quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O espantoso milagre de Lanciano

Era uma manhã de Domingo comum, na cidade italiana de Lanciano, no mosteiro de São Legoziano, onde viviam os Monges de São Basílio. O mais incrédulo deles proferia as palavras da Oração Eucarística, quando, de repente, ocorreu o inesperado. Os olhos assustados do religioso denunciavam o evento. Deus havia condecorado a sua suspeita quanto à transubstanciação com o mais prodigioso dos milagres eucarísticos de que se ouviu falar.

A hóstia convertera-se em Carne viva e o vinho em Sangue Vivo. O pequeno monge que outrora duvidara da presença real de Cristo na Eucaristia agora era obrigado a reconhecer a sua tolice, pedindo perdão a Deus - e à comunidade presente - pela sua falta de fé: "Ó bem-aventuradas testemunhas diante de quem, para confundir a minha incredulidade, o Santo Deus quis desvendar-se neste Santíssimo Sacramento e tornar-se visível aos vossos olhos. Vinde, irmãos, e admirai o nosso Deus que se aproximou de nós. Eis aqui a Carne e o Sangue do nosso Cristo muito amado!" (1)

Comoção geral. A pequena assembleia reunida lançou-se sobre o altar, chorando e clamando a misericórdia de Deus. Havia nascido um novo São Tomé. O monge ganhara a fama do céptico apóstolo de Jesus pelas multidões que se dirigiram à cidade de Lanciano, ano após ano, em longas peregrinações.

A princípio, os fiéis guardaram as relíquias num tabernáculo de marfim, mas, em 1713, foram transferidas para uma custódia de prata e um cálice de cristal, onde se encontram até hoje, na igreja de São Francisco. Enquanto o Sangue se dividia em cinco fragmentos, coagulados em diferentes dimensões, a Hóstia-Carne aparentava um tecido fibroso, de coloração escura, e rósea quando iluminado pelo lado oposto.

A Igreja reconheceu o milagre de Lanciano em 1574. Mas foi somente em Novembro de 1970 que os Frades Menores Conventuais, responsáveis pela guarda das relíquias, tiveram a autorização para submetê-las ao exame de dois médicos. Concluída a pesquisa, em Arezzo, os renomados doutores Linoli e Bertelli publicaram um relatório, dizendo:

"A Carne é verdadeira carne, o Sangue é verdadeiro sangue. A Carne é do tecido muscular do coração (miocárdio, endocárdio e nervo vago). A Carne e o Sangue são do mesmo tipo sanguíneo (AB) e pertencem à espécie humana. No sangue foram encontrados, além das proteínas normais, os seguintes materiais: cloretos, fósforos, magnésio, potássio, sódio e cálcio. A conservação da Carne e do Sangue, deixados em estado natural por 12 séculos e expostos à acção de agentes atmosféricos e biológicos, permanece um fenómeno extraordinário."

Os resultados foram tão incríveis que antes mesmo do fim da análise, os médicos enviaram um telegrama aos Frades, confessando-lhes o espanto: "E o Verbo se fez Carne!" É assim que o Milagre de Lanciano, desafiando a acção do tempo e toda a lógica da ciência humana, se apresenta aos nossos olhos como a prova mais viva e palpável de que "Comei e bebei todos vós, isto é o meu Corpo que é dado por vós."

Curiosamente, o tipo sanguíneo das relíquias é o mesmo encontrado no Santo Sudário.

in Christo Nihil Praeponere


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A multidão que vive em pecado mortal

"São uma legião, por desgraça, os homens que vivem habitualmente em pecado mortal. Absorvidos quase completamente pelas preocupações da vida, envolvidos nos negócios profissionais, devorados por uma sede insaciável de prazeres e diversões e submersos numa ignorância religiosa que chega muitas vezes a extremos incríveis, não se colocam o problema do mais além."

Antonio Royo Marín O.P. in Teología Perfección Cristiana




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Os monges beneditinos de Núrcia

No Jubileu do ano 2000, os monges de Núrcia levaram uma vida nova para o local de nascimento de São Bento. Armados apenas com a sua fé e o seu zelo, fundaram uma comunidade monástica que vem atraindo os homens de todo o mundo a seguir antiga regra de São Bento. Este documentário foi produzido depois de muitos pedidos dos seus amigos para terem uma visão sobre o funcionamento interno da vida no mosteiro.



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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

São Bartolomeu, apóstolo

São Bartolomeu foi um dos doze discípulos de Jesus Cristo. O seu nome vem da língua aramaica e faz uma referência ao nome do seu pai: Bartolomeu vem de “Bar Talmay” e significa “filho de Talmay”.

São Bartolomeu é Natanael

As narrações bíblicas não dão um enfoque especial a Bartolomeu. A não ser numa passagem do Evangelho de João, as passagens bíblicas limitam-se a citar o seu nome entre os doze escolhidos por Jesus. Sabe-se, porém, através dos Evangelhos, que Bartolomeu é a mesma pessoa que o apóstolo Natanael, citado noutros trechos evangélicos. 

Desdenha Nazaré

Natanael é um nome que quer dizer "Deus deu". Este nome ganha um novo sentido se observarmos que Natanael veio de Caná da Galileia. Lá, ele presenciou o primeiro milagre de Jesus, nas famosas “Bodas de Caná” (Jo 2, 1-11). Como São João evangelista nos conta, o discípulo Filipe contou a Natanael (ou Bartolomeu) que tinha acabado de encontrar o Messias. E disse-lhe ainda que o salvador vinha de Nazaré. Natanael imediatamente respondeu conforme o conhecimento da época: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" (Jo 1, 46). 
Esta pergunta de São Bartolomeu mostra claramente que o Messias, ou o Salvador, era esperado como um grande general, vindo de lugares importantes de Israel, e não de um vilarejo perdido na Galileia chamado Nazaré.

O Encontro pessoal com Jesus

Quando São Bartolomeu se encontrou com Jesus, aquele “Messias vindo de Nazaré”, recebeu do Mestre um elogio inesperado. Jesus disse a ele "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo 1, 47). São Bartolomeu, surpreso, respondeu: "De onde me conheces?" Jesus respondeu revelando-lhe a sua messianidade: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira".
Jesus mencionou um momento importante na vida de Bartolomeu. Sentindo o olhar do Mestre, Bartolomeu percebe que aquele Mestre realmente o conhecia. Depois desse momento, Bartolomeu decide seguir o Mestre e faz a sua profissão de fé em Jesus: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel".

São Bartolomeu, discípulo e apóstolo

São Bartolomeu seguiu a Jesus nos três anos da Sua vida pública. Testemunhou os ensinamentos, as acções, os milagres, a morte e a ressurreição de Jesus. Esteve no Pentecostes, quando o Espírito Santo veio sobre todos e todos se tornaram missionários corajosos da Boa Nova pelo mundo.
Bartolomeu conheceu pessoalmente Nossa Senhora, e dela certamente aprendeu mais sobre os ensinamentos do Mestre. Assim, cheio do Espírito de Deus, depois de ter sido discípulo de Jesus, ele passou a ser Apóstolo, palavra grega que quer dizer “Enviado”. Ele foi enviado, Apóstolo, em nome de Jesus. E fez maravilhas pelo Reino de Deus em terras longínquas.

Missão de São Bartolomeu

A Tradição da Igreja e fontes históricas dizem que São Bartolomeu foi anunciar Reino de Deus até ao distante país da Índia. Há outra tradição que afirma que São Bartolomeu foi pregar o Evangelho onde é hoje a Europa Oriental. Lá, terá realizado uma maravilhosa missão acompanhada de conversões sinceras que confirmavam a pregação da Palavra de Deus.

Martírio

Depois dessa frutuosa missão em que muitos se converteram a Jesus Cristo e onde várias comunidades cristãs foram criadas, São Bartolomeu foi martirizado, vítima de esfolamento de toda a sua pele. Foi na cidade de Albanópolis, hoje Derbent, na região russa do Daguestão, às margens do mar Cáucaso. Foi morto por ordem do governador local, que não aceitou a pregação do cristianismo nas suas terras.

Iconografia (representação artística)

Essa tradição é tão forte que São Bartolomeu foi pintado na Capela Sistina segurando a pele de seu corpo na sua mão esquerda e, na mão direita, uma adaga, tipo de uma espada afiada, instrumento do martírio que ele sofreu. Séculos depois, as relíquias de São Bartolomeu foram transportadas para Roma e estão hoje na igreja a ele dedicada.

Devoção a São Bartolomeu

A festa litúrgica de São Bartolomeu é celebrada no dia 24 de Agosto, provável dia da sua morte. As igrejas da Europa oriental devem a sua fé, em última instância, à pregação corajosa de São Bartolomeu, cujos frutos permanecem até hoje.
in cruzterrasanta.com.br


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O maior no Reino dos Céus

"Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céus. 
Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no Reino do Céus." Mt 18, 3-4


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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Santa Rosa de Lima, padroeira da América Latina

Rosa viveu uma infância serena e economicamente privilegiada. Mas, de repente, a família sofreu um revés financeiro. Arregaçou, então, as mangas, ajudando a família em todo género de actividades, desde trabalhos domésticos ao cultivo de uma horta e ao bordado, como forma de ganhar a vida. 

Desde pequena aspirou a consagrar-se a Deus na vida do claustro, mas o Senhor fez-lhe conhecer a Sua vontade, de que permanecesse virgem no mundo. Leu a vida de Santa Catarina de Sena, que se tornou o seu modelo de vida, aprendendo dela o amor por Cristo, pela Sua Igreja e pelo próximo, sobretudo os irmãos índios. Como a Santa de Sena, vestiu o hábito da Ordem Terceira Regular dos Pregadores. Tinha vinte anos de idade. 

Com a permissão da família, organizou numa sala da casa materna um tipo de abrigo para os necessitados, onde dava assistência a crianças e anciãos abandonados, em particular aos de origem índia. Ainda como Santa Catarina, foi tornada digna de sofrer a Paixão do Seu divino Esposo, mas também provou o sofrimento da "noite escura", que durou uns bons 15 anos. Recebeu também o extraordinário dom das núpcias místicas. Foi enriquecida também com outros carismas, como o de fazer milagres, da profecia e da bi-locação. 

A partir de 1609, encerrou-se em uma cela de apenas dois metros quadrados, construída no jardim da casa materna, fria no Inverno e quente e cheia de mosquitos no Verão para melhor rezar em união com o Senhor. Da cela saia apenas para a função religiosa, onde passava grande parte do seus dias de joelhos, a rezar e em estreita união com o Senhor e das suas visões místicas, que começaram a ocorrer com uma impressionante regularidade, todas as semanas, de Quinta-feira ao Sábado. À oração, Rosa juntava a autoflagelação, vigílias e jejuns, e a sua vida ascética era cheia de visões, mas também de assédios demoníacos. 

Já em vida era grande a sua fama de santidade. O episódio mais marcante da sua existência terrena no-la apresenta abraçada ao Tabernáculo para defendê-lo dos calvinistas holandeses levados ao assalto da cidade de Lima pela frota do pirata Jorge Spitzberg. A inesperada libertação da cidade, por causa da repentina morte do comandante holandês, foi atribuída à sua intercessão. Em 1615, na “Ciudad de Los Reyes” (Lima), Rosa encabeçou uma "rogativa" (oração pública) numa igreja, diante do possível desembarque de piratas holandeses que já haviam assaltado o vizinho porto de El Callao. Sem prévio aviso, uma grande tormenta impediu que as embarcações se aproximassem à terra e a cidade ficou a salvo. 

Rosa, pressentindo a chegada da morte, confidenciou: "Este é o dia de minhas núpcias eternas". Era o dia 24 de agosto de 1617, festa de São Bartolomeu. Tinha trinta e um anos de idade. 

Foi beatificada em 1668 pelo Papa Clemente IX, e dois anos depois foi proclamada Patrona Principal das Américas, das Filipinas e das Índias Ocidentais, pelo Papa Clemente X. Tratava-se de um reconhecimento singular uma vez que um decreto do Papa Urbano VIII, de 1630, estabelecia que não poderiam ser dados como protetores de reinos e cidades pessoas que não haviam sido canonizadas. De qualquer forma, foi canonizada em 12 de Abril de 1671, pelo Papa Clemente X. Também é a padroeira dos jardineiros e dos floristas. É invocada em caso de feridas, contra as erupções vulcânicas e em caso de lutas na família. 

in farfalline.blogspot.pt

Fontes: 

http://www.santiebeati.it/dettaglio/28950 - Santi e Beati. Autor: Francesco Patruno (em italiano). 
https://it.wikipedia.org/wiki/Rosa_da_Lima - Wikipédia (em italiano). 
http://migre.me/qVDhx - Facebook. Com os relatos da invasão calvinista e um desenho dos navios holandeses (em espanhol).


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Oração em honra ao Imaculado Coração de Maria

Amabilíssimo Coração de Maria:
Que ardeis continuamente em vivas chamas de amor divino; por Ele vos suplico, Mãe minha amorosíssima, que abraseis o meu tíbio coração nesse divino fogo em que estais toda inflamada.
(Avé-Maria e Glória)


Puríssimo Coração de Maria:
De quem brota a linda açucena de virginal pureza.
Por ela vos peço, Mãe minha imaculada, que purifiqueis o meu impuro coração, infundindo nele a pureza e castidade.
(Avé-Maria e Glória)


Afligidíssimo Coração de Maria:
Trespassado com a espada de dor pela paixão e morte de vosso querido Filho Jesus, e pelas ofensas que continuamente se fazem à sua Divina Majestade;
Dignai-vos, Mãe minha dolorosa, penetrar no meu duro coração com uma viva dor dos meus pecados e com o mais amargo sentimento dos ultrajes e injúrias que está a receber dos pecadores o Divino Coração do meu adorável Redentor.
(Avé-Maria e Glória)

Oh doce Coração de Maria, sede a minha salvação.


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Missa Tradicional no Rio de Janeiro

Todos os Domingos, às 9h da manhã, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, na cidade do Rio de Janeiro, celebra-se a Santa Missa Prelatícia na Forma Extraordinária do Rito Romano. 

Mas, o que é a Forma Extraordinária do Rito Romano? Tem aprovação do Papa? É de difícil compreensão e participação? Para responder a essa questão conversámos com o Pe. José Edilson de Lima, sacerdote da Administração Apostólica S. João Maria Vianney e Juiz auditor do Tribunal arquidiocesano do Rio de Janeiro

Qual é a diferença entra a Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano e na Forma Ordinária? Desde quando existe?

Pe. José:  A Missa na Forma Extraordinária é fruto de uma antiga tradição recolhida por São Gregório Magno (596-604) para uso em Roma, que fixou o cânon romano. Por ser a Liturgia da Igreja de Roma, generalizou-se em todo o Ocidente entre os anos 700 a 1500. Com Carlos Magno passa a ser usada no Império dos Francos e foi enriquecida no contacto com as diversas liturgias galicanas e orientais. 

Com a crise na Igreja e no papado, o Missal, agora franco-germânico, volta para Roma e vai ser a base para a reforma gregoriana no século X. Os ritos foram simplificados para uso interno da Cúria em suas viagens e o Missal Romano passa a ser usado em toda parte. Os franciscanos adoptaram-no e acabaram por divulgá-lo em todo o Ocidente.

O Concílio de Trento, enfrentando a crise da Igreja na época e as investidas protestantes contra os dogmas eucarísticos, especialmente o valor da Santa Missa, da Eucaristia e do Sacerdócio,  ordenou a reforma do Missal e em 1570, com a Bula Quo primum tempore, o Papa São Pio V publicou o Missal Romano, tomando como base o Missal da Cúria e impondo-o como obrigatório em toda a Igreja Latina. Por isso o Missal na forma antiga é chamado erradamente de São Pio V, ou Tridentino. Na realidade é muito mais antigo.

Os Papas posteriores reeditaram o Missale Romanum realizando melhorias na formulação das rubricas, revisão de alguns textos e reformas no calendário. A última reforma das rubricas foi feita pelo Beato João XXIII através do Motu Próprio Rubricarum instructum, no dia 25 de Julho de 1960. A última edição conforme as novas Rubricas é do ano 1962. É a chamada hoje Forma Extraordinária do Rito Romano. 

O grande diferencial está na sua história, pois é fruto de uma evolução litúrgica homogénea, e na sua precisão teológica, principalmente no que diz respeito aos dogmas eucarísticos. Aparece mais o sentido do sagrado numa liturgia mais vertical. Pela precisão nas rubricas, está menos sujeita a alterações, o que dá uma certa garantia contra as inovações que podem acontecer, fruto de pouco conhecimento do verdadeiro sentido litúrgico.

in Zenit


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sábado, 20 de agosto de 2016

Corramos para os irmãos que nos esperam - São Bernardo

Que aproveitam aos Santos o nosso louvor, a nossa glorificação e até esta mesma solenidade? Para quê tributar honras terrenas a quem o Pai celeste glorifica, segundo a promessa verdadeira do Filho? De que lhes servem os nossos panegíricos (discursos de louvor)? Os Santos não precisam das nossas honras e nada podemos oferecer lhes com a nossa devoção. Realmente, venerar a sua memória interessa nos a nós e não a eles.

Por mim, confesso, com esta evocação sinto me inflamado por um anseio veemente. 

O primeiro desejo que a recordação dos Santos excita ou aumenta em nós é o de gozar da sua amável companhia, de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem aventurados, de sermos integrados na assembleia dos Patriarcas, na falange dos Profetas, no senado dos Apóstolos, no inumerável exército dos Mártires, na comunidade dos Confessores, nos coros das Virgens; enfim, de nos reunirmos e nos alegrarmos na comunhão de todos os Santos. 

Aguarda-nos aquela Igreja dos primogénitos e nós ficamos insensíveis; desejam os Santos a nossa companhia e nós pouco nos importamos; esperam-nos os justos e nós parecemos indiferentes.

Despertemos, finalmente, irmãos. Ressuscitemos com Cristo, procuremos as coisas do alto, saboreemos as coisas do alto. Desejemos os que nos desejam, corramos para os que nos aguardam, preparemo-nos com as aspirações da nossa alma para entrar na presença daqueles que nos esperam. Não devemos apenas desejar a companhia dos Santos, mas também a sua felicidade, ambicionando com fervorosa diligência a glória daqueles por cuja presença suspiramos. Na verdade, esta ambição não é perniciosa, nem o desejo de tal glória é de modo algum perigoso.

Ao comemorarmos os Santos, um segundo desejo se inflama em nós: que, tal como a eles, Cristo, nossa vida, Se nos manifeste também e que nos manifestemos também nós com Ele revestidos de glória. É que de momento a nossa Cabeça revela-Se-nos não como é, mas como encarnou por nós, não coroada de glória, mas rodeada dos espinhos dos nossos pecados. Envergonhemo-nos de sermos membros tão requintados sob uma Cabeça coroada de espinhos, à qual por agora a púrpura não proporciona honras mas afronta. Chegará o momento da vinda de Cristo; e já não se anunciará a sua morte, para sabermos que também nós estamos mortos e que a nossa vida está escondida com Ele. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela resplandecerão os membros glorificados, quando Ele transformar o nosso corpo mortal e o tornar semelhante ao corpo glorioso da Cabeça que é Ele mesmo.

Desejemos pois esta glória com total e segura ambição. Mas para podermos esperar tal glória e aspirar a tamanha felicidade, devemos desejar também ardentemente a intercessão dos Santos, a fim de nos ser concedido pelo seu patrocínio o que as nossas possibilidades não alcançam.

in Sermão 2 dos Sermões de São Bernardo, abade


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

São João Eudes, precursor da devoção aos Sagrados Corações

Fundador de duas congregações religiosas e de seis seminários, foi grande pregador popular, realizando mais de cem missões. Deixou escritas inúmeras obras ascéticas e místicas.
São João Eudes nasceu na pequena cidade de Ry (diocese de Séez, na Baixa-Normandia, França), no dia 13 de Novembro de 1601. O seu pai, Isaac, havia tentado a carreira sacerdotal, mas fora obrigado a abandoná-la devido à morte de quase toda a família, vítima da peste. Dedicou-se então à agricultura, exercendo também as funções de médico rural. Rezava diariamente o breviário e rivalizava em virtude com a esposa, Marta. O primogénito dos sete filhos que tiveram, João Eudes, foi mais “fruto da oração que da natureza”. Por isso ofereceram-no a Nossa Senhora do Socorro, em acção de graças pelo seu nascimento.

O menino correspondeu ao desvelo dos pais, e aos 14 anos fez o voto de perpétua virgindade. Nessa época, foi enviado ao colégio dos padres jesuítas de Caen, onde estudou com brilho humanidades, retórica e filosofia. Desde muito pequeno, por inspiração do Divino Espírito Santo, João Eudes tinha profunda devoção aos Corações de Jesus e Maria. Em 1618 entrou para a Congregação Mariana do colégio, para incrementar ainda mais a sua devoção a Nossa Senhora. Recebeu então da Mãe de Deus inúmeras graças.

Em 1623, desejando tornar-se sacerdote, entrou para a Sociedade do Oratório de Jesus, fundada pouco antes pelo famoso Cardeal de Bérulle. O fundador concebeu por João Eudes uma estima tal, que o fazia pregar em público antes mesmo de sua ordenação sacerdotal. Esta deu-se em 1625. Apenas ordenado, foi cuidar de pessoas infectadas pela peste. Passou depois para o Oratório de Caen, tendo em vista preparar-se para a sua carreira missionária.

Recolhimento forçado por dois anos

Desde os 22 anos de idade, trabalhou incansavelmente no campo das missões populares. Pregador nato, tornou-se famoso como missionário. Dizia-se que, desde São Vicente Ferrer, a França não tivera um maior do que ele. Maravilhosamente bem dotado para a eloquência popular, entusiasmava as multidões e lograva copiosíssimos frutos de penitência. Impugnava com vigor todos os vícios, cortava na raiz os escândalos, e a todos pregava a verdade salvadora. A ardente caridade que manifestava no confessionário atraía os penitentes, porque ele, ao fulminar os vícios, sabia apiedar-se do pecador.

No ano de 1641, São João Eudes cumpria 40 anos de idade. Foi então atacado subitamente por grave enfermidade, que o levou a um repouso forçado, absoluto, durante dois anos. A Providência Divina queria que ele se preparasse no recolhimento para nova fase da sua vida, talvez a mais proveitosa: “Deus deu-me estes dois anos para empregá-los no retiro, para vagar na oração, na leitura de livros de piedade e em outros exercícios espirituais, a fim de preparar-me melhor para as missões.”

Ao recuperar a saúde, lançou-se novamente à vida missionária com novo fruto. Entretanto, afligia-se ao ver os resultados pouco duradouros das missões. Atribuía isso à falta de pastores cultos e piedosos que continuassem a acção dos missionários, mantendo aceso o fervor adquirido durante as missões. Para isso faltavam seminários nos quais os seminaristas recebessem, a par das virtudes próprias do seu sagrado estado, preparação para exercer os ofícios do seu ministério missionário. Se não havia seminários, por que não fundá-los? Muitos aconselhavam-no nesse sentido. Mas, devido às oposições, ele titubeava diante de tamanha responsabilidade.

Por outro lado, nas missões ele havia convertido um bom número de mulheres perdidas. Tocadas pela graça, elas queriam expiar, numa existência consagrada, a sua má vida. O missionário reuniu-as numa casa que alugara. Mas era difícil dirigi-las sem estarem ligadas por votos religiosos. O que fazer?

O encontro com Maria des Vallées

Foi então que, em meados de 1643, quando pregava na cidade de Coutances, recebeu um dos maiores favores da sua vida, como ele mesmo declara, ao encontrar-se com Maria des Vallées, uma virgem favorecida por fama de santidade. Filha de pobres agricultores, atraía os olhares de todos quando tratavam com ela das coisas da religião. Inteligente, bela, recusou diversas propostas de casamento, pois escolhera a Jesus Cristo como seu único Esposo. Ela havia se oferecido como vítima expiatória pelos pecados do mundo.

Um dos seus pretendentes recorreu à bruxaria para fazê-la mudar de ideias, e lançou sobre a jovem um malefício obtido de uma bruxa. Imediatamente Maria des Vallées foi possuída pelo demónio. O príncipe das trevas teve assim poder sobre o seu corpo, mas não podia penetrar na sua vontade. Frades e bispos exorcizaram-na sem sucesso.

Maria des Vallées aceitou com docilidade o facto, submetendo-se resignadamente à vontade de Deus. Assim, mesmo no meio das piores crises provocadas pelo pai da mentira, ela não perdia a sua admirável calma e fé invencível. Nos momentos em que o demónio a deixava, ela rezava, trabalhava e fazia penitência pela conversão dos pecadores.

Apesar das crises e das tentações, ela passou por quase todos os fenômenos da vida mística, inclusive o da troca de vontades com o supremo Senhor do Céu e da Terra. Durante dois anos sofreu em espírito os suplícios do inferno, e durante doze participou dos tormentos de Cristo.

Culto aos Sagrados Corações de Jesus e Maria

São João Eudes ficou sumamente cativado pela virtude dessa mulher heróica. Escutava-a com admiração e respeito, recebia os seus conselhos com avidez, e seguia-os escrupulosamente. Durante 15 anos, Maria des Vallées ofereceu-lhe a sua preciosa ajuda e poderoso apoio, tornando-se por vezes para o santo uma divina conselheira e inspiradora.

Foi ela quem incentivou São João Eudes a fundar uma ordem religiosa destinada à formação do clero nos seminários, e uma congregação de religiosas cuja missão seria a regeneração das mulheres arrependidas: “O projecto é sumamente agradável a Deus, e foi o próprio Deus Quem o inspirou”, disse-lhe, depois de muito rezar.

Assim incentivado, São João Eudes desligou-se da Congregação do Oratório e dedicou-se às novas fundações. Compôs um ofício em honra do Sagrado Coração de Maria, e começou a propagar o culto aos Sagrados Corações. Note-se que a sua pregação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus deu-se antes mesmo das revelações deste Coração divino a Santa Margarida Maria Alacoque.

Assim nasceram as Congregação de Jesus e Maria, ou dos Padres Eudistas, e a de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, ou Irmãs do Bom Pastor. O Instituto dos Padres Eudistas era secular, como o do Oratório, e tinha como fim principal a formação de sacerdotes zelosos, por meio de seminários e exercícios espirituais. Só após concluírem essa obra primordial, podiam seus membros pregar missões nas paróquias.

São João Eudes fundou também, para leigos que desejavam viver uma vida de perfeição, a Sociedade do Coração da Mãe Mais Admirável, que se assemelha às Ordens Terceiras de São Francisco e São Domingos, e dedicou as capelas dos seus seminários de Caen e Coutances aos Sagrados Corações. Neles estabeleceu confrarias em honra desses Sagrados Corações.

Persuadido de que não havia melhor modo de inspirar sólida piedade e de manter fervor durável do que a devoção aos Sagrados Corações, pregava por toda parte essa dupla devoção, que conhecia melhor do que ninguém. No fim das missões, ele estabelecia uma confraria, a do Santíssimo Coração de Maria.

São João Eudes fez celebrar a festa do Santíssimo Coração de Maria, pela primeira vez, em 1648. E mais tarde, em 1672, podia afirmar que essa comemoração se celebrava em toda a França. Nesse mesmo ano ele ordenou que, em todas as casas do seu Instituto, se celebrasse no dia 20 de Outubro a festa do Sagrado Coração de Jesus. O Ofício próprio e a Missa para essas solenidades foram compostos por ele, antecipando-se a Santa Margarida Maria no culto ao Sagrado Coração de Jesus. Com efeito, esta santa teve as suas revelações sobre o Sagrado Coração de Jesus em 1674, época na qual tal festa já se celebrava publicamente na família religiosa do Pe. Eudes, com os ofícios aprovados pelos bispos locais. Por isso, o Papa Leão XIII, ao proclamar em 1903 a heroicidade das suas virtudes, denominou-o “Autor do Culto Litúrgico do Sagrado Coração de Jesus e do Santo Coração de Maria”. 

São João Eudes pode ser considerado o doutor desses cultos, por ter exposto seu fundamento teológico, apresentado as fórmulas precisas de sua inovação, determinado o seu sentido prático e litúrgico, obtendo assim a aprovação da Hierarquia e os breves apostólicos destinados a propagar e perpetuar essa devoção.

Perseguido por inimigos internos

São João Eudes foi um inimigo declarado da heresia jansenista, essa espécie de protestantismo, que levava as pessoas a afastarem-se dos Sacramentos sob pretexto de indignidade. Os adeptos dessa heresia foram os que mais combateram as devoções pregadas pelo Santo. Se bem que não fosse partidário de disputas públicas e violentas, refutava esses inimigos disfarçados da Igreja, apoiando-se na doutrina tradicional católica e nas constituições pontifícias.

No ocaso de sua vida, São João Eudes teve que suportar muitas e pesadas cruzes, como enfermidades e lutos por amigos e benfeitores; murmurações e calúnias, não só da parte dos jansenistas, mas também de pessoas consagradas a Deus, que o acusavam de zelo indiscreto; manobras que visavam desacreditá-lo ante o Papa e o rei da França; e também a publicação de um libelo difamatório. Tudo isso perseguiu-o até o túmulo. 

Já no ano de 1680, tinha ele renunciado ao cargo de superior geral da sua congregação. Preparando-se com todos os tesouros espirituais que a Igreja possui para a última hora, rendeu o seu espírito no dia 19 de Agosto de 1680, aos 79 anos de idade.

Plinio Maria Solimeo in catolicismo.com.br

Obras utilizadas:

– Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XV, pp. 542 e ss.
– Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo III, pp. 381 e ss.
– Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1948, tomo IV, pp. 503 e ss.
– Charles Lebrun, Saint John Eudes, The Catholic Encyclopedia, tomo V, online edition,www.NewAdvent.org


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Napoleão contra Nossa Senhora: 0 a 1!

Bonaparte tentou 'derrubar' Nossa Senhora da festa do 15 de Agosto, dia do seu aniversário, mas Maria “derrubou os poderosos dos tronos”
A minha avó costumava dizer-me: "o orgulho cega!". Lembrei-me desta frase ao pensar hoje em Napoleão Bonaparte. Este homem sempre teve Nossa Senhora como uma pessoa incómoda. A razão? O dia de seu nascimento.

Napoleão nasceu em Ajaccio no dia 15 de Agosto de 1769; no mesmo dia em que Maria entrou no Céu. Poucas pessoas sabem que este general, quando se tornou adulto, sempre que celebrava um aniversário tinha um ataque de raiva ao ter que compartilhar a sua festa com Nossa Senhora. Poderia ter ficado feliz, mas ficava zangado; a minha avó realmente tinha razão ao dizer que o orgulho cega.

A irritação aumentou quando soube que, no dia da Assunção, celebrava-se o “voto de Luís XIII”: este rei da França, emitiu, no dia 15 de Agosto de 1637, um decreto solene com o qual colocava a nação sob a protecção explícita de Maria. Também isso poderia tê-lo tranquilizado um pouco. Mas não! A França tinha que contar só com ele, génio e invencível imperador!

Depois, quando chegou a conhecer a passagem evangélica que a Igreja lia em todas as igrejas francesas, naquele dia 15 de Agosto, a sua irritação transformou-se em um surto insuportável. "Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias". Em cada aniversário de Napoleão Nossa Senhora arruinava a sua festa, lembrando-lhe que “Deus dispersa os soberbos nos pensamentos dos seus corações”!

Napoleão teve então uma ideia realmente brilhante: com um decreto oficial do 19 de Fevereiro de 1806 aboliu a festa da Assunção e substituiu-a pela festa de São Napoleão! A minha avó tinha razão: "O orgulho cega!” O Papa Pio VII protestou, declarando que é “inadmissível que o poder civil substitua o culto à Nossa Senhora Assumpta ao Céu pelo culto de um santo inexistente, com uma interferência intolerável do poder temporal no espiritual". Mas Napoleão não ouviu ninguém!

Como acabou Napoleão? Todos sabemos. As palavras proféticas, que Maria tinha pronunciado no seu maravilhoso Magnificat, realizaram-se pontualmente também para ele! “O trono de Napoleão foi derrubado" precisamente por causa do seu orgulho, e Maria, após a abdicação do imperador, em Março de 1814, retomou o seu lugar na solenidade da Assunção, também em França, para indicar o caminho da verdadeira grandeza.

Maria Corvo in intemirifugio.it


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Que é o sacerdote?

Que é o sacerdote? Um homem que ocupa o lugar de Deus, um homem que é revestido de todos os poderes de Deus. "Ide. - diz Nosso Senhor ao sacerdote - Assim como Meu Pai me enviou, assim Eu vos envio... Todo poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide, pois, instruí todas as nações... Quem vos escuta a Mim escuta; quem vos despreza a Mim despreza". 

Quando o padre perdoa os pecados, não diz: "Deus vos perdoe". Diz: "Eu vos absolvo". Na Consagração, ele não diz: "Isto é o Corpo de Nosso Senhor". Diz: "Isto é o Meu Corpo".

S. Bernardo diz-nos que tudo veio por Maria, pode-se dizer também que tudo nos veio pelo sacerdote: sim, todas as venturas, todas as graças, todos os dons celestes.

Se não tivéssemos o sacramento da Ordem, não teríamos Nosso Senhor. Quem foi que o pôs aí nesse tabernáculo? Foi o Padre. Quem foi que recebeu vossa alma à sua entrada na vida? O Padre. Quem a alimenta para lhe dar a força de fazer a sua peregrinação? O Padre. Quem a prepara para comparecer perante Deus, lavando essa alma pela primeira vez no sangue de Jesus Cristo? O Padre, sempre o Padre. E se essa alma vier a morrer, quem a ressuscitará? Quem lhe restituirá a calma e a paz? Ainda o Padre. Não vos podeis lembrar de um só benefício de Deus sem encontrardes, ao lado dessa lembrança, a imagem do Padre.

Ide-vos confessar à Santíssima Virgem ou a um anjo: eles vos absolverão? Não. Dar-vos-ão o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor? Não. A Santíssima Virgem não pode fazer descer Seu Divino Filho à hóstia. Tivésseis aí duzentos anjos, e eles não poderiam absolver-vos. Um padre, por mais simples que seja, pode-o; pode dizer-vos: "Ide em paz, eu vos perdoo". Oh! Como o padre é alguma coisa de grande!

O padre só será bem compreendido no Céu... Se o compreendêssemos na terra, morreríamos não de pavor, mas de amor...

Os outros benefícios de Deus de nada nos serviriam sem o padre. De que serviria uma casa cheia de ouro, se não tivésseis ninguém para vos abrir a porta? O padre tem a chave dos tesouros celestes; é ele quem abre a porta; ele é o economista de Deus, o administrador dos seus bens. Se não fosse o padre, a Morte e a Paixão de Nosso Senhor de nada serviriam. Vede os povos selvagens: de que lhes serviu que Nosso Senhor morresse? Ai! Eles não poderão ter parte no benefício da redenção enquanto não tiverem padres para lhes fazerem a aplicação do Seu Sangue. O padre não é padre para si: não dá a si a absolvição, não administra a si os sacramentos. Ele não é para si, é para vós.

Depois de Deus, o sacerdote é tudo!... Deixai uma paróquia vinte anos sem padre, adorarão ali os animais. (...) Quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre, porque onde quer que não haja mais padre, não há mais sacrifício, e onde não há mais sacrifício, não há mais religião. (...)

Vede o poder do padre! A língua do padre, de um pedaço de pão faz um Deus! É mais do que criar o mundo. Alguém dizia: "Santa Filomena obedece então ao Cura d'Ars?" Certo, ela bem pode obedecer-lhe, já que Deus lhe obedece.

Se eu encontrasse um padre e um anjo, cumprimentaria o padre antes de cortejar o anjo. Este é o amigo de Deus, mas o padre faz as vezes de Deus... Santa Teresa beijava o lugar por onde um padre havia passado... (...)

O sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo.

São João Maria Vianney in Catecismo sobre o sacerdote, ''Espírito do Cura d'Ars'', por Abbé A. Monnin


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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Santa Beatriz da Silva, fundadora das Concepcionistas

Na Reconquista, uma das últimas vitórias sobre os árabes para o reino de Portugal foi Ceuta (1415). O capitão desta façanha, e primeiro governador da cidade conquistada, foi D. Pedro de Menezes, Conde de Vila Real e descendente dos reis de Castela. Na conquista de Ceuta, o cavaleiro D. Ruy Gomez de Silva havia participado com bravura e seu comportamento lhe mereceu o apreço do capitão a ponto de lhe dar a mão de sua filha Isabel.

Beatriz da Silva e Menezes nasceu no ano de 1424 em Celta, quando esta cidade pertencia a Portugal. Era a oitava filha de Ruy Gomes da Silva, Senhor de Campo Maior, e de Isabel de Menezes, filha de D. Pedro de Menezes. Por via materna, descendia também dos condes de Ourém e Barcelos. O casal teve 11 filhos, educados por franciscanos, que lhes inculcaram sólidos princípios cristãos e um especial amor à Imaculada Conceição. Dos 10 irmãos de Beatriz, é dever mencionar D. João de Menezes da Silva, o Beato Amadeu.

Beatriz da Silva era uma jovem de grande beleza, conforme testemunha um relato da época: "além de vir de sangue real, era mui graciosa donzela e excedia a todas em formosura e gentileza". Desde cedo Beatriz foi preparada para a vida na Corte. Além da formação humana, os primeiros 21 anos de sua vida ela os passou entregue à devoção e às obras de caridade. Visitava frequentemente Jesus Sacramentado na Igreja Matriz e desde pequenina Nossa Senhora era seu exemplo a seguir. Chamada ao Paço Real de Lisboa, Beatriz tornou-se dama da infanta Dona Isabel, quatro anos mais nova que ela, filha do infante D. João, o penúltimo dos filhos de D. João I de Portugal.

Em 1447, a infanta Dona Isabel contava dezenove anos. O seu tio, regente do reino, promoveu os seus esponsais com D. João II de Castela, que então se achava viúvo. Uma vez rainha, Isabel, ambiciosa, começou por afastar a influência do Condestável de Castela, D. Álvaro de Luna, e criou intrigas na corte, algumas das quais envolvendo a jovem Beatriz, cuja beleza não passara despercebida.

Beatriz atraía a atenção de toda a Corte por seu porte senhorial, por sua sensatez e beleza. A Rainha, despeitada, a perseguia e maltratava. Segundo a tradição, Isabel teria fechado Beatriz num estreito baú, onde eventualmente a falta de oxigénio acabaria por tirar-lhe a vida.

Após três dias, o tio de Beatriz, Dom João de Menezes, que também se encontrava na corte, estranhando a sua ausência perguntou à rainha onde estava a sobrinha. Ela conduziu-o ao baú onde a encarcerara, certa de encontrá-la morta. Desceram até os subterrâneos do Palácio de Tordesilhas, no Alcácer de Valladolid, e, para seu grande espanto, Beatriz tinha sobrevivido. Ela havia invocado a Virgem Maria que lhe aparecera e comunicara que a salvaria, e que ela deveria fundar uma Ordem religiosa que celebrasse o mistério da Imaculada Conceição.

Beatriz perdoou a rainha, que dera mostras de arrependimento, retirou-se da Corte e ingressou no Convento de São Domingos o Real, de Toledo. Ali viveu como monja, sem professar, preparando-se, e a um pequeno grupo de companheiras, para ingressar na nova Ordem que Nossa Senhora a designara fundar.

Como nos conta Sóror Catarina, Beatriz "florescia em todas as virtudes e comia parcamente; era tida por santa e obrava milagres, distinguiu-se sempre por sua humildade e obediência às superioras" do dito Convento de São Domingos o Real. A sua vida era verdadeiramente exemplar: dos bens que possuía reservava uma modesta parte para si, usando todo o resto em esmolas e outras obras de piedade.

Beatriz viveu naquele convento durante trinta anos. "Poucas vezes uma fundadora terá sido preparada tão profunda e prolongadamente para a sua missão".

No ano de 1484, a Virgem Santíssima julgou que, após longos anos vividos na obscuridade do claustro, ela estava pronta para executar a sua obra: deu-lhe a ordem longamente esperada e teve início um período de intensa actividade.

A Rainha Isabel, a Católica, que nutria grande admiração por Beatriz, concedeu-lhe os palácios de Galiana e o Mosteiro de Santa Fé. Foi neste mosteiro que Beatriz conseguiu enfim estabelecer, com mais doze religiosas, a Ordem da Imaculada Conceição, ou das Concepcionistas Franciscanas, um ramo da Ordem dos Frades Menores. As religiosas deviam usar o hábito azul e branco, as cores de Nossa Senhora da Conceição, e dedicar-se unicamente à vida contemplativa.

A 30 de Abril de 1489, o Papa Inocêncio VIII expediu a bula Inter Universa, que autorizava a constituição das Concepcionistas. A Bula foi levada solenemente da Catedral de Toledo até o Mosteiro de Santa Fé.

Santa Beatriz recomendava às suas religiosas grande pureza de coração, amor a Jesus e uma particular devoção a Imaculada Conceição: "Considerem as Irmãs atentamente que sobretudo devem desejar ter o Espírito do Senhor e a sua santa actuação, com pureza de coração e oração devota; purificar dos desejos terrenos e das vaidades do século a consciência; e tornar-se um só espírito com Cristo seu Esposo, pelo amor".

A festa da profissão de Beatriz e das suas doze companheiras já tinha sido marcada pelo Bispo de Toledo quando a Santíssima Virgem de novo lhe apareceu dizendo: "Dentro de dez dias virei buscar-te, porque não é vontade de meu Filho que gozes aqui na Terra o que tanto desejastes".

Beatriz cobria o seu belo rosto com um véu branco desde que saíra da Corte de Tordesilhas, a fim de ocultar a beleza que fora causa de tantos desgostos e dissabores. E assim viveu no Convento de São Domingos o Real e depois no seu Convento definitivo.

No momento de sua agonia, quando o véu foi erguido para que ela recebesse a Extrema Unção, admirados os presentes viram saírem raios de luz de seu rosto, iluminando todo o aposento: uma estrela luminosa se fixou em sua testa e ali permaneceu até seu último suspiro.

Antes de comparecer diante de Deus, Beatriz recebeu o hábito branco e azul, como Nossa Senhora lhe havia prometido, e fez a sua profissão religiosa nas mãos de um sacerdote franciscano, morrendo como uma verdadeira Concepcionista. A Fundadora faleceu dia 17 de agosto de 1490, aos 66 anos de idade, em Toledo, onde jazem as suas relíquias.

O povo já lhe prestava culto como Santa antes mesmo que a Santa Sé a canonizasse, e assim continuou por muito tempo, pois a Igreja Católica só a elevou aos altares em 28 de Julho de 1926. Pio XI beatificou-a e aprovou o culto que já lhe era dado há tantos séculos. A 3 de Outubro de 1976 foi canonizada por Paulo VI.

Em Espanha, a Ordem conta com mais de 90 conventos, e há cerca de 120 casas monásticas espalhadas pela Europa e América Latina.

Santa Beatriz da Silva destacou-se pela sua fé inquebrantável, pela sua pureza - que lhe permitiu ser Lírio Alvíssimo no Canteiro da Imaculada - e por todas as suas virtudes - paciência alicerçada na esperança, caridade, simplicidade, humildade, generosidade em oferecer um perdão sincero - indica-nos o caminho mais curto, fácil e seguro para chegar ao Coração de Jesus: Maria Santíssima.

in heroinasdacristandade.blogspot.pt


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Padre Vera, martirizado por celebrar a Santa Missa


México, início do séc. XX. Durante a guerra civil que opôs o Movimento Cristero ao Partido Revolucionário Institucional do México muitos católicos foram martirizados. Um deles foi o Padre Francisco Vera, fuzilado pelos comunistas mexicanos por ter sido apanhado a celebrar Missa. A serenidade do sacerdote, prestes a ser assassinado, revela bem a paz de quem entregou a sua vida e confia plenamente em Deus.


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terça-feira, 16 de agosto de 2016

E se vos dissesse que os grandes atletas destes Jogos Olímpicos são católicos?

Provavelmente não acreditavam em mim, não era? Então vamos lá.

Comecemos pela nova coqueluche da ginástica... Simone Biles! Para quem não sabe quem é a Simone, bem, devia saber... Vale a pena assistir às suas rotinas, em especial ao seu movimento único, o "Biles". A atleta estado-unidense já leva três medalhas de ouro e uma de bronze. Terá hoje mais uma prova, aquela na qual, para mim, ela é melhor. Lutará hoje pela medalha de ouro no tapete.
Mas vamos ao que interessa... Quem é Simone Biles? A adolescente, antes de começar as Olimpíadas, deu uma entrevista na qual mostrou o que trazia na bagagem. Entre outras coisas, mostrou um terço branco. Diz que antes das provas não o usa, mas que reza para dentro, como é normal e que o usa no dia-a-dia. Filha de mãe drogada e abandonada pelo pai, foi aos cinco anos adoptada pelos avós e desde então nunca falhou uma Missa dominical em família. Reza regularmente a S. Sebastião, patrono dos atletas e nota-se nela uma alegria que não se vê nas concorrentes. Biles, que optou pelo homeschooling, para se proteger das radicais influências laicistas da educação estatal, com o firme alicerce da fé e da família, tem tudo o que precisa para triunfar não apenas na ginástica, mas, principalmente, na vida.


Na natação, Katie Ledecky, também americana foi uma das atletas que deu que falar e que valeu a pena acompanhar. A nadadora, que leva quatro medalhas de ouro e uma de prata nestes Jogos, tem apenas 19 anos. Ledecky não tem qualquer tipo de vantagem óbvia sobre as oponentes, sendo baixa e pequena em geral. Mas o que surpreende nela é a força interior com que nada, sendo claramente mais agressiva a nadar do que as colegas. Há quem a chame a melhor atleta do mundo, inclusive, tal são as margens das suas vitórias. Como para Biles, a sua fé católica é essencial. A desportista frequentou escolas católicas e diz, inclusive: “A minha fé católica é muito importante para mim. Sempre foi e sempre será. É parte de mim e sinto-me confortável ao praticar a fé. Ajuda-me a por as coisas em perspectiva”. "Rezo uma oração ou duas, antes das provas. A Ave Maria é uma oração belíssima e acalma-me." Há quatro anos, após ganhar a sua primeira medalha olímpica visitou o convento de irmãs da sua primeira escola. Tem uma família que a apoia e que ajuda ao seu sucesso.

Que tal falar agora do homem mais rápido do mundo? Sim, Usain Bolt... é católico. Apesar de dispensar introduções, Bolt vai na sua terceira Olimpíada e venceu também pela terceira vez a medalha de ouro nos 100m, sendo que concorrerá hoje pela dos 200m. O jamaicano é conhecido por traçar o sinal da cruz antes de começar a corrida, mas além deste e outros sinais exteriores de fé, é de reparar numa das suas medalhas, mas não de ouro. Falo na medalha milagrosa, promovida por Santa Catarina Labouré, que mostra Nossa Senhora das graças. A nossa Mãe do céu será portanto a mulher mais rápida e mais vista na categoria das corridas de sprint. Esta medalha tem uma bela e poderosa oração inscrita: "Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós."

Após o pódio, menções honrosas para Juan Martin del Potro, ortodoxo, que recuperou de graves lesões (pelas quais até pensou terminar a carreira) para alcançar a medalha de prata no ténis; e Michael Phelps, talvez o maior atleta olímpico de sempre, com as suas 23 medalhas de ouro, que passou por momentos difíceis, em que pensou até suicidar-se, mas com a ajuda da sua família e pela graça de Deus (em quem restaurou a sua fé) recuperou para vir (possivelmente) terminar carreira em grande nestes Jogos, vencendo cinco medalhas de ouro e uma de prata.

PF

Notas:

Simone Biles: http://www.catholicnewsagency.com/news/these-two-game-changing-olympians-are-serious-catholics-76883/

Katie Ledecky: http://religionnews.com/2016/08/06/catholic-faith-anchors-swimmer-katie-ledecky/

Usain Bolt: http://aleteia.org/blogs/deacon-greg-kandra/this-amazing-olympic-champion-is-why-mary-is-now-the-most-viewed-woman-in-sprinting/


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Foi Assumpta ao céu a Virgem Santa Maria, alegrem-se os exércitos dos anjos! Alleluia

É assim o Alleluia da Solenidade da Assunção da Beata Virgem Maria, na Forma Extraordinária:

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Foi em 1950, que o Papa Pio XII proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao céu.
Para tal, na sua Bula Munificentissimus Deus, o Santo Padre deixou-nos alguns fundamentos para afirmar a Assunção da nossa Mãe do céu:

14. Os fiéis, guiados e instruídos pelos pastores, souberam por meio da Sagrada Escritura que a virgem Maria, durante a sua peregrinação terrestre, levou uma vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos; e que, segundo a profecia do santo velho Simeão, uma espada de dor lhe traspassou o coração, junto da cruz do seu divino Filho e nosso Redentor. E do mesmo modo, não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigénito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu. Mas essa persuasão não os impediu de crer expressa e firmemente que o seu sagrado corpo não sofreu a corrupção do sepulcro, nem foi reduzido à podridão e cinzas aquele tabernáculo do Verbo divino. Pelo contrário, os fiéis iluminados pela graça e abrasados de amor para com aquela que é Mãe de Deus e nossa Mãe dulcíssima, compreenderam cada vez com maior clareza a maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso Redentor. Esses privilégios elevaram-na a uma altura tão grande, que não foi atingida por nenhum ser criado, exceptuada somente a natureza humana de Cristo.


16. De modo ainda mais universal e esplendoroso se manifesta esta fé dos pastores e dos fiéis, com a festa litúrgica da assunção celebrada desde tempos antiquíssimos no Oriente e no Ocidente. Nunca os santos padres e doutores da Igreja deixaram de haurir luz nesta solenidade, pois, como todos sabem, a sagrada liturgia, "sendo também profissão das verdades católicas, e estando sujeita ao supremo magistério da Igreja, pode fornecer argumentos e testemunhos de não pequeno valor para determinar algum ponto da doutrina cristã".[1]

20. A Liturgia da Igreja não cria a fé católica, mas supõe-na; e é dessa fé que brotam os ritos sagrados, como da árvore os frutos. Por isso os santos Padres e doutores nas homilias e sermões que nesse dia fizeram ao povo, não foram buscar essa doutrina à liturgia, como a fonte primária; mas falaram dela aos fiéis como de coisa sabida e admitida por todos. Declararam-na melhor, explicaram o seu significado e o fato com razões mais profundas, destacando e amplificando aquilo a que muitas vezes os livros litúrgicos apenas aludiam em poucas palavras, a saber, que com esta festa não se comemora somente a incorrupção do corpo morto da santíssima Virgem, mas principalmente o triunfo por ela alcançado sobre a morte e a sua celeste glorificação à semelhança do seu Filho unigénito, Jesus Cristo.

21. S. João Damasceno, que entre todos se distingue como pregoeiro dessa tradição, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloquência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus".[2]

29. Entre os escritores sagrados que naquele tempo com vários textos, comparações e analogias tiradas das divinas Letras, ilustraram e confirmaram a doutrina da assunção em que piamente acreditavam, ocupa lugar primordial o doutor evangélico S. António de Padua. Na festa da assunção, ao comentar aquelas palavras de Isaías: "glorificarei o lugar dos meus pés" (Is 60,13), afirmou com segurança que o divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui, vê-se claramente", diz, "que o corpo da santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que, escreve o Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação" (Sl 131, 8). E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".[3]

34. [...] Seguindo o comum sentir dos cristãos, recebido dos tempos antigos S. Roberto Belarmino exclamava: "Quem há, pergunto, que possa pensar que a arca da santidade, o domicílio do Verbo, o templo do Espírito Santo tenha caído em ruínas? Horroriza-se o espírito só com pensar que aquela carne que gerou, deu a luz, alimentou e transportou a Deus, se tivesse convertido em cinza ou fosse alimento dos vermes".[4]

35. De igual forma S. Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?"[5] E S. Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne".[6]

38. Todos esses argumentos e razões dos santos Padres e teólogos apoiam-se, em último fundamento, na Sagrada Escritura. Esta nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. Pelo que parece quase que impossível contemplar aquela que concebeu, deu à luz, alimentou com o seu leite, a Cristo, e o teve nos braços e apertou contra o peito, estivesse agora, depois da vida terrestre, separada dele, se não quanto à alma, ao menos quanto ao corpo.

40. Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade "com um único decreto" 
[7] de predestinação, imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas consequências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).


44. "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus omnipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".


45. Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

47. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus omnipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1° de Novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.


Neste dia tão especial, recorramos à nossa Mãe, ela que é a Medianeira de todas as graças, com confiança, sabendo as palavras do Papa Leão XIII, no ponto 12 da sua Carta Encíclica Octobri Mense:

Por consequência, pode-se com toda a verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo senão por meio de sua Mãe.


Honremos, então, a Santíssima Virgem, cantando-lhe o que ela mesma cantou:



Em Latim:
Magnificat anima mea Dominum
Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.
Quia respexit humilitatem ancillæ suæ: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.
Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.
Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.
Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui.
Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.
Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,
Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.

Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.
Amen.

Em Português:

A minha alma glorifica o Senhor

E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva: de hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo
Como era no princípio, agora e sempre.
Amén.

Regina in caelum assumpta, ora pro nobis!

PF


Notas:

[1] Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei

[2] S. João Damasceno, Encomium in Dormitionem Dei Genetricis semperque Virginis Mariae, hom. II, 14

[3] S. António de Padua, Sermones dominicales et in solemnitatibus. In Assumptione S. Mariae Virginis Sermo

[4] S. Roberto Belarmino, Conciones habitae Lovanii, concio 40: De Assumptione B. Mariae Virginis

[5] S. Francisco de Sales, Sermon autographe pour la fête de l'Assomption

[6] S. Afonso Maria de Ligório, As glórias de Maria, parte II, disc. 1

[7] Pio IX, Bula Ineffabilis Deus



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