sábado, 7 de dezembro de 2019

História e propósito do Advento

Começa hoje o Advento, que antecede o tempo de Natal:

1. Prioridade dos ciclos

A formação do Ano Litúrgico teve início pelas festas de Páscoa e Pentecostes. Só mais tarde acrescentou-se o Ciclo do Natal. 

2. Natureza do ciclo do Natal

O ciclo principia pelo Advento (= vinda), que abrange 4 semanas de preparação. As festas centrais deste ciclo são o dia de natal de N. S. Jesus Cristo e a Epifania. A Epifania é mais antiga e liturgicamente superior (2i. ordinis), o Natal, porém, (3i. ordinis) tem a prioridade nos Mistérios do Redentor e dá o nome ao ciclo. Objeto deste ciclo é a aparição de Cristo na gruta, na circuncisão, perante os magos, perante os discípulos em Caná, perante o povo no Jordão, perante Simeão no templo, perante os doutores (Dom. inf. oct. Ep.) 

3. História do Advento 

Em Espanha, já o Sínodo de Saragoça (380) [1º Concílio de Saragoça; ao todo, foram quatro] prescreveu 3 semanas de preparação para a Epifania, em que se celebrava outrora o Natal de Cristo. Em Tours, o Bispo Perpétuo (+ 491) ordenou 6 semanas de preparação para o Natal em 25 de Dezembro. Em Roma, o Advento é mencionado no [Decreto] Gelasiano (fins do século V). Os Domingos do Advento foram, por muito tempo, em alguns lugares, cinco; ainda hoje no Rito Ambrosiano são seis; em Roma, quatro, desde o V século. O Rito Grego não conhece o Advento, mas sim um jejum de 40 dias. 

O Advento começa no Domingo próximo da festa de Santo André (30 de Novembro). Se a festa ocorre na primeira metade da semana, o Advento começa na festa ou no Domingo precedente, do contrário, no seguinte. A razão mística pela qual Santo André introduz o Ano Eclesiástico é o seu empenho em conduzir seu irmão Pedro a Nosso Senhor. A razão natural é o cálculo das 4 semanas do Advento. Este não poderia começar a 26 de Novembro, porque seriam mais do que 4 semanas (29 dias), nem a 4 de Dezembro, porque seriam menos que 4 semanas até a festa de Natal. Só o dia 30 de Novembro regula o cálculo litúrgico entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro. 

4. Carácter do Advento

1) É o tempo da preparação para o aniversário da vinda do Salvador, causa de novas graças. Pois só a esta se pode aplicar o invitatório nas vésperas de 24 de Dezembro: Hodie scietis, guia veniet Dominus et mane videbitis gloriam ejus, repetido várias vezes; a antífona: Crastina die delebitur iniquitas terrae; em 21 de Dezembro, a antífona: Quinta die veniet ad vos Dominus

Esta ideia manifesta da vinda do Redentor inspira toda a Liturgia do Advento.

No 1º Domingo do Advento, o Senhor está longe. A antífona das primeiras vésperas é: Nomen Domini venit de longínquo; Aspiciens a longe. (1° Resp.); Prope est regnum Dei. (Evang.)

No 2° Domingo: O desejo da Igreja é mais ardente, quase impaciente: Jerusalem, cito veniet salus tua, quare mcerore consumeris. (1.° Resp.) Tu es, qui venturas es. (Evang.)

No 3° Domingo Gaudete: Prope est iam Dominus. (Invit.) Alegrai-vos. Pois o Senhor já está perto. Gaudete, Dominus enim propeest. (Capit.) Medias vestrum stetit. (Evang.)

No 4.° Domingo: Pulchriores sunt oculi eius vino et dentes eius lacte candidiores (2° Resp.); Videbit omnis caro salutare Dei. (Evang.) Depois os textos do dia 21-24 de Dezembro.

2) 0 Advento é o tempo de preparação para a segunda vinda de Jesus Cristo, como muitos textos o provam, mas só em segundo lugar. Os hinos nas matinas, laudes e vésperas mencionam primeiro o Nascimento de Jesus, em segundo lugar o Último Juízo, do mesmo modo a oração da vigília. 

3) Na Liturgia encontramos continuamente os dois elementos: penitência e alegria.

a) Os sinais de penitência: no ofício do tempo, não se canta Te Deum; rezam-se as preces feriais; Missa sem Glória, com paramentos roxos, sem órgão, ornato simples do altar; o diácono e o subdiácono não usam dalmática nem tunicela (vestimenta laetitiae: Pontif.); em lugar delas usa-se o estolão para o diácono, nas igrejas maiores; e as igrejas paroquiais, quanto a este efeito, são igrejas maiores (d. 3352 ad 7); nas outras, o diácono e subdiácono vestem só alva, estola e manípulo. (Miss. rubr. XIX, 6, 7.) 

b) Os sinais de alegria são: sempre aleluia; o vivo desejo do Redentor nas antífonas ad laudes nos domingos e na última semana; as antífonas O ad vesperas; no Domingo Gaudete, em que os paramentos podem ser cor de rosa, é permitido o órgão e o uso da dalmática e da tunicela. 

4) As regras litúrgicas mencionadas obrigam só nas funções litúrgicas do tempo, não obrigam porém nem nas festas nem nas funções extra-litúrgicas, p. ex., devoções e bençãos. 

5. O Advento é símbolo do tempo antes do Nascimento de Jesus Cristo. Os suspiros: Rorate, caeli, desuper et nubes pluant Iustum (Is 45, 8) e numerosas aspirações distribuídas por todas as partes do Ofício e da Missa claramente provam-no. 

6. O uso do Presépio, antigamente muito espalhado no Brasil, merece ser preferido ao da árvore de natal, que é ornada também pelos incrédulos e pagãos modernos.  

7. Entre os sinais de alegria deve-se contar o culto especial da SS. Virgem, devido a Ela, como Mãe do Menino Deus. Nos responsórios e antífonas é Ela muitas vezes mencionada; a oração de Beata está prescrita como comemoração comum, e em muitos lugares cantam-se as Missas: Rorate. Durante o tempo do Advento, ocorrem duas festas solenes com as suas oitavas. 

a. Imaculada Conceição, a 8 de Sezembro, em honra de Maria, concebida sem pecado.

Os primeiros vestígios desta festa encontram-se no Oriente, em meados do século VIII, no Ocidente, no século IX, em Nápoles; na Inglaterra, pelo ano 1100, já se encontra com o nome de "Conceição da B. V. Maria". Espalhou-se rapidamente. Papa Sixto V, O.F.M., a introduziu no Calendário Romano. Papa Clemente IX (+ 1670) acrescentou a oitava. Papa Pio IX, com imenso júbilo de todos os fiéis, definiu em 1854 o Dogma da Imaculada Conceição e elevou a festa a dia santo de guarda. 

b. Nossa Senhora de Guadalupe, no México, Padroeira da América Latina, a 12 de Dezembro; antigamente a 26 de Fevereiro. 

Em 1531, Maria SS. apareceu a um índio mexicano, João Diogo, e o encarregou de pedir ao Bispo que mandasse construir um santuário em honra dela. Como o prelado desejasse uma prova da veracidade da mensagem, Maria Santíssima apareceu a Diogo outra vez, entregando-lhe rosas lindíssimas, apesar do inverno, tempo em que não havia flores. Na capa, em que as levou ao bispo, apareceu pintada a imagem da Mãe de Deus tal qual Diogo a tinha visto. Foi prova suficiente para se reconhecer que a mensagem era genuína. Erigiu-se um templo magnífico.

Fonte: Curso de Liturgia. Pe. João Batista Reus, S. J. - Artigo I. Ciclo de Natal. § 67. O ADVENTO. Tópicos 268-274. 2ª Edição. Ed Vozes Limitada. Petrópolis - RJ. 1944.


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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

São Nicolau agride Ário no Concílio de Niceia




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A história invulgar de São Nicolau, o verdadeiro Pai Natal

São Nicolau nasceu na cidade de Patras, de pais santos e ricos. O pai, Epifânio, e a mãe, Joana, geraram-no na primeira flor da juventude e viveram a partir de então em continência, levando uma vida de celibatários.

Diz-se que no primeiro dia em que o lavavam se pôs de pé na bacia; além disso, às Quartas e Sextas-Feiras só mamava uma vez. Chegando à juventude, evitava as lascívias dos outros jovens, preferindo entrar nas igrejas e decorar o que lá podia ouvir acerca da Sagrada Escritura. Quando os seus pais morreram, começou a pensar em como haveria de gastar as suas enormes riquezas, não para os louvores dos homens, mas para a glória de Deus.

Então, certo nobre, seu vizinho, pensou prostituir as suas três filhas virgens por falta de recursos, para, com o infame comércio delas, se poder sustentar. Quando o santo homem soube, ficou horrorizado com o crime e atirou uma quantidade de ouro envolvida num pano através de uma das janelas da casa onde ele morava e regressou à sua às escondidas.

Quando chegou a manhã, o homem encontrou aquela quantidade de ouro e, dando graças a Deus, celebrou o casamento da filha mais velha. Não muito tempo depois, o servo de Deus voltou a realizar obra semelhante. Voltando a encontrar o ouro e dando muitas graças, aquele homem decidiu vigiar para saber quem socorria a sua miséria. Passados alguns dias, Nicolau atirou o dobro do ouro para a casa do vizinho, que acordou com o barulho e seguiu São Nicolau que fugia, dizendo-lhe em alta voz:

‒ Pára, por favor, e não escondas o teu rosto do meu!

E, correndo mais depressa que Nicolau, reconheceu-o. Logo se prostrou e queria beijar-lhe os pés, mas ele, evitando-o, exigiu que nunca tornasse público aquele acontecimento.

Depois disto, tendo morrido o Bispo da cidade de Mira, combinaram os bispos nomeá-lo para aquela igreja. Havia entre eles um de grande autoridade de quem todos dependiam para aquela eleição. Depois de ter aconselhado todos a fazerem jejum e orarem, ouviu naquela noite uma voz a dizer-lhe que de manhã cedo observasse as portas da igreja e quando visse chegar o primeiro homem cujo nome fosse Nicolau, olhasse bem para ele, para consagrá-lo bispo.

Revelou isto aos outros, aconselhando-os a insistirem na oração enquanto ia observar as portas da igreja. Admirou-se muito ao ver que, àquela hora matinal, o homem enviado por Deus antes de todos os outros era Nicolau; chamando-o a si, o bispo disse-lhe:

‒ Como te chamas?

Ele, com uma simplicidade de pomba, respondeu, de cabeça inclinada:

‒ Nicolau, servo de vossa santidade.

Levaram-no para a igreja e, embora ele a isso muito se opusesse, colocaram-no na cátedra episcopal.

Mas ele em tudo continuava a observar a humildade e a seriedade da sua conduta anterior: passava as noites em oração, mortificava o corpo, fugia do convívio com mulheres; era humilde com quantos recebia, eficaz no falar, entusiasta no exortar e severo no corrigir. 

Bem-aventurado Jacques de Voragine in 'Légende Dorée'


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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Nações Unidas minimizam o crime de pornografia infantil

A Assembleia Geral da ONU irá adoptar uma resolução sobre a exploração sexual de crianças online que endossa a substituição do termo "pornografia infantil" por "material de abuso sexual infantil" como parte da luta contra a pornografia infantil. 

Os defensores dessa abordagem dizem que isso ajudará a polícia a distinguir entre pornografia legal para adultos e imagens sexuais criminais de crianças. Mas os especialistas da polícia dos EUA alertaram contra essa abordagem no passado, alertando que ela pode dificultar os esforços para processar casos de pornografia infantil.

Os países europeus vêm promovendo o novo idioma há vários anos, e a resolução a ser adoptada pode ter implicações de longo alcance sobre como o sistema da ONU, e dos países do Mundo, combatem a pornografia infantil. Como a pornografia infantil é um fenómeno global da Internet, a luta contra a pornografia infantil exige uma abordagem globalizada.

A resolução da Assembleia Geral observa que “em alguns Estados-Membros o termo 'pornografia infantil' vem a ser cada vez mais referido como 'material de exploração sexual infantil' ou 'material de abuso sexual infantil' para reflectir melhor a natureza desse material e a gravidade do dano sofrido pela criança neste contexto."

O problema é que não está claro se o uso do termo "material de abuso sexual infantil" se refere apenas a imagens produzidas como resultado de ou no processo de abuso sexual da criança ou a qualquer representação sexualmente explícita de crianças.

A confusão foi uma das razões pelas quais Kenneth V. Lanning, especialista em investigação de longa data para o FBI, se opôs ao uso de uma nova terminologia para combater a pornografia infantil.

"A lei federal agora não exige que as crianças na pornografia infantil sejam abusadas sexualmente ... Se isso acontecesse, isso poderia exigir mais provas e evidências para processar um caso", escreveu Lanning ,um manual sobre agressores sexuais usado pelo Departamento de Justiça.

“Como algumas pessoas pensam que 'pornografia' não é uma questão importante, não justifica a mudança de um termo (pornografia infantil) com 30 anos de jurisprudência para um termo (imagens de abuso infantil) sem histórico jurídico e exigindo um ónus adicional de prova . Porquê começar a usar um novo termo de significado pouco claro que confundirá ainda mais as pessoas?”, pergunta Lanning.

Os defensores da nova linguagem respondem que qualquer imagem sexualmente explícita de uma criança é inerentemente abusiva e, portanto, esta é uma falsa questão.

“Se uma imagem mostra uma criança envolvida em conduta sexualmente explícita, a imagem é pornografia infantil ou uma imagem sexualmente abusiva de uma criança. A imagem em si é prejudicial ”, escreveu a ex-promotora federal e professora de direito da Universidade Católica da América, Mary Graw Leary, num livro que publicou recentemente.

Mas os países europeus que promovem o novo idioma são signatários da Convenção de Lanzarote, que é conhecida por deixar espaço aos países sobre o que deve ser considerado abuso sexual de crianças. A Convenção de Lanzarote é consideravelmente menos protectora do que o Protocolo Opcional à Convenção sobre os Direitos da Criança na Venda de Crianças, da qual os EUA fazem parte.

O Protocolo Opcional considera qualquer imagem sexualmente explícita de uma criança, com menos de 18 anos, como pornografia infantil e exige que os Estados proíbam a produção, distribuição e posse de tais imagens. A convenção de Lanzarote, por outro lado, não exige a acusação de pornografia infantil virtual ou a criminalização da pornografia infantil produzida ou distribuída consensualmente por menores de idade acima do consentimento.

 Stefano Gennarini, J.D. in C-Fam


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Os Olhos Daquela Aquela - Cante Alentejano

Além daquela janela
Dois olhos me estão matando:

Matem-me devagarinho,
Que eu quero morrer cantando!
 
Matem-me devagarinho
Que eu quero morrer cantando;

Que eu quero morrer cantando
Nos braços duma donzela!
Dois olhos me estão matando,
Além daquela janela.
 

Os olhos daquela, aquela;
Os olhos daquela além,
São os olhos duma rosa:
Parecem os do mê' bem!


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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O pequeno exorcismo de Santo António

Um dia, Santo António de Lisboa deu uma oração a uma pobre mulher que procurava ajuda contra as tentações do demónio.

O Papa Sisto V mandou esculpir essa oração – também conhecida por “Lema de Santo António” – na base do obelisco que se encontra no centro da Praça de São Pedro, em Roma, no qual se encontra também uma relíquia do Santo Lenho. 

Em Latim:

Ecce Crucem Domini! +
Fugite partes adversae! +
Vicit Leo de tribu Juda, +
Radix David! Alleluia!

Em Português:

Eis a cruz do Senhor! +
Fugi forças inimigas! +
Venceu o Leão de Judá, +
A raiz de David! Aleluia!

Esta breve oração é considerada um pequeno exorcismo e pode ser usada para afugentar o demónio, especialmente nas tentações. 


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Admirabile signum: Carta Apostólica do Papa Francisco sobre o significado e valor do Presépio

1. O Sinal Admirável do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De facto, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrir que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele. 

Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente dum exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente com os avós, transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar. 

2. A origem do Presépio fica-se a dever, antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (2, 7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio. 

Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo 6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: «Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento».[1] Na realidade, o Presépio inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária. 

Passemos agora à origem do Presépio, tal como nós o entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra em 29 de Novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura. 

As Fontes Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro».[2] Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do Santo. 

No dia 25 de Dezembro, chegaram a Gréccio muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em Gréccio, naquela ocasião, não havia figuras; o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes.[3] 

Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério. 

O primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite, à simples e comovente representação se veio juntar o dom duma visão maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas cheios de inefável alegria»[4]. 

3. Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé. Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita estes sentimentos. Gréccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na rocha, deixando-se envolver pelo silêncio. 

Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que Aquele que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado. 

Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele Acontecimento; mas, a sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afectos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e actual nos mais variados contextos históricos e culturais. 

De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontrá-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46). 

4. Gostava agora de repassar os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf. Lc 1, 79). 

Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio; muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que, nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas ruínas são sinal visível sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a novidade no meio dum mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário. 

5. Uma grande emoção se deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas, que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à gruta adorar o Senhor. 

«Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas, os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação. A Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza singular, que transparece de modo particular no Presépio. 

6. Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém possa expulsá-las ou afastá-las dum berço de tal modo improvisado que os pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós. 

No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado. 

Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha connosco a sua vida divina. 

7. A pouco e pouco, o Presépio leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-Lo. A sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5). 

Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egipto (cf. Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré, onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus; homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática. 

8. O coração do Presépio começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus. Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja. 

O nascimento duma criança suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida. Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida. 

«De facto, a vida manifestou-se» (1 Jo 1, 2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação. O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos, antes e depois do nascimento de Cristo. 

O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida. 

9. Quando se aproxima a festa da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro, incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade sagrada que experimentará a morte e a sepultura. 

Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a reflectir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e fá-lo com acções concretas de misericórdia. 

Os Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios, sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva até Belém (cf. Mt 2, 1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias, inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios. 

10. Diante do Presépio, a mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito, transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre. 

Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida, educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e acreditar que Deus está connosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos. 

Dado em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de Dezembro de 2019, sétimo do meu pontificado. 

FRANCISCO 

[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. ibid., 85: o. c., 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.


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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O futuro da Igreja



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São Francisco Xavier, Apóstolo do Oriente e Taumaturgo

Abrasado pelo amor a Deus, Francisco Xavier inflamou os lugares por ele evangelizados com o fogo do amor divino e o brilho dos seus milagres

Para Santo Inácio de Loyola não havia dúvida. O Papa, para atender ao Rei João III de Portugal, pedia-lhe membros da sua recém-fundada Companhia para evangelizar os domínios portugueses do ultramar. Como Francisco Xavier era o único de seus discípulos disponível no momento para acompanhar Simão Rodríguez, teria que ir. No entanto, dos seus primeiros filhos espirituais, Xavier era o predilecto, aquele que planeara ter consigo como conselheiro e provável sucessor. Mas Inácio de Loyola havia escolhido como lema de sua milícia Ad Majorem Dei Gloriam (Tudo para a maior glória de Deus). Se bem que tivesse sentimentos muito profundos, não era um sentimental. Chamou logo Francisco. Sempre pronto a obedecer, o futuro Apóstolo das Índias exclamou: “Pues! Heme aqui!” (Estou pronto! Vamos!).

No dia 16 de Março de 1540, provido dos títulos de Núncio Papal e Embaixador de Portugal para os países do Oriente, Francisco Xavier foi despedir-se do seu pai espiritual. Santo Inácio, pondo-lhe as mãos sobre os ombros, percebeu que a batina era muito rala. “Como, meu caro Francisco! Ides cruzar as neves dos Alpes com roupa tão leve?” O discípulo sorriu timidamente. "Depressa, tirando a sua própria batina, o Fundador da Companhia de Jesus tirou uma veste de flanela que usava e fê-la vestir a Xavier. Era como se, com essa parte da sua vestimenta, desse uma parte de si mesmo ao filho que partia.”(1) “Ide: acendei e inflamai todo o mundo”, foram as últimas palavras do antigo capitão de Pamplona ao ex-mestre do Colégio de Beauvais.

Essas palavras tornaram-se proféticas, pois o que esse fidalgo espanhol fez o resto da sua vida não foi senão inflamar tudo com o ardente fogo de seu amor de Deus.

Reforma da “Goa dourada, a Roma do Oriente”

Francisco Xavier tinha 35 anos quando cruzou o oceano para chegar a Goa em 6 de Maio de 1542. Essa cidade, capital das possessões portuguesas no Oriente, atraíra toda sorte de soldados de fortuna e aventureiros, os quais, longe de sua pátria, família, parentes e conhecidos, tinham caído numa vida licenciosa que escandalizava não só os seus correligionários, mas até os pagãos.

Dom João de Castro, um dos maiores vice-reis das Índias, descreve assim a situação de Goa à sua chegada: “As cobiças e os vícios têm cobrado tamanha posse e autoridade, que nenhuma cousa já se pode fazer por feia e torpe, que dos homens seja estranha.”(2)

Impelido “pela necessidade de perder a vida temporal para socorrer a espiritual de seu próximo”(3) São Francisco Xavier atirou-se ao trabalho, começando pelas crianças e doentes. Aos poucos a sua fama no confessionário e no púlpito atingiu outras áreas, e gente de todas categorias passou a procurá-lo para purificar sua alma. “Aqui em Goa eu moro no hospital, onde confesso e dou a comunhão para os enfermos. Mesmo assim, é tão grande o número dos que vêm pedir-me para ouvir confissões que, se eu estivesse em dez lugares ao mesmo tempo, não teria falta de penitentes”(4) escreveu ele a Santo Inácio apenas um mês depois da sua chegada.

Goa, a “dourada” ou a “Roma do Oriente”, era uma cidade cosmopolita e tinha atraído gente de todas as partes do mundo. São Francisco Xavier viu a necessidade de criar uma escola de para ajudar a evangelização. Menos de um ano depois da sua chegada, tinha já fundado o Colégio da Santa Fé. A sua finalidade, como ele explica, era “para que os nativos destas terras e os de diferentes nações e raças possam ser instruídos na fé. E para que, quando tiverem sido bem instruídos, sejam enviados às suas pátrias, de modo que ganhem fruto com o ensinamento que receberam.”(5)

Os “filhos de São Francisco Xavier”

A sua presença era requisitada também em outras partes: “Num reino longe daqui (Travancore, sudoeste da Índia), Deus moveu muitas pessoas a fazerem-se cristãs. De tal modo que, num só mês, baptizei mais de dez mil, homens, mulheres e crianças”(6). Nessa nova área ele foi recebido pelo marajá “com honras, e tratado com gentileza”. o Rei deu-lhe “permissão para pregar o Evangelho em todo o seu reino, e para baptizar aqueles dos seus súditos que quisessem tornar-se cristãos”(7).

Como escreveu para os membros da Companhia, em Goa “eu tenho estado ocupado baptizando todos os infantes. [...] Os mais velhos deles não me dão paz, pedindo-me sempre para ensinar-lhes novas orações. Eles não me dão tempo para rezar o meu breviário nem para comer.”(8)

São Francisco Xavier desceu até o extremo sul da Índia para evangelizar os Paravas, quase todos pescadores de pérolas. “Padre Francisco fala desses Paravas como de uma nobre raça, inteligente, trabalhadora e perseverante, a única tribo na Índia que se tornou inteiramente católica. [...] Eles orgulham-se de se chamarem a si próprios ‘os filhos de São Francisco Xavier’”, escreve um Prelado no início do século passado(9).

Foi nessa Costa da Pescaria que o “Padre Francisco” realizou muitos dos seus mais espectaculares milagres. Foram tantos e tão notáveis, que fica difícil a escolha.

Uma vez os ferozes Badagas cruzaram as montanhas, devastando o Travancore. O marajá, mal preparado para fazer face a esse perigo, apelou a São Francisco Xavier. O apóstolo juntou-se ao improvisado exército, colocando-se na primeira fila. Tão logo a sua voz pôde ser ouvida do outro lado, “o Padre Francisco, segurando o seu Crucifixo, caminhou para o inimigo [...] e gritou em alta voz: ‘Em nome de Deus, o terrível, eu vos ordeno que pareis’”.(10) Os badagas das filas dianteiras, aterrorizados, pararam e começaram a recuar. A debandada foi total.

“Eu te ordeno, levanta-te dos mortos!”

A cidade de Quilon, entretanto, não se impressionava com esses milagres, e as palavras de fogo do apóstolo não penetravam nos corações endurecidos dos seus habitantes. Um dia, quando estava rodeado por uma multidão a que não era capaz de tocar, o Santo ajoelhou-se e pediu fervorosamente a Deus que mudasse o coração e a vontade daquele povo obstinado. 

Depois de um instante, dirigiu-se ao local onde um jovem havia sido enterrado na véspera. Pediu que o desenterrassem. “Verifiquem todos se ele está mesmo morto”, disse à multidão. Alguns, ao abrirem o caixão, recuaram exclamando: “Ele não só está morto, mas cheira mal”. Xavier então ajoelhou-se e, com potente voz para que todos ouvissem, disse: “Em nome de Deus e em testemunho da fé que eu prego, eu te ordeno: levanta-te dos mortos”. Um tremor sacudiu o cadáver e a vida retornou plenamente a ele. O número das conversões foi grande, e a fama do milagre acompanhou Francisco Xavier através das Índias(11).

Para formar um clero nativo capaz de trabalhar entre seus irmãos, ele fundou mais quatro seminários: Cranganor, Baçaim, Coghim e Quilon.

Qual era o segredo da eficácia apostólica de São Francisco Xavier? Era uma heróica observância do maior mandamento de Cristo: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu entendimento” (Mt 22, 37). “Tenho tão grande confiança em Deus, cujo amor somente me move, que, sem hesitar, com o único bafejo do Espírito Santo, afrontei todas as tempestades do oceano na mais débil barca.”(12)

O segundo apóstolo da Índia recorre ao primeiro

Para saber se deveria avançar mais para o Oriente em sua evangelização, Francisco resolve fazer um recolhimento junto ao túmulo de São Tomé, em Meliapor.

O segundo apóstolo da Índia, em contato com o primeiro, recebeu muitas graças: “Aqui Deus lembrou-se de mim segundo sua costumeira misericórdia; Ele tem consolado infinitamente minha alma, e me fez saber que é sua vontade que eu vá para Málaca, e de lá às outras ilhas da região”.(13)

O resto da história é muito conhecido. Com o mesmo zelo, São Francisco evangelizou não somente Málaca e as Molucas, mas também muitas outras ilhas vizinhas, e chegou até o Japão, do qual foi o primeiro e mais importante apóstolo. Ele morreu só e desconhecido nas costas da China, com os olhos postos nas suas misteriosas terras, cuja antiga e rica civilização queria conquistar para Cristo.

No processo de canonização do grande Apóstolo do Oriente, a Santa Sé “reconheceu 24 ressurreições juridicamente provadas e 88 milagres admiráveis operados em vida pelo ilustre Santo”(14). Na bula de canonização são mencionados muitos milagres ocorridos em vida e depois da morte de São Francisco Xavier. Um deles foi que as lamparinas colocadas diante da imagem do Santo, em Colate, ardiam muitas vezes tanto com óleo como com água benta.

O seu corpo, incorrupto há séculos, pode ainda ser visto em Goa, coroando um dos mais notáveis exemplos do Evangelho posto em prática.

Plinio Maria Solimeo in catolicismo.com.br

Notas:

1. Mary Purcell, Don Francisco - the story of St. Francis Xavier, The Newman Press, Westminster, Maryland, 1954, p. 108.
2. Cônego Arsênio Tomaz Dias, da Sé Patriarcal de Goa, Memória Histórico-Eclesiástica da Arquidiocese de Goa, Tip. A Voz de S. Francisco Xavier, Nova Goa, Índia, 1933, p. 344.
3. G. Schurhammer - I. Wicki, S.I., Epistolae S. Francisco Xaverii, Romae, 1944, - Epist. 55, t. I., p. 325), citada pelo Papa Pio XII em sua mensagem aos católicos da Índia, in "Boletim do Instituto Vasco da Gama", Bastora, Goa, Índia, Dez. 1952, p. VIII.
4. Mary Purcell, op. cit., p. 147.
5. P. Rayanna, S.J., St. Francis Xavier and his shrine, 2nd ed., Bom Jesus, Old Goa, Índia, 1982, p. 72.
6. In Dr. E. P. Antony –– The History of Latin Catholics in Kerala, I.S. Press, Ernakulan, Índia, 1992, p. 44.
7. D. Ladislau Miguel Zaleski, Saint François Xavier, Missionaire et son Apostolat en Inde, Ensieldeln, Germany, 1910, p.102.
8. Mary Purcell, op. cit., p. 165.
9. D. Ladislau Zaleski, op. cit., p. 204.
10. D. Ladislau Zaleski, op. cit., pp. 115-116. Ver também “Memória…”, p. 344, Antony, pp. 45-46, P. Thomas, Christians And Christianity In India And Pakistan, London, George Allen & Unwin Ltd., 1954, p. 56 e J.M.S. Daurignac, São Francisco Xavier, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 5ª ed., pp. 183-184.
11. Cfr. D. Ladislau Zaleski, op. cit., pp. 114-115.
12. Carta de 8 de maio de 1845 para os membros da Companhia, em Goa. In J.M.S. Daurignac, op. cit., p. 215.
13. Mary Purcell, op. cit., p. 182.
14. J.M.S. Daurignac, op. cit., p. 482.


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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A ditadura da opinião pública segundo o Cardeal Ratzinger

O homem tem mais medo do poder da opinião pública do que da luz distante e indefesa da verdade. Ele curva-se ao poder da opinião, tornando-se seu aliado, um de seus portadores. Torna-se escravo da aparência. Nas suas acções ele já não se orienta de acordo com a realidade, mas de acordo com as reacções dos outros.

Deste modo, chegamos ao domínio de opinião, ao domínio do falso. E assim, toda a vida de uma sociedade - decisões políticas e pessoais - baseiam-se na ditadura do falso.

Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
Roma, Quarta-Feira de Cinzas de 1989


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A crise de saúde mental entre os jovens é real e assustadora

The National Survey on Drug Use and Health, gerida pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, fez uma pesquisa que a mais de 600.000 americanos. As tendências recentes são surpreendentes.

De 2009 a 2017, a depressão grave entre jovens de 20 a 21 anos mais que duplicou, passando de 7% para 15%. A depressão aumentou 69% entre os adolescentes de 16 a 17 anos. O sofrimento psicológico grave, que inclui sentimentos de ansiedade e desespero, aumentou 71% entre as pessoas dos 18 aos 25 anos, de 2008 a 2017.

As tentativas de suicídio entre os 22 e 23 anos de idade duplicaram, a comparar com 2008, e mais 55% tiveram pensamentos suicidas. Os aumentos foram mais pronunciados entre meninas e mulheres jovens. Em 2017, uma em cada cinco meninas de 12 a 17 anos havia sofrido uma depressão grave no ano anterior.

Houve uma mudança social na última década que influenciou a vida dos adolescentes e jovens de hoje mais do que qualquer outra geração: a disseminação de smartphones e tecnologias digitais, como redes sociais, mensagens de texto e jogos.

Embora os mais velhos também usam essas tecnologias, foram adoptadas pelos mais jovens de maneira mais rápida e completa, e o impacto nas suas vidas sociais é mais acentuado. Na realidade, reestruturou drasticamente as suas vidas diárias.

Em comparação com seus antecessores, hoje os adolescentes passam menos tempo com os seus amigos pessoalmente e mais tempo comunicando "electronicamente". Vários estudos descobriram que isso está associado a problemas de saúde mental.

O aumento das questões de saúde mental entre adolescentes e jovens adultos merece atenção, não um desdém como se fosse um "mito". Com mais jovens em sofrimento - incluindo mais tentativas de suicídio e mais suicídios - a crise da saúde mental entre os jovens já não pode ser ignorados.

Jean Twenge (Professor de Psicologia na Universidade Estadual de San Diego) in 'The Conversation'


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sábado, 30 de novembro de 2019

A necessidade do exame de consciência diário


Nunca te deites sem antes examinares a tua consciência sobre o dia que passou. Dirige todos os teus pensamentos a Deus, consagra-Lhe todo o teu ser e também todos os teus irmãos. 

Oferece à glória de Deus o repouso que vai iniciar e não te esqueças do teu Anjo da Guarda que está sempre contigo.

Padre Pio de Pietrelcina


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Santo André, o primeiro Apóstolo chamado por Jesus

Santo André nasceu em Bethsaida de Galilea e morreu em Patras (Grecia), por volta do ano 60 d.C. Ao Apóstolo André cabe o título de "Primeiro chamado". E é comovente que, no Evangelho, tenha sido até anotada a hora (4 da tarde) do seu primeiro encontro e primeiro compromisso com Jesus. Depois, foi André comunicar ao seu irmão Simão (Pedro) a descoberta do Messias e a conduzi-lo rapidamente até Ele. 

A sua presença é ressaltada de modo particular no episódio da multiplicação dos pães.  Sabemos também que foi a André que se dirigiram os gregos que queriam conhecer a Jesus, e ele conduziu-os ao Divino Mestre.  Segundo os antigos escritores cristãos, o Apóstolo André evangelizou a Ásia Menor e as regiões ao longo do Mar Negro, chegando até ao rio Volga, sendo por isso honrado como Padroeiro na Roménia, Ucrânia e Rússia. 

Comovente é a Passio - ainda que tardia - que narra a morte do Apóstolo, que teria ocorrido em Partas, em Acaia: condenado ao suplício da cruz, ele próprio pediu para ser pendurado em uma cruz particular, feita em X (cruz que desde então leva o seu nome) e que evoca, em sua própria forma, a inicial do nome grego de Cristo. 

A 'Legenda Aurea' refere que o Apóstolo Santo André foi ao encontro da sua cruz com esta esplêndida invocação nos lábios: "Salve Cruz, santificada pelo Corpo de Jesus e enriquecida pelas gemas preciosas de Seu Sangue... Venho a ti cheio de segurança e alegria, para que tu recebas o discípulo d'Aquele que sobre ti morreu. Cruz boa, há tempos desejada, que os membros do Senhor revestiram de tanta beleza! Desde sempre te amei e desejei abraçar-te... Acolha-me e leva-me até o meu Mestre". 

Patronato: Pescadores 
Etimologia: André = viril, forte, do grego
Emblema: Cruz decussada (em forma de X), rede de pescador 

Entre os Apóstolos, é o primeiro que encontramos nos Evangelhos: o pescador André, nascido em Bethsaida da Galileia, irmão de Simão Pedro. O Evangelho de João (cap. 1) no-lo mostra com um amigo enquanto segue a pregação do Baptista; o qual, vendo passar Jesus por ele baptizado um dia antes, exclama: "Eis o cordeiro de Deus!" Palavras que imediatamente impelem André e o seu amigo até Jesus: Falam com Ele e André corre, depois, para informar o irmão: "Encontrámos o Messias!" Pouco depois, eis também Simão diante de Jesus; o qual "fixando o olhar sobre ele, disse: 'Tu és Simão, filho de João: chamar-te-ás Cefas'." Esta é a apresentação. Depois vem o chamamento. Os dois irmãos haviam voltado ao seu ofício de pescadores no "mar da Galileia": mas deixam tudo para trás quando chega Jesus e diz: "Segui-me, far-vos-ei pescadores de homens" (Mt. 4, 18-20).

Encontramos, depois, André no grupo restrito - com Pedro, Tiago e João - que, no monte das Oliveiras, "à parte", interroga Jesus sobre os sinais dos últimos tempos: e a resposta é conhecida como o "discurso escatológico" do Senhor, que ensina como devemos nos preparar para a vinda do Filho do Homem, "com grande potência e glória" (Mc 13). O nome de André aparece também no primeiro capítulos dos Actos dos Apóstolos com os dos outros Apóstolos que se dirigiam a Jerusalém depois da Ascensão. 

E depois a Escritura nada mais diz sobre ele, mas dele falam alguns textos apócrifos, ou seja, não canónicos. Um desses, do século II, publicado em 1740 por L. A. Muratori, afirma que André encorajou João a escrever o seu Evangelho. E um texto copto contem esta bênção de Jesus a André: "Tu serás uma coluna de luz no Meu reino, em Jerusalém, a minha cidade predilecta. Amém". 

O historiador Eusébio de Cesarea (ca. 265-340) escreve que André pregou o Evangelho na Ásia Menor e na Rússia meridional. Depois, indo para a Grécia, guiou os cristãos de Patras. E aqui sofre o seu martírio por crucifixão: pendurado com cordas, de cabeça para baixo, em uma cruz em forma de X; aquela dita depois "cruz de Santo André". Isto ocorreu por volta do ano 60 d.C., no dia 30 de novembro.  

Em 357 d.C., os seus restos foram levados para Constantinopla; mas a cabeça, menos um fragmento, continuou em Patras. Em 1206, durante a ocupação de Constantinopla (Quarta Cruzada), o Legado Pontifício Cardeal Capuano, de Amalfi transferiu aquelas relíquias para Itália. E, em 1208, são acolhidas solenemente pelos amalfitanos na cripta de sua Catedral. Quando, em 1460, os Turcos (muçulmanos) invadem a Grécia, a cabeça do Apóstolo é levada de Patras para Roma, onde foi guardada na Basílica de São Pedro, durante cinco séculos.  Isto é até que o Papa Paulo VI, em 1964, tenha devolvido a relíquia à Igreja de Patras. 

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