sábado, 22 de janeiro de 2022

49 anos de aborto livre nos Estados Unidos da América

No dia 22 de Janeiro de 1973, depois do julgamento Roe vs. Wade, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos admitiu, pela primeira vez, o "direito ao aborto". 

O julgamento opôs uma jovem, de seu nome Norma McCorvey, a quem foi dado o pseudónimo Jane Roe, ao Estado do Texas. Norma McCorvey dizia que tinha ficado grávida depois de ter sido violada e exigia o direito a abortar.

O julgamento foi longo e Norma acabou por ter uma filha, que deu para adopção. Depois de vários recursos, o Supremo Tribunal decidiu que, por direito à privacidade, qualquer mulher poderia abortar, até à viabilidade do feto, ou seja até que conseguisse sobreviver fora do ventre materno. Esta decisão alterou todas as leis federais nos Estados Unidos e viria a influenciar a forma como o mundo começou a olhar para o "direito ao aborto".

Em 1987, Norma McConey admitiu que foi persuadida pela sua advogada a dizer que tinha sido violada e que precisava de abortar, e hoje em dia luta pelo fim do aborto no seu país. Sarah Weddington, a advogada, confirmou que tinha mentido e explicou-se desta forma: "A minha conduta pode não ter sido totalmente ética. Mas eu fiz por que pensei que havia boas razões.”

Nestes 49 anos foram feitos cerca de 63 milhões de abortos nos Estados Unidos, o que corresponde a 63 milhões de bebés mortos. Tudo com base num julgamento que foi uma mentira.

João Silveira


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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Papa Pio VI sobre a execução de Luís XVI, Rei de França

Passam hoje 229 anos do assassinato do Rei Luís XVI na guilhotina, por parte dos revolucionários franceses. O Papa Pio VI proferiu um discurso sobre esse evento dramático no consistório secreto de 17 de Junho de 1793, do qual publicamos uma parte:

Ah França, França, tu a quem os nossos predecessores chamavam o espelho do cristianismo, e com o apoio imutável da Fé! Tu que pelo teu zelo na crença cristã, e a tua piedade filial à Sé Apostólica, não te encontras a par das outras nações, mas as precedes a todas. Como nos és contrário hoje em dia! De que espírito de hostilidade te apresentas animada contra a verdadeira religião! Quanto já supera a fúria, que manifestas aos excessos de todos aqueles que têm mostrado até agora os seus perseguidores mais implacáveis! 

E, no entanto, não podes ignorar, mesmo se o quiseres, que a religião é a guarda mais segura e a base mais sólida dos Impérios; pois também reprime os abusos de autoridade dos Príncipes, que governam, e os defeitos da licença dos súbditos, que obedecem. Oh! É por isso que todos os facciosos antagonistas das prerrogativas reais buscam o modo de aniquilá-las, esforçando-se por derrubar a Fé Católica.

Ah França, repito novamente! Tu mesmo pedias um Rei Católico. Disseste que as leis fundamentais do Rei não permitiam que reconhecer um Rei que não fosse católico. E vê agora que, tendo aquele Rei Católico, acabaste de o assassinar, presumivelmente porque ele o era. A tua raiva contra este Monarca foi tal que nem mesmo a sua própria tortura foi capaz de a satisfazer ou apaziguá-la. Mesmo depois da sua morte nos seus despojos tristes ordenaste que o seu cadáver fosse levado e enterrado sem qualquer provisão de um enterro honroso. Oh! Pelo menos a Majestade Real foi respeitado em Maria Stuart depois da sua morte. O seu corpo foi embalsamado, levado para a cidadela e depositado num lugar preparado para esse fim. Foi ordenado aos seus oficiais que ficassem, juntamente com a família, perto do caixão, com todas as insígnias de suas dignidades, até que ele destinasse a esta Princesa um enterro conveniente. 

O que ganhaste tu entregando-te a um movimento de ódio e raiva, não te conseguiste satisfazer mas apenas atrair mais ignomínia e infâmia, e causar ressentimento e indignação geral dos Soberanos, muito irritados contra ti, que eles nunca o foram contra Isabel de Inglaterra.

Ó dia de triunfo de Luís XVI, a quem Deus deu paciência nas tribulações e vitória no meio da tortura! Temos a firme confiança de que ditosamente foi substituída uma Coroa Real, cujas as cores em breve iriam desaparecer, por um diadema eterno, que os Anjos teceram com lírios imortais.



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O corajoso martírio e a santa pureza de Santa Inês

Entre as heroínas da Igreja primitiva, que derramaram o sangue em testemunho da fé é Santa Inês aquela a que os Santos Doutores da Igreja tecem os maiores elogios. São Jerónimo, em referência a esta santa, escreve: “Todos os povos são unânimes em louvar Santa Inês, porque vencendo a fraqueza da idade e o tirano, coroou a virgindade com a morte do martírio”. De modo semelhante se exprimem Santo Ambrósio e Santo Agostinho. Com Maria Santíssima e Santa Tecla, Santa Inês é invocada para obter-se a virtude da pureza.

Inês nasceu em Roma, descendente de família nobre. Logo que soube avaliar a excelência da pureza virginal, ofereceu-a a Deus, num santo voto. A riqueza, formosura e nobre origem de Inês fizeram com que diversos jovens, de famílias importantes de Roma a pedissem em casamento. A todos Inês respondia que seu coração já pertencia a um esposo invisível a olhos humanos. Do amor ao ódio é só um passo.

As declarações de amizade e afecto dos pretendentes seguiu-se a denúncia, que arrastou a donzela ao tribunal, para defender-se contra a acusação de ser cristã. A maneira como o juiz a tratou, para conseguir que abandonasse a religião, obedeceu ao programa costumeiro em tais ocasiões: elogios, desculpas, galanteios e promessas. Experimentada a ineficácia destes recursos, entravam em cena, imposições, ameaças, insultos, brutalidades. O juiz fez Inês saborear todos os recursos da força inquisitorial da justiça romana.

Inês não se perturbou. Mesmo quando lhe mostraram os instrumentos de tortura, cujo simples aspecto era bastante para causar espanto ao homem mais forte, Inês olhou-os com indiferença e desprezo. Arrastada com brutalidade ao lugar onde se achavam imagens de deuses e intimada a queimar incenso, a donzela levantou as mãos puríssimas ao céu, para fazer o sinal da cruz. No auge do furor, vendo frustrados todos os esforços e posta ao ridículo sua autoridade, o juiz teve uma inspiração diabólica: mandar a donzela a uma casa de pecado. Inês respondeu-lhe: “Jesus Cristo vela sobre a pureza da sua esposa e não permitirá que lha roubem. Ele é meu defensor e abrigo. Podes derramar o meu sangue. Nunca, porém, conseguirás profanar o meu corpo, que é consagrado a Jesus Cristo”.

A ordem do juiz foi executada e daí a pouco Inês foi levada para o lugar da prostituição. Dos diversos rapazes que lá estavam, só um teve o atrevimento de se aproximar de Inês, com malignos intuitos. Mas, no momento em que ia estender a mão contra ela, caiu por terra, como fulminado por um raio. Os companheiros, tomados por um grande pavor, tiraram o corpo do infeliz e levaram-no para outro lugar. Não estava morto, como todos supuseram no primeiro momento, mas aos olhos faltou-lhes a luz. Inês rezou sobre ele e a cegueira desapareceu.

O juiz, profundamente humilhado com esta inesperada vitória da Santa, deu ordem para que fosse decapitada.

Ao ouvir esta sentença, a alma de Inês encheu-se de júbilo. Maior não podia ser a satisfação e a alegria da jovem noiva, ao ver aproximar-se o dia das núpcias, que o prazer que Inês experimentou, quando ouviu dos lábios do juiz o convite para as núpcias eternas com Jesus Cristo, o seu celeste esposo. O algoz tinha recebido ordem para, antes de executar a sentença de morte, convidar a Inês para prestar obediência à intimação do juiz. Inês rejeitou com firmeza . Ajoelhando-se, inclinou a cabeça, ao que parecia para prestar a Deus a última adoração aqui na terra, quando a espada do algoz lhe deu o golpe de morte. Os presentes, vendo este triste e ao mesmo tempo grandioso espectáculo, soluçavam alto.

Santa Inês completou o martírio a 21 de Janeiro de 304 ou 305. tendo apenas a idade de 13 anos. No tempo do imperador Constantino foi construída em Roma uma igreja dedicada à gloriosa mártir.

Santa Inês é padroeira das Filhas de Maria, por causa da sua pureza Angélica. Os jardineiros também a veneram como padroeira, por ser o modelo perfeito da pureza, como Maria Santíssima, que é chamada “hortus conclusus”, horto fechado. É padroeira dos noivos, por ter-se chamado esposa de Cristo. 

Do nome Inês há duas interpretações, a grega e a latina. Inês em grego é Hagne, isto é, pura; em latim, agna significa cordeirinho. Na Igreja latina prevaleceu esta interpretação. Dois dias depois da sua morte, a mártir apareceu a seus pais, acompanhada de um grupo de virgens, tendo ao seu lado um cordeirinho. 

Santo Agostinho admitia as duas interpretações. “Inês, diz ele, significa em latim um cordeirinho e em grego, a pura”. – No dia da festa desta Santa, na sua igreja em Roma são apresentados e bentos cordeirinhos, de cuja lã são confeccionados os “pálios” dos Arcebispos.

in farfalline


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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

180 anos da conversão de Afonso Ratisbonne graças à Medalha Milagrosa

Este é um pequeno resumo da inesperada e súbita conversão do austríaco Afonso Ratisbonne. Afonso era judeu e maçon. Nutria pela Igreja Católica, e tudo o que estivesse relacionado com o catolicismo, um profundo ódio e desdém. Poucos dias antes da sua conversão, tinha aceitado usar no bolso uma medalha de Nossa Senhora das Graças (medalha milagrosa) para provar que não tinha qualquer efeito.

20 de Janeiro de 1842: Ratisbonne encontrava-se em Roma. Saindo de um café onde acabara de conversar com dois amigos, encontra a carruagem do Barão de Bussière que o convida para dar um passeio. Afonso, sem muito entusiasmo, mas para não fazer uma descortesia àquele do qual pouco antes tinha sido hóspede, aceita o convite. Acharam-se logo diante da igreja de Sant'Andrea delle Fratte. O piedoso conde de Laferronays devia receber as honras fúnebres e o Barão de Bussière fora encarregado de reservar uma tribuna para a família do defunto.

“Será coisa de dois minutos", diz ele a Afonso que, durante este tempo resolve visitar a igreja. Tenta Afonso descrever o que então se passou na sua alma: “Esta igreja é pobre e deserta; creio que nela me achei mais ou menos só… Nenhum objecto de arte atraiu a minha atenção… Subitamente nada mais vejo… ou antes, ó meu Deus, vejo uma só coisa! Como seria possível falar do que vi? Oh! não, a palavra humana não deve tentar exprimir o que se não pode exprimir; toda descrição, por sublime que seja, não seria mais que uma profanação da inefável realidade…”

Tornando à igreja, o Barão de Bussière não encontra Afonso onde o havia deixado, mas ajoelhado diante da capela de São Miguel Arcanjo e de São Rafael, submergido em profundo recolhimento.

“A esta vista, pressentindo um milagre - depõe o barão - apoderou-se de mim um frémito religioso. Dirijo-me a ele, agito-o várias vezes sem que ele dê conta da minha presença. Finalmente, voltando para mim o seu rosto banhado de lágrimas, junta as mãos e me diz: “Oh! como este senhor rezou por mim!”

Compreendi logo que se tratava do falecido Conde de Laferronays. Amparado, quase levado por mim, sobe à carruagem. Onde quereis ir? pergunto-lhe eu.

“Levai-me para onde quiserdes. Depois do que vi, obedeço”.

Declara-me em seguida que só falará com o consentimento de um padre, porque "o que eu vi – acrescenta ele – só o posso dizer de joelhos”.

Conduzido à igreja do Gesú, dos padres jesuítas, ao lado do padre Villefort que o convida a explicar-se, tira Afonso a medalha, abraça-a, mostra-a e exclama: “Eu vi-A! Eu vi-A!… Havia uns instantes que eu estava na igreja, quando repentinamente me senti dominado por uma turbação inexprimível. Ergui os olhos; todo o edifício desparecera à minha vista; só uma capela tinha, por assim dizer, concentrada toda a luz; e, no meio desta irradiação, apareceu, em pé sobre o altar, grande, brilhante, cheia de majestade de doçura a Virgem Maria, tal qual está na minha medalha; uma força irresistível atraiu-me para ela. A Virgem com a mão fez-me sinal para que me ajoelhasse. Pareceu dizer-me: “Está bem! Não me falou nada, mas eu compreendi tudo”.

Mais tarde dirigiu-se Afonso à Basílica de Santa Maria Maior a fim de agradecer à sua celeste benfeitora o grande benefício recebido.

Ao entrar na capela de Nossa Senhora, exclamou: “Oh! como estou bem aqui! Gostaria de ficar aqui para sempre: parece-me que já não estou na Terra!”

Ao fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, por pouco não desfaleceu. Apavorado, exclamou: “que coisa horrível estar na presença do Deus vivo sem ser baptizado!”

Afirma o Padre Roothan, geral da Companhia de Jesus, que “depois da sua conversão o senso da fé nele se manifestava de modo tão intenso que lhe fazia sentir, penetrar e reter tudo o que lhe era proposto, tanto que em pouco tempo o julgaram suficientemente instruído para receber o santo Baptismo”.

Ratisbonne recebeu sem dúvida uma assistência toda especial de Deus e da Santíssima Virgem.

A 31 de Janeiro, 11 dias após a aparição, Afonso Ratisbonne abjura solenemente à maçonaria e recebe o baptismo na igreja do Gesú das mãos do cardeal Patrizzi. O vasto e sumptuoso templo estava repleto. Ali se encontrava o escol da sociedade romana e estrangeira. Acompanhado pelo Padre Villefort e pelo seu padrinho, o barão de Bussière, Afonso foi levado à porta da igreja. Vestido de uma longa túnica de damasco branco, trazia o Terço e a medalha de Nossa Senhora nas mãos.

– Que pedes à Igreja de Deus? pergunta-lhe o oficiante.
– A fé!

Ah! diz uma testemunha ocular dessa cena majestosa, já tinha a fé católica aquele a quem a Estrela da Manhã iluminara com os seus raios.

Afonso beija a terra e fica prostrado até ao fim dos exorcismos.

Levanta-se e, guiado pelo pontífice, encaminha-se para o altar entre as bênçãos de uma imensa multidão que respeitosamente se abre à sua passagem.

Perguntam-lhe qual é o seu nome.

– Maria! responde num arrebatamento de amor e de gratidão.
– Que desejas?
– O baptismo.
– Crês em Jesus Cristo?
– Creio!
– Queres ser baptizado?
– Quero!

Com um sorriso de celeste beatitude levantou sua cabeça ainda humedecida da água baptismal. Acabava de transpor um abismo: era cristão.

Afonso, cheio de Deus, radicalmente transformado pela graça, deixa o mundo e entra na Companhia de Jesus. Nela viveu dez anos vida exemplar e só a deixou, desfeito em lágrimas, para fazer a vontade de Deus que o queria ao lado do seu irmão, o Padre Teodoro, para com ele trabalhar numa obra tão grata ao mesmo Deus e de tanta relevância: a conversão dos judeus.

O piedoso Padre Maria Afonso Ratisbonne nunca se esqueceu da sua Mãe amantíssima que o arrancou das trevas da incredulidade para os esplendores da verdadeira fé.

Inclinava-se profundamente sempre que ouvia no canto das ladainhas a invocação: “Refúgio dos pecadores, rogai por nós!”

Os que o ouviam falar da sua Mãe Celeste adivinhavam o que se passava no seu coração; o seu olhar fulgurante parecia que ainda contemplava a mais bela e a mais pura das virgens.

A medalha milagrosa, que exercera papel preponderante na sua conversão, era o seu mais caro tesouro. Julgou um dia que a havia perdido; a sua aflição foi extrema; parecia-lhe que fora abandonado pela Virgem misericordiosíssima. As suas lágrimas não cessaram de correr até que a encontrou.

Maria Santíssima foi a sua consolação em todas as penas e o seu grande motivo de esperança em todas as provações. Dizia que Maria Santíssima não é outra coisa que uma mão de Deus, não a mão que castiga, mas a mão das misericórdias.

Dizem os historiadores que quando o Padre Ratisbonne pregava sobre Nossa Senhora, todos os ouvintes se comoviam, muitos pecadores se convertiam. 

Padre Élcio Murucci in Fratres in Unum


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Heroicidade nos primeiros séculos da Igreja: São Sebastião e os companheiros mártires

O imperador Carino vivia ainda, quando dois irmãos gémeos, Marcos e Marceliano, foram aprisionados em Roma. Um cristão, criado nos cargos militares, ia frequentemente visitá-los. Era Sebastião, nascido em Narbona, na Gália, mas criado em Milão, de onde era originária a família. A princípio, resolvera não encetar a carreira das armas; o desejo de servir os irmãos nas perseguições que sofriam levara a melhor contra o pendor. Aceitou, portanto, um posto, e fez-se amar dos soldados e de todos. 

Sob as vestes militares, dedicava-se incessantemente às boas obras do cristão, conservando todo o segredo possível. Por Jesus Cristo não tinha medo de perder nem a vida nem os bens; mas o segredo lhe proporcionava mais meios de animar os cristãos que sucumbiam sob a violência dos tormentos, e de garantir para Deus as almas que o demónio pretendia raptar. Visitava todos os dias os dois irmãos Marcos e Marceliano, os quais padeceram com constância as vergastadas que os dilaceravam, e foram condenados a ter decepada a cabeça.

Os dois irmãos pertenciam a mais ilustre família de senadores. Com o pai e a mãe, velhos e ainda pagãos, tinham mulheres e filhos. A família, vendo-os condenados à morte, obteve do prefeito de Roma, chamado Cromácio, um prazo de trinta dias para experimentar fazê-los mudar de resolução. Foram os dois postos na casa do primeiro escrivão da prefeitura, Nicóstrato, onde os conservavam de mãos acorrentadas. O pai, a mãe, as mulheres e os filhos ainda pequeninos, além dos amigos, tudo envidaram para os convencer; já começava a alma deles a curvar-se diante de tantas lágrimas, quando Sebastião, chegando, os reanimou com palavras cheias de fogo, que a todos impressionaram.

O santo parecia envolto numa luz divina. Quando terminou de falar, Zoé, mulher de Nicóstrato, atirou-se-lhe aos pés, tentando dar-lhe a compreender, pelos gestos, o que dele desejava, pois havia seis anos que uma enfermidade lhe fizera perder a palavra. Sebastião fez o sinal da cruz sobre a boca da mulher, pedindo em voz alta a Jesus Cristo que se dignasse curá-la, se tudo quanto acabara de ouvir era verdade. O efeito seguiu-se à palavra, e Zoé pôs-se a louvar o santo e a declarar que acreditava no que ele acabava de dizer. Vira um anjo descido do céu, segurando um livro aberto diante dos olhos de Sebastião, no qual tudo quanto ele dissera estava escrito palavra por palavra. 

Nicóstrato, diante da cura da mulher, lançou-se igualmente aos pés do santo, pediu perdão por haver mantido os dois mártires aprisionados, tirou-lhes os grilhões e rogou-lhes que se fossem para onde mais lhes conviesse, declarando que se consideraria feliz por ser aprisionado e morto no lugar deles. Marcos e Marceliano louvaram tão perfeita fé, mas nem sequer pensaram em abandonar a luta para a ela expor outro.

A graça não se deteve em Nicóstrato e sua mulher; espalhou-se sobre todos os presentes. Marcos e Marceliano firmaram-se na fé, e tiveram o consolo de ver os que tantos esforços tinham enviado para arrancá-los a Jesus Cristo tornar-se humildes discípulos. Marcos dirigiu-lhes palavras em que, dirigindo-se particularmente ao pai e à mãe, à mulher e à do irmão, os exortou a defender corajosamente a fé que pretendiam abraçar, e a não temer o que o demónio poderia fazer para impedi-lo; a desprezar, por uma ventura sem limites, uma vida que mil acidentes nos podem fazer perder, e que só acarreta aflições e crimes. Todos choraram, unindo o pesar da infidelidade passada às ações de graças que prestavam a Deus por os ter libertado. 

Nicóstrato afirmou que não beberia nem comeria, se não recebesse o santo batismo. Mas Sebastião, respondeu-lhe que, antes, devia mudar de dignidade, tornar-se oficial de Jesus Cristo, em vez de oficial do prefeito, e levar-lhe todos os presos que lhe tinham sido confiados, para que fossem catequizados. "Porque se o diabo, acrescentou, se esforça por raptar os que pertencem a Jesus Cristo, nós, pelo contrário, devemos esforçar-nos por restituir ao Criador aqueles que o inimigo injustamente usurpou", e assegurou que se oferecesse tal presente a Jesus Cristo, logo no início da conversão, não tardaria em ser recompensados pelo martírio. 

Entretanto, Cláudio disse a Nicóstrato que o prefeito ficara descontente com o facto da presença de todos aqueles presos, e que dele exigia satisfações. Nicóstrato rumou para lá imediatamente, e satisfez o prefeito, afirmando-lhe que tudo fizera para ainda mais espantar os cristãos postos sob sua vigilância, mediante o exemplo do suplício dos outros. Tratava-se de uma mentira, mas desculpável em pessoa ainda pouco instruída. Voltando, contou a Cláudio, que o acompanhava, tudo quanto sucedera em sua casa, particularmente a cura da mulher. Cláudio comoveu-se e foi procurar duas crianças que tinha, uma das quais era hidrópica, sendo a outra afligida por diversos males. Colocou-as diante dos santos, dizendo que deles esperava a saúde daqueles pequeninos entes, e que, quanto a ele, acreditava de todo coração em Jesus Cristo. 

Os santos garantiram-lhe que as crianças e os demais presentes seriam curados dos males, apenas se tornassem cristãos. Ao mesmo tempo, registaram-se os nomes dos que exigiam o baptismo. Eram Tranquilino, pai dos dois mártires, com seis dos seus amigos; em seguida Nicóstrato; Castor, seu irmão; Cláudio, o carcereiro com seus dois filhos; Márcia, mulher de Tranquilino, com as mulheres e os filhos de São Marcos e São Marceliano; Sinforosa, mulher de Cláudio; Zoé, mulher de Nicóstrato; e toda a família de Nicóstrato, num total de trinta e três pessoas; por fim, os presos convertidos, dezasseis, o que totalizava sessenta e oito criaturas.

Nicóstrato foi procurar o carcereiro, chamado Cláudio, para ordenar-lhe que lhe conduzisse todos os presos, sob o pretexto de que desejava tê-los prontos para a primeira sessão. Sebastião dirigiu-lhes uma exortação, após a qual, vendo que provavam a mudança de coração pelas lágrimas, mandou lhes fossem tiradas as correntes, indo então chamar um santo padre, de nome Policarpo, oculto em virtude da perseguição, para levá-lo à presença de Nicóstrato. Policarpo, depois de se congratular com os novos convertidos, e de lhes dizer que esperassem na misericórdia divina, prescreveu-lhes o jejum até o cair da noite.

Foram todos baptizados por São Policarpo. Sebastião serviu de padrinho aos homens; Beatriz, depois mártir, e Lucina foram madrinhas das mulheres. Os dois filhos de Cláudio foram os primeiros baptizados, e saíram tão são quanto os outros, não lhes restando o menor sinal de qualquer enfermidade. Depois deles, foi baptizado Tranquilino. Havia onde anos que padecia de gota, e de tal maneira lhe doíam os pés e as mãos, que mal suportava que o carregassem. Nem sequer conseguia levar à mão à boca para comer; e sofreu tremendas dores, quando teve de despir-se para o baptismo. 

Findos os trinta dias, o prefeito Cromácio mandou buscar Tranquiliano, que lhe agradeceu o adiamento, por haver conservado os filhos ao pai e devolvido o pai aos filhos. Cromácio, não compreendendo o significado de tais palavras, disse-lhes ser preciso que os filhos fossem oferecer incenso aos deuses. Tranquilino, então, explicando-se mais claramente, declarou-lhe ser cristão, e que por tal meio se via curado da gota que tanto o afligira antes. O facto comoveu Cromácio, que sofria da mesma enfermidade. 

Todavia, impelido sem dúvida pela presença dos assistentes, mandou deter Tranquilino, dizendo que o levassem na primeira sessão. Contudo, ordenou que o levassem secretamente à sua presença durante a noite, e prometeu-lhe bastante dinheiro para que lhe indicasse o remédio que o havia curado. Tranquilino riu-se do dinheiro prometido e assegurou que outro remédio não havia senão a crença em Jesus Cristo; se Cromácio quisesse socorrer a Cristo, receberia indubitavelmente o mesmo alívio. Deixou-o Cromácio partir, pedindo-lhe que trouxesse quem o fizera cristão, para que, tal homem lhe prometesse curá-lo, pudesse abraçar a mesma religião.

São Policarpo perguntou-lhe se acreditava de todo coração que lhe Jesus Cristo, Filho único de Deus, seria capaz de perdoar-lhe todos os pecados, e o infeliz respondeu em voz alta que reconhecia ser Jesus Cristo filho de Deus, e poder devolver-lhe a saúde da alma e do corpo; mas pedia apenas a remissão dos pecados e, ainda que conservasse as dores após a santificação do baptismo, não poderia duvidar da fé de Jesus Cristo. Aquelas palavras arrancaram lágrimas de alegria de todos os santos, os quais rogaram a Deus concedesse ao enfermo o efeito de tão pura fé. 

Policarpo, após ungi-lo com o crisma, perguntou-lhe pela segunda vez se acreditava no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Mal o enfermo respondeu que sim, curou-se-lhe a gora num momento, e ele exclamou: "Sois o Deus único e verdadeiro, que este mísero mundo não conhece". Em seguida, foram baptizados todos os outros, e durante os dez dias que sobravam dias trinta concedidos a Tranquiliano para os dois filhos, os novos cristãos somente se dedicaram a louvar a Deus e a se preparar para o combate, desejando todos ardentemente o martírio, inclusive as mulheres e as crianças.

Tranquilino foi imediatamente ter com São Policarpo, e secretamente o conduziu ao prefeito, que lhe prometeu a metade dos seus bens, no caso de ser curado da gota. Respondeu-lhe Policarpo que aquela transacção seria criminosa para um e para outro, mas que Jesus Cristo era capaz de lhe iluminar as trevas e curá-lo dos males, se nele acreditasse de todo o coração. Catequizou-o em seguida, e ordenou-lhe um jejum de três dias, de que ele se desincumbiu com Sebastião. No terceiro dia, voltaram juntos à presença de Cromácio, e valeram-se das dores causadas pela gota para lhe falar dos suplícios eternos. Cromácio deu imediatamente o seu nome e o de Tibúrcio, seu filho único, para se tornarem ambos cristãos.

Sebastião mostrou-lhe que na dignidade na qual se encontrava, não podia deixar de comparecer aos espectáculos profanos, sem falar do julgamento dos processos, onde era difícil se não misturasse com coisas contrárias à profissão do cristianismo. E era diante do prefeito de Roma que se perseguiam os cristãos. Assim, houve por bem aconselhar-se a pedir um sucessor, para libertar-se de todas aquelas ocupações do mundo, e cuidar apenas da salvação da alma. Cromácio pés em prática o conselho, e no mesmo dia solicitou dos amigos que tinha na corte o obséquio de o assistirem para tanto.

Sebastião, contudo, aconselhou-o a não desejar o baptismo pelo desejo de ser curado, e sim por uma questão verdadeira fé, e pediu-lhe que, como sinal de perfeita conversão, permitisse a quebra de todos os seus ídolos, assegurando-lhe que não deixaria de ser imediatamente curado. Cromácio quis que o ato fosse realizado por homens seus; mas o santo deu-lhe a ver que o diabo poderia prejudicar em virtude da infidelidade deles, e todos haveriam de dizer que se trataria de um castigo por terem abatido os ídolos. Por conseguinte, o próprio Sebastião para lá rumou acompanhado de Policarpo; e após orarem, quebraram os dois mais de duzentas estátuas.

No regresso, verificaram que Cromácio não estava curado. Disseram-lhe, então, que evidentemente restava alguma coisa por quebrar, ou que a sua fé não era ainda perfeita. Confessou-lhe Cromácio que tinha uma saleta repleta de aparelhos de cristal para a astrologia, a qual custara duzentas libras de ouro ao pai. Os santos deram-lhe a ver a inutilidade da astrologia e de todas as predições dela tiradas, e ele, por fim, concordou em que fizessem dos aparelhos o que mais lhes aprouvesse. Tibúrcio, filho de Cromácio, não se conformou com quererem despedaçar uma colecção tão preciosa e rara, não desejando, todavia, impedir a cura do pai, mandou acender dois fornos e garantiu que, se fosse despedaçada a saleta, sem que o pai se visse curado, mandaria a eles atirar Sebastião e Policarpo. 

Aceitaram os santos a condição, embora Cromácio se opusesse. Ao mesmo tempo em que despedaçavam os aparelhos, um jovem, aparecendo a Cromácio, disse-lhe ser enviado de Jesus Cristo para o curar. Curou-se na realidade, no mesmo instante, e pôs-se a correr atrás do jovem para lhe beijar os pés; mas o jovem se opôs, por não estar ainda Cromácio santificado pelo baptismo. Cromácio lançou-se, então, aos pés de Sebastião, e Tibúrcio aos pés de Policarpo.

Entretanto, sendo grande a perseguição contra os demais cristãos, Cromácio, a conselho do Papa, naquela época São Caio, chamou-o ao seu lado, ou melhor, chamou ao seu lado todos os que tinham sido convertidos havia pouco, e deles tão bem cuidou que não se viu obrigado a sacrificar nenhum. Sendo, todavia, difícil manter ocultada por mais tempo a sua mudança, pediu ao imperador licença para retirar-se à Campânia, onde possuía belas terras, fingindo estar desejoso de recobrar a saúde. Sabe-se, pela história, que os senadores eram obrigados a residir em Roma, a não ser que os dispensasse a idade ou um favor especial. 

Cromácio logrou obter a permissão, e ofereceu-se para conduzir em sua companhia rodos os cristãos que desejassem segui-lo. Nasceu então uma disputa entre Sebastião e Policarpo, para saber qual dos dois permaneceria na cidade ou acompanharia os novos fiéis à Campânia. Cada um deles pretendia ficar em Roma, para mais facilmente ir ao encontro do martírio. O Papa terminou a admirável disputa, achando que Policarpo, o qual tão dignamente exercia o sacerdócio e possuía a ciência de Deus, devia acompanhar os retirantes, a fim de animá-los e dar-lhes assistência.

Já próximo do baptismo, perguntou-lhe Policarpo, entre outras coisas, se renunciava a todos os pecados. Respondeu ser um pouco tarde para tal pergunta, mas que preferia tornar a vestir-se e a adiar o baptismo. Queria perdoar a todos os que lhe tinham dado motivos de cólera, esquecer o que lhe era devido, devolver tudo quanto tivesse tomado pela violência; tivera duas concubinas após a morte da mulher, e pretendia dar-lhes inteira liberdade e arranjar-lhes maridos. Policarpo aprovou-lhe o plano, e disse-lhe que era para a realização de tal renúncia que se prescreviam ordinariamente quarenta dias aos que pediam o baptismo. Tibúrcio renunciou à barra da justiça, com a qual pretendia haver-se, depois de adquirir bastante erudição e eloquência. 

Recebeu, então o baptismo. Cromácio, depois de renunciar a todos os afazeres do mundo, recebeu-o poucos dias depois. Com ele, foram baptizadas mil e quatrocentas pessoas de sua casa, às quais já dera, antes, a liberdade, dizendo que os que começavam a ter a Deus por pai não mais podiam ser escravos do homem.

Diocleciano, que passara a ser o único senhor do mundo com a morte de Carino, foi a Roma em 285. Não somente conservou Sebastião no posto, assim como os outros oficiais, como também se lhe afeiçoou, de tal sorte que lhe deu o cargo de capitão da primeira companhia dos guardas pretorianos, que pretendia deixar em Roma; e enquanto permaneceu na grande cidade, quis que o santo sempre lhe estivesse ao lado. Maximiano procedeu da mesma maneira.

Chegado o Domingo, o Papa celebrou os santos mistérios na casa de Cromácio e disse aos presentes: "Nosso Senhor Jesus Cristo, conh4cedor da fraqueza humana, estabeleceu dois graus entre os que nele acreditam, os confessores e os mártires, para que os que se não julgam suficientemente fortes para suportar o peso do martírio, conservem a graça da confissão, e, deixando o principal louvor aos soldados de Cristo, os quais vão combater pelo seu nome, deles cuidem com afinco. Logo, os que quiserem irão com nossos filhos Cromácio e Tibúrcio; e os que quiserem ficarão comigo na cidade. A distância na terra não separa absolutamente os que a graça de Cristo une; e os nossos olhos não sentirão a vossa ausência, porque vos contemplaremos com o olhar do homem interior."

Assim falou o Papa, e Tibúrcio bradou: "Conjuro-vos, ó Pai e Bispo dos bispos, não queirais que eu dê as costas aos perseguidores, pois a minha ventura e o meu desejo é morrer por Deus, mil vezes, se possível, contanto que obtenha a dignidade dessa vida que nenhum sucessor me arrebatará, e à qual nenhum tempo porá fim." O santo Papa, chorando de alegria, pediu a Deus que todos os que com ele permanecessem obtivessem o triunfo do martírio.

Tibúrcio, ao sair, certo dia, encontrou um jovem que, tendo caído de grande altura, de tal modo havia quebrado os membros que a única coisa de que se cuidava era sepultá-lo. Tibúrcio pediu aos pais debulhados em lágrimas que lhe permitissem dirigir-lhes algumas palavras, para Ver se o não curaria. Todos se afastaram. Tibúrcio proferiu sobre a vítima a oração dominical com o símbolo, e o jovem se viu imediatamente refeito, como se nada tivesse sofrido. Retirou-se, Tibúrcio, mas o pai e a mãe correram-lhe no encalço, detiveram-no, e disseram-lhe: " Fazei dele vosso escravo e com ele vos daremos todos os nossos bens, pois era nosso filho único e, de morto que estava, vós o ressuscitastes." Respondeu-lhes Tibúrcio: "Se fizerdes o que vos digo, considerar-me-ei muito bem pago pela cura." Retrucaram os pais: "E se vós quiserdes ter também a nós por escravos, não nos operemos; pelo contrário, desejamos ser vossos escravos, se nos julgardes dignos". 

Tibúrcio, pegando-os pela mão, conduziu-os a um lugar afastado da multidão, e ensinou-lhes a virtude do nome de Jesus Cristo. Ao vê-los firmes no temor de Deus, levou-os a Caio, e disse: "Venerável Papa e Pontífice da lei divina, eis aqueles que Cristo conquistou hoje, por meu intermédio; como novo arbusto, a minha fé produziu neles o primeiro fruto." O Papa baptizou o jovem e os pais.

Vemos aqui, como em São Cipriano, que eram postos no lugar dos confessores, não apenas os que confessavam a fé diante dos tribunais, senão também os que, para a não negar, se também, o título de bispo dos bispos dado ao Papa, como no mesmo São Cipriano e, antes dele, em Tertuliano. O Papa São Caio sucedera, em 15 de Dezembro de 283, ao Papa Santo Eutiquiano, morto no dia 7 do mesmo mês, e que, por sua vez, sucedera a São Félix, martirizado no império de Aureliano, em 22 de Dezembro de 274.

Ficou, portanto, Tibúrcio com o Papa, assim como Sebastião, Marceliano e Marcos, Tranquilino, pai deles; Nicóstrato, Zoé, sua mulher, e Castor, seu irmão; Cláudio e seu irmão Vitorino, com o filho Sinforiano, que se vira curado da hidropisia. Os demais retiraram-se com Cromácio. O Papa dez de Tranquilino sacerdote, e de seus filhos diáconos. Os outros foram ordenados, subdiáconos, excepto Sebastião que, servindo bastante aos fiéis sob as vestes de capitão, foi nomeado, dizem os actos, defensor da Igreja pelo Papa. Esse título assinalava, na época de São Gregório, aqueles que os Papas empregavam particularmente no auxílio e assistência dos pobres. 

Os santos que haviam permanecido em Roma, não conseguindo encontrar lugar seguro, retiraram-se com o Papa para o próprio palácio do imperador, para junto de um tal Cástulo, cristão com toda a família e adequadíssimo para os ocultar, uma vez que, vivendo no palácio onde era intendente dos banhos e das estufas, ninguém dele suspeitava. Lá ficavam os santos, dia e noite atarefados com as lágrimas, os jejuns e a prece para de Deus obterem a perseverança e a graça do martírio. Realizavam também grande número de milagres com os cristãos que lhes iam implorar a assistência.

Um ladino, chamado Torquato, fingindo-se ainda cristão, embora tivesse renunciado à fé, uniu-se ao grupo do santo Papa Caio. Tibúrcio não suportava vê-lo arrumar o cabelo, comer constantemente, beber com excesso, brincar nas refeições, ter gestos e maneiras efeminados, exibir-se por demais livremente às mulheres, evitar jejuns e preces, e dormir enquanto os outros vigiavam e passavam a noite a entoar louvores a Deus. Repreendia-o severamente, e Torquato fingia entristecer-se. Contudo, através de ardis, arranjou maneira de fazê-lo prender com ele e levar à presença do prefeito Fabiano, onde, interrogado, respondeu que era cristão, que Tibúrcio era seu amo, e que faria tudo quando o visse fazer. Tibúrcio confundiu-o com viva eloquência e desmascarou-lhe a trama perante o juiz.

Disse-lhe Fabiano: "Andareis melhor em cuidar da vossa salvação não desprezando as ordens dos príncipes. - Não posso garantir melhor a minha salvação, replicou Tibúrcio, que desprezando os vossos deuses e deusas, que confessando ser somente Jesus Cristo o meu Deus." Disse-lhe ainda Fabiano: "Voltai para o seio de vossa família, sede o que vos manda ser a natureza, pois de nascimento tão nobre, caístes tão baixo que vos encontrais na conjectura de sofrer o suplício, a infâmia e a morte."

Diocleciano surpreendeu-se bastante ao vê-lo, pois o julgava morto, segundo a ordem que dera. Disse-lhe o santo que Jesus Cristo lhe devolvera a vida, a fim de que protestasse diante de todo o povo ser extrema injustiça perseguir os servidores de Cristo. Diocleciano mandou imediatamente que o levassem ao hipódromo do palácio, onde o abaterem a bordoadas. De medo, porém, dizem os actos, de que os cristãos fizessem dele um mártir, lançaram-lhe de noite o corpo a uma cloaca. O santo apareceu a uma mulher chamada Lucina e mostrando-lhe o ponto em que estava o corpo, pediu-lhe o fosse enterrar nas catacumbas, na entrada da gruta dos apóstolos. Lucina executou religiosamente a ordem, e passou trinta dias ao pé do túmulo do santo. Isso se verificou, segundo parece, no ano de 228.

Retrucou-lhe Tibúrcio: "Oh, que sábio, que maravilhoso juiz possuem os romanos! Porque me recuso a adorar a prostituída Vénus, o incestuoso Júpiter, o finório Mercúrio, e Saturno, assassino de seus filhos, desonro a minha raça e recebo a marca da infâmia! E porque adoro o único Deus verdadeiro, ameaçais-me com a morte pelos suplícios!"

Fabiano mandou imediatamente acender uma fogueira e ordenou-lhe que a ela atirasse incenso ou sobre ela caminhasse de pés descalços. Tibúrcio fez o sinal da cruz e caminhou sobre os carvões sem sofrer a menor dor; depois desafiou o juiz a colocar apenas a mão na água fervente, em nome de Júpiter. "Quem não sabe, disse o juiz confuso, que o vosso Cristo vos ensinou magia?

- Calai-vos, desgraçado, replicou Tibúrcio, não me façais a injúria de proferir diante de mim com furiosos lábios tão sagrado nome".

Fabiano, encolerizado, o condenou imediatamente a perder a cabeça como blasfemo e culpado de haver proferido atrozes injúrias. Tibúrcio foi levado a um lugar da cidade, onde o executaram; mais tarde, Deus realizou no mesmo lugar Grande número de milagres.

O pérfido Torquato fez ainda enforcar Cástulo, o anfitrião dos cristãos. O santo foi interrogado e torturado três vezes e, não deixando nunca de persistir nas suas convicções, atiraram-no a um fosso sobre o qual lançaram um monte de areia. Os dois irmãos, Marcos e Marceliano, foram detidos em seguida e amarrados a um poste, com os pés furados pro pregos. Passaram um dia e uma noite em tal suplício, e finalmente morreram, atravessados por lanças, por ordem do juiz. Foram sepultados a duas milhas de Roma, num cemitério que deles recebeu o nome.

Após haver Sebastião fortalecido tantos mártires contra o temos dos suplícios, e encorajado a combater heroicamente pela coroa da glória, deu finalmente a conhecer a todos o que ele próprio era. Dioclecino, a quem o prefeito narrou o sucedido, mandou-o chamar e censurou-o por se esquecer das obrigações que lhe devia. Respondeu o santo que, notando haver loucura em pedir favores e socorros a pedras, havia incessantemente adorado a Cristo e o Deus do céu, para a salvação do príncipe e de todo império. Tão sábia resposta não satisfez absolutamente Diocleciano, que entregou o santo às mãos dos arqueiros da Mauritânia, os quais, por ordem sua, o vararam de flechas.

Deixaram-no, depois, por morto no lugar. Mas Irene, viúva de São Cástulo, tendo acorrido para sepultá-lo, encontrou-o ainda com vida e levou-o para casa, no próprio palácio do imperador, onde em pouco tempo o santo recobrou a saúde. Exortavam-no os cristãos a que se retirasse. Mas, após invocar a Deus, colocou-se numa escadaria pela qual passava Diocleciano, e censurou-o pela injustiça com a qual os seus pontífices o levavam a perseguir os cristãos, acusando-os de inimigos do estado, eles que oravam continuamente pelo império e pela prosperidade dos exércitos.

Padre Rohrbacher in 'Vida dos Santos' (Volume II, p. 46-62)



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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sacerdote resistiu heroicamente à Reforma Litúrgica

O Padre Patrick Fox foi ordenado sacerdote na festa de Santo André, dia 30 de Novembro de 1939. Morreu no dia 24 de Julho de 2007, em Sydney (Austrália). Serviu a Deus no santo sacerdócio durante 68 anos e nunca celebrou Missa no Rito Novo.

Desde 1969, foi continuamente perseguido pela sua ordem, os vicentinos. Muitas vezes tentaram forçá-lo a novos caminhos, mas vez após vez o Padre Fox resistiu. Ele foi enviado a um psiquiatra em duas ocasiões e recebeu um certificado de saúde mental depois de cada uma das consultas. Os sacerdotes da sua Ordem tentaram que fosse considerado louco mas falharam.

A perseguição apenas foi suspensa durante um curto período de tempo, enquanto viveu no Seminário da Santa Cruz. Mas isso não durou muito porque ele queria morrer como havia vivido, numa casa vicentina.

Nos seus últimos anos foi que foi proibido de ter qualquer pessoa presente quando celebrava a Santa Missa. Foi sempre fiel ao longo de 68 anos. Recebia pessoas geralmente até tarde e era sempre uma alegria falar com esse homem maravilhoso, esse sacerdote de Deus.


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Quem são os infiéis, segundo a Igreja Católica?

INFIDELIDADE é a carência da fé naqueles que não foram baptizados, ou naqueles que a perderam. Há três espécies de infidelidade: a dos hereges, a dos judeus e a dos pagãos.

Os hereges perderam a fé; os judeus não a querem receber; os pagãos ou não a conhecem porque não lhes foi anunciada, ou conhecendo-a não a quiseram receber. O pecado dos hereges é mais grave que o dos judeus; o dos judeus mais grave que o dos pagãos. 

A infidelidade é o último pecado a que o homem chega por via doutros pecados. As causas principais da infidelidade daqueles que conhecem a Fé são: a ignorância dos motivos de credibilidade; a independência da vontade que não quer sujeitar-se a nenhuma autoridade; o desprezo da oração; a educação neutra ou irreligiosa dada nas escolas; a leitura de livros contrários às verdades da Fé; a frequentação com incrédulos; a corrupção dos costumes. 

Os meios de vencer estes obstáculos são: procurar sólida instrução religiosa; considerar as funestas consequências da falta de Fé, e as vantagens que ela oferece para a vida presente e para a vida futura;
rezar; frequentar os actos do culto religioso.

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica


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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Seminaristas da Igreja Greco-Católica Ucraniana cantam à mesa



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18 de Janeiro: Festa da Cátedra de S. Pedro em Roma

Hoje é um dia muito importante para o Rito Romano:

É o dia da Cátedra de S. Pedro em Roma. Esta festa pode encontrar-se em vários documentos dos séculos IV/V, como o martirológio de S. Jerónimo, e.g., que reza "a dedicação da cadeira de S. Pedro o Apóstolo, onde o Apóstolo Pedro primeiro se sentou, em Roma" (ou seja, onde Pedro fundou, tomou posse e pontificou na Sé de Roma), apesar de ter perdido o seu destaque para a posterior (ainda que não muito) festa da Cátedra de S. Pedro a 22 de Fevereiro (hoje dita em Antioquia), dia em que o Papa foi eleito pelo próprio Senhor Jesus.

No séc. XVI, o Papa Paulo IV, embebido pelo espírito da reforma católica (que procurava reforçar a romanidade e combater o luteranismo que dava particular ênfase a S. Paulo), restaurou esta festa, que havia sido perdida nos calendários medievos, à sua data mais antiga, mantendo também a celebração mais popular de 22 de Fevereiro. Curiosamente, ou não, neste dia também se celebra a memória duma antiquíssima mártir romana, S. Prisca (ou Priscila), que, apesar de ser incerto quem fosse (ou quando tenha vivido ou morrido), dá o nome a umas importantes catacumbas romanas onde se guardou, porque naquela zona (na Via Salaria) se usou, a "primeira sé onde Pedro se sentou e baptizou" (dum manuscrito do Abade João, circa 600), em Roma.

Esta cadeira em si, provavelmente foi destruída no século VI, restando apenas alguns documentos alusivos à sua existência e uso.

Curiosamente, de hoje a uma semana (dia 25) celebra-se a festa da Conversão de S. Paulo, pelo que temos uma semana iniciada pela festa de S. Pedro, com a comemoração de S. Paulo (como sempre), e terminada com a festa de S. Paulo, com a comemoração de S. Pedro (como sempre).

Nesta semana, celebra-se uma santa ligada a S. Pedro: S. Prisca, cuja hagiologia nos indica uma possível relação com S. Paulo também; e um santo ligado a S. Paulo: S. Timóteo, seu discípulo, bispo de Éfeso, no dia 24. Ambos mártires, uma romana, outro oriental. Algo que não deve passar despercebido é que no dia 22 de Fevereiro (o outro dia no qual se celebra a Cátedra de S. Pedro) também se celebra a dedicação da igreja de S. Prisca, onde sabemos que S. Fabiano (ver adiante) residiu e lugar do qual se dizia "o lugar de Fabiano, i.e., o lugar de Pedro".

Ainda pelo meio desta semana, celebram-se várias festas importantes: temos os mártires da Pérsia (dia 19) (um dos antigos extremos do mundo cristão), mas que foram a Roma, e S. Vicente (dia 22) - patrono do Patriarcado de Lisboa -, da Península Ibérica (outro dos extremos do mundo cristão); temos um Papa (a maior autoridade na Igreja), S. Fabiano (que curiosamente era leigo, quando foi eleito, mas essa história fica para outra ocasião), celebrado com S. Sebastião (dia 20) (soldado do império, da importante sé de Milão), ambos mártires (ambos sepultados na Basílica de S. Sebastião) e este último veneradíssimo em Roma; e temos a grande S. Inês (dia 21) (nomeada no Cânon Romano), nativa romana, e aos olhos do mundo a menor autoridade. Tínhamos também a festa de S. Emerenciana (dia 23), irmã de S. Inês e martirizada dois dias depois desta, mas esta festa foi reduzida, perante a festa de S. Raimundo de Penaforte, grande santo da Idade Média.

É uma semana que mostra a catolicidade da Igreja e sobretudo o triunfo da caridade!  E é, sobretudo, uma festa em que rezamos por toda a Igreja e pelo sucessor de Pedro. Rezemos então, com a colecta da Missa de hoje:

Deus, que dando ao Vosso Apóstolo S. Pedro as chaves do reino dos céus, lhe concedestes o poder pontifício de ligar e desligar, concedei-nos, pelo auxílio da sua intercessão, sejamos libertados dos laços dos nossos pecados.

Pedro Froes

Nota: A festa da Cátedra de S. Pedro em Roma deixou de ser celebrada em 1960, com a reforma do calendário tridentino, levada a cabo pelo Papa João XXIII.


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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Santo Atanásio descreve a vida e tentações de Santo Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Os seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Depois da morte dos seus pais ficou só com a sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e reflectia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Actos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). 

Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele, Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras", terra muito fértil e formosa. 

Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem.

Então dedicou todo o seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egipto, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. 

Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente, tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo, e assim a sua memória lhe servia de livro.

Mas o demónio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e pôs-se a empregar suas velhas tácticas também contra ele. Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado da sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. 

Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. 

O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demónio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, reflectiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar.

Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que na sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-Se carne e deu ao Seu corpo a vitória sobre o demónio. Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10). 

Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo os seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto; e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. A minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! 

Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúde fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um dos seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demónios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. 

Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. 

Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demónio. 

Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demónios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente. E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. 

Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

De novo o Senhor não se esqueceu de Antão na sua luta, mas veio ajudá-lo. Quando olhou para cima, viu como se o tecto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demónios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado das suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu o seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade”.

Santo Atanásio in 'Vida de Santo Antão'


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Profecia de Santo Antão sobre as loucuras dos nossos dias



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domingo, 16 de janeiro de 2022

Missa do Sínodo sobre a Sinodalidade

Ainda não se percebeu de que constará o Sínodo sobre a Sinodalidade. O certo é que a fase diocesana desse Sínodo já começou. Essa ocasião foi celebrada na diocese de San Bernardino (Estados Unidos) pelo Bispo Alberto Rojas com uma Missa recheada de "orações" pagãs e estranhas "liturgias", que de católicas nada têm.

Enquanto isso, a Missa Tradicional, da qual se alimentaram milhares e milhares de santos, é perseguida e proibida.


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O Cruzado

O primeiro aspecto que chama atenção na escultura do homem que figura nesta fotografia é o modo de estar de pé. Tal escultura pode bem representar o cruzado no apogeu da Idade Média. 

Ele apresenta um equilíbrio de corpo perfeito. Os pés não são pés chatos, como os de pato, com a precária firmeza deste. Não. É a estabilidade corporal do homem, na qual não falta uma certa nota de elegância, em que entra algo de espiritual. As pernas, o tronco, os braços, representam a solidez física perfeita de um homem que venceu a acção da gravidade.

Ele não cedeu em nada à preguiça. Mas também não está efervescente, não tem a mentalidade do homem de negócios, que fala em cinco telefones ao mesmo tempo... Mantém-se inteiramente tranquilo, mas de uma tranquilidade tal, que o seu repouso se volta inteiro para a acção...e actuação, que já é de uma vez a guerra. A mais absorvente de todas as actividades, aquela que se opõe mais directamente à preguiça não é o trabalho, é a luta. Ele está numa posição em que a qualquer momento pode iniciar o combate.

Ele faz uma proclamação com os grandes braços abertos, como quem diz: "Isto é assim e não vai por menos, ai de quem negar o que proclamo, porque pego na espada...". É a proclamação perfeita de quem anuncia e ameaça.

Por outro lado, o cruzado permanece numa atitude contemplativa. A sua fisionomia indica que ele não está vendo o que se passa em torno de si. Está olhando dentro de si mesmo. E de dentro de si considera um ideal inteiramente superior, que lhe ilumina a alma: são os princípios a favor dos quais o homem é obrigado a combater.

Ele todo é um edifício de coerência, de metafísica, pronto para descarregar o golpe. Todas as razões do combate lhe estão presentes, tudo raciocinado, coerente, tudo positivo.

É um homem profundamente sério. Se acontecer qualquer coisa diante dele, sua visão será a da realidade inteira. Não irá exagerar, nem subestimar, nem torcer a realidade, nem mentir. Ele vê o que acontece e diz o que vê. É o varão sério por excelência.

Plinio Corrêa de Oliveira        
(*) Excertos tirados da conferência proferida pelo Prof. Plinio para sócios e cooperadores da TFP, a 22 de Abril de 1967. Sem revisão do autor.


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sábado, 15 de janeiro de 2022

Uma entrevista histórica em memória de Alice Von Hildebrand

Alice Von Hildebrand morreu ontem. Foi uma conhecida professora casada com o ainda mais conhecido professor Dietrich von Hildebrand, a quem o Papa Pio XII apelidou de 'Doutor da Igreja do séc. XX'. Vale a pena ler com atenção esta entrevista dada, em 2001, à 'Latin Mass Magazine':
 
TLM: Dra. von Hildebrand, no tempo em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano Segundo, a senhora percebeu qualquer necessidade de reforma dentro da Igreja?
 
AVH: A maior parte da intuição sobre isso vem do meu marido. Ele sempre disse que os membros da Igreja, devido aos efeitos do pecado original e do pecado actual, se encontram sempre com necessidade de reforma. O ensinamento da Igreja, porém, vem de Deus. Nem um único acento deve ser modificado ou necessita de reforma.
 
TLM: Em termos da crise actual, quando é que percebeu que algo estava terrivelmente errado?
 
AVH:: Fevereiro de 1965, estávamos num ano sabático em Florença. O meu marido lia um jornal teológico, e de repente, ouvi-o desatar em lágrimas. Corri até ele, temerosa de que o seu coração lhe houvesse causado dores. Perguntei-lhe se estava bem. Ele disse-me que o artigo que estava a ler lhe fez perceber que o Demónio havia entrado na igreja. O meu marido foi o primeiro alemão proeminente se pronunciar-se publicamente contra Hitler e o Nazismo. As suas intuições eram sempre prescientes.

TLM: O seu marido tinha falado sobre seu o temor pela situação da Igreja antes desse incidente?

AVH: Relatei na biografia do meu marido - The Soul of a Lion - que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique. Munique era uma cidade católica. A maioria dos Católicos da época ia à Missa, mas ele sempre disse que foi ali que começou a ficar preocupado com a perda do sentido de sobrenatural entre os Católicos. Houve um incidente, em especial, que lhe deu prova disso e o entristecia imensamente. Quando passava por uma porta, o meu marido sempre deixava passar primeiro os seus alunos que eram sacerdotes. Um dia, um dos seus colegas (um Católico) expressou a sua surpresa e desagrado: “Por que razão deixa os seus alunos entrar antes de si?” “Porque são sacerdotes”, respondeu o meu marido. “Mas eles não têm doutoramento”. O meu marido sentiu-se arrasado. Valorizar o doutoramento é uma reacção natural; estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção em relação ao sobrenatural se havia erodido. Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas, até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.

TLM: O seu marido achava que o declínio do sentido do sobrenatural havia começado nessa época, e  como é que o explicava?

AVH: Não, ele acreditava que após a condenação da heresia do Modernismo pelo Papa Pio X, os seus proponentes retiraram-se para o subsolo. Ele dizia que eles tomaram uma abordagem muito mais sutil e prática. Espalhavam dúvidas simplesmente levantando questões sobre as grandes intervenções sobrenaturais ao longo da História da Salvação, tais como Nascimento Virginal e virgindade perpétua de Nossa Senhora, bem como a Ressurreição e a Sagrada Eucaristia. Eles sabiam que uma vez abalada a fé – a fundação – a liturgia e os ensinamentos morais da Igreja também desmoronar-se-iam. O meu marido intitulou um dos seus livros de 'The Devastated Vineyard' (A Vinha Devastada). Após o Vaticano II parece que um tornado havia atingido a Igreja.

O próprio Modernismo era fruto de calamidade do Renascimento e da Revolta Protestante, e foi um longo processo histórico até que se revelasse. Se fôssemos perguntar a um Católico típico da Idade Média o nome de um herói ou heroína certamente citaria um santo. O Renascimento começou a mudar isso. Ao invés de um santo, as pessoas pensariam num génio e, com a chegada da era industrial, as pessoas citariam um grande cientista. Hoje responderiam com o nome de um desportista ou personagens dos media. Por outras palavras, a perda do sentido do sobrenatural trouxe a inversão da hierarquia de valores.

Mesmo o pagão Platão estava aberto ao sentido do sobrenatural. Ele falou da fraqueza, fragilidade e covardia frequentemente evidenciadas na natureza humana. Foi-lhe perguntado por um crítico por que razão tinha a Humanidade em tal baixa estima. Platão respondeu que não denegria o homem, apenas o comparava a Deus. 

Com a perda do sentido de sobrenatural, houve uma perda do sentido da necessidade para o sacrifício. Quanto mais alguém se aproxima de Deus, maior é a sua consciência de ser pecador. Quando mais alguém se afasta de Deus, como hoje, mais escutamos a filosofia new age: “Estou bem, tu estás bem”. A perda da inclinação para o sacrifício leva ao obscurecimento da missão redentora da Igreja. Onde a Cruz é subestimada, a nossa necessidade de redenção é igualmente ignorada. A aversão ao sacrifício e redenção ajudou à secularização da Igreja no seu interior. Temos ouvido durante muitos anos dos sacerdotes e bispos falar sobre a necessidade da Igreja se adaptar ao mundo. Grandes Papas como S. Pio X disseram exactamente o oposto: o mundo deve adaptar-se à Igreja.

TLM: Da nossa conversa, devo concluir que a senhora não acredita que a perda acelerada do sentido do sobrenatural seja um acidente no percurso da História.

AVH:: Não, não acredito. Houve dois livros publicados em Itália nestes anos que confirmam o que meu marido suspeitava há algum tempo: que tem havido uma infiltração sistemática da Igreja pelos inimigos diabólicos durante este século. O meu marido foi um homem muito esperançoso e optimista por natureza. Durante os dez últimos anos da sua vida, porém, testemunhei muitos momentos de grande tristeza, e frequentemente ouvia-o repetir: “Eles dessacralizaram a Santa Esposa de Cristo”. Referia-se à “abominação da desolação” da qual fala o profeta Daniel.

TLM: O seu marido foi chamado 'Doutor da Igreja do Século XX' pelo Papa Pio XII. Ele não teria acesso ao Vaticano para falar dos seus temores ao Papa Paulo VI?

AVH: Foi exactamente o que ele fez! Nunca esquecerei a audiência privada que tivemos com Paulo VI mesmo antes do fim do Concílio Vaticano II. Foi no dia 21 de Junho de 1965. Assim que o meu marido começou a apelar para que ele condenasse as heresias que se espalhavam, o Papa interrompeu-o com as palavras, “Lo scriva, lo scriva.” (“Escreva sobre isso.”). Momentos depois, pela segunda vez, o meu marido expôs a gravidade da situação ao Papa. A mesma resposta. Sua Santidade recebeu-nos em pé. 

Estava claro que o Papa se sentia muito inconfortável. A audiência durou apenas alguns minutos. Paulo VI deu imediatamente um sinal ao seu secretário, Pe. Capovilla, para nos trazer rosários e medalhas. Voltámos, então, a Florença onde o meu marido escreveu um longo documento (não publicado até hoje) que foi entregue a Paulo VI na véspera da última sessão do Concílio. Estávamos em Setembro de 1965. Após ler o documento do meu marido, Paulo VI disse ao sobrinho do meu marido, Dieter Sattler, que embaixador alemão da Santa Sé, que tinha lido o documento cuidadosamente, mas que “era um pouco áspero”. A razão era óbvia: o meu marido tinha, humildemente, solicitado uma clara condenação de afirmações heréticas.

TLM: Percebe, certamente, que, ao falar dessa essa ideia de infiltração, haverá aqueles que consideram tal coisa como uma teoria da conspiração.

AVH: Eu só posso dizer o que sei. Está registado publicamente públicamente que Bella Dodd, uma ex-comunista que se re-converteu à Igreja, falou abertamente da deliberada infiltração dos agentes do Partido Comunista nos seminários. Ela contou ao meu marido e a mim que, quando era membro activo do Partido, se encontrou com quatro cardeais dentro do Vaticano, “que trabalhavam para nós”. Muitas vezes ouvi os norte-americanos dizerem que os europeus “cheiram conspiração onde quer que vão”. Mas, desde o início, o Demónio tem conspirado contra a Igreja – e sempre procurou em particular destruir a Missa e destruir a fé na Real Presença de Cristo na Eucaristia. 

Por outro lado, eu, nascida na Europa, sinto-me tentada a afirmar que muitos americanos são ingénuos; vivendo num país que tem sido abençoado pela paz, e conhecendo pouco de História, são mais propensos que os europeus (cuja história é tumultuosa) a ser vítimas de ilusões. Rousseau tem tido enorme influência nos Estados Unidos. Quando Cristo disse aos Seus apóstolos na Última Ceia “um de vós Me trairá”, os apóstolos ficaram perplexos. Judas havia agido de tal modo que ninguém suspeitava dele, pois um conspirador astuto sabe como cobrir os seus traços com aparência de ortodoxia.

TLM: Os dois livros escritos pelos sacerdotes italianos que mencionou contêm evidências dessa infiltração?

AVH: Os dois livros que mencionei foram publicados em 1998 e 2000 pelo sacerdote italiano, Don Luigi Villa da diocese de Brescia, que, sob a pedido do Padre Pio, dedicou muitos anos da sua vida a investigae a possível infiltração dos Franco-Maçons e Comunistas na Igreja. O meu marido e eu encontrámo-nos com Don Villa nos anos sessenta. Ele disse-nos que não faz nenhuma afirmação que não possa comprovar. Quando o livro 'Paulo VI Beato?' foi publicado (1998), foi enviada uma cópia a cada um dos Bispos italianos. Nenhum deles fez um aviso de recepção, nenhum deles discutiu as alegações de Don Villa. 

Neste livro, ele conta algo que nenhuma autoridade eclesiástica refutou nem pediu para ser retratado – embora nomeie personalidades particulares. Trata do atrito entre Papa Pio XII e o então Bispo Montini (o futuro Paulo VI) que era seu Sub-Secretário do Estado. Pio XII, ciente da ameaça do Comunismo, que logo após a Segunda Guerra Mundial dominava quase metade da Europa, tinha proibido os funcionários do Vaticano de manter qualquer relação com Moscovo. Para sua decepção foi informado, um dia, através do Bispo de Upsala (Suécia) de que a sua ordem estrita havia sido contrariada. O Papa negou-se a dar crédito a esse rumor até receber evidências inegáveis de que Montini mantinha correspondência com várias agências Soviéticas. Durante todo esse tempo, o Papa Pio XII (assim como Pio XI) tinha enviado sacerdotes clandestinamente à Rússia para consolar os Católicos que viviam atrás da Cortina de Ferro. Cada um deles havia sido sistematicamente preso, torturado e mesmo executado ou enviado para o Gulag. Finalmente, um delator dentro do Vaticano foi descoberto: Alighiero Tondi, S.J., que era um conselheiro próximo de Montini. Tondi era um agente ao serviço de Estaline cuja missão era manter Moscovo informada sobre iniciativas tais como o envio de sacerdotes para a União Soviética. 

Acrescente-se a isso o modo como o Papa Paulo VI tratou o Cardeal Mindszenty. Contra a sua vontade, Mindszenty foi ordenado a deixar Budapeste. Como quase todos sabem, ele havia escapado aos Comunistas e encontrou  refúgio na embaixada norte-americana. O Papa tinha-lhe dado a sua promessa solene de que ele permaneceria primado [Primaz] de Hungria enquanto vivesse. Quando o Cardeal (que foi torturado pelos Comunistas) chegou em Roma, Paulo VI abraçou-o calorosamente, mas depois enviou-o em exílio para Viena. Logo depois, este santo Prelado foi informado que havia sido destituído e substituído por alguém mais agradável ao governo Húngaro Comunista. Mais intrigante e tragicamente triste é o facto de que, quando morreu Mindszenty, nenhum representante da Igreja esteve presente no seu enterro. 

Outra das alusões de infiltração de Don Villa é aquela relatada pelo Cardeal Gagnon. Paulo VI tinha pedido a Gagnon para encabeçar uma investigação acerca da infiltração da Igreja por parte de inimigos poderosos. Cardeal Gagnon (há época Arcebispo) aceitou essa tarefa desagradável e compilou um longo dossier, recheado de informações preocupantes. Quando o trabalho foi completado, solicitou uma audiência com o Papa Paulo a fim de discutir pessoalmente o manuscrito com o Pontífice. Esse pedido para um encontro foi negado. O Papa deu ordem para que o documento fosse colocado nos escritórios da Congregação para os Clérigos, especificamente num cofre com dupla fechadura. Isso foi feito, mas, no dia seguinte, a caixa foi arrombada e o manuscrito desapareceu misteriosamente. A política usual do Vaticano é assegurar-se que tais incidentes nunca vejam a luz do dia. Esse roubo foi noticiado até no L’Osservatore Romano (talvez sob pressão porque isto não foi noticiado na imprensa secular). Cardeal Gagnon, logicamente, possuía uma cópia, e, novamente, solicitou ao Papa uma audiência privada. O seu pedido foi novamente negado. Então decidiu deixar Roma e retornar à sua terra natal, Canadá. Mais tarde, foi chamado de volta a Roma pelo Papa João Paulo II e feito cardeal.
 
TLM: Por que razão o Padre Villa escreveu essas obras tendo como alvo das suas críticas Paulo VI?
 
AVH: Don Villa estava relutante em publicar os livros. Mas quando vários Bispos começaram a movimentar-se para a beatificação de Paulo VI, esse sacerdote percebeu que era necessário publicar as informações recolhidas ao longo dos anos. Assim fazendo, estava a seguir as orientações de uma Congregação Romana, informando aos fiéis que era o seu dever como membros da Igreja confiar à Congregação qualquer informação que pudesse obstruir as qualificações do candidato para a beatificação. Considerando o pontificado tumultuoso de Paulo VI, e os sinais confusos que fornecia, por exemplo, mencionando o “fumo de Satanás que entrou na Igreja”, e, entretanto, recusando-se a condenar oficialmente as heresias; a sua promulgação de Humanae Vitae (a glória do seu pontificado), mas a sua cuidadosa recusa em proclamá-la ex-cathedra; oferecendo o seu Credo do Povo de Deus na Praça São Pedro, em 1968, e novamente fracassando em declará-lo como unificador de todos os Católicos; desobedecendo as ordens estritas de Pio XII em não manter contacto com Moscovo, e agradando o governo Comunista Húngaro ao renegar a promessa solene que havia feito ao Cardeal Mindszenty; o seu tratamento com relação ao santo Cardeal Slipyj, que passou 17 anos num Gulag, para depois se tornar num prisioneiro virtual no Vaticano; e finalmente, solicitando ao Arcebispo Gagnon para investigar uma possível infiltração no Vaticano e depois recusar-lhe uma audiência quando o trabalho estava completo – tudo isso fala fortemente contra a beatificação de Paulo VI, ecoando em Roma: “Paolo VI, Mesto” (Paul VI, o triste). É inegável que o dever de publicar essa informação deprimente foi oneroso e custou grande sofrimento a Don Vila. Qualquer Católico rejubila quando pode levantar os olhos e contemplar com veneração irrestrita um Papa. Mas os Católicos sabem também que, embora Cristo não tenha prometido conceder líderes perfeitos, prometeu que as portas do Inferno nunca prevaleceriam. Não nos esqueçamos que muito embora a Igreja tenha tido alguns Papas muito maus, tem sido abençoada com grandes Papas. Oitenta deles foram canonizados e vários beatificados. Esta é uma história de sucesso sem paralelo no mundo secular.
 
Apenas Deus é juiz de Paulo VI. Mas não se deve negar que o seu pontificado foi muito complexo e trágico. Foi sob o seu pontificado que, num curso de 15 anos, mais mudanças foram introduzidas na Igreja que em todos os séculos precedentes juntos. O que é preocupante é que quando lemos o testemunho de ex-Comunistas como Bella Dodd, e estudamos documentos maçónicos (datados do século XIX, e geralmente escritos por sacerdotes dissidentes como Paul Rocca, podemos ver que, em larga extensão, a sua agenda foi implementada: o êxodo de sacerdotes e freiras após o Vaticano II, teólogos dissidentes não censurados, o feminismo, a pressão sobre a Roma para abolir o celibato sacerdotal, imoralidade entre os clérigos, liturgias blasfemas, as mudanças radicais que foram introduzidas na sagrada liturgia e um ecumenismo sem rumo. Apenas um cego poderia negar que muitos dos planos do Inimigo têm sido perfeitamente realizados.
 
Não devemos nos esquecer que o mundo foi abalado com o que fez Hitler. Pessoas como o meu marido, porém, perceberam o que estava de facto escrito em Mein Kampf. O plano estava ali. O mundo simplesmente optou por não acreditar. Ainda assim, por mais grave seja a situação, nenhum Católico deve esquecer que Cristo prometeu que estará com a Sua Igreja até ao fim do mundo. Devemos meditar sobre a cena relatada no Evangelho quando o barco dos apóstolos foi ameaçado por uma forte tempestade. Jesus dormia! Os apóstolos, assustados, acordaram-No: Ele disse uma única palavra e, de repente, tudo se acalmou. “Ó vós, que tendes pouca fé!”

TLM: Segundo os seus comentários sobre o ecumenismo, não concorda com a política actual de “convergência” ao invés de “conversão”?

AVH: Deixe-me contar um episódio que causou grande pesar ao meu marido. Em 1946, depois da II Grande Guerra, o meu marido ensinava na Universidade de Fordham, e apareceu nas suas aulas um estudante judeu que tinha sido oficial da Marinha durante a Guerra. Um dia confidenciou ao meu marido como era belo o pôr-do-sol no Oceano Pacífico e como isso o tinha levado à busca da verdade sobre Deus. Decidiu ir para a Universidade de Columbia (Estados Unidos da América) estudar filosofia, mas percebeu que não era isso que procurava. Um amigo sugeriu-lhe que fosse estudar filosofia para Fordham e mencionou o nome Dietrich von Hildebrand. 

Depois da primeira aula com o meu marido ele sabia que tinha encontrado o que procurava. Um dia, depois das aulas, o meu marido e o estudante foram dar um passeio a pé. Ele disse ao meu marido que estava surpreendido com o facto de que vários professores, depois de saberem que ele era judeu, lhe terem assegurado que não o tentariam converter ao Catolicismo. O meu marido, estupefacto, parou, virou-se para ele e disse: "Eles disseram o quê?!" O estudante repetiu a história e o meu marido disse-lhe: "Eu iria até ao fim do mundo e regressaria para fazer-te católico." Resumindo, o jovem converteu-se ao Catolicismo, entrou na única Cartuxa nos Estados Unidos (em Vermont) e foi ordenado Padre cartuxo!

TLM: A senhora passou muitos anos dando aulas em Hunter College.

AVH: Sim, e vários dos meus alunos tornaram-se Católicos. Oh, quantas e belas histórias de conversão poderia contar aqui se houvesse tempo – jovens que foram arrebatados pela verdade! Eu gostaria, entretanto, de deixar claro um ponto: não converti os meus alunos. O máximo que podemos fazer é rezar para sermos instrumentos de Deus. Para sermos instrumentos de Deus, devemos esforçar-nos para viver diariamente o Evangelho em todas as circunstâncias. 

Apenas a graça de Deus pode-nos conceder o desejo e capacidade para isso. Eis um dos temores que tenho em relação aos Católicos tradicionais. Alguns roçam o fanatismo. Um fanático é aquele considera a verdade como uma posse sua em vez de ser um dom de Deus. Somos servos da verdade, e é como servos que devemos procurar partilhá-la. Estou ciente de que há Católicos fanáticos que usam a Fé e a Verdade como um instrumento intelectual. Uma apropriação autêntica da verdade conduz sempre ao esforço para a santidade. A Fé, nesta crise actual, não é um jogo de xadrez intelectual. Para aqueles que não se esforçam para ser santos, a Fé reduzir-se-á a isso. Tais pessoas fazem mais mal à Fé, particularmente se estes são defensores da Missa Tradicional.

TLM: Então a senhora acha que o único cenário para uma solução da crise actual é a renovação de um esforço para a santidade?

AVH: Não nos podemos esquecer que estamos lutando não apenas contra a carne e o sangue, mas contra “potestades e principados”. Isto deveria provocar-nos suficiente temor para nos esforçarmos mais que nunca para a santidade e rezar fervorosamente para que a Santa Esposa de Cristo, que se encontra agora no Calvário, saia desta terrível crise mais radiante do que nunca. A resposta Católica é sempre a mesma: absoluta fidelidade aos santos ensinamentos da Igreja, fidelidade à Santa Sé, recepção frequente dos sacramentos, Terço, leitura espiritual diária, e gratidão por termos recebido a plenitude da Revelação de Deus: “Gaudete, iterum dico vobis, Gaudete.”

TLM: Não posso terminar a entrevista sem fazer uma pergunta já um tanto gasta. Há quem critique a Missa no Rito Romano Tradicional dizendo que a crise na Igreja se desenvolveu no tempo em que a Missa era assim celebrada oferecida no mundo inteiro. Por que razão faz sentido achar que o seu retorno é intrínseco à solução da crise?

AVH: O Diabo odeia a Missa Antiga. Ele odeia-a porque é a formulação mais perfeita de todos os ensinamentos da Igreja. Foi o meu marido que me deu essa visão sobre a Missa.
 
O problema que deu início à crise actual não foi a Missa Tradicional. O problema foi que os sacerdotes que a ofereciam já haviam perdido o sentido do sobrenatural e do transcendente. Apressavam-se nas orações, murmuraram e não as enunciaram. Isto é um sinal do que eles trouxeram para a Missa: o seu crescente secularismo. A Missa Antiga não suporta irreverência, e foi por isso que tantos sacerdotes ficaram satisfeitos ao vê-la desaparecer.


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