segunda-feira, 9 de março de 2026

O Inferno visto por Santa Francisca Romana

Deus consolou Santa Francisca Romana com revelações e comunicações místicas sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima. Tornou-se célebre pelos seus milagres e dons de cura. Restituiu a vista aos cegos, a palavra aos mudos, a saúde aos doentes, e libertou muitos possessos do demónio.

Santa Francisca teve o pressentimento da sua morte e preveniu os seus amigos. Pedia a Deus que a levasse desta vida, pois não queria ver as novas crises que já começavam a assaltar a Santa Igreja. Caiu enferma, vindo a falecer em 1440.

Na vida dessa mística italiana, as visões ocupam um lugar saliente. A propósito do que a Santa viu sobre o inferno, o célebre escritor católico francês Ernest Hello apresenta um apanhado sucinto e sugestivo na sua obra “Physionomie des Saints”, o qual exporemos abaixo.

Inúmeros suplícios, tão variados quanto os crimes, foram mostrados à Santa em detalhes. Por exemplo, viu ela o ouro e a prata serem derretidos e derramados na boca dos avarentos. A hierarquia dos demónios, as suas funções, os seus tormentos, os diversos crimes aos quais presidem, foram-lhe apresentados. Viu Lúcifer, chefe e general dos orgulhosos, rei de todos os demónios e proscritos, rei muito mais infeliz do que os próprios súbditos.

O inferno é dividido em três partes: o superior, o do meio e o inferior. Lúcifer encontra-se no fundo do inferno inferior. A Lúcifer, chefe universal, subordinam-se três outros demónios, os quais exercem império sobre os demais:

1) Asmodeu, que preside os pecados da carne, e era antes da queda um Querubim;

2) Mamon, que preside os pecados da avareza, era um Trono. O dinheiro fornece ele sozinho.

3) Belzebu preside aos pecados de idolatria. Tudo que tem algo a ver com magia, espiritismo, é inspirado por Belzebu. Ele é, de um modo especial, o príncipe das trevas, e mediante as trevas ele é atormentado e atormenta as suas vítimas.

Uma parte dos demónios permanece no inferno, a outra no ar, e uma terceira atcua entre os homens, procurando desviá-los do caminho certo. Os que ficam no inferno dão ordens e enviam os seus embaixadores; os que residem no ar agem fisicamente sobre as mudanças atmosféricas e telúricas, lançando por toda parte as suas más influências, empestando o ar, física e moralmente. O seu objectivo é debilitar a alma. Quando os demónios encarregados da Terra vêem uma alma enfraquecida pelos demónios do ar, eles atacam-na no seu ponto fraco, para vencê-la mais facilmente. É o momento em que a alma não confia na Providência. Essa falta de confiança, inspirada pelos demónios do ar, prepara a alma para a queda solicitada pelos demónios da Terra.

Assim, enfraquecidos pela desconfiança, os demónios inspiram na alma o orgulho, em que ela cai tanto mais facilmente quanto mais fraca se encontra. Quando o orgulho aumentou a sua fraqueza, vêm os demónios da carne que atacam o seu espírito.

Quando os demónios da carne aumentam mais ainda a fraqueza da alma, vêm os demónios que insuflam os crimes do dinheiro. E quando estes diminuíram ainda mais os recursos de sua resistência, chegam os demónios da idolatria, os quais completam e concluem o que os outros começaram. Todos se articulam para o mal, sendo esta a lei da queda: todo o pecado cometido, e do qual a alma não se arrependeu, prepara-a para outro pecado. Assim, a idolatria, a magia, o espiritismo esperam no fundo do abismo aqueles que foram escorregando de precipício em precipício. Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demónio pode tentar uma alma sem a permissão de Lúcifer.

Os demónios que estão no inferno sofrem a pena do fogo. Os que estão no ar ou na terra não sofrem actualmente tais penas, mas padecem outros suplícios terríveis, e particularmente a visão do bem que praticam os santos. O homem que faz o bem inflige aos demónios um tormento indescritível. Quando Santa Francisca era tentada, sabia, pela natureza e violência da tentação, de que altura tinha caído o anjo tentador e a que hierarquia pertencera.

Quando uma alma cai no inferno, o seu demónio tentador é felicitado pelos demais. Mas quando a alma se salva, o demónio tentador recebe insultos dos outros, que o levam para Lúcifer e este lhe inflige um castigo a mais, além das torturas que já padece. Este demónio entra às vezes no corpo de animais ou homens. Ele finge ser a alma de um morto. Quando um demónio consegue perder certa alma, após a condenação desta transforma-se em tentador de outro homem, mas torna-se mais hábil do que foi a primeira vez. Aproveita-se da experiência que a vitória lhe deu, tornando-se mais forte para perder o homem.

Santa Francisca observava um demónio em cima de alguém que estivesse em estado de pecado mortal. Confessado o pecado, via ela o mesmo demónio ao lado da pessoa. Após uma excelente confissão, o anjo mau ficava enfraquecido e a tentação já não tinha a mesma energia.

Ao ser pronunciado santamente o nome de Jesus, Santa Francisca via os demónios do ar, da terra e do inferno inclinarem-se com sofrimentos espantosos, tanto maiores quanto mais santamente o nome de Jesus fora pronunciado. Se o nome de Deus é pronunciado em meio a blasfémias, os demónios ainda assim são obrigados a inclinar-se, mas um certo prazer é misturado com a dor causada pela homenagem que são obrigados a render.

Se o nome de Deus é blasfemado por um homem, os anjos do Céu inclinam-se também, testemunhando um respeito imenso. Assim, os lábios humanos, que se movem tão facilmente e pronunciam tão levianamente o nome terrível, produzem em todos os mundos efeitos extraordinários e ecos, dos quais o homem não é capaz de compreender nem a intensidade nem a grandeza.

in oracoesemilagresmedievais.blogspot.com


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domingo, 8 de março de 2026

10 razões para o véu estar de volta às igrejas

Até há não muito tempo, as mulheres católicas cobriam as suas cabeças na igreja e agora muitas estão a optar por voltar a fazê-lo. Quais são as razões que fundamentam esta decisão?

1) Está no Novo Testamento!

«Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Felicito-vos porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições, conforme eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que a cabeça de todo o homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem, e a cabeça de Cristo é Deus.

Todo o homem que reza ou profetiza, de cabeça coberta, desonra a sua cabeça. Mas toda a mulher que reza ou profetiza, de cabeça descoberta, desonra a sua cabeça; é como se estivesse com a cabeça rapada. Se a mulher não usa véu, mande cortar os cabelos! Mas se é vergonhoso para uma mulher cortar os cabelos ou rapar a cabeça, então cubra-se com um véu.

O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois não foi o homem que foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da autoridade, por causa dos anjos. Todavia, nem a mulher é separável do homem, nem o homem da mulher, diante do Senhor. Pois, se a mulher foi tirada do homem, o homem nasce da mulher, e tudo provém de Deus.

Julgai por vós mesmos: será decoroso que a mulher reze a Deus de cabeça descoberta? E não é a própria natureza que vos ensina que é uma desonra para o homem trazer cabelos compridos, ao passo que, para a mulher, deixá-los crescer é uma glória, porque a cabeleira lhe foi dada como um véu? Mas, se alguém quiser contestar, nós não temos esse costume, nem tão-pouco as igrejas de Deus.» (Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 11, 1-16)

2) A Igreja cobre com um véu as coisas que são sagradas 

O tabernáculo é coberto com um véu. O cálice é coberto com um véu. O altar é coberto com um véu. Moisés cobriu o rosto depois de ter visto Deus. Uma mulher que se cobre com um véu mostra reverência a Deus, simbolizando a noiva de Cristo, que é a Igreja; mas também honra a si mesma como mulher diante de Deus.

3) Homens e mulheres são diferentes 

Homens representam Cristo, o noivo, e é por isto que temos o sacerdócio masculino. As mulheres representam a Igreja, a noiva. 

O piedoso uso do véu vai contra uma sociedade que nos diz que homens e mulheres são iguais, que existem muitos géneros, e que o “género” não é importante quando as pessoas querem casar. O uso do véu denuncia em alta voz a modernidade e as suas mentiras. Uma mulher que escolhe ser submissa como esposa, como mulher, ao marido é contra tudo o que a nossa sociedade nos diz a respeito do homem e da mulher. São Paulo comenta sobre a submissão das mulheres aos seus maridos e sobre a submissão da Igreja à Cristo. E também do amor de Cristo pela Igreja a ponto de sofrer por ela até a morte e, portanto, os maridos devem amar as suas esposas da mesma maneira. 

4) Homens e mulheres são iguais 

O Cristianismo defende que homens e mulheres têm a mesma dignidade em Deus; e São Paulo o di-lo bem na passagem em que diz às mulheres para cobrirem as suas cabeças. O uso do véu pelas mulheres não deve ser considerado como algo que as diminua em relação aos homens. 

5) Um véu acentua a beleza natural de uma mulher 

São Tomás de Aquino explica no seu comentário sobre o uso do véu que os seres humanos, em geral, aumentam a sua beleza natural com o que vestem. As mulheres, naturalmente, possuem belos cabelos e o véu ornamenta e acentua esta beleza. Geralmente, queremos trazer o melhor de nós mesmos para a liturgia e o uso do véu é uma maneira de fazê-lo. 

6) Faz parte da Tradição dos Apóstolos 

São Paulo escreve que deseja que os coríntios conservem as tradições tais como ele as transmitiu. São Paulo está a transmitir a tradição das mulheres cobrirem as suas cabeças e dos homens não o fazerem. Esta tradição veio dos Apóstolos e foi mantida até aos anos 1970, quando tantas tradições litúrgicas caíram em desuso. 

O Código de Direito Canónico de 1917 requeria que as mulheres cobrissem as suas cabeças e proibia que os homens fizessem o mesmo. O Código de Direito Canónico de 1983 omitiu a passagem sobre as mulheres terem que cobrir as suas cabeças, mas manteve a proibição dos homens. 

7) Algumas mulheres rezam melhor assim 

Algumas escolhem não apenas usar o véu na igreja, mas em qualquer momento de oração, seja privada ou pública. É algo que as ajuda concentrar-se. 

Uma oração para se rezar ao colocar o véu e entrar numa igreja é: “Felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro”. 

8) Usando um véu a mulher está imediatamente vestida para a igreja 

Seja num dia durante a semana ou ao Domingo, quando uma mulher põe um véu na igreja diz a si mesma e aos outros que está vestida para a igreja. Uma mulher, que vai à Missa depois do trabalho, pode mentalmente distinguir o “vestir-se para o trabalho” do “vestir-se para a igreja” ao usar um véu. Uma mulher que fica em casa com os filhos enquanto usa “roupas de mãe” o dia todo pode estar instantaneamente vestida para a igreja ao colocar um véu. 

9) Um belo véu na presença de Deus faz com que a mulher se sinta bem 

O uso do véu faz as mulheres se sentirem bonitas e muitos maridos as consideram “atraentes”. A beleza do véu é algo que honra a Deus da mesma forma que belas arquitecturas e belos paramentos o fazem. Os véus contribuem para dar a Deus o culto que é devido a Ele. 

10) Por causa dos Anjos 

São Tomás de Aquino explica isto referindo que os Anjos estão presentes no Santo Sacrifício da Missa. Também por isso, os homens devem mostrar reverência, assim como as mulheres. As mulheres mostram reverência cobrindo as suas cabeças e os homens não as cobrindo. 

Susanna Spencer in ChurchPop


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sábado, 7 de março de 2026

Os 12 degraus da Humildade

S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-IIae, q.161, a.6), resume os 12 degraus de humildade que se encontram na Regra de S. Bento, o pai do monaquismo ocidental:

1) Ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior; 
2) Falar pouco e sensatamente, em voz baixa;
3) Não ser de riso pronto e fácil;
4) Manter-se calado, enquanto não for interrogado;

5) Observar o que prescreve a regra comum do mosteiro;
6) Reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos;
7) Julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo;
8) Confessar os próprios pecados;

9) Por obediência suportar, pacientemente, o que é duro e difícil;
10) Submeter-se, obedientemente, aos superiores;
11) Não se comprazer na vontade própria;
12) Temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou.

A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se julgue melhor do que é. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. 

Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, actos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata". (Ecl. 19, 26), diz a Escritura. 

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o 12º: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou". 

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às acções, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). 

Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como, por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º).


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sexta-feira, 6 de março de 2026

O corajoso testemunho de Santa Perpétua antes do martírio

Prenderam alguns jovens catecúmenos: Revocato e Felicidade, ambos escravos, Saturnino e Secundino, e com eles encontrava-se Víbia Perpétua. Esta era nobre de nascimento, tivera uma educação esmerada e fizera um bom casamento. Perpétua tinha ainda pai e mãe, dois irmãos – um dos quais catecúmeno, também – e uma criança ainda de peito. Tinha cerca de vinte e dois anos. Ela própria relatou a história completa do seu martírio. Ei-la, escrita por seu punho, com base nas suas impressões: 

«Estávamos ainda com os guardas, mas o meu pai já estava a tentar convencer-me. Na sua ternura, tudo fazia para me enfraquecer a fé. 

- Pai, disse-lhe eu, estás a ver esse vaso caído no chão, a bilha e aquela coisa ali?
- Estou, disse o meu pai.
- Podemos designá-las por outro nome que não seja o seu?, pergunto-lhe eu.
- Não, respondeu.
- Pois bem, também eu não posso ter outro nome que não seja o meu, mas apenas o meu nome verdadeiro: sou cristã.

O meu pai ficou exasperado com tais palavras, e avançou para dar cabo de mim. Limitou-se a agarrar-me e abanar-me com força e foi-se embora, com os argumentos do demónio, vencido. Durante alguns dias não voltei a ver o meu pai; dei graças a Deus por isso, essa ausência foi para mim um alívio. Foi precisamente durante esse curto lapso de tempo que fomos baptizados. O Espírito Santo inspirou-me a nada pedir à santa água a não ser força para resistir fisicamente.

Alguns dias mais tarde, fomos transferidos para a prisão de Cartago. Fiquei espantada com esta prisão: nunca me vira em trevas tais. A inquietação devorava-me, por causa do meu filho. Acalmava o meu irmão, pedindo-lhe que tomasse conta do meu filho. Sofria muito por ver a minha família sofrer por causa de mim. Durante longos dias, estas inquietações torturaram-me. Acabei por conseguir que o meu filho viesse ficar comigo na prisão. Recuperou as forças sem demora. De repente, a prisão transformou-se-me num palácio, e e eu sentia-me ali melhor do que em qualquer outro lugar.»

in Paixão das Santas Felicidade e Perpétua (início do século III), §§ 2-3


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quinta-feira, 5 de março de 2026

Bispo Strickland sobre o Silêncio do Vaticano e a FSSPX

O Bispo Joseph Strickland publicou dois textos no site PillarsOfFaith.net sobre as sagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX). Frases principais:

Primeira Declaração: O Silêncio do Vaticano é uma Decisão

- A situação actual envolvendo a FSSPX revelou uma vez mais uma realidade grave e não resolvida dentro da Igreja – uma realidade que não pode ser descartada, adiada indefinidamente, ou respondida com silêncio.

- Sem novos bispos, a continuidade dessa formação sacerdotal e da vida sacramental não pode ser sustentada.

- Quando tais preocupações são apresentadas com calma, respeito e repetidamente – e são recebidas não com clareza mas com silêncio – o próprio atraso torna-se uma decisão.

- A unidade na Igreja não se preserva pela ambiguidade.

Segunda Declaração: A Continuidade Não é Rebelião

- O Arcebispo Marcel Lefebvre acreditava que elementos fundamentais da vida católica – a formação sacerdotal tradicional, a teologia sacramental clara e a antiga liturgia romana – estavam a ser postos de lado.

- É historicamente inegável que a liturgia tradicional e a formação sacerdotal foram preservadas em grande parte porque ele e outros não quiseram permitir que desaparecessem completamente.

- As tensões de 1988 não surgiram do nada.

- Surgiram de uma ampla confusão doutrinária, experimentação litúrgica e instabilidade pastoral.

- O desejo de continuidade não é rebelião; é um instinto de fé.

- A Igreja é hierárquica por instituição divina. As consagrações episcopais não são actos privados, mas expressões visíveis de comunhão com o Sucessor de Pedro. Esta estrutura não é opcional. A unidade pertence à própria natureza da Igreja.

- Contudo, a unidade não pode ser sustentada pela ambiguidade. A autoridade não é concedida apenas para governar, mas para salvaguardar o que foi transmitido.

in gloria.tv


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segunda-feira, 2 de março de 2026

Março, mês de São José

Março é tradicionalmente um mês dedicado a São José, cuja festa se celebra no dia 19. Deixamos aqui uma oração escrita pelo Papa Leão XIII, que vale a pena rezar todos os dias durante este mês:

A Vós, São José, recorremos na nossa tribulação, e depois de ter implorado o auxílio de vossa Santíssima Esposa, cheios de confiança solicitamos também o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada, Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente vos suplicamos que lanceis um olhar benigno para a herança que Jesus Cristo conquistou com o Seu sangue, e nos socorras, em nossas necessidades, com o vosso auxílio e poder.

Protegei, ó guarda providente da Divina Família, a linhagem eleita de Jesus Cristo. Afastai para longe de nós, ó Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício que arruína o mundo. Assisti-nos propício do alto do Céu, ó nosso fortíssimo Protector, na luta contra o poder das trevas; e, assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, defendei a Santa Igreja de Deus contra as ciladas dos seus inimigos e contra toda a adversidade.

Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, afim de que, a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, piedosamente morrer e obter no Céu a eterna bem-aventurança. Amén


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domingo, 1 de março de 2026

São Leão Magno explica-nos a Quaresma

Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito perderá vergonhosamente a sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade. De rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe a sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atractivos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o ceptro que lhe é devido. 

Nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar os seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, através de vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando os nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia das suas manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma a castigar todas as molezas, a apagar todas as negligências do passado; usam então todo o poder da sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, numa fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos e num combate de santidade. Então preparemos as nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos pela nossa salvação, mais violentamente seremos atacados pelos nossos adversários. 


Mas aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. A nossa força vem d’Aquele em quem pomos a nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força do seu socorro, o ensinamento do seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu o seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida à Sua humanidade é maior, maior também é a punição do Seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do género humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há actos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida passa-se no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. 


Eis por que Salomão, que era sábio, diz: "Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação." (Ecl. 2,1). Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar os seus golpes.

São Leão Magno, Papa - Sermão sobre a Quaresma


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dia de São Gabriel de Nossa Senhora das Dores

Gabriel de Nossa Senhora das Dores, a quem Leão XIII chamava o “São Luiz Gonzaga dos nossos dias”, nasceu em Assis (Itália), a 1 de Março de 1838, filho de Sante Possenti de Terni e Inês Frisciotti. No mesmo dia em que viu a luz do mundo, recebeu a graça do Baptismo, na mesma pia em que foi baptizado o grande Patriarca S. Francisco, na igreja de São Rufino.

O pai, já aos vinte e dois anos, era Governador da cidade de Urbânia, cargo que sucessivamente veio a ocupar em S. Ginésio, Corinaldo, Cingoli e Assis. Como um dos magistrados dos Estados Pontifícios, gozava de grande estima por parte de Papa Pio IX, e Leão XIII honrava-o com a sua sincera amizade. A mãe era de uma nobre família de Civitanova d’Ancona. Estes dois cônjuges eram modelos de esposos cristãos, vivendo no santo temor de Deus, unidos no vínculo de respeito e amor fidelíssimo, que só a morte era capaz de solver. Deus abençoou esta santa união com treze filhos, dos quais Gabriel era o undécimo. Este, no Baptismo recebeu nome de Francisco, em homenagem ao seu avô e ao Seráfico de Assis.

Dando testemunho da educação que recebiam na família, no Processo da beatificação do Servo de Deus, os seus irmãos declararam: “Nós fomos educados com o máximo cuidado no que diz respeito à piedade e à instrução. A nossa mãe era piedosíssima e educou-nos segundo as máximas da nossa santa Religião”.

Nos braços, sobre os joelhos de uma mãe profundamente religiosa, o pequeno Francisco aprendeu os rudimentos da vida cristã e a pronunciar os santos nomes de Jesus Maria.

A grande felicidade que na infância reinava experimentou um grande abalo quando, inesperadamente, o Anjo da Morte veio visitar aquele lar e arrebatar-lhes a mãe. D. Inês, sentindo que se aproximava a última, na compreensão do seu dever de mãe cristã, reuniu todos os filhos à cabeceira do leito mortal, estreitou-os, um por um, ao seu coração, selou a sua fronte com o último beijo, deu-lhes a bênção, distinguindo com mais carinho os de tenra idade, entre estes, Francisco; munida de todos os Sacramentos, confortada pela graça de Deus, aos 38 anos de idade deixou este mundo, para, na Eternidade, perto de Deus, receber o prémio das suas raras virtudes.

Do pai, o próprio Francisco deu o seguinte testemunho ao seu director espiritual:  

“Meu pai”, declarou, “tinha por costume levantar-se bem cedo. Dedicava uma hora à oração e meditação; se neste tempo alguém desejava falar-lhe, havia de esperar pelo fim das práticas religiosas. Terminadas estas, ia à igreja assistir a Santa Missa e costumava levar consigo dos filhos os que não fossem impedidos. Finda a Santa Missa metia-se ao trabalho. À noite, reunia os seus filhos e dava-lhes sábios conselhos e úteis exortações. Falava-lhes dos deveres para com Deus, do respeito devido à autoridade paternal e do perigo das más companhias”. “Os maus companheiros”, dizia ele, “são os assassinos da juventude, os satélites de Lúcifer, traidores escondidos e, por isso, era para temê-los e deles ter cuidado”.

Os biógrafos de Francisco fazem ressaltar, em primeiro lugar, a extraordinária bondade de coração do menino, principalmente para com os pobres. Muitas vezes ficou ele sem a merenda, por tê-la dado aos pobres. Entre os seus irmãos, era ele o anjo da paz, sempre pronto para desculpar e para defendê-los, quando acusados injustamente. Não suportava a injúria, fosse ela atirada a si ou a um dos seus. Com a maior facilidade, se desfazia de objectos de certo valor, com que tinha sido homenageado. Assim, presenteou a um de seus irmãos uma bela corrente de prata que tinha recebido de um parente. Estes bons traços no caráter de Francisco não afastam certas sombras que nele subsistiam também. Os que o conheciam meigo, bondoso, compassivo, sabiam-no também ser nervoso, impaciente, irascível.

Por felicidade sua, o senhor Sante, seu pai, não era daqueles que desculpam os caprichos dos seus filhos, sob o pretexto de “serem crianças”, sem pensar que mais tarde terão de pagar bem caro esta condescendência e fraqueza. O verdadeiro amor cristão fê-lo combater sem tréguas todos os defeitos. Francisco era obediente e tinha grande respeito ao pai, o que, aliás, não impedia que diante de uma severa repreensão desse largas ao seu génio impulsivo, com palavras e gestos demonstrando o seu descontentamento, a sua raiva. Mas tudo isto era fogo fátuo. Logo, voltava às boas; a sua boa índole não permitia que estas revoltas interiores durassem muito tempo. Era encantador ver, momentos depois, o menino desfeito em pranto, procurar o pai e, por seus modos ingénuos e infantis, assegurar-se do perdão e do amor do Sr. Sante. Este, fingindo não dar crédito a estas demonstrações, retrucava bruscamente: “Nada de carícias; quero ver factos”. Então, o menino atirava-se ao colo do pai, beijava-o e sentia-se feliz, em ter voltado à paz, com o perdão paterno. Nesta escola de sábia pedagogia, Francisco cedo aprendeu combater e vencer os seus defeitos.

Durante algum tempo, Francisco ficou entregue aos cuidados de um mestre; depois frequentou o colégio dos “Irmãos das Escolas Cristãs”, onde fez rápidos progressos, figurando sempre entre os melhores alunos. Com sete anos fez a sua primeira confissão. Um ano depois, em Junho de 1846, recebeu o sacramento da confirmação. Tudo isto prova que o menino já se achava bem instruído nas Verdades da nossa Fé, graças ao sólido ensino que lhe dispensavam os beneméritos “Irmãos Sallistas”.

Nesse mesmo tempo, caiu também a data da sua primeira comunhão, para a qual se preparou com todo o esmero. Testemunha de vista desse grandioso acto diz:  

“O fervor com que o vi chegar-se da sagrada mesa, o espírito de fé que se estampava no seu semblante, o vigor dos seus afectos foram tais que se chegava a crer ser ele levado por um Serafim”.  
 
Esses sentimentos de fé e de piedade, aquelas chamas de amor ao SS. Sacramento não mais se separaram do coração de Francisco nos anos de sua mocidade, nem no meio de uma vida dissipada, de certo modo mundana. Não menos certo é que a frequente recepção da santa comunhão preservou-o de graves desvios no meio das tentações do mundo.

Terminados os estudos elementares, o pai pensou em procurar para Francisco uma educação mais elevada, de acordo com a sua posição social, e confiou o seu filho aos “Padres Jesuítas” que, na cidade de Spoleto, dirigiram um colégio. Neste educandário, passou Francisco os anos todos de sua mocidade no mundo e chegou a cursar os quatro semestres de estudos filosóficos. Estudante inteligente e cumpridor exacto do seu dever, deixou boa memória naquele colégio e formavam-se as mais belas esperanças a seu respeito. Ano não passava que não ganhasse um prémio; e no fim dos seus estudos foi distinguido com uma medalha de ouro. Mestres e colegas também o estimavam. 

Tudo nele encantava: os seus modos delicados e gentis, a modéstia no falar, o sorriso benévolo que lhe aflorava os lábios, o garbo com que se sabia ver em circunstâncias mais solenes, os sentimentos nobres que dominam em todo o seu proceder. Aos seus mestres devotava sempre a máxima estima e profunda gratidão. Das práticas de piedade era rígido observador e com regularidade frequentava os santos Sacramentos. Não há dúvida que, dada a ocasião, o seu génio impetuoso e quente o levava a transportes de veemência e de cólera. Mas estes excessos eram sempre seguidos de lágrimas de arrependimento e de penitência.

Desde a sua infância mostrou devoção particular a Nossa Senhora das Dores, uma imagem da qual se conservava em sua família; e cabia-lhe a ele adorná-la de flores e manter acesa uma lâmpada diante da estátua. Afirma um dos seus irmãos, Eurique Possenti, que viu Francisco, no último ano que passou em casa, usar de cilício de couro com pontinhas de ferro. Outro testemunho, da família Parenzi, declara: 

“A sua conduta religiosa e moral tem sido irrepreensível; dada a grande vigilância deosmeus pais, não teria sido admitido em nossa família, se não fosse realmente virtuoso”. 
 
Para completar a imagem do jovem estudante, e assim melhor poder compreender a mudança que nele mais tarde se efectuou, há que ter em conta a descrição da solene distribuição de prêmios, da última em que Francisco tomou parte no colégio dos Jesuítas em Spoleto, em setembro de 1856. Os melhores alunos tinham sido escolhidos para abrilhantar a cerimónia com discursos e declamações poéticas. Entre eles, Francisco ocupava o primeiro lugar. Ninguém se lhe igualava em elegância exterior, no garbo de representar, na graça de declamar, na graciosidade da gesticulação, no timbre encantador da voz. Podendo representar no palco, parecia estar no seu elemento e fazia-o com toda a naturalidade e perfeição. 

A sua aparência não deixava nada a desejar: tudo obedecia às exigências da última moda: o cabelo esmeradamente penteado, o traje elegante e ricamente adornado, as luvas brancas, gravata de seda, sapatos luzidios e artisticamente acabados, a tudo isso Francisco ligava máxima importância. Em certa ocasião, recitou com tanto ardor e tamanho foi o entusiasmo que excitou no auditório, que o delegado apostólico Mons. Guadalupe, que presente se achava, disse ao pai de Francisco que ao seu lado se achava: “se vosso filho aqui presente estivesse, abraçava-o em vosso lugar”.

As raras qualidades morais que o adornavam, a figura simpática e atraente na flor da mocidade, a extrema vivacidade que nele se observava, não deixaram de emprestar-lhe um leve sombreado de vaidade, que de algum modo chegou a dominá-lo. Esta vaidade se lhe patenteava na exigência que fazia no modo de se trajar, sempre na última moda, de perfumar o cabelo e este sempre tratado com cuidado, de se aborrecer com uma nódoa por mais insignificante que fosse no fato (roupa), no amor que tinha a divertimentos alegres e aos desportos mundanos.

O inimigo das almas tirou proveito dessas fraquezas. Se não conseguiu roubar-lhe a inocência, não foi porque não lhe poupasse contínuos assaltos, bem sucedidos. A paixão pelo teatro, a verdadeira mania por bailes, o amor à leitura de romances eram tantos escolhos, tantos perigos, que é de admirar que o jovem Francisco não caísse presa das ciladas diabólicas. Tão pronunciada era a sua paixão às danças, que lhe importou a alcunha de “bailarino”. Assim um dos seus mestres, Pe. Pinceli, Jesuíta, quando soube da inesperada fuga de Possenti do mundo para o convento, disse: “O bailarino fez isto? Quem esperava uma tal coisa! Deixar tudo e fazer-se religioso no noviciado dos Padres Passionistas!”.

Francisco bem conhecia o perigo em que nadava, e não faltava quem lhe chamasse a atenção, o lembrasse da necessidade da oração, da vigilância, da mortificação, da devoção a Jesus e Maria, de não perder de vista a Eternidade etc. Numa carta que lhe escreveu o Pe. Fedeschini, S.J., há todos estes avisos; o conselho de fugir das más companhias, de dar desprezo à vaidade no vestir e falar, de largar o respeito humano, de fazer meditação diária e receber os Sacramentos.

Com todas as leviandades e as suas perigosas tendências para o mundo, Francisco não deixava de ser um bom e piedoso jovem, a quem homens sábios e virtuosos não pudessem escrever com confiança, benevolência e estima e cujas palavras não fossem aceitas com respeito e gratidão.

“Muitas vezes” – diz quem bem o conhecia – “Possenti sentiu o chamado de Deus, de deixar a vida no mundo e trocá-la com o estado religioso”.

O seu director, Pe. Norberto, Passionista, declara:  

“A vocação, se bem que descuidada e sufocada, estava nele havia muito tempo, e ele a sentiu desde os mais tenros anos. Muitas vezes o servo de Deus disse-me isto, lastimando a sua ingratidão e indiferença”.

O mesmo sacerdote relata:  

“A sua vocação manifestou-se do seguinte modo: Não sei em que ano foi, sentiu-se ele acometido de um mal que o fez pensar na morte. Teve, então, a inspiração de prometer a Deus entrar numa Ordem religiosa, caso recuperasse a saúde. A promessa foi aceite, pois melhorou prontamente e em pouco tempo se achou restabelecido. Mas a promessa ficou como se não fosse feita. O jovem tornou a dar o seu afecto ao mundo e entregou-se à dissipação como antes. 

Não tardou que Deus lhe mandasse outra enfermidade, uma inflamação interna e externa da garganta, tão grave que parecia a morte iminente já na primeira noite, tornando-se-lhe dificílima à respiração. Novamente o enfermo recorreu a Deus e invocando Santo André Bobola, aplicou ao lugar dolorido uma estampa do mesmo Santo e renovou a promessa de abraçar o estado religioso. As melhoras surgiram quase instantaneamente, e teve o enfermo uma noite tranquila e não mais voltaram as angústias da dispneia. Deste extraordinário favor, o jovem lembrou-se sempre com muita gratidão. Manteve também por algum tempo o propósito de fazer-se religioso, mas diferindo-lhe a execução, o amor ao mundo voltou, e no mundo continuou a viver". 
 
Das paixões de Francisco, uma das mais fortes foi a da caça. A esta paixão ele pagava tributos bem pesados, e seu director espiritual não hesitou em atribuir a este desporto a cruel moléstia que o ceifou na flor da idade. Certa vez, ao pular uma cerca, chegou a cair e com tanta infelicidade que quebrou-lhe um osso do nariz. O fuzil disparou e o projétil passou-lhe rentinho pela testa, pouco faltando que lhe rebentasse o crânio. Francisco reconhecendo logo a providência deste aviso, renovou a sua promessa. Ficou com as cicatrizes, mas deixou-se ficar no mundo.

A graça divina também não se deu por vencida. Rejeitada três vezes, tentou um quarto golpe, mais doloroso ainda. De todos de sua família, Francisco dedicava terníssima amizade a sua irmã Maria Luzia, nove anos mais velha que ele, e esta amizade era correspondida com todo afecto. Em 1855 irrompeu em Spoleto a cólera, e Maria Luiza foi a primeira vítima da terrível epidemia. Foi no dia de “Corpus Christi”, e a notícia alcançou Francisco quando, na procissão, levava a cruz. A morte da irmã feriu profundamente o coração do jovem e mergulhou sua alma em trevas nunca antes experimentadas. Perdeu o gosto de tudo e se entregou a uma tristeza inconsolável. Parecia que com este golpe a graça divina tivesse removido o último obstáculo de a promessa se cumprir. 

Assim ainda não foi. Todo acabrunhado, Francisco manifestou ao pai sua resolução de entrar para o convento chegando a dizer que para ele tudo se tinha acabado nesta vida. Possenti, receando perder o seu filho a quem muito amava, não recebeu bem a comunicação e pediu-lhe nunca mais tocasse neste assunto. Aconselhou-o a se distrair, a afastar os pensamentos tristes, a procurar a sociedade, frequentar o teatro; chegou a insinuar-lhe a ideia de procurar a amizade de uma donzela distinta, de família igualmente conceituada, na esperança de, nos entendimentos inocentes, ela conseguir fazê-lo esquecer-se dos seus intentos religiosos. 

Na igreja metropolitana de Spoleto, gozava de uma veneração singular uma imagem de Nossa Senhora; a esta imagem chamava simplesmente “a Ícone”. Na oitava do dia 15 de Agosto, esta imagem era levada em solene procissão por dentro da igreja, e não havia quem não se ajoelhasse à sua passagem. Em 1856, Francisco Possenti achava-se no meio dos fiéis e, todo tomado de amor por Maria Santíssima, os seus olhos fixavam-se na venerada imagem como que esperando por uma bênção especial. Pois, quando a “Ícone” vinha aproximando-se do jovem, parecia que Ela lhe atirava um olhar todo especial e lhe dizer: “Francisco, o mundo não é para ti; a vida no convento espera-te”. Esta palavra, qual uma seta de fogo, cravou-lhe no coração; assim, saiu da igreja desfeito em lágrimas. Estava resolvido a realizar desta vez o plano de alguns anos. Tratou, porém, de não dar, por enquanto, nenhuma demonstração do seu intento.

Embora certo da sua vocação, mas desconfiando da sua fraqueza, e para não ser vítima de uma ilusão, procurou o seu mestre no liceu e director espiritual Pe. Bompiani, Jesuíta, e a ele abriu-se inteiramente, fazendo do conselho deste depender a sua resolução definitiva.

O exame foi feito com toda sinceridade, e tendo tomado em consideração todos os factores influentes no passado da vida do jovem, o Pe. Bompiani não duvidou de se tratar de uma vocação verdadeira e animou o jovem a segui-la. Consultas que fez com mais dois sacerdotes da sua inteira confiança tiveram o mesmo resultado. Francisco resolveu então a pedir a sua admissão na “Congregação dos Passionistas”.

Comunicar ao pai a resolução tomada, não foi fácil. Mas desta vez o Sr. Sante, homem consciencioso, vendo a aflição e a firmeza do seu filho, não mais se opôs; tomado, porém, de espanto quando soube que a Congregação por Francisco escolhida, a dos Passionistas, era de todas a mais austera. Se bem que não se opusesse à vontade do filho, tratou de procrastinar a execução do seu plano e impor condições. 

Francisco, porém, ficou firme. Tomou, ainda e pela última vez, parte na solenidade da distribuição dos prémios no colégio dos Jesuítas, fez como sempre um papel brilhante no palco, despediu-se dos seus professores, dos seus amigos e, em companhia de seu irmão Luiz, da Ordem Dominicana, por ordem de seu pai, fez uma visita ao seu tio Cesare, cónego da Basílica de Loreto, e a um parente de seu pai, Frei João Baptista da Civitanova, guardião de um convento dos capuchinhos, levando para ambos carta de Sante Possenti em que este pedia examinassem a vocação do jovem. Tanto o cónego como o capuchinho carregaram bastante as cores da vida austera na Congregação dos Passionistas, que absolutamente não lhe conviria, a ele, moço de dezoito anos, acostumado a seguir as suas vontades, sem restrição de comodidades.  

Quando da visita à Santa Casa, em Loreto, Francisco aproveitou largamente para recomendar-se a Nossa Senhora. Não mais arredou do caminho encetado. De Loreto foi para Convento Morrovale, dos Passionistas, onde em 21 de Setembro de 1856 recebeu o hábito com o nome de Gabriele dell’Adolorata (Gabriel de Nossa Senhora das Dores). Admitido no noviciado, escreveu ao pai e aos irmãos comunicando-lhes o fato. Ao pai, pede perdão; aos irmãos recomenda amor filial e boa conduta. A carta, embora de simplicidade encantadora, é um documento admirável de sentimento filial e católico. Aos companheiros seus de estudo, dirigiu cartas também. Despede-se, pede perdão de maus exemplos que julgava ter dado; aconselha-os a fugir das más companhias, do teatro, das más leituras e das conversas inúteis.

Convencidíssimo da sua vocação religiosa, longe do mundo, da sociedade e da família, não mais teve outro ideal que subir às culminâncias da perfeição.

Inconfundível era sua personalidade no meio dos seus companheiros do noviciado. Sem perder as notas características do seu carácter, a jovialidade, a alegria de espírito, a amenidade de trato, era ele inexcedível não só na exatidão do cumprimento dos exercícios regulares, como também na prática das virtudes cristãs e monásticas. E, se perscrutarmos as causas profundas desta mudança radical na vida de Gabriel, duas conseguiremos encontrar, aliás suficientes e esclarecedoras: o ardente amor a Jesus Crucificado e à Santa Eucaristia, a sua devoção singular à Mãe de Deus (em particular a Nossa Senhora das Dores) e a sua inalterada mortificação, por meio da qual deu morte aos seus desordenados apetites, um por um.

Tendo corrido o ano de provação, Gabriel foi admitido à profissão e mandado para várias casas da Congregação, com o fim de completar os seus estudos de Teologia. Durante os anos de preparação para o sacerdócio, superiores e companheiros viram no santo jovem o modelo mais perfeito de todas as virtudes, e cumpridor exatíssimo dos seus deveres.

Quando chegou à idade de vinte e três anos, anunciaram-se os primeiros sintomas da moléstia que no prazo de um ano havia de levá-lo ao túmulo: a tuberculose pulmonar. O longo tempo da sua enfermagem, Gabriel aproveitou-o para ainda mais se aprofundar na sua devoção predileta à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo e a Maria Santíssima, Mãe das dores

Em Fevereiro de 1862, ainda pôde andar e receber a santa Comunhão na igreja, junto com os seus companheiros. Inesperadamente o mal se agravou; foi preciso avisá-lo para receber os últimos sacramentos. A notícia assustou-o por um momento só; mas imediatamente recuperou a habitual calma, que logo se transformou numa alegria antes nunca experimentada. O modo de receber o santo Viático comoveu e edificou a todos que assistiram. Não mais largava a imagem do Crucificado, que cobria de beijos, e ao seu alcance tinha a estátua de Nossa Senhora das Dores, que frequentemente apertava ao seu peito, proferindo afetuosas jaculatórias, como estas:

“Minha mãe, faze depressa!”
“Jesus, Maria, José, expire eu em paz em vossa companhia!”
“Maria, mãe da graça, mãe da misericórdia, do inimigo nos protegei, e na hora da morte nos recebei”.

Poucos momentos antes do desenlace, o agonizante, que parecia dormir, de repente, todo a sorrir, virou o rosto para esquerda, fixando olhar para um determinado ponto. Como que tomado de uma grande comoção diante de uma visão impressionante, deu um profundo suspiro de afecto e nesta atitude, sempre sorridente, com as mãos apertando as imagens do Crucifixo e da Mater Dolorosa, passou desta vida para a outra.

Assim morreu o santo jovem na idade de vinte e quatro anos, na manhã de 27 de Fevereiro de 1862. Foi sepultado na igreja da Congregação, em Isola Del Gran Sasso. Trinta anos depois fez-se o reconhecimento do seu corpo. Nesta ocasião, com o simples contacto de suas relíquias verificou-se a cura prodigiosa de uma jovem que a tuberculose pulmonar tinha reduzido ao último estado. Reproduziram-se aos milhares os prodígios que foram constatados à invocação do Santo.

Em 1908 o Papa Pio X inscreveu o nome de Gabriel da Virgem Dolorosa (ou de Nossa Senhora das Dores) no catálogo dos Beatos, e, em 1920, Bento XV decretou-lhe as solenes honras da Canonização. Pio XI estendeu a sua festa a toda a Igreja, em 1932.


ORAÇÃO

Ó Deus, que ensinastes a São Gabriel a honrar com assiduidade as dores de vossa Mãe dulcíssima, e por Ela o elevaste à glória da Santidade e dos milagres, concedei-nos, pela sua intercessão e seus exemplos, a graça de partilharmos tão intimamente as dores de Vossa Mãe Santíssima e que, por sua maternal proteção, consigamos a salvação eterna.


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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Papa Leão, escute-nos! Estamos órfãos!

No livro-entrevista com Elise Ann Allen: "Léon XIV, ciudadano del mundo, misionero del siglo XXI (Penguin Peru, 2025)", o Papa Leão abordou o tema da liturgia tradicional, e dos seus defensores, dizendo que não nos conhece bem e que ainda não teve ocasião de encontrar fiéis da nossa sensibilidade.

Pedimos a Christian Marquant, presidente do Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, que organiza todos os anos, em Outubro, uma peregrinação a Roma, que partilhasse connosco as suas reflexões e experiências no domínio do diálogo com as autoridades da Igreja, tanto no Vaticano como em França, com a CEF ou com os chamados “sínodos diocesanos”.

PAIX LITURGIQUE (PL) – Caro Christian, como compreende a observação do Santo Padre?
Christian Marquant (CM) – Antes de mais, devemos agradecer ao Papa Leão por se interessar por nós e por esta questão. Depois, se me permite, é preciso voltarmos à realidade actual.

PL – Qual é essa realidade?
CM – É muito simples: tudo é feito na Igreja para nos tornar inaudíveis e para fazer crer que não existimos... Infelizmente, os inimigos da paz fazem isso há muito tempo, mas especialmente há quatro anos, pois anteriormente, mesmo que a situação não fosse idílica, permitia-nos conservar um laço directo e real com as autoridades da Igreja.

PL – Pode precisar melhor?
CM – Tomemos um exemplo: desde 1988 e até 2021 existia em Roma a Comissão Ecclesia Dei. Teoricamente tinha por missão “facilitar a plena comunhão eclesial dos padres, seminaristas e comunidades religiosas que mantinham vínculos com a FSSPX”. Um objectivo algo estreito, o que levava a FSSPX a dizer que era uma máquina de “rallying”... Na realidade, era competente em matéria das comunidades tradicionais. Mas, concretamente, tornara-se também para nós, leigos, um verdadeiro lugar de encontro e de diálogo muito livre.

PL – De que modo?
CM – Os leigos podiam dirigir-se a ela por correio e, quando passavam por Roma, encontrar os seus responsáveis e membros para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – Chegou a fazê-lo?
CM – Inúmeras vezes! Quer no tempo do Cardeal Mayer, que foi Presidente da Comissão, quer dos Secretários da mesma, Mons. Perl – que era um grande homem de escuta, sempre muito aberto – Mons. Pozzo, Mons. Descourtieux e, evidentemente, todas as suas equipas.

PL – Isso terminou?
CM – Desde 19 de Janeiro de 2019, a Comissão foi suprimida.

PL – Mas existem outros interlocutores possíveis em Roma?
CM – Outrora existia um costume bem católico e caritativo de receber nos Dicastérios, no nosso caso no do Culto Divino.

PL – Cujos responsáveis os acolhiam?
CM – Amistosamente, pode-se dizer. Assim, desde há trinta anos creio ter sido recebido por todos os Prefeitos do Culto Divino – os cardeais Medina, Arinze, Cañizares e Robert Sarah – para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – E isso foi útil?
CM – Utilíssimo! Foi graças a esses contactos que pudemos ser recebidos pelo Cardeal Ratzinger e por muitos outros cardeais ou oficiais da Cúria. Foi também assim que pudemos, por exemplo, convidar o Cardeal Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, a celebrar Missa em São Pedro de Roma na primeira peregrinação Summorum Pontificum, em 2012, e que pudemos evocar uma multidão de outros assuntos.

PL – Mas isso já não é possível?
CM – Desde a partida do Cardeal Sarah do Dicastério do Culto Divino, já não me foi possível encontrar o seu sucessor, o Cardeal Roche.

PL – Tentou?
CM – Solicitei o cardeal por carta e por correio electrónico inúmeras vezes, passei mais vezes ainda pelos seus gabinetes... em vão. O Cardeal Roche está muito ocupado...

PL – É desagradável?
CM – É simplesmente dramático. Sentimo-nos como órfãos. Nos Dicastérios e nas repartições, fala-se da liturgia tradicional e daqueles que a ela estão ligados, mas sem nos conhecer, sem manter o mínimo contacto connosco.

PL – Nenhum diálogo?
CM – Não, nenhum diálogo, numa época em que este é diariamente apresentado como uma caridade indispensável.

PL – Mas existe o Sínodo dos Bispos e as suas assembleias…
CM – O Sínodo dos Bispos em Roma, como os sínodos diocesanos, multiplica as suas assembleias, mas ignora-nos como se não existíssemos.

PL – Não exagera um pouco?
CM – Poderia escrever um verdadeiro livro sobre o último sínodo da Diocese de Versalhes, ao qual muitos grupos quiseram participar, mas todos foram afastados. O diálogo só existe com aqueles que partilham aproximadamente os mesmos pontos de vista!

PL – E ao nível das Conferências Episcopais?
CM – A minha experiência limita-se à França, mas também aí enfrentamos um encerramento autístico. Embora numerosos grupos estejam representados junto da CEF, não existe qualquer representação, mesmo informal, dos fiéis tradicionais junto dos nossos bispos, nem um contacto estabelecido com eles. Não é por falta de o ter pedido muitas vezes. Nem sequer contactos oficiosos. Nada. Só na Igreja se vê isto – seria inimaginável no mundo político ou empresarial.

PL – Mas não existe um grupo de reflexão CEF/Tradição na Igreja de França?
CM – A CEF só conhece as comunidades ex-Ecclesia Dei, que falam apenas em nome próprio – e, aliás, é de ver a forma cavaleira como são tratadas. Ora, há numerosos padres diocesanos que celebram a Missa tradicional. E há sobretudo a massa dos fiéis leigos que, para a CEF, não existem.

PL – Porque os leigos constituem uma realidade particular?
CM – Pensava eu que isso era, teoricamente, o caso desde o Concílio Vaticano II. Mas parece que tal não concerne a todos os leigos, apenas àqueles que aderem às ideias novas.

PL – Sois, portanto, órfãos?
CM – Somos órfãos, ignorados e, digamo-lo, cuidadosamente afastados da vida eclesial. Pelo menos, as palavras do Papa deixam-nos esperar que as coisas possam mudar. Esse será o objecto das nossas orações durante a décima quarta peregrinação Summorum Pontificum a Roma, de 23 a 25 de Outubro próximo.

in Paix Liturgique


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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Apelo fraternal ao Papa Leão XIV para construir uma ponte com a FSSPX - D. Athanasius Schneider

A situação actual relativa às sagrações episcopais na Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX) despertou subitamente toda a Igreja. Num curto espaço de tempo, após o anúncio de 2 de Fevereiro de que a FSSPX irá proceder a estas sagrações, surgiu, em amplos sectores do mundo católico, um debate intenso e frequentemente carregado de emoção. O leque de vozes nesse debate vai desde a compreensão, benevolência, observação neutra e bom senso, até à rejeição irracional, condenação peremptória e até ao ódio visceral. Embora haja motivos de esperança — e de modo algum irrealista — de que o Papa Leão XIV possa efectivamente aprovar as sagrações episcopais, já se começam a apresentar em linha propostas de texto para uma bula de excomunhão da FSSPX.

As reacções negativas, embora muitas vezes bem intencionadas, revelam que o cerne do problema ainda não foi compreendido com suficiente honestidade e clareza. Nota‑se uma tendência para permanecer à superfície. As prioridades na vida da Igreja invertem‑se, elevando a dimensão canónica e jurídica — isto é, um certo positivismo jurídico — ao critério supremo. Além disso, por vezes falta consciência histórica quanto à prática da Igreja no que toca às ordenações episcopais. Assim, a desobediência é demasiado facilmente equiparada a cisma. Os critérios de comunhão episcopal com o Papa, e consequentemente a compreensão daquilo que realmente constitui o cisma, são considerados de modo excessivamente unilateral em comparação com a prática e a auto-consciência da Igreja na era patrística, o tempo dos Padres da Igreja.

Neste debate, estão a ser estabelecidos novos quase‑dogmas que não existem no Depositum fidei. Estes quase‑dogmas sustentam que o consentimento do Papa para a sagração de um bispo é de direito divino, e que uma sagração realizada sem esse consentimento, ou mesmo contra uma proibição papal, constitui em si mesma um acto cismático. Porém, a prática e a compreensão da Igreja no tempo dos Padres, e durante um longo período depois disso, contrariam tal visão. Além disso, não há opinião unânime sobre esta matéria entre os teólogos reconhecidos da tradição bi-milenar da Igreja. Séculos de prática eclesial, assim como o direito canónico tradicional, opõem‑se também a tais afirmações absolutizantes. Segundo o Código de Direito Canónico de 1917, uma sagração episcopal realizada contra a vontade do Papa não era punida com excomunhão, mas apenas com suspensão. Com isto, a Igreja manifestava claramente que não considerava tal acto como cismático.

A aceitação do primado do Papa como verdade revelada é muitas vezes confundida com as formas concretas — formas que se foram desenvolvendo ao longo da História — pelas quais um bispo exprime a sua unidade hierárquica com o Papa. Crer no Primado do Papa, reconhecer o Papa concreto, aderir com ele a tudo o que a Igreja ensinou infalível e definitivamente e observar a validade da liturgia sacramental é de direito divino. Contudo, uma visão redutora que equipara a desobediência a uma ordem papal com o cisma — mesmo no caso de uma sagração episcopal realizada contra a sua vontade — era estranha aos Padres da Igreja e ao direito canónico tradicional. Por exemplo, em 357, São Atanásio desobedeceu à ordem do Papa Libério, que o instruíra a entrar em comunhão hierárquica com a esmagadora maioria do episcopado, o qual era de facto ariano ou semi‑ariano. Como consequência, foi excomungado. Neste caso, São Atanásio desobedeceu por amor à Igreja e à honra da Sé Apostólica, procurando precisamente salvaguardar a pureza da doutrina de qualquer suspeita de ambiguidade.

No primeiro milénio da vida da Igreja, as sagrações episcopais eram geralmente realizadas sem permissão papal formal, e não se exigia que os candidatos fossem aprovados pelo Papa. A primeira norma canónica sobre sagrações episcopais, emanada por um Concílio Ecuménico, foi a de Niceia, em 325, que requeria que um novo bispo fosse consagrado com o consentimento da maioria dos bispos da província. Pouco antes da sua morte, num período de confusão doutrinal, São Atanásio escolheu pessoalmente e consagrou o seu sucessor — São Pedro de Alexandria —, para garantir que nenhum candidato inadequado ou fraco viesse a assumir o episcopado. De modo semelhante, em 1977, o Servo de Deus Cardeal Iosif Slipyj consagrou secretamente três bispos em Roma sem a aprovação do Papa Paulo VI, plenamente consciente de que o Papa não o permitiria por causa da Ostpolitik vaticana daquela época. Ainda assim, quando Roma tomou conhecimento destas sagrações secretas não aplicou a pena de excomunhão.

Para evitar mal‑entendidos, em circunstâncias normais — e quando não há confusão doutrinal nem tempo de perseguição extraordinária — é preciso, evidentemente, fazer tudo o possível para observar as normas canónicas da Igreja e obedecer ao Papa nas suas injunções justas, a fim de preservar a unidade eclesial de modo mais eficaz e visível.

Mas a situação actual na vida da Igreja pode ser ilustrada com a seguinte parábola: Irrompe um incêndio numa grande casa. O chefe dos bombeiros permite apenas o uso de novos equipamentos de combate ao fogo, embora se tenha demonstrado que são menos eficazes do que os antigos instrumentos. Um grupo de bombeiros desafia esta ordem e continua a usar o material experimentado e comprovado — e, de facto, o fogo é contido em muitos lugares. No entanto, estes bombeiros são rotulados como desobedientes e cismáticos, e são castigados.

Prolongando a metáfora: o chefe dos bombeiros admite apenas aqueles que reconhecem o novo equipamento, seguem as novas regras de combate ao fogo e obedecem aos novos regulamentos do quartel. Mas, dada a dimensão evidente do incêndio, a luta desesperada contra ele e a insuficiência da equipa oficial de bombeiros, outros auxiliares — apesar da proibição do chefe — intervêm abnegadamente, com perícia, conhecimento e boas intenções, acabando por contribuir para o êxito dos esforços do próprio chefe.

Perante um comportamento tão rígido e incompreensível, apresentam‑se duas possíveis explicações: ou o chefe dos bombeiros nega a gravidade do incêndio, à semelhança da comédia francesa 'Tout va très bien, Madame la Marquise!'; ou, na realidade, o chefe deseja que grandes partes da casa ardam, para que mais tarde possam ser reconstruídas segundo um novo projecto.

A crise actual em torno das sagrações episcopais anunciadas — mas ainda não aprovadas — expõe, diante dos olhos de toda a Igreja, uma ferida que arde em brasa há mais de sessenta anos. Esta ferida pode ser descrita, em linguagem figurada, como um cancro eclesial — concretamente, o cancro eclesial das ambiguidades doutrinais e litúrgicas.

Recentemente, apareceu um excelente artigo no blogue Rorate Caeli, escrito com rara clareza teológica e honestidade intelectual, com o título: “The Long Shadow of Vatican II: Ambiguity as Ecclesial Cancer”. O problema fundamental de algumas afirmações ambíguas do Concílio Vaticano II é que o Concílio preferiu um tom pastoral em detrimento da precisão doutrinal. Pode concordar‑se com o autor quando ele afirma:

«O problema não é que o Vaticano II tenha sido herético. O problema é que foi ambíguo. E nessa ambiguidade vimos as sementes da confusão que floresceram em alguns dos mais preocupantes desenvolvimentos teológicos da história moderna da Igreja. Quando a Igreja, mesmo que sem intenção, fala em termos vagos, as almas estão em perigo.»

O autor continua:
«Quando um “desenvolvimento” doutrinal parece contradizer o que vinha antes, ou quando exige décadas de ginástica teológica para ser reconciliado com o ensinamento magisterial anterior, devemos perguntar: trata‑se de desenvolvimento, ou de ruptura disfarçada de desenvolvimento?»

Pode supor‑se com razoabilidade que a FSSPX nada mais deseja do que ajudar a Igreja a sair desta ambiguidade na doutrina e na liturgia e a reencontrar a sua salutar clareza perene — tal como o Magistério da Igreja, guiado pelos Papas, o fez inequivocamente ao longo da História, depois de cada crise marcada pela confusão doutrinal e pela ambiguidade.

Na realidade, a Santa Sé deveria estar agradecida à FSSPX, porque ela é actualmente quase a única grande realidade eclesial que aponta franca e publicamente a existência de elementos ambíguos e equívocos em certas afirmações do Concílio e do Novus Ordo Missae. Neste esforço, a FSSPX é guiada por um amor sincero à Igreja: se não amasse a Igreja, o Papa e as almas, não empreenderia este trabalho nem se empenharia em dialogar com as autoridades romanas — e sem dúvida teria uma vida mais fácil.

Comovem profundamente as seguintes palavras de Mons. Marcel Lefebvre, que reflectem a atitude da actual direcção e da maior parte dos membros da FSSPX:

«Nós cremos em Pedro, nós cremos no sucessor de Pedro! Mas, como o Papa Pio IX diz muito bem na sua constituição dogmática, o Papa recebeu o Espírito Santo não para fazer novas verdades, mas para nos manter na fé de sempre. Esta é a definição do Papa feita por ocasião do Concílio Vaticano I pelo Papa Pio IX. E é por isso que estamos convencidos de que, ao manter estas tradições, manifestamos o nosso amor, a nossa docilidade, a nossa obediência ao Sucessor de Pedro. Não podemos permanecer indiferentes perante a degradação da fé, da moral e da liturgia. Isso está fora de questão! Não queremos separar‑nos da Igreja; pelo contrário, queremos que a Igreja continue!»

Se alguém considera entre os seus maiores sofrimentos espirituais o facto de ter dificuldades com o Papa, tal é por si só uma prova eloquente de que não há intenção cismática. Os verdadeiros cismáticos chegam mesmo a gloriar‑se da sua separação da Sé Apostólica. Verdadeiros cismáticos jamais suplicariam humildemente ao Papa que reconhecesse os seus bispos.

Quão verdadeiramente católicas são, então, estas palavras de Mons. Marcel Lefebvre:

«Lamentamos infinitamente, é uma dor imensa para nós, pensar que estamos em dificuldade com Roma por causa da nossa fé! Como é possível? É algo que ultrapassa a imaginação, que nunca teríamos podido imaginar, que nunca teríamos podido acreditar, sobretudo na nossa infância — então, quando tudo era uniforme, quando toda a Igreja acreditava na sua unidade geral e tinha a mesma Fé, os mesmos Sacramentos, o mesmo sacrifício da Missa, o mesmo catecismo.»

Devemos examinar honestamente as evidentes ambiguidades relativas à liberdade religiosa, ao ecumenismo e à colegialidade, bem como as imprecisões doutrinais do Novus Ordo Missae. A este respeito, deve ler‑se o livro recentemente publicado pelo Arquimandrita Boniface Luykx, perito conciliar e renomado estudioso de liturgia, cujo título é muito eloquente: "A Wider View of Vatican II. Memories and Analysis of a Council Consultor".

Como disse uma vez G. K. Chesterton: «Ao entrar na igreja, pedem‑nos que tiremos o chapéu, não a cabeça.» Seria uma tragédia se a FSSPX fosse completamente cortada, e a responsabilidade por tal divisão recairia principalmente sobre a Santa Sé. A Santa Sé deveria acolher a FSSPX, oferecendo‑lhe ao menos um mínimo de integração na Igreja, e depois continuar o diálogo doutrinal. A Santa Sé demonstrou notável generosidade em relação ao Partido Comunista Chinês, permitindo‑lhe escolher candidatos a bispos — e, contudo, os seus próprios filhos, as dezenas e dezenas de milhares de fiéis da FSSPX, são tratados como cidadãos de segunda categoria.

Dever‑se‑ia permitir à FSSPX que desse a sua contribuição teológica em ordem a clarificar, completar e, se necessário, emendar aquelas afirmações dos textos do Concílio Vaticano II que suscitam dúvidas e dificuldades doutrinais. Deve ter‑se igualmente em conta que, nesses textos, o Magistério da Igreja não pretendeu pronunciar‑se com definições dogmáticas dotadas da nota de infalibilidade (cf. Paulo VI, Audiência Geral, 12 de Janeiro de 1966).

A FSSPX faz exactamente a mesma Professio fidei que fizeram os Padres do Concílio Vaticano II, conhecida como a Professio fidei tridentino‑vaticana. Se, segundo as palavras explícitas do Papa Paulo VI, o Concílio Vaticano II não apresentou doutrinas definitivas nem tencionou fazê‑lo, e se a fé da Igreja permanece a mesma antes, durante e depois do Concílio, por que motivo a profissão de fé que era válida na Igreja até 1967 deixaria de ser considerada válida, de repente, como marca de verdadeira crença católica?

Todavia, a Professio fidei tridentino‑vaticana é considerada insuficiente pela Santa Sé no que toca à FSSPX. Não constituiria precisamente essa Professio fidei tridentino‑vaticana “o mínimo” para a comunhão eclesial? Se isso não é um mínimo, então o que, honestamente, qualificaria como “mínimo”? À FSSPX é exigido, como conditio sine qua non, que faça uma Professio fidei pela qual devam ser aceitos os ensinamentos de carácter pastoral, e não definitivo, do último Concílio e do subsequente Magistério. Se isto é realmente o chamado “requisito mínimo”, então o Cardeal Victor Fernández parece brincar com as palavras!

O Papa Leão XIV afirmou nas Vésperas ecuménicas de 25 de Janeiro de 2026, no encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que já existe unidade entre católicos e cristãos não católicos, porque partilham o mínimo da fé cristã: «Partilhamos a mesma fé no único Deus, Pai de todos os homens; confessamos juntos o único Senhor e verdadeiro Filho de Deus, Jesus Cristo, e o único Espírito Santo, que nos inspira e impele rumo à plena unidade e ao testemunho comum do Evangelho» (Carta Apostólica In Unitate Fidei, 23 de Novembro de 2025, 12). E declarou ainda: «Somos um! Já o somos! Reconheçamo‑lo, experimentemo‑lo e tornemo‑lo visível!»

Como se pode conciliar esta afirmação com a alegação feita por representantes da Santa Sé e por alguns altos prelados de que a FSSPX não está unida doutrinalmente à Igreja, dado que a FSSPX professa a Professio fidei dos Padres do Concílio Vaticano II — a Professio fidei tridentino‑vaticana?

Novas medidas pastorais provisórias concedidas à FSSPX para o bem espiritual de tantos fiéis católicos exemplares constituiriam um testemunho profundo da caridade pastoral do Sucessor de Pedro. Agindo assim, o Papa Leão XIV abriria o seu coração paterno àqueles católicos que, de certo modo, vivem numa periferia eclesial, permitindo‑lhes experimentar que a Sé Apostólica é verdadeiramente Mãe também para a FSSPX.

As palavras do Papa Bento XVI deveriam despertar a consciência daqueles, no Vaticano, que hão‑de decidir sobre a concessão da permissão para as sagrações episcopais da FSSPX. Ele recorda‑nos:
«Olhando para o passado, para as divisões que, ao longo dos séculos, rasgaram o Corpo de Cristo, tem‑se continuamente a impressão de que, em momentos críticos em que as divisões se produziam, não foi feito o suficiente, por parte dos responsáveis da Igreja, para manter ou recuperar a reconciliação e a unidade. Tem‑se a impressão de que omissões por parte da Igreja tiveram a sua quota de culpa pelo facto de estas divisões se terem podido enrijecer. Este olhar para o passado impõe‑nos hoje uma obrigação: fazer todo o possível para permitir que todos aqueles que desejam verdadeiramente a unidade nela permaneçam ou a alcancem de novo.» (Carta aos Bispos por ocasião da publicação da Carta Apostólica «motu proprio data» Summorum Pontificum, sobre o uso da Liturgia Romana anterior à reforma de 1970, 7 de Julho de 2007)

«Podemos ser totalmente indiferentes a uma comunidade que conta 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos de nível universitário, 117 irmãos religiosos, 164 religiosas e milhares de fiéis leigos? Devemos deixá‑la, com ligeireza, afastar‑se ainda mais da Igreja? E não deveria também a grande Igreja permitir‑se ser generosa, consciente da sua grande largueza, consciente da promessa que lhe foi feita?» (Carta aos Bispos da Igreja Católica a propósito da remissão da excomunhão dos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, 10 de Março de 2009).

Medidas pastorais provisórias e mínimas a favor da FSSPX, tomadas para o bem espiritual das dezenas de milhares dos seus fiéis em todo o mundo — incluindo um mandato pontifício para sagrações episcopais — criariam as condições necessárias para esclarecer com calma mal‑entendidos, questões e dúvidas de natureza doutrinal que nascem de certas afirmações dos documentos do Concílio Vaticano II e do subsequente Magistério Pontifício. Ao mesmo tempo, tais medidas forneceriam à FSSPX a oportunidade de dar uma contribuição constructiva para o bem de toda a Igreja, mantendo uma clara distinção entre o que pertence à fé divinamente revelada e à doutrina proposta de modo definitivo pelo Magistério, e aquilo que tem sobretudo carácter pastoral em circunstâncias históricas concretas, sendo por isso aberto a um estudo teológico atento, como sempre foi a prática ao longo da vida da Igreja.

Com sincera solicitude pela unidade da Igreja e pelo bem espiritual de tantas almas, dirijo um apelo, com caridade reverente e fraterna, ao nosso Santo Padre o Papa Leão XIV:

Santíssimo Padre, concedei o Mandato Apostólico para as sagrações episcopais da FSSPX. Vós sois também o pai de numerosos filhos e filhas — duas gerações de fiéis que, até agora, têm sido assistidos pela FSSPX, que amam o Papa e desejam ser verdadeiros filhos e filhas da Igreja Romana. Portanto, abstrai‑vos dos partidarismos de outrem e, com grande espírito paternal e verdadeiramente agostiniano, mostrai que sois construtor de pontes, como prometestes diante do Mundo inteiro quando destes a vossa primeira bênção após a eleição. Não fiqueis na História da Igreja como aquele que não construiu esta ponte — ponte que poderia ser erguida neste momento verdadeiramente providencial, com vontade generosa — e que, em vez disso, permitiu uma ulterior divisão realmente desnecessária e dolorosa no seio da Igreja, enquanto ao mesmo tempo decorrem processos sinodais que se vangloriam da máxima amplitude pastoral e inclusividade eclesial. Como a Vossa Santidade sublinhou recentemente:

«Comprometamo‑nos a desenvolver ulteriormente práticas sinodais ecuménicas e a partilhar uns com os outros quem somos, o que fazemos e o que ensinamos (cf. Francisco, Para uma Igreja sinodal, 24 de Novembro de 2024).»

Santíssimo Padre, se concederdes o Mandato Apostólico para as sagrações episcopais da FSSPX, a Igreja do nosso tempo nada perderá. Sereis um verdadeiro construtor de pontes, e ainda mais, um construtor de pontes exemplar, pois sois o Sumo Pontífice, Summus Pontifex.

+Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana
24 de Fevereiro de 2026

[1] Estatísticas da FSSPX em 2025: Total de membros: 1482; Bispos: 2; Sacerdotes (excluindo os bispos): 733; Seminaristas (incluindo os ainda não comprometidos): 264; Irmãos religiosos: 145; Oblatas: 88; Irmãs religiosas: 250; Idade média dos membros: 47 anos; Países servidos: 77; Distritos e Casas Autónomas: 17; Seminários: 5; Escolas: 94 (das quais 54 em França).


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