sábado, 11 de abril de 2026

A Páscoa das três Encíclicas

O título «A Páscoa das três encíclicas» pretende recordar três importantes documentos emanados pelo Papa Pio XI a poucos dias de distância uns dos outros, em Março de 1937. Três Encíclicas que se dirigiam a todos os católicos do mundo e que conservam ainda hoje a sua actualidade.
Pio XI, octogenário e convalescente depois de uma longa doença que o tinha imobilizado durante meses, enfrentava três graves desafios postos à Igreja pelas ideologias anticristãs do seu tempo: o neopaganismo da Alemanha hitleriana, com a Mit brennender Sorge; o comunismo da Rússia soviética, com a Divini Redemptoris; o anticristianismo do México laicista e maçónico, com a Firmissimam constantiam. A saída destas três encíclicas no espaço de duas semanas foi um facto único na história da Igreja.
A primeira encíclica, a Mit brennender Sorge, estava datada do Domingo da Paixão, 14 de Março de 1937. Pio XI afirmava: «Se é verdade que a raça ou o povo, se o Estado ou uma sua determinada forma, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana têm na ordem natural um lugar essencial e digno de respeito; todavia quem os destaca desta escala de valores terrenos, elevando-os a suprema norma de tudo, mesmo dos valores religiosos, e os diviniza com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé em Deus e de uma concepção da vida conforme a ela. (…)
Sobre a fé em Deus genuína e pura se funda a moralidade do género humano. Todas as tentativas de destacar a doutrina da ordem moral da base granítica da fé, para a reconstruir sobre a areia movediça de normas humanas, levam, cedo ou tarde, indivíduos e nações ao decaimento moral. O insensato que diz no seu coração: “não há Deus”, encaminhar-se-á para a corrupção moral. E estes insensatos, que presumem separar a moral da religião, tornaram-se hoje legião».
A segunda encíclica, a Divini Redemptoris, foi publicada a 19 de Março de 1937, festa de S. José, padroeiro da Igreja e dos trabalhadores cristãos. Denunciando o comunismo mundial e ateu que da Rússia se difundia pelo mundo, Pio XI dizia: «Pela primeira vez na história estamos a assistir a uma luta friamente querida e cuidadosamente preparada do homem contra “tudo aquilo que é divino” (…)
Procurai, Veneráveis Irmãos, que os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em nenhum campo a colaboração com ele da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã. E se alguns iludidos cooperassem para a vitória do comunismo no seu país, cairão os primeiros como vítimas do seu erro, e quanto mais as regiões onde o comunismo consegue penetrar se distinguem pela antiguidade e grandeza da sua civilização cristã, tanto mais devastador aí se manifestará o ódio dos “sem Deus”».
Pio XI lançava um «apelo a quantos creem em Deus»: «Mas a esta luta travada pelo “poder das trevas” contra a própria ideia da Divindade, é-nos grato esperar que, além de todos quantos se gloriam do nome de Cristo, se oponham também validamente quantos (e são a grande maioria da humanidade) creem ainda em Deus e O adoram. Renovamos portanto o apelo que já lançámos há cinco anos na Nossa Encíclica Caritate Christi a fim de que eles também lealmente e cordialmente concorram da sua parte “para afastar da humanidade o grande perigo que ameaça todos”.
Pois – como então dizíamos – visto que “o crer em Deus é o fundamento inabalável de toda a ordem social e de toda a responsabilidade sobre a terra, por isso todos quantos não querem a anarquia e o terror devem energicamente esforçar-se para que os inimigos da religião não alcancem o fim por eles tão abertamente proclamado”».
O Papa acrescentava: «Onde o comunismo pôde afirmar-se e dominar – e aqui pensamos com singular afecto paternal nos povos da Rússia e do México –, aí se esforçou por todos os meios de destruir (e proclama-o abertamente) desde as suas bases a civilização e a religião cristã, extinguindo no coração dos homens, especialmente da juventude, toda a recordação. Bispos e sacerdotes foram banidos, condenados aos trabalhos forçados, fuzilados e mortos de maneira desumana; simples leigos, por terem defendido a religião, foram suspeitados, vexados, perseguidos e arrastados para as prisões e perante os tribunais».
Precisamente ao México era dedicada a terceira encíclica, Firmissimam constantiam, emanada no dia de Páscoa, 28 de Março de 1937. Nela o Papa afirmava que «quando as mais elementares liberdades religiosas e civis são atacadas, os cidadãos católicos não se resignem logo a renunciar a elas». Caso os poderes constituídos «se insurgissem contra a justiça e a verdade ao ponto de destruir os próprios fundamentos da autoridade, não se veria como dever condenar aqueles cidadãos que se unissem para defender com meios lícitos e adequados a si mesmos e a Nação, contra quem se serve do poder público para a arruinar».
Pio XI não convidava à rendição, mas recordava aos católicos mexicanos que tivessem «aquela visão sobrenatural da vida, aquela educação religiosa e moral e aquele zelo ardente pela dilatação do Reino de Cristo que a Acção Católica se propõe dar. Perante uma feliz coligação de consciências que não entendem renunciar à liberdade reivindicada por Cristo (Gal. 4, 31) qual poder ou força humana poderia subjugá-las ao pecado? Quais perigos, quais perseguições, quais provas poderiam separar almas assim temperadas da caridade de Cristo? (cf. Rm 8, 35)».
Os cristeros mexicanos tinham empunhado as armas em nome de Cristo Rei. Pio XI, dirigindo-se aos católicos mexicanos, recordava a sua encíclica Quas primas de 11 de Dezembro de 1925 na qual proclamava Cristo Rei do universo. Uma verdade que se opunha às ideologias anticristãs que, à vigília da Segunda Guerra Mundial, ameaçavam o mundo. Mas também nas horas mais sombrias a virtude da esperança alimenta a fé dos cristãos.
Assim, na Divini Redemptoris, Pio XI afirmava: «Com os olhos voltados para o alto, a nossa fé vê os “novos céus” e a “nova terra”, de que fala o nosso primeiro Antecessor, São Pedro (II Petr. III, 13). Enquanto as promessas dos falsos profetas nesta terra se extinguem no sangue e nas lágrimas, resplandece de beleza celestial a grande profecia apocalíptica do Redentor do mundo: Eis que Eu faço novas todas as coisas (Apoc. 21, 5)».
Roberto de Mattei in 'Corrispondenza Romana'


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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Muitos jovens encontram Jesus Cristo por causa da Missa Tradicional

O Cardeal Willem Eijk, Arcebispo de Utrecht, celebrou a primeira Missa Pontifical pública, em Rito Romano Tradicional. Eis alguns pontos do que descreveu em entrevista ao Messa in Latino:

- Há alguns anos, a Fraternidade Sacerdotal São Pedro convidou-me para conferir uma ordenação diaconal no seu seminário em Wigratzbad, na Baviera, mas recusei porque não estava familiarizado com o Rito Tridentino. No início deste ano, durante uma curta estada num mosteiro do Instituto de Cristo Rei, na Alemanha, aprendi a celebrá-lo.

- Nos últimos dias, em Grote Kerk (Oss) celebrei a minha primeira Missa Pontifical, em Rito Antigo. Achei-a uma experiência muito impressionante e inesquecível.

- A igreja estava cheia de fiéis devotos – a maioria eram jovens e havia muitas famílias.

- O Rito Tridentino é muito solene e oferece muitos momentos de silêncio, proporcionando ampla oportunidade para a oração pessoal.

- O sacerdote não celebra a Missa "de costas para o povo", como frequentemente se afirma, mas voltado para o altar – e assim para Cristo –, ajudando os presentes a voltarem-se também para Ele.

- Estavam disponíveis três sacerdotes para ouvir confissões.

- Houve um considerável interesse espiritual nesta celebração – como o demonstra o grande número de participantes, incluindo alemães e belgas.

- Nos últimos anos, temos assistido a um número crescente de jovens que aderem à Igreja, incluindo aqueles que foram baptizados em crianças mas não foram educados na Fé e que mais tarde – muitas vezes através das redes sociais – a conhecem e a abraçam.

- É notável que muitos deles encontrem o caminho para Cristo e para a Sua Igreja através da liturgia tradicional.

in gloria.tv


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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Quarta-Feira de Páscoa, mais um Rito perdido: Bênção dos 'Agnus Dei'

Entre os antigos e veneráveis Ritos que a Igreja Romana celebra no Tempo Pascal, um dos primeiros lugares cabe certamente à bênção e distribuição dos chamados 'Agnus Dei'. São estes uns medalhões de cera benzidos pelo Papa, que trazem impressa de um lado um Agnus Dei, que lhes dá o nome, e do outro outra imagem sagrada, muitas vezes um santo canonizado pelo Pontífice que os benze. Podem considerar-se o mais poderoso sacramental (no sentido de objecto benzido) que existe no Mundo.

A história dos 'Agnus Dei' é muito antiga e deriva do costume de distribuir aos fiéis pedaços do círio pascal. Desde uma época remotíssima até cerca do século IX, em Roma o Arcediago benzia ao Sábado Santo a cera humedecida com óleo, com impressa a imagem do Cordeiro pascal, e distribuía-a aos fiéis no Domingo 'in albis', depois da comunhão. Pouco mais tarde, tal bênção tornou-se um rito especial do Papa. 

Outrora, os 'Agnus Dei' tinham várias formas, além da de medalhão que se tornou clássica: quadrados, redondos, em estrela ou mesmo em forma de cordeiros, com a imagem prevalentemente do Baptista. O cuidado de os fabricar era outrora dos subdiáconos apostólicos, depois do Sacristão pontifício. Finalmente, Clemente VIII deu o encargo e o privilégio aos Cistercienses de Santa Pudenciana, privilégio transmitido depois ao mosteiro de Santa Cruz em Jerusalém e ao das Três Fontes.

A bênção dos 'Agnus Dei', outrora feita ao Sábado Santo (por analogia com os baptismos), tornou-se depois habitual nos dias da semana 'in albis'. O Papa realizava-a no ano da sua eleição e, depois, a cada sete anos, com um rito imutável pelo menos desde o século XV.

Don Mauro Tranquillo


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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Christus Resurrexit! Vere Resurrexit! Alleluia, Alleluia!

Santa Páscoa, caros amigos!

Ao raiar do terceiro dia, os amigos de Cristo quando chegaram ao local viram o sepulcro vazio e a pedra rolada para o lado. De várias formas eles aperceberam-se da nova maravilha; mas mesmo assim não se aperceberam bem que o mundo tinha morrido durante a noite. O que eles contemplavam era o primeiro dia de uma nova criação, um novo Céu e uma nova Terra.

E, no semblante de um jardineiro, Deus passeava de novo no jardim, na brisa, não da tarde, mas da madrugada.

G.K. Chesterton in 'O Homem Eterno' (1925)


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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Quarta-Feira: dia de penitência em memória da traição de Judas

Poucos cristãos sabem que as Quartas-Feiras carregam, desde os primórdios da Igreja, uma marca penitencial profunda. A tradição associa este dia ao momento em que Judas Iscariotes conspirou com o Sinédrio para entregar Jesus, conforme narrado em Mateus 26,14-16: "Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse: Que me dareis se vo-Lo entregar?"

Esta ligação entre a quarta-feira e a traição é antiquíssima. Já a Didaqué, texto do final do século I considerado o mais antigo catecismo cristão, instruía: "Que os vossos jejuns não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam na Segunda e na Quinta-Feira; vós, porém, jejuai na Quarta-feira e na Sexta-feira" (Didaqué 8,1). Os cristãos distinguiam-se assim dos jejuns judaicos, consagrando a Quarta-Feira à memória da traição e a sexta-feira à da Paixão.

São Pedro de Alexandria, patriarca e mártir (+311), explica o porquê: "Quarta-Feira porque neste dia se reuniu o conselho dos judeus para trair Nosso Senhor; e Sexta-Feira porque nesse dia Ele sofreu a morte pela nossa salvação."

Santo Epifânio de Salamina acrescenta que esta prática remonta aos próprios Apóstolos: "Está ordenado, pela lei dos Apóstolos, jejuar dois dias por semana."

Curiosamente, este jejum das Quartas-Feiras manteve-se obrigatório durante quase dez séculos na Igreja latina, sendo gradualmente atenuado e depois extinto, como obrigação, por volta do século X. Contudo, deixou vestígios duradouros: a Quarta-Feira de Cinzas abre a Quaresma, e as Têmporas incluem sempre uma Quarta-Feira. Na Irlanda, a proibição de carne às Quartas-Feiras perdurou até meados do século XVII.

Na tradição oriental, a prática nunca cessou. Até hoje, os cristãos orientais observam jejum de carne, lacticínios e azeite em todas as Quartas-Feiras do ano, em memória da traição de Judas.

A Quarta-Feira Santa, por sua vez, é chamada "Spy Wednesday" em inglês, o dia do espião, e marca liturgicamente o primeiro dia de luto da Igreja na Semana Santa: que convida ao silêncio, à penitência e à vigilância do coração.


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terça-feira, 31 de março de 2026

O que é o Ofício de Trevas?

I - O nome

O Ofício de Trevas ou as Trevas (Matutina Tenebrarum) é o Ofício das Matinas e Laudes dos três últimos dias da Semana Santa. O nome deriva:

a) Das trevas naturais de meia-noite ou ao anoitecer, horas estas destinadas à recitação do ofício.
b) Da prisão de Jesus durante a noite. O Salvador nos diz que esta hora era a do poder das trevas: hæc est hora vestra et potestas tenebrarum (Lc 22, 53).
c) Das trevas litúrgicas, pois que durante o ofício se apagam as luzes da igreja e se vão apagando todas as velas.
d) Das trevas simbólicas da paixão. Quando Jesus morreu, trevas cobriram a Terra. Este ofício, lembrando as trevas do Calvário, representa o luto comovedor da Esposa de Cristo, da Igreja. Por isso faltam o invitatório solene, os hinos, o Gloria Patri; o acompanhamento musical, o Te Deum. Todas as antífonas, os salmos, as lições tratam do divino Sofredor.

As três primeiras lições são tiradas das lamentações de Jeremias e formulam na boca da Igreja a dor íntima sobre os ultrajes feitos ao Filho de Deus e sobre a impenitência histórica de Jerusalém, figura da impenitência da alma. Historicamente o ofício divino destes três dias conservou a sua forma antiga.

II - A cerimónia e o seu significado
1. Preparativos

Do altar retiram-se as toalhas, a cruz e os castiçais. No lado da epístola, põe-se o candelabro triangular (tenebrário, galo das trevas) com “15 velas de cera amarela”, as velas do altar devem ser “exeadem cera”. No meio do coro coloca-se uma estante nua para o livro das lamentações.

2. Descritivo Geral do Rito

a) Acende-se as velas do tenebrário. Revestidos de sobrepeliz, os membros do clero entram em procissão.
b) Todas as Antífonas e os Salmos são entoados por dois chantres: todas as vezes estes devem dirigir-se ao meio do coro, fazer reverência ao altar, e entoarão a Antífona. Em seguida convidarão com uma vénia o lado do Evangelho a continuar a salmodia. Depois de fazer a reverência ao altar e saudarem-se mutuamente, retornam aos seus lugares. No fim de cada salmo, um acólito (sacristão) dirige-se ao santuário e apaga uma vela do tenebrário começando pela inferior do lado do evangelho; depois do segundo, apaga a vela inferior do lado da epístola; ao terceiro salmo apaga a segunda vela do lado do evangelho, etc.
Depois da entoação da primeira antífona e do salmo, todos se sentam. Permanece-se assim durante os três noturnos, levantando-se apenas para a recitação do Pater noster que precede as lições de cada noturno.

c) Alguns versos antes do fim do terceiro salmo, o cerimoniário do coro (coloca a estante no lugar, e) chama o chantre que cantará a primeira lamentação. Ele acompanha-o à estante, e permanece ao seu lado durante o canto da lição; em seguida ele acompanha-o ao seu lugar. O cerimoniário do coro fará assim para as nove lições (retirando a estante depois de ter acompanhado o último chantre ao seu lugar). O tom que se deve cantar as lições do segundo e terceiro noturno é o da profecia.

d) Depois do nono responsório, permanece-se sentado para o canto das Laudes. Ao começar o Benedictus, todos se levantam e se benzem, porque são palavras do Santo Evangelho. Ao verso “Ut sine timore” apagam-se todas as luzes da igreja; assim, só a vela que está no vértice do tenebrário permanece acesa. O clero senta-se enquanto se repete a Antífona do Benedictus, depois ajoelham-se para o canto do Christus factus est, que é entoado pelo mais digno do coro. Enquanto se repete a Antífona, o acólito pega a vela que permanece acesa, e coloca-se no lado da Epístola, tendo a vela apoiada na borda do altar. À entoação do Christus, esconde a vela atrás do altar, sem a apagar. A conclusão da oração que segue o Christus faz-se em voz baixa. O cerimoniário do coro bate a mão sobre o banco ou sobre o seu livro, e o coro faz barulho da mesma maneira, até o momento em que o acólito que tem a vela escondida a faz aparecer. Então o barulho cessa. O acólito recoloca a vela no tenebrário, e apaga-a. Em seguida o clero se levanta, e se retira em procissão.

3. Explicação mística

Essa cerimónia tão simples é muito rica em significado. Estamos nos dias em que a glória do Filho de Deus se eclipsou sob as ignomínias da Paixão. Ele, que era a luz do mundo, torna-se um verme e não um homem, causa de escândalo para os seus discípulos. Todos fogem d’Ele; o próprio Pedro o nega. Este abandono, esta defecção quase geral, é figurada pela sucessiva extinção das velas do candelabro triangular, e mesmo das do altar.

No entanto, esta luz desprezada de Cristo, não está extinta, embora as sombras a tenham coberto. O acólito coloca a vela misteriosa sobre o altar, o que simboliza Cristo que sofre e morre sobre o Calvário; de seguida, esconde a vela atrás do altar, simbolizando assim a sepultura de Nosso Senhor, cuja vida foi apagada pela morte durante três dias. Neste momento então, faz-se escutar um confuso barulho no santuário, que é deixado na escuridão pela ausência da última vela. Este barulho, unido às trevas, simboliza a perturbação dos inimigos e as convulsões da natureza: no momento em que o Salvador expirou sobre a cruz, a Terra tremeu, as rochas se fenderam e os sepulcros foram abertos. Porém, de repente, a vela reaparece, sem ter perdido nada da sua luz; o barulho cessa, e todos rendem homenagem ao Vencedor da morte.

A razão histórica do rito de apagar pouco a pouco as velas do tenebrário provavelmente é a imitação do modo antigo de contar. Apaga-se uma vela depois de cada salmo, para constar quantos foram recitados.

4. As leituras

a) Primeiro Nocturno: Estas são tiradas, em cada um dos três dias, do livro das Lamentações de Jeremias. Aí vemos o desolante espectáculo da Cidade Santa destruída por causa do castigo da sua idolatria. No entanto, este desastre, nada mais é do que a figura de um outro muito pior. Jerusalém, tomada pelos Assírios, ainda conserva o seu nome, e o profeta diz que o cativeiro durará setenta anos.

b) Mas, na sua segunda ruína, a cidade infiel perderá até mesmo seu nome. Reconstruída mais tarde pelos romanos, ela foi chamada de Ælia Capitolina. Foi só depois da paz da Igreja que ela voltou a ser chamada Jerusalém. Além disso, nem a piedade de Santa Helena e de Constantino, nem os esforços dos Cruzados, conseguiram manter a liberdade de Jerusalém, de modo que a sua sorte é ser escrava, e escrava dos infiéis, até o fim dos tempos.

c) Foi nestes dias que Jerusalém atraiu a si tão terrível maldição. E é para fazer-nos conhecer a grandeza de seu crime, que a Igreja nos faz ouvir os prantos do profeta. Esta elegia é cantada num tom cheio de melancolia, que talvez remonta à antiguidade judaica.

d) Segundo Noturno: Durante estes três dias, a Igreja lerá alguns trechos das Enarrationes super Psalmos de S. Agostinho, sobre salmos proféticos da Paixão de Jesus.

e) Terceiro Noturno: Nos três dias a Igreja nos fará ler trechos das epístolas de S. Paulo:

- Na Quinta-Feira Santa é a epístola aos Coríntios: depois de ter chamado a atenção dos fiéis de Corinto em razão dos abusos que se haviam introduzido nas suas assembleias, S. Paulo conta a instituição da Eucaristia, que teve lugar no dia de hoje. E, depois de mostrar quais as disposições que deve ter a alma para aproximar-se da mesa sagrada, mostra o crime que comete quem comunga indignamente.
- Na Sexta-Feira Santa lê-se a epístola aos Hebreus: S. Paulo nos mostra que o Filho de Deus tornou-se Pontífice e intercessor pelos homens diante do Seu Pai, por meio da efusão do Seu Sangue, pelo qual Ele lava nossos pecados e nos abre as portas do Céu.
- No Sábado Santo, a Igreja continua a ler, na epístola aos Hebreus, a doutrina de S. Paulo sobre a virtude do Sangue divino. O Apóstolo explica que o testamento de Cristo em nosso favor, só pôde consumar-se por meio da Sua morte.

in formaextraordinaria.blogspot.pt


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domingo, 29 de março de 2026

Domingo de Ramos: Começa a semana mais importante para os Cristãos

O Domingo II da Paixão, mais conhecido por Domingo de Ramos, abre a Semana Santa e marca o início da etapa final da Quaresma. Neste dia, a Igreja celebra a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, cheio de glória e de humildade, pronto para cumprir o seu Mistério Pascal.

Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e com ela um jumentinho. Desprendei-a e trazei-los. E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles". – Isto aconteceu para que se cumprisse a Profecia de Zacarias: "Dizei à filha de Sião: 'Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.'" (Zc 9,9).

Indo os discípulos e tendo feito como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho, e puseram em cima deles as suas vestes, e sobre elas Jesus montou. E o povo, tanto os que o precediam quanto os que o seguiam, o acolheram como Rei, agitando ramos de palmeira e clamando: "Hosana ao filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!". Com isso toda a cidade de Jerusalém se agitou, e perguntavam: "Quem é este?" E as multidões clamavam: "Este é o Profeta Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mt 21,1-11).

A Procissão de Ramos

Vem de fora e tem como ponto de partida um lugar de reunião dos fiéis, fora da igreja. A proclamação do Evangelho conta a entrada de Jesus em Jerusalém, e assim se inicia a procissão até o interior do templo.

Nessa procissão, a Igreja não comemora apenas o santo evento do passado e celebra com louvor e acção de graças a realidade presente, mas também antecipa o seu glorioso cumprimento no fim dos tempos. Os ramos não devem ser postos no lixo depois da procissão, mas levados para casa e lá guardados com respeito, ou então queimados.

A cinzas, que são usadas na Quarta-Feira de Cinzas, são feitas com os ramos bentos deste dia, obedecendo a um costume que vem do século XII.


in 'O Fiel Católico'


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sábado, 28 de março de 2026

Tenebrae 2026

O Ofício de Trevas é a oração das Matinas e Laudes dos três dias do Tríduo Pascal. Chama-se ‘Trevas’ porque se canta durante a noite (anterior) e também para simbolizar a angústia da Paixão de Nosso Senhor.

É utilizado o candelabro de 15 velas, sendo apagadas uma a uma depois de cada salmo ter sido rezado, até a igreja ficar completamente às escuras. É uma das cerimónias mais bonitas da Semana Santa. Quem puder venha e divulgue.

Amigos da Cruz


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sexta-feira, 27 de março de 2026

As Sete Dores de Nossa Senhora no início da Semana Santa

Esta Sexta-Feira antes da Semana Santa é tradicionalmente dedicada a Nossa Senhora das Dores, que, nos acontecimentos que se aproximam, viu cumprida a profecia de Simeão quando disse que uma espada trespassaria o seu coração. Esta meditação nas sete dores de Nossa Senhora é muito útil para rezar diariamente, especialmente nestes dias até à Páscoa.

Primeira Dor
Pela dor que sofrestes ao ouvir a profecia de Simeão, de que uma espada trespassaria o vosso Coração, Mãe de Deus, ouvi a nossa prece.
Ave Maria...

Segunda Dor
Pela dor que sofrestes quando fugistes para o Egipto, apertando ao peito virginal o Menino Jesus, para salvar das fúrias do ímpio Herodes, Virgem Imaculada, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Terceira Dor
Pela dor que sofrestes quando da perda do Menino Jesus por três dias, Santíssima Senhora, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Quarta Dor
Pela dor que sofrestes quando viste o querido Jesus com a Cruz ao ombro, a caminho do calvário, virgem Mãe das Dores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Quinta Dor
Pela dor que sofrestes quando assististes à morte de Jesus, crucificado entre dois ladrões, Mãe da Divina graça, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Sexta Dor
Pela dor que sofrestes quando recebestes nos vossos braços o corpo inanimado de Jesus, descido da Cruz, Mãe dos Pecadores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Sétima Dor
Pela dor que sofrestes quando o Corpo de Jesus foi depositado no sepulcro, ficando vós, na mais triste solidão, Senhora de todos os povos, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...


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quinta-feira, 26 de março de 2026

Requiem aeternam

Arcebispo Marcel Lefebvre, missionário em África. 
Chamado à presença de Deus há 35 anos.



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quarta-feira, 25 de março de 2026

Explicação do Angelus

A oração do Angelus é uma meditação a respeito do Natal, feita através de três pontos essenciais, com muita brevidade. Ela é eminentemente lógica e bem construída. Porém, em todas as coisas da Igreja, por cima de uma estrutura lógica e coerente, resplandece um universo de imponderáveis de unção e sacralidade que é uma verdadeira beleza, e que formam um todo com essa estrutura lógica e racional.

Vejamos como é a História do Natal no Angelus:

1º ponto: O Anjo do Senhor anunciou a Maria, e Ela concebeu do Espírito Santo;
2º ponto: Eis aqui a Escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa vontade;
3º ponto: O Verbo Divino encarnou e habitou entre nós.

São três aspectos do Natal. O primeiro glorifica a mensagem angélica. O segundo, a atitude de Nossa Senhora de inteira obediência a essa mensagem. O terceiro glorifica o facto do Verbo não só ter encarnado, mas ter habitado entre nós.

Nestes três pontos está condensada toda a História do Natal de uma forma tão sintética, breve, lógica e densa, que não se devia acrescentar nada. Cada ponto é seguido da recitação de uma Ave-Maria, que é uma glorificação de Nossa Senhora, por esse aspecto daquela verdade que o Anjo anunciara.

Este é o mais importante acontecimento da História da Humanidade. E a maior honra para o género humano é o Verbo ter encarnado e habitado entre nós. Por isso, tornou-se hábito na piedade católica recitar o Angelus pela aurora, ao meio-dia e depois, pelo crepúsculo.

Nas três etapas principais do dia, repetir essas verdades e louvar Nossa Senhora a respeito delas, pedindo-lhe graças a propósito dessas verdades. Como é bonito o Angelus rezado pela manhã, ao meio-dia e no fim do trabalho, às 6 horas da tarde! 

Tem-se a impressão de um vitral que vai mudando de colorido, o Angelus também vai mudando de matizes: como é diferente o Angelus rezado ao meio-dia, quando o ritmo de trabalho é intenso, e o Angelus rezado no crepúsculo, quando tudo se reveste de uma suavidade, de uma espécie de começo de recolhimento. A Igreja criou esta jóia que é o Angelus promove-a nas várias horas do dia, para tirar dela toda a beleza.

As coisas católicas são todas construídas na Fé com uma espécie de instincto do Espírito Santo para serem bem feitas. Nelas encontra-se um mundo de harmonias.

No Angelus há a harmonia admirável entre a maior clemência, simplicidade, profundeza de conceitos, e uma beleza indefinível que tem enfeites poéticos, literários, que não entram em choque com a Fé, mas, pelo contrário, são um complemento dela.

Imaginem se o Angelus tivesse sido encomendado por um ministro ou presidente da República: decreto nº X mil e tanto: compunha-se uma oração para ser recitada de manhã, ao meio-dia e à tarde de todos os dias, todos os anos, todos os séculos. Viria uma oraçãozinha relâmpago, com um disparate qualquer, vazio, seco. Poderia aparecer tudo, mas não apareceria o Angelus.

Falta ao Homem de hoje essa plenitude de espírito por onde as coisas se ordenam na linha da lógica, da coerência, da beleza com tanta naturalidade que a gente nem percebe o que está por detrás disso, por ser tão bem pensado, bem sentido, bem realizado, bem rezado e, sobretudo, bem acreditado. 

Procuremos, então, o espírito da Igreja Católica em todas as coisas da vida. Dos bons tempos da Igreja, da Tradição da Igreja. E sujeitando tais coisas a uma análise racional, saem sóis de dentro, saem belezas umas após as outras, que é, exatamente, a riqueza inexaurível do espírito católico. Desse modo, qualquer coisa simples se mostra uma verdadeira maravilha.

O Angelus rezado pelo camponês, pelo padre, pelo cruzado, pelo guerreiro da Reconquista da Espanha, pelo trapista: cada um dá um dos mil coloridos de um vitral. É tão simples, tão fácil, tão normal que, por isso mesmo, é uma verdadeira jóia.

Isto deve levar-nos a ser cada vez mais devotos do Angelus - não o omitindo em nenhuma ocasião - lembrá-lo na nossa oração matinal, lembrando de tudo quanto existe no Angelus.

Plinio Corrêa de Oliveira


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terça-feira, 24 de março de 2026

Festa do Arcanjo do Gabriel

Este dia antes do dia da Anunciação é tradicionalmente dedicado ao Arcanjo que cumpriu essa importante tarefa: São Gabriel. Gabriel significa 'Deus é forte'. Esse Arcanjo anuncia o nascimento de João Baptista, ao seu pai Zacarias, e de Jesus, a Nossa Senhora e, depois, a São José.

É ele que, pela primeira vez, profere as palavras que todas as gerações hão-de repetir para saudar e louvar Nossa Senhora: "Avé, cheia de graça. O Senhor é convosco".


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segunda-feira, 23 de março de 2026

Bispo LGBT planeia fechar 70 igrejas

Setenta igrejas, na Diocese de Roermond (Países Baixos), estão em processo de encerramento, disse o Bispo Cornelis van den Hout (61 anos) ao Nd.nl.

Em 2026, o Bispo contratou um economista a tempo inteiro para supervisionar o encerramento dos edifícios eclesiais. «É uma questão urgente. As questões financeiras não nos deixam outra opção». Mons. van den Hout acredita que a espiral descendente não parará após o fecho dessas setenta igrejas: «Neste momento, a diocese tem 280 edifícios eclesiais. Por volta do ano 2000, tínhamos 360.»

O Bispo holandês acrescentou que só se justifica ter Missa Eucaristia numa igreja em que exista um certo número de fiéis: não bastam dez para uma igreja em que poderiam estar centenas.

«Dada a situação financeira actual e a assistencia decrescente às igrejas, é inevitável que designemos, em muitos lugares, um edifício eclesial centralmente localizado para as celebrações. As igrejas nas aldeias circundantes serão, então, vendidas.»

Mons. van den Hout foi nomeado para a diocese de Groningen em Abril de 2017 e para Roermond em Junho de 2024. Em Agosto de 2024, admitiu ao MariaBode.nl que ele próprio tinha "abençoado" parelhas do mesmo sexo homossexuais «em várias ocasiões". Van den Hout concordou com o documento 'Fiducia supplicans', segundo qual «essas bênçãos pastorais deveriam ser permitidas».

Em 2018, após a Amoris Laetitia, foi-lhe perguntado sobre a Comunhão de pessoas a viver em adultério. O Bispo disse que nunca recusou a comunhão por essa razão nem não planeia fazê-lo.

Em Junho de 2024, o MariaBode.nl apelidou Mons. Van den Hout de «bispo liberal» que «não gosta da Liturgia Tradicional». O Bispo proibiu um sacerdote diocesano de celebrar a Missa Tradicional, uma vez por mês, em Veenendaal.

in gloria.tv



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domingo, 22 de março de 2026

Domingo da Paixão: quando a Igreja esconde a Glória

Neste Domingo, a Igreja entra num período singular do ano litúrgico: o Tempo da Paixão. A Igreja recolhe-se agora num silêncio mais profundo, porque a Cruz está próxima.

O que muda na Liturgia

As alterações litúrgicas deste dia são imediatamente visíveis...e audíveis. Na Santa Missa, o Salmo 42 (Judica me, Deus), que habitualmente dá início às orações ao pé do altar, é suprimido. Esta oração, que o sacerdote reza antes de subir ao altar, contém as palavras "faça-se justiça" - e a Igreja silencia-a precisamente quando Aquele que é a própria Justiça caminha para o tribunal dos homens.

O Gloria Patri, a doxologia que encerra o Intróito e o Salmo rezado durante o Lavabo, é igualmente omitido. A mesma supressão estende-se ao Ofício Divino: nas Matinas, na Prima, na Tertia, na Sexta, na Nona e nas Completas, o Gloria Patri desaparece dos responsórios. A glória de Deus, por assim dizer, esconde-se, tal como o próprio Cristo Se escondeu.

O Prefácio muda: abandona-se o Prefácio da Quaresma e adopta-se o Prefácio da Santa Cruz, que permanecerá até à Semana Santa. A Cruz torna-se o centro de tudo.

Cruzes e imagens veladas: quando os olhos são privados da beleza

Mas a mudança mais impressionante, e a que mais marca quem entra numa igreja neste dia, é o velamento dos crucifixos e das imagens dos santos.

Na véspera do Domingo da Paixão, todos os crucifixos, estátuas e imagens presentes na igreja são cobertos com véus de cor roxa, sem qualquer ornamento ou transparência. Apenas as imagens da Via Sacra e os vitrais ficam descobertos. Assim permanecerão os santos até à Vigília Pascal e os crucifixos, até à celebração solene da Paixão na Sexta-Feira Santa.

Esta prática, regulamentada pela Sagrada Congregação dos Ritos, tem raízes profundas. Já no século IX encontramos referências ao costume de estender um grande véu diante do presbitério durante toda a Quaresma, sinal visível de luto e penitência. Em algumas regiões de Espanha, do Sul de Itália e na Catedral de Friburgo, na Alemanha, existiu durante século o costume de ter um enorme véu suspenso diante do presbitério, relíquia da prática primitiva de ocultar o altar com cortinas durante os momentos mais solenes da Missa. Os véus eram originalmente brancos, o roxo veio depois, quando o costume se concentrou no Tempo da Paixão.

Em Roma, a prática de velar todos os crucifixos só se generalizou a partir de 1488. Na Alemanha, onde os véus eram negros em vez de roxos, este dia ficou conhecido como Schwarzer Sonntag — "Domingo Negro".

Porquê esconder Cristo?

A razão litúrgica está inscrita no próprio Evangelho do dia. No rito tradicional, o Domingo da Paixão tem como Evangelho a passagem de São João 8, 46-59, onde Jesus afirma aos judeus: "Antes que Abraão existisse, Eu Sou" (Ego sum): reivindicação claríssima da Sua divindade. A resposta é violenta: pegam em pedras para O apedrejar. E o texto termina assim: "Mas Jesus escondeu-Se e saiu do templo" (Jesus autem abscondit se, et exivit de templo).

Escondeu-Se. É este o gesto que a liturgia reproduz. Santo Agostinho ensina que, nesse momento, Cristo tornou-Se invisível aos Seus perseguidores por virtude da Sua natureza divina. Ele velou a Sua glória. A Igreja faz o mesmo: vela a imagem do Mestre e, por consequência, também as dos servos. Se a glória do Senhor se oculta, não convém que os santos apareçam.

Um pedagogo do coração

Há algo de profundamente humano neste rito. Quando entramos numa igreja e já não vemos os rostos familiares: a Virgem, o padroeiro, o crucifixo que nos acompanha desde a infância...sentimos uma ausência. Uma saudade. Não é acidental. É pedagógico. A Igreja quer que experimentemos, ainda que de forma limitada, o que significa estar separado de Deus. Quer que a Sexta-Feira Santa nos atinja com força; e que a noite da Vigília Pascal, quando os véus finalmente caem ao som do Gloria, seja verdadeiramente uma manhã de Ressurreição.

São as pequenas tradições que ensinam as grandes verdades. As crianças recordam estes gestos. Os que estão de fora ficam intrigados. A fé transmite-se assim: não apenas por palavras, mas por silêncios, por ausências, por véus que escondem para depois revelarem com mais esplendor.

Neste Domingo da Paixão, deixemo-nos habitar por essa saudade santa. A Cruz está próxima: e, com ela, a glória que nenhum véu poderá conter.


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