quinta-feira, 25 de junho de 2026

FSSPX envia Professio Fidei ao Papa e aos Cardeais antes do Consistório

Profissão de Fé Católica da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X para iluminar as almas face aos erros modernos
Em nome da Santíssima e Indivisível Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo.Preâmbulo
  1. Professo e abraço toda a verdade da Fé Católica, tal como foi «recebida pelos Apóstolos da boca de Cristo Mesmo, ou dos próprios Apóstolos, ditando o Espírito Santo», depois fielmente conservada e transmitida até nós, em sucessão ininterrupta, dentro da Igreja Católica, pela pregação dos Papas e dos bispos, pelos escritos dos Padres da Igreja e dos teólogos, e pelas definições dos santos concílios.
  2. Recebo firmemente cada e toda a verdade que a Igreja infalível propôs como divinamente revelada e necessária para a salvação, quer pelas definições do seu Magistério solene, quer pela unanimidade do seu Magistério Ordinário e Universal. Recebo igualmente tudo o que pertence à doutrina católica por razão da sua necessária conexão com o Depósito revelado, e tenho como certas as verdades que a Igreja ensinou com constância para salvaguardar esse Depósito contra os erros.
  3. Rejeito, consequentemente, todos os erros contrários a esta Fé, e em particular os do liberalismo, do indiferentismo, do modernismo, do ecumenismo e do laicismo, condenados pelos Papas Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Pio XI e Pio XII. Estes erros obscurecem a doutrina revelada, falsificam a Tradição, desfiguram a sagrada liturgia, corrompem os costumes, enfraquecem o espírito missionário e desintegram a ordem social cristã, prejudicando gravemente a salvação das almas.
  4. Professo esta Fé e rejeito todos os erros contrários a ela, porque desejo permanecer fielmente sujeito à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, Mestra da verdade, e ao Papa, Vigário de Cristo, em união com a Roma eterna, que recebeu a missão de guardar santamente e expor fielmente o Depósito revelado até ao fim dos tempos.
  5. Acrescento que, na presente confusão, já não basta recordar algumas verdades isoladas. Tornou-se indispensável pôr em plena luz toda a ordem da doutrina católica, na sua coerência sobrenatural e harmonia luminosa, sem omitir nenhum dogma, sem diminuir nenhuma verdade, e sem substituir a Fé recebida por uma linguagem equívoca ou truncada que, sob pretexto de ecumenismo ou de adaptação ao mundo, desfigura esta doutrina com audácia sempre maior.
  6. A própria caridade exige que esta doutrina seja professada com clareza, paciência e fortaleza, para glória de Deus, honra da Igreja e salvação das almas.
I. A Revelação Divina, a Fé e a Tradição
  1. Creio que Deus, na sua bondade, chamou o homem, pelo dom da graça, a obter a Visão Beatífica. Sustento firmemente e professo que esta exaltação do homem supera as forças e as exigências da natureza humana, e que é um dom gratuito de Deus, isto é, um dom sobrenatural.
  2. Creio que Deus não deixou o homem entregue apenas às suas forças naturais, mas lhe revelou os mistérios da sua vida divina e o destino sobrenatural para o qual o chama. Assim, tendo falado outrora pelos Profetas na Antiga Aliança, falou de modo definitivo por seu Filho Unigénito, Nosso Senhor Jesus Cristo, na Nova Aliança, com a qual a Revelação Divina recebeu o seu cumprimento perfeito.
  3. Esta Revelação é a verdadeira Palavra de Deus, confiada à Igreja como Depósito, e proposta aos homens como Regra da Fé sob a forma de um corpo de doutrina, no qual os mistérios são formulados de maneira a torná-los inteligíveis e expressáveis em palavras. A Revelação não é a expressão progressiva de uma consciência religiosa, nem o fruto de uma experiência colectiva da comunidade crente; é a própria verdade de Deus, sobrenaturalmente comunicada às mentes dos homens para a sua salvação.
  4. Creio que o Depósito da Fé foi completado com a morte do último Apóstolo. Depois dos Apóstolos, a Igreja não recebe nova Revelação: guarda, explica, defende e transmite o Depósito recebido.
  5. Reconheço as provas externas da Revelação, em particular os milagres e as profecias, como sinais certíssimos pelos quais a origem divina da religião cristã é demonstrada de modo adequado ao intelecto humano, em todo o tempo e lugar. Reconheço igualmente a própria Igreja, pela sua unidade, santidade, catolicidade, fecundidade e estabilidade invencível, como motivo permanente de credibilidade e testemunho irrefutável da sua missão divina.
  6. Professo que a fé é a submissão sobrenatural do intelecto, sob o impulso da graça, à verdade revelada exteriormente por Deus. Não assenta na evidência das coisas vistas, nem no juízo privado, nem na experiência do que é vivido, mas na própria autoridade de Deus que fala e que, sendo a primeira Verdade, não pode enganar-se nem enganar. A fé não é, portanto, um sentimento religioso cego, nem uma emoção da alma, nem uma convicção íntima produzida pela consciência pessoal ou colectiva. É a virtude sobrenatural que eleva o intelecto humano e lhe permite conhecer a Deus tal como Ele é, graças ao testemunho que Deus dá de Si mesmo, enquanto se espera a Visão.
  7. Rejeito, consequentemente, o erro do modernismo, tal como ainda hoje grassa, que reduz a fé a uma experiência interior, a uma aspiração sensível ou a uma realização progressiva na comunidade crente. Tal concepção destrói a própria noção de dogma e torna impossível a obrigação de crer, substituindo a verdade divina pela sinceridade subjectiva e entregando a doutrina às flutuações da história.
  8. Professo ainda que o Depósito da doutrina revelada por Deus está contido nas suas duas fontes, a saber, a Sagrada Escritura e a Tradição. Professo que a Tradição contém muitas verdades reveladas por Deus que não se encontram na Escritura, e que, consequentemente, a Escritura deve ser lida e entendida em dependência da Tradição.
  9. Professo que a Sagrada Escritura, cujos livros foram escritos integralmente, em todas as suas partes, sob a inspiração do Espírito Santo, é verdadeiramente a Palavra de Deus, livre de todo o erro, e confiada à interpretação autêntica do Magistério da Igreja, segundo a norma da Tradição e segundo a Analogia da Fé.
  10. Rejeito, portanto, a exegese racionalista, que trata os livros sagrados como documentos tendo apenas o homem por autor, que exclui a priori a possibilidade do sobrenatural, separa artificialmente o Cristo histórico da Fé da Igreja, dissolve os milagres em símbolos, ou submete a Escritura às hipóteses variáveis e às manipulações dos métodos críticos naturalistas. A verdadeira erudição bíblica deve estar ao serviço da compreensão da Fé; não deve ser a regra, o intérprete ou o juiz da Palavra de Deus.
  11. Professo finalmente que a Tradição não é uma memória morta, mas a transmissão viva da doutrina recebida dos Apóstolos. Permanece viva, em distinção da Revelação, que está fechada. É-o tanto na actividade do Magistério da Igreja Docente como na profissão de Fé da Igreja Discípula, de que o sentire cum Ecclesia é resultado do ensino do Magistério. A Tradição pode ser chamada «viva», não no sentido de que mude o seu significado, mas no sentido de que o Magistério vivo propõe, ao longo dos séculos, de maneira cada vez mais clara e explícita, a mesma verdade segundo o mesmo significado. O que foi crido por todos, em toda a parte e sempre, como pertencendo à Fé, não pode ser negado ou posto em dúvida por qualquer moda teológica, pressão pastoral, necessidade diplomática ou alegadas exigências do mundo moderno.
II. Deus, Princípio e Fim de Todas as Coisas, Santíssima Trindade
  1. Professo a existência de um só Deus, pessoal, vivo e verdadeiro, primeiro princípio e último fim de todas as coisas, que no princípio criou o Céu e a terra, todas as coisas visíveis e invisíveis, do nada. Infinitamente perfeito, eterno e omnipotente, imutável, incompreensível na sua essência e soberanamente livre nas suas obras, Ele é distinto do mundo que criou livremente, que conserva na existência e que governa pela sua Providência.
  2. Professo que Deus pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas, como a causa é conhecida pelos efeitos. A Fé Católica reconhece que o intelecto humano é capaz de atingir verdadeiramente a realidade das coisas, muitas vezes de conhecer as suas causas e de chegar a certidões genuínas.
  3. Rejeito, portanto, o agnosticismo moderno, o cepticismo filosófico, o subjectivismo idealista e todas as doutrinas que limitam o alcance do conhecimento humano aos fenómenos sensíveis ou às construções da consciência, negando assim a própria possibilidade de um Magistério eclesiástico e de uma verdadeira teologia.
  4. Confesso que na única Natureza Divina subsistem três Pessoas realmente distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Trindade consubstancial e indivisível. O Pai é sem princípio; o Filho é eternamente gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho como de um único princípio. Mas estas três Pessoas são uma só e mesma Substância Divina: são um só Eterno, não três Eternos; um só sábio, bom e omnipotente Deus, não três deuses igualmente sábios, bons e omnipotentes; são um só na Vontade e na Providência Divinas e gozam de uma só e mesma glória.
  5. Rejeito as profissões diminuídas da fé trinitária que, sob pretexto de unidade religiosa ou de prudência ecuménica, passam deliberadamente em silêncio o que Deus revelou sobre Si mesmo. Não basta dizer com os judeus e os muçulmanos que Deus é um; não basta reconhecer com os arianos que o Filho é da mesma natureza que o Pai; nem basta confessar com os gregos cismáticos que o Espírito Santo procede do Pai, passando em silêncio o Filioque. Este falso irenismo persegue uma concórdia ilusória: omitindo professar certas verdades reveladas, substitui a confusão pela clareza e ameaça a integridade da Fé.
III. A Criação do Homem e a Ordem Sobrenatural da Graça
  1. Creio que Deus criou o homem à sua imagem, dotado de alma espiritual e imortal, capaz de conhecer a verdade, de amar o bem conhecido pela razão natural e de se voltar livremente para o seu Criador. O homem não é, portanto, o produto necessário de uma evolução cega, nem o simples resultado de forças materiais; vem de Deus como da sua causa criadora, depende de Deus, que o mantém no ser, e está ordenado a Deus como ao seu fim.
  2. Professo que Deus não destinou o homem apenas à sua perfeição natural, mas o chamou livremente a um fim sobrenatural que absolutamente supera as forças e os direitos da natureza criada: a Visão Beatífica, pela qual a alma verá a Deus face a face e participará na vida íntima da Santíssima Trindade. Que o homem seja chamado a tornar-se filho de Deus, participante da Natureza Divina e herdeiro do Céu, não é o cumprimento necessário da sua natureza, mas um puro efeito da liberalidade divina.
  3. Rejeito, portanto, toda a doutrina que dissolve a distinção entre natureza e graça, que faz da vida sobrenatural uma exigência da natureza humana, ou que apresenta a graça como um simples desenvolvimento interior das capacidades naturais do homem. Tal confusão destrói tanto a gratuidade do sobrenatural como a realidade da natureza. Acaba por reduzir a fé a uma antropologia religiosa e a Redenção a uma revelação do homem a si mesmo.
  4. Professo igualmente que a graça nem destrói nem substitui a natureza: cura-a, eleva-a e aperfeiçoa-a, conservando-a. A ordem sobrenatural não põe em causa nem a razão, nem a lei natural, nem as criaturas; cura-as e subordina-as a um fim superior. Eis por que a oposição moderna entre a liberdade humana e a graça, entre a dignidade da pessoa e a dependência de Deus, entre a cultura e a Fé, é radicalmente falsa.
  5. Rejeito o falso humanismo religioso que celebra o homem em si mesmo, como se a Encarnação tivesse revelado primeiro e unicamente a imagem de Deus na criação do homem, em vez da miséria do pecado e da misericórdia de Deus que se inclina para o pecador. O homem é verdadeiramente grande apenas quando recebe humildemente a graça que o cura e o eleva, faz penitência pelos seus pecados, se submete à verdade e vive como filho de Deus. Separando-se de Deus, ele não se exalta: destrói-se a si mesmo.
  6. Professo que a dignidade humana, pela qual Deus colocou a sua criatura no cimo do mundo material, nunca pode ser invocada contra a lei de Deus, contra a necessidade da conversão ou contra a submissão à verdade revelada. Esta dignidade está ferida pelo pecado: deve ser restaurada e elevada à dignidade de filhos adoptivos de Deus, pela graça.
IV. O Pecado Original e a Condição do Homem
  1. Creio que os nossos primeiros pais foram estabelecidos por Deus num estado de justiça e santidade originais, e dotados dos dons de integridade, impassibilidade e imortalidade. Por um favor particular de Deus, possuíam não só a integridade da sua própria natureza, mas também os dons sobrenaturais que os ordenavam à própria vida de Deus. Adão, cabeça e princípio do género humano, recebeu ainda o dom do conhecimento.
  2. Professo que, pela sua desobediência, Adão cometeu verdadeiramente o pecado original, que é transmitido a todos os homens por geração. Este pecado é para todos um pecado de natureza, que os condena à morte, ao sofrimento, à ignorância e à concupiscência. Tendo sido despojados da graça santificante e dos dons preternaturais, que já não podiam transmitir aos seus descendentes, Adão e Eva foram expulsos do paraíso terrestre.
  3. Em Adão, contudo, a natureza do homem não foi destruída, mas apenas ferida: o seu intelecto, embora obscurecido, permanece capaz de conhecer a verdade; a sua vontade livre, embora enfraquecida, permanece capaz de querer e amar o bem natural. Rejeito, portanto, todas as doutrinas que, num pessimismo desesperado, julgam o homem irremediavelmente corrompido e incapaz de qualquer bem.
  4. Rejeito igualmente todas as doutrinas que, num optimismo insensato, minimizam o pecado original, exaltam ingenuamente a bondade nativa do homem ou pretendem fundar a paz universal no progresso moral, técnico, político ou cultural da humanidade sozinha. As tragédias da história, os desordens das sociedades e as trevas do coração humano explicam-se fundamentalmente, em primeiro lugar, pela ferida profunda do pecado.
  5. Professo que o homem precisa de ser salvo por uma redenção que o liberte tanto do pecado original como de todos os seus pecados pessoais. Esta redenção — ou «resgate» — exige o dom da graça de Deus em Cristo: sem ela, o homem não pode salvar-se pelas suas obras naturais, pela sua cultura, pela sua ciência ou pela sua sinceridade religiosa. Sem a graça santificante de Cristo, permanece incapaz de atingir o seu fim sobrenatural.
  6. Rejeito, portanto, o naturalismo moderno, quer teórico (na filosofia ou na teologia), quer prático (na moral, na política ou na acção pastoral). Toda a doutrina que fala de fraternidade, paz, dignidade ou progresso, sem reconhecer o pecado, a Cruz ou a necessidade da graça, constrói sobre um fundamento ilusório e acaba por enganar as almas que pretende servir.
  7. Professo ao mesmo tempo que a gravidade do pecado nunca deve levar ao desespero, pois Deus, na sua misericórdia, não abandonou o homem depois da queda, mas desde o princípio lhe prometeu um Salvador nascido da Mulher, cuja vinda preparou progressivamente ao longo da história da salvação.
  8. Em tudo isto, professo que os factos registados no Livro do Génesis acerca dos fundamentos da religião católica devem ser tomados no seu sentido literal e histórico: por exemplo, a criação de todas as coisas por Deus no princípio do tempo; a criação especial do homem; a formação da primeira mulher a partir do primeiro homem; a unidade do género humano; a felicidade original dos nossos primeiros pais no estado de justiça, integridade e imortalidade; o mandamento dado por Deus ao homem para provar a sua obediência; a transgressão do preceito divino por instigação do diabo sob a forma de serpente; a queda dos nossos primeiros pais daquele estado primordial de inocência; e a promessa do Redentor que viria.
V. Jesus Cristo, Verbo Encarnado, Único Mediador e Redentor
  1. Creio e professo que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo Eterno de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, consubstancial ao Pai na sua Divindade e da mesma natureza que nós na sua humanidade, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado. Ele é o único Mediador entre Deus e os homens, o único Salvador do género humano, o único Rei das almas e das sociedades, prometido por Deus na sua misericórdia aos nossos primeiros pais e anunciado pelos profetas.
  2. Professo que, na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se encarnou, não para confirmar o homem na sua dignidade humana ou para lhe revelar a imagem de Deus dentro de si, mas para o salvar do pecado e dar-lhe novamente acesso à vida eterna. Nascido da Virgem Maria, sem deixar de ser Deus, assumiu uma verdadeira natureza humana, viveu entre nós, ensinou a verdade, cumpriu as profecias, manifestou a sua Divindade pelos milagres e, depois, ofereceu-se livremente na Cruz como Sacrifício propiciatório pelos pecados do mundo.
  3. Professo que a Redenção é uma verdadeira satisfação oferecida à Justiça Divina, em reparação pelo pecado original e pelos pecados pessoais. Cristo, Sacerdote e Vítima na sua santa humanidade, redimiu-nos pelo seu Sangue. Carregando os nossos pecados e sofrendo a pena que nos era devida, ofereceu ao seu Pai um acto perfeito de obediência, um acto de amor e reparação, ao qual a dignidade da sua Pessoa Divina conferiu um valor meritório infinito.
  4. Rejeito, portanto, toda a doutrina que reduziria a Redenção a uma simples manifestação do amor de Deus, a uma solidariedade de Cristo com os sofrimentos humanos, a uma revelação da dignidade do homem, ou a uma libertação puramente moral, política ou social. A Cruz não é apenas um sinal: é o altar do Sacrifício redentor. Cristo não se limitou a anunciar a salvação: mereceu-a pelo seu Sacrifício. A sua Paixão e Morte voluntárias na Cruz constituem o único Sacrifício redentor pelo qual a humanidade é reconciliada com Deus.
  5. Professo que ao terceiro dia ressuscitou glorioso dos mortos, e que esta Ressurreição é propriamente um facto histórico. É o sinal mais resplandecente da sua vitória definitiva sobre o pecado, a morte e o inferno. Constitui o fundamento da esperança cristã e o penhor da nossa própria ressurreição. Representa também o principal motivo de credibilidade da Divindade de Jesus Cristo.
  6. Creio que quarenta dias depois subiu aos Céus, que agora está sentado à direita do seu Pai, que governa invisivelmente a sua Igreja pelo seu Vigário e que intercede constantemente por nós, aguardando o tempo em que voltará na glória no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos.
  7. Professo igualmente que, embora Cristo tenha morrido por todos, nem todos são por isso salvos. Os méritos da Paixão devem ser aplicados às almas, o que ordinariamente acontece quando estas recebem, com as disposições exigidas, os sacramentos que lhes comunicam a graça santificante. Aquele que recusa os sacramentos, os recebe indignamente ou permanece voluntariamente no pecado, fecha-se à salvação que Cristo lhe ganhou.
  8. Rejeito, portanto, o falso optimismo de uma redenção universal já realizada em todo o homem, independentemente da sua conversão e perseverança. Tal doutrina destrói a urgência da pregação, enfraquece o zelo missionário, torna inútil a penitência e contradiz as próprias palavras do Salvador: «Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer será condenado».
  9. Professo finalmente que Jesus Cristo não é apenas o Redentor dos indivíduos, mas o centro de toda a história e o Rei de toda a Criação. Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele; todas as coisas devem ser restauradas n’Ele. Nenhuma cultura, nenhuma sociedade, nenhuma lei, nenhuma sabedoria humana encontra a sua verdadeira e completa perfeição fora do seu reinado.
VI. A Santíssima Virgem Maria na Economia da Salvação
  1. Creio que a Santíssima Virgem Maria ocupa um lugar único na história da salvação, querido por Deus desde toda a eternidade, e que a sua condição não é, portanto, a condição comum das outras criaturas. Aquele que resolveu dar o seu Filho aos homens resolveu também dar-Lhe uma Mãe.
  2. Professo que a Bem-Aventurada Virgem Maria, por um privilégio singular, foi imaculada desde o primeiro instante da sua concepção, para ser a digna Mãe de Jesus Cristo: preservada do pecado original em previsão dos méritos de Cristo e assim redimida de modo mais sublime, cheia de graça desde o primeiro instante da sua existência, Maria mostrou-se sempre perfeitamente fiel à Vontade de Deus.
  3. Creio que permaneceu sempre virgem, antes, durante e depois do parto; a sua virgindade perpétua manifesta a origem divina do seu Filho e a sua total consagração à obra de Deus.
  4. Professo que, verdadeiramente Mãe de Deus e Mãe dos homens, foi associada de modo único e incomparável à obra redentora do seu divino Filho: a nova Eva ao lado do novo Adão, o seu Fiat abriu o caminho à Encarnação; a sua fidelidade silenciosa acompanhou toda a vida do Salvador; a sua Compassão dolorosa ao pé da Cruz uniu-a com um só coração ao Sacrifício redentor.
  5. Professo que, assim unida ao seu divino Filho, mereceu por congruidade na sua Compassão o que Cristo mereceu por justiça estrita na sua Paixão; não como causa principal da Redenção, mas como associada subordinada, dependente e inteiramente relativa ao seu Filho, num só e mesmo acto da Redenção das nossas almas. É neste sentido que a piedade católica, apoiada no ensino tradicional dos Papas e dos teólogos, a chama, por razão desta Compassão, «Corredentora» e, consequentemente, «Mediadora Universal».
  6. Rejeito consequentemente com indignação a tendência moderna para diminuir os privilégios da Santíssima Virgem sob pretexto de prudência ecuménica, de diálogo com religiões falsas ou por um temor falacioso de obscurecer a única Mediação redentora de Jesus Cristo. Enfraquecer a doutrina mariana não é honrar melhor a Cristo: é desconhecer a ordem querida por Deus, que quis vir a nós por Maria e conduzir-nos a Si por ela.
  7. Creio que no fim da sua vida terrena foi assunta, em corpo e alma, à glória celeste, onde reina ao lado do trono de Deus, ao lado da santa humanidade do seu divino Filho, sobre os anjos e os homens, exercendo o seu papel maternal como Dispensadora de todas as Graças.
  8. Professo finalmente que o culto autêntico e especial prestado à sua Mãe de modo algum diminui o culto devido a Deus; pelo contrário, aumenta-o, porque reconhece as maravilhas da graça divina na mais perfeita das criaturas e conduz as almas mais seguramente a Jesus Cristo. A verdadeira restauração católica não pode separar-se da honra prestada àquela que esmaga a cabeça da serpente.
VII. A Igreja Católica, Corpo Místico de Cristo e Única Arca da Salvação
  1. Creio firmemente que, para perpetuar e prolongar a obra da Redenção até ao fim dos tempos, Nosso Senhor Jesus Cristo fundou uma só Igreja, visível, hierárquica, indefectível e necessária para a salvação. Esta Igreja, comprada pelo Sangue de Cristo, confiada a Pedro e aos seus sucessores, os Pontífices Romanos, não é outra senão a Igreja Católica Romana.
  2. Professo que a Igreja é Una, Santa, Católica e Apostólica. É Una na sua Fé, no seu culto, no seu governo e no seu fim. É Santa pelo seu Fundador, pela sua doutrina, pelos seus sacramentos e pelos santos que gera incessantemente. É Católica porque, enviada a todos os povos e estabelecida em todo o mundo, está em toda a parte apta a procurar a salvação dos homens de toda a condição. É Apostólica porque permanece fundada sobre os Apóstolos, conserva a sua doutrina e continua a sua missão, governada pelos seus sucessores.
  3. Professo que a Igreja é identicamente uma sociedade visível e o Corpo Místico de Cristo. Cristo é a sua Cabeça; os fiéis são os seus membros; a vida sobrenatural comprada na Cruz comunica-se nela pelos sacramentos recebidos na fé e floresce na caridade.
  4. Professo que a Igreja é a Esposa Imaculada de Cristo. Cristo amou-a ao ponto de se entregar por ela, para a santificar e apresentar a si mesmo sem mancha nem ruga. Se os seus membros podem pecar, ela mesma, na sua doutrina, nos seus sacramentos, na sua constituição divina e no seu fim, permanece a guardiã fiel e pura do Depósito revelado e a dispensadora dos mistérios de Deus. As faltas dos eclesiásticos não podem ser imputadas à Igreja enquanto tal; surgem do facto de esses homens não terem vivido segundo as suas santas leis. Rejeito, portanto, as acusações injustas e blasfemas lançadas contra a Igreja em nome dos pecados dos seus filhos, e igualmente os actos de arrependimento que parecem lançar sobre a Esposa de Cristo as faltas daqueles que a traíram.
  5. Professo que a Igreja é a Mãe das almas. Gera-as para a vida divina pelo Baptismo, nutre-as pela Eucaristia, levanta-as pela Penitência, fortalece-as pela Confirmação, santifica as famílias pelo Matrimónio, consagra os sacerdotes pela Ordem e assiste os moribundos pela Extrema-Unção. A sua maternidade é sobrenatural e salvífica: dá aos homens o pão da sã doutrina, a graça e os meios da vida eterna.
  6. Professo que Deus quis fazer da Igreja o meio necessário de salvação; assim como não há debaixo do Céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos senão o de Jesus Cristo, também não há salvação sobrenatural independente da Igreja Católica. Pois toda a salvação vem de Jesus Cristo; e toda a graça salvífica é dada ou na e pela única Igreja que Ele fundou, ou ordena aquele que a recebe para essa mesma Igreja.
  7. Esta verdade significa que ninguém pode ser salvo sem Cristo e a sua Igreja, por meio de uma religião falsa enquanto tal, nem assegurar a sua salvação fora da estrutura visível da Igreja. Se os homens são salvos sem pertencer à sociedade visível que é a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, é por uma ordenação sobrenatural à única Igreja da salvação, e apesar dos erros das religiões falsas em que se encontram, dos quais se libertam não recusando a graça que lhes é oferecida e correspondendo-lhe.
  8. Rejeito, portanto, o falso ecumenismo, que assenta na ideia de que o Espírito Santo não recusaria utilizar as comunidades separadas como meios de salvação, como se a Igreja de Cristo estivesse presente e activa nelas, ou como se essas comunidades possuíssem em si mesmas um valor salvífico cuja eficácia derivaria da plenitude da graça e da verdade confiada à Igreja Católica. Se algum homem chega à verdade revelada ou recebe uma graça de santificação fora dos limites visíveis da Igreja Católica, essa verdade e essa graça pertencem por direito a essa mesma Igreja e chamam inequivocamente à unidade católica, e o Espírito Santo não as dá como meios de salvação utilizando as comunidades separadas enquanto tais, contra as quais as almas nunca podem ser advertidas em excesso.
  9. Rejeito igualmente a ideia de que as religiões não-cristãs possam reflectir um raio de verdade que ilumina todo o homem, ou possam ser caminhos legítimos pelos quais Deus conduz positivamente os homens à salvação. Alguns fragmentos de verdade natural, ou vestígios distorcidos de verdades antigas, podem realmente encontrar-se entre os adeptos dessas religiões falsas; mas essas religiões enquanto tais, e na medida em que misturam o erro com o seu culto, são obra do diabo e não podem ser aceitáveis a Deus. O Espírito Santo não as utiliza como caminhos de salvação, e nelas não existe virtude própria da única Igreja de Cristo, a única luz que ilumina todo o homem nas trevas.
  10. Rejeito ainda a ideia de um «cristianismo anónimo», segundo o qual qualquer homem que leve uma vida naturalmente honesta, quer «crente», ateu ou agnóstico, estaria orientado para Cristo e por Ele salvo, como um «cristão» sem o saber.
  11. Professo finalmente que a Antiga Aliança foi cumprida, superada e tornada obsoleta pela Nova Aliança, que é o cumprimento da promessa feita a Abraão, em Cristo e na sua Igreja. As figuras da Antiga Lei encontraram a sua realização e o seu termo no Sacrifício do verdadeiro Cordeiro, Mediador da Nova Aliança e Sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec. Pela vontade eterna de Deus, o verdadeiro descendente de Abraão é Cristo, juntamente com aqueles que pertencem a Ele no seu Corpo Místico, que é a Igreja.
  12. Rejeito, portanto, a nova eclesiologia, que destrói o impulso missionário relativizando a unicidade da Igreja, a única arca da salvação.
  13. Rejeito igualmente a inculturação entendida como a adopção indiscriminada das categorias religiosas, morais ou simbólicas das culturas pagãs e das suas práticas. O Evangelho pode assumir o que é naturalmente bom, verdadeiro e nobre nos povos; nunca pode consagrar a idolatria, a superstição, o erro ou os costumes contrários à lei natural. A missão da Igreja não é um diálogo indefinido, uma cooperação humanitária ou um reconhecimento mútuo das tradições religiosas: é o mandamento recebido de Cristo de ensinar todas as nações, baptizá-las e ensinar-lhes a observar tudo o que Ele ordenou.
VIII. O Espírito Santo, Santificador das Almas e Alma da Igreja
  1. Professo que o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus com o Pai e o Filho, falou pelos profetas, inspirou as Escrituras, santificou os justos, formou a humanidade do Verbo Encarnado no seio virginal de Maria e foi visivelmente enviado no Pentecostes para manifestar a Igreja e dar-lhe vida até à consumação dos séculos.
  2. Creio que, enviado pelo Pai e pelo Filho, permanece na Igreja até ao fim dos tempos, de acordo com a promessa de Nosso Senhor. Ele é a Alma incriada da Igreja, não como forma substancial que aboliria a distinção entre Cristo e os seus membros, mas como princípio invisível e causa eficiente da sua vida sobrenatural, da sua unidade de profissão de Fé e de culto, da santidade do seu governo e do seu Magistério, e da sua fecundidade nas obras.
  3. Professo que toda a vida da Igreja depende da sua acção. É Ele que assiste o Magistério eclesiástico, e especialmente o do Papa, para que conserve, declare e explique o Depósito revelado sem erro: não para inventar novas doutrinas, mas para penetrar mais profundamente, no mesmo sentido e no mesmo significado, a verdade já revelada por Deus aos Apóstolos.
  4. Creio que é Ele que comunica às almas, nos sacramentos, a graça ganha pelo Salvador, habita nelas por essa graça e as conforma a Cristo; que ilumina as mentes pela sua sabedoria, sustenta as vontades pelo seu poder e derrama a sua caridade nos corações; que dá origem às boas obras, inspira a caridade fraterna e conduz as almas à sua perfeição.
  5. É Ele que sustentou os mártires, iluminou os Doutores, suscitou os missionários, nutriu a vida contemplativa, frutificou as ordens religiosas e fez florescer a santidade em todos os estados de vida. As grandes obras da civilização cristã, frutos da cultura católica, dão testemunho desta presença discreta mas fecunda do Espírito de Deus na Igreja ao longo dos séculos.
  6. Rejeito, portanto, toda a pretensão de invocar o Espírito Santo para justificar adaptações doutrinais que rompam com a Tradição, inversões morais ou procedimentos sinodais pelos quais o que a Igreja recebeu de Deus é posto em causa. O Espírito da verdade não pode hoje inspirar o contrário do que inspirou ontem. Ele não convida a Igreja a escutar o mundo para receber dele as suas aspirações; pelo contrário, impele-a a ensinar o mundo, a convertê-lo e a santificá-lo. A sua obra não consiste em suscitar inspirações anárquicas, nem em encorajar a criatividade doutrinal, nem em fundar a vida espiritual na busca de fenómenos carismáticos extraordinários; consiste em guiar as almas iluminando a sua fé e defendendo-as contra os seus inimigos espirituais, para completar nelas a obra da sua salvação e conduzi-las à luz da eternidade.
IX. O Pontífice Romano, o Episcopado e a Constituição Hierárquica da Igreja
  1. Reconheço no Pontífice Romano o sucessor de São Pedro, o Vigário de Jesus Cristo, o supremo e universal Pastor, a cabeça visível de toda a Igreja, possuindo, por instituição divina, um poder de jurisdição verdadeiramente próprio, supremo, pleno, imediato e universal sobre todos os pastores e sobre todos os fiéis baptizados na Igreja.
  2. Creio que esta autoridade não lhe vem de uma delegação da comunidade, mas directamente de Cristo Mesmo, que instituiu este cargo para a salvaguarda da doutrina da fé, a santificação das almas e o governo da Igreja.
  3. Reconheço que, por razão deste poder próprio e genuíno, os pastores e os fiéis lhe devem respeito e obediência filial em tudo o que diz respeito ao exercício legítimo do seu cargo. Assim, salvaguardada a unidade de comunhão com o Pontífice Romano e a unidade de profissão da mesma Fé, a Igreja de Cristo constitui um só rebanho sob um só supremo Pastor.
  4. Reconheço igualmente que os bispos são os sucessores dos Apóstolos, o que os faz verdadeiros pastores por direito divino, possuindo na Igreja, pela vontade de Cristo, uma jurisdição particular e subordinada que recebem imediatamente do Pontífice Romano. Unidos a ele, em submissão à sua autoridade suprema, exercem legitimamente a sua própria autoridade nas suas respectivas dioceses, tal como estabelecido pelo Espírito Santo na ordem hierárquica querida por Cristo.
  5. Reconheço ainda que o corpo dos bispos, unido à sua cabeça o Pontífice Romano e nunca sem essa cabeça, pode ser o sujeito extraordinário e não permanente de um poder pleno e supremo sobre a Igreja universal, mas que tal acontece apenas no acto de um concílio ecuménico, por iniciativa e ordem do Pontífice Romano sozinho, e dentro dos limites da sua exclusiva vontade.
  6. Rejeito, consequentemente, as concepções colegialistas que fariam do colégio dos bispos uma pessoa moral permanente na Igreja, ou um segundo sujeito de poder supremo, distinto do sucessor de Pedro. A constituição monárquica da Igreja é de instituição divina e inviolável, e assim permanecerá até ao fim dos tempos, pois ninguém pode redefinir a função que Cristo Mesmo conferiu a Pedro na sua Igreja.
  7. Rejeito igualmente as concepções sinodalistas que tendem a transformar a Igreja hierárquica numa estrutura consultiva, parlamentar ou democrática, sujeita às opiniões flutuantes do povo cristão ou às pressões do mundo. A consciência colectiva dos fiéis, os inquéritos pastorais, as sensibilidades culturais e as expectativas do mundo não são fontes de Revelação. A audição legítima das almas nunca pode tornar-se uma adaptação contínua da vida da Igreja, da sua doutrina e da sua constituição divina ao espírito do mundo, sob pretexto de interpretar o «sentido da fé» do povo de Deus.
X. O Magistério, Guarda do Depósito Revelado
  1. Creio que o Pontífice Romano goza de infalibilidade quando fala ex cathedra, isto é, quando, cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, que uma doutrina concernente à fé ou aos costumes deve ser mantida pela Igreja universal.
  2. Professo ainda que o poder do Magistério na Igreja está essencialmente ordenado à salvaguarda do Depósito revelado e, por este meio, à salvação das almas. O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que manifestassem nova doutrina, mas para que guardassem santamente e expusessem fielmente o Depósito transmitido pelos Apóstolos.
  3. Eis por que o presente Magistério não pode contradizer substancialmente o Magistério anterior. O Magistério vivo não é a pregação actual posta em oposição à pregação passada; é a pregação contínua e ininterrupta da mesma verdade da Fé com o mesmo significado ao longo dos séculos. O Papa e os bispos não são os senhores da Revelação; são os seus guardiães e estão sujeitos a ela como o discípulo está sujeito ao seu mestre. Não podem mudar a Fé, nem modificar a constituição divina da Igreja, nem declarar bom o que é contrário à lei de Deus.
  4. Rejeito, portanto, toda a concepção evolucionista do dogma, segundo a qual as verdades reveladas mudariam de significado no decurso da história. Pode haver dentro da Igreja um progresso homogéneo na compreensão, que percebe melhor, de maneira mais distinta e explícita, o significado da verdade revelada, mas nunca uma mutação no significado dessa verdade. O que já foi ensinado pelo Magistério vivo da Igreja Docente e crido na profissão de Fé da Igreja Discípula não pode tornar-se falso; o que foi condenado como contrário à Fé não pode tornar-se legítimo; o que pertence à constituição divina da Igreja não pode ser remodelado segundo as categorias do mundo moderno ou do contexto histórico-cultural.
  5. Rejeito, portanto, a noção de um novo Magistério que reivindicasse a autoridade do presente para impor doutrinas opostas ou estranhas àquilo que é Tradição constante. Rejeito igualmente a oposição artificial entre o Magistério de ontem e o de hoje, como se o único Magistério vivo da Esposa de Cristo fosse o do presente e pudesse, sob pretexto de o adaptar melhor, renunciar ao que a Igreja sempre ensinou, creu e condenou desde o tempo dos Apóstolos.
  6. Sustento que, permanecendo intacta a legítima liberdade de investigação e de opinião dos teólogos em relação às questões doutrinais abertas ou disputadas, o Magistério da Igreja tem o dever legítimo de exercer vigilância e, quando for caso disso, censura sobre as publicações, para impedir que ponham em perigo a fé dos fiéis. Rejeito, portanto, a acusação lançada contra a santa Igreja de ter faltado à caridade ao anatematizar as heresias e excomungar os hereges.
  7. Rejeito também o diálogo perpétuo estabelecido no espírito do último Concílio, pelo qual a hierarquia renuncia ao exercício de um verdadeiro Magistério e pretende às vezes receber a sua inspiração do «sentido da fé» do povo crente, às vezes conversar em pé de igualdade com os adeptos de religiões falsas ou mesmo com os incrédulos.
  8. Rejeito finalmente a concepção subjectivista do pluralismo teológico que decorre de tal resignação da função magistral. Sustento que a Igreja não é uma assembleia em busca permanente, mas a guardiã de uma verdade revelada por Deus e transmitida pelos Apóstolos, e que o seu Magistério autêntico é a regra próxima e universal da verdade em matéria de fé e costumes, assegurando a transmissão ininterrupta do Depósito revelado ao longo dos séculos.
XI. A Ordem Moral e a Lei de Deus
  1. Professo que existe uma ordem moral verdadeiramente fundada na sabedoria eterna de Deus. Os actos humanos são bons ou maus segundo a sua conformidade ou oposição à lei divina, que é santa e indefectível. As opiniões individuais, o consenso social, as intenções subjectivas e as circunstâncias históricas não podem mudar o valor inviolável destes princípios da moral cristã.
  2. Da imensa bondade pela qual Deus elevou o homem à ordem sobrenatural, segue-se que o homem tem apenas um fim último, de carácter sobrenatural, ao qual permanece ordenado segundo o desígnio de Deus, mesmo depois do pecado. Este fim sobrenatural assume, eleva e aperfeiçoa o fim da ordem natural do homem.
  3. A lei natural, inscrita por Deus na natureza humana, permanece cognoscível pela razão recta e obriga todos os homens. A lei positiva revelada, sendo de ordem sobrenatural, confirma, eleva e esclarece a lei natural, superando-a. Não há, portanto, oposição entre a lei do Evangelho e a lei natural; além disso, a mesma graça dá ao homem a força para ser sobrenaturalmente fiel às exigências de ambas e, assim, gozar daquela liberdade dos filhos de Deus pela qual, libertado do poder do pecado, pode tender para o seu fim último.
  4. Rejeito, portanto, a ética de situação, segundo a qual as circunstâncias concretas poderiam tornar boas acções intrinsecamente más. Em particular, sustento que nenhuma circunstância pode jamais legitimar o recurso à contracepção, ao aborto ou à eutanásia. Rejeito toda a doutrina que pretenda que um modo de agir objectivamente contrário aos mandamentos de Deus possa constituir, para algumas pessoas, a resposta generosa exigida por Deus nesse momento. Deus nunca manda pecar, nem o que é impossível; nunca abençoa a desordem moral e nunca justifica o que contradiz a sua própria lei; mas àquele que faz o que está ao seu alcance, nunca recusa a graça de cumprir os seus mandamentos.
  5. Professo que as uniões adúlteras, as uniões contrárias à natureza e todas as situações públicas contrárias à lei divina não podem ser apresentadas como bens imperfeitos, dons de Deus, passos positivos ou realidades que possam ser abençoadas enquanto tais. Tal apresentação enganosa distorce gravemente os princípios da moral cristã e prejudica a instituição sagrada do matrimónio e o bem das famílias.
  6. Rejeito, portanto, como contrário à Fé e à disciplina constante da Igreja, a pretensão de admitir aos sacramentos, e muito especialmente à recepção da Santíssima Eucaristia, aqueles que persistem publicamente nessas situações sem renunciar à sua desordem. A verdadeira misericórdia chama o pecador à conversão; não ratifica o pecado sob pretexto de acompanhamento pastoral ou discernimento de situações particulares.
  7. Rejeito igualmente a dissociação moderna entre doutrina e prática pastoral. Uma prática pastoral que contradiz a doutrina não é pastoral; desvia as almas. A caridade não consiste em silenciar a verdade para evitar sofrimento, mas em falar a verdade com benevolência para conduzir à salvação. A medicina da Igreja só pode curar nomeando o mal, chamando à penitência e oferecendo os remédios da graça.
  8. Professo finalmente que Deus não é apenas o autor e o fim da ordem moral, mas também o seu guardião, o seu juiz e o soberano remunerador do bem e do mal. O esquecimento do juízo divino gera uma falsa misericórdia, sentimental e impotente, que não salva ninguém porque não converte ninguém.
XII. O Reinado Social de Cristo e a Civilização Cristã
  1. Professo que a Santíssima Trindade pode e deve ser reconhecida e adorada não apenas por cada indivíduo, mas também pelas famílias, pelas instituições e pelas sociedades civis. Nenhuma autoridade humana é independente de Deus, pois toda a autoridade vem d’Ele e deve ser exercida segundo a lei eterna.
  2. Professo que as sociedades civis, como as pessoas, têm o dever de reconhecer e honrar este único e verdadeiro Deus, que é Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e de lhe prestar o culto que lhe é devido, na verdadeira religião revelada e instituída por Ele.
  3. Professo que as autoridades que governam essas sociedades devem procurar o bem comum conformando-se à lei divina, natural e revelada. O uso da liberdade não consiste em dar livre curso a todos os caprichos da concupiscência, mas em escolher a melhor maneira de utilizar os bens deste mundo em vista da salvação eterna.
  4. Rejeito, assim, o laicismo moderno, que pretende organizar a sociedade como se Deus não existisse. A recusa pública de reconhecer Deus como Senhor soberano não é neutralidade, mas uma injustiça social para com o Criador e uma causa profunda de desordem entre os povos. Com efeito, uma sociedade que recusa a Deus a honra que lhe é devida destrói progressivamente os fundamentos da sua própria justiça: separa a lei humana da sua fonte eterna e entrega os povos às vontades variáveis do homem decaído.
  5. Professo que Nosso Senhor Jesus Cristo, porque é o Verbo Encarnado e porque redimiu os homens pelo seu Sangue, é Rei não apenas dos indivíduos, mas também das famílias, das instituições, dos povos e das nações. Todo o poder lhe foi dado no Céu e na terra: o seu reinado não se limita ao foro interior das consciências nem à esfera privada; deve estender-se ao foro externo, às leis, aos costumes, à educação, à cultura e à vida pública. O seu Reino é eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.
  6. Professo que a sociedade civil, embora perfeita na sua ordem própria, não possui todos os meios necessários para conduzir o homem à sua verdadeira perfeição, que permanece inacessível à natureza humana decaída sem o auxílio da graça, que cura e eleva.
  7. Eis por que professo que aqueles que governam a sociedade devem submeter-se à influência salutar da Igreja, que ilumina as mentes pelo seu Magistério, cura e fortalece as vontades pela graça dos sacramentos e dirige o homem para o seu verdadeiro destino sobrenatural, do qual ela é a guardiã. O bem da sociedade exige consequentemente que os chefes de Estado reconheçam o seu direito e dever de favorecer e proteger a santa Igreja, e igualmente de se opor, pelas leis do seu governo, a tudo o que obstrua a sua influência necessária, que é a da única religião verdadeira.
  8. Rejeito, portanto, o liberalismo político e religioso: não apenas aquele que reclama para o erro os mesmos direitos que para a verdade, e para as formas falsas de culto o mesmo reconhecimento oficial e público que para o verdadeiro; mas também aquele que, em nome da dignidade humana e de uma falsa liberdade religiosa, atribui a todos o direito de agir publicamente segundo a sua consciência sem ser impedido pela autoridade civil, mesmo quando essa consciência é errónea e contrária ao bem comum ou à verdadeira religião.
  9. Reconheço que o erro pode, em certos casos, ser tolerado para evitar males maiores ou para preservar o maior bem da paz civil, mas professo que ele não possui em si mesmo um direito moral a ser defendido ou encorajado no mesmo pé de igualdade que a verdade, nem em nome de uma falsa liberdade de consciência que nunca deva ser impedida.
  10. Sustento igualmente que, embora o homem possua uma dignidade ontológica que o eleva acima dos seres materiais, a dignidade humana a respeitar não é indiferente à verdade e ao erro professados pelas pessoas, nem ao bem e ao mal que realizam: aquele que professa o erro ou faz o mal perde a sua dignidade moral. Eis por que a autoridade legítima de modo algum ataca a dignidade humana quando pune os crimes segundo as exigências da justiça, por penas proporcionadas, para defender o bem comum contra graves desordens.
  11. Rejeito também aquela forma moderna de personalismo que atribuiria à Igreja a missão de salvaguardar a dignidade da pessoa humana e de estabelecer uma fraternidade universal sobre o fundamento desta suposta dignidade comum do género humano — sem fazer qualquer distinção entre, por um lado, a verdadeira dignidade do cristão que renuncia ao pecado para viver segundo a moral evangélica na Igreja Católica e, por outro, a falsa dignidade daqueles que, perdidos no erro e no vício, recusam o caminho da salvação.
  12. Rejeito a falsificação que decorre disto, que tende a fazer da Igreja, se não a serva, pelo menos a colaboradora do mundo na realização do seu próprio ideal: o de uma paz puramente terrena e temporal, fundada sobre um aperfeiçoamento naturalista da humanidade, desprovido de perspectiva sobrenatural. Este ideal fomenta a independência do homem em relação a Deus, à sua lei, à verdade e ao bem; implica o desprezo pelo Reinado Social de Cristo e pela Cristandade, e conduz ultimamente ao ateísmo e à substituição do homem por Deus.
  13. Rejeito igualmente o preconceito moderno que apresenta a civilização cristã como opressora, obscurantista ou hostil à dignidade humana. Longe de destruir o que é bom nas diferentes culturas, a ordem cristã assume-o e purifica-o. Assim, a partir da doutrina revelada e pelo esplendor da teologia católica, especialmente a de São Tomás de Aquino, Doutor Comum da Igreja, constituiu-se, sob a vigilância do Magistério, uma verdadeira cultura cristã de alcance universal, integrando os melhores elementos da cultura grega e latina. Fruto autêntico do Evangelho, contribuiu para educar os povos e fazê-los crescer na fé e nas virtudes cristãs. Mesmo nunca tendo sido perfeita, permanecendo sempre os homens pecadores, esta civilização foi contudo, na história, a mais alta realização da ordem social cristã.
  14. Inversamente, a recusa moderna do Reinado Social de Cristo produziu uma regressão da civilização, pela secularização das instituições, pela dissolução do matrimónio, pela destruição da autoridade, pela educação sem Deus, pela tirania das paixões e pelo progressivo apagamento do espírito de sacrifício nas nações outrora católicas. Contra esta apostasia pública, professamos que todas as coisas devem ser restauradas em Cristo, que é o único santo e que, pelo seu Corpo Místico, é o único santificador das almas e dos povos.
XIII. Os Sacramentos da Nova Lei
  1. Creio que existem sete sacramentos propriamente ditos da Nova Lei, instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo para conferir eficazmente a graça que significam: Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimónio.
  2. Professo que os sacramentos devem ser celebrados validamente com a matéria, a forma e a intenção prescritas, observando os ritos litúrgicos que exprimem claramente a Fé Católica; e que devem ser recebidos com as disposições exigidas.
  3. Creio que o Baptismo é a porta da Igreja e que é necessário para a salvação. Ordinariamente, ninguém pode ser salvo sem o receber; por este sacramento, o homem é lavado do pecado original, incorporado em Cristo, marcado com o carácter cristão e feito membro da Igreja. Rejeito, portanto, a prática de adiar sem causa grave o Baptismo das crianças que ainda não têm uso da razão. Contudo, aquele que, depois da idade da razão e sem culpa sua, é impedido de aceder a este sacramento, pode ser salvo de modo extraordinário pelo Baptismo de Desejo, isto é, por um acto sobrenatural de fé e caridade perfeita que o ordena à Igreja.
  4. Professo que a Confirmação fortalece o baptizado pelo dom do Espírito Santo, para que possa confessar corajosamente a Fé, resistir aos inimigos da salvação e viver como testemunha de Cristo. Num tempo de confusão, esta força sobrenatural é particularmente necessária, pois ninguém pode conservar a Fé sem combate.
  5. Professo que a Penitência perdoa os pecados cometidos depois do Baptismo, pelos actos do penitente, que são a contrição, a confissão e a satisfação. Rejeito firmemente toda a abordagem pastoral que enfraqueça o sentido do pecado, minimize a necessidade da confissão sacramental ou reduza a satisfação a um simples acto de reparação para consigo ou para com os outros, sem referência à ofensa cometida contra Deus.
  6. Professo que a Extrema-Unção alivia e fortalece os doentes, perdoa os pecados quando isso é aplicável, contribui poderosamente para apagar a pena devida ao pecado e prepara a alma cristã para comparecer diante de Deus.
  7. Afirmo que o Matrimónio é a união estável e indissolúvel de um homem e de uma mulher, elevada por Cristo à dignidade de sacramento entre os baptizados. O fim desta união, estabelecido por Deus, Ordenador da natureza, é duplo: a geração e educação dos filhos, por um lado, que constitui o fim primário e principal do matrimónio; o apoio mútuo dos cônjuges e o remédio da concupiscência, por outro, que são os seus fins secundários: fins verdadeiros e essenciais, mas naturalmente subordinados ao primeiro.
  8. Rejeito, portanto, toda a doutrina que considere as uniões contrárias ao matrimónio como participações reais, ainda que imperfeitas, nele; ou que, querendo definir o matrimónio apenas em termos do amor dos cônjuges, destrua a hierarquia dos fins do matrimónio, com o risco de legitimar o divórcio, a recusa dos filhos e, consequentemente, a contracepção, que é contrária à lei natural.
  9. Confesso que o sacramento da Ordem imprime em quem o recebe o carácter sacerdotal que o configura a Cristo Sacerdote, e que nenhuma mulher pode recebê-lo em qualquer grau que seja. Por isso, o sacerdote recebe o poder de oferecer o Sacrifício salutar pelos vivos e pelos mortos, de perdoar os pecados e de santificar os fiéis. Rejeito assim toda a confusão entre o sacerdócio, no sentido verdadeiro e próprio dos ministros de Cristo, e o sacerdócio comum, usado em sentido impróprio em referência aos fiéis: os fiéis oferecem espiritualmente com o sacerdote e pelo sacerdote; mas só o sacerdote devidamente ordenado realiza e oferece sacramentalmente o Sacrifício na Pessoa de Cristo.
XIV. O Santo Sacrifício da Missa, a Santíssima Eucaristia e a Liturgia Católica
  1. Professo que a Missa é verdadeiramente, no sentido próprio da palavra, um Sacrifício. Não é apenas uma memória da Última Ceia ou da Paixão; celebrada por um sacerdote devidamente ordenado, representa sacramentalmente o único Sacrifício do Calvário e renova-o de modo incruento, sem todavia multiplicá-lo. A Vítima é a mesma, o Sacerdote principal é o mesmo; apenas a maneira de oferecer difere.
  2. Na Missa, e pela acção do seu ministro, Nosso Senhor Jesus Cristo oferece-se ao seu Pai como Sacrifício de adoração, de acção de graças, de propiciação e de impetração. Unindo-se a esta acção de Cristo, que é idêntica à do sacerdote celebrante, a Igreja presta a Deus o culto perfeito que lhe é devido e aplica às almas dos vivos e dos mortos os méritos do Sacrifício da Cruz.
  3. Creio que, pelas palavras da Consagração validamente pronunciadas por um sacerdote, o pão e o vinho são mudados na sua substância inteira no Corpo e no Sangue de Cristo, embora os seus acidentes sensíveis permaneçam. Esta admirável mudança é justamente chamada Transubstanciação.
  4. Creio que a Santíssima Eucaristia ocupa o centro da vida da Igreja e que contém verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Adoro o Santíssimo Sacramento do altar e rejeito toda a doutrina ou prática que enfraqueça a fé na Presença Real, diminua o respeito devido à Eucaristia, trivialize a Sagrada Comunhão ou altere o carácter sagrado do santuário.
  5. Porque é a expressão privilegiada da fé, a liturgia é também a escola permanente em que a alma cristã se forma. Pela sua orientação, pelo seu silêncio, pelos seus gestos, pelo seu cânone, pela sua linguagem sagrada, pelo seu espírito de adoração e pela sua estrutura teocêntrica, a liturgia nutre a fé e exerce uma influência profunda sobre as almas. Por ela, os povos aprendem a pensar segundo Deus, a julgar segundo a eternidade, a amar o que é santo, a desprezar o que é passageiro e a ordenar toda a sua vida ao Sacrifício de Cristo. Ela modela também os costumes e inspira as artes, as instituições, as festas e os costumes do povo cristão. Eis por que, quando o culto divino se torna prosaico, vazio, equívoco, profano ou antropocêntrico, enfraquece a própria compreensão da Fé.
  6. Professo que a Missa romana tradicional, celebrada segundo o rito em uso antes da reforma do Novus Ordo Missae, exprime com clareza incomparável a doutrina católica do Sacrifício, do sacerdócio e da Presença Real. Mas observo com tristeza que as reformas litúrgicas contemporâneas se afastaram consideravelmente da liturgia tradicional, no conjunto como nos pormenores: ao fazê-lo, obscureceram o carácter sacrificial e propiciatório da Missa, favoreceram uma concepção democrática do culto, aproximaram a expressão litúrgica católica das concepções protestantes e contribuíram assim preponderantemente para a perda do sentido do sagrado, para a corrupção do espírito cristão, para o declínio das vocações e para o enfraquecimento geral da Fé.
  7. Rejeito, portanto, toda a reforma ou uso litúrgico que, por omissão, ambiguidade doutrinal ou orientação prática, favoreça a heresia, enfraqueça a fé, se afaste da doutrina católica da Missa tal como formulada no Concílio de Trento, ou desvie os fiéis da adoração devida a Deus. O culto público da Igreja deve exprimir a Fé Católica sem equívoco.
  8. Estou certo, finalmente, de que a restauração católica dos povos implica necessariamente a restauração do culto divino, pela liturgia tradicional de sempre. Onde a Missa é celebrada como o verdadeiro Sacrifício de Cristo, renascem a fé, a piedade, a vida da graça, as famílias cristãs, as vocações e o desejo dos bens eternos.
XV. A Vida Cristã, a Santidade e a Perfeição da Caridade
  1. Creio que a suprema vocação do homem é a santidade. Criado por Deus, redimido por Cristo e santificado pela acção do Espírito Santo, o homem é chamado a participar na própria vida de Deus por uma conformidade crescente à sua Vontade, de modo a atingir a união perfeita e definitiva com Ele na glória.
  2. Creio que a graça santificante faz do homem filho adoptivo do Pai, membro de Jesus Cristo, templo do Espírito Santo e herdeiro da vida eterna. Torna a alma agradável a Deus, comunica-lhe uma participação criada na Natureza Divina, torna-a capaz de actos sobrenaturais e ordena-a à Visão Beatífica. As virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade unem a alma directamente a Deus; as virtudes morais infundidas ordenam a sua conduta à lei divina; os dons do Espírito Santo tornam-na apta a receber as suas inspirações com docilidade, conferindo às virtudes a sua perfeição última.
  3. Creio que a vida cristã implica, em grau muito grande e de modo algum negligenciável, um combate espiritual. Desde a queda, o homem permanece exposto às tentações do mundo, da carne e do diabo. A graça não suprime este combate: dá a força necessária para o travar vitoriosamente.
  4. Creio que o caminho da santidade é a imitação de Jesus Cristo, a obediência aos seus mandamentos, a oração, os sacramentos, a penitência, a renúncia a si mesmo, a fidelidade ao próprio estado de vida e o amor da Cruz. O discípulo não está acima do Mestre: se quiser entrar na glória, deve caminhar nas pegadas de Cristo crucificado.
  5. Rejeito, portanto, o falso cristianismo sem a Cruz, que promete paz terrestre sem conversão, misericórdia sem penitência, fraternidade sem dependência da Paternidade de Deus e santidade sem heroísmo. A Igreja nunca canonizou a mediocridade, a adaptação ao mundo ou a simples boa vontade natural; propôs, para imitação dos seus fiéis, santos cuja fé era integral, cuja caridade era heróica e cuja vida estava conforme à de Cristo.
  6. Rejeito, portanto, toda a redução da vida cristã a uma vaga filantropia, a uma consciência social ou a um compromisso com os assuntos deste mundo. A caridade cristã mede-se em primeiro lugar não pela emoção partilhada ou pela utilidade visível, mas pelo amor sobrenatural de Deus acima de todas as coisas e do próximo por amor de Deus. A própria misericórdia corporal perde o seu verdadeiro significado e o seu autêntico valor quando já não está ordenada à misericórdia espiritual e à salvação eterna.
  7. Professo que a santidade é o mais belo fruto da Igreja. Mártires, confessores, virgens, monges, missionários, doutores, pastores e todas as almas fiéis santas dão testemunho do poder da verdade, da fecundidade da graça e da vitória de Cristo sobre o pecado.
XVI. As Últimas Coisas e a Esperança Cristã
  1. Creio que a vida presente é um tempo de preparação para a eternidade e, portanto, de prova. O homem não tem aqui na terra morada duradoura: foi criado para um destino sobrenatural que supera infinitamente os bens passageiros deste mundo. Creio na vida depois da morte, que se entra pela separação da alma e do corpo.
  2. Creio que no fim da sua vida terrena cada pessoa comparecerá primeiro diante do tribunal de Cristo para o juízo particular e receberá, segundo os seus pensamentos, palavras, acções e omissões, a sentença do seu destino eterno; creio também que no fim dos tempos Nosso Senhor Jesus Cristo voltará na sua glória para presidir ao juízo geral.
  3. Sustento com amor e tremor que tanto a misericórdia como a justiça resplandecem nas obras de Deus. O pecado do homem ofendeu a glória do Criador, o homem tornou-se devedor de Deus, e a justiça divina exige reparação; mas, na sua misericórdia incomparável, Deus deu-nos um Redentor que, como Cabeça da humanidade, se ofereceu pelos pecados de todo o mundo: uma satisfação que chama à concorrência da nossa própria.
  4. Confio na misericórdia infinita de Deus: não há pecado que Ele não possa perdoar, nem miséria que não queira aliviar; mas condeno firmemente aquela misericórdia sem justiça pregada pelo novo humanismo, a de um deus que não castiga o pecado, não condena ninguém e não exige conversão, justificando o pecado em vez do pecador.
  5. Professo que as almas que morrem em estado de pecado mortal são condenadas ao horrível abismo do inferno, pena eterna de privação de Deus e pena eterna de fogo. Rejeito toda a doutrina que negue a eternidade do inferno, diminua a realidade das penas eternas ou implique que todos os homens serão finalmente salvos, ficando o inferno vazio.
  6. Creio que as almas que morrem em estado de graça, mas ainda sujeitas a pena temporal, são purificadas no purgatório. Professo, portanto, a necessidade de rezar pelos defuntos, de lhes aplicar os sufrágios da Igreja, e rejeito as falsidades que prometem a todos a entrada imediata na casa do Pai, extinguindo assim o piedoso costume da Igreja de rezar constantemente pelos mortos.
  7. Rejeito em particular a falsa linguagem pastoral que, por medo de inquietar as consciências, passa em silêncio o juízo, o inferno e a necessidade da penitência. Não há caridade em esconder aos homens o perigo eterno em que o pecado os coloca. A pregação das Últimas Coisas pertence à misericórdia da Igreja, porque desperta as almas e as converte para a salvação.
  8. Afirmo, finalmente, que as almas que morrem na amizade de Deus, perfeitamente purificadas, entram imediatamente na vida eterna e gozam da Visão Beatífica. Contemplam a Deus face a face, tal como Ele é, e possuem n’Ele o seu repouso eterno. A vida cristã está ordenada a esta bem-aventurança; toda a abordagem pastoral que reduza a felicidade humana ao bem-estar terrestre, à paz social ou a um mero preenchimento psicológico trai o fim sobrenatural do Evangelho.
  9. A esperança cristã não é, portanto, nem optimismo terreno nem incerteza mesclada de temor. É a expectativa confiante do Reino eterno, fundada nas promessas de Deus e alimentada pela graça. Dá ao cristão a força para trabalhar aqui em baixo sem esquecer que a sua pátria está no Céu, e para combater os erros do tempo sem perder a paz da alma.
XVII. A Crise Moderna e o Dever de Confessar a Fé
  1. Creio que a Igreja, assistida pela divina Providência, permanece indefectível até ao fim dos tempos. A promessa de Cristo não pode falhar: as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela.
  2. Creio, contudo, que a história da Igreja conhece períodos de prova, nos quais a profissão da verdadeira Fé é gravemente diminuída, nos quais os erros se propagam, nos quais a disciplina enfraquece e nos quais muitas almas são desviadas.
  3. Reconheço em particular que os erros modernos representam uma ameaça terrível para toda a ordem católica, e que a sua penetração na vida da Igreja, sob a influência do Concílio Vaticano II e das reformas pós-conciliares, provocou uma crise de gravidade excepcional: o agnosticismo ataca o conhecimento de Deus; o naturalismo ataca a necessidade da graça; o subjectivismo ataca o motivo sobrenatural da fé; o relativismo ataca a imutabilidade do dogma; a ética de situação ataca a lei divina; o liberalismo ataca o Reinado Social de Cristo; o falso ecumenismo ataca a unicidade da Igreja; a colegialidade e a sinodalidade atacam a constituição divina da Igreja na sua hierarquia; o antropocentrismo litúrgico ataca o Santo Sacrifício da Missa.
  4. A crise actual não pode, portanto, reduzir-se a um simples conflito de sensibilidades, preferências litúrgicas ou opções pastorais. Toca aos próprios fundamentos da fé e da moral, do sacerdócio e do culto, da Igreja e do Reinado de Cristo.
  5. Estes erros não permanecem abstractos; produziram frutos visíveis: o enfraquecimento da pregação doutrinal, a extinção do espírito missionário, a banalização do pecado, a crise da família, a ruína da liturgia, a perda do sentido de Deus, a escassez de vocações, a apostasia silenciosa das nações cristãs e a profunda confusão dos fiéis.
  6. Eis por que já não basta hoje afirmar as verdades católicas em termos gerais, sem simultaneamente denunciar os erros que procuram corrompê-las. A caridade para com as almas exige a clareza de toda a verdade, sem qualquer ambiguidade.
  7. Esta crise só pode ser superada pela restauração de todas as coisas em Jesus Cristo, pelo regresso à Fé, à vida da graça, ao culto divino e à busca da santidade.
  8. Nestes tempos dolorosos, sem julgar ninguém nem usurpar a autoridade da Igreja, não posso deixar de confessar a Fé cuja profissão está a ser diminuída, de recordar a Tradição que está a ser banida, de defender a moral, de guardar a liturgia e de proclamar os direitos de Cristo.
Conclusão
  1. Fiel à Roma eterna que guarda o Depósito transmitido pelos Apóstolos, desejo preservar este património integralmente, sem diminuição, sem alteração e sem medo, não como uma opinião particular dentro da Igreja de hoje, mas como a Fé recebida da Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.
  2. Pois esta Fé não me pertence: recebi-a para lhe permanecer fiel, para viver dela, para a transmitir e, se Deus o pedir, para sofrer por ela, na confiante expectativa do triunfo da verdade e da graça, para a salvação das almas e para a glória da Santíssima Trindade.
  3. Peço a Deus que me conserve firme nesta profissão de Fé até ao último instante da minha vida. Encomendo esta profissão de Fé à intercessão da Santíssima Virgem Maria, dos santos Apóstolos, dos mártires, dos confessores e de todos os santos que nos precederam na fidelidade a Cristo.
  4. E na esperança da ressurreição e da vida do mundo que há-de vir, coloco a minha alma, a Igreja e todas as coisas nas mãos de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, a quem pertencem a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos.
Ámen.Dado em Menzingen, a 24 de Junho de 2026, na Natividade de São João Baptista.


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