sábado, 16 de agosto de 2014

A nossa fé despertada pelo seu testemunho - Pe. Julián Carrón

Caro director,

«Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1Cor 12,26). Como não sentir toda a lancinante dor dos nossos irmãos cristãos perseguidos? É um clamor que aumenta sempre mais diante das desmedidas injustiças sofridas pelos cristãos em tantas partes do mundo, constrangidos a deixar tudo e a fugir das suas terras por um único motivo: o facto de serem cristãos. Parece inacreditável que no século XXI possa acontecer ainda uma coisa do género.

«Há mais mártires hoje do que nos primeiros séculos da Igreja; mais mártires! Nossos irmãos e irmãs. Sofrem! Eles vivem a fé até ao martírio» (18 de Maio de 2013). Como podemos permanecer indiferentes diante destas palavras do Papa Francisco? Evidentemente estamos diante de um novo desafio, como nos recorda a Evangelii Gaudium: «Às vezes, estes [desafios] manifestam-se em verdadeiros ataques à liberdade religiosa ou em novas situações de perseguição aos cristãos, que, em alguns países, atingiram níveis alarmantes de ódio e violência». (61)

Mas mesmo no meio destes sofrimentos, recebemos o testemunho da sua fé, como disse o Arcebispo de Mosul numa recente entrevista: «Foram eles que começaram a dizer-me que tinham necessidade de estar mais agarrados à nossa fé. Eram eles a dizer-me que tinham voltado a viver entre as inúmeras dificuldades. Eles diziam-mo por palavras e eu, pelo olhar deles, percebia que era verdade. Percebia-o pela maneira como o diziam», porque «quando cheguei era outra coisa. Eram outras pessoas. Mas passados seis meses, um ano, a sua transformação era palpável». (Passos, Julho/Agosto 2014). Espero que sejamos capazes de guardar o seu testemunho como um tesouro, de modo que este desperte a nossa fé para que, como eles, a possamos viver e testemunhar nas circunstâncias em que cada um é chamado a vivê-la.

«Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele. […] Ora vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte» (1Cor 12,26-27). Precisamente por esta pertença comum ao corpo eclesial queremos levar um pouco do peso da intolerância, incompreensão e violência que o mundo que recusa Cristo carrega às costas dos nossos irmãos.

Como não sentir a urgência de mostrar toda a nossa proximidade aos cristãos perseguidos? Fazemo-lo não só unindo-nos ao clamor de todos aqueles que sentem esta ferida infligida a si próprios, afim de que estes factos não passem debaixo de silêncio, mas sobretudo participando com todas as nossas comunidades de Comunhão e Libertação espalhadas em Itália na oração por eles, convocada pela CEI (conferência Episcopal Italiana ndt) a 15 de Agosto, unidos a toda a Igreja italiana. Obrigado pela hospitalidade.

in Avvenire


blogger

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

No dia 15 de Agosto a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora

"Pensa em Santa Maria, a cheia de graça, Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo: no seu Coração cabe a humanidade inteira sem diferenças nem discriminações. Cada um é seu filho, ou sua filha." 

S. Josemaria Escrivá in Sulco, 801 
Assumpta est Maria in coelum gaudent angeli! – Maria foi levada por Deus, em corpo e alma, para o Céu. E os Anjos rejubilam! Assim canta a Igreja. – E é assim, com este clamor de regozijo, que começamos a contemplação, desta dezena do Santo Rosário. Adormeceu a Mãe de Deus. – Em volta do seu leito encontram-se os doze Apóstolos. – Matias substituiu Judas. 

 E nós, por graça que todos respeitam, estamos também a seu lado. Mas Jesus quer ter Sua Mãe, em corpo e alma, na Glória. – E a Corte celestial ostenta todo o seu esplendor, para receber a Senhora. – Tu e eu – crianças, afinal – pegamos na cauda do esplêndido manto azul da Virgem e assim podemos contemplar aquela maravilha. A Trindade Santíssima recebe e cumula de honras a Filha, Mãe e Esposa de Deus... – E é tamanha a majestade da Senhora, que os Anjos perguntam Quem é esta? 

S. Josemaria Escrivá in Santo Rosário, 14


blogger

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Não há comunhão sem perdão - Papa Bento XVI

Não podemos comungar com o Senhor, se não comungarmos entre nós. Se nos queremos apresentar diante d'Ele, temos também de nos dirigir ao encontro uns dos outros. 

É por isso que é preciso aprender a grande lição do perdão: não deixar que a nossa alma seja corroída pelo ressentimento, mas abrir o nosso coração à ampla escuta do outro, abrir o nosso coração para compreendermos o seu ponto de vista e, eventualmente, para aceitarmos as suas desculpas e o dom generoso das nossas.

in Homilia no dia 29 de Maio de 2005


blogger

Começou a visita do Papa Francisco à Coreia do Sul



blogger

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Todas as verdades do Evangelho interessam - Papa Francisco


"Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, (...)"

Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 36

"Tal como existe uma unidade orgânica entre as virtudes, que impede de excluir qualquer uma delas do ideal cristão, assim também nenhuma verdade é negada. Não é preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Além disso, cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade harmoniosa da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as verdades têm a sua própria importância e iluminam-se reciprocamente."

Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 39


blogger

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Adeus Mossul

Carta de despedida do escritor iraquiano cristão Majed Aziza à sua cidade, Mossul, depois da decisão dos islâmicos do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) de expulsarem os cristãos dos territórios que ocupam.

Expulsos, abandonamos a nossa cidade de Mossul, humilhados pelos seguidores do novo Islão. Abandonámo-la pela primeira vez na História. E, enquanto o fazíamos, agradecemos aos nossos vizinhos, os mesmos que pensámos que nos iriam proteger, como o tinham feito (no passado), pensando que se revoltariam contra estes criminosos do séc. XXI e lhes diriam que nós somos os verdadeiros filhos desta cidade, e fomos nós que a fundámos.

Ficávamos descansados quando dizíamos a nós próprios que poderíamos contar com eles, bravos irmãos que mostrariam de que material são feitos. Mas eles abandonaram-nos, permitindo que fossemos expulsos da cidade, rumo ao desconhecido. Eles fecharam os olhos, enquanto fomos obrigados a deixar para trás a nossa história, as sepulturas dos nossos antepassados, as nossas casas, as nossas propriedades, tudo o que era querido aos nossos corações. Eles abandonaram-nos, enquanto dizíamos adeus aos nossos bairros, à Mesquita de Jonas (que contém o túmulo do profeta).

Dissemos adeus também ao arcebispado, à igreja de Maskinta e de Ain Kibrit. Adeus a vós todos! Nunca mais estaremos aí para as vossas festas, cerimónias, casamentos e funerais.

Adeus aos nossos enterrados em Mossul. Deixamo-los enquanto somos perseguidos na nossa cidade. Que eles nos perdoem por nunca mais visitarmos as suas sepulturas nos dias santos. Adeus aos restos do meu avô Elias, do meu tio paterno - Fr. Mikhail -, dos meus tios maternos Ibrahim e Mikhail Haddad, de quem recebi a paixão pelo jornalismo, adeus ao meu tio paterno Estefan Aziza, o primeiro mártir da família, adeus ao Convento de São Jorge, adeus às pontes da cidade, aos seus muros, aos seus campos, à sua universidade, ao seu centro cultural. 

Perdoai-nos, caros amigos, irmãos, nobres filhos da nossa cidade. Perdoai-nos pela nossa negligência. Mesmo faltando aos nossos deveres para convosco, permanece o facto que vivemos juntos aí durante centenas, antes, milhares de anos, construindo Mossul com o nosso suor.

E hoje, vêem-nos de longe, enquanto somos perseguidos, humilhados aos olhos de todos. Os furiosos assassinos do EIIL (ISIS em inglês) expulsaram-nos das nossas casas e da nossa cidade. Adeus a todos! E obrigado. Partimos, forçados e sob violência, duma terra que mantivemos com o nosso próprio sangue.
Crianças vindas de Mossul brincam no campo de refugiados de Najaf


blogger

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Frase do dia

"Se um dia depararmos com tentações inevitáveis, lembremo-nos de que foi Jesus que nos mandou embarcar; não é possível chegar à outra margem sem suportar a prova das vagas e do vento contrário. Depois, quando nos virmos rodeados por inúmeras e penosas dificuldades, cansados de navegar no meio delas com a pobreza dos nossos meios, pensemos que a nossa barca está no meio do mar e que essas vagas tentam «fazer naufragar na nossa fé» (cf 1Tim 1,19).

Tenhamos então a certeza de que «a noite adianta-se e o dia está próximo» (Rom 13,12), de que o Filho de Deus chegará junto de nós para amansar o mar, caminhando sobre as suas águas."

Orígenes in Comentário sobre o evangelho de Mateus, livro 11, cap. 5-6


blogger

Retiro Lamego 2014 - Pe. Duarte Sousa Lara




blogger

domingo, 10 de agosto de 2014

Como a Universidade discrimina os pobres

Laurent Lafforgue é um matemático célebre e relativamente jovem. Começou a receber prémios mundiais de Matemática nos últimos anos do liceu e depois continuou a somar: a Clay Research Award e, mais recentemente, a medalha Fields, o máximo galardão das matemáticas. Fora do âmbito científico, Lafforgue ficou conhecido pela defesa da qualidade do ensino. Só essa qualidade permite que as crianças pobres cheguem ao topo da cultura, só ela integra os filhos dos imigrantes, só ela democratiza a sociedade. 

Quando o ensino se degrada, como aconteceu em França a partir dos anos 30, alguns dos mais ricos conseguem escapar, mas a sociedade, no seu conjunto, é enganada: sem se perceber porquê, no topo da universidade aparecem quase só os ricos. Esta exclusão não acontecia quando o ensino tinha qualidade, mas passou a verificar-se quando se degradou. O problema que Laurent Lafforgue reconheceu em França, está a verificar-se em Portugal e posso testemunhar esta experiência com muitas histórias.

Desde há muitos anos, o Técnico elabora relatórios acerca do sucesso dos alunos. Uma vez, a responsável desse gabinete tentava identificar as circunstâncias que favorecem o êxito escolar e eu disse, ingenuamente, o que vem nos manuais: a variável que melhor correlaciona é o nível de escolaridade da mãe. Por exemplo, se a mãe tem um curso superior os filhos têm, estatisticamente, melhor aproveitamento. Ainda hoje me lembro da resposta: normalmente é assim, mas no Técnico esse critério dificilmente se aplica, pois mais de metade das mães dos alunos têm um curso superior.

Quem trabalha no Técnico sabe perfeitamente que são raros os alunos oriundos de famílias com um nível cultural pouco elevado, ou com dificuldades económicas. É uma boa notícia, o problema é que a sociedade tem sobretudo famílias de poucos recursos e o facto de não estarem representadas significa que há uma discriminação efectiva e não estamos a promover a ascensão social dessas pessoas. Como é sabido, o Técnico procura apoiar os alunos com dificuldades económicas, psicológicas, ou outras. Mas a verdade é que a percentagem de alunos realmente pobres é ínfima. Basta percorrer os olhos pela turma e contabilizar quem anda de automóvel ou passa férias no estrangeiro.

Na altura em que se permitiu às faculdades cobrar uma propina um pouco maior, o Técnico optou, sem hesitar, pelo escalão superior. A Associação de Estudantes protestou energicamente e lançou um inquérito, muito participado pelos alunos, a perguntar: tiveste dificuldade em pagar? A propina limitou-te? A resposta esmagadora foi: não tive dificuldade, nem me privei de nada. A Associação afixou os resultados nos placards e nunca mais houve protestos por causa das propinas.

As universidades têm todo o interesse em que ninguém fique excluído de uma formação mais completa por motivos económicos. O problema é que os alunos cujas famílias têm menos posses não estão a ser excluídos por falta de bolsas, mas por não terem notas suficientes. Quer dizer, de um modo geral, o péssimo funcionamento do ensino primário e secundário é disfarçado graças à inflação das notas e à passagem dos alunos mal preparados... até chegarem aos exames nacionais e não conseguirem entrar nas faculdades exigentes.

As famílias desafogadas têm meios para escapar a esta ratoeira. Podem aproveitar umas turmas escolhidas de certas escolas estatais e, inclusivamente, podem colocar os filhos em escolas não estatais. O resultado é que uns ficam em condições de aceder às melhores universidades e os outros ficam sistematicamente de fora.

Uma exclusão por motivos económicos choca sempre a sensibilidade democrática, mas a actual é particularmente dolorosa porque, em certo sentido, as coisas pioraram nos últimos 50 anos. Antes, o acesso ao ensino era mais restrito, mas havia mais mobilidade social e uma criança pobre podia chegar ao topo de uma carreira universitária.

Não podemos fechar os olhos à injustiça de obrigar as famílias mais pobres a porem os filhos nas escolas estatais. É dever do Estado pagar substancialmente o custo da educação, mas cativar essa verba contra a vontade das famílias é um abuso que penaliza (um pouco) os ricos e expulsa os mais pobres da universidade e de tudo o que isso significa, perpetuando as desigualdades sociais.

É da maior relevância social apoiar as famílias, sem as obrigar a escolher uma escola estatal.


José Maria C. S. André in «Expresso», 18-I-2014


blogger

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Biografia de S. Domingos por Bento XVI

No dia da festa litúrgica do Santo que está na origem do meu nome na blogosfera, aqui deixo a biografia de S. Domingos por Bento XVI.

Vivam os "Domingueiros"!

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
São Domingos de Gusmão
Caros irmãos e irmãs
Na semana passada apresentei a figura luminosa de Francisco de Assis, e hoje gostaria de vos falar de outro santo que, na mesma época, ofereceu uma contribuição fundamental para a renovação da Igreja do seu tempo. Trata-se de São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores, também conhecidos como Padres Pregadores.
O seu sucessor na orientação da Ordem, Beato Jordão da Saxónia, oferece um retrato completo de São Domingos no texto de uma oração famosa:  "Inflamado de zelo por Deus e de ardor sobrenatural, pela tua caridade sem confins e o fervor do espírito veemente, consagraste-te inteiramente com o voto da pobreza perpétua à observância apostólica e à pregação evangélica". É ressaltada precisamente esta característica fundamental do testemunho de Domingos:  ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.
Domingos nasceu em Caleruega, na Espanha, por volta de 1170. Pertencia a uma nobre família da Velha Castilha e, ajudado por um tio sacerdote, formou-se numa célebre escola de Palência. Distinguiu-se imediatamente pelo interesse no estudo da Sagrada Escritura e pelo amor aos pobres, a tal ponto que chegou a vender os livros, que na sua época constituíam um bem de grande valor, para socorrer com o lucro as vítimas de uma carestia.
Tendo sido ordenado sacerdote, foi eleito cónego do cabido da Catedral na sua Diocese de origem, Osma. Embora esta nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal, nem como o início de uma carreira eclesiástica brilhante, mas como um serviço a prestar com dedicação e humildade. Não é porventura uma tentação, a da carreira, do poder, uma tentação da qual não estão imunes nem sequer aqueles que desempenham um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei-o há alguns meses, durante a consagração de alguns Bispos:  "Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos... Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja sofrem pelo facto de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade" (Homilia durante a Capela Papal para a Ordenação episcopal de cinco Excelentíssimos Prelados, 12 de Setembro de 2009).
O Bispo de Osma, que se chamava Diogo, um pastor verdadeiro e zeloso, observou depressa as qualidades espirituais de Domingos, e quis valer-se da sua colaboração. Juntos, partiram para o Norte da Europa a fim de realizar missões diplomáticas que lhes eram confiadas pelo rei de Castilha. Viajando, Domingos descobriu dois desafios enormes para a Igreja do seu tempo:  a existência de povos ainda não evangelizados, nas extremidades setentrionais do continente europeu, e a laceração religiosa que debilitava a vida cristã no Sul da França, onde a acção de alguns grupos heréticos criava confusão e o afastamento da verdade da fé. A acção missionária a favor daqueles que não conheciam a luz do Evangelho e a obra de reevangelização das comunidades cristãs tornaram-se assim as metas apostólicas que Domingos se propôs alcançar. O Papa, que o Bispo Diogo e Domingos visitaram para pedir conselho, pediu a este último que se dedicasse à pregação aos Albigenses, um grupo herético que defendia uma concepção dualista da realidade, ou seja, com dois princípios criadores igualmente poderosos, o Bem e o Mal. Por conseguinte, este grupo desprezava a matéria como proveniente do princípio do mal, rejeitando até o matrimónio, chegando mesmo a negar a encarnação de Cristo, os sacramentos em que o Senhor nos "toca" através da matéria, e a ressurreição dos corpos. Os Albigenses apreciavam a vida pobre e austera neste sentido, eram também exemplares e criticavam a riqueza do Clero daquela época. Domingos aceitou com entusiasmo esta missão, que realizou precisamente com o exemplo da sua existência pobre e austera, com a pregação do Evangelho e com debates públicos. A esta missão de pregar a Boa Nova ele dedicou o resto da sua vida. Os seus filhos teriam realizado inclusive os outros sonhos de São Domingos:  a missão ad gentes, ou seja, àqueles que ainda não conheciam Jesus, e a missão àqueles que viviam nas cidades, sobretudo nas universitárias, onde as novas tendências intelectuais eram um desafio para a fé dos cultos.
Este grande santo recorda-nos que no coração da Igreja deve sempre arder um fogo missionário, que impele incessantemente a fazer o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização:  com efeito, Cristo é o bem mais precioso que os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares têm o direito de conhecer e de amar! E é consolador ver que até na Igreja de hoje são muitos pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais que com alegria despendem a sua vida por este ideal supremo:  anunciar e testemunhar o Evangelho!
Depois, a Domingos de Gusmão uniram-se outros homens, atraídos pela mesma aspiração. Deste modo, progressivamente, da primeira fundação de Toulouse teve origem a Ordem dos Pregadores. Com efeito, Domingos em plena sintonia com as directrizes dos Papas do seu tempo, Inocêncio III, Honório III, adoptou a antiga Regra de Santo Agostinho, adaptando-a às exigências de vida apostólica que o levaram, bem como os seus companheiros, a pregar passando de um lugar para outro, mas depois voltando aos próprios conventos, lugares de estudo, oração e vida comunitária. De modo particular, Domingos quis dar relevo a dois valores considerados indispensáveis para o bom êxito da missão evangelizadora:  a vida comunitária na pobreza e o estudo.
Antes de tudo, Domingos e os Padres Pregadores apresentavam-se como mendicantes, isto é, sem vastas propriedades de terrenos para administrar. Este elemento tornava-os mais disponíveis ao estudo e à pregação itinerante, e constituía um testemunho concreto para as pessoas. O governo interno dos conventos e das províncias dominicanas estruturou-se segundo o sistema de cabidos, que elegiam os seus próprios Superiores, sucessivamente confirmados pelos Superiores maiores; portanto, uma organização que estimulava a vida fraterna e a responsabilidade de todos os membros da comunidade, exigindo fortes convicções pessoais. A escolha deste sistema nascia precisamente do facto que os Dominicanos, como pregadores da verdade de Deus, tinham que ser coerentes com quanto anunciavam. A verdade estudada e compartilhada na caridade com os irmãos constitui o fundamento mais profundo da alegria. O Beato Jordão da Saxónia diz de São Domingos:  "Ele acolhia cada homem no grande seio da caridade e, dado que amava todos, todos o amavam. Fez para si uma lei pessoal de se alegrar com as pessoas felizes e de chorar com aqueles que choravam" (Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum autore Iordano de Saxonia, ed. H. C. Scheeben [Monumenta Historica Sancti Patris Nostri Dominici, Romae, 1935]).
Em segundo lugar, com um gesto intrépido, Domingos quis que os seus seguidores adquirissem uma formação teológica sólida e não hesitou em enviá-los às Universidades dessa época, embora não poucos eclesiásticos vissem com desconfiança estas instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores atribuem muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos queria que os seus Padres se dedicassem a isto sem poupar esforços, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de todo o saber teológico, ou seja, na Sagrada Escritura, e respeitador das interrogações formuladas pela razão. O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que desempenham o ministério da Palavra, a vários níveis, que sejam bem preparados. Portanto exorto todos, pastores e leigos, a cultivar esta "dimensão cultural" da fé, a fim de que a beleza da verdade cristã possa ser melhor compreendida e a fé seja verdadeiramente alimentada, fortalecida e também defendida. Neste Ano sacerdotal, convido os seminaristas e os sacerdotes e estimar o valor espiritual do estudo. A qualidade do ministério sacerdotal depende também da generosidade com que se aplica ao estuo das verdades reveladas.
Domingos, que quis fundar uma Ordem religiosa de pregadores-teólogos, lembra-nos que a teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os presbíteros, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda "alegria interior" na contemplação da beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre actual e viva. O lema dos Padres Pregadores contemplata aliis tradere ajuda-nos a descobrir, além disso, um anseio pastoral no estudo contemplativo de tal verdade, pela exigência de comunicar aos outros o fruto da própria contemplação.
Quando Domingos faleceu, em 1221 em Bolonha, a cidade que o declarou padroeiro, a sua obra já tinha alcançado grande sucesso. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, difundiu-se em muitos países da Europa, em benefício da Igreja inteira. Domingos foi canonizado em 1234, e é ele mesmo que, com a sua santidade, nos indica dois meios indispensáveis a fim de que acção apostólica seja incisiva. Em primeiro lugar, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, que na história da Igreja tiveram o grande mérito de difundir a recitação do santo Rosário, tão querida ao povo cristão e tão rica de valores evangélicos, uma autêntica escola de fé e de piedade. Em segundo lugar Domingos, que assumiu o cuidado de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou até ao fundo no valor da oração de intercessão pelo bom êxito do afã apostólico. Só no Paraíso compreenderemos quão eficazmente a oração das irmãs claustrais acompanham a obra apostólica! A cada uma delas dirijo o meu pensamento grato e carinhoso.
Estimados irmãos e irmãs, a vida de Domingos de Gusmão estimule todos nós a sermos fervorosos na oração, corajosos na vivência da fé e profundamente apaixonados por Jesus Cristo. Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.

Saudação
Amados peregrinos de língua portuguesa, uma cordial saudação de boas-vindas para todos, com votos de que a vossa visita ao lugar da Confissão de Pedro seja rica de graças e luzes do Alto, que vos ajude a ser sempre autênticas e incansáveis testemunhas de Cristo. Em seu Nome, dou-vos a minha Bênção, extensiva aos vossos familiares e comunidades cristãs.






blogger

Perseguições

Nos últimos dias temos sido (menos do que devíamos e mal) informados sobre as perseguições atrozes aos cristãos e a outras minorias religiosas do Iraque.

Há muito tempo que este assunto me tem andado a fermentar cá dentro.

É muito fácil indignar-me com a injustiça e barbárie que está a acontecer lá longe. Mas, a mim (nós), em que, de facto, me (nos) afecta?

Estamos muito bem aqui a banhos, envolvidos em questiúnculas sobre o caso do BES, sobre o tempo que não propicia a praia, sobre o como aproveitar o tempo de recreio, sobre várias outras coisas, mais ou menos importantes, mais ou menos justas, entre as quais a guerra na Faixa de Gaza, em que cada um tem a sua opinião e o seu juízo.

Mas será que a perseguição dos cristãos no Iraque (e já agora, na China, no Egipto, no Sudão, em tantos outros lugares do globo) não desperta nada em nós, além da indignação?

Aqueles estão em risco de perder a vida por serem de Cristo. E nós?

Sentimo-nos provocados na nossa dormência? Damos graças a Deus por podermos viver em relativa paz e podermos ir à Igreja sem levarmos um tiro, ou de usar um crucifixo ao peito sem que nos agridam? Aproveitamos mais o nosso tempo para nos unirmos mais a Nosso Senhor? Estando de férias, aproveitamos o tempo livre que temos para poder ir à Missa, visitar o Santíssimo, rezar um pouco mais, fazer uma melhor leitura espiritual, visitar quem mais precisa de consolo?

A fé daqueles que são perseguidos provoca a minha?

Todos estamos indignados com o que se está a passar. Mas será que isso tem consequências práticas na nossa vida?

Àqueles, ser de Cristo pode custar-lhes a vida. E a nós? Sair mais cedo da praia para ir à Missa pode ser, no máximo, fonte de chacota dos amigos (que amigos?!?). Discutimos coisas inúteis sobre o assunto, que nada irão fazer para o resolver. E que tal convidar os que estão a discutir para rezar. Haverá medo de sermos chamados de fundamentalistas?

Queixamo-nos que o Ocidente vê o que se está a passar e fica calado. Mas, fazemos ouvir a nossa voz?

Como Padre, procuro não deixar passar uma oportunidade para espicaçar os que me ouvem, mas, mesmo assim, também eu talvez devesse fazer mais.

Mas mais do que tudo, não quero deixar passar esta “oportunidade” atroz sem me sentir provocado!

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre


blogger

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

"Ser Mãe" - Daniela Ruah



blogger

Frase do dia

"Sempre entendi o descanso como afastamento do trabalho diário; nunca como dias de ócio. Descanso significa represar: acumular forças, ideias, planos... Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois – com novos brios – à actividade habitual." 

S. Josemaria Escrivá in Sulco, 514


blogger

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A ideologia LGBT quer tornar-se numa ditadura

A intenção ideológica das associações LGBT está a tornar-se cada vez mais invasiva, a ponto de querer prejudicar a liberdade de imprensa e de expressão, obrigando os jornalistas a mudar o significado das definições, dos discurso e dos argumentos.

Conforme relatado pelo site da La Manif pour Tous Itália, o Departamento Nacional Contra as Discriminações Raciais, que pertence ao Ministério da Igualdade de Oportunidades italianos, publicou um documento dirigido aos jornalistas intitulado: "Directrizes para uma informação respeitosa das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais". De acordo com este documento:

I: O sexo é uma característica anatómica, mas cada um escolhe ser homem ou mulher “independentemente do sexo anatómico de nascimento".

II: Diante dos "Coming out", ou seja, das pessoas que revelam as suas próprias preferências sexuais, é preciso ressaltar os aspectos positivos como a coragem de quem 'sai do armário'.

III: Considerar o termo "lésbica" um elogio.

IV: Sempre em relação ao “feminino”, se um transexual se sente mulher o jornalista tem que transcrever ‘a trans’ e não ‘o trans’.

V: Em vez de falar de prostitutas ou prostitutos use-se melhor a expressão ‘profissionais do sexo’.

VI: Educar os leitores a um parecer benevolente sobre o ‘casamento homossexual’ ou sobre “outra instituição ad hoc para o reconhecimento dos direitos LGBT”. A ideia básica é inculcar que "o casamento não existe in natura, enquanto que a homossexualidade existe in natura”. E ainda “os três conceitos: tradição, natureza, procriação’ são indício de homofobia”

VII: É proibido falar de "casamento tradicional", e, em contraste de “casamento gay”, traduzindo como “casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

VIII: Sobre o tema da adopção é proibido argumentar que a criança "precisa de uma figura masculina e de uma feminina como condição fundamental para a integridade do equilíbrio psicológico". É proibido falar de "barriga de aluguer", expressão "pejorativa", que deve ser substituída pela mais elegante "gestação de apoio".

IX: Quando nos programas são tratadas estas questões, os que conduzem, não são obrigados ao contraditório porque “Não existe uma espécie de consenso pré-determinado, objcetivo, além do qual se torna imprescindível o contraditório”.

X: Os fotógrafos nas suas reportagens aos “Gay Pride” (orgulho gay) são convidados a evitar imagens de pessoas “reluzentes e nuas”.

Também sobre o tema do "dever de crónica” que obriga a publicar todas as declarações, mesmo aquelas “de políticos e de representantes das instituições” não totalmente de acordo, que os discursos contrários à ideologia do género sejam colocados entre aspas, sublinhados como errados, contrapostos àqueles de representantes das organizações LGBT, que serão prontamente entrevistados. Recomenda-se também uma “especial atenção no título”. in Zenit


blogger

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Meriam Ibrahim

A fonte é directa. Uma equipa de teólogos redigia um documento da Santa Sé sobre como actuar perante dilemas políticos difíceis. Ponderavam que, em certas condições, às vezes se podia aceitar uma alternativa parcialmente má, se não fosse realista conseguir uma solução completamente boa. Os matizes estavam lá todos, naquele texto, e toda a prudência, mas o Papa João Paulo II avisou-os: «os senhores não excluam o heroísmo!». Às vezes, é possível escolher o silêncio e fingir que não se vê. Mas também é legítimo não ficar calado, por piores que sejam as consequências.

Lembrei-me de uma mulher do Sudão, de 26 anos, elegante, com o curso de Física, que passou torturas e humilhações por se recusar a deixar de ser católica. Primeiro, foi despedida e obrigada a fazer serviços humildes e mal pagos. Aceitou. Depois foi presa. Não cedeu. Torturada. Manteve-se fiel a Deus. Finalmente, condenaram-na à morte e esteve à beira de morrer.

O Papa Francisco mexeu-se para a salvar e o movimento internacional que se gerou obrigou as autoridades a desistir da condenação e a deixá-la sair do país. A Meriam Yahia Ibrahim Isha e o marido Daniel Wani, gravemente doente, têm dois filhos pequenos. A mais nova, a Maya, nasceu em Maio passado, na prisão.

Ao saírem do país, quiseram ir direitos a Roma. «O Papa – referiu o porta-voz Vaticano – agradeceu à Meriam o seu testemunho de fé» e ela e a família «agradeceram ao Papa a proximidade, as orações e o seu apoio e o apoio da Igreja». O porta-voz do Vaticano diz que o encontro foi «muito sereno e afectuoso». O Papa «quer estar próximo de todos os que sofrem pela fé, vivendo-a em situações de dificuldade e de provação, e por isso [este encontro] é também um símbolo, para além de uma ocasião tão maravilhosa».

A Meriam dizia aos jornalistas que estava feliz por ter conseguido fazer escala em Roma e acrescentou (não sei se isto é importante, mas chamou-me a atenção): «…tinham ido à Missa no Domingo, tinha voltado a viver».

O Papa não se cansa de resgatar gente da violência. Umas vezes consegue, outras não, mas insiste. Ainda este Domingo pedia que tivessem pena das crianças: «Com a guerra perde-se tudo e com a paz não se perde nada. Irmãos e irmãs: não mais guerra, não mais guerra. Penso sobretudo nas crianças a quem se rouba a esperança de uma vida digna e futura, crianças mortas, crianças mutiladas, crianças que brincam com resíduos bélicos: por favor, parem! Peço-vos de todo o coração, parem, por favor».

Acrescentou que «o cristão não pode esconder a sua fé, porque ela tem de transparecer em cada palavra, em cada gesto, até nos gestos mais simples do dia-a-dia». «Rezemos por intercessão da Virgem Maria…».

Noutro dia desta semana, o Papa lembrou a parábola do tesouro escondido e da pérola preciosa. O Reino de Deus é um tesouro que se encontra, uma pérola preciosíssima que se descobre. «Em ambos os casos, o tesouro e a pérola valem todos os outros bens (…) e quando os encontra, o negociante renuncia a tudo para os comprar. Não precisa de fazer muitas contas, de pensar, de reflectir: percebe o valor incomparável que encontrou e está disposto a perder tudo para o alcançar».

Lembrei-me da Meriam e da família, que tinham estado com o Papa. Lembrei-me da Asia Bibi, uma mãe do Paquistão que, por ser católica, está há cinco anos no corredor da morte, à espera de um desfecho que pode vir a qualquer momento. Uma pessoa vê estes exemplos e acaba a olhar para si própria. A minha fé transparece no quotidiano?… E se Deus me chamar hoje, eu respondo que sim?

José Maria C. S. André in «Correio dos Açores», 3-VIII-2014


blogger

O Significado Ritual do Dom da Paz na Missa

1. "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz"[1], são as palavras com as quais Jesus promete aos discípulos reunidos no cenáculo, antes de enfrentar a paixão, o dom da paz, para lhes infundir a gozosa certeza da sua presença permanente. Depois da ressurreição, o Senhor leva ao termo a sua promessa apresentando-se no meio deles, no lugar em que se encontravam por temor aos Judeus, dizendo: "A paz esteja convosco!"[2]. A paz, fruto da Redenção que Cristo trouxe ao mundo com a sua morte e ressurreição, é o dom que o Ressuscitado continua a oferecer hoje à sua Igreja, reunida para a celebração da Eucaristia, de modo que possa testemunhá-la na vida de cada dia.
2. Na tradição litúrgica romana o sinal da paz, colocado antes da Comunhão, tem um significado teológico próprio. Este encontra o seu ponto de referência na contemplação eucarística do mistério pascal - de modo diverso do que fazem outras famílias litúrgicas que se inspiram na passagem evangélica de Mateus (cf. Mt 5, 23) - apresentando-se assim como o "beijo pascal" de Cristo ressuscitado presente no altar [3]. Os ritos que preparam a comunhão constituem um conjunto bem articulado dentro do qual cada elemento tem o seu próprio significado e contribui para o conjunto da sequência ritual, que conduz à participação sacramental no mistério celebrado. O sinal da paz, portanto, encontra-se entre o Pater noster - ao qual se une mediante o embolismo que prepara para o gesto da paz - e a fracção do pão - durante a qual se implora ao Cordeiro de Deus que nos dê a sua paz. Com este gesto, que "significa a paz, a comunhão e a caridade"[4], a Igreja "implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana, e os fiéis expressam a comunhão eclesial e a caridade mútua, antes da comunhão sacramental"[5], isto é, a comunhão no Corpo de Cristo Senhor.
3. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis o Papa Bento XVI havia confiado a esta Congregação a tarefa de considerar a problemática referente ao sinal da paz[6], com o fim de salvaguardar o valor sagrado da celebração eucarística e o sentido do mistério no mundo da Comunhão sacramental: "A Eucaristia é por sua natureza sacramento da paz. Esta dimensão do Mistério eucarístico expressa-se na celebração litúrgica de maneira específica com o gesto da paz. Trata-se indubitavelmente de um sinal de grande valor (cf. Jo 14, 28). No nosso tempo, tão cheio de conflitos, este gesto adquire, também desde ponto de vista da sensibilidade comum, um relevo especial, já que a Igreja sente cada vez mais como tarefa própria pedir a Deus o dom da paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana. [...] Por isso compreende-se a intensidade com que se vive frequentemente o rito da paz na celebração litúrgica. A este propósito, contudo, durante o Sínodo dos Bispos viu-se a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembleia precisamente antes da Comunhão. Seria bom recordar que o alto valor do gesto não fica diminuído pela sobriedade necessária para manter um clima adequado à celebração, limitando, por exemplo, a troca da paz aos mais próximos"[7].
4. O Papa Bento XVI, além de destacar o verdadeiro sentido do rito e do sinal da paz, evidenciou o seu grande valor como colaboração dos cristãos, para preencher,  mediante a sua oração e testemunho, as angústias mais profundas e inquietantes da humanidade contemporânea. Por esta razão, renovou o seu convite para cuidar este rito e para realizar este sinal litúrgico com sentido religioso e sobriedade.
5. O Discasterio, com base nas disposições do Papa Bento XVI, dirigiu-se às Conferências Episcopais em Maio de 2008, pedindo o seu parecer sobre manter-se o sinal da paz antes da Comunhão, onde se encontra agora, ou mudá-lo para outro momento, com o fim de melhorar a compreensão e o desenvolvimento de tal gesto. Depois de uma reflexão profunda, mostrou-se conveniente conservar, na liturgia romana, o rito da paz no seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano. Oferecem-se, de seguida, algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembleias litúrgica antes da Comunhão.
6. O tema tratado é importante. Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, nos seus gestos rituais, o significado correcto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e e é afectada negativamente a sua frutuosa participação na Eucaristia. Portanto, juntamente com as precedentes reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese para o respeito, para a qual se ofereceram algumas linhas orientativas, submete-se à prudente consideração das Conferências Episcopais algumas sugestões práticas:
a) Esclarece-se definitivamente que o rito da paz alcança já o seu profundo significado com a oração e o oferecimento da paz no contexto da Eucaristia. O dar-se a paz corretamente entre os participantes na Missa enriquece o seu significado e confere expressividade ao próprio rito. Portanto, é totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar "mecanicamente" para se dar a paz. Se se prevê que tal gesto não será feito adequadamente devido a determinadas circunstâncias, ou se retém pedagogicamente conveniente não realizá-lo em determinadas ocasiões, pode-se omitir, e inclusive, deve ser omitido. Recorda-se que a rubrica do Missal diz: "Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offerte vobis pacem"[8].
b) Com base nas presentes reflexões, pode ser aconselhável que, em ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido. Por exemplo, naqueles lugares nos quais se optou por gestos familiares e profanos de saudação, depois da experiência destes anos, poderiam ser substituídos por gestos mais apropriados.
c) Seja como for, será necessário que no momento de dar a paz se evitem alguns abusos, tais como:
- A introdução de um "canto para a paz", inexistente no Rito romano [9].
- Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz.
- Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis.
- Que em algumas circunstâncias, como a solenidade da Páscoa ou do Natal, ou Confirmação, o Matrimónio, as sagradas Ordens, as Profissões religiosas ou as Exéquias, o dar a paz seja ocasião para felicitar ou expressar condolências entre os presentes[10].
d) Convida-se igualmente a todas as Conferências Episcopais a preparar catequeses lirtúgicas sobre o significado do rito da paz na liturgia romana e sobre o seu correcto desenvolvimento na celebração da Santa Missa. A este propósito, a Congregação para o Culto Divino e a Disiciplina dos Sacramentos acompanha a presente carta com algumas linhas orientativas.
7. relação íntima entre lex orandi e lex credendi deve obviamente estender-se a lex vivendi. Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e da sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que disso depende a qualidade da nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz[11].
8. Para finalizar estas considerações, exorta-se aos Bispos e, sob a sua guia, aos sacerdotes a considerar e aprofundar o significado espiritual do rito da paz, tanto na celebração da Santa Missa como na própria formação litúrgica e espiritual ou na oportuna catequese aos fiéis. Cristo é nossa paz[12],a paz divina, anunciada pelos profetas e pelos anjos, e que Ele trouxe ao mundo com o seu mistério pascal. Esta paz do Senhor Ressuscitado é invocada, anunciada e difundida na celebração, também através de um gesto humano elevado ao âmbito sagrado.
O Santo Padre Francisco, no dia 7 de Junho de 2014, aprovou e confirmou o que se contém nesta Carta circular, preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e ordenou a sua publicação.
Na sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao dia 08 de Junho de 2014, na solenidade de Pentecostes.
 Antonio Card. CAÑIZARES LLOVERA
Prefeito
NOTAS

[1]. Jo 14, 27
[2]. Cfr. Jo 20, 19-23.
[3]. Cf. MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum summorum pontificum cura recognitum, Editio typica, 1962, Ritus servandus, X, 3.
[4]. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 71: AAS 96 (2004) 571.
[5]. MISSALE ROMANUM, ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, auctoritate Pauli Pp. VI promulgatum, Ioannis Pauli Pp. II cura recognitum, editio typica tertiam, diei 20 aprilis 2000,Typis Vaticanis, reimpressio emendata 2008, Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82.
[6]. Cf. BENTO XVI, Exhort. Apost. pós-sinod., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49: AAS 99 (2007) 143
[7]. Cf. Bento XVI, Exhort. Apost., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49, nota n. 150: AAS 99 (2007) 143.
[8]. MISSALE ROMANUM, Ordo Missae, n. 128
[9]. No rito romano não está tradicionalmente previsto um canto para a paz porque se prevê um tempo brevíssimo para dar a paz somente aos que se encontram mais perto. O canto da paz sugere, pelo contrário, um tempo muito extenso para a troca da paz.
[10]. Cf. Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82: "É conveniente, contudo, que cada um expresse sobriamente a paz somente aos que tem mais próximo"; n. 154: "O sacerdote pode dar a paz aos ministros, permanecendo sempre dentro do presbitério, para não alterar a celebração. Faça-se do mesmo modo se, por uma causa razoável, deseja dar a paz a alguns fiéis"; CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., Redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 72: AAS 96 (2004) 572.
[11]. Cf. Mt 5, 9ss.
[12]. Ef. 2, 14.
Tradução Senza Pagare


blogger