sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dia de São Gabriel de Nossa Senhora das Dores

Gabriel de Nossa Senhora das Dores, a quem Leão XIII chamava o “São Luiz Gonzaga dos nossos dias”, nasceu em Assis (Itália), a 1 de Março de 1838, filho de Sante Possenti de Terni e Inês Frisciotti. No mesmo dia em que viu a luz do mundo, recebeu a graça do Baptismo, na mesma pia em que foi baptizado o grande Patriarca S. Francisco, na igreja de São Rufino.

O pai, já aos vinte e dois anos, era Governador da cidade de Urbânia, cargo que sucessivamente veio a ocupar em S. Ginésio, Corinaldo, Cingoli e Assis. Como um dos magistrados dos Estados Pontifícios, gozava de grande estima por parte de Papa Pio IX, e Leão XIII honrava-o com a sua sincera amizade. A mãe era de uma nobre família de Civitanova d’Ancona. Estes dois cônjuges eram modelos de esposos cristãos, vivendo no santo temor de Deus, unidos no vínculo de respeito e amor fidelíssimo, que só a morte era capaz de solver. Deus abençoou esta santa união com treze filhos, dos quais Gabriel era o undécimo. Este, no Baptismo recebeu nome de Francisco, em homenagem ao seu avô e ao Seráfico de Assis.

Dando testemunho da educação que recebiam na família, no Processo da beatificação do Servo de Deus, os seus irmãos declararam: “Nós fomos educados com o máximo cuidado no que diz respeito à piedade e à instrução. A nossa mãe era piedosíssima e educou-nos segundo as máximas da nossa santa Religião”.

Nos braços, sobre os joelhos de uma mãe profundamente religiosa, o pequeno Francisco aprendeu os rudimentos da vida cristã e a pronunciar os santos nomes de Jesus Maria.

A grande felicidade que na infância reinava experimentou um grande abalo quando, inesperadamente, o Anjo da Morte veio visitar aquele lar e arrebatar-lhes a mãe. D. Inês, sentindo que se aproximava a última, na compreensão do seu dever de mãe cristã, reuniu todos os filhos à cabeceira do leito mortal, estreitou-os, um por um, ao seu coração, selou a sua fronte com o último beijo, deu-lhes a bênção, distinguindo com mais carinho os de tenra idade, entre estes, Francisco; munida de todos os Sacramentos, confortada pela graça de Deus, aos 38 anos de idade deixou este mundo, para, na Eternidade, perto de Deus, receber o prémio das suas raras virtudes.

Do pai, o próprio Francisco deu o seguinte testemunho ao seu director espiritual:  

“Meu pai”, declarou, “tinha por costume levantar-se bem cedo. Dedicava uma hora à oração e meditação; se neste tempo alguém desejava falar-lhe, havia de esperar pelo fim das práticas religiosas. Terminadas estas, ia à igreja assistir a Santa Missa e costumava levar consigo dos filhos os que não fossem impedidos. Finda a Santa Missa metia-se ao trabalho. À noite, reunia os seus filhos e dava-lhes sábios conselhos e úteis exortações. Falava-lhes dos deveres para com Deus, do respeito devido à autoridade paternal e do perigo das más companhias”. “Os maus companheiros”, dizia ele, “são os assassinos da juventude, os satélites de Lúcifer, traidores escondidos e, por isso, era para temê-los e deles ter cuidado”.

Os biógrafos de Francisco fazem ressaltar, em primeiro lugar, a extraordinária bondade de coração do menino, principalmente para com os pobres. Muitas vezes ficou ele sem a merenda, por tê-la dado aos pobres. Entre os seus irmãos, era ele o anjo da paz, sempre pronto para desculpar e para defendê-los, quando acusados injustamente. Não suportava a injúria, fosse ela atirada a si ou a um dos seus. Com a maior facilidade, se desfazia de objectos de certo valor, com que tinha sido homenageado. Assim, presenteou a um de seus irmãos uma bela corrente de prata que tinha recebido de um parente. Estes bons traços no caráter de Francisco não afastam certas sombras que nele subsistiam também. Os que o conheciam meigo, bondoso, compassivo, sabiam-no também ser nervoso, impaciente, irascível.

Por felicidade sua, o senhor Sante, seu pai, não era daqueles que desculpam os caprichos dos seus filhos, sob o pretexto de “serem crianças”, sem pensar que mais tarde terão de pagar bem caro esta condescendência e fraqueza. O verdadeiro amor cristão fê-lo combater sem tréguas todos os defeitos. Francisco era obediente e tinha grande respeito ao pai, o que, aliás, não impedia que diante de uma severa repreensão desse largas ao seu génio impulsivo, com palavras e gestos demonstrando o seu descontentamento, a sua raiva. Mas tudo isto era fogo fátuo. Logo, voltava às boas; a sua boa índole não permitia que estas revoltas interiores durassem muito tempo. Era encantador ver, momentos depois, o menino desfeito em pranto, procurar o pai e, por seus modos ingénuos e infantis, assegurar-se do perdão e do amor do Sr. Sante. Este, fingindo não dar crédito a estas demonstrações, retrucava bruscamente: “Nada de carícias; quero ver factos”. Então, o menino atirava-se ao colo do pai, beijava-o e sentia-se feliz, em ter voltado à paz, com o perdão paterno. Nesta escola de sábia pedagogia, Francisco cedo aprendeu combater e vencer os seus defeitos.

Durante algum tempo, Francisco ficou entregue aos cuidados de um mestre; depois frequentou o colégio dos “Irmãos das Escolas Cristãs”, onde fez rápidos progressos, figurando sempre entre os melhores alunos. Com sete anos fez a sua primeira confissão. Um ano depois, em Junho de 1846, recebeu o sacramento da confirmação. Tudo isto prova que o menino já se achava bem instruído nas Verdades da nossa Fé, graças ao sólido ensino que lhe dispensavam os beneméritos “Irmãos Sallistas”.

Nesse mesmo tempo, caiu também a data da sua primeira comunhão, para a qual se preparou com todo o esmero. Testemunha de vista desse grandioso acto diz:  

“O fervor com que o vi chegar-se da sagrada mesa, o espírito de fé que se estampava no seu semblante, o vigor dos seus afectos foram tais que se chegava a crer ser ele levado por um Serafim”.  
 
Esses sentimentos de fé e de piedade, aquelas chamas de amor ao SS. Sacramento não mais se separaram do coração de Francisco nos anos de sua mocidade, nem no meio de uma vida dissipada, de certo modo mundana. Não menos certo é que a frequente recepção da santa comunhão preservou-o de graves desvios no meio das tentações do mundo.

Terminados os estudos elementares, o pai pensou em procurar para Francisco uma educação mais elevada, de acordo com a sua posição social, e confiou o seu filho aos “Padres Jesuítas” que, na cidade de Spoleto, dirigiram um colégio. Neste educandário, passou Francisco os anos todos de sua mocidade no mundo e chegou a cursar os quatro semestres de estudos filosóficos. Estudante inteligente e cumpridor exacto do seu dever, deixou boa memória naquele colégio e formavam-se as mais belas esperanças a seu respeito. Ano não passava que não ganhasse um prémio; e no fim dos seus estudos foi distinguido com uma medalha de ouro. Mestres e colegas também o estimavam. 

Tudo nele encantava: os seus modos delicados e gentis, a modéstia no falar, o sorriso benévolo que lhe aflorava os lábios, o garbo com que se sabia ver em circunstâncias mais solenes, os sentimentos nobres que dominam em todo o seu proceder. Aos seus mestres devotava sempre a máxima estima e profunda gratidão. Das práticas de piedade era rígido observador e com regularidade frequentava os santos Sacramentos. Não há dúvida que, dada a ocasião, o seu génio impetuoso e quente o levava a transportes de veemência e de cólera. Mas estes excessos eram sempre seguidos de lágrimas de arrependimento e de penitência.

Desde a sua infância mostrou devoção particular a Nossa Senhora das Dores, uma imagem da qual se conservava em sua família; e cabia-lhe a ele adorná-la de flores e manter acesa uma lâmpada diante da estátua. Afirma um dos seus irmãos, Eurique Possenti, que viu Francisco, no último ano que passou em casa, usar de cilício de couro com pontinhas de ferro. Outro testemunho, da família Parenzi, declara: 

“A sua conduta religiosa e moral tem sido irrepreensível; dada a grande vigilância deosmeus pais, não teria sido admitido em nossa família, se não fosse realmente virtuoso”. 
 
Para completar a imagem do jovem estudante, e assim melhor poder compreender a mudança que nele mais tarde se efectuou, há que ter em conta a descrição da solene distribuição de prêmios, da última em que Francisco tomou parte no colégio dos Jesuítas em Spoleto, em setembro de 1856. Os melhores alunos tinham sido escolhidos para abrilhantar a cerimónia com discursos e declamações poéticas. Entre eles, Francisco ocupava o primeiro lugar. Ninguém se lhe igualava em elegância exterior, no garbo de representar, na graça de declamar, na graciosidade da gesticulação, no timbre encantador da voz. Podendo representar no palco, parecia estar no seu elemento e fazia-o com toda a naturalidade e perfeição. 

A sua aparência não deixava nada a desejar: tudo obedecia às exigências da última moda: o cabelo esmeradamente penteado, o traje elegante e ricamente adornado, as luvas brancas, gravata de seda, sapatos luzidios e artisticamente acabados, a tudo isso Francisco ligava máxima importância. Em certa ocasião, recitou com tanto ardor e tamanho foi o entusiasmo que excitou no auditório, que o delegado apostólico Mons. Guadalupe, que presente se achava, disse ao pai de Francisco que ao seu lado se achava: “se vosso filho aqui presente estivesse, abraçava-o em vosso lugar”.

As raras qualidades morais que o adornavam, a figura simpática e atraente na flor da mocidade, a extrema vivacidade que nele se observava, não deixaram de emprestar-lhe um leve sombreado de vaidade, que de algum modo chegou a dominá-lo. Esta vaidade se lhe patenteava na exigência que fazia no modo de se trajar, sempre na última moda, de perfumar o cabelo e este sempre tratado com cuidado, de se aborrecer com uma nódoa por mais insignificante que fosse no fato (roupa), no amor que tinha a divertimentos alegres e aos desportos mundanos.

O inimigo das almas tirou proveito dessas fraquezas. Se não conseguiu roubar-lhe a inocência, não foi porque não lhe poupasse contínuos assaltos, bem sucedidos. A paixão pelo teatro, a verdadeira mania por bailes, o amor à leitura de romances eram tantos escolhos, tantos perigos, que é de admirar que o jovem Francisco não caísse presa das ciladas diabólicas. Tão pronunciada era a sua paixão às danças, que lhe importou a alcunha de “bailarino”. Assim um dos seus mestres, Pe. Pinceli, Jesuíta, quando soube da inesperada fuga de Possenti do mundo para o convento, disse: “O bailarino fez isto? Quem esperava uma tal coisa! Deixar tudo e fazer-se religioso no noviciado dos Padres Passionistas!”.

Francisco bem conhecia o perigo em que nadava, e não faltava quem lhe chamasse a atenção, o lembrasse da necessidade da oração, da vigilância, da mortificação, da devoção a Jesus e Maria, de não perder de vista a Eternidade etc. Numa carta que lhe escreveu o Pe. Fedeschini, S.J., há todos estes avisos; o conselho de fugir das más companhias, de dar desprezo à vaidade no vestir e falar, de largar o respeito humano, de fazer meditação diária e receber os Sacramentos.

Com todas as leviandades e as suas perigosas tendências para o mundo, Francisco não deixava de ser um bom e piedoso jovem, a quem homens sábios e virtuosos não pudessem escrever com confiança, benevolência e estima e cujas palavras não fossem aceitas com respeito e gratidão.

“Muitas vezes” – diz quem bem o conhecia – “Possenti sentiu o chamado de Deus, de deixar a vida no mundo e trocá-la com o estado religioso”.

O seu director, Pe. Norberto, Passionista, declara:  

“A vocação, se bem que descuidada e sufocada, estava nele havia muito tempo, e ele a sentiu desde os mais tenros anos. Muitas vezes o servo de Deus disse-me isto, lastimando a sua ingratidão e indiferença”.

O mesmo sacerdote relata:  

“A sua vocação manifestou-se do seguinte modo: Não sei em que ano foi, sentiu-se ele acometido de um mal que o fez pensar na morte. Teve, então, a inspiração de prometer a Deus entrar numa Ordem religiosa, caso recuperasse a saúde. A promessa foi aceite, pois melhorou prontamente e em pouco tempo se achou restabelecido. Mas a promessa ficou como se não fosse feita. O jovem tornou a dar o seu afecto ao mundo e entregou-se à dissipação como antes. 

Não tardou que Deus lhe mandasse outra enfermidade, uma inflamação interna e externa da garganta, tão grave que parecia a morte iminente já na primeira noite, tornando-se-lhe dificílima à respiração. Novamente o enfermo recorreu a Deus e invocando Santo André Bobola, aplicou ao lugar dolorido uma estampa do mesmo Santo e renovou a promessa de abraçar o estado religioso. As melhoras surgiram quase instantaneamente, e teve o enfermo uma noite tranquila e não mais voltaram as angústias da dispneia. Deste extraordinário favor, o jovem lembrou-se sempre com muita gratidão. Manteve também por algum tempo o propósito de fazer-se religioso, mas diferindo-lhe a execução, o amor ao mundo voltou, e no mundo continuou a viver". 
 
Das paixões de Francisco, uma das mais fortes foi a da caça. A esta paixão ele pagava tributos bem pesados, e seu director espiritual não hesitou em atribuir a este desporto a cruel moléstia que o ceifou na flor da idade. Certa vez, ao pular uma cerca, chegou a cair e com tanta infelicidade que quebrou-lhe um osso do nariz. O fuzil disparou e o projétil passou-lhe rentinho pela testa, pouco faltando que lhe rebentasse o crânio. Francisco reconhecendo logo a providência deste aviso, renovou a sua promessa. Ficou com as cicatrizes, mas deixou-se ficar no mundo.

A graça divina também não se deu por vencida. Rejeitada três vezes, tentou um quarto golpe, mais doloroso ainda. De todos de sua família, Francisco dedicava terníssima amizade a sua irmã Maria Luzia, nove anos mais velha que ele, e esta amizade era correspondida com todo afecto. Em 1855 irrompeu em Spoleto a cólera, e Maria Luiza foi a primeira vítima da terrível epidemia. Foi no dia de “Corpus Christi”, e a notícia alcançou Francisco quando, na procissão, levava a cruz. A morte da irmã feriu profundamente o coração do jovem e mergulhou sua alma em trevas nunca antes experimentadas. Perdeu o gosto de tudo e se entregou a uma tristeza inconsolável. Parecia que com este golpe a graça divina tivesse removido o último obstáculo de a promessa se cumprir. 

Assim ainda não foi. Todo acabrunhado, Francisco manifestou ao pai sua resolução de entrar para o convento chegando a dizer que para ele tudo se tinha acabado nesta vida. Possenti, receando perder o seu filho a quem muito amava, não recebeu bem a comunicação e pediu-lhe nunca mais tocasse neste assunto. Aconselhou-o a se distrair, a afastar os pensamentos tristes, a procurar a sociedade, frequentar o teatro; chegou a insinuar-lhe a ideia de procurar a amizade de uma donzela distinta, de família igualmente conceituada, na esperança de, nos entendimentos inocentes, ela conseguir fazê-lo esquecer-se dos seus intentos religiosos. 

Na igreja metropolitana de Spoleto, gozava de uma veneração singular uma imagem de Nossa Senhora; a esta imagem chamava simplesmente “a Ícone”. Na oitava do dia 15 de Agosto, esta imagem era levada em solene procissão por dentro da igreja, e não havia quem não se ajoelhasse à sua passagem. Em 1856, Francisco Possenti achava-se no meio dos fiéis e, todo tomado de amor por Maria Santíssima, os seus olhos fixavam-se na venerada imagem como que esperando por uma bênção especial. Pois, quando a “Ícone” vinha aproximando-se do jovem, parecia que Ela lhe atirava um olhar todo especial e lhe dizer: “Francisco, o mundo não é para ti; a vida no convento espera-te”. Esta palavra, qual uma seta de fogo, cravou-lhe no coração; assim, saiu da igreja desfeito em lágrimas. Estava resolvido a realizar desta vez o plano de alguns anos. Tratou, porém, de não dar, por enquanto, nenhuma demonstração do seu intento.

Embora certo da sua vocação, mas desconfiando da sua fraqueza, e para não ser vítima de uma ilusão, procurou o seu mestre no liceu e director espiritual Pe. Bompiani, Jesuíta, e a ele abriu-se inteiramente, fazendo do conselho deste depender a sua resolução definitiva.

O exame foi feito com toda sinceridade, e tendo tomado em consideração todos os factores influentes no passado da vida do jovem, o Pe. Bompiani não duvidou de se tratar de uma vocação verdadeira e animou o jovem a segui-la. Consultas que fez com mais dois sacerdotes da sua inteira confiança tiveram o mesmo resultado. Francisco resolveu então a pedir a sua admissão na “Congregação dos Passionistas”.

Comunicar ao pai a resolução tomada, não foi fácil. Mas desta vez o Sr. Sante, homem consciencioso, vendo a aflição e a firmeza do seu filho, não mais se opôs; tomado, porém, de espanto quando soube que a Congregação por Francisco escolhida, a dos Passionistas, era de todas a mais austera. Se bem que não se opusesse à vontade do filho, tratou de procrastinar a execução do seu plano e impor condições. 

Francisco, porém, ficou firme. Tomou, ainda e pela última vez, parte na solenidade da distribuição dos prémios no colégio dos Jesuítas, fez como sempre um papel brilhante no palco, despediu-se dos seus professores, dos seus amigos e, em companhia de seu irmão Luiz, da Ordem Dominicana, por ordem de seu pai, fez uma visita ao seu tio Cesare, cónego da Basílica de Loreto, e a um parente de seu pai, Frei João Baptista da Civitanova, guardião de um convento dos capuchinhos, levando para ambos carta de Sante Possenti em que este pedia examinassem a vocação do jovem. Tanto o cónego como o capuchinho carregaram bastante as cores da vida austera na Congregação dos Passionistas, que absolutamente não lhe conviria, a ele, moço de dezoito anos, acostumado a seguir as suas vontades, sem restrição de comodidades.  

Quando da visita à Santa Casa, em Loreto, Francisco aproveitou largamente para recomendar-se a Nossa Senhora. Não mais arredou do caminho encetado. De Loreto foi para Convento Morrovale, dos Passionistas, onde em 21 de Setembro de 1856 recebeu o hábito com o nome de Gabriele dell’Adolorata (Gabriel de Nossa Senhora das Dores). Admitido no noviciado, escreveu ao pai e aos irmãos comunicando-lhes o fato. Ao pai, pede perdão; aos irmãos recomenda amor filial e boa conduta. A carta, embora de simplicidade encantadora, é um documento admirável de sentimento filial e católico. Aos companheiros seus de estudo, dirigiu cartas também. Despede-se, pede perdão de maus exemplos que julgava ter dado; aconselha-os a fugir das más companhias, do teatro, das más leituras e das conversas inúteis.

Convencidíssimo da sua vocação religiosa, longe do mundo, da sociedade e da família, não mais teve outro ideal que subir às culminâncias da perfeição.

Inconfundível era sua personalidade no meio dos seus companheiros do noviciado. Sem perder as notas características do seu carácter, a jovialidade, a alegria de espírito, a amenidade de trato, era ele inexcedível não só na exatidão do cumprimento dos exercícios regulares, como também na prática das virtudes cristãs e monásticas. E, se perscrutarmos as causas profundas desta mudança radical na vida de Gabriel, duas conseguiremos encontrar, aliás suficientes e esclarecedoras: o ardente amor a Jesus Crucificado e à Santa Eucaristia, a sua devoção singular à Mãe de Deus (em particular a Nossa Senhora das Dores) e a sua inalterada mortificação, por meio da qual deu morte aos seus desordenados apetites, um por um.

Tendo corrido o ano de provação, Gabriel foi admitido à profissão e mandado para várias casas da Congregação, com o fim de completar os seus estudos de Teologia. Durante os anos de preparação para o sacerdócio, superiores e companheiros viram no santo jovem o modelo mais perfeito de todas as virtudes, e cumpridor exatíssimo dos seus deveres.

Quando chegou à idade de vinte e três anos, anunciaram-se os primeiros sintomas da moléstia que no prazo de um ano havia de levá-lo ao túmulo: a tuberculose pulmonar. O longo tempo da sua enfermagem, Gabriel aproveitou-o para ainda mais se aprofundar na sua devoção predileta à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo e a Maria Santíssima, Mãe das dores

Em Fevereiro de 1862, ainda pôde andar e receber a santa Comunhão na igreja, junto com os seus companheiros. Inesperadamente o mal se agravou; foi preciso avisá-lo para receber os últimos sacramentos. A notícia assustou-o por um momento só; mas imediatamente recuperou a habitual calma, que logo se transformou numa alegria antes nunca experimentada. O modo de receber o santo Viático comoveu e edificou a todos que assistiram. Não mais largava a imagem do Crucificado, que cobria de beijos, e ao seu alcance tinha a estátua de Nossa Senhora das Dores, que frequentemente apertava ao seu peito, proferindo afetuosas jaculatórias, como estas:

“Minha mãe, faze depressa!”
“Jesus, Maria, José, expire eu em paz em vossa companhia!”
“Maria, mãe da graça, mãe da misericórdia, do inimigo nos protegei, e na hora da morte nos recebei”.

Poucos momentos antes do desenlace, o agonizante, que parecia dormir, de repente, todo a sorrir, virou o rosto para esquerda, fixando olhar para um determinado ponto. Como que tomado de uma grande comoção diante de uma visão impressionante, deu um profundo suspiro de afecto e nesta atitude, sempre sorridente, com as mãos apertando as imagens do Crucifixo e da Mater Dolorosa, passou desta vida para a outra.

Assim morreu o santo jovem na idade de vinte e quatro anos, na manhã de 27 de Fevereiro de 1862. Foi sepultado na igreja da Congregação, em Isola Del Gran Sasso. Trinta anos depois fez-se o reconhecimento do seu corpo. Nesta ocasião, com o simples contacto de suas relíquias verificou-se a cura prodigiosa de uma jovem que a tuberculose pulmonar tinha reduzido ao último estado. Reproduziram-se aos milhares os prodígios que foram constatados à invocação do Santo.

Em 1908 o Papa Pio X inscreveu o nome de Gabriel da Virgem Dolorosa (ou de Nossa Senhora das Dores) no catálogo dos Beatos, e, em 1920, Bento XV decretou-lhe as solenes honras da Canonização. Pio XI estendeu a sua festa a toda a Igreja, em 1932.


ORAÇÃO

Ó Deus, que ensinastes a São Gabriel a honrar com assiduidade as dores de vossa Mãe dulcíssima, e por Ela o elevaste à glória da Santidade e dos milagres, concedei-nos, pela sua intercessão e seus exemplos, a graça de partilharmos tão intimamente as dores de Vossa Mãe Santíssima e que, por sua maternal proteção, consigamos a salvação eterna.


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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

É permitido comer crocodilo na Sexta-Feira da Quaresma

Sendo Sexta-Feira, ainda para mais na Quaresma, os católicos sabem que não podem comer carne. Para quem tiver dúvidas, este decreto esclarece que crocodilo/jacaré não é carne. Bom apetite.



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Papa Leão, escute-nos! Estamos órfãos!

No livro-entrevista com Elise Ann Allen: "Léon XIV, ciudadano del mundo, misionero del siglo XXI (Penguin Peru, 2025)", o Papa Leão abordou o tema da liturgia tradicional, e dos seus defensores, dizendo que não nos conhece bem e que ainda não teve ocasião de encontrar fiéis da nossa sensibilidade.

Pedimos a Christian Marquant, presidente do Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, que organiza todos os anos, em Outubro, uma peregrinação a Roma, que partilhasse connosco as suas reflexões e experiências no domínio do diálogo com as autoridades da Igreja, tanto no Vaticano como em França, com a CEF ou com os chamados “sínodos diocesanos”.

PAIX LITURGIQUE (PL) – Caro Christian, como compreende a observação do Santo Padre?
Christian Marquant (CM) – Antes de mais, devemos agradecer ao Papa Leão por se interessar por nós e por esta questão. Depois, se me permite, é preciso voltarmos à realidade actual.

PL – Qual é essa realidade?
CM – É muito simples: tudo é feito na Igreja para nos tornar inaudíveis e para fazer crer que não existimos... Infelizmente, os inimigos da paz fazem isso há muito tempo, mas especialmente há quatro anos, pois anteriormente, mesmo que a situação não fosse idílica, permitia-nos conservar um laço directo e real com as autoridades da Igreja.

PL – Pode precisar melhor?
CM – Tomemos um exemplo: desde 1988 e até 2021 existia em Roma a Comissão Ecclesia Dei. Teoricamente tinha por missão “facilitar a plena comunhão eclesial dos padres, seminaristas e comunidades religiosas que mantinham vínculos com a FSSPX”. Um objectivo algo estreito, o que levava a FSSPX a dizer que era uma máquina de “rallying”... Na realidade, era competente em matéria das comunidades tradicionais. Mas, concretamente, tornara-se também para nós, leigos, um verdadeiro lugar de encontro e de diálogo muito livre.

PL – De que modo?
CM – Os leigos podiam dirigir-se a ela por correio e, quando passavam por Roma, encontrar os seus responsáveis e membros para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – Chegou a fazê-lo?
CM – Inúmeras vezes! Quer no tempo do Cardeal Mayer, que foi Presidente da Comissão, quer dos Secretários da mesma, Mons. Perl – que era um grande homem de escuta, sempre muito aberto – Mons. Pozzo, Mons. Descourtieux e, evidentemente, todas as suas equipas.

PL – Isso terminou?
CM – Desde 19 de Janeiro de 2019, a Comissão foi suprimida.

PL – Mas existem outros interlocutores possíveis em Roma?
CM – Outrora existia um costume bem católico e caritativo de receber nos Dicastérios, no nosso caso no do Culto Divino.

PL – Cujos responsáveis os acolhiam?
CM – Amistosamente, pode-se dizer. Assim, desde há trinta anos creio ter sido recebido por todos os Prefeitos do Culto Divino – os cardeais Medina, Arinze, Cañizares e Robert Sarah – para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – E isso foi útil?
CM – Utilíssimo! Foi graças a esses contactos que pudemos ser recebidos pelo Cardeal Ratzinger e por muitos outros cardeais ou oficiais da Cúria. Foi também assim que pudemos, por exemplo, convidar o Cardeal Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, a celebrar Missa em São Pedro de Roma na primeira peregrinação Summorum Pontificum, em 2012, e que pudemos evocar uma multidão de outros assuntos.

PL – Mas isso já não é possível?
CM – Desde a partida do Cardeal Sarah do Dicastério do Culto Divino, já não me foi possível encontrar o seu sucessor, o Cardeal Roche.

PL – Tentou?
CM – Solicitei o cardeal por carta e por correio electrónico inúmeras vezes, passei mais vezes ainda pelos seus gabinetes... em vão. O Cardeal Roche está muito ocupado...

PL – É desagradável?
CM – É simplesmente dramático. Sentimo-nos como órfãos. Nos Dicastérios e nas repartições, fala-se da liturgia tradicional e daqueles que a ela estão ligados, mas sem nos conhecer, sem manter o mínimo contacto connosco.

PL – Nenhum diálogo?
CM – Não, nenhum diálogo, numa época em que este é diariamente apresentado como uma caridade indispensável.

PL – Mas existe o Sínodo dos Bispos e as suas assembleias…
CM – O Sínodo dos Bispos em Roma, como os sínodos diocesanos, multiplica as suas assembleias, mas ignora-nos como se não existíssemos.

PL – Não exagera um pouco?
CM – Poderia escrever um verdadeiro livro sobre o último sínodo da Diocese de Versalhes, ao qual muitos grupos quiseram participar, mas todos foram afastados. O diálogo só existe com aqueles que partilham aproximadamente os mesmos pontos de vista!

PL – E ao nível das Conferências Episcopais?
CM – A minha experiência limita-se à França, mas também aí enfrentamos um encerramento autístico. Embora numerosos grupos estejam representados junto da CEF, não existe qualquer representação, mesmo informal, dos fiéis tradicionais junto dos nossos bispos, nem um contacto estabelecido com eles. Não é por falta de o ter pedido muitas vezes. Nem sequer contactos oficiosos. Nada. Só na Igreja se vê isto – seria inimaginável no mundo político ou empresarial.

PL – Mas não existe um grupo de reflexão CEF/Tradição na Igreja de França?
CM – A CEF só conhece as comunidades ex-Ecclesia Dei, que falam apenas em nome próprio – e, aliás, é de ver a forma cavaleira como são tratadas. Ora, há numerosos padres diocesanos que celebram a Missa tradicional. E há sobretudo a massa dos fiéis leigos que, para a CEF, não existem.

PL – Porque os leigos constituem uma realidade particular?
CM – Pensava eu que isso era, teoricamente, o caso desde o Concílio Vaticano II. Mas parece que tal não concerne a todos os leigos, apenas àqueles que aderem às ideias novas.

PL – Sois, portanto, órfãos?
CM – Somos órfãos, ignorados e, digamo-lo, cuidadosamente afastados da vida eclesial. Pelo menos, as palavras do Papa deixam-nos esperar que as coisas possam mudar. Esse será o objecto das nossas orações durante a décima quarta peregrinação Summorum Pontificum a Roma, de 23 a 25 de Outubro próximo.

in Paix Liturgique


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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Apelo fraternal ao Papa Leão XIV para construir uma ponte com a FSSPX - D. Athanasius Schneider

A situação actual relativa às sagrações episcopais na Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX) despertou subitamente toda a Igreja. Num curto espaço de tempo, após o anúncio de 2 de Fevereiro de que a FSSPX irá proceder a estas sagrações, surgiu, em amplos sectores do mundo católico, um debate intenso e frequentemente carregado de emoção. O leque de vozes nesse debate vai desde a compreensão, benevolência, observação neutra e bom senso, até à rejeição irracional, condenação peremptória e até ao ódio visceral. Embora haja motivos de esperança — e de modo algum irrealista — de que o Papa Leão XIV possa efectivamente aprovar as sagrações episcopais, já se começam a apresentar em linha propostas de texto para uma bula de excomunhão da FSSPX.

As reacções negativas, embora muitas vezes bem intencionadas, revelam que o cerne do problema ainda não foi compreendido com suficiente honestidade e clareza. Nota‑se uma tendência para permanecer à superfície. As prioridades na vida da Igreja invertem‑se, elevando a dimensão canónica e jurídica — isto é, um certo positivismo jurídico — ao critério supremo. Além disso, por vezes falta consciência histórica quanto à prática da Igreja no que toca às ordenações episcopais. Assim, a desobediência é demasiado facilmente equiparada a cisma. Os critérios de comunhão episcopal com o Papa, e consequentemente a compreensão daquilo que realmente constitui o cisma, são considerados de modo excessivamente unilateral em comparação com a prática e a auto-consciência da Igreja na era patrística, o tempo dos Padres da Igreja.

Neste debate, estão a ser estabelecidos novos quase‑dogmas que não existem no Depositum fidei. Estes quase‑dogmas sustentam que o consentimento do Papa para a sagração de um bispo é de direito divino, e que uma sagração realizada sem esse consentimento, ou mesmo contra uma proibição papal, constitui em si mesma um acto cismático. Porém, a prática e a compreensão da Igreja no tempo dos Padres, e durante um longo período depois disso, contrariam tal visão. Além disso, não há opinião unânime sobre esta matéria entre os teólogos reconhecidos da tradição bi-milenar da Igreja. Séculos de prática eclesial, assim como o direito canónico tradicional, opõem‑se também a tais afirmações absolutizantes. Segundo o Código de Direito Canónico de 1917, uma sagração episcopal realizada contra a vontade do Papa não era punida com excomunhão, mas apenas com suspensão. Com isto, a Igreja manifestava claramente que não considerava tal acto como cismático.

A aceitação do primado do Papa como verdade revelada é muitas vezes confundida com as formas concretas — formas que se foram desenvolvendo ao longo da História — pelas quais um bispo exprime a sua unidade hierárquica com o Papa. Crer no Primado do Papa, reconhecer o Papa concreto, aderir com ele a tudo o que a Igreja ensinou infalível e definitivamente e observar a validade da liturgia sacramental é de direito divino. Contudo, uma visão redutora que equipara a desobediência a uma ordem papal com o cisma — mesmo no caso de uma sagração episcopal realizada contra a sua vontade — era estranha aos Padres da Igreja e ao direito canónico tradicional. Por exemplo, em 357, São Atanásio desobedeceu à ordem do Papa Libério, que o instruíra a entrar em comunhão hierárquica com a esmagadora maioria do episcopado, o qual era de facto ariano ou semi‑ariano. Como consequência, foi excomungado. Neste caso, São Atanásio desobedeceu por amor à Igreja e à honra da Sé Apostólica, procurando precisamente salvaguardar a pureza da doutrina de qualquer suspeita de ambiguidade.

No primeiro milénio da vida da Igreja, as sagrações episcopais eram geralmente realizadas sem permissão papal formal, e não se exigia que os candidatos fossem aprovados pelo Papa. A primeira norma canónica sobre sagrações episcopais, emanada por um Concílio Ecuménico, foi a de Niceia, em 325, que requeria que um novo bispo fosse consagrado com o consentimento da maioria dos bispos da província. Pouco antes da sua morte, num período de confusão doutrinal, São Atanásio escolheu pessoalmente e consagrou o seu sucessor — São Pedro de Alexandria —, para garantir que nenhum candidato inadequado ou fraco viesse a assumir o episcopado. De modo semelhante, em 1977, o Servo de Deus Cardeal Iosif Slipyj consagrou secretamente três bispos em Roma sem a aprovação do Papa Paulo VI, plenamente consciente de que o Papa não o permitiria por causa da Ostpolitik vaticana daquela época. Ainda assim, quando Roma tomou conhecimento destas sagrações secretas não aplicou a pena de excomunhão.

Para evitar mal‑entendidos, em circunstâncias normais — e quando não há confusão doutrinal nem tempo de perseguição extraordinária — é preciso, evidentemente, fazer tudo o possível para observar as normas canónicas da Igreja e obedecer ao Papa nas suas injunções justas, a fim de preservar a unidade eclesial de modo mais eficaz e visível.

Mas a situação actual na vida da Igreja pode ser ilustrada com a seguinte parábola: Irrompe um incêndio numa grande casa. O chefe dos bombeiros permite apenas o uso de novos equipamentos de combate ao fogo, embora se tenha demonstrado que são menos eficazes do que os antigos instrumentos. Um grupo de bombeiros desafia esta ordem e continua a usar o material experimentado e comprovado — e, de facto, o fogo é contido em muitos lugares. No entanto, estes bombeiros são rotulados como desobedientes e cismáticos, e são castigados.

Prolongando a metáfora: o chefe dos bombeiros admite apenas aqueles que reconhecem o novo equipamento, seguem as novas regras de combate ao fogo e obedecem aos novos regulamentos do quartel. Mas, dada a dimensão evidente do incêndio, a luta desesperada contra ele e a insuficiência da equipa oficial de bombeiros, outros auxiliares — apesar da proibição do chefe — intervêm abnegadamente, com perícia, conhecimento e boas intenções, acabando por contribuir para o êxito dos esforços do próprio chefe.

Perante um comportamento tão rígido e incompreensível, apresentam‑se duas possíveis explicações: ou o chefe dos bombeiros nega a gravidade do incêndio, à semelhança da comédia francesa 'Tout va très bien, Madame la Marquise!'; ou, na realidade, o chefe deseja que grandes partes da casa ardam, para que mais tarde possam ser reconstruídas segundo um novo projecto.

A crise actual em torno das sagrações episcopais anunciadas — mas ainda não aprovadas — expõe, diante dos olhos de toda a Igreja, uma ferida que arde em brasa há mais de sessenta anos. Esta ferida pode ser descrita, em linguagem figurada, como um cancro eclesial — concretamente, o cancro eclesial das ambiguidades doutrinais e litúrgicas.

Recentemente, apareceu um excelente artigo no blogue Rorate Caeli, escrito com rara clareza teológica e honestidade intelectual, com o título: “The Long Shadow of Vatican II: Ambiguity as Ecclesial Cancer”. O problema fundamental de algumas afirmações ambíguas do Concílio Vaticano II é que o Concílio preferiu um tom pastoral em detrimento da precisão doutrinal. Pode concordar‑se com o autor quando ele afirma:

«O problema não é que o Vaticano II tenha sido herético. O problema é que foi ambíguo. E nessa ambiguidade vimos as sementes da confusão que floresceram em alguns dos mais preocupantes desenvolvimentos teológicos da história moderna da Igreja. Quando a Igreja, mesmo que sem intenção, fala em termos vagos, as almas estão em perigo.»

O autor continua:
«Quando um “desenvolvimento” doutrinal parece contradizer o que vinha antes, ou quando exige décadas de ginástica teológica para ser reconciliado com o ensinamento magisterial anterior, devemos perguntar: trata‑se de desenvolvimento, ou de ruptura disfarçada de desenvolvimento?»

Pode supor‑se com razoabilidade que a FSSPX nada mais deseja do que ajudar a Igreja a sair desta ambiguidade na doutrina e na liturgia e a reencontrar a sua salutar clareza perene — tal como o Magistério da Igreja, guiado pelos Papas, o fez inequivocamente ao longo da História, depois de cada crise marcada pela confusão doutrinal e pela ambiguidade.

Na realidade, a Santa Sé deveria estar agradecida à FSSPX, porque ela é actualmente quase a única grande realidade eclesial que aponta franca e publicamente a existência de elementos ambíguos e equívocos em certas afirmações do Concílio e do Novus Ordo Missae. Neste esforço, a FSSPX é guiada por um amor sincero à Igreja: se não amasse a Igreja, o Papa e as almas, não empreenderia este trabalho nem se empenharia em dialogar com as autoridades romanas — e sem dúvida teria uma vida mais fácil.

Comovem profundamente as seguintes palavras de Mons. Marcel Lefebvre, que reflectem a atitude da actual direcção e da maior parte dos membros da FSSPX:

«Nós cremos em Pedro, nós cremos no sucessor de Pedro! Mas, como o Papa Pio IX diz muito bem na sua constituição dogmática, o Papa recebeu o Espírito Santo não para fazer novas verdades, mas para nos manter na fé de sempre. Esta é a definição do Papa feita por ocasião do Concílio Vaticano I pelo Papa Pio IX. E é por isso que estamos convencidos de que, ao manter estas tradições, manifestamos o nosso amor, a nossa docilidade, a nossa obediência ao Sucessor de Pedro. Não podemos permanecer indiferentes perante a degradação da fé, da moral e da liturgia. Isso está fora de questão! Não queremos separar‑nos da Igreja; pelo contrário, queremos que a Igreja continue!»

Se alguém considera entre os seus maiores sofrimentos espirituais o facto de ter dificuldades com o Papa, tal é por si só uma prova eloquente de que não há intenção cismática. Os verdadeiros cismáticos chegam mesmo a gloriar‑se da sua separação da Sé Apostólica. Verdadeiros cismáticos jamais suplicariam humildemente ao Papa que reconhecesse os seus bispos.

Quão verdadeiramente católicas são, então, estas palavras de Mons. Marcel Lefebvre:

«Lamentamos infinitamente, é uma dor imensa para nós, pensar que estamos em dificuldade com Roma por causa da nossa fé! Como é possível? É algo que ultrapassa a imaginação, que nunca teríamos podido imaginar, que nunca teríamos podido acreditar, sobretudo na nossa infância — então, quando tudo era uniforme, quando toda a Igreja acreditava na sua unidade geral e tinha a mesma Fé, os mesmos Sacramentos, o mesmo sacrifício da Missa, o mesmo catecismo.»

Devemos examinar honestamente as evidentes ambiguidades relativas à liberdade religiosa, ao ecumenismo e à colegialidade, bem como as imprecisões doutrinais do Novus Ordo Missae. A este respeito, deve ler‑se o livro recentemente publicado pelo Arquimandrita Boniface Luykx, perito conciliar e renomado estudioso de liturgia, cujo título é muito eloquente: "A Wider View of Vatican II. Memories and Analysis of a Council Consultor".

Como disse uma vez G. K. Chesterton: «Ao entrar na igreja, pedem‑nos que tiremos o chapéu, não a cabeça.» Seria uma tragédia se a FSSPX fosse completamente cortada, e a responsabilidade por tal divisão recairia principalmente sobre a Santa Sé. A Santa Sé deveria acolher a FSSPX, oferecendo‑lhe ao menos um mínimo de integração na Igreja, e depois continuar o diálogo doutrinal. A Santa Sé demonstrou notável generosidade em relação ao Partido Comunista Chinês, permitindo‑lhe escolher candidatos a bispos — e, contudo, os seus próprios filhos, as dezenas e dezenas de milhares de fiéis da FSSPX, são tratados como cidadãos de segunda categoria.

Dever‑se‑ia permitir à FSSPX que desse a sua contribuição teológica em ordem a clarificar, completar e, se necessário, emendar aquelas afirmações dos textos do Concílio Vaticano II que suscitam dúvidas e dificuldades doutrinais. Deve ter‑se igualmente em conta que, nesses textos, o Magistério da Igreja não pretendeu pronunciar‑se com definições dogmáticas dotadas da nota de infalibilidade (cf. Paulo VI, Audiência Geral, 12 de Janeiro de 1966).

A FSSPX faz exactamente a mesma Professio fidei que fizeram os Padres do Concílio Vaticano II, conhecida como a Professio fidei tridentino‑vaticana. Se, segundo as palavras explícitas do Papa Paulo VI, o Concílio Vaticano II não apresentou doutrinas definitivas nem tencionou fazê‑lo, e se a fé da Igreja permanece a mesma antes, durante e depois do Concílio, por que motivo a profissão de fé que era válida na Igreja até 1967 deixaria de ser considerada válida, de repente, como marca de verdadeira crença católica?

Todavia, a Professio fidei tridentino‑vaticana é considerada insuficiente pela Santa Sé no que toca à FSSPX. Não constituiria precisamente essa Professio fidei tridentino‑vaticana “o mínimo” para a comunhão eclesial? Se isso não é um mínimo, então o que, honestamente, qualificaria como “mínimo”? À FSSPX é exigido, como conditio sine qua non, que faça uma Professio fidei pela qual devam ser aceitos os ensinamentos de carácter pastoral, e não definitivo, do último Concílio e do subsequente Magistério. Se isto é realmente o chamado “requisito mínimo”, então o Cardeal Victor Fernández parece brincar com as palavras!

O Papa Leão XIV afirmou nas Vésperas ecuménicas de 25 de Janeiro de 2026, no encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que já existe unidade entre católicos e cristãos não católicos, porque partilham o mínimo da fé cristã: «Partilhamos a mesma fé no único Deus, Pai de todos os homens; confessamos juntos o único Senhor e verdadeiro Filho de Deus, Jesus Cristo, e o único Espírito Santo, que nos inspira e impele rumo à plena unidade e ao testemunho comum do Evangelho» (Carta Apostólica In Unitate Fidei, 23 de Novembro de 2025, 12). E declarou ainda: «Somos um! Já o somos! Reconheçamo‑lo, experimentemo‑lo e tornemo‑lo visível!»

Como se pode conciliar esta afirmação com a alegação feita por representantes da Santa Sé e por alguns altos prelados de que a FSSPX não está unida doutrinalmente à Igreja, dado que a FSSPX professa a Professio fidei dos Padres do Concílio Vaticano II — a Professio fidei tridentino‑vaticana?

Novas medidas pastorais provisórias concedidas à FSSPX para o bem espiritual de tantos fiéis católicos exemplares constituiriam um testemunho profundo da caridade pastoral do Sucessor de Pedro. Agindo assim, o Papa Leão XIV abriria o seu coração paterno àqueles católicos que, de certo modo, vivem numa periferia eclesial, permitindo‑lhes experimentar que a Sé Apostólica é verdadeiramente Mãe também para a FSSPX.

As palavras do Papa Bento XVI deveriam despertar a consciência daqueles, no Vaticano, que hão‑de decidir sobre a concessão da permissão para as sagrações episcopais da FSSPX. Ele recorda‑nos:
«Olhando para o passado, para as divisões que, ao longo dos séculos, rasgaram o Corpo de Cristo, tem‑se continuamente a impressão de que, em momentos críticos em que as divisões se produziam, não foi feito o suficiente, por parte dos responsáveis da Igreja, para manter ou recuperar a reconciliação e a unidade. Tem‑se a impressão de que omissões por parte da Igreja tiveram a sua quota de culpa pelo facto de estas divisões se terem podido enrijecer. Este olhar para o passado impõe‑nos hoje uma obrigação: fazer todo o possível para permitir que todos aqueles que desejam verdadeiramente a unidade nela permaneçam ou a alcancem de novo.» (Carta aos Bispos por ocasião da publicação da Carta Apostólica «motu proprio data» Summorum Pontificum, sobre o uso da Liturgia Romana anterior à reforma de 1970, 7 de Julho de 2007)

«Podemos ser totalmente indiferentes a uma comunidade que conta 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos de nível universitário, 117 irmãos religiosos, 164 religiosas e milhares de fiéis leigos? Devemos deixá‑la, com ligeireza, afastar‑se ainda mais da Igreja? E não deveria também a grande Igreja permitir‑se ser generosa, consciente da sua grande largueza, consciente da promessa que lhe foi feita?» (Carta aos Bispos da Igreja Católica a propósito da remissão da excomunhão dos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, 10 de Março de 2009).

Medidas pastorais provisórias e mínimas a favor da FSSPX, tomadas para o bem espiritual das dezenas de milhares dos seus fiéis em todo o mundo — incluindo um mandato pontifício para sagrações episcopais — criariam as condições necessárias para esclarecer com calma mal‑entendidos, questões e dúvidas de natureza doutrinal que nascem de certas afirmações dos documentos do Concílio Vaticano II e do subsequente Magistério Pontifício. Ao mesmo tempo, tais medidas forneceriam à FSSPX a oportunidade de dar uma contribuição constructiva para o bem de toda a Igreja, mantendo uma clara distinção entre o que pertence à fé divinamente revelada e à doutrina proposta de modo definitivo pelo Magistério, e aquilo que tem sobretudo carácter pastoral em circunstâncias históricas concretas, sendo por isso aberto a um estudo teológico atento, como sempre foi a prática ao longo da vida da Igreja.

Com sincera solicitude pela unidade da Igreja e pelo bem espiritual de tantas almas, dirijo um apelo, com caridade reverente e fraterna, ao nosso Santo Padre o Papa Leão XIV:

Santíssimo Padre, concedei o Mandato Apostólico para as sagrações episcopais da FSSPX. Vós sois também o pai de numerosos filhos e filhas — duas gerações de fiéis que, até agora, têm sido assistidos pela FSSPX, que amam o Papa e desejam ser verdadeiros filhos e filhas da Igreja Romana. Portanto, abstrai‑vos dos partidarismos de outrem e, com grande espírito paternal e verdadeiramente agostiniano, mostrai que sois construtor de pontes, como prometestes diante do Mundo inteiro quando destes a vossa primeira bênção após a eleição. Não fiqueis na História da Igreja como aquele que não construiu esta ponte — ponte que poderia ser erguida neste momento verdadeiramente providencial, com vontade generosa — e que, em vez disso, permitiu uma ulterior divisão realmente desnecessária e dolorosa no seio da Igreja, enquanto ao mesmo tempo decorrem processos sinodais que se vangloriam da máxima amplitude pastoral e inclusividade eclesial. Como a Vossa Santidade sublinhou recentemente:

«Comprometamo‑nos a desenvolver ulteriormente práticas sinodais ecuménicas e a partilhar uns com os outros quem somos, o que fazemos e o que ensinamos (cf. Francisco, Para uma Igreja sinodal, 24 de Novembro de 2024).»

Santíssimo Padre, se concederdes o Mandato Apostólico para as sagrações episcopais da FSSPX, a Igreja do nosso tempo nada perderá. Sereis um verdadeiro construtor de pontes, e ainda mais, um construtor de pontes exemplar, pois sois o Sumo Pontífice, Summus Pontifex.

+Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana
24 de Fevereiro de 2026

[1] Estatísticas da FSSPX em 2025: Total de membros: 1482; Bispos: 2; Sacerdotes (excluindo os bispos): 733; Seminaristas (incluindo os ainda não comprometidos): 264; Irmãos religiosos: 145; Oblatas: 88; Irmãs religiosas: 250; Idade média dos membros: 47 anos; Países servidos: 77; Distritos e Casas Autónomas: 17; Seminários: 5; Escolas: 94 (das quais 54 em França).


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Doutor da Igreja alertou para as horríveis consequências da Sodomia

São Pedro Damião (1007 e 1072) foi um monge reformador, que escreveu um livro a explicar o grande mal das relações entre pessoas do mesmo sexo, especialmente membros do Clero; e a grande corrupção que vinha daí para a Igreja. Este aviso é mais actual do que nunca:

Este vício não é absolutamente comparável a nenhum outro, porque supera a todos em enormidade. Este vício produz, com efeito, a morte dos corpos e a destruição das almas. Polui a carne, extingue a luz da inteligência, expulsa o Espírito Santo do templo do coração do homem, nele introduzindo o diabo que é o instigador da luxúria. 

Conduz ao erro, subtrai totalmente a verdade da alma enganada, prepara armadilhas para os que nele incorrem, obstrui o poço para que daí não saiam os que nele caem. Abre-lhes o inferno, fecha-lhes a porta do Céu; torna herdeiro da infernal Babilónia aquele que era cidadão da celeste Jerusalém, transformando-o de estrela do céu em palha para o fogo eterno. Arranca o membro da Igreja e lança-o no voraz incêndio da geena ardente.

Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada. Ele viola a temperança, mata a pureza, jugula a castidade, trucida a virgindade, que é irrecuperável, com a espada da mais infame união. Tudo infecta, tudo macula, tudo polui, e tanto quanto está em si, nada deixa puro, nada alheio à imundície, nada limpo. Para os puros, como diz o Apóstolo, todas as coisas são puras; para os impuros e infiéis, nada é puro, mas estão contaminados o seu espírito e a sua consciência (Tit. I, 15).

Esse vício expulsa do coro da assembleia eclesiástica e obriga a unir-se com os energúmenos e com os que trabalham com o diabo, separa a alma de Deus para ligá-la aos demónios. Essa pestilentíssima rainha dos sodomitas torna os que obedecem às leis de sua tirania torpes aos homens e odiáveis a Deus. 

Impõe nefanda guerra contra Deus e obriga a alistar-se na milícia do espírito perverso, separa do consórcio dos Anjos e, privando-a da sua nobreza, impinge à alma infeliz o jugo do seu próprio domínio. Despoja os seus sequazes das armas das virtudes e expõe-os, para que sejam transpassados, aos dardos de todos os vícios. Humilha na Igreja, condena no fórum, conspurca secretamente, desonra em público, rói a consciência como um verme, queima a carne como o fogo.

Arde a mísera carne com o furor da luxúria, treme a fria inteligência com o rancor da suspeita, e no peito do homem infeliz agita-se um caos como que infernal, sendo ele atormentado por tantos aguilhões da consciência quanto é torturado pelos suplícios das penas. Sim, tão logo a venenosíssima serpente tiver cravado os dentes na alma infeliz, imediatamente fica ela privada de sentidos, desprovida de memória, embota-se o gume da sua inteligência, esquece-se de Deus e até mesmo de si. 

Com efeito, essa peste destrói os fundamentos da fé, desfibra as forças da esperança, dissipa os vínculos da caridade, aniquila a justiça, solapa a fortaleza, elimina a esperança, embota o gume da prudência. E que mais direi, uma vez que ela expulsa do templo do coração humano toda a força das virtudes e aí introduz, como que arrancando as trancas das portas, toda a barbárie dos vícios?

Com efeito, aquele a quem essa atrocíssima besta tenha engolido, entre as suas fauces cruentas, impede-lhe, com o peso das suas correntes, a prática de todas as boas obras, precipitando-a em todos os despenhadeiros da sua péssima maldade. Assim, tão logo alguém tenha caído nesse abismo de extrema perdição, torna-se um desterrado da pátria celeste, separa-se do Corpo de Cristo. É confundido pela autoridade de toda a Igreja, condenado pelo juízo de todos os Santos Padres, desprezado entre os homens na terra, reprovado pela sociedade dos cidadãos do Céu, cria para si uma terra de ferro e um céu de bronze. 

Por um lado, não consegue levantar-se, agravado que está pelo peso do seu crime, por outro, não consegue mais ocultar o seu mal no esconderijo da ignorância, não pode ser feliz enquanto vive, nem ter esperança quando morre, porque, agora, é obrigado a sofrer o opróbrio da derrisão dos homens e, depois, o tormento da condenação eterna. 

São Pedro Damião in 'Liber Gomorrhianus' (c. XVI, in Migne, Patristica Latina 175-177)


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Via-Sacra nas Sextas-Feiras da Quaresma

A Igreja recomenda que se reze a Via-Sacra em todas as Sextas-Feiras da Quaresma.

O CAMINHO DA CRUZ

Ajoelhai-vos ante o altar, fazei um Acto de Contrição, e fazei a intenção de ganhar as indulgências para vosso bem, ou para as almas no purgatório. Depois dizei: 

Senhor meu Jesus Cristo, Vós percorrestes com tão grande amor este caminho para morrer por mim, e eu Vos tenho ofendido tantas vezes apartando-me de Vós pelo pecado. Mas agora amo-vos com todo meu o coração, e, porque vos amo, arrependo-me sinceramente de todas as ofensas que vos tenho feito. 

Perdoai-me, Senhor, e permitais-me que vos acompanhe nesta viagem. Vais morrer por meu amor, pois eu também quero viver e morrer pelo vosso, amado Redentor meu. Sim, Jesus meu, quero viver sempre e morrer unido a Vós. 

1ª ESTAÇÃO: JESUS É CONDENADO À MORTE.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como Jesus, depois de haver sido açoitado e coroado de espinhos, foi injustamente sentenciado por Pilatos a morrer crucificado.

(Aqui faz-se uma pequena pausa para considerar brevemente o mistério, e o mesmo nas demais estações)

Adorado Jesus meu: os meus pecados foram maiores dos que de Pilatos, dos que vos sentenciaram a morte. Pelos méritos deste doloroso passo, suplico-vos que me assistais no caminho que vai recorrendo a minha alma para a eternidade.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

2ª ESTAÇÃO: JESUS LEVANDO A CRUZ ÀS COSTAS.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como Jesus, andando neste caminho com a cruz às costas, ia pensando em vós e oferecendo ao seu Pai pela vossa salvação a morte que ia padecer.

PAUSA

Amabilíssimo Jesus meu: abraço todas as tribulações que me tens destinadas até a morte, e vos rogo, pelos méritos da pena que sofrestes levando a vossa Cruz, me deis força para levar a minha com perfeita paciência e resignação.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

3ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera esta primeira queda de Jesus debaixo da Cruz.

PAUSA

As suas carnes estavam despedaçadas pelos açoites; a sua cabeça coroada de espinhos, e havia já derramado muito sangue, pelo qual estava tão frágil, que apenas podia caminhar; Levava ao mesmo tempo aquele enorme peso sobre os seus ombros e os soldados empurravam-n'O; de modo que muitas vezes desfaleceu e caiu neste caminho.

Amado Jesus meu: mais do que o peso da Cruz, são os meus pecados que Vos fazem sofrer tantas penas. Pelos méritos desta primeira queda, livrai-me de cair em pecado mortal.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

4ª ESTAÇÃO: ENCONTRO DE JESUS COM SUA MÃE SANTÍSSIMA.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera o encontro do Filho com a sua Mãe neste caminho.

PAUSA

Olharam-se mutuamente Jesus e Maria, e os seus olhares foram outras tantas flechas que trespassaram os seus amantes corações.

Amantíssimo Jesus meu: pela pena que experimentasteis neste encontro, concedei-me a graça de ser verdadeiro devoto de vossa Santíssima Mãe.

E Vós, minha aflita Rainha, que fostes abrumada de dor, alcançai-me com a vossa intercessão uma contínua e amorosa memoria da Paixão de vosso Filho.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

5ª ESTAÇÃO: JESUS AJUDADO POR SIMÃO CIRINEU A LEVAR A CRUZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como os judeus, ao ver que Jesus ia desfalecendo cada vez mais, temeram que Ele morresse no caminho e, como desejavam vê-Lo morrer da morte infame de Cruz, obrigaram Simão, o Cirineu, a que O ajudasse a levar aquele pesado madero.

PAUSA

Dulcíssimo Jesus meu: não quero recusar a Cruz, como o fez o Cirineu, antes bem a aceito e a abraço; aceito em particular a morte que tenhais destinada para mim, com todas as penas que a irão acompanhar. Vós haveis querido morrer pelo meu amor, eu quero morrer pelo vosso; ajudai-me com a vossa graça.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

6ª ESTAÇÃO: A PIEDOSA VERÓNICA ENXUGA O ROSTO DE JESUS.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como a devota mulher Verónica, ao ver a Jesus tão fatigado e com o rosto banhado em suor e sangue, lhe ofereceu um lenço.

PAUSA

E limpando-se com ele nosso Senhor, deixou impresso nele a sua santa imagem.

Amado Jesus meu: em outro tempo vosso rosto era lindíssimo; mas nesta dolorosa viagem, as feridas e o sangue mudaram a sua beleza. Ah! Senhor meu, também a minha alma ficou bela aos vossos olhos quando recebi a graça do baptismo, mas tenho-a desfigurado desde aí, com os meus pecados. Vós apenas, Oh! Redentor meu!, podeis restituir-lhe a beleza passada: fazendo-o pelos méritos da vossa Paixão.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

7ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera a segunda queda de Jesus debaixo da Cruz, na qual se lhe renova a dor das feridas da sua cabeça e de todo o seu corpo ao aflito Senhor.

PAUSA

Oh! pacientíssimo Jesus meu: tantas vezes me haveis perdoado e eu tenho voltado a cair e a ofender-vos. Ajudai-me, pelos méritos desta nova queda, a perseverar na vossa graça até a morte. Fazei que em todas as tentações que me assaltem, sempre e prontamente me encomende a Vós.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

8ª ESTAÇÃO: JESUS CONSOLANDO AS FILHAS DE JERUSALÉM.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como algumas piedosas mulheres, vendo a Jesus em tão lastimoso estado, que ia derramando sangue pelo caminho, choravam de compaixão; mas Jesus disse-lhes: não choreis por mim, mas sim por vós mesmas e pelos vossos filhos.

PAUSA

Aflito Jesus meu: choro as ofensas que Vos tenho feito, pelos castigos que tenho merecido, mas muito mais pelo desgosto que tenho dado a Vós, que tão ardentemente me haveis amado. Não é tanto o Inferno que me faz chorar os meus pecados, mas ter ofendido o vosso amor imenso.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

9ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ DEBAIXO DA CRUZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera a terceira queda de Jesus Cristo.

PAUSA

Extremada era a sua fraqueza e excessiva a crueldade dos soldados, que queriam fazer-lhe apressar o passo, quando apenas lhe restava forças para mover-se lentamente.

Atormentado Jesus meu: pelos méritos da debilidade que quisesteis padecer no vosso caminho até ao Calvario, dai-me a fortaleza necessária para vencer os respeitos humanos e todos os meus desordenados e perversos apetites, que me tem feito desprezar a vossa amizade.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

10ª ESTAÇÃO: JESUS NO ATO DE O DESPIREM E DE LHE DAREM O FEL A BEBER.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como ao ser despojado, Jesus, das suas vestes pelos soldados, estando a túnica interior pregada as carnes descoladas pelos açoites, lhe arrancaram também com ela a pele do seu sagrado corpo.

PAUSA

Inocente Jesus meu: Pelos méritos da dor que sofrestes, ajudai-me a desnudar-me de todos os afectos às coisas terrenas, para que possa eu pôr todo o meu amor em Vós, que tão digno sois de ser amado.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

11ª ESTAÇÃO: JESUS PREGADO NA CRUZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como Jesus, extendido sobre a Cruz, abre os seus pés e mãos e oferece ao Eterno Pai o sacrificio da sua vida por nossa salvação; cravado por aqueles bárbaros soldados, que depois levantam a Cruz ao alto, deixando-O morrer de dor, sobre aquele patíbulo infame.

PAUSA

Oh! desprezado Jesus meu: Cravai o meu coração a vossos pés para que permaneça sempre ali amando-vos e não vos deixe mais.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

12ª ESTAÇÃO: JESUS MORRE NA CRUZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como Jesus, depois de três horas de agonia, consumido de dores e exausto, inclina a cabeça e expira na Cruz.

PAUSA

Oh! morto Jesus meu: Beijo enternecido essa Cruz em que por mim haveis morrido. Eu, por causa dos meus pecados, teria merecido uma má morte, mas a vossa é a minha esperança. Eis, pois Senhor, pelos méritos da vossa Santíssima morte, concedei-me a graça de morrer abraçado aos vossos pés e consumido pelo vosso amor. Em vossas mãos encomendo minha alma.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

13ª ESTAÇÃO: JESUS É DESCIDO DA CRUZ.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como, havendo expirado o Senhor, foi baixado da Cruz por dois dos seus discípulos.

PAUSA

José e Nicodemos depositaram-nO nos braços da sua dolorosíssima Mãe, Maria, que O recebeu com ternura e O apertou contra o seu peito trespassado de dor.

Oh! Mãe dolorosíssima: Pelo amor desse Filho, admiti-me como vosso servo e rogai-Lhe por mim.

E Vós, Redentor meu, já que haveis querido morrer por mim, recebei-me no número dos que vos amam mais, pois eu não quero amar nada fora de Vós.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

14ª ESTAÇÃO: JESUS É COLOCADO NO SEPULCRO.

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz redimistes ao mundo.

Considera como os discípulos levaram a enterrar Jesus, acompanhando-O também a sua Santíssima Mãe, que O depositou no sepulcro com as suas próprias mãos.

PAUSA

Depois cerraram a porta do sepulcro e se retiraram.

Oh! Jesus meu sepultado : Beijo essa pedra que vos encerra. Vos ressuscitasteis depois de três dias; por vossa ressurreição vos peço e vos suplico me façais ressuscitar glorioso no dia do juízo final para estar eternamente convosco na glória, amando-vos e bendizendo-vos.

Amo-vos, ó Jesus, mais que a mim mesmo, e arrependo-me de todo coração de haver-vos ofendido; não permitais que volte a separar-me de Vós outra vez. Fazei que vos ame sempre e dispõe de mim como Vos agrade. Amém.

Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória e a seguinte oração.

Amado Jesus meu,
Por mim vais à morte,
Quero seguir a vossa sorte,
Morrendo por vosso amor;
Perdão e graça imploro,
Neste caminho de dor.

ACTO DE CONTRIÇÃO

Senhor Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós Quem sois sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, pesa-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos ter ofendido; pesa-me também por ter perdido o Céu e merecido o Inferno, e proponho firmemente, ajudado com o auxílio da vossa divina graça, emendar-me e nunca mais vos tornar a ofender, e espero alcançar o perdão das minhas culpas, pela vossa infinita misericórdia. Amém.

Santo Afonso Maria de Ligório


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