sábado, 31 de outubro de 2015

O diabo não é um deus do mal mas uma criatura limitada

Entrevista ao Padre Pedro Barrajon, exorcista

As possessões demoníacas são comuns?

A acção comum é a tentação, a possessão não é comum. A tentação induz-nos ao mal, todos as sofremos e no Pai Nosso dizemos todos os dias “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A acção normal do demónio é a tentação. Uma acção extraordinária, mas possível, é a possessão.

Esses fenómenos têm aumentado nos últimos anos?

É difícil dizer se os casos têm aumentado nos últimos anos, porque, infelizmente, destes problemas não se fala muito. Poderíamos dizer que o fenómeno é hoje mais reconhecido, enquanto que houve um tempo em que tudo se explicava com causas psicológicas. É necessário distinguir. É verdade que vivemos em uma sociedade muito secularizada, na qual, mais do que antes, se abre a porta ao ocultismo, ao esoterismo, às práticas mágicas: isso pode ter uma influência real com posteriores casos de possessão. Os casos de possessão não aumentaram de modo exagerado, mas, certamente, há uma tendência a aumentar, por causa da distância de Deus e, especialmente, por causa de práticas mágicas e de superstições neo-pagãs, que são uma porta para a acção diabólica.

Quais podem ser as causas de possessão demoníaca?

Às vezes, as causas não são compreensíveis. O diabo também agiu sobre grandes santos, como no caso do Pe. Pio ou do Cura d'Ars, que tiveram fortes lutas físicas com o diabo, mas a causa mais comum é culturar quem não é Deus: os ídolos, os poderes mágicos, Satanás nas seitas satânicas... Ocultismo e magia são as primeiras causas.

A palavra-chave, no entanto, é sempre 'discernimento', saber discernir, como diz o Papa, tentando falar com a pessoa, tentando avaliar a sua história, as possíveis causas de tipo psiquiátrico e psicológico: se estas forem excluídas e a pessoa se sente assediada pelo demónio, então, é bom que faça uma oração de libertação (que não é um exorcismo), ou um exorcismo mesmo, se se vê uma certa violência no ataque maléfico.

Antes de entrar em contacto com os médicos ou os sacerdotes, como é que uma pessoa nota uma influência maligna? Quais são as manifestações e sintomas?

A pessoa às vezes não percebe de imediato a causa porque experimenta um desconforto forte. Diz que se sente habitada por uma pessoa que não é ela própria. No início não é fácil dar-se conta, nem sequer para aqueles que a rodeiam: comportamentos que não são normais, nem sempre se reduzem à acção maléfica, mas, vendo que o problema persiste e não encontra uma solução nos meios normais a disposição, às vezes a pessoa dirige-se a um sacerdote. 

O sacerdote, muitas vezes, não sabe o que fazer, mas um sacerdote com uma certa formação neste campo pode intuir que possa tratar-se de uma influência maléfica e, neste caso, aconselhar um exorcista. Pela prática de exorcismo, o exorcista percebe rapidamente se a pessoa está à mercê do poder do diabo, por exemplo, se diante de símbolos sagrados existem reacções violentas, compulsivas, não normais: a angústia diante do sagrado não é normal. A Igreja acrescenta depois outros sinais: a pessoa pode falar línguas que não conhece, ou até sentir-se habitada por uma outra realidade pessoal, apesar de não ter problemas de múltipla personalidade.

Qual é a diferença entre o exorcismo e oração de libertação?

Às vezes, é bom que, antes do exorcismo, se façam orações de libertação: são orações não "exorcísticas" na qual se reza para que a pessoa seja libertada do mal e da possível influência do mal. Se isso funciona, o exorcismo é muito mais forte, porque no sacramental se pede pelo poder de Cristo e no nome de Cristo, enviado pelo Pai para derrotar o Maligno, para que a pessoa seja libertada. Alguns exorcistas aplicam directamente o exorcismo, outros preferem fazer antes as orações de libertação. A Igreja pede cautela ao exorcista. Há sempre uma espécie de "intuito espiritual", a graça de estado que o exorcista tem para perceber se a pessoa tem ou não necessidade de um exorcismo.

Por que é que durante muitos anos, até mesmo dentro da própria Igreja, o diabo foi quase esquecido?

Criou-se, talvez, uma espécie de racionalização da teologia: o que não se entendia e o que parecia que não fosse científico, foi deixado de fora: os casos em que se falava no Evangelho de exorcismos de Jesus foram transformados em doenças psicológicas. Tentou-se reduzir os mesmos milagres a causas científicas, a tal ponto que, quando Paulo VI, num famoso discurso em 1972, disse: "Parece que por alguma abertura o demónio entrou no templo de Deus”, foi uma notícia que girou o mundo porque falava do diabo. 

Hoje o Papa Francisco fala muitas vezes e ninguém se assusta, mas em 1972 era diferente, porque tinha-se criado uma espécie de “falta de fé” nesse aspecto, o que correspondeu a uma pastoral que não nomeou exorcistas. Os casos de possessão, no entanto, continuavam e as pessoas não sabiam a quem dirigir-se. Agora voltou-se a fazer exorcismos de uma forma mais natural, a Igreja sempre os fez.

Como é necessário apresentar a acção do demônio para um crente?

Do ponto de vista de um crente, não precisa ter medo do demónio, porque Deus é mais forte. Deus permite que o demónio possa agir também de forma extraordinária, tanto é que todos os dias no Pai Nosso rezamos “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A Igreja sempre acreditou na acção do demônio, que, porém, sempre foi limitada pela acção de Deus: o demónio não é um Deus do mal, é uma criatura limitada: tem um certo poder, mas não tem significado com relação a Deus.

in Zenit


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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

10 ideias Cristãs para o Halloween

A
creditam num Halloween Cristão? Preparem-se! Durante esta semana vão ouvir dos vossos amigos, sejam eles Católicos, Protestantes ou outra coisa, a conversa: "Halloween ou não?".
Para os Protestantes, sem a tradição do dia de Todos os Santos, normalmente esta festa torna-se em "Halloween vs Dia da Reforma". Tendo sido neste dia que Martinho Lutero colou as 95 teses a 31 Outubro. Mas mesmo alguns Católicos estão preocupados que o Halloween se tenha tornado "mau".
Bem, aqui estão dez maneiras de manterem o bom velho Halloween divertido e santo.
Christian Halloween 1950s
Festa de Halloween por volta de 1950
10. Não lhe chamem o "dia de Satanás"!
Muitos Cristãos excluiram o Halloween como algum tipo de missa negra diabólica. Na verdade, é a vigília de um feriado Cristão: All Hallows' Eve ou Véspera de Todos os Santos. Foi corrompido pela nossa cultura e mercados consumidores? Podem crer. No entanto, o Natal também descarrilou devido à cultura. Significa isso que vamos entregar o Natal? Claro que não! O mesmo acontece com o Halloween. A Igreja não entrega o que lhe pertence por direito, ganha-o de volta!
9. Não pensem que têm que escolher uma alternativa cristã ao Halloween.
Algumas igrejas (particularmente as Protestantes) estão a organizar "Festas de Outono" no dia 31 de Outubro.
Isso é o equivalente a dizer, "o comercialismo destruiu o Natal por isso vamos então celebrar uma "Festa de Inverno" no dia 25 de Dezembro (Já agora, eu acredito mesmo que Cristo nasceu no Natal: carreguem aqui para o artigo).
Chama-se All Hallows' Eve. Não mudem o nome.
A não ser que desconfiem dos vossos vizinhos, porque não os juntam todos? Pode ser uma grande oportunidade para os conhecer e começar algumas relações de amizade. Eu já conheci alguns vizinhos enquanto estávamos no passeio a ver os nossos miúdos a tocar às campainhas de cada casa da rua.
8. Divirtam-se e não forcem as pessoas a converter-se.
Pensem, ninguém gosta de receber uma coisa religiosa no seu saco de doces. Não passem textos religiosos em vez de doces. Dêem umas grandes mãos cheias de doces e uma barra grande de doce extra, se conseguirem. No final, vão acabar por converter as pessoas com a vossa caridade. Afinal de contas, vão ser conhecidos como "a casa que dá sempre bons doces". Se tiverem uma nova festa pós-Halloween se calhar é esse o momento para darem Terços (Outubro é o mês do Rosário!).
christian halloween baby ruth
A rapariga de fato escuro exclama: "Uau, esta senhora Católica é o máximo - barras grandes Baby Ruth e Butterfingers! Se calhar devia largar o meu disfarce pagão e ir vestida de Santa Joana d'Arc, no próximo ano!!"
7. Sejam audazes. Tentem fazer algum apostolado subtil. Não usem a abordagem evangélica: "Sabiam que Jesus é o vosso único Senhor e Salvador? Gostariam de se baptizar amanhã?" Em vez disso, perguntem às pessoas se sabem a origem do Halloween. Falem sobre "santos". É uma óptima e fácil oportunidade para terem uma conversa espiritual com os vosso vizinhos.
6. Sejam hospitaleiros - Porque não organizam a festa do bairro?
Os Cristãos devem ser hospitaleiros, certo? Está na Bíblia. Espreitem Romanos 12, 13. Porque não darem uma festa pós-Halloween na vossa casa com chocolate quente e café para os adultos? Abram a vossa casa ou o pátio das traseiras para jogos. Lembram-se do jogo de trincar as maçãs? E o de atirar sacos de feijões para o alvo? E do jogo de pôr a cauda no burro?
5. Não se deixem ir abaixo pelo nível macabro do Halloween.
Qualquer grande catedral Católica tem gárgulas cravadas e trabalhadas na pedra. Os manuscritos com iluminuras também estão cheios de espíritos nas margens. Os Católicos estão dentro disto. Porquê? Porque Cristo conquistou a morte e o diabo. Depois de Cristo, a morte perdeu o seu ferrão.
Além disso, o dia de Todos os Santos é seguido pelo dia dos Fiéis Defuntos, por isso não tem problema ser um bocadinho de nada macabro. (Já agora, a palavra "macabro" vem dos Macabeus - aqueles dois livros na Bíblia Católica que os Protestantes deitaram fora). E se viverem numa zona Hispânica, como eu, têm todo o "Dia de Muertos" para brincar.
4. Tenham uma fogueira!
Nós Católicos costumávamos ser especialistas em fogueiras. Um Halloween Cristão pede uma fogueira ao ar livre. Se tiverem um quintal e for permitido, acendam uma. Se os miúdos forem mais velhos, porque não fazer uma data de abóboras acesas e queimar alguns marshmallows sobre o fogo? Se alguém souber tocar violino, melhor ainda.
3. Façam algumas abóboras acesas bem giras.
Façam download de alguns padrões para cortar da internet. Gastem algum tempo em família a cortar algumas abóboras. Ponham velas lá dentro e deixem-nas a queimar fora da vossa casa durante uma semana ou algo parecido antes do Halloween. Os meus miúdos gostam sempre de ver quem é que tem abóboras à frente de casa. Querem fazer vizinhos no bairro? Organizem uma festa só para cortar abóboras e dêem um prémio a quem fizer a melhor.
2. Visitem os túmulos daqueles que vos são mais queridos.
Isto aplica-se mais ao dia dos Fiéis Defuntos (2 de Novembro) do que ao dia de Todos os Santos (1 de Novembro). O ponto é sempre lembrarmo-nos das pessoas que nos eram mais chegadas e rezarmos por aqueles que morreram marcados pelo sinal da fé. A morte não é a última palavra. Cristo superou a morte pela Sua dolorosa paixão e morte, através da ressureição. Esta é a fonte de toda a nossa esperança e a força de todos os santos.
A indulgência dos Fiéis Defuntos funciona de 1 a 9 de Novembro.
1. Sejam santos.
Se perseverarem no amor e na graça de Deus, também serão Santos, com letra maiúscula. O objectivo principal de "All Hallows" é lembrar-nos que temos que ser "hallowed" ou "santificados". A maior parte de nós não vai ter o seu dia de festa particular e portanto o dia de Todos os Santos vai ser o nosso dia de festa. É o dia de festa da maior parte dos santos da Igreja, aqueles que viveram em paz, seguiram Cristo, amaram as suas famílias, cumpriram os seus deveres na vida e seguiram para a vida seguinte. Que as suas orações permaneçam connosco.
Tenham um feliz Halloween Cristão!
Taylor Marshall


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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A Igreja contra a escravatura




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Perseguidos, mas não esquecidos

O sumário do último relatório sobre os cristãos oprimidos por causa da fé (Fundação AIS, Outubro de 2015) estende-se por 170 páginas tristes de ler. Este sumário do relatório é sóbrio, não alimenta aversão contra ninguém, apenas enumera, ao longo daquelas 170 páginas, com factos e datas, a imensa desgraça que aflige grande parte do nosso mundo. Os incidentes de destruição e de sangue estão agrupados por países: a China, a Coreia do Norte, o Vietname, a Indonésia, a Índia, o Sri Lanka, o Paquistão, a Rússia, a Bielorússia, o Turquemenistão, a Turquia, a Ucrânia, a Síria, Israel, a Palestina, o Egipto, o Irão, o Iraque, a Arábia Saudita, a Eritreia, o Sudão, a Nigéria, o Quénia... 

Que montanha de ódio explica esta fúria generalizada? 

O Papa João Paulo II dizia que o século XX tinha sido o século dos mártires. O Papa Francisco continua a queixar-se das notícias que recebe e não se cansa de enviar emissários a todo o lado, para acalmar esta enxurrada de loucura. A situação é, de facto, aflitiva. 

O número de deslocados e refugiados atingiu máximos históricos. 

Grupos islâmicos estão a levar a cabo uma limpeza étnica de cristãos, sobretudo na África e no Médio Oriente. O medo do genocídio – que em vários casos aconteceu, apesar de tudo –, levou multidões de famílias cristãs a tentarem a estrada da fuga, sem lugar para onde ir, nem assistência. A fuga do Iraque é dramática. A fuga da Síria mistura-se com o choque dos exércitos. 

Nos regimes que ainda são comunistas, e nalguns países que foram comunistas até há pouco tempo, reacenderam-se focos de perseguição, como há umas décadas atrás. 

Um pouco por todo o mundo, há grupos nacionalistas que olham para Jesus Cristo como um invasor estrangeiro, que os quer arrancar das superstições ancestrais. O Papa Bento XVI referia que o cristianismo representou para esses povos a grande libertação, ao anunciar que Deus é bom, que o mundo não está sob o domínio oculto do irracional; mas ainda há gente agarrada ao poder do mal. 

O panorama é desolador? 

A introdução do sumário do relatório são umas palavras do Arcebispo Jeanbart, de Aleppo, na Síria, de que fazem parte estas frases: «Estamos expostos à morte o dia inteiro e outros cristãos também (...). Mesmo assim, estamos convencidos de que o nosso amado Senhor Jesus está presente na sua Igreja e que nunca nos vai abandonar. Sabemos que nada pode intrometer-se entre nós e o amor de Cristo. E que, em todas as provações, saímos vencedores graças ao poder daquele que nos ama». 

Há 2000 anos, S. Paulo escrevia aos cristãos recém-chegados a Roma: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (...) Por causa de Ti estamos expostos à morte o dia inteiro, fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isso, saímos mais do que vencedores graças Àquele que nos amou». 

Segundo as estatísticas da Santa Sé, o número de católicos continua a aumentar no mundo inteiro, excepto na nossa Europa, onde já não corre o sangue precioso dos mártires. Talvez não esteja longe: na visita aos Estados Unidos, o Papa Francisco recebeu uma senhora posta na prisão por não aceitar ir contra a sua consciência cristã. 

O título do sumário do relatório AIS é uma interrogação: «Perseguidos e Esquecidos?». Faltou-me coragem para manter a pergunta no cabeçalho deste artigo. 

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 25-X-2015 
Funcionários do Governo chinês queimam o crucifixo no cimo da igreja de Huzhen, na cidade de Lishui (4 de Maio de 2015)
Nota: A AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) é uma fundação da Santa Sé, para ajudar cristãos perseguidos, ou passando grandes necessidades. No início da AIS, a maioria dos crimes cometia-se nas ditaduras comunistas. Hoje em dia, a perseguição estende-se por grande parte da Ásia, pela África do Norte e do Leste e por locais específicos da América Latina.


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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Tradição e as novas gerações



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Confiai a Deus todas as vossas preocupações

Entrou na Ordem um novo aspirante de qualidade e o seu número foi assim elevado para oito. Então o bem-aventurado Francisco reuniu-os a todos e falou-lhes longamente do Reino de Deus, do desprezo do mundo, da renúncia à vontade própria e da docilidade que tinham de exigir ao seu corpo. 

Depois dividiu-os em quatro grupos de dois e disse-lhes: «Ide, meus bem-amados, percorrei dois a dois as diversas regiões do mundo, anunciai a paz aos homens e pregai-lhes a penitência que obtém o perdão dos pecados. Sede pacientes na prova, certos de que Deus cumprirá o que decidiu e manterá as suas promessas. Respondei humildemente a quem vos interrogar, abençoai os que vos perseguirem, agradecei aos que vos insultarem e vos caluniarem, pois esse é o preço do Reino dos Céus (Mt 5,10-11).» 

Eles acolheram com alegria a missão que lhes confiava a santa obediência e prostraram-se aos pés de São Francisco, que abraçou cada um deles ternamente dizendo-lhes com fé: «Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós» (1Pe 5,7). Era a sua frase habitual quando enviava um irmão em missão.

Tomás de Celano (biógrafo de S. Francisco e de S. Clara) in «Vita Prima» de S. Francisco 


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O que diz o Concílio Vaticano II sobre o Casamento?

A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso [10]. (...) E o Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade. Unindo o humano e o divino, esse amor leva os esposos ao livre e recíproco dom de si mesmos, que se manifesta com a ternura do afecto e, com as obras, e penetra toda a sua vida [11]; e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa actuação. Ele transcende, por isso, de longe a mera inclinação erótica, a qual, fomentada egoísticamente, rápida e miseravelmente se desvanece.

Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no acto próprio do matrimónio. São, portanto, honestos e dignos os actos pelos quais os esposos se unem em intimidade e pureza; realizados de modo autenticamente humano, exprimem e alimentam a mútua entrega pela qual se enriquecem um ao outro na alegria e gratidão. Esse amor, ratificado pela promessa de ambos e, sobretudo, sancionado pelo sacramento de Cristo, é indissoluvelmente fiel, de corpo e de espírito, na prosperidade e na adversidade; exclui, por isso, toda e qualquer espécie de adultério e divórcio.

A unidade do matrimónio, confirmada pelo Senhor, manifesta-se também claramente na igual dignidade da mulher e do homem que se deve reconhecer no mútuo e pleno amor. Mas, para cumprir com perseverança os deveres desta vocação cristã, requere-se uma virtude notável; por este motivo, hão-de os esposos, fortalecidos pela graça para levarem uma vida de santidade, cultivar assiduamente e impetrar com a oração a fortaleza do próprio amor, a magnanimidade e o espírito de sacrifício.

O autêntico amor conjugal será mais apreciado, e formar-se-á a seu respeito uma sã opinião pública, se os esposos cristãos derem um testemunho eminente de fidelidade e harmonia e de solicitude na educação dos filhos e se participarem na necessária renovação cultural, psicológica e social em favor do casamento e da família. Os jovens devem ser conveniente e oportunamente instruídos, sobretudo no seio da própria família, acerca da dignidade, missão e exercício do amor conjugal. Deste modo, educados na castidade, poderão, chegada a idade conveniente, entrar no casamento depois dum noivado puro.

in Gaudium et Spes, 49 -- Constituição do Concílio Vaticano II

[10] Cfr. Gén. 2, 22. 24; Prov. 5, 18-20; 31, 10-31; Tob. 8,4-8; Cant. 1, 2-3; 2,16; 4,16-5,1; 7, 8-11; 1 Cor. 7, 3-6; Ef. 5, 25-33.

[11] Cfr. Pio XI, Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p. 547-548; Denz.-Schön. 2232 (3707).


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Comentário ao Relatório Final do Sínodo - George Weigel

A Relatio Finalis [relatório final] do Sínodo-2015, adoptado esta noite pelos Padres Sinodais, representa um melhoramente enorme e encorajador em relação ao Instrumentum Laboris [documento de trabalho] que serviu de base para o trabalho do Sínodo. A tremenda diferença entre os dois documentos ilustra o quão frutífero foi o caminho que o Sínodo percorreu ao longo de três semanas, às vezes desafiantes.

Diferenças consideráveis, melhoramento considerável

Disposto como estava, com sociologia, e sociologia não muito boa, o documento de trabalho era, em mais do que uns pontos, difícil de reconhecer como um documento da Igreja. O relatório final é claramente um texto eclesial, um produto da mediação da Igreja em relação à Palavra de Deus, compreendida como a lente através do qual a Igreja interpreta a experiência contemporânea.

O documento de trabalho era biblicamente anorético. O relatório final é biblicamente rico, mesmo até eloquentemente bíblico, como é próprio de um Sínodo no quinquagésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II e a sua Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum.

Às vezes, o documento de trabalho parecia quase embaraçado com a doutrina estabelecida pela Igreja sobre a indissolubilidade do casamento, sobre as condições necessárias para a digna recepção da Sagrada Comunhão, e sobre as virtudes da castidade e fidelidade. O relatório final reafirma as doutrinas da Igreja sobre o matrimónio, a Sagrada Comunhão e a possibilidade de viver virtuosamente no mundo pós-moderno. E fá-lo sem objecções, mesmo quando exige à Igreja uma proclamação das verdades como património do próprio Senhor Jesus e um cuidado pastoral mais solícito daqueles que estão em circunstâncias de dificuldades maritais e familiares.

O documento de trabalho era praticamente silencioso sobre o dom dos filhos. O relatório final descreve os filhos como uma das maiores bençãos, louva as famílias grandes, tem cuidado em honrar crianças com necessidades especiais e eleva o testemunho de casais felizes e dos seus filhos com muitos frutos como agentes de evangelização.

O documento de trabalho tinha alguma discussão sobre a consciência e o seu papel na vida moral. O relatório final faz um trabalho muito melhor de explicar a compreensão que a Igreja tem de consciência e a sua relação com a verdade, rejeitando a ideia de que a consciência é uma espécie de faculdade flutuante da vontade que funciona de forma equivalente à carta "Pode Sair Livre da Prisão".

O documento de trabalho estava cheio de ambiguidades sobre a prática pastoral e a sua relação com a doutrina. O relatório final, apesar de ainda ter algumas ambiguidades, deixa claro que o cuidado pastoral tem que começar de um ponto de compromisso com o ensinamento estabelecido pela Igreja, e que não existe tal coisa como "Catolicismo de opção local", quer em termos de soluções regionais/nacionais ou de soluções de paróquia-em-paróquia. A Igreja permanece uma Igreja.

O documento de trabalho também era ambíguo na sua descrição de "família". O relatório final sublinha que não pode haver uma analogia bem feita entre a compreensão Católica de "matrimónio" e "família" e outros acordos sociais, independentemente do seu estatuto legal.

A misericórdia e a verdade às vezes pareciam estar em tensão no documento de trabalho. O relatório final está muito mais desenvolvido teologicamente no que toca ao relacionar a misericórdia e a verdade em Deus, que são portanto inseparáveis na doutrina e prática da Igreja.

O documento de trabalho não era nada de especial de um ponto de vista literário e era mais do que difícil para digerir. O relatório final é bastante eloquente em alguns pontos e vai enriquecer as vidas de quem o ler, mesmo que possam não concordar com esta ou aquela formulação.

No fundo, o relatório final, apesar de não estar sem falhas, avança um longo caminho - e anos-luz além do Instrumentum Laboris - ao fazer aquilo que o Papa Francisco e muitos Padres Sinodais queriam fazer com este processo inteiro de dois anos: elevar e celebrar a visão Católica do matrimónio e da família como uma resposta luminosa à crise dessas instituições no século XXI.

Entrelinhas e oportunidade perdidas

O Sínodo-2015 também trouxe à luz alguns problemas sérios que ainda têm que ser respondidos, agora que a Igreja se move para além dos Sínodos gémeos de 2014 e 2015, com o relatório final do Sínodo-2015 como esquema de trabalho para reflexões futuras (e para qualquer documento pós-sinodal que o Papa Francisco eventualmente decida promulgar).

O primeiro destes problemas pode-se chamar problema de digestão pastoral e teológica. Para mim era dolorosamente claro através de algumas intervenções na assembleia geral do Sínodo - e através de alguns dos relatórios dos grupos de discussão do Sínodo separados por línguas - que vastos sectores da Igreja mundial não começaram ainda a interiorizar o ensinamento da Familiaris Consortio (a exortação apostólica de João Paulo II de 1981, que completou o trabalho do sínodo de 1980 sobre a Família), e muito menos a interiorizar a Teologia do Corpo de João Paulo. Pior ainda, algumas zonas da Igreja ocidental na Europa parecem olhar para tais materiais como um chapéu velho sem esperança, apesar de só ter ainda trinta anos. O entusiasmo com que a Teologia do Corpo tem sido recebida nas zonas mais alerta da Igreja na América do Norte foi certamente parte da discussão do Sínodo-2015; mas falta ainda um grande trabalho a ser feito para levar esta perspectiva Católica única sobre o corpo, a sexualidade e o amor humano para uma fruição pastoral na América Latina e Europa.

No entanto, talvez não seja tão surpreendente que demore algum tempo que um ensinamento verdadeiramente original se espalhe e se desenvolva na tradição Católica; estas coisas demoram sempre tempo. Mas dada a velocidade com que a mudança cultural (ou desconstrução cultural) está a lavar o mundo ocidental, certamente que se espera que as igrejas locais que ainda não estão equipadas com estes recursos carreguem no acelerador.

O Sínodo-2015 também teria sido mais honesto se o debate tivesse trazido à superfície o duro facto de que a questão da comunhão e da consciência muitas vezes funcionou como pretexto para bispos, em grande medida do mundo alemão, que querem esquecer a Humanae Vitae e desconstruir a Veritatis Splendor. Essas partes da Igreja universal nunca perdoaram a Paulo VI por reafirmar, na Humanae Vitae, a visão Católica clássica dos meios apropriados para regular a fertilidade. Nem perdoaram a João Paulo II por rejeitar a teologia moral proporcionalista e insistir, na Veritatis Splendor, que alguns actos são, por eles mesmos, gravemente maus (malum in se). Um padre Sinodal proeminente do Catolicismo alemão foi tão longe como sugerir, numa entrevista antes do Sínodo-2015, que se pode encontrar sempre algum bem em todas as situações, que o malum in se não tinha um significado real no mundo de hoje. (Uma pessoa pensa imediatamente na violação, na tortura de crianças, no tráfico sexual de jovens raparigas, nas crucixões e decapitações de Cristãos pelo ISIS, e pergunta-se o que é que se estava a passar nesta afirmação incrível.)

Para além do orgulho intelectual que já referi como problema nestas contestações, uma pessoa não pode deixar de pensar numa certa cegueira à história. O tecido moral do Ocidente que se está a desenrolar está a levar, passo a passo, ao que Bento XVI apropriadamente chamou de "ditadura do relativismo" - o uso do poder coercivo do estado para impor um código com uma moral relativista em toda a sociedade. Porque é que importantes bispos alemães não conseguem ver isto?

Outra ideia nos debates do Sínodo-2015 foi a questão tão velha como a controvérsia entre Agostinho e Pelágio - e provavelmente muito mais velha que isso: nós somos pecadores à procura de redenção ou somos basicamente pessoas boas que conseguem, pelos seus próprios esforços, puxar-se à nobilidade que aspiram? Esta última está hoje carregada de um "individualismo expressivo" - o termo usado pelo professor de direito de Notre Dame, Carter Snead, numas declarações divulgadas esta semana em "Letters to the synod", para resumir a noção pós-moderna da pessoa humana simplesmente como um conjunto de desejos, uma vontade com corpo. É suficiente mau que, como diz o Professor Snead, quando cinco juízes do Supremo Tribunal Americano acreditam nisto e o usam como desculpa para encontrar "direitos" na Constituição que seriam inimagináveis para os que a escreveram e adoptaram esse texto e amendas. É muito pior quando se encontram bispos Católicos que parecem inclinar-se para uma direcção parecida e errónea, agindo sob pressões culturais que parecem criar uma sensação de pastoral do desespero. Aqui, portanto, está um assunto que precisa de sério exame na Igreja pós-Sínodo-2015.

Por fim, e apesar de todas as coisas boas no relatório final, é uma pena que um Sínodo que devia ser sobre mudar o mundo acabasse por ser uma batalha sobre mudar a Igreja - ou permanecer fiel à sua doutrina e forma fundamental. Isto não é, esperamos, o que o Papa Francisco queria, mas é o que aconteceu e isso em si mesmo foi uma oportunidade perdida. Também sugere que a paixão por uma "Igreja permanentemente em missão" de que o Santo Padre fala tem ainda que ser comunicada a muitos sectores importantes da Igreja mundial.

Uma Igreja virada para dentro não é a Igreja da Nova Evangelização. Por isso falta aos que se dedicam ao renascimento evangelizador do Catolicismo do século XXI ligar  a família a essa missão de uma forma mais forte do que o Sínodo-2015 foi capaz de fazer.

 George Weigel, Distinguished Senior Fellow e William E. Simon Chair em Catholic Studies, Ethics e Public Policy Center.

in firstthings.com [Negritos Senza Pagare]




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sábado, 24 de outubro de 2015

Obrigações dos Maridos e das Mulheres - S. António Maria Claret

Obrigações do Marido

1. Amar a sua mulher, como Jesus Cristo a Igreja.

2. Não a desprezar, porque é companheira inseparável.
3. Dirigi-la como inferior. 
4. Ter cuidado dela, como guarda da sua pessoa.
5. Sustentá-la com decência.
6. Sofrê-la com toda paciência.
7. Assisti-la com caridade.
8. Corrigi-la com benevolência.
9. Não a maltratar com palavras nem obras.
10. Não fazer nem dizer coisa alguma diante dos filhos, ainda que pequenos, que possa ser para eles motivo de escândalo.

Obrigações da Mulher

1. Estimar o marido.
2. Respeitá-lo como a sua cabeça.
3. Obedecer-lhe como a seu superior. 
4. Assisti-lo com toda a diligência.
5. Ajudá-lo com reverência.
6. Responder-lhe com mansidão.
7. Calar quando estiver zangado e enquanto durar a zanga.
8. Suportar com paciência os seus defeitos.
9. Repelir toda a familiaridade.
10. Cooperar com o marido na educação dos filhos.
11. Não desperdiçar as coisas e os bens da casa.
12. Respeitar os sogros como pais.
13. Ser humilde com as cunhadas.
14. Conservar boa harmonia com todas as pessoas da casa.

S. António Maria Claret in Caminho Reto e Seguro para chegar ao Céu

Nota Senza Pagare: Algumas pessoas, por mensagem privada, perguntaram o que significava o ponto 3 de ambas as "obrigações", que parece um atentado à igualdade.

Convém percebermos que a noção igualdade que nos é apregoada vem directamente do marxismo, é uma igualdade injusta porque quer tratar, e que todos sejam tratados, da mesma maneira. Isto não é justo, porque a justiça consiste em dar a cada um o que é seu, o que merece/precisa receber.

O homem e a mulher são iguais em dignidade. Um marido não vale mais do que a mulher. Mas enquanto marido e mulher não são iguais, porque o homem e a mulher não são iguais. S. Paulo no capítulo 5 da Carta aos Efésios compara o amor conjugal ao amor que une Cristo e aiGreja para sempre. E explica que o marido é cabeça da mulher como Cristo é cabeça da Igreja. E por isso a mulher deve ser submissa ao marido e este deve amar a mulher como se ama a si próprio. é entre o amor.

Uma senhora casada há muitos anos disse a um sacerdote que conheço: "Em minha casa nunca houve dúvidas quem mandava: Era o meu marido. E por isso eu tive sempre o primeiro lugar."

A mulher que se submete ao marido, dá-lhe a primazia, o comando, a iniciativa. O marido, que ama a sua mulher como a si próprio, usa esse "poder" que lhe é dado, e concedido por ela, para a pôr sempre em primeiro lugar, inclusivamente à sua frente. Até dar a vida por ela! E ao fazendo isto também ele lhe é submisso e também ela o ama como a si mesma.

Quando S. António Maria diz que a mulher deve obedecer ao marido como superior não é porque não tenham os dois a mesma dignidade, mas porque uma casa onde se sabe claramente quem manda, e isso é aceite por todos, funciona melhor. E o homem que manda deve usar esse mandato para tratar a mulher como uma rainha, e não como uma escrava, e sendo assim, naquela casa, a mulher vai ter sempre o primeiro lugar.


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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Intervenção do Arcebispo da Igreja Católica Grega da Ucrânica

A família moderna na Ucrânica está marcada por dificuldade da sociedade pós-comunista, que sofre uma rápida emancipação social e cultural...

Para o ano, a Igreja Católica Grega Ucraniana vai celebrar o 70º aniversário da sua liquidação forçada por Estaline na União Soviética e a incorporação à Igreja Ortodoxa Russa [no “L’viv Sobor”]. Desde então, começou uma Via Sacra para os bispos, padres, monges e freiras e, acima de tudo, para as numerosas famílias Cristãs que foram arrastadas das suas terras e colocadas no enorme deserto da Sibéria...

Durante este período de perseguição da Igreja, as famílias tornaram-se como lareiras onde a fé em Deus era preservada e onde novas gerações recebiam o dom da fé, tornando-se autênticas igrejas domésticas. Nas suas casas, sacerdotes perseguidos asseguravam-se de arranjarem lugares escondidos para o altar do Senhor onde, durante o silêncio da noite, celebravam a Eucaristia e os outros Santos Sacramentos...

[Depois do colapso da União Soviética, quando a Igreja Católica Grega da Ucrânica se encontrou diante de novos desafios sob a forma de migração em massa], as famílias dos crentes, especialmente as mães, mais uma vez trouxeram a Igreja para países onde nos tínhamos tornado presentes recentemente, em particular na Europa Ocidental. Frequentemente, estas mães e avós ucranianas restauraram os valores Cristãos e humanos em família italianas, espanholas e portuguesas e outras. Muitas pessoas idosas nestes países passaram para a eternidade, reconciliadas com Deus e receberam o Sacramento da Santa Unção, graças a cuidados ucranianos...

Mesmo no tempo presente da guerra na Ucrânia, diante de outro desafio de uma crise económica real e severa, as famílias Cristãs receberam migrantes [refugiados] e [tornaram-se] a fonte de um poder solidário inesperado... De acordo com as estimativas da ONU, na Ucrânica há [mais do que um] milhão de Pesssoas Refugiadas, a maior partes das quais foi ajudada por famílias ucranianas, a célula fundamental da sociedade...

Hoje tenho que afirmar que, no passado, a família defendia e preservava a Igreja. Hoje a Igreja tem o dever sagrado de proteger e preservar a família; a família como a união fiel, frutífera e indissolúvel entre um homem e uma mulher... Os meus fiéis pediram-me para apelar aos Padres Sinodais para lembrar que nós, os bispos, não somos os mestres da verdade revelada sobre a família, mas antes os seus servos. Hoje, as nossas pessoas esperam que nós confirmemos e enfatizemos o ensinamento da Igreja sobre a família, clarificada e sumarisada pelo Beato Paulo VI e o Papa S. João Paulo II.

Famílias santas e piedosas, fortalecidas na fé, encontram, na sua terra, as formas mais criativas para responder aos desafios da sociedade moderna e ensinam-nos como mostrar misericórdia aos que passam por dificuldades. Não conseguimos resolver os problemas com que está a tentar a família, mas podemos pregar a verdade do Evangelho sobre a família e ajudar a próxima geração, com a ajudade de Deus para prosseguir no caminho de santidade.

in voiceofthefamily.org


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S. João Paulo II aos Sacerdotes: Usem hábito eclesiástico!

Ao venerado Irmão Cardeal Ugo Poletti, Vigário-Geral para a Diocese de Roma

A solicitude para com a querida diocese de Roma traz ao meu ânimo numerosos problemas, entre os quais se mostra digno de consideração, pelas suas consequências pastorais dele derivantes, o referente à disciplina do hábito eclesiástico.

Muitas vezes nos encontros com os Sacerdotes expressei o meu pensamento a respeito, ressaltando o valor e o significado deste sinal característico, não só porque ele contribui para o decoro do Sacerdote no seu comportamento externo ou no exercício do seu ministério, mas sobretudo porque evidencia na Comunidade eclesiástica o público testemunho que todos os Sacerdotes devem dar da própria identidade e especial pertença a Deus. E dado que este sinal exprime concretamente o nosso "não ser do mundo" (cf. Jo 17, 14), na oração composta para a Quinta-feira Santa deste ano, ao aludir ao hábito eclesiástico, dirigia-me ao Senhor com esta invocação: "Fazei com que não contristemos nunca o vosso Espírito... com aquilo que se manifesta como vontade de esconder o próprio sacerdócio diante dos homens e de evitar todos os seus sinais externos" (AAS 74, 1982, p. 526).

Enviados por Cristo para o anúncio do Evangelho, temos uma mensagem a transmitir, que se exprime seja com as palavras, seja também com os sinais externos, sobretudo no mundo de hoje que se mostra tão sensível à linguagem das imagens. O hábito eclesiástico, como o religioso, tem um particular significado: para o sacerdote diocesano ele tem principalmente o carácter de sinal, que o distingue do ambiente secular em que vive; para o religioso e para a religiosa ele exprime também o carácter de consagração e põe em evidência o fim escatológico da vida religiosa. O hábito, portanto, favorece os fins da evangelização e induz a reflectir sobre realidades que nós representamos no mundo e sobre o primado dos valores espirituais que afirmamos na existência do homem. Por meio desse sinal, torna-se aos outros mais fácil chegar ao Mistério, de que somos portadores, Àquele a quem pertencemos e que com todo o nosso ser queremos anunciar.

Não ignoro as motivações de ordem histórica, ambiental, psicológica e social, que podem ser propostas em contrário. Poderei todavia dizer que motivações de igual natureza existem em seu favor. Devo, porém, sobretudo observar que razões ou pretextos contrários, confrontados objectiva e serenamente com o sentido religioso e com as expectativas da maior parte do Povo de Deus, e com o resultado positivo do corajoso testemunho também do hábito, mostram-se muito mais de carácter humano que eclesiológico.

Na moderna cidade secular onde se é tão timidamente debilitado o sentido do sagrado, o povo sente a necessidade destes apelos a Deus, que não podem ser transcurados sem um certo empobrecimento do nosso serviço sacerdotal.

Em virtude destas considerações, sinto o dever, como Bispo de Roma, de me dirigir a Vossa Eminência, Senhor Cardeal, que mais de perto compartilha os meus cuidados e solicitudes no governo da minha diocese, para que, de acordo com as Sagradas Congregações para o Clero, para os Religiosos e os Institutos Seculares e para a Educação Católica, queira estudar oportunas iniciativas destinadas a favorecer o uso do hábito eclesiástico e religioso, emanando para tal fim as necessárias disposições e cuidando da aplicação das mesmas.

Ao invocar sobre Vossa Eminência, Senhor Cardeal, e sobre a inteira diocese de Roma o omnipotente auxilio do Senhor, pela intercessão da Virgem Santíssima "Salus Populi Romani", de coração concedo a Bênção Apostólica.

Do Vaticano, 8 de Setembro de 1982.

JOÃO PAULO PP. II


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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

S. João Paulo II escreve às famílias

Em 1994 o Papa João Paulo II proclamou para toda a Igreja um ano da família. Para tal escreveu uma lindíssima Carta às Famílias, da qual transcrevemos alguns pontos:


Ponto 13:
Quem pode negar que a nossa seja uma época de grande crise, que se exprime sobretudo como profunda «crise da verdade»? Crise da verdade significa, em primeiro lugar, crise de conceitos. Os termos «amor», «liberdade», «dom sincero», e até mesmo os de «pessoa», «direitos da pessoa», significarão na realidade aquilo que por sua natureza contêm? Eis porque se revela tão significativa e importante para a Igreja e para o mundo — sobretudo no Ocidente — a Encíclica sobre o «esplendor da verdade» (Veritatis splendor). Somente se a verdade acerca da liberdade e da comunhão das pessoas no matrimónio e na família readquirir o seu esplendor, é que se desencadeará verdadeiramente a edificação da civilização do amor, e será então possível falar eficazmente — como faz o Concílio — de «promoção da dignidade do matrimónio e da família».

Civilização do amor significa «comprazer-se com a verdade» (cf. 1 Cor 13, 6). Mas uma civilização, inspirada numa mentalidade consumista e anti-natalista, não é uma civilização do amor nem o poderá ser nunca. Se a família é tão importante para a civilização do amor, isto fica-se a dever à especial proximidade e intensidade dos laços que nela se instauram entre as pessoas e as gerações. Apesar disso, ela continua vulnerável e pode facilmente sucumbir aos perigos que enfraquecem ou até destroem a sua união e estabilidade. Devido a tais perigos, as famílias cessam de testemunhar a favor da civilização do amor e podem até mesmo tornar-se a sua negação, uma espécie de contra-testemunho. Uma família desfeita pode, por sua vez, reforçar uma específica forma de «anticivilização», destruindo o amor nos vários âmbitos em que se exprime, com inevitáveis repercussões sobre o conjunto da vida social. (13.)

Ponto 12:
Eis por que a Igreja nunca se cansa de ensinar e testemunhar tal verdade! Embora manifeste uma materna compreensão pelas não poucas e complexas situações de crise, em que as famílias se vêem envolvidas, como também pela fragilidade moral de todo o ser humano, a Igreja está convencida de que deve absolutamente permanecer fiel à verdade relativa ao amor humano: caso contrário, atraiçoar-se-ia a si própria. Afastar-se desta verdade salvífica, seria como fechar à fé «os olhos do coração» (Ef 1, 18), que, pelo contrário, devem permanecer sempre abertos à luz, com que o Evangelho ilumina as vicissitudes humanas (cf. 2 Tm 1, 10). A consciência daquele dom sincero de si, pelo qual o homem «encontra-se a si mesmo», deve ser solidamente renovada e constantemente garantida, defronte às muitas oposições que a Igreja encontra por parte dos fautores de uma falsa civilização do progresso. A família exprime sempre uma nova dimensão do bem para os homens, e, por isso, suscita uma nova responsabilidade. Trata-se da responsabilidade por aquele singular bem comum, no qual está incluído o bem do homem: de cada membro da comunidade familiar; um bem certamente «difícil» (bonum arduum), mas fascinante

De modo particular, paternidade e maternidade responsável referem-se directamente ao momento em que o homem e a mulher, unindo-se «numa só carne», podem tornar-se pais. É momento impregnado de um valor peculiar, quer pela sua relação interpessoal quer pelo seu serviço à vida: eles podem-se tornar progenitores — pai e mãe —, comunicando a vida a um novo ser humano. As duas dimensões da união conjugal, a unitiva e a procriadora, não podem ser separadas artificialmente sem atentar contra a verdade íntima do próprio acto conjugal.

Este é o ensinamento constante da Igreja, e «os sinais dos tempos», de que hoje somos testemunhas, oferecem novos motivos para reafirmá-lo com particular vigor. S. Paulo, tão atento às necessidades pastorais do seu tempo, exige clara e firmemente que se «insista oportuna e inoportunamente» (cf. 2 Tim 4, 2), sem qualquer temor pelo facto de «já não se suportar a sã doutrina» (cf. 2 Tim 4, 3). As suas palavras são bem conhecidas de quantos, compreendendo profundamente as vicissitudes do nosso tempo, esperam que a Igreja não só não abandone «a sã doutrina», mas antes, a anuncie com renovado vigor, perscrutando nos actuais «sinais dos tempos» as razões para um ulterior e providencial aprofundamento da mesma. (...)

A Igreja ensina a verdade moral acerca da paternidade e maternidade responsável, defendendo-a das visões e tendências erróneas hoje difusas. Por que motivo faz isto a Igreja? Será, talvez, porque não se dá conta das problemáticas invocadas por quantos aconselham cedências neste âmbito e procuram convencê-la inclusivamente com pressões indevidas, quando não mesmo com ameaças? Não raro, de facto, o Magistério da Igreja é acusado de estar superado já e fechado às instâncias do espírito dos tempos modernos; de realizar uma acção nociva para a humanidade, e inclusive para a própria Igreja. Ao manter-se obstinadamente nas próprias posições — diz-se —, a Igreja acabará por perder popularidade e os fiéis afastar-se-ão cada vez mais dela.

Mas como é possível sustentar que a Igreja, especialmente o Episcopado em comunhão com o Papa, seja insensível a problemas tão graves e actuais? Foi precisamente neles que Paulo VI entreviu questões de tal forma vitais que o impeliram a publicar a Humanae vitae! O fundamento sobre o qual se baseia a doutrina da Igreja acerca da paternidade e maternidade responsável é bem amplo e sólido. 


Ponto 17:
O matrimónio, que está na base da instituição familiar, é estabelecido pela aliança com que «o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole». Somente uma tal união pode ser reconhecida e confirmada como «matrimónio» pela sociedade. Ao contrário, não o podem ser as outras uniões interpessoais que não obedecem às condições agora recordadas, mesmo se hoje, precisamente sobre este ponto, se difundem tendências muito perigosas para o futuro da família e da própria sociedade.

Nenhuma sociedade humana pode correr o risco do permissivismo em questões de fundo relativas à essência do matrimónio e da família! Um tal permissivismo moral só pode causar dano às autênticas exigências da paz e da comunhão entre os homens. Compreende-se assim a razão por que a Igreja defende vigorosamente a identidade da família e incita as instituições competentes, especialmente os responsáveis pela política, bem como as organizações internacionais, a não cederem à tentação de uma aparente e falsa modernidade.

Ponto 20:
Graças a uma tal reflexão crítica, a nossa civilização, com tantos aspectos positivos que possui quer no plano material quer no cultural, dever-se-ia dar conta de ser, sob diversos pontos de vista, uma civilização doente que gera profundas alterações no homem. Por que é que se verifica isto? A razão está no facto de a nossa sociedade se ter afastado da verdade plena sobre o homem, da verdade acerca daquilo que o homem e a mulher são como pessoas. Consequentemente, não sabe compreender de maneira adequada o que sejam verdadeiramente o dom das pessoas no matrimónio, o amor responsável ao serviço da paternidade e da maternidade, a autêntica grandeza da geração e da educação.

A carta pode ser lida na íntegra aqui.


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