domingo, 17 de janeiro de 2021

Santo Atanásio descreve a vida e tentações de Santo Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Os seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Depois da morte dos seus pais ficou só com a sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e reflectia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Actos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). 

Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele, Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras", terra muito fértil e formosa. 

Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem.

Então dedicou todo o seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egipto, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. 

Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente, tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo, e assim a sua memória lhe servia de livro.

Mas o demónio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e pôs-se a empregar suas velhas tácticas também contra ele. Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado da sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. 

Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. 

O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demónio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, reflectiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar.

Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que na sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-Se carne e deu ao Seu corpo a vitória sobre o demónio. Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10). 

Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo os seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto; e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. A minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! 

Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúde fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um dos seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demónios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. 

Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. 

Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demónio. 

Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demónios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente. E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. 

Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

De novo o Senhor não se esqueceu de Antão na sua luta, mas veio ajudá-lo. Quando olhou para cima, viu como se o tecto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demónios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado das suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu o seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade”.

Santo Atanásio in 'Vida de Santo Antão'


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A Igreja não pode esquecer a luta contra o Mal



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sábado, 16 de janeiro de 2021

Os mártires de Marrocos, enviados por São Francisco para converterem os muçulmanos

Em 1219, São Francisco de Assis enviou em missão para Marrocos seis dos seus mais destemidos frades menores, apaixonados do Evangelho, precursores de todos os missionários portugueses, lançados ao mar tenebroso e à conquista dos povos para Cristo obedecendo ao mandato do Infante de Assis em serviço do Rei dos reis, Jesus Cristo:

"Meus Filhos, o Senhor disse-me que vos mande aos sarracenos a lhes pregar a fé e a combater a lei de mafoma. Eu vou também a outras terras trabalhar na salvação dos infiéis. Sede prestos a cumprir a vontade do Senhor. Entre vós conservai a paz, a concórdia e a caridade. Sede humildes na tribulação e imitai a Jesus Cristo na pobreza na castidade de na obediência. Ponde as vossas esperanças em Deus, ele vos sustentará e vos guiará. Aquele que vos envia, Ele mesmo velará por vós vos inspirará o que houverdes de dizer." Ajoelharam e S. Francisco concluiu: “Desça sobre vós a benção de Deus Pai, como desceu sobre os Apóstolos Ele vos acompanhe e fortifique nas tribulações. Não temais nada porque Deus está convosco. Ide em Nome do Senhor."

E lá foram os obedientes frades de origem italiana: Vital, Berardo, Otão (sacerdotes), Pedro (Diácono), Acúrsio e Adjuto (Leigos). 

Foram recebidos em Coimbra pela rainha D. Urraca, mulher de Afonso II que então reinava em Portugal. Continuaram para Alenquer onde se apresentaram à infanta D. Sancha, filha de D. Sancho primeiro e irmã do rei D. Afonso II, fundadora do primeiro convento franciscano em Portugal. Seguiram viagem e depois de passarem em Lisboa, chegaram a Sevilha. Aí ficaram uma semana, finda a qual foram à mesquita, precisamente no dia em que os mouros festejavam Maomé e começaram a pregar a doutrina de Jesus e denunciando que o profeta Maomé não passava de uma idolatria. Corridos à pancada para fora da mesquita, passaram a Marrocos, onde começam a percorrer as ruas pregando o nome de Jesus e, quando vêem aproximar-se o Miramolim Aboidil, com mais ânimo continuaram a proclamar a mensagem cristã. 

O Miramolim mandou-os prender e ficaram numas masmorras vinte dias sem comer nem beber. Uma vez libertos, apressaram-se em retomar a sua missão. Decretada mais uma vez a sua morte, o Sultão encarrega o seu filho Abosaide de os prender e decapitar. É chegado então, e definitivamente o momento tão desejado por estes frades, finalmente o martírio pelo nome de Jesus iria por fim acontecer. Foi realmente uma morte violenta a destes cinco frades. 

São açoitados e, atados de mãos e pés, arrastam-nos de um lado para o outro com cavalos e em seguida, sobre seus corpos descarnados deixam cair azeite a ferver, continuando depois a arrastá-los pelo chão mas desta vez sobre vidros e cacos espalhados pelo chão. O Miramolim ainda os tentou com dinheiro e mulheres. Mas não havia nada a fazer e o Miramolim dizia então que só a espada poderia calar aqueles homens decididos e firmes no que diziam. “O nossos corpos miseráveis estão nas tuas mãos sob a tua autoridade, mas as nossas almas estão nas mãos de Deus. 

Com a sua ira no limite, o Miramolim pegou na sua cimitarra a acabou com a vida daqueles cinco frades, rachando-lhes o crânio ao meio e depois decepando-lhes as cabeças. Era o ano de 1220. Dia 16 de Janeiro. Cedo acabou a tarefa missionária daqueles cinco frades, mas a sua voz continua a ecoar por toda a terra e a sua mensagem até aos confins do mundo. Os Mártires de Marrocos foram canonizados pelo Papa Sisto IV em 1481.


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Faz sentido adiar o Baptismo por causa da Covid-19?

Tem havido bastante controvérsia sobre se - por razões de saúde - devem ser adiados os Baptismos. 

O Catecismo da Igreja Católica explica que o Baptismo é necessário como meio para a salvação da alma:

«1257. O próprio Senhor afirma que o Baptismo é necessário para a salvação. Por isso, ordenou aos seus discípulos que anunciassem o Evangelho e baptizassem todas as nações. O Baptismo é necessário para a salvação de todos aqueles a quem o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento. A Igreja não conhece outro meio senão o Baptismo para garantir a entrada na bem-aventurança eterna.»

Por isso mesmo, a Igreja Católica sempre enviou missionários para o Mundo inteiro, em ordem a que todas as pessoas pudessem conhecer Jesus Cristo e receber o Baptismo.  

E é também por causa da importância fulcral desse sacramento que o Código de Direito Canónico urge os pais a baptizarem os filhos nas primeiras semanas de vida:

«Cân. 867 — § 1. Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nascimento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramento para o filho e preparem-se devidamente para ele.
§ 2. Se a criança se encontrar em perigo de morte, seja baptizada sem demora.»

Num baptismo apenas são necessárias as seguintes pessoas: sacerdote (em condições normais), baptizando e padrinhos. No caso de ser uma criança, os pais, ou pelo menos  o Pai ou a Mãe. 

Sendo necessárias tão poucas pessoas, não se percebe que um baptismo seja adiado por causa da Covid-19. Especialmente tendo em conta de quão importante é esse sacramento para a salvação das almas, que é a suprema lei da Igreja.

João Silveira


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A Beleza salvou o mundo




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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

São Paulo, o primeiro eremita

São Paulo, eremita, foi um dos primeiros a abraçar a vida monástica (séc. IV). A vida deste santo foi escrita pelo grande sábio São Jerónimo, no ano 400. Nasceu no ano 228, em Tebaida (hoje Egipto), uma região que fica junto ao rio Nilo e que tinha por capital a cidade de Tebas. Foi bem educado pelos seus pais, aprendeu grego e bastante cultura egípcia. Mas aos 14 anos ficou órfão. Era bondoso e muito piedoso. E amava enormemente a sua religião. 

No ano 250 estalou a perseguição do Imperador Décio. Paulo viu-se ante estes dois perigos: ou negar a sua Fé e conservar suas quintas e casas, ou ser atormentado com tão diabólica astúcia que o conseguissem acobardar e o fizessem passar para o paganismo para não perder seus bens e não ter que sofrer mais torturas.

Como via que muitos cristãos negavam a Fé por medo, e ele não se sentia com a suficiente força de vontade para ser capaz de sofrer toda classe de tormentos sem renunciar à sua crença, dispôs-se a esconder-se. Era prudente.  Mas um seu cunhado que desejava ficar com os seus bens denunciou-o às autoridades. Então Paulo fugiu para o deserto. Lá encontrou umas cavernas onde vários séculos antes os escravos da rainha Cleópatra fabricavam moedas. Escolheu por vivenda uma dessas covas, perto da qual havia uma fonte de água e uma palmeira. As folhas da palmeira proporcionavam-lhe vestes. Os seus frutos serviam-lhe de alimento. E a fonte de água acalmava-lhe a sede. 

No princípio o pensamento de Paulo era ficar por ali unicamente o tempo que durasse a perseguição, mas logo se deu conta de que na solidão do deserto podia falar tranquilamente a Deus e escutar tão claramente as mensagens que Ele lhe enviava, que decidiu ficar ali para sempre e não voltar jamais à cidade onde tantos perigos havia de ofender a Nosso Senhor. 

Propôs-se ajudar o mundo não com negócios e palavras, mas com penitências e oração pela conversão dos pecadores. Disse São Jerónimo que quando a palmeira não tinha fruto, cada dia vinha um corvo e lhe trazia meio pão, e com isso vivia o nosso santo ermitão (a Igreja chama ermitão ao que para sua vida numa "ermida", ou seja numa habitação solitária e retirada do mundo e de outras habitações).

Depois de passar ali no deserto orando, jejuando, meditando, por mais de setenta anos seguidos, já acreditava que morreria sem voltar a ver rosto humano algum, e sem ser conhecido por ninguém, quando Deus dispôs cumprir aquela palavra que disse Cristo: "Todo o que se humilha será exaltado" e sucedeu que naquele deserto havia outro ermitão que fazia penitência. Era Santo António Abade. E uma vez a este santo lhe veio a tentação de crer que ele era o ermitão mais antigo que havia no mundo, e uma noite ouviu em sonhos que lhe diziam: "Há outro penitente mais antigo que tu. Empreende a viagem e o lograrás encontrar."

António madrugou para partir de viagem e depois de caminhar horas e horas chegou à porta da cova onde vivia Paulo. Este, ao ouvir ruído lá fora, acreditou que era uma fera que se acercava, e tapou a entrada com uma pedra. António chamou durante muito longo tempo suplicando-lhe que movesse a pedra para poder saudá-lo.  Por fim, Paulo saiu e os dois santos, sem se haverem visto antes, saudaram-se cada um pelo seu respectivo nome. Logo se ajoelharam e deram graças a Deus. E nesse momento chegou o corvo trazendo um pão inteiro. 

Então Paulo exclamou: "Vê como Deus é bom. Cada dia me manda meio pão, mas como hoje vieste tu, o Senhor envia um pão inteiro." Puseram-se a discutir quem devia partir o pão, porque esta honra correspondia ao mais digno. E cada um se cria mais indigno que o outro. Por fim decidiram que o partiriam tirando cada um de um extremo do pão. Depois desceram à fonte e beberam água cristalina. Era todo o alimento que tomavam em 24 horas. Meio pão e um pouco de água. E depois de conversarem de coisas espirituais, passaram toda a noite em oração.  Na manhã seguinte Paulo anunciou a António que sentia que ia a morrer e lhe disse: "Vai ao teu mosteiro e traz-me o manto que Santo Atanásio, o grande bispo, te deu. Quero que me amortalhem com esse manto".

Santo António admirou-se de que Paulo soubesse que Santo Atanásio lhe havia dado esse manto, e foi buscá-lo. Mas temia que ao voltar o pudesse encontrar já morto. Quando já vinha de volta, contemplou numa visão que a alma de Paulo subia ao céu rodeado de apóstolos e de anjos. E exclamou: "Paulo, Paulo, por que te foste sem me dizer adeus?". (Depois António dirá aos seus monges: "Eu sou um pobre pecador, mas no deserto conheci a um que era tão santo como um João Baptista: era Paulo, o ermitão"). Quando chegou à cova encontrou o cadáver do santo, ajoelhado, com os olhos dirigidos para o Céu e os braços em cruz. Parecia que estivesse rezando, mas ao não ouvi-lo nem sequer respirar, acercou-se e viu que estava morto.

Morreu na ocupação à qual havia dedicado a maior parte das horas da sua vida: orar ao Senhor. António perguntava-se como faria para cavar uma sepultura ali, se não tinha ferramentas. Mas logo ouviu que se acercavam dois leões, como com mostras de tristeza e respeito, e eles, com as suas garras cavaram um túmulo entre a areia e foram embora. E ali depositou Santo António o cadáver do seu amigo Paulo. São Paulo morreu no ano 342 quando tinha 113 anos de idade e quando levava 90 anos orando e fazendo penitência no deserto pela salvação do mundo. É chamado o primeiro ermitão, por haver sido o primeiro que foi para um deserto a viver totalmente retirado do mundo, dedicado à oração e à meditação.

Santo António conservou sempre com enorme respeito a vestidura de São Paulo feita de folhas de palmeira, e ele mesmo se revestia com ela nas grandes festividades. São Jerónimo dizia: "Se o Senhor me pusesse a escolher, eu preferiria a pobre túnica de folhas de palmeira com a qual se cobria Paulo o ermitão, porque ele era um santo, e não o luxuoso manto com o qual se vestem os reis tão cheios de orgulho". São Paulo com a sua vida de silêncio, oração e meditação no meio do deserto, motivou muitos a afastar-se do mundo e a dedicar-se com mais seriedade na solidão a buscar a satisfação e a eterna salvação.

in Pale Ideas


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Absoluta tranquilidade da alma e perfeita pureza de coração

O objectivo último do monge e a perfeição do coração consistem numa perseverança ininterrupta na oração. Tanto quanto é dado à fragilidade humana, trata-se de um esforço em direcção a uma absoluta tranquilidade da alma e a uma perfeita pureza de coração. É por esta razão que devemos afrontar os trabalhos corporais e procurar por todos os meios a verdadeira contrição do coração, com uma constância que não desfaleça. 

Para ter o fervor e a pureza que deve ter, a oração exige uma fidelidade total no que respeita aos seguintes aspectos. Em primeiro lugar, uma libertação completa de todas as inquietações relacionadas com este mundo; não pode haver assunto algum ou qualquer interesse que não deva ser totalmente excluído. Do mesmo modo, renunciar à maledicência, à coscuvilhice, à palavra vã e à zombaria. Acima de tudo, suprimir definitivamente as perturbações da cólera e da tristeza. Fazer morrer em si todo o desejo carnal e o apego ao dinheiro.

Após esta purificação, que assegura a pureza e a simplicidade, há que lançar o fundamento inquebrantável de uma humildade profunda, capaz de sustentar a torre espiritual que se pretende que chegue ao Céu. 

Por fim, para que sobre ela repouse o edifício espiritual das virtudes, é preciso proibir à alma toda a dispersão em divagações e pensamentos fúteis. Então, um coração purificado e livre começa pouco a pouco a elevar-se até à contemplação de Deus e à intuição das realidades espirituais.

S. João Cassiano in Conferências, n°9; SC 34 


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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Canal Senza Pagare no Telegram

Queridos leitores, o Senza Pagare já se encontra no Telegram: https://t.me/senzapagareblog

Além disso, estamos também no Instagram, com publicações diferentes: https://www.instagram.com/senzapagareblog

O blog continua banido do Facebook, e de todas as redes socais detidas por essa empresa. Até agora, esse acto não foi explicado nem justificado.

Paz e Bem


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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Madre Angélica contra a "Igreja liberal"

Neste vídeo, a corajosa Madre Angélica explica os erros do catolicismo liberal, que tenta destruir a verdadeira Igreja Católica, fundada por Jesus Cristo.


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Expressão da Liberdade

1. A liberdade de expressão para o ser realmente deve ser uma expressão da liberdade. A liberdade é um “órgão” espiritual que, ao contrário do que muitos pensam, não é indiferente ou neutro perante a realidade, mas sim inclinado ou orientado para a verdade e o bem. A liberdade é a capacidade de se auto-determinar na realização do bem. É certo que em virtude do pecado original, do pecado do mundo (o “ambiente” de pecado) e do pecado actual (o de cada um) esta inclinação encontra resistências, enganos, ilusões, podendo distorcer-se e perverter-se. Por isso, aquilo que é essencialmente uma revelação da dignidade da pessoa no seu decidir e agir pode ser usado para a degradar e corromper. 

Daqui se costuma concluir que “a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro”. Não conheço a origem deste dito, nem o seu significado genuíno. Mas a formulação, tal como soa, não me parece feliz. De facto, somente a coexistência de liberdades favorece, nutre e vivifica a liberdade de cada um. E uma vez que cada pessoa só se realiza humanamente enquanto é responsável pelo seu decidir e agir, importa exercitar-se na tolerância para com os indivíduos que erram ou caiem (afinal, de algum modo, todos nós) na sua demanda da verdade e do bem. A liberdade de expressão é então um reconhecimento da dignidade da pessoa, uma possibilidade de se auto-comunicar, de contribuir para o bem comum, de aprendizagem, de correcção, de se enriquecer acolhendo os outros na sua auto-doação, pela expressão.

2. Se a liberdade de cada um se afirma na coexistência de liberdades isso significa que estas são entre si co-responsáveis, que, na sua relação, são o húmus que sustenta e possibilita a realização em plenitude da liberdade de cada qual. Por isso, cada um é responsável pelo bem comum, isto é, pelo bem de todos e de cada um, pela liberdade de todos e de cada um. Assim, quem transforma a liberdade de expressão, exorbitando-a, em vontade de poder (na acepção negativa desta expressão), escraviza-se à idolatria de si mesmo – ao procurar dominar os outros, a sua deles liberdade, destrói a seiva que alimenta a sua, acabando por fenecer. Ao mutilar a relação essencial do seu eu com a verdade e o bem na sua entrega aos outros, ao isolar-se, ao ensoberbecer-se, é manipulado pelo caos, tornando-se “missionário” da desagregação, da dissolução, da morte.

Compreende-se, pois, que a liberdade tenha de se defender recorrendo ao direito natural, isto é, à verdade universal, (que por sê-lo é a todos acessível) reconhecida pela razão, capaz de critério e de discernimento justos. O direito positivo, que não pode opor-se ao direito natural sob pena de se transformar na expressão dos interesses dos mais fortes, deve usar as suas capacidades de modo a potencializar as liberdades garantindo a coexistência das mesmas.

3. Compete, pois, ao direito dissuadir, prevenir e punir os abusos da liberdade de expressão. Que num estádio de futebol, por exemplo, alguém grite falsamente que há uma bomba, gerando o pânico, com todas as consequências que daí podem advir é claramente um abuso da liberdade de expressão. Também é evidente que a publicitação do consumo de droga constitui um atentado à liberdade. Reivindicar a liberdade de expressão para incitar ao sexo, fora de um contexto de amor verdadeiro e irrevogável, é claramente um abuso de quem tem poderosos interesses económicos e uma agenda tenebrosa. O direito deve salvaguardar a moralidade pública (o que consta aliás das nossas leis, embora sejam letra morta), porque esta é fonte de liberdade. 

Do mesmo modo que não é um atentado à liberdade de expressão impedir a publicitação do incesto, da pedofilia ou do consumo de droga, também os grandes meios de comunicação social, por exemplo, que nos dias de hoje são dotados de um poder imenso de modelar e manipular as consciências deviam ser sujeitos a um rigoroso escrutínio jurídico que os penalizasse duramente pelos sistemáticos atentados à dignidade e à liberdade das pessoas. Tanto mais que estas, abandonadas a si mesmas, não têm possibilidade nem capacidade de defesa adequadas ás injustiças de que são vítimas. Em nome da liberdade de expressão estes poderosíssimos meios recorrem habitualmente a uma censura selectiva, ignorando sistematicamente o que não convém aos seus objectivos, e distorcem acontecimentos e opiniões, sem que uma grande multidão dos receptores, possa sequer ter disso consciência.

Num conluio entrecruzado de interesses económicos, políticos/ideológicos e comunicacionais a vontade de poder manipula inclusive os instrumentos jurídicos - elaborados para garantir a liberdade de expressão e prevenir os seus abusos -, para perseguir e silenciar todos aqueles que legitima e responsavelmente se exprimem contra a tirania da mentalidade dominante opondo-se ao totalitarismo que subjuga e aliena a liberdade.

Padre Nuno Serras Pereira


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Quem te ama diz-te a verdade




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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Sobre o novo documento do Papa Francisco: leitoras e acólitas

Com o seu último motu proprio, Spiritus Domini, o Papa Francisco abriu os ministérios laicais às mulheres. O Cân. 230 do Código de Direito Canónico, que dizia:

"Os leigos do sexo masculino, possuidores da idade e das qualidades determinadas por decreto da Conferência episcopal, podem, mediante o rito litúrgico, ser assumidos de modo estável para desempenharem os ministérios de leitor e de acólito; porém, a colação destes ministérios não lhes confere o direito à sustentação ou remuneração por parte da Igreja."

Passou a dizer:

"Os leigos que tiverem a idade e as aptidões determinadas com decreto pela Conferência Episcopal..."

Os ministérios laicais foram introduzidos na Igreja pelo Papa Paulo VI, em 1972, com o motu proprio proprio Ministeria quædam. Com este documento, Paulo VI acabou, pura e simplesmente, com as 4 ordens menores que existiam na Igreja desde os primeiros séculos: Ostiário, Leitor, Exorcista e Acólito. Acabou também com a primeira das ordens maiores - Subdiaconado - mantendo apenas as ordens maiores do Diaconado e Presbiteriado (Sacerdócio). 

A entrada na vida clerical - que acontecia com a tonsura, seguida das 4 ordens menores e 3 maiores para quem tivesse vocação sacerdotal - passou, assim, a acontecer apenas quando se é ordenado diácono. Antes disso apenas existem os tais ministérios laicais, que são formas estáveis de servir na liturgia, seja como leitor ou acólito.

Desde que foram criados, estes ministérios tinham sido apenas acessíveis aos homens, porque implicam o serviço dentro do presbitério (a parte que rodeia o altar). Aconteceu que por abuso, como é tão usual nos últimos 60 anos da Igreja, as mulheres começaram também a desempenhar essas funções. Depois de anos e anos de abuso, este motu proprio veio permitir que essas funções fossem realizadas de modo estável, segundo a lei.

Uma situação análoga aconteceu com a possibilidade de receber a Sagrada Comunhão na mão. Os ensinamentos da Igreja eram muito claros e bem-justificados, em relação à obrigação de receber a Comunhão na boca. Acontece que décadas de abusos nos países do centro da Europa, nomeadamente: Holanda, Bélgica e Alemanha, fizeram com o Papa Paulo VI escrevesse um documento (Memoriale Domini em 1969) a recomendar a comunhão na boca mas a tolerar a comunhão na mão, onde já estivesse a acontecer de facto e onde as Conferências Episcopais o permitissem. 

Resultado: 50 anos depois a comunhão na mão é praticamente obrigatória e a comunhão na boca praticamente proibida. 

Está visto que, hoje em dia, a desobediência, não só às autoridades eclesiais actuais mas ao que a Igreja fez durante séculos e séculos, compensa. O motu proprio Spiritus Domini é mais uma prova disso.

João Silveira


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O diabo não é um deus do mal mas uma criatura limitada

Entrevista ao Padre Pedro Barrajon, exorcista

As possessões demoníacas são comuns?

A acção comum é a tentação, a possessão não é comum. A tentação induz-nos ao mal, todos as sofremos e no Pai Nosso dizemos todos os dias “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A acção normal do demónio é a tentação. Uma acção extraordinária, mas possível, é a possessão.

Esses fenómenos têm aumentado nos últimos anos?

É difícil dizer se os casos têm aumentado nos últimos anos, porque, infelizmente, destes problemas não se fala muito. Poderíamos dizer que o fenómeno é hoje mais reconhecido, enquanto que houve um tempo em que tudo se explicava com causas psicológicas. É necessário distinguir. É verdade que vivemos em uma sociedade muito secularizada, na qual, mais do que antes, se abre a porta ao ocultismo, ao esoterismo, às práticas mágicas: isso pode ter uma influência real com posteriores casos de possessão. Os casos de possessão não aumentaram de modo exagerado, mas, certamente, há uma tendência a aumentar, por causa da distância de Deus e, especialmente, por causa de práticas mágicas e de superstições neo-pagãs, que são uma porta para a acção diabólica.

Quais podem ser as causas de possessão demoníaca?

Às vezes, as causas não são compreensíveis. O diabo também agiu sobre grandes santos, como no caso do Pe. Pio ou do Cura d'Ars, que tiveram fortes lutas físicas com o diabo, mas a causa mais comum é culturar quem não é Deus: os ídolos, os poderes mágicos, Satanás nas seitas satânicas... Ocultismo e magia são as primeiras causas.

A palavra-chave, no entanto, é sempre 'discernimento', saber discernir, como diz o Papa, tentando falar com a pessoa, tentando avaliar a sua história, as possíveis causas de tipo psiquiátrico e psicológico: se estas forem excluídas e a pessoa se sente assediada pelo demónio, então, é bom que faça uma oração de libertação (que não é um exorcismo), ou um exorcismo mesmo, se se vê uma certa violência no ataque maléfico.

Antes de entrar em contacto com os médicos ou os sacerdotes, como é que uma pessoa nota uma influência maligna? Quais são as manifestações e sintomas?

A pessoa às vezes não percebe de imediato a causa porque experimenta um desconforto forte. Diz que se sente habitada por uma pessoa que não é ela própria. No início não é fácil dar-se conta, nem sequer para aqueles que a rodeiam: comportamentos que não são normais, nem sempre se reduzem à acção maléfica, mas, vendo que o problema persiste e não encontra uma solução nos meios normais a disposição, às vezes a pessoa dirige-se a um sacerdote. 

O sacerdote, muitas vezes, não sabe o que fazer, mas um sacerdote com uma certa formação neste campo pode intuir que possa tratar-se de uma influência maléfica e, neste caso, aconselhar um exorcista. Pela prática de exorcismo, o exorcista percebe rapidamente se a pessoa está à mercê do poder do diabo, por exemplo, se diante de símbolos sagrados existem reacções violentas, compulsivas, não normais: a angústia diante do sagrado não é normal. A Igreja acrescenta depois outros sinais: a pessoa pode falar línguas que não conhece, ou até sentir-se habitada por uma outra realidade pessoal, apesar de não ter problemas de múltipla personalidade.

Qual é a diferença entre o exorcismo e oração de libertação?

Às vezes, é bom que, antes do exorcismo, se façam orações de libertação: são orações não "exorcísticas" na qual se reza para que a pessoa seja libertada do mal e da possível influência do mal. Se isso funciona, o exorcismo é muito mais forte, porque no sacramental se pede pelo poder de Cristo e no nome de Cristo, enviado pelo Pai para derrotar o Maligno, para que a pessoa seja libertada. Alguns exorcistas aplicam directamente o exorcismo, outros preferem fazer antes as orações de libertação. A Igreja pede cautela ao exorcista. Há sempre uma espécie de "intuito espiritual", a graça de estado que o exorcista tem para perceber se a pessoa tem ou não necessidade de um exorcismo.

Por que é que durante muitos anos, até mesmo dentro da própria Igreja, o diabo foi quase esquecido?

Criou-se, talvez, uma espécie de racionalização da teologia: o que não se entendia e o que parecia que não fosse científico, foi deixado de fora: os casos em que se falava no Evangelho de exorcismos de Jesus foram transformados em doenças psicológicas. Tentou-se reduzir os mesmos milagres a causas científicas, a tal ponto que, quando Paulo VI, num famoso discurso em 1972, disse: "Parece que por alguma abertura o demónio entrou no templo de Deus”, foi uma notícia que girou o mundo porque falava do diabo. 

Hoje o Papa Francisco fala muitas vezes e ninguém se assusta, mas em 1972 era diferente, porque tinha-se criado uma espécie de “falta de fé” nesse aspecto, o que correspondeu a uma pastoral que não nomeou exorcistas. Os casos de possessão, no entanto, continuavam e as pessoas não sabiam a quem dirigir-se. Agora voltou-se a fazer exorcismos de uma forma mais natural, a Igreja sempre os fez.

Como é necessário apresentar a acção do demónio para um crente?

Do ponto de vista de um crente, não precisa ter medo do demónio, porque Deus é mais forte. Deus permite que o demónio possa agir também de forma extraordinária, tanto é que todos os dias no Pai Nosso rezamos “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A Igreja sempre acreditou na acção do demónio, que, porém, sempre foi limitada pela acção de Deus: o demónio não é um Deus do mal, é uma criatura limitada: tem um certo poder, mas não tem significado com relação a Deus.

in Zenit


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Os 7 degraus do Altar: a concepção tradicional do Sacramento da Ordem

Após o primeiro ano de formação, o jovem seminarista receberá a batina, que é a farda do exército de Cristo. E estará vestido de preto porque deve morrer para o mundo, e as coisas do mundo não devem significar nada para ele.

Depois da batina, o seminarista receberá o que chamamos de “tonsura”. A tonsura é uma cerimónia muito antiga, em que o bispo corta o cabelo do seminarista em forma de cruz, que repete depois do bispo as palavras do Salmo XV: Dominus pars hereditatis meae et calicis mei, tu es qui restitues hereditatem meam mihi. “O Senhor é a parte da minha herança e meu cálice, tu és aquele que restaurará a minha herança para mim.” O seminarista declara que o Senhor é a sua porção e o seu quinhão neste mundo, como os levitas do Antigo Testamento. E este é o significado da palavra “clérigo”: ter o Senhor como nossa porção e sermos nós mesmos a porção do Senhor.
Tonsura
Tradicionalmente, a tonsura é considerada a entrada no estado clerical e conduz o seminarista aos sete degraus do altar, que são os sete graus do sacramento da Ordem. Portanto, embora o sacramento da Ordem seja um, ele é dividido em graus, e o seminarista subirá um degrau de cada vez.

O primeiro degrau é a Ordem de Ostiário. Com esta ordem o seminarista recebe a incumbência de abrir e fechar a igreja, e cuidar dos vasos sagrados.
Ostiário: entrega da chave
O segundo degrau é a Ordem de Leitor. Com esta ordem o seminarista recebe a tarefa de ler as Sagradas Escrituras durante o Ofício Divino e catequizar o povo.
Leitor: entrega do livro
O terceiro degrau é a Ordem de Exorcista. Com esta ordem o seminarista recebe o poder de expulsar o demónio dos corpos daqueles que estão possuídos (embora o uso desse poder esteja sujeito a formação e permissão adicionais).
Exorcista: entrega do livro
O quarto degrau é a Ordem de Acólito. Com esta ordem o seminarista recebe o ofício de servir a Santa Missa.
Acólito: entrega da vela


Acólito: entrega das galhetas
Estas são as quatro ordens que chamamos de menores. E em seguida vêm as três ordens ditas maiores.

O quinto degrau do Altar é o Subdiaconato. É durante essa ordenação que o jovem levita faz sua promessa, o seu voto de castidade perpétua. Ele recebe, então, o poder de ajudar o diácono e o sacerdote no Altar. Vemos bem que primeiro ele promete castidade, e só então recebe o poder de servir no Altar. Por isso, podemos ver claramente que a castidade e o serviço do Altar devem andar sempre juntos.
Subdiácono: promessa de castidade

Subdiácono: entrega do cálice

 

Subdiácono: entrega do livro das Epístolas
O sexto degrau do Altar é o Diaconato. Com esta ordem, o seminarista recebe o poder de ajudar o sacerdote no altar, de anunciar o Evangelho, pregar e baptizar.
Diácono: imposição da mão

Diácono: entrega do livro dos Evangelhos
Finalmente, o sétimo degrau do Altar é a Ordem dos Sacerdotes, que inclui tanto os simples padres (presbiterado) quanto bispos (episcopado).
Sacerdote: imposição das mãos

Sacerdote: unção das mãos

Sacerdote: entrega do cálice e hóstia

Sacerdote: promessa de obediência
Na sua ordenação o sacerdote recebe um poder que nem sequer foi concedido aos próprios Anjos de Deus: o poder de consagrar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e o poder de perdoar os pecados. O grande plano de salvação está nas pequenas mãos do sacerdote. O padre é tão pequeno, mas ao mesmo tempo tão grande. Que missão, que vocação! A vocação mais sublime da Terra: ser sacerdote, ser outro Cristo, continuar a obra da redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nós, sacerdotes, recordamos com grande emoção todos os passos que nos conduziram ao altar de Deus: a nossa tonsura, as ordens menores, o subdiaconato, o diaconato e, por fim, o sacerdócio. É uma grande alegria ser sacerdote, de tal forma que nunca voltaríamos atrás. Se tivéssemos mil vidas, mil vezes nos entregaríamos a Deus, para a salvação de almas.

Que alegria baptizar e dar vida espiritual a uma alma! Que alegria reconciliar o pecador com Deus no sacramento da confissão! Que alegria abençoar um casamento, pedindo as graças de Deus para a nova família! Que alegria acompanhar os moribundos nos seus últimos momentos, com o sacramento da extrema unção, abrindo-lhes as portas do reino dos céus com o poder das chaves colocadas nas mãos do sacerdote! Que alegria indizível oferecer o Santo Sacrifício da Missa e elevar a Hóstia Sagrada e o Santo Cálice para a glória de Deus e a salvação das almas! Que alegria ser padre!

Mas, para ser justo, devo dizer que ser padre é também uma cruz. Não é uma reclamação, é um facto. Quando passamos a compartilhar mais da vida de Nosso Senhor, passamos a compartilhar mais dos Seus sofrimentos. E porque o sacerdócio é a assimilação mais forte a Cristo, é normal que traga sofrimento. No dia da sua ordenação, a mãe de São João Bosco disse-lhe: “Meu filho, hoje começas a sofrer”.

Essas são, de facto, palavras fortes, que não nos devem atemorizar, mas devem recordar que qualquer sacerdote, como outro Cristo, é chamado a ser sacerdote e vítima. Qualquer sacerdote é chamado a oferecer Cristo ao Pai, mas também a se oferecer com Cristo, para a glória de Deus e para a salvação das almas. O Sacerdócio é o mistério da Quinta-Feira Santa: reúne em si a alegria da Última Ceia e a agonia do Getsémani.

Por isso, meus queridos irmãos, gostaria de pedir-lhes que rezassem todos os dias pelos sacerdotes, para que possamos ser fiéis à nossa vocação. E, por favor, rezem também para que muitos jovens possam ouvir a voz de Deus e ter a coragem de deixar tudo para trás e seguir o Mestre. 


Cónego Heitor Matheus, ICRSS, in Rorate Caeli
(Tradução: Fratres in Unum)


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Missa do Galo no Vaticano




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domingo, 10 de janeiro de 2021

Domingo da Sagrada Família

Foi o Papa Leão XIII quem instituiu esta festa, para, diz ele, ao desregramento dos costumes criado pelo Liberalismo, opor a austeridade do lar de Nazaré.

Nessa risonha cidadezinha da Galileia, viviam do trabalho honesto de S. José, o Deus Menino e a mais pura das criaturas saídas das mãos de Deus, Maria Santíssima. Viviam todos de dedicações e renúncias, obedecendo à ordem normal estabelecida por Deus na primeira sociedade oriunda da própria natureza, a Família.

Jesus obedecia a Maria e a José, e aquela seguia a orientação deste, o chefe da casa. E nesta ordem, nesta renúncia, neste amor mantinha-se a coesão do lar e a felicidade de todos. Família modelar feita por Deus como protótipo de todos os lares bem formados.

Oxalá fossem as intenções do Papa atendidas! Não teríamos progredido no egoísmo liberal até aos seus mais lídimos frutos.

Estamos cansados de ouvir dizer que a Família é a célula da sociedade. De onde aprendemos que a defesa da sociedade está na defesa da Família. E ao Estado nada mais interessa do que amparar e fomentar os laços que tornem mais sólidos os vínculos familiares, e impedir ou destruir ou dificultar o mais possível as causas que enfraquecem ou destroem a união dos membros da família.

Trata-se de uma autodefesa, pois a morte da família acarreta a morte do Estado, melhor da sociedade civil que mereça esse nome. Pois que a destruição da família deixa o indivíduo inerme diante do alvedrio tirânico de um Estado absorvente. Segundo a ordem natural das coisas, é a família o alicerce da sociedade maior, a sociedade civil, enquanto ela se distingue especialmente de uma aglomerado de animais, ou seja, enquanto ela é civil, isto é humana. De onde destruída a família, não se mantém mais a sociedade civil. Os laços que unirão os homens num mesmo lugar perderão aquela unção humana própria da nossa espécie.

O que quer dizer que todos devemos nos empenhar por defender a família. Infelizmente não é ao que assistimos. Por toda parte fomentam-se os fatores desagregadores da família. Em todo lugar alimenta-se de todos os modos a paixão que exacerba o egoísmo, inimigo de toda dedicação, ou seja da união familiar, feita de renúncias e dedicações.

E como se isso não bastasse uma instabilidade económica que deixa as classes menos favorecidas na incerteza do dia de amanhã. Desde que o momento é denominado pela preocupação económica, ao menos que se firmem salários e custo de vida, de maneira que, sarado este mal, se possa cuidar dos outros factores da estabilidade do lar, ou melhor de expurgar a sociedade dos factores dissolventes da vida familiar.

D. António de Castro Mayer (+1991), Bispo de Campos (Brasil)


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Suspensões




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sábado, 9 de janeiro de 2021

Joe Biden NÃO é Católico

Independentemente das considerações político-partidárias, que me recuso a considerar aqui, é da maior importância que não nos deixemos enganar por pronunciamentos episcopais, seja a que nível for, nem por outras “fontes”. Joe Biden que se intitula católico, e por tantos é reconhecido como tal, não o é de facto. Como Pelágio, catolicamente baptizado, ou o Bispo Ario, também catolicamente baptizado, que celebrava Missa, ou Lutero, igualmente catolicamente baptizado. 
 
De facto, ao longo de muitos anos, não obstante ter sido instruído por Bispos e sacerdotes, continua a negar, obstinadamente, uma verdade de Fé Divina e Católica, a saber, que nunca é lícito directa e voluntariamente matar um ser humano inocente. Quem nega, obstinadamente, uma verdade de Fé Divina e Católica é herege, não é católico.

Papa João Paulo II, Evangelium Vitae, 57:

“Portanto, com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus Sucessores, em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, confirmo que a morte directa e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo o homem, pela luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm 2, 14-15), é confirmada pela Sagrada Escritura, transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magisterio ordinário e universal. [51]

A decisão deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má do ponto de vista moral, e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como meio para um fim bom. É, de facto, uma grave desobediência à lei moral, antes ao próprio Deus, autor e garante desta; contradiz as virtudes fundamentais da justiça e da caridade. 
 
« Nada e ninguém pode autorizar que se dê a morte a um ser humano inocente seja ele feto ou embrião, criança ou adulto, velho, doente incurável ou agonizante. E também a ninguém é permitido requerer este gesto homicida para si ou para outrem confiado à sua responsabilidade, nem sequer consenti-lo explícita ou implicitamente. Não há autoridade alguma que o possa legitimamente impor ou permitir ». [52]

No referente ao direito à vida, cada ser humano inocente é absolutamente igual a todos os demais. Esta igualdade é a base de todo o relacionamento social autêntico, o qual, para o ser verdadeiramente, não pode deixar de se fundar sobre a verdade e a justiça, reconhecendo e tutelando cada homem e cada mulher como pessoa, e não como coisa de que se possa dispor.

Diante da norma moral que proíbe a eliminação directa de um ser humano inocente, «não existem privilégios, nem excepções para ninguém. Ser o dono do mundo ou o último sobre a face da terra não faz diferença alguma: perante as exigências morais, todos somos absolutamente iguais ». [53]”. 

Padre Nuno Serras Pereira

[51]. Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, sobre a Igreja, 25.
[52]. Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Iura et bona, sobre a eutanásia (5 de Maio de 1980), II: AAS 72 ( 1980), 546.
[53]. Carta Enc., Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 96: AAS 85 ( 1993 ), 1209.


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"A pior mentira é aquela que é meia verdade" - G. K. Chesterton

Um comentário pode ser falacioso; uma notícia pode ser falsa. Mesmo que não seja falsa, pode ser escolhida para dar uma imagem completamente falsa do assunto em questão.

Seleccionar é a arte fina da falsidade. A pior mentira é aquela que é meia verdade.

Os jornalistas são os novos sacerdotes. Mas contrariamente aos antigos, não os norteia a contrição nem a fé na verdade. Nem tão pouco o sentido de pertença ao povo que deveriam servir.

G.K. Chesterton in 'Distortions of the Press' (1909) 


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