeno bosque nas proximidades de um monte do interior da Galiza chamado Libredón. A paisagem, em certos momentos, ficava tão clara que parecia um campo estrelado (Campus Stellae = Compostela).

Teodomiro, o Bispo local, informado do estranho fenómeno, soube que a luz focara no chão uma antiga arca de mármore. Ela conteria os restos humanos atribuídos ao Apostolo Santiago (isto é, São Iago, São Jacó, o filho de Zebedeu, irmão de João Evangelista).

Uma história antiga que corria de boca em boca entre os cristãos ibéricos dizia que o Apóstolo andara, séculos antes, em missão pela Espanha determinado a evangelizá-la. Mas tendo voltado à Palestina foi decapitado pelo rei Herodes Agripa, no ano 44.

O corpo dele, acomodado num sepulcro de mármore, foi subido a bordo de um barco no porto de Jaffa e lançado ao mar. Sem tripulação, sem leme nem nada, movida apenas pelo vento, a nau teria aportado nas costas da Galiza, região da Espanha que os romanos chamavam então de Finis Mundi.

A arca foi colhida na praia e foi enterrada num “compostum”, quer dizer um cemitério romano-galego daquele tempo. Durante os séculos seguintes, ninguém tomou conhecimento dela, até que começaram a ocorrer aquelas iluminações esplêndidas que o bispo Teodomiro consagrou.

Santiago Matamouros

O sensacional e miraculoso achado, que logo atraiu o rei astur-leonês Afonso, o casto (789-842) e a sua corte para lá, fez com que lá fixassem a pedra da primeira igreja dedicada ao Apóstolo.

Não demorou para a boa-nova, comunicada por Afonso ao próprio Carlos Magno, circulasse como um raio pelo Império do Ocidente, abrindo caminho para que se dessem os milagres. As peregrinações não mais cessaram, e num curto espaço de tempo, o santuário de Compostela adquiriu a mesma importância para os cristãos das romarias dirigidas à Roma.

Na batalha de Clavijo, em 834, o rei Ramiro I, de Aragão, no momento mais difícil do combate, viu-se ajudado por um desconhecido ginete montado num cavalo branco que dava espadagadas na mourama.

Sentiu que tinha a seu lado o Apóstolo, desde então transformado em Santiago Matamouros, aparição fundamental na vitória contra o emir Abderraban II. Outras dessas repentinas acções milagrosas do santo ocorreram na longa batalha movida pelos reis espanhóis contra o Califado de Córdoba ou contra os ditos reinos dos Taifas, que mais tarde o sucederam.

Percebendo a importância simbólica do sepulcro de Compostela para o ânimo dos cristãos, Almanzor (El-Mansur), o Seyd, ministro do califa de Córdoba, realizou no ano de 997 uma irrupção relâmpago na região da Galícia. Não só saqueou e destruiu o santuário com a primeira basílica, como levou consigo o sino e as portas dela, transportadas até Córdoba no sul, aos ombros de cristãos escravizados.

São Fernando III, rei de Castela, quando recuperou Sevilha, obrigou os mouros a fazerem o caminho inverso carregando os mesmos sinos e portas. O santo tornou-se o maior ícone dos cristãos na sua oposição desesperada à presença dos adeptos de Maomé na Espanha.

O seu sepulcro se tornou factor de atracção permanente para os peregrinos vindos de todos os lugares da Europa, percorrendo os Caminhos de Santiago. Para lhes dar protecção surgiram duas ordens militares: a de Calatrava (1158) e a de Santiago (1173).

O êxito da campanha da Reconquista, que culminou bem mais tarde com a ocupação do Reino Nasarí de Granada em 1492, foi largamente atribuído pelos cristãos aos feitos impressionantes, assombrosos, de Santiago Matamouros.

Este, por sua vez, desde a aparição em Cravijos, foi promovido por Ramiro I a protector oficial da luta contra os mouros, a quem toda Espanha devia obrigações:

“... ordenamos e fizemos voto que se há de guardar por todas as partes da Espanha, para que Deus conceda livrar-nos dos sarracenos pela intercessão do Apóstolo Santiago, o pagamento perpetuo todo ano, a maneira de primícias sobre cada jeira de terra uma medida da melhor colheita, o mesmo de vinho, para a manutenção dos padres que residem na igreja do bem aventurado Santiago e para os ministros da mesma igreja...”

Luis Dufaur in heroismedievais.blogspot.com

Referências bibliográficas

Braunschvig, Marcel - Notre Littérature étudiée dans les textes, Paris, Librairie Armand Colin, 1948
Brissaud, Alain - Islão e Cristandade, Lisboa, Pluma Editora, 1993
Dozy, R.-P. - Historia de los musulmanes de España, - 2 v., Barcelona, Editorial Iberia, 1954.
Köhler, Erich - L´aventure chevaleresque: ideál et réalité dans les romans courtois, Paris, Éditions Gallimard, 1956
Nájera, Rúben E. - La invención de Rolán - in CABALLERIAS Y MORERIAS:
Oliveira Martins- História da Civilização Ibérica, Lisboa, Guimarães & c. Editores, 1972


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sábado, 24 de julho de 2021

Grandeza do verdadeiro Cristão resumida em poema

Ter o olhar voltado para as claras estrelas
Não temer as duras batalhas, mas querê-las.

Águia fitando o sol, viver para as alturas,
desprezando as coisas baixas, vis e obscuras.

Amar só os horizontes vastos e azuis.
Odiar os negros charcos e os mortos pauis.

Ter a alma sem medo, covardias, tremores,
valente e forte como o rufar dos tambores.

Ter na alma claras notas de clarins de prata,
e nos lábios um canto ardente que arrebata.

Ser impelido pelos ventos da epopeia,
longe das calmarias podres de vida ateia.

Entre nuvens de fumo, de ódio e de poeira,
ousada e desafiante, desfraldar bandeira.

Qual falcão atacar, desprezando o perigo,
tendo olhos só para Deus e para o inimigo.

Não temer jamais nem as armas, nem as vaias,
nem o combate franco, nem as vis tocaias.

E, não fugindo nem da arena, nem do sorriso,
ver, na morte e cruz, as portas do Paraíso.

Jamais calcular o número do inimigo.
Mas contar só com Deus, com Santiago e consigo.

Por justo combater, mesmo que solitário,
sem ver o número, enfrentar o adversário.

Viver abrasado de amor pela verdade,
encantado pela beleza e poesia,
mantendo no coração a fidelidade
aos ecos longínquos de uma canção bravia.

Escutar, escutar sempre os clarins de glória,
chamando ao combate, proclamando a vitória.

Amar a solidão do deserto ou do mar
ser fiel até a morte e jamais capitular.

Não temer ser desprezado e tido por nada,
não querer senão o triunfo da cruzada.

Ter uma alma agressiva que não retroceda.

Não ter no coração nem baixeza, nem lama,
mas de heroísmo, ser ardente labareda,
ser da verdade arauto, da pureza, chama.

Viver sempre enamorado pela proeza,
a alma sempre firme ancorada na certeza
sedenta de Deus, de infinito e de grandeza.

Orlando Fedeli (São Paulo, 1975)


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Jovens de todo o Mundo juntos em defesa da Missa Tradicional

Jovens da Alemanha, Áustria, Suíça, Itália, França, EUA, Nigéria, Austrália, Sri Lanka e outros países acabam de dirigir um apelo ao Papa e aos bispos para que não restrinjam a Missa Tradicional que eles tanto amam.

Vídeo: Young Catholics for Holy Mass
Legendas: Centro Dom Bosco


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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Palavras de Jesus a Santa Brígida

O castelo de que te falei é a Santa Igreja, construída com o Meu sangue e o dos meus Santos, cimentado com o cimento da Minha Caridade; nela coloquei os meus eleitos e amigos. O seu fundamento é a Fé, isto é crer que Eu sou um Juiz Justo e Misericordioso. Mas agora está minado o fundamento, porque todos crêem e pregam que sou Misericordioso, mas quase ninguém prega nem crê que Eu seja Justo Juiz. Esses acham-me quase um Juiz iníquo.

De facto, seria iníquo o Juiz, que por misericórdia despedisse sem castigo algum os iníquos, os quais por conseguinte oprimiriam ainda mais os justos. Mas eu Sou um Juiz Justo e Misericordioso, de modo que não deixarei sem castigo nem sequer o mínimo pecado, nem sem recompensa o mínimo bem. 

Esses pregadores malvados que pecam sem temor, que negam a Minha Justiça, atormentam os meus amigos. dando-lhes “opróbrio e toda a espécie de dor … como se fossem demónios experimentarão a Minha Justiça, serão como ladrões confundidos publicamente diante dos Anjos e dos homens. De facto, como os enforcados são devorados pelos corvos, assim estes serão devorados dos demónios e não consumidos. 

Não escondas nenhum pecado, não deixes nenhum por punir, nem consideres nenhum ligeiro. Tudo aquilo que tiveres descuidado, Eu recordá-lo-ei e julgar-te-ei. E mais adiante não há homem algum que seja tão pecador que o seu pecado não seja perdoado, se o pedir com o propósito de se emendar e com contrição.

in As Profecias e Revelações de Santa Brígida da Suécia


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A Cruz é o triunfo do bem sobre o mal

Muitos poderiam ser tentados a interrogar-se por que motivo nós, cristãos, celebramos um instrumento de tortura, um sinal de sofrimento, de derrota e de falência. É verdade que a cruz exprime todos estes significados. 

Todavia, por causa daquele que foi elevado sobre a cruz para a nossa salvação, ela representa o triunfo definitivo do amor de Deus sobre todos os males do mundo.

Papa Bento XVI, homilia na Igreja da Santa Cruz em Nicosia (5/VI/2010)


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quinta-feira, 22 de julho de 2021

Hora Santa no Soldier Field (Chicago) em 1942




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Santa Maria Madalena, apóstola dos Apóstolos

Maria Madalena, Maria de Betânia e Maria pecadora, citadas no Evangelho, são a mesma pessoa, segundo o Papa São Gregório Magno, grande estudioso dos santos e criador do Calendário Gregoriano. Também os Padres latinos, desde Tertuliano, Santo Ambrósio, São Jerónimo, Santo Agostinho, até São Bernardo e São Tomás de Aquino, reconhecem nas três uma e a mesma pessoa: a Santa Maria Madalena penitente, que seguiu Nosso Senhor durante a Paixão.

Maria Madalena teria nascido em Betânia, cidade da Judeia, de pais muito ricos, tendo por irmãos Marta e Lázaro. Como parte da sua herança recebera o castelo de Magdala, de onde lhe veio o nome.

Uma lenda fala da sua esplêndida formosura, cabeleira famosa, do seu engenho, e relata ser ela casada com um doutor da Lei que a trancava em casa quando saía. Altiva e impetuosa, Maria teria fugido com um oficial das tropas do César e se estabelecido no castelo de Magdala, perto de Cafarnaum. As suas desordens e escândalos logo se espalharam pela região.

Enquanto isso, Nosso Senhor iniciara a sua peregrinação: a fama dos seus milagres e a santidade de vida estendia-se pelas terras da Palestina. Atormentada por demónios, e pelos remorsos da sua consciência culpada, Maria foi procurar Aquele que alguns apontavam como sendo o Messias prometido. O Senhor apiedou-se dela e livrou-a de sete demónios (Mc 16, 9), tocando-lhe também profundamente o coração.

A partir de então, começou para Madalena a completa conversão. Horrorizada ante os seus inúmeros pecados, cativada pela bondade e mansidão de Jesus, ela procurava uma ocasião em que pudesse mostrar-Lhe o seu reconhecimento e profundo arrependimento.

Essa ocasião surgiu na casa de Simão — um fariseu, provavelmente de Cafarnaum —, que havia convidado o Mestre para uma refeição. Durante um banquete ao qual Jesus participava, inesperadamente Madalena irrompeu na sala, foi diretamente até Jesus, rompeu um vaso de alabastro que levava apertado ao peito, e “começando a banhar-Lhe os pés com lágrimas, enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os e os ungia com o bálsamo” (Lc 7, 38).

Perdoada, convertida, Maria Madalena foi viver com os seus irmãos em Betânia. Uma vez, as duas irmãs receberam a visita do Messias. Maria sentou-se junto ao Salvador para absorver as suas palavras divinas, enquanto Marta se afanava nos afazeres domésticos para bem receber o seu divino Hóspede. E julgou que a sua irmã fazia mal, pois em vez de ajudá-la, estava ali sentada esquecida da vida. Disse Jesus: “Marta, Marta, afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas. Entretanto uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 38-42).

Em outra visita do divino Mestre a Betânia, Maria Madalena, já não mais “a pecadora”, ungiu novamente os pés do Redentor com precioso perfume, o que levou Judas a reclamar do “desperdício”, pois podiam vender o perfume e “dar o dinheiro aos pobres”. Nosso Senhor interveio: “Deixai-a; ela reservou isso para o dia da minha sepultura; porque sempre tendes os pobres convosco, mas a mim não tendes sempre” (Jo 12, 1-8).

Chegou o momento da Paixão. Aos pés da cruz, Maria Madalena acompanhava Nossa Senhora e São João Evangelista. Depois do sepultamento, Maria também estava junto ao túmulo, de fora, chorando. Enquanto chorava, se inclinou para o interior do sepulcro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus havia sido colocado, um na cabeceira e outro aos pés.

Disseram então "Mulher por que choras?" Ela respondeu: "Levaram meu Senhor e não sei onde o colocaram". Dizendo isto se voltou e viu Jesus de pé. Mas não podia imaginar que era Jesus. E Jesus lhe disse: "Mulher por que choras? A quem procuras?" Pensando ser Ele o jardineiro ela respondeu: "Senhor se foste tu que O levaste me diga onde O puseste que eu irei busca-LO" Jesus responde: "Maria". Ela então reconhece-O e grita em hebraico "Raboni!" (que quer dizer Mestre!).

De acordo com uma antiga tradição do Oriente, Maria Madalena acompanhou São João Evangelista e a Virgem Maria a Éfeso onde morreu e foi sepultada.

No Ocidente, a tradição diz que ela viajou para Provença, França com Santa Marta e São Lázaro. A tradição conta que São Maximino, um dos 72 discípulos do Senhor, e São Sidónio (o cego de nascença de que fala o Evangelho, e que foi curado por Nosso Senhor) e mesmo José de Arimatéia estão entre os que os acompanharam na conversão da Gália.

São Maximino foi bispo de Aix, e São Lázaro encarregou-se da igreja de Marselha. Santa Marta reuniu em Tarascão uma comunidade de virgens, e Maria Madalena, depois de ter trabalhado na conversão dos marselheses, retirou-se para viver na solidão numa montanha entre Aix, Marselha e Toulon, “La Sainte Baume” (a Santa Montanha ou Santa Gruta), como dizem os habitantes do lugar. Lá permaneceu cerca de trinta anos, levando vida contemplativa e penitencial.

Ela foi milagrosamente transportada, pouco antes da sua morte, para junto de São Maximino, que lhe ministrou os últimos sacramentos. Segundo a tradição, o seu corpo foi levado para um povoado vizinho –– a Villa Lata, depois chamada São Maximino –– onde esse bispo havia construído uma capela.

No século VIII, por temor dos sarracenos, as suas relíquias foram trasladadas para um lugar seguro, tendo ficado esquecidas até que Carlos II, Rei da Sicília e Conde da Provença, as encontrou em 1272. São Vilibaldo diz que viu a sua tumba em Éfeso (hoje Turquia) no século VIII. A comuna francesa Vezelay diz ter as suas relíquias desde o século XI.

É a padroeira das cabeleireiras, estilistas de cabelos, podólogos, pecadoras penitentes, perfumistas, manicuras, fabricantes de perfumes e de óleos para o corpo.

Na arte litúrgica da Igreja é representada segurando um alabastro de óleo.

in heroinasdacristandade.blogspot.com


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