domingo, 15 de setembro de 2019

As 7 dores de Maria

Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores. É tradição rezar um Pai-Nosso e sete Avé-Marias por cada uma das 'dores' de Nossa Senhora:

1. A profecia de Simeão (Lc 2, 34-35)
2. A fuga para o Egipto (Mt 2, 13)
3. O Menino Jesus perdido e encontrado no Templo (Lc 2, 43-45)
4. Maria encontra Jesus a caminho do Calvário (Lc 23, 26)
5. Jesus morre na Cruz (Jo 19, 25)
6. Maria recebe o corpo de Jesus nos braços (Mt 27, 57-59)
7. O corpo de Jesus é colocado no Sepulcro (Jo 19, 40-42)


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Cardeal Burke e D. Athanasius convocam cruzada de oração e jejum pelo Sínodo da Amazónia

O Cardeal Burke e Mons. Athanasius Schneider publicaram um documento que exorta todos os católicos a participarem de uma cruzada de oração e jejum pelo Sínodo da Amazónia durante 40 dias, de 17 de Setembro a 26 de Outubro, às vésperas do encerramento do Sínodo: Todos os dias dedicar pelo menos uma dezena do terço e fazer jejum uma vez por semana, de acordo com a tradição da Igreja, com estas intenções:

1. Que durante a assembleia sinodal, os erros teológicos e heresias incluídos no Instrumentum Laboris não sejam aprovados;

2. Que, em particular, o Papa Francisco, no exercício do ministério petrino, confirme os seus irmãos na fé, com uma clara recusa dos erros do Instrumentum Laboris e não consinta a abolição do celibato sacerdotal na Igreja Latina, com a introdução da prática de ordenação de homens casados, os chamados "viri probati".

Qualquer um que apenas souber da cruzada após ter começado pode, obviamente, participar a qualquer momento. 

O documentopublicado destaca 6 erros graves e heresias contidos no Instrumentum Laboris, resumindo:

1. PANTEÍSMO IMPLÍCITO: o documento promove uma socialização PAGÃ da "Mãe Terra", baseada na cosmologia das tribos amazónicas;

2. SUPERSTIÇÕES PAGÃS como fontes da Revelação Divina e "caminhos alternativos" para a salvação;

3. DIÁLOGO INTERCULTURAL EM VEZ DE EVANGELIZAÇÃO;

4. Uma CONCEPÇÃO ERRADA da ORDENAÇÃO SACRAMENTAL, que defende a existência de ministros do culto de ambos os sexos, até para realizar rituais xamãs;

5. Uma "ECOLOGIA INTEGRAL" que rebaixa a dignidade humana;

6. Um COLETIVISMO TRIBAL que mina o carácter único da pessoa e a sua liberdade.

Os erros teológicos e heresias implícitos e explícitos contidos no Instrumentum Laboris, da próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, são uma manifestação alarmante da confusão, do erro e da divisão que afligem a Igreja hoje. 

Ninguém pode justificar-se dizendo que não foi informado sobre a gravidade da situação e se eximiu do dever de tomar as acções apropriadas, por amor a Cristo e à sua vida connosco na Igreja. 

Em particular, todos os membros do Corpo Místico de Cristo, diante de tal ameaça à sua integridade, devem orar e jejuar pelo bem eterno dos seus membros, que, por causa desse texto, correm o risco de serem escandalizados, o que leva à confusão, erro e divisão. 

Além disso, todos os católicos, como verdadeiros soldados de Cristo, são chamado a salvaguardar e promover as verdades da Fé e a disciplina com que essas verdades são honradas na prática, para que a assembleia solene dos Bispos não traia a missão do Sínodo, que é "ajudar o Pontífice Romano através dos seus conselhos, para salvaguardar e aumentar a Fé e a moral, observando e consolidando a disciplina eclesiástica" (can. 342). 

Que Deus, através da intercessão de muitos missionários verdadeiramente católicos, que evangelizaram os povos indígenas da América - incluindo São Toríbio de Mogrovejo e São José de Anchieta -, dos santos que os nativos americanos deram à Igreja - incluindo São Juan Diego e Santa Kateri Tekakwitha - e em particular pela intercessão da Virgem Maria, Rainha do Santo Rosário, que derrota todas as heresias, para que os membros da próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica e o Santo Padre estejam protegidos do perigo de aprovar erros e ambiguidades doutrinárias e de minar o domínio apostólico do celibato sacerdotal.

Raymond Leo Cardeal Burke
Bispo Athanasius Schneider


12 de Setembro de 2019
Festa do Santíssimo Nome de Maria


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sábado, 14 de setembro de 2019

Crux Fidelis - Música da autoria de D. João IV, Rei de Portugal


Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre:
Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores.
Ó doce lenho, que os doces cravos e o doce peso sustentas.

Canta, ó língua, o glorioso combate (de Cristo),
e, diante do troféu da Cruz, proclama o nobre triunfo:
a vitória conseguida pelo Redentor, vítima imolada para o mundo.

O Criador teve pena do primitivo casal,
que foi ferido de morte, comendo o fruto fatal,
e marcou logo outra árvore para curar-se do mal.

Glória e poder à Trindade, ao Pai e ao Filho louvor,
honra ao Espírito Santo, eterna glória ao Senhor,
que nos salvou pela graça e nos reuniu no amor.



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A história da Exaltação da Santa Cruz

O dia 14 de Setembro, dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, comemora a gloriosa reconquista da Santa Cruz das mãos dos Persas.

Chosroes II, Rei da Pérsia, pegara em armas contra o império oriental romano (610), sob o pretexto de querer vingar as crueldades que o imperador Phocas tinha praticado contra o imperador Maurício. Phocas desapareceu e teve por sucessor Heráclio, governador da África. Este fez uma proposta de paz a Chosroes que este rejeitou. Uma cidade após outra caiu em poder dos Persas, sem que Heráclio lhes pudesse tolher os passos. Senhor de Jerusalém, Chosroes praticou as maiores atrocidades contra sacerdotes e religiosos, reduziu à cinza as igrejas, e entre outras preciosidades, levou também a parte do Santo Lenho, que Santa Helena tinha deixado na cidade Santa.

Heráclio pela segunda vez pediu a paz. O rei bárbaro respondeu-lhe com arrogância e orgulho: "Os Romanos não terão paz, enquanto não adorarem o sol, em vez de um homem crucificado". Vendo assim frustrados todos os esforços, Heráclio pôs toda confiança em Deus e em 622 marchou contra a Pérsia. Vitorioso no primeiro encontro, na Arménia, no ano seguinte o exército cristão conquistou Gaza, queimou o templo, junto com a estátua de Chosroes, que nele se achava. Chosroes foi assassinado pelo próprio filho, com o qual Heráclio celebrou a paz. Uma das primeiras condições desta paz foi a restituição do Santo Lenho, o qual Heráclio levou em triunfo para Constantinopla.

Uma vez livre do jugo dos Persas, Heráclio resolveu fazer a solene trasladação do Santo Lenho para Jerusalém. Na Primavera do ano de 629, com uma grande comitiva, foi à Cidade Santa, levando consigo a preciosa relíquia. Festas extraordinárias prepararam-se na Palestina. Em procissão soleníssima foi levada a Santa Cruz, para ser depositada na igreja do Santo Sepulcro, no monte Calvário. O Imperador tinha reservado para si a honra de a carregar. 

Chegada a procissão à porta da cidade que conduz ao Gólgota, Heráclio, como retido por forças invisíveis, não pôde dar mais um passo adiante. O patriarca Zacarias, que se achava ao lado do Imperador, levantou os olhos ao Céu e como por inspiração divina, disse-lhe: "Senhor! Lembrai-vos de que Jesus Cristo era pobre, enquanto vós andais vestido de púrpura; Jesus Cristo levava uma coroa de espinhos, quando na vossa cabeça vejo brilhar uma coroa preciosíssima; Jesus Cristo andava descalço, quando vós usais calçado finíssimo". 

Heráclio com humildade aceitou o aviso do patriarca. Sem demora tirou a coroa, trocou o manto imperial por uma túnica pobre, substituindo o rico calçado por sandálias e, tomando de novo o Santo Lenho, sem dificuldade alguma o levou até a última estação. Lá chegado, todo o povo se acercou da grande relíquia, venerando-a com muita fé. Muitos doentes recuperaram a saúde.

Para todos, o dia 14 de Setembro de 629 foi um dia de triunfo e da mais pura alegria. Deus ainda glorificou-o com muitos milagres.

Pe. João Batista Lehmann in 'Na Luz Perpétua' (Editora Lar Católico, 1950)


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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Aviso: Este vídeo pode provocar forte motivação



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Ninguém pode ficar indiferente ao testemunho destes mártires

Martírio de Carpo


No tempo do imperador Décio, Óptimus era procônsul em Pérgamo; o bem-aventurado Carpo, bispo de Gados, e o diácono Papilo de Tiatira, ambos confessores de Cristo, compareceram diante dele. O procônsul disse a Carpo:

- Qual é o teu nome?

- O meu primeiro nome, o mais belo, é Cristão. O meu nome no mundo é Carpo.

- Conheces os éditos de César que vos obrigam a sacrificar aos deuses, senhores do mundo, não é verdade? Ordeno-te que te aproximes e que ofereças um sacrifício.

- Eu sou cristão. Adoro Cristo, filho de Deus, que veio à Terra nos últimos tempos para nos salvar e nos livrar das armadilhas do demónio. Não vou por isso sacrificar a esses ídolos.

- Sacrifica aos deuses, como ordena o imperador.

- Morram os deuses que não criaram o Céu nem a Terra.

- Sacrifica, como quer o imperador.

- Os vivos não sacrificam aos mortos. 

- Então tu crês que os deuses estão mortos?

- Certamente. Não vês que eles se assemelham a homens, mas estão imóveis? Deixa de os cobrir de honras; como eles não se mexem, os cães e os corvos virão cobri-los de esterco.

- Basta sacrificares. Tem piedade de ti mesmo!

- É mesmo por isso que eu escolho a melhor parte.

A estas palavras, o procônsul mandou que o suspendessem e lhe rasgassem o corpo com unhas de ferro.


Martírio de Papilo


Então o procônsul voltou-se para Papilo, para o interrogar:

- Tu és da classe dos notáveis?

- Não.

- Então quem és?

- Sou um cidadão.

- Tens filhos?

- Muitos, graças a Deus.

Uma voz de entre a multidão gritou:

- É aos cristãos que ele chama filhos!

- Porque me estás a mentir, dizendo que tens filhos?

- Repara que eu não minto, mas falo verdade: em todas as cidades da província, tenho filhos, que me foram dados por Deus.

- Oferece um sacrifício ou então explica-te.

- Desde a minha juventude que sirvo a Deus e nunca sacrifiquei aos ídolos; ofereço-me a mim mesmo em sacrifício ao Deus vivo e verdadeiro, que tem poder sobre todas as criaturas. E agora acabei, não tenho nada a acrescentar.

Amarraram-no também ao cavalete, onde foi rasgado com unhas de ferro. Três equipas de carrascos se sucederam sem que escapasse uma só queixa a Papilo. Qual valoroso atleta, sofria em profundo silêncio a fúria dos seus inimigos. O procônsul condenou os dois a serem queimados vivos. No anfiteatro, os espectadores mais próximos viram que Carpo sorria. Surpreendidos, perguntaram-lhe:

- Porque sorris?

O bem-aventurado Carpo respondeu:

- Vi a glória do Senhor e rejubilo. Eis-me liberto; não conhecerei mais as vossas misérias.


Martírio de Agatónica


Uma mulher que assistia ao martírio, Agatónica, viu a glória do Senhor que Carpo dizia ter contemplado. Compreendeu que era um sinal do céu e imediatamente exclamou:

- Esse festim também está preparado para mim. [...] Sou cristã. Nunca sacrifiquei aos demónios, mas somente a Deus. De boa vontade, se for digna disso, seguirei as pisadas dos meus mestres, os santos. É esse o meu maior desejo.

O procônsul disse-lhe:

- Sacrifica e não me obrigues a condenar-te ao mesmo suplício.

- Faz o que te parecer melhor. Eu vim para sofrer em nome de Cristo. Estou pronta.

Chegada ao lugar do suplício, Agatónica tirou as vestes e, alegre, subiu ao patíbulo. Os espectadores, tocados pela sua beleza, lamentavam-na:

- Que julgamento iníquo e que decretos injustos!

Quando ela sentiu as chamas tocarem o seu corpo, gritou três vezes:

- Senhor, Senhor, Senhor, vem em meu auxílio. É a Ti que recorro.

Foram as suas últimas palavras.


in Actas do martírio dos Santos Carpo, Pailo e Agatónica (século III) - Ichtus, vol. 2 


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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Escondida por humildade: nem os Anjos conheciam Maria

Maria manteve-se muito escondida durante toda a sua vida; por isso o Espírito Santo e a Igreja chamaram-lhe «Alma Mater»: Mãe escondida e secreta. A sua humildade foi tão profunda, que na Terra nada a seduziu mais poderosa ou mais continuamente do que esconder-se de si própria e de todas as criaturas, para que só Deus a conhecesse. 

Aprouve a Deus, atendendo aos seus pedidos de ocultação, empobrecimento e humildade, esconder a sua concepção, o seu nascimento, a sua vida, os seus mistérios, a sua ressurreição e a sua assunção aos olhos de quase toda a criatura humana. Nem os seus pais a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes entre si: «Quae est ista? Quem é esta?» (Ct 6,10), porque o Altíssimo a ocultava; ou, se lhes mostrava alguma coisa, escondia-lhes infinitamente mais.

Que coisas grandes e escondidas fez este Deus poderoso nesta Criatura admirável, como ela própria foi obrigada a reconhecer, apesar da sua profunda humildade: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas». O mundo não as conhece, porque é incapaz e indigno.

S. Luis Maria Grignion de Monfort in Tratado da verdadeira devoção à Virgem Maria, 1-6


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Santíssimo Nome de Maria

Veneramos o nome de Maria porque pertence àquela que é a Mãe de Deus, a mais santa das criaturas, a Rainha do Céu e da Terra, a Mãe da Misericórdia.

O objecto da festa é a Santa Virgem que traz o nome de Mirjam (Maria). A festa comemora todos os privilégios dados a Maria por Deus e todas as graças que temos recebido através da sua intercessão e mediação. 

História da Festa

A festa foi instituída em 1513, em Cuenca (Espanha), e estabelecida no dia 15 de Setembro com Ofício próprio, o dia da oitava da Natividade de Maria. Depois da reforma do Breviário de São Pio V, por um decreto de Sixto V (16 de Janeiro de 1587), foi transferida para 17 de Setembro. Em 1622, foi estendida para a Arquidiocese de Toledo pelo Papa Gregório XV. 

Depois de 1625, a Congregação dos Ritos hesitou durante algum tempo antes de autorizar que se estendesse mais (cf. os sete decretos "Analecta Juris Pontificii", LVIII, decr. 716 sqq.). Mas era celebrada pelos trinitarianos espanhóis em 1640 (Ordo Hispan., 1640). A 15 de Novembro de 1658, a festa foi concedida ao oratório do Cardeal Berulle sob o título: Solemnitas Gloriosae Virginis, dupl. cum. oct., em 17 de Setembro. Trazendo o título original, "SS. Nominis B.M.V.", a festa concedida a toda a Espanha e ao Reino de Nápoles em 26 de Janeiro de 1671.

Após o cerco de Viena e a gloriosa vitória do Rei João III Sobieski da Polónia [e da República das duas Nações] sobre os Turcos (12 de Setembro de 1683), a festa foi estendida para a Igreja Universal por Inocêncio XI, e marcada para o Domingo depois da Natividade de Maria por um decreto de 25 de Novembro de 1683 (duplex majus). 

A festa foi concedida à Áustria como duplex II classis a 1 de Agosto de 1654. Segundo um Decreto de 8 de Julho de 1908, sempre que esta festa não puder ser celebrada no próprio Domingo, por causa da ocorrência de alguma festa de maior grau, deve-se mantê-la a 12 de Setembro, o dia em que a vitória de Sobieski é comemorada no Martirológio Romano. O calendário das Irmãs da Adoração Perpétura, O.S.B., em França, do ano de 1827, possui a festa com um Ofício especial a 25 de Setembro. 

A Festa do Santíssimo Nome de Maria é a festa patronal dos Cônegos Regulares das Escolas Pios (padres escolápios) e da Sociedade de Maria (Maristas), em ambos os casos com um ofício próprio. No ano 1666, os Carmelitas Descalços receberam a faculdade de recitar o Ofício do Nome de Maria quatro vezes por ano (duplex). Em Roma, uma das igrejas gémeas no Fórum de Trajano é dedicada ao Nome de Maria. No Calendário Ambrosiano de Milão, a festa está marcada para o dia 11 de Setembro. 

É interessante como a Santíssima Virgem é honrada de forma especial no aniversário de duas batalhas entre cristãos e maometanos, nas quais saímos vencedores: 
07/10 - Nossa Senhora do Rosário - Batalha de Lepanto, 1571
12/09 - Santíssimo Nome de Maria - Batalha de Viena, 1683

Que a Bem-aventurada Sempre Virgem Maria, chamada por Pio XII de "vencedora de todas as grandes batalhas de Deus", abençoe a Cristandade e toda a Humanidade nestes tempos em que a paz é duramente ameaçada e a perseguição aos cristãos pelos muçulmanos está cada dia mais feroz e incessante.

A festa de hoje é ocasião de recordarmos que ao Nome de Maria, como ao Nome de Jesus, durante as celebrações litúrgicas, faz-se inclinação de cabeça. Pela inclinação manifesta-se a reverência e a honra que se atribuem às próprias pessoas ou aos seus símbolos. 

Há duas espécies de inclinação, ou seja, de cabeça e de corpo. Faz-se inclinação de cabeça, quando se nomeiam juntas as três Pessoas Divinas, ao Nome de Jesus, da Virgem Maria e do Santo em cuja honra se celebra a Missa. É uma prática exterior que deve ser motivada pelo interior reconhecimento da grandeza da Serva do Senhor.

in O Segredo do Rosário


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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Tradição é a democracia dos mortos

Tradição significa dar o voto à mais obscura de todas as classes: os nossos antepassados. É a democracia dos mortos.

A Tradição recusa submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que andam por aqui agora.

Os democratas rejeitam que alguém seja posto de lado pelo acidente de ter nascido; a tradição rejeita que alguém seja posto de lado pelo acidente de ter morrido. A democracia diz-nos para não negligenciarmos a opinião de um bom homem, mesmo que seja o seu marido: a tradição pede-nos que não negligenciemos a opinião de um bom homem, mesmo que seja o seu pai.

G. K. Chesterton in Ortodoxia


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O Pequeno Catecismo de São Francisco Xavier

Francisco Xavier, padre jesuíta, chegou a Goa a 6 de Maio de 1542 e logo começou a ensinar a doutrina cristã. Este catecismo breve, de que se servia, é quase igual ao que em 1539–1540 publicou em Lisboa o célebre cronista da Índia João de Barros. 

1. Senhor Deus, tende misericórdia de nós. Jesus Cristo, Filho de Deus, tende misericórdia de nós. Espírito Santo, tende misericórdia de nós.

2. Creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo seu Filho único, Nosso Senhor. Creio que foi concebido do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria. Creio que padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Creio que desceu aos infernos; ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Creio que subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso. Creio que dos céus há-de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo. Creio na santa Igreja católica. Creio no ajuntamento dos santos e na remissão dos pecados. Creio na ressurreição da carne. Creio na vida eterna. Ámen.

3. Verdadeiro Deus, eu confesso de vontade e coração, como bom e leal cristão, a Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, três pessoas, um só Deus. Eu creio firmemente, sem duvidar, tudo o que crê a santa mãe Igreja de Roma; e bem assim eu prometo, como fiel cristão, viver e morrer na santa fé católica de meu Senhor Jesus Cristo. E quando à hora da minha morte não puder falar, agora, para quando eu morrer, confesso ao meu Senhor Jesus Cristo com todo o meu coração.

4. Pai nosso que estás nos Céus; santificado seja o teu nome; venha a nós o teu reino; seja feita a tua vontade, assim como nos céus, na terra. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, e perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores, e não nos tragas em tentação, mas livra-nos de todo o mal.

5. Deus te salve, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres e bento é o fruto do teu ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós pecadores, agora e à hora da minha morte. Ámen.

6. Os mandamentos da lei do Senhor Deus são dez. O primeiro é amar a Deus sobre todas as coisas. O segundo é não jurar o nome de Deus em vão. O terceiro é guardar os domingos e festas. O quarto é honrar teu pai e tua mãe, e viverás muitos anos. O quinto, não matarás. O sexto, não fornicarás. O sétimo é não furtarás. O oitavo é: não levantarás falso testemunho. O nono é: não desejarás as mulheres alheias. O décimo: não cobiçarás as coisas alheias.

7. Diz Deus: os que guardarem estes dez mandamentos irão para o paraíso. Diz Deus: os que não guardarem estes dez mandamentos irão para o inferno.

8. Rogo-vos, meu Senhor Jesus Cristo, que me deis graça hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, para guardar estes dez mandamentos.

9. Rogo-vos, minha Senhora Santa Maria, que queirais rogar por mim ao vosso bento Filho, Jesus Cristo, que me dê graça hoje, neste dia, todo o tempo da minha vida, para guardar estes dez mandamentos.

10. Rogo-vos, meu Senhor Jesus Cristo, que me perdoeis os meus pecados que fiz hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, em não guardar estes dez mandamentos.

11. Rogo-vos, minha Senhora Santa Maria, Rainha dos Anjos, que me alcanceis perdão do vosso bento Filho, Jesus Cristo, dos pecados que fiz hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, em não guardar estes dez mandamentos.

12. Os mandamentos da Igreja são cinco. O primeiro é ouvir missa inteira aos domingos e festas de guardar. O segundo é confessar-se o cristão uma vez na Quaresma ou antes, ou se espera entrar nalgum perigo de morte. O terceiro é tomar comunhão, por obrigação, em dia de Páscoa, ou antes ou depois, segundo o costume do bispado. O quarto é jejuar quando manda a santa Igreja, a saber, Vigílias, Quatro Têmporas e a Quaresma. O quinto é pagar dízimo e primícias.

13. Deus te salve, Rainha, Mãe de misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, Deus te salve! A ti bradamos, desterrados filhos de Eva. A ti suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, volve a nós aqueles teus olhos misericordiosos. E, depois deste desterro, amostra-nos Jesus, bento fruto do teu ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria. Ámen. Roga por nós, que sejamos merecedores dos prometimentos de Jesus Cristo. Ámen Jesus.

14. Eu pecador, muito errado, me confesso ao Senhor Deus e a Santa Maria, a São Miguel, o anjo, a João Baptista, e a São Pedro e São Paulo e São Tomé, e a todos os santos e santas da corte dos céus.

E a vós, Padre, digo a minha culpa, que pequei grandemente por pensamento e por palavra e por obra, de muito bem que pudera fazer, que não fiz, e de muito mal de que me pudera apartar e não me apartei: de tudo me arrependo e digo a Deus minha culpa, minha grande culpa, Senhor, minha culpa. Peço e rogo, a minha Senhora Santa Maria e a todos os santos e santas, que por mim queiram rogar ao meu Senhor Jesus Cristo, que me queira perdoar os meus pecados presentes, confessados, passados e esquecidos, e daqui para diante me dê a sua graça, que me guarde de pecar e me leve a gozar a glória do paraíso. Ámen.

15. Os pecados mortais são sete. O primeiro é soberba. O segundo é avareza. O terceiro é luxúria. O quarto é ira. O quinto é gula. O sexto é inveja. O sétimo preguiça.

16. As virtudes morais contra os pecados mortais são sete. A primeira é humildade contra a soberba. A segunda é largueza contra avareza. A terceira é castidade contra a luxúria. A quarta é paciência contra a ira. A quinta é temperança contra a gula. A sexta é caridade contra a inveja. A sétima é diligência contra a preguiça.

17. As virtudes teologais são três. A primeira, fé; a segunda, esperança; a terceira, caridade.

18. As virtudes cardeais são quatro. A primeira, prudência; a segunda, fortaleza; a terceira, temperança; a quarta, justiça.

19. As obras de misericórdia corporais são sete. A primeira é visitar os enfermos. A segunda, dar de comer a quem tem fome. A terceira, dar de beber a quem tem sede. A quarta, é remir os cativos. A quinta, é vestir os nus. A sexta, é dar pousada aos peregrinos. A sétima, é enterrar os finados.

20. As obras de misericórdia espirituais são sete. A primeira, é ensinar os simples sem doutrina. A segunda, dar bom conselho a quem o precisa. A terceira, é castigar quem precisa de castigo. A quarta, é consolar os tristes desconsolados. A quinta, é perdoar ao que errou. A sexta, é sofrer as injúrias com paciência. A sétima, é rogar a Deus, pelos vivos, que os guarde de pecados mortais; e, pelos mortos, que os tire das penas do purgatório e os leve para o paraíso.

21. Os sentidos corporais são cinco. O primeiro é ver. O segundo é ouvir. O terceiro é cheirar. O quarto é gostar. O quinto é palpar.

22. As potências da alma são três. A primeira, memória. A segunda, entendimento. A terceira, vontade.

23. Os inimigos da alma são três. O primeiro é o mundo. O segundo é a carne. O terceiro é o diabo.

24. Oração à Hóstia. Adoro-te, meu Senhor Jesus Cristo, bendigo-te a ti, pois pela tua santa Cruz remiste o mundo e a mim. Ámen.

25. Oração ao Cálice. Adoro-te, sangue do meu Senhor Jesus Cristo, que foste derramado na cruz para salvar os pecadores e a mim. Ámen.

26. Ó meu Deus poderoso e Pai piedoso, Criador de todas as coisas do mundo, em vós, meu Deus e Senhor, pois sois todo o meu bem, creio firmemente sem poder duvidar que me tenho de salvar pelos méritos infinitos da morte e paixão de vosso Filho Jesus Cristo, meu Senhor, ainda que os pecados de quando era pequeno sejam muito grandes, com todos os demais que tenho feito até esta hora presente, pois é maior a vossa misericórdia que a maldade dos meus pecados. Vós, Senhor, me criastes, e não meu pai nem minha mãe, e me destes alma e corpo e quanto tenho. E vós, meu Deus, me fizestes à vossa semelhança, e não os pagodes, que são deuses dos gentios em figura de bestas e alimárias do diabo. Eu renego de todos os pagodes, feiticeiros, adivinhadores, pois são escravos e amigos do diabo. Ó gentios, que cegueira de pecado é a vossa tão grande, que fazeis de Deus bestas e demónio, pois o adorais em suas figuras! Ó cristãos, demos graças e louvores a Deus trino e uno, que nos deu a conhecer a fé e a lei verdadeira de seu Filho, Jesus Cristo.

27. Ó Senhora Santa Maria, Esperança dos cristãos, Rainha dos anjos e de todos os santos e santas que estão com Deus nos céus, a vós, Senhora, e a todos os santos, me encomendo, agora e para a hora da minha morte, [para] que me guardeis do mundo, da carne e do diabo, que são meus inimigos desejosos de levar a minha alma para os infernos.

28. Ó senhor São Miguel, defendei-me do diabo à hora da minha morte, quando estiver dando conta a Deus da minha vida passada. Pesai, Senhor, os meus pecados com os méritos da morte e paixão do meu Senhor Jesus Cristo, e não com os meus poucos merecimentos, assim serei livre do poder do inimigo e irei a gozar para sempre sem fim dos fins.

29. A bênção da mesa. V. Bendizei. R. O Senhor. V. A nós e aos alimentos que vamos tomar, Deus trino e uno nos abençoe. Bendigamos ao Senhor. R. Graças a Deus. V. Louvor a Deus, paz aos vivos, descanso aos defuntos. Amen.

Deus nos ajunte no paraíso. Amen.

in Obras Completas – São Francisco Xavier – Editorial A.O. – Braga e Edições Loyola – São Paulo, Brasil


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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Cantar é comer duas vezes



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Mais de 100 milhões de fiéis Católicos em todo o Mundo desejam viver a sua Fé ao ritmo da Liturgia Tradicional

Tendo já visto que a Missa tradicional é hoje em dia celebrada em cerca de 80 países e tendo mostrado que mais de 4500 sacerdotes católicos celebram hoje a missa segundo o usus antiquior, na presente carta trataremos a questão do número de fiéis católicos que, mundo afora, se encontram ligados à liturgia tradicional da Igreja. Pedimos, por isso, a Christian Marquant que nos apresentasse os resultados do inquérito que expôs durante as jornadas Summorum Pontificum, em Roma, a 26 de Outubro de 2018.

Paix Liturgique - Nesta terceira parte do nosso balanço, iremos tratar da questão dos fiéis ligados à missa tradicional.

Christian Marquant – Para responder a esta questão, será necessário percorrer o caminho que fizemos desde os tempos de "Oremus" até hoje. Lembro que 30 anos atrás, as autoridades eclesiásticas não estavam dispostas a reconhecer que a nossa existência era uma realidade... Por isso, foi-nos necessário pôr em marcha não só uma reflexão mas também aqueles meios que, ao longo de mais de três decénios, permitiram que justamente chegássemos hoje a formular uma estimativa de qual seja o número dos fiéis católicos que mundo afora estão ligados à liturgia tradicional. Primeiro, foi necessário reflectir a fim de chegar a obter uma resposta satisfatória para França...depois foi a vez do resto do mundo!

Paix Liturgique - Qual foi o procedimento adoptado?

Christian Marquant – Num primeiro momento, procedemos a um inventário para França do número de missas tradicionais, para assim chegarmos a estabelecer o número de fiéis que a elas assistiam.

Paix Liturgique - E consegue obter desse modo o número exacto dos fiéis que praticam a forma extraordinária?

Christian Marquant – Não, mas consegue-se um primeiro número. Como sabe, a missa tradicional é muito pouco celebrada quando comparada com a forma ordinária. Isso é verdade para França, mas ainda o é mais para muitos outros países. Por isso, há muitíssimos fiéis que, estando distantes das capelas tradicionais, não podem assistir a estas celebrações regularmente. 

Mas mais ainda: hoje, muitos católicos, mesmo entre os que estão ligados à missa tradicional, não praticam todos os domingos, ou porque estão influenciados pelo laxismo circundante, ou, pelo contrário, porque, em não podendo assistir à missa tradicional, preferem não assistir à missa e lê-la num missal, considerando ser-lhes demasiado difícil ter de suportar a missa nova. É por isso necessário introduzir uma correcção no valor do núcleo dos fiéis contabilizados num dado domingo, tendo em conta destes dois parâmetros.

Paix Liturgique - Será que os sacerdotes que servem esses locais têm consciência disso?

Christian Marquant – Certamente! Ainda que nem todos consigam abarcar bem este facto. Quanto a mim, creio que, tomando em conta os elementos que referi, o total dos praticantes num dado domingo deverá ser multiplicado em média por 3, se quisermos medir o número real dos praticantes ligados a uma certa capela. E sobretudo se quisermos considerar os praticantes muito irregulares que não frequentam a igreja senão nas grandes festas como no Natal ou na Páscoa, ou no Domingo de Ramos, que ainda interpelam muitos dos semi-praticantes.

Paix Liturgique - Tudo considerado, qual o número para um país como a França?

Christian Marquant – Se estimarmos que, em França, há cerca de 450 capelas onde se celebra a missa tradicional e que o conjunto médio de fiéis será de 150, deparamo-nos com uma base de praticantes de pelo menos 67.500 cada domingo.

Paix Liturgique - E é este o número que lhe mereceria correcções?

Christian Marquant – Precisamente! Aplicando o multiplicador 3 – isto é, se estimarmos que, cada domingo, são 67.500 os fiéis que assistem a uma missa tradicional em França – é então legítimo pensarmos que os praticantes ligados a estas capelas perfazem um total mínimo de 200.000 fiéis católicos.

Paix Liturgique - Não é relativamente pouco?

Christian Marquant – Sim, é de facto pouco por comparação com os 40 milhões de franceses que se declaram católicos, mas não esqueçamos que, destes 40 milhões, apenas cerca de 2,4 milhões se podem considerar como praticantes "regulares" segundo critérios próximos dos que assumimos para chegar ao número de praticantes "tradis" em França. Isto significa que os nossos 200.000 fiéis que frequentam a liturgia tradicional poderiam representar hoje cerca de 8% dos praticantes franceses, o que está bem longe de ser ridículo.

Mas não podemos quedar-nos por aqui; não nos podemos contentar com este tipo de contagem. De facto, no encontro precedente, mencionei que o número de capelas onde se celebra a missa tradicional é tão modesto, que devemos ter em conta não apenas os fiéis que assistem às missas "extraordinárias", mas também os que o desejariam e não o podem fazer de modo habitual.

Paix Liturgique - E no entanto, hoje temos há disposição meios de transporte que permitiriam a todos participar destas celebrações...

Christian Marquant – Em teoria, tem razão, mas só alguns raríssimos fiéis, que poderíamos comparar a autênticos heróis, conseguem fazer essa opção. A imensa maioria dos fiéis ligados à missa tradicional são senhoras e homens, motivados sem dúvida, mas para os quais, por várias razões – idade, famílias numerosas, fracos meios financeiros, obrigações familiares ou sociais, etc. – essa opção não parece ser razoável. Além de que uma parte deles pertencem aos "silenciosos da Igreja".

Paix Liturgique - O que entende por "silenciosos da Igreja"?

Christian Marquant – Os "silenciosos" são aqueles católicos que não se sentem à vontade com as inovações impostas no seio da Igreja desde há 50 anos em matéria de catequese e de liturgia. Eles não têm por hábito contestar ou manifestar-se junto das autoridades, contentando-se em seguir, mas arrastando os pés, enquanto aguardam por melhores dias que hão-de vir, assim o esperam, quando as coisas do culto haverão de estar de harmonia com o seu instinto espiritual e doutrinal, aquilo que, no meu entender, podemos chamar de instinto da fé.

Paix Liturgique - Mas então estes "silenciosos" jamais se manifestam?

Christian Marquant – Eles deixaram de o fazer, ou não o fazem com vigor, e entende-se porquê. Todas as vezes que abordei alguns destes fiéis, constatei que, nas respectivas paróquias, quando as inovações iniciaram, eles haviam feito saber ao seu pároco quais eram as suas aspirações e quais as suas discordâncias; todavia, como, as mais das vezes, foram violentamente repreendidos e apodados de"velhos do Restelo", saudosistas, retrógrados, nostálgicos, frequentemente passaram a preferir calar-se ... ou mudar-se para outro lugar.

Paix Liturgique - Crê que é daí que vem a queda na prática religiosa?

Christian Marquant – Seria indubiamente exagerado reduzir o fenómeno da queda na prática religiosa no Ocidente apenas a este motivo. A razão principal, segundo o historiador Guillaume Cuchet, está no sentimento generalizado de que o Concílio teria eliminado da vida dos católicos todo e qualquer dever absolutamente obrigatório. Mas há também esse apsecto do desamor dos fiéis a respeito da Igreja desde o Concílio, nomeadamente em relação à igreja enquanto edifício. Um outro historiador, Luc Perrin, mostrou até que ponto as profundas alterações do espaço cultual descontentaram e desalentaram os fiéis praticantes. É aliás notório que um número não insignificante de católicos deixaram de praticar por fuga à revolução litúrgica, porque lhes tinham "mudado a religião". 

Na verdade, todos estes motivos estão interligados: o clero conciliar, de lés a lés, pretendeu impor uma nova maneira de rezar e de crer, o que, para lá do juízo de fundo que possamos fazer a respeito desta inovação, acabou por não funcionar em absoluto do lado dos fiéis. Seria uma heresia? Pode até ser, mas, em todo o caso, trata-se indiscutivelmente de um fracasso, sabendo como se sabe que, em França, temos hoje em dia uma prática religiosa reduzida a 2% dos baptizados em França!

Paix Liturgique - Perdoe-me se insisto, mas como consegue medir a importância destes fiéis silenciosos, se, por definição, eles não se manifestam?

Christian Marquant – Eles não se manifestam de modo vigoroso, mas, ainda assim, eles exprimem-se, sobretudo quando se lhes dá ocasião para isso. Desde os anos 70, isto é, desde a brutal imposição da reforma litúrgica nas nossas paróquias, tivemos já diversas ocasiões de assistir a isso, ou seja, ocasiões para medir a amplitude desse desamor.

De facto, o termo "silenciosos" foi inventado por Pierre Debray, um homem fascinante, um convertido e um tribuno magnífico, que deu ao seu próprio movimento o nome de "Silenciosos da Igreja". Mas pela sua parte, Pierre Debray falava bem alto em nome dos outros! Ele reuniu uma "Assembleia dos Silenciosos da Igreja" em Versalhes, em Novembro de 1970, cujo sucesso deve ter feito reflectir aos especialistas em sociologia religiosa. Mas estes permaneceram por longo tempo cegos, não obstante todos os sinais que podiam detectar.

Nomeadamente, este: em 1976, a meio de um Verão em que muito se falava de Mons. Lefebvre, a quem acabava de ser aplicada uma primeira sanção, o jornal diário de Lyon, "Le Progrès", encomendou uma sondagem ao organismo Ipsos a respeito do "Caso Lefebvvre". Os resultados foram realmente extraordinários – vamos aliás publicar de novo na íntegra esta sondagem histórica na próxima carta da Paix Liturgique. Faço aqui notar dois dados:

- 28 % dos católicos interrogados aprovavam a decisão de Mons. Lefebvre de ordenar sacerdotes desprovido de mandato de Roma;
- e sobretudo, 48 % dos católicos praticantes estimavam que "A Igreja de hoje, com o pretexto da reforma, tinha ido longe demais" …

Interrogado pelos jornalistas, o Cardeal Renard, arcebispo de Lyon à época, confessava-se surpreendido com estes números. Todavia, tanto quanto sabemos, nem por isso o efeito destes números levou os nossos bispos a proceder a novos inquéritos ou, então, a criar uma comissão no seio da conferência episcopal francesa. Como quer que seja, nessa época, os responsáveis eclesiásticos eram incapazes de ver esta realidade: eram eles, e só eles, que sabiam o que era melhor para a Igreja e para os cristãos, e nada havia que os pudesse fazer desviar do seu grande plano reformador.

Como bem compreende, o nosso desejo era, bem ao contrário, o de saber mais acerca destes "silenciosos" com quem nos cruzávamos frequentemente e o de tentar medir este fenómeno no início do terceiro milénio, 35 anos após o fim do Concílio.

Paix Liturgique - E o que fez de seguida?

Christian Marquant – Mais sondagens. Foi, de facto, neste contexto que a "Oremus – Paix Liturgique" se lançou nesta aventura das sondagens. Lembremos, no entanto, que se tratava de um domínio que nos era estranho e do qual não tínhamos qualquer experiência. De mais a mais, era uma aventura dispendiosa, e alguns amigos chegaram a aconselhar-nos a não nos aventurarmos nisto porque o próprio princípio das sondagens era malsão... (conquanto seja precisamente este o método habitualmente utilizado pelos nossos adversários).

Foi assim que, em 2001, atravessámos o Rubicão – a frase é algo exagerada, mas não completamente, se considerarmos os resultados espantosos que viemos a apurar: a longo prazo, um autêntico golpe de Estado, ou golpe de Igreja – e encomendámos a nossa primeira sondagem à Ipsos. Depois, repetimos a experiência, ainda em França, em 2006 e 2008, por ocasião da vinda do Papa Bento XVI a França, desta feita recorrendo, em ambas as ocasiões, aos serviços da CSA.

Não entremos agora em pormenores, que são narrados nas nossas brochuras, que todas as pessoas nos podem pedir. Fiquemos pelos resultados. Observamos desde logo que os resultados das três sondagens são globalmente os mesmos, o que indicia uma grande estabilidade de posições.

Dos resultados obtidos, destacaria aqui três números:

a) em traços largos, 30% dos católicos praticantes assistiriam de bom grado à missa "extraordinária", se a mesma fosse celebrada nas suas paróquias;

b) dois terços dos católicos acha normal a coabitação das duas formas do rito na própria paróquia;

c) os opositores desta pluralidade litúrgica (ou seja, do reconhecimento do direito de cidade à forma tradicional) representam menos de um terço dos católicos, conquanto sejam eles a deter ainda as rédeas das paróquias e das estruturas do catolicismo francês, opondo-se vigorosamente a medidas de pacificação.

Paix Liturgique - Qual a lição a retirar destes resultados?

Christian Marquant – O resultado mais importante a reter é o de que, agora, podemos contabilizar aqueles "silenciosos": sabemos finalmente que eles correspondem a estes 30% dos paroquianos que desejam poder assistir à missa tradicional NAS SUAS PARÓQUIAS.

Valores estes, que se lhes aplicamos o método que põe em relação a quantidade dos fiéis tradicionais com a prática atestada, mostram que os fiéis ligados à missa tradicional não são na realidade 200.000 mas sim, pelo menos, 25% dos católicos franceses, isto é, pelo menos, 10 milhões de Franceses! O que muda tudo...

Paix Liturgique - Como conseguiu pôr em marcha esta obra das sondagens também fora de França?

Christian Marquant – Já chegava de ouvir os inimigos da Paix que nos puxavam as orelhas dizendo que o fenómeno tradicional não era senão uma coisa estritamente franco-francesa. Pois bem sabíamos pelos nossos amigos italianos e de outros lados que este movimento era dinâmico na maior parte do mundo católico. Nessa altura, estávamos em contacto com os nossos amigos do blog italiano "Messainlatino"*, a quem propusemos que se lançasse uma sondagem semelhante em Itália.

Cumpre dizer, claro está, que, à parte "Messainlatino", os nossos amigos em Itália, em geral, procuravam dissuadir-nos, afirmando que o seu país não era como a França e que os resultados seriam maus, ou até mesmo catastróficos... Em suma, uma autêntica síndroma de Estocolmo!

Apesar de tudo isso, lançámos uma sondagem de opinião em 2009, em parceria com os nossos amigos de "Messainlatino", encomendada ao instituto Doxa. Passo em silêncio os pormenores... Os resultados, esses, foram ainda melhores do que os obtidos em França:

- 71% dos italianos "Achavam normal a celebração das duas formas do rito nas suas paróquias";
- e mais de 60% dos católicos praticantes desejavam poder assistir à missa tradicional NA SUA PARÓQUIA.

Paix Liturgique - Foi então que decidiu avançar com esta campanha?

Christian Marquant – Assim foi, e somente as questões económicas nos impediam de o fazer imediatamente. No entanto, entre 2010 e 2017, ainda fizemos realizar sondagens semelhantes em 7 países, a saber, na Alemanha, em Portugal e na Grã-Bretanha, em 2010, depois na Suíça e em Espanha, em 2011, e por fim, na Polónia e no Brasil, em 2017.

Paix Liturgique - Com que resultados?

Christian Marquant – Com resultados idênticos e, por vezes, ainda melhores do que em França. JAMAIS PIORES.

Por exemplo, em Portugal, país muito sinistrado, liturgicamente falado, os resultados foram extraordinários (30% dos católicos praticantes assistiriam de bom grado TODAS AS SEMANAS À LITURGIA TRADICIONAL, e 25% mais ou menos uma vez por mês...)

Os pormenores de todas as sondagens podem encontrar-se nas nossas brochuras...

Tudo visto, o resultado mais espectacular é de que, nos 10 países onde levámos a cabo as sondagens, encontramos um mínimo de 25% de fiéis que desejariam viver a sua fé católica ao ritmo da liturgia tradicional nas respectivas paróquias.

Paix Liturgique - Qual o significado deste resultado?

Christian Marquant – Concretamente, isto significa que, mundo afora, 25% dos católicos têm uma atração pela liturgia tradicional, a qual, em geral, não conhecem senão através de contactos episódicos de ouvir dizer, e que eles estão insatisfeitos com a liturgia que se lhes serve, se me permite a expressão.

Ora, atendo-nos às estatísticas do Vaticano, os fiéis católicos de rito latino são hoje 1.299.000.000**. Poderíamos, pois, estimar que um quarto de entre eles constitui em potência o povo Summorum Pontificum.

E mesmo se não retivermos senão uma fracção desse número total reduzindo-a a 10%, teríamos em todo o planeta um mínimo de 130 milhões de católicos que, de modo mais ou menos explícito, estariam à espera que se lhes ponha à disposição uma liturgia "como dantes" ou, se estiverem melhor informados, que esperam que os seus pastores apliquem o motu proprio proclamado por Bento XVI a 7 de Julho de 2007.

Paix Liturgique - Não acha, no entanto, que essa atracção apenas diz respeito aos fiéis da velha Europa?

Christian Marquant – Desenganemo-nos: os outros são mais católicos do que nós! Em 2017, realizámos uma sondagem fora da velha Europa, no Brasil, e os resultados são ainda mais favoráveis em prol da missa tradicional do que os obtidos em França.

Mas a sua interrogação é também a nossa: e é por isso mesmo que acabámos de encomendar uma sondagem na Coreia, a admirável Coreia católica, cujos resultados serão publicados muito em breve. Mas posso adiantar desde já que são tão bons como os que obtivemos na Europa ou no Brasil. O que nos permite afirmar claramente que a nossa estimativa mundial não é infundada e que seria erróneo querer aplicá-la somente à velha Europa. O mundo inteiro espera uma renovação litúrgica!

Paix Liturgique - Tem intenção de continuar com as sondagens?

Christian Marquant – Sim, se a Providência nos ajudar a encontrar doadores generosos que no-lo permitam. Em média, uma sondagem do género destas de que falámos custa 7.500 €. Neste momento, já lançámos (a pedido do Cardeal Raymond Burke) uma sondagem nos Estados Unidos. Prevemos já, pelo menos, uma sondagem no México, outra na Ásia...

Há também aqueles países onde a situação económica torna difícil a realização de uma sondagem. Penso nomeadamente à maior parte dos países africanos. Temos ainda o projecto de realizar viagens missionárias a países onde a missa tradicional ainda não existe, mas onde a nossa intuição nos diz que os "silenciosos" a esperam.

Paix Liturgique - Estas viagens missionárias são ainda um projecto ou são antes uma realidade próxima?

Christian Marquant – Já levámos a cabo várias viagens deste tipo, que relataremos em cartas futuras. Dou-lhe um exemplo. Em Janeiro de 2018, empreendemos uma missão exploratória em Angola, um país onde, hoje em dia , ainda não é celsbrada a missa tradicional (ou melhor, não o é mais, porque outrora, era-o). Pois posso dizer que encontrámos aí numerosos sacerdotes e fiéis que anseiam por esta celebração. Descobrimos que a Fraternidade São Pio X tem a intenção de aí se instalar num futuro próximo... Nem é preciso dizer que é evidente que ajudaremos estes angolanos para que possam beneficiar da missa tradicional e esperamos que este país já possa figurar no nosso Balanço 2019 entre os países onde a missa extraordinária é celebrada.

Paix Liturgique - Concluindo?...

Christian Marquant – São Tomás diz que todo o homem que vem a este mundo é ordenado à Igreja. É por isso que todo o cristão deve ser um missionário. Falando de liturgia, diria, de modo mais directo, que todos os católicos romanos têm necessariamente – se é verdade que ainda são católicos – a nostalgia da liturgia romana na sua plenitude.

Mais concretamente ainda, os fiéis que anseiam pela liturgia tradicional ou que a ela estão ligados são certamente mais de 100 milhões em todo o planeta. Exagero? Creia-me: as luas conciliares ficam cada vez mais velhas, e poderá ser que, muito em breve, assistamos na Igreja a "regressos" espantosos. Em todo o caso, nos próximos dez anos, verá que a missa tradicional será celebrada em todos os países que tenham uma comunidade católica latina. A questão imediata que se põe não é, por conseguinte, a de saber quantos sejam os fiéis "silenciosos" mundo afora, mas a de saber como é que todos nós, sacerdotes e leigos, vamos poder ajudar estes sacerdotes e leigos, nossos irmãos, que estão dispostos a vivê-la para seu maior bem espiritual e doutrinal e para a maior glória de Deus.

* Veja-se a nossa carta 677, "MESSAINLATINO aux origines d'une prise de conscience traditionnelle en Italie"
** Annuaire statistique de l'Église 2016 , Libreria Editrice Vaticana , 2018, págs. 17-19.



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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Em que consiste a virtude da Fortaleza?

Fortaleza é uma virtude pela qual a vontade é de tal modo robustecida que não desiste de fazer o bem, por muito árduo que ele seja, nem por causa das dificuldades, nem pelo perigo de morte. A virtude da fortaleza manifesta-se principalmente na constância em suportar o peso da dor. 

Muito contribuem para conservar a fortaleza, além da oração, a comparação da fragilidade dos bens terrenos com a grandeza dos bens eternos, a previsão dos males a que estamos sujeitos, o costume de agir decididamente nas coisas pequenas, o fervoroso amor de Deus. São virtudes inseparáveis da fortaleza: a magnanimidade, a paciência e a perseverança.

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica (1945)


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Dominicanos disponibilizam cursos gratuitos sobre ensinamentos de S. Tomás


Washington DC. É de esperar que o nome da capital norte-americana nos sugira todo o tipo de sentimentos, talvez até contraditórios entre si. Há décadas que nos habituámos a tê-la como indisputado centro do mundo porque os Estados Unidos têm sido a única verdadeira super-potência à escala global, aliando à sua supremacia militar, económica e tecnológica – hard power – a sua esmagadora influência cultural – o seu soft power.

Assim, Washington representa e sintetiza tudo o que de melhor e pior os EUA têm para oferecer ao mundo. Se o gender, o progressismo católico mais terminal e a cultura da morte lhe são tributários, a capital do Ocidente tem também sabido gerar – certamente sob o influxo do Espírito do Senhor que vem regenerar todas as coisas – uma contra-cultura que afinal não é mais do que tirar as coisas velhas sempre novas do tesouro da Tradição Católica e de que o Evangelho nos dá conta.

Nesta dinâmica cultural contra-corrente que visa reconstruir a Cidade de Deus acreditamos que se insere, com destaque, o Thomistic Institute da Pontifícia Faculdade da Imaculada Conceição (https://thomisticinstitute.org), regida pelos dominicanos fiéis à tradição tomista da Dominican House of Studies de Washington DC.
           
Este Instituto, que já tem marcado presença entre nós por meio de conferências de grande qualidade de alguns dos seus membros, oferece agora um extraordinário conjunto de conteúdos e cursos formativos gratuitos, disponíveis on-line, sobre o pensamento do Doutor Universal da Igreja. 

De entre os cursos disponíveis, de extensão variável a começar nos 6 vídeos, o Aquinas 101 (https://aquinas101.thomisticinstitute.org) consta de dois vídeos por semana enviados por e-mail, no total de 86 vídeos, e apresenta-se como uma introdução ao pensamento daquele que como nenhum outro sintetizou a verdade da Revelação nas Sagradas Escrituras e na Santa Tradição da Igreja com o produto filosófico mais nobre da razão humana.

Aos nossos amigos, aos curiosos, ao homens cultos e àqueles que procuram a Verdade de coração sincero, aos católicos que desejam aprofundar a tradição intelectual que foi o sustentáculo da Cristandade por tantos séculos, temos muito gosto de recomendar este curso com a chancela do Thomistic Institute de Washington DC.

E atrevemo-nos a dizer: aqui residirá o verdadeiro hard power capaz de transformar o mundo à imagem do seu Divino Criador.


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