segunda-feira, 30 de março de 2020

A separação dos escolhidos dos réprobos no Juízo Final

Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum — “Sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos.” (Mat 13, 49)

Sumário. Quando todos os homens estiverem reunidos no vale de Josafá, virão os anjos separar os réprobos dos escolhidos. Estes ficarão à direita e aqueles serão, para sua confusão, impelidos para a esquerda. Oh, que triste separação! Meu irmão, de que lado nos acharemos nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os condenados? Se quisermos estar à direita, deixemos o caminho que conduz à esquerda.

Assim que os homens tiverem ressuscitado, ser-lhes-á intimado que se dirijam todos ao vale de Josafá, para serem julgados. Quando todos estiverem ali reunidos, virão os anjos e separarão os réprobos dos escolhidos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum. Os justos ficarão à direita, e os condenados serão impelidos para a esquerda. — Que mágoa não sentiria quem fosse banido da sociedade ou da Igreja! Mas que dor muito maior não sentirá, quando se vir expulso da companhia dos Santos! Unus assumetur, et alter relinquetur (1) — “Um será tomado, e outro será desprezado”. Diz São Crisóstomo que, se os réprobos não tivessem outra pena a sofrer, esta confusão já seria para eles um suplício infernal.

Actualmente no mundo são julgados felizes os príncipes e os ricos; e são desprezados os santos que vivem na pobreza e humildade. Ó cristãos fiéis, vós que amais a Deus, não vos aflijais porque neste mundo viveis desprezados e em tribulações: Tristitia vestra vertetur in gaudium (2) “A vossa tristeza se há de converter em alegria”. Então se dirá que vós sois os verdadeiros felizes, e tereis a honra de ser proclamados os cortesãos da corte de Jesus Cristo.

Que brilhante figura não fará então um São Pedro de Alcântara, que foi vilipendiado como apóstata! Um São João de Deus, que foi tratado como insensato! Um São Pedro Celestino, que morreu numa prisão depois de ter abdicado o papado! Que honra receberão então tantos mártires, cruciados aqui pelos algozes! Tunc laus erit unicuique a Deo (3) — “Então cada um terá de Deus o louvor”. Que horrível figura, pelo contrário, não fará um Herodes, um Pilatos, um Nero, e tantos outros grandes da terra, agora condenados! — Ó partidários do mundo, espero-vos no vale de Josafá. Aí mudareis sem dúvida de sentimentos; aí deplorareis a vossa loucura. Infelizes! Por uma curta aparição no teatro deste mundo, tendes de fazer depois o papel de condenados na tragédia do juízo final.

Os escolhidos serão colocados à direita, ou antes, segundo o que diz o Apóstolo, para sua maior glória, serão elevados aos ares sobre as nuvens, para irem com os anjos ao encontro de Jesus Cristo, que deve vir do céu: Rapiemur cum illis in nubibus, obviam Christo in aera (4) — “Seremos arrebatados com eles nas nuvens ao encontro de Cristo”. E os condenados, como um rebanho de cabritos destinados ao matadouro, serão impelidos para a esquerda, esperando pelo Juiz, que virá pronunciar publicamente a condenação de todos os seus inimigos. — Meu irmão, de que lado nos acharemos nós nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os réprobos?

Ó meu amado Redentor, ó Cordeiro de Deus, que viestes ao mundo, não para castigar, mas para perdoar os pecados: ah! Perdoai-me sem demora, antes que chegue o dia em que deveis ser meu Juiz. Se eu então viesse a perder-me, à vossa vista, ó doce Cordeiro, que me tendes aturado com tanta paciência, a vossa vista seria o inferno do meu inferno. Ah! Perdoai-me, repito, sem demora. Com o socorro da vossa mão misericordiosa, fazei-me sair do precipício onde me fizeram cair os meus pecados. Arrependo-me, ó soberano Bem, de Vos ter ofendido tantas vezes. Amo-Vos, ó meu Juiz, que tanto me haveis amado.

Suplico-Vos pelos méritos da vossa morte, que me deis uma graça tão eficaz, que me torne de pecador em santo. Prometestes atender a quem Vos roga: Clama ad me et exaudiam te (5) — “Clama por mim e Eu te atenderei”. Não Vos peço bens terrenos; peço-Vos a vossa graça, o vosso amor e nada mais. Atendei-me, ó meu Jesus, pelo amor que me dedicastes morrendo por mim na cruz. Meu amado Juiz, sou um culpado, mas um culpado que Vos ama mais que a si próprio. Tende piedade de mim! — Maria, minha Mãe, vinde depressa em meu auxílio, agora que me podeis ainda socorrer. Não me abandonastes quando vivia esquecendo-me de vós e de Deus. Socorrei-me, já que estou resolvido a servir-vos sempre e a nunca mais ofender a meu Senhor. Ó Maria, vós sois a minha esperança. (II 114) 

Santo Afonso in Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano (Tomo I)

1. Mat 24, 40
2. Jo 16, 20
3. 1Cor 4, 5
4. 1Tes 4, 17
5. Jer 33, 3


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Fiéis de joelhos ao passar o Santíssimo Sacramento levado a casa de um doente por um Sacerdote

Eslováquia. Anos 60.


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domingo, 29 de março de 2020

Imagens e Crucifixos cobertos no Domingo da Paixão?


Por que razão se tapam as imagens a partir do Domingo da Paixão (quinto Domingo da Quaresma)? 

Tradicionalmente, as duas semanas do tempo "da Paixão" começam no quinto Domingo da Quaresma. A primeira semana é a Semana da Paixão e a segunda semana é a Semana Santa.

A leitura tradicional do Evangelho para este Domingo foca-se no ódio crescente das autoridades judaicas contra Cristo. Acusam-nO de ser um samaritano, de fazer feitiços, de blasfémia e de estar possuído por Satanás. Não pensam em Cristo como "um bom mestre". Julgam que é um agente demoníaco.

A antiga leitura do Evangelho no Primeiro Domingo da Paixão (o quinto Domingo da Quaresma) do capítulo oitavo do Evangelho de S. João acaba com estas palavras “Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou". (Jo 8, 59)

De acordo com Santo Agostinho, neste momento quando "Jesus se ocultou", Cristo ficou de facto invisível devido à Sua natureza divina. Santo Agostinho escreve:
"Ele não se esconde a Si mesmo num canto do templo, como se tivesse medo, ou a correr para uma casa, ou desviando-se para trás de uma parede ou coluna: mas pelo Seu Poder Divino, fazendo-se a Si mesmo invisível, passa pelo meio deles."
Para ajudar a exprimir este mistério, as estátuas e imagens Católicas são tapadas com véus roxos desde as Vésperas do fim de tarde antes do Domingo da Paixão. Jesus "esconde-Se a Si mesmo".

As estátuas permanecem cobertas até ao Glória de Sábado Santo. Este é o momento em que acaba o jejum da Quaresma e começa a glória da Páscoa. Este desvelar revela Cristo que se revelou a si mesmo como ressuscitado e vitorioso.

Também é um costume piedoso para os leigos Católicos cobrirem com véus roxos as imagens e estátuas de casa durante a época da Paixão.

A nossa Fé Católica é tão rica! Assegurem-se que ensinam aos vossos filhos e netos estas tradições antigas e bonitas!

Taylor Marshall


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sábado, 28 de março de 2020

A nenhum cristão é permitido odiar seja quem for

A nenhum cristão é permitido odiar seja quem for, porque ninguém é salvo senão graças ao perdão dos pecados. Que o povo de Deus seja, pois, santo e bom: santo, para se afastar daquilo que é proibido, bom para realizar aquilo que é mandado. Grande coisa é ter uma fé reta e uma doutrina santa; é louvável reprimir a gula, ter uma doçura e uma castidade irrepreensíveis; mas estas virtudes nada são sem a caridade

Meus queridos, todos os tempos convêm para se realizar o bem da caridade, mas a quaresma convida-nos especialmente a fazê-lo. Aqueles que desejam acolher a Páscoa do Senhor com santidade de espírito e de corpo devem esforçar-se, antes de mais, por adquirir esse dom que contém a essência das virtudes e que «cobre a multidão dos pecados» (1Ped 4,8). 

Assim pois, agora que nos preparamos para celebrar o mistério que ultrapassa todos os outros, aquele pelo qual o sangue de Cristo apagou as nossas culpas, preparemos antes de mais os sacrifícios da misericórdia. Concedamos àqueles que pecaram contra nós o que a bondade de Deus nos concedeu a nós. Esqueçamos as injustiças, deixemos as culpas sem castigo, e que nenhum daqueles que nos ofenderam receie ser pago da mesma moeda.

Todos sabemos que somos pecadores; ora, a fim de recebermos o perdão pelos nossos pecados, deve alegrar-nos o facto de termos a quem perdoar. Deste modo, quando dissermos, seguindo o ensinamento do Senhor: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido» (Mt 6,11), podemos estar seguros de obter a misericórdia de Deus.

São Leão Magno in 10.ª Homilia para a Quaresma 


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Cumpriu-se o Terceiro Segredo de Fátima?

Depois das imagens do Papa Francisco (quase) sozinho na Praça de São Pedro, enquanto caminhava com alguma dificuldade, logo se multiplicou nas redes sociais a associação do texto do Terceiro Segredo de Fátima (a parte revelada publicamente) ao que tinha acabado de acontecer. 

No entanto, essas publicações apenas transcreveram uma parte do texto. Quando se lê o texto integral percebe-se facilmente que tal associação não faz qualquer sentido nem o Segredo encaixa no que aconteceu na Praça de São Pedro. Diz a Irmã Lúcia:

«Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! 

E vimos n'uma luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca. 

O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus.»

Tuy-3-1-1944


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Aproveitar o resto da Quaresma para fazer um boa Confissão



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sexta-feira, 27 de março de 2020

O que é uma Bênção Urbi et Orbi?


Dada a situação actual, com a epidemia do coronavírus, o Papa Francisco resolveu dar uma bênção Urbi et Orbi extraordinária hoje na Praça de São Pedro às 17h00 (hora de Portugal Continental).

Urbi et Orbi

Urbi et Orbi” significa “à cidade (de Roma) e ao Mundo”. Esta é uma bênção dada pelo Papa, normalmente na varanda central da Basílica de São Pedro, nos dias de maior alegria na vida da Igreja: Natal, Páscoa e sempre que é eleito um novo Papa.

Indulgência Plenária 

A bênção Urbi et Orbi concede a quem a recebe, seja presencialmente seja através dos meios de comunicação social, a indulgência plenária. A indulgência plenária não perdoa os pecados mortais, isso apenas pode ser feito através da confissão ou quando muito através do arrependimento profundo do pecado e desejo de confessar-se assim que possível, mas apaga o pagamento que temos de fazer de algumas, ou todas, as penas temporais.

As penas temporais são dívidas que nós contraímos quando pecamos, e com isso impomos uma desordem no mundo, e que devem ser pagas através de oração e penitência. As indulgências compensam esses actos, e apagam essas penas. A compensação será tanto maior quanto a maior contrição (horror ao pecado até ao pecado venial como ofensa a Deus) que a pessoa tiver no momento em que recebe a indulgência.

O que fazer para receber a Indulgência

Segundo o Decreto da Penitenciária Apostólica, além de assistir à bênção do Papa, para obter a Indulgência plenária: os doentes de coronavírus, os que estão em quarentena, os profissionais de saúde e familiares que se expõem ao risco de contágio para ajudar quem foi afectado pelo Covid-19 poderão simplesmente recitar o Credo, o Pai-Nosso e uma oração a Maria.

Os outros poderão escolher entre várias opções: visitar o Santíssimo Sacramento ou a adoração eucarística ou ler as Sagradas Escrituras por pelo menos meia hora, ou rezar o Terço, a Via-Sacra ou o Terço da Divina Misericórdia, pedindo Deus a cessação da epidemia, o alívio para os doentes e a salvação eterna daqueles a quem o Senhor chamou a si.

A indulgência plenária também pode ser obtida pelos fiéis que, no momento de morte, não tiveram a possibilidade de receber o Sacramento da Unção dos Enfermos e do Viático: neste caso, recomenda-se o uso do crucifixo ou da cruz.

O Rito da Bênção

O rito será feito em latim, língua oficial da Igreja. A tradução para português é esta:

Que os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, dos quais no poder e julgamento confiamos, intercedam por nós junto do Senhor.
R.: Amém.

Que por meio das orações e dos méritos da Santíssima Virgem Maria, de São Miguel Arcanjo, de São João Baptista, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, o Deus omnipotente mostre compaixão de vós, e quando perdoados todos os vossos pecados, Jesus Cristo vos conduza à vida eterna.
R.: Amém.

Que o Senhor Todo Poderoso e misericordioso vos conceda indulgência, absolvição, e remissão de todos os vossos pecados, espaço para um verdadeiro e frutuoso arrependimento, mesmo o coração arrependendo-se sempre, e a bênção da vida, a graça, a consolação do Espírito Santo e perseverança final nas boas obras.
R.: Amém.

E que a bênção de Deus Todo Poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre.
R.: Amém.


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quinta-feira, 26 de março de 2020

D. Athanasius Schneider sobre o coronavírus e a proibição da Missa



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Acto de contrição e Comunhão Espiritual: armas essenciais neste tempo

Estando a maioria dos católicos privados de assistir à Santa Missa, e muitos também de se confessarem, a Igreja provém meios que podem ajudar a mitigar essa ausência. 

Um deles é o Acto de Contrição, dito com a maior devoção e punção possível, de modo a mostrar a Nosso Senhor a dor pelos pecados cometidos e a vontade de não voltar a pecar. Rezar este acto de contrição não substituiu a confissão, implica a vontade de se confessar a um sacerdote assim que possível.

Acto de Contrição

Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu: por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, dói-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos Ter ofendido; magoa-me e horroriza-me, também de Ter perdido o Céu e merecido as dores e sofrimento do Inferno; detesto todos os meus pecados e proponho firmemente, ajudado com o auxílio de Vossa divina graça, confessar os meus pecados, fazer penitência, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita Misericórdia. Ámen.


O outro é a Comunhão Espiritual, com a qual o fiel mostra a Nosso Senhor a vontade que tem em recebê-Lo sacramentalmente assim que possível e enquanto isso quer recebê-Lo já espiritualmente. 

Oração para a Comunhão Espiritual

Ó meu Jesus, acredito firmemente que estais presente no Santíssimo Sacramento. Eu vos amo sobre todas as coisas. E desejo receber-vos na minha alma. Uma vez que não posso agora receber-Vos sacramentalmente, vinde, ao menos espiritualmente, ao meu coração. Eu acolho-Vos como se já lá estivesses e uno-me inteiramente a Vós. Não permitais Senhor que me separe de Vós. Ámen.


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quarta-feira, 25 de março de 2020

O que é o 'Angelus' e como rezar?

Angelus (1857-1859) de Jean-François Millet, Musée d’Orsay

Angelus é uma oração em honra da Encarnação de Deus, no dia da Anunciação. Tradicionalmente é rezada três vezes durante o dia: de manhã, ao meio dia e ao entardecer. A oração é constituída de três textos que descrevem o mistério da Encarnação, respondidos com uma Avé Maria e uma oração final. A invocação "Angelus Domini nuntiavit Mariæ", foi retirada do Hino a Nossa Senhora: "Alma Redemptoris".

Não se sabe ao certo a origem do Angelus, mas no séc. XIV já era comum em toda a Europa rezar, ao anoitecer, em louvor da Virgem Maria. Nessa época, os versículos não eram os actuais. Eram assim (só encontrei em latim e inglês):

Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum (Hail Mary, full of grace, the Lord is with thee)
Dulcis instar mellis campana vocor Gabrielis (I am sweet as honey, and am called Gabriel's bell)
Ecce Gabrielis sonat hæc campana fidelis (Behold this bell of faithful Gabriel sounds)
Missi de coelis nomen habeo Gabrielis (I bear the name of Gabriel sent from heaven)
Missus vero pie Gabriel fert læta Mariæ (Gabriel the messenger bears joyous tidings to holy Mary)
O Rex Gloriæ Veni Cum Pace (O King of Glory, Come with Peace)

O som dos sinos associado ao Angelus vem de São Boaventura, que determinou à Ordem dos Frades Menores, em 1269, que se tocassem os sinos no lusco-fusco, enquanto se rezava a Avé Maria. 

A prática de rezar também ao meio-dia, por sua vez, é posterior (séc. XV) e foi estimulada por Louis XI (1475), como uma oração pela paz, na medida em que a cristandade se encontrava ameaçada pelo domínio dos turcos. 

Em 1318, o Papa João XXII oficializou o Angelus ao conceder indulgências para quem a praticasse. Em 1724, o Papa Bento XIII, determinou cem dias de indulgência para cada oração do Angelus, com uma plenária uma vez por mês. Era necessário que o Angelus fosse dito de joelhos, (excepto aos Domingos e aos Sábados, quando se devia permanecer de pé) ao som do sino. Essas circunstâncias foram modificadas pelo Papa Leão XIII em 1884. 

Actualmente, é necessário apenas que a oração seja feita nas horas apropriadas, de manhã, ao meio-dia e à noite. A indulgência é concedida mesmo para aqueles que não sabem recitá-la, bastando para isso que digam 5 Avé-Marias em seu lugar.

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria
R. E Ela concebeu pelo Espírito Santo
Avé Maria...

V. Eis a escrava do Senhor.
R. Faça-se em mim, segundo a Vossa palavra.
Avé Maria...

V. E o Verbo Divino encarnou.
R. E habitou entre nós.
Avé Maria...

V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo

Oremos:
Infundi, Senhor, a vossa graça, em nossas almas, para que nós, que, pela anunciação do Anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela Sua paixão e morte na cruz, sejamos conduzidos à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo Senhor nosso. Ámen.


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Anunciação do Anjo a Maria segundo São Bernardo de Claraval

Hoje é o dia em que o Anjo Gabriel anunciou a Maria que seria Mãe de Jesus Cristo, Deus feito homem, e Nossa Senhora disse sim a esta incomparável missão de ser a Mãe de Deus:

Ouviste, ó Virgem, a voz do Anjo: Conceberás e darás à luz um filho. Ouviste-o dizer que não será por obra de varão, mas por obra do Espírito Santo. O Anjo aguarda a resposta: é tempo de ele voltar para Deus que o enviou. Também nós, miseravelmente oprimidos por uma sentença de condenação, também nós, Senhora, esperamos a tua palavra de misericórdia.

Em tuas mãos está o preço da nossa salvação. Se consentes, seremos imediatamente libertados. Todos fomos criados pelo Verbo eterno de Deus, mas agora vemo-nos condenados à morte: a tua breve resposta pode renovar-nos e restituir-nos à vida.

Isto te suplica, ó piedosa Virgem, o pobre Adão, desterrado do paraíso com toda a sua mísera posteridade; isto te suplicam Abraão e David. Imploram-te todos os santos Patriarcas, teus antepassados, também eles retidos na região das sombras da morte. Todo o mundo, prostrado a teus pés, espera a tua resposta: da tua palavra depende a consolação dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua linhagem.

Dá, depressa, ó Virgem, a tua resposta. Responde sem demora ao Anjo, ou, para melhor dizer, ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra. Profere a tua palavra humana e concebe a divina. Diz uma palavra transitória e acolhe a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que receias? Crê, consente e recebe. Encha-se de coragem a tua humildade e de confiança a tua modéstia. Não convém de modo algum, neste momento, que a tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Virgem prudente, não temas neste caso a presunção, porque, embora seja louvável aliar a modéstia ao silêncio, mais necessário é, agora aliar a piedade à palavra.

Abre, ó Virgem santa, o coração à fé, os lábios ao consentimento, as entranhas ao Criador. Eis que o desejado de todas as nações está à tua porta e chama. Se te demoras e Ele passa adiante, terás então de recomeçar dolorosamente a procurar o amado da tua alma. Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela devoção, abre pelo consentimento.

Maria disse então: «Eis a serva do Senhor, disse a Virgem, faça-se em mim segundo a tua palavra».

in Homilia 4 sobre o «Missus est», §§ 8-9


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terça-feira, 24 de março de 2020

Mensagem do Cardeal Burke sobre o combate contra o Coronavírus

Caros amigos,         

Há já algum tempo que estamos a lutar contra a propagação do Coronavírus (COVID-19). Pelo que entendemos – e uma das dificuldades da luta é que grande parte da pestilência é pouco clara –, a batalha ainda continuará por mais algum tempo. O vírus em questão é particularmente insidioso porque tem um período de incubação relativamente longo – alguns dizem quatorze dias, outros vinte dias – e é altamente contagioso, muito mais contagioso do que outros vírus que já experimentámos.            

Um dos principais meios naturais de nos defendermos do Coronavírus é evitando qualquer contacto próximo com outras pessoas. É importante, de facto, manter sempre uma distância – alguns dizem um metro, outros um metro e meio – dos outros e, naturalmente, evitar encontros de grupo, isto é, os encontros nos quais um certo número de pessoas se encontram muito próximas umas das outras. 

Além disso, como o vírus é transmitido por pequenas gotículas emitidas quando se espirra ou se assoa o nariz, é fundamental lavar as mãos frequentemente com sabão desinfectante e água quente durante, pelo menos, vinte segundos e usar toalhetes. É igualmente importante desinfectar mesas, cadeiras, superfícies de trabalho, etc., nas quais essas gotas possam ter caído e através das quais possam transmitir a infecção por um certo tempo. Se espirrarmos ou assoarmos o nariz, é-nos aconselhado que usemos um lenço de papel, colocando-o imediatamente no lixo, e que depois lavemos as mãos. Naturalmente, aqueles que são diagnosticados com o Coronavírus devem ser colocados em quarentena e aqueles que não se sentem bem, mesmo que não tenham sido diagnosticados com Coronavírus, devem, por caridade para com os outros, permanecer em casa até se sentirem melhores.     

Vivendo em Itália, onde a disseminação do Coronavírus tem sido particularmente letal, especialmente para os idosos e para aqueles que já se encontram num delicado estado de saúde, sinto-me edificado pelo grande cuidado que os italianos estão a ter para se proteger e para proteger os outros do contágio. Como já devem ter lido, o sistema de saúde italiano é posto duramente à prova na tentativa de fornecer aos mais vulneráveis os necessários internamentos e os cuidados intensivos.

Rezem pelo povo italiano e, sobretudo, por aqueles para quem o Coronavírus pode ser fatal e por aqueles a quem foi confiado o tratamento. Como cidadão dos Estados Unidos, acompanhei a situação da propagação do Coronavírus na minha pátria e sei que aqueles que vivem nos Estados Unidos se preocupam cada vez mais em parar a sua propagação para impedir que uma situação como a italiana se repita no país.  

A situação expõe-nos certamente a uma profunda tristeza e também ao medo. Ninguém quer contrair a doença ligada ao vírus ou fazer com que alguém a contraia. Não queremos, sobretudo, que os nossos queridos idosos ou outras pessoas que sofrem de problemas de saúde sejam postas em perigo de vida por causa da propagação do vírus. Ao combatermos a propagação do vírus, encontrámo-nos todos numa espécie de retiro espiritual forçado, confinados à acomodação e incapazes de mostrar os usuais sinais de afecto à família e aos amigos. Para os que estão em quarentena, o isolamento é claramente ainda mais grave, não podendo ter contacto com ninguém, nem mesmo à distância.

Se a doença associada ao vírus já não fosse suficiente para nos preocupar, não podemos ignorar a devastação económica que a propagação do vírus causou com os seus graves efeitos nos indivíduos e nas famílias e naqueles que nos são úteis de muitas maneiras na nossa vida quotidiana. Naturalmente, o nosso pensamento não pode deixar de incluir a possibilidade de uma devastação ainda maior da população da nossa pátria e do mundo.

Certamente, temos razão em conhecer e usar todos os meios naturais para nos defendermos do contágio. É um acto de caridade fundamental usar todos os meios prudentes para evitar contrair ou espalhar o Coronavírus. Os meios naturais para prevenir a propagação do vírus devem, no entanto, respeitar o que precisamos para viver, por exemplo o acesso aos alimentos, à água e aos medicamentos. O Estado, por exemplo, ao impor restrições cada vez maiores à circulação de pessoas, permite que as pessoas possam ir ao supermercado e à farmácia cumprindo as precauções de distância social e do uso de desinfectantes por todos os envolvidos.         

Ao considerar o que é necessário para viver, não devemos esquecer que a nossa primeira consideração é o nosso relacionamento com Deus. Recordemos as palavras de Nosso Senhor no Evangelho segundo João: “Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada” (14, 23). Cristo é o Senhor da natureza e da história. Ele não está distante e desinteressado em nós e no mundo. Ele prometeu-nos: “E sabei que Eu estarei convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Na luta contra o mal do Coronavírus, a nossa arma mais eficaz é, portanto, a nossa relação com Cristo através da oração e da penitência, das devoções e do culto sagrado. Dirigimo-nos a Cristo para nos libertar da pestilência e de todo o mal e Ele nunca deixa de responder com amor puro e desinteressado. Eis por que é essencial para nós, em todos os momentos e especialmente em tempos de crise, ter acesso às nossas igrejas e capelas, aos sacramentos, às devoções e às orações públicas.    

Tal como somos capazes de comprar alimentos e medicamentos, tomando cuidado para não espalhar o Coronavírus, também devemos poder rezar nas nossas igrejas e capelas, receber os sacramentos e participar em actos de oração e devoção pública, para que conheçamos a proximidade de Deus para connosco e permaneçamos próximos d’Ele invocando oportunamente a Sua ajuda. Sem a ajuda de Deus estamos verdadeiramente perdidos. Historicamente, em tempos de peste os fiéis reuniam-se em fervorosa oração e participavam em procissões.

De facto, no Missal Romano promulgado, em 1962, pelo Papa São João XXIII, há textos especiais para a Santa Missa a ser oferecida em tempos de pestilência, a Missa Votiva para a libertação da morte em tempos de pestilência (Missae Votivae ad Diversa, n. 23). Do mesmo modo, na tradicional Ladainha dos Santos reza-se: “Da peste, da fome e da guerra, livrai-nos, Senhor”.             

Muitas vezes, quando nos encontramos em grande sofrimento e até mesmo defronte à morte, perguntamo-nos: “Onde está Deus?”. Mas a verdadeira questão é: “Onde estamos?”. Por outras palavras, Deus está certamente connosco para nos ajudar e salvar, especialmente no momento de uma grave prova ou da morte, mas muitas vezes estamos muito longe d’Ele porque não reconhecemos a nossa total dependência d’Ele e, portanto, não Lhe rezamos todos os dias e não Lhe oferecemos a nossa adoração. 

Nestes dias, ouvi de muitos católicos devotos que estão profundamente tristes e desencorajados por não poderem rezar e adorar nas suas igrejas e capelas. Compreendem a necessidade de observar a distância social e de seguir as outras precauções, e seguirão essas práticas prudentes, que podem ser praticadas facilmente nos seus locais de culto. Mas, muitas vezes, devem aceitar o profundo sofrimento de ter as suas igrejas e capelas fechadas e de não terem acesso à Confissão e à Santíssima Eucaristia.   

Do mesmo modo, uma pessoa de fé não pode considerar a actual calamidade em que nos encontramos sem considerar também quão distante a nossa cultura popular está de Deus. Não só é indiferente à Sua presença entre nós, mas também se rebela abertamente contra Ele e contra a boa ordem com que nos criou e nos sustenta no ser. Basta pensar nos banais e violentos ataques à vida humana, masculina e feminina, que Deus criou à Sua imagem e semelhança (Gn 1, 27), aos ataques aos nascituros inocentes e indefesos e àqueles que estão aos nossos cuidados, aos que são fortemente oprimidos por doenças graves, idade avançada ou necessidades especiais. Somos testemunhas quotidianas da propagação da violência numa cultura que não respeita a vida humana.     

Do mesmo modo, basta pensar no ataque generalizado à integridade da sexualidade humana, à nossa identidade de homem ou mulher, com o pretexto de definir para nós mesmos, frequentemente com meios violentos, uma identidade sexual diferente da que nos foi dada por Deus. Assistimos, com cada vez maior preocupação, ao efeito devastador sobre os indivíduos e sobre as famílias da chamada “ideologia de género”.      

Também somos testemunhas, mesmo dentro da Igreja, de um paganismo que adora a natureza e a terra. Há quem, dentro da Igreja, se refira à terra como a nossa mãe, como se viéssemos da terra e a terra fosse a nossa salvação. Mas nós vimos da mão de Deus, Criador do céu e da terra. Somente em Deus encontramos a salvação. Rezemos com as palavras divinas do Salmista: “Só em Deus repousa a minha alma, d’Ele vem a minha salvação. Só Ele é o meu rochedo e a minha salvação, a minha fortaleza: jamais vacilarei” (Sl 62 [61]). Vemos como a própria vida de fé se tornou cada vez mais secularizada e, portanto, comprometeu o Senhorio de Cristo, Deus Filho Encarnado, Rei do céu e da terra.

Somos testemunhas de muitos outros males que derivam da idolatria, da adoração de nós mesmos e do mundo, em vez de adorarmos a Deus, a fonte de cada ser. Vemos tristemente em nós mesmos a verdade das palavras inspiradas de São Paulo relativas à “impiedade e injustiça dos homens que retêm a verdade” e “que trocaram a verdade de Deus pela mentira e que veneraram a criatura e lhe prestaram culto de preferência ao Criador, o Qual é bendito por todos os séculos” (Rom 1, 18.25).     

Muitos com os quais estou em contacto, reflectindo sobre a actual crise sanitária mundial com todos os seus efeitos, expressaram-me a esperança de que ela nos leve – como indivíduos e famílias e como sociedade – a reformar a nossa vida, a voltarmo-nos para Deus que está seguramente próximo de nós e que é incomensurável e incessante na Sua misericórdia e no Seu amor por nós. Não há dúvida de que os grandes males, como a peste, são um efeito do pecado original e dos nossos pecados reais. Deus, na Sua justiça, deve reparar a desordem que o pecado introduz na nossa vida e no nosso mundo. De facto, Ele satisfaz as exigências da justiça com a Sua misericórdia superabundante.   
          
Deus não nos deixou no caos e na morte que o pecado trouxe ao mundo, mas enviou o Seu Filho unigênito, Jesus Cristo, para sofrer, morrer, ressuscitar dos mortos e ascender na glória à Sua direita, para permanecer sempre connosco purificando-nos do pecado e inflamando-nos com o Seu amor. Na Sua justiça, Deus reconhece os nossos pecados e a necessidade da sua reparação, enquanto que na Sua misericórdia nos dá a graça de nos arrependermos e de repararmos. O profeta Jeremias rezou: “Senhor, conhecemos a nossa malícia e a iniquidade dos nossos pais. Pecámos realmente contra Vós. Mas, por amor do Vosso nome, não nos abandoneis nem desonreis o trono da Vossa glória. Lembrai-Vos e não anuleis a aliança que connosco firmastes” (Jer 14, 20-21).               

Deus nunca nos vira as costas; jamais anulará a Sua aliança de amor fiel e duradouro connosco, mesmo que sejamos indiferentes, frios e infiéis. Enquanto o sofrimento actual descobre tanta indiferença, frieza e infidelidade da nossa parte, somos chamados a dirigir-nos a Deus e a implorar a Sua misericórdia. Estamos confiantes que Ele nos ouvirá e nos abençoará com os Seus dons de misericórdia, perdão e paz. Unamos os nossos sofrimentos à Paixão e à Morte de Cristo e, como diz São Paulo, “alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo Seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1, 24).

Vivendo em Cristo conhecemos a verdade da nossa oração bíblica: “Pelo Senhor é que o justo se salva, o seu refúgio na hora da angústia” (Sl 37 [36], 39). Em Cristo, Deus revelou-nos plenamente a verdade expressa na oração do salmista: “Amor e Fidelidade se encontrarão. Justiça e Paz se beijarão” (Sl 85 [84], 11).          

Na nossa cultura totalmente secularizada há a tendência de ver a oração, a devoção e o culto como qualquer outra actividade, como por exemplo ir ao cinema ou a um jogo de futebol, que não é essencial e, portanto, pode ser cancelada ao se tomar precauções para conter a propagação de uma infecção mortal. Mas a oração, a devoção e o culto, sobretudo a Confissão e a Santa Missa, são essenciais para permanecermos saudáveis e espiritualmente fortes e para procurar a ajuda de Deus num tempo de grande perigo para todos.

Não podemos, portanto, aceitar simplesmente as decisões dos governos laicos que tratam o culto a Deus como se fôssemos a um restaurante ou a uma competição de atletismo. Caso contrário, as pessoas que já sofrem tanto com as consequências da peste são privadas daqueles encontros objectivos com Deus que está entre nós para restaurar a saúde e a paz.       

Nós, bispos e padres, devemos explicar publicamente a necessidade dos católicos de rezarem e de praticarem o culto nas suas igrejas e capelas e de andarem em procissão pelas estradas e ruas pedindo a bênção de Deus para o Seu povo que sofre tão intensamente. Devemos insistir para que as regras do Estado, também para o bem do Estado, reconheçam a importância distinta dos locais de culto, especialmente em tempos de crise nacional e internacional. No passado, de facto, os governos compreendiam, acima de tudo, a importância da fé, da oração e do culto das pessoas para superar uma peste.         

Como encontrámos o modo de prover os alimentos, os medicamentos e as outras necessidades da vida num período de contágio, sem arriscar irresponsavelmente a propagação do próprio contágio, de maneira semelhante podemos encontrar a maneira de prover as necessidades da nossa vida espiritual. Podemos providenciar mais ocasiões para a Santa Missa e para as devoções nas quais possa participar um certo número de fiéis sem violar as precauções necessárias contra a propagação da infecção. Muitas das nossas igrejas e capelas são muito grandes e permitem que um grupo de fiéis se reúna para a oração e o culto sem violar os requisitos da “distância social”.

O confessionário com a tela tradicional é geralmente dotado ou, caso contrário, pode ser facilmente dotado de um subtil véu que pode ser tratado com desinfectante para que o acesso ao sacramento da confissão seja possível sem grandes dificuldades e sem perigo de transmissão do vírus. Se uma igreja ou capela não tem pessoal suficiente para desinfectar regularmente os bancos e as outras superfícies, não tenho dúvida de que os fiéis, como sinal de gratidão pelos dons da Santa Eucaristia, da Confissão e da devoção pública, terão gosto em ajudar.         

Mesmo que, por qualquer motivo, não possamos ter acesso às nossas igrejas e capelas, devemos recordar que as nossas casas são uma extensão da nossa paróquia, uma pequena Igreja para a qual trazemos Cristo do nosso encontro com Ele na Igreja maior. Neste momento de crise, deixemos que nosso lar reflicta a verdade de que Cristo é hóspede de cada casa cristã. Voltemo-nos para Ele através da oração, especialmente o Rosário, e de outras devoções. Se a imagem do Sagrado Coração de Jesus, juntamente com a imagem do Imaculado Coração de Maria, ainda não estiver entronizada na nossa casa, este é o momento de fazê-lo.

O lugar da imagem do Sagrado Coração é para nós um pequeno altar em casa onde nos reunimos conscientes da morada de Cristo em nós através da efusão do Espírito Santo nos nossos corações e colocamos os nossos corações, muitas vezes pobres e pecaminosos, no Seu glorioso Coração trespassado, sempre aberto para nos acolher, curar dos nossos pecados e encher de amor divino. Se desejarem entronizar a imagem do Sagrado Coração de Jesus, recomendo o manual A Entronização do Sagrado Coração de Jesus, disponível através do Apostolado Catequista Mariano. Também está disponível em polaco e eslovaco.     

Para aqueles que não podem aceder a Santa Missa e à Sagrada Comunhão, recomendo a prática devota da Comunhão espiritual. Quando estamos correctamente dispostos a receber a Sagrada Comunhão, isto é, quando estamos em estado de graça, desconhecendo um pecado mortal que tenhamos cometido e pelo qual ainda não fomos perdoados no sacramento da Penitência, e desejamos receber Nosso Senhor na Sagrada Comunhão, mas não podemos fazê-lo, unimo-nos espiritualmente ao Santo Sacrifício da Missa, rezando a Nosso Senhor Eucarístico com as palavras de Santo Afonso de Ligório: “Já que, neste momento, não Vos posso receber sacramentalmente, chegai, pelo menos, espiritualmente ao meu coração”. A Comunhão espiritual é uma bela expressão de amor por Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Não deixará de nos trazer abundante graça.                      

Ao mesmo tempo, quando temos consciência de que cometemos um pecado mortal e não podemos aceder ao sacramento da Penitência ou da Confissão, a Igreja convida-nos a fazer um acto de perfeita contrição – isto é, de dor pelo pecado – que “nasce de um amor pelo qual Deus é amado acima de tudo”. Um acto de perfeita contrição “obtém igualmente o perdão dos pecados veniais se incluir o propósito firme de recorrer, logo que possível, à confissão sacramental” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1452). Um acto de perfeita contrição dispõe a nossa alma para a comunhão espiritual.

Afinal, fé e razão, como sempre, trabalham juntas para fornecer a correcta solução para um desafio difícil. Devemos usar a razão, inspirada pela fé, para encontrar a maneira correcta de lidar com uma pandemia mortal. Deste modo, devemos dar prioridade à oração, à devoção e ao culto, à invocação da misericórdia de Deus sobre o Seu povo que sofre muito e está em perigo de morte. Feitos à imagem e semelhança de Deus, desfrutamos dos dons do intelecto e do livre arbítrio. Usando estes dons de Deus, unidos aos dons de Fé, Esperança e Caridade, encontraremos o nosso caminho no actual tempo da provação mundial que é causa de tanta tristeza e medo.    

Podemos contar com a ajuda e a intercessão do grande grupo dos nossos amigos celestiais, aos quais estamos intimamente unidos na Comunhão dos Santos. A Virgem Mãe de Deus, os santos Arcanjos e Anjos Custódios, São José, verdadeiro esposo da Virgem Maria e Patrono da Igreja Universal, São Roque, que invocamos em tempos de epidemia, e os outros santos e beatos a quem recorremos regularmente na oração estão ao nosso lado. Eles guiam-nos e asseguram-nos constantemente que Deus nunca deixará de ouvir a nossa oração: Ele responderá com a Sua incomensurável e incessante misericórdia e amor.           

Caros amigos, ofereço-vos estas breves reflexões, profundamente consciente de como estão a sofrer por causa do Coronavírus pandémico. Espero que vos ajudem. Acima de tudo, espero que vos inspirem a dirigir-vos a Deus na oração e na adoração, cada um de acordo com as suas possibilidades, e a experimentar, assim, a Sua cura e a Sua paz. Com estas reflexões, chegue até vós a certeza da minha lembrança diária das vossas intenções na minha oração e na minha penitência, especialmente na oferta do Santo Sacrifício da Missa.                           

Peço que se lembrem de mim nas vossas orações diárias.          

Vosso, no Sagrado Coração de Jesus e no Imaculado Coração de Maria e no Coração Puro de São José, 
Raymond Leo Cardeal Burke
21 de Março de 2020
Festa de São Bento, Abade

Tradução para português: diesiraept.blogspot.com


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Festa de São Gabriel Arcanjo

O grande Mensageiro da Encarnação do Verbo Divino foi quem designou ao Profeta Daniel o tempo, a Zacarias o nascimento, e a Maria Santíssima a sua escolha para Mãe do Redentor do mundo. Eis por que na véspera da Anunciação celebramos a festa deste Arcanjo.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, o Arcanjo Gabriel não era honrado com um culto especial. No século IX aparece o seu nome na lista dos santos, unido à festa da Anunciação, mais precisamente, na véspera desta, 24 de Março. A sua festa, por particular concessão da Santa Sé, era celebrada nos Reinos da Espanha antes que esta celebração fosse estendida a toda a Igreja, por Bento XV, em princípios do séc.XX. 

São Gabriel pode ser considerado como o Anjo da Redenção, pois aparece a cada instante para preparar o caminho da vinda do Redentor. Assim, foi ele que anunciou a Daniel o tempo que faltava para a vinda do Messias e a Sua morte na Cruz (Dan 9, 24-26). Depois, anunciou a São Zacarias o nascimento daquele que seria o Precursor do Salvador, como foi dito. Recebeu a insigne missão de participar a Maria Santíssima ter sido Ela escolhida para Mãe do Verbo de Deus encarnado, anunciando-Lhe o mistério da Encarnação. 

Segundo muitos, foi ele que apareceu aos pastores comunicando-lhes o nascimento do Salvador, e em sonhos a São José recomendando-lhe que fugisse para proteger o Menino do ódio de Herodes. Segundo outros, foi ele também que confortou a humanidade santíssima de Cristo na Sua agonia. 

Anjo da Encarnação e da Consolação, na tradição cristã, Gabriel é sempre o Anjo da clemência enquanto Miguel é antes o Anjo do julgamento. Ao mesmo tempo, na Bíblia, Gabriel é, de acordo com o seu nome, o Anjo do Poder de Deus, e é de se notar a frequência com que palavras como grande, poderoso, e forte, aparecem nas passagens a ele referidas...

Plinio Maria Solimeo in 'O Livro dos Três Arcanjos'

Oração a São Gabriel Arcanjo

Vós, Anjo da encarnação, mensageiro fiel de Deus, abri os nossos ouvidos para que possam captar até as mais suaves sugestões e apelos de graça emanados do coração amabilíssimo de Nosso Senhor. Nós vos pedimos que fiqueis sempre junto de nós para que, compreendendo bem a Palavra de Deus e as Suas inspirações, saibamos obedecer-lhe, cumprindo docilmente aquilo que Deus quer de nós. Fazei que estejamos sempre disponíveis e vigilantes. Que o Senhor, quando vier, não nos encontre dormindo! Amém.


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Sacerdote italiano morre ao ceder o ventilador a outra pessoa

Um sacerdote de 72 anos, com corona vírus, faleceu há alguns dias na Itália, depois de desistir do ventilador, que precisava para sobreviver, e permitiu que dado a um paciente mais jovem.

Trata-se do Padre Giuseppe Berardelli, de Casnigo, na diocese italiana de Bergamo, a mais atingida pelo COVID-19. O ventilador do qual desistiu havia sido comprado pela comunidade paroquial a que servia.

"Don Giuseppe morreu como padre. E estou profundamente comovido com o facto de ele, Arcipreste de Casnigo, ter renunciado e permitido que o seu ventilador fosse usado para salvar alguém mais novo”, disse trabalhador do lar San Giuseppe, ao jornal 'Araberara'.

O Padre Berardelli faleceu no hospital Lovere.

in aciprensa.com


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segunda-feira, 23 de março de 2020

Viver e morrer pela Missa

Uma meditação sobre a Pandemia

No Ocidente, a Igreja tem sido razoavelmente imune à interferência governamental na prática da Fé. Existem impostos sobre os salários, regulamentos laborais e outros processos do género. Ocasionalmente, há um desafio ao selo sacrossanto da Confissão: litígios que geralmente são resolvidos antes de chegar aos tribunais.

Mas a pandemia actual colocou as autoridades do governo contra as autoridades da Igreja em matéria de celebração da missa, com alguns bispos a renderem-se à pressão do governo. Resultado: Muitos líderes da Igreja acordaram em suspender a celebração pública da Missa.

Às vezes, cancelar a Missa faz sentido: uma ameaça de bomba, um cenário de crime, preocupações com a segurança, equívocos, etc. Os cancelamentos são anomalias, geralmente com a intenção de retomar após um intervalo razoável. Mas a suspensão voluntária de missas públicas por dioceses inteiras é um fenómeno inusitado numa situação que não seja de zonas de guerra nem de estados totalitários.

A pandemia actual é um enigma para os líderes católicos. Como é que poderíamos celebrar a missa em público e evitar o contágio? Obviamente, há uma diferença significativa entre uma resposta razoáveis ​​a ameaças à saúde e reacções histéricas. Os julgamentos prudenciais são subjectivos, e é difícil identificar uma linha clara de distinção. Mas os açambarcadores que esvaziaram as prateleiras dos supermercados de papel higiénico e desinfectantes para as mãos claramente cruzaram essa linha. O egoísmo aumentou o risco de doenças porque a escassez de desinfectantes afecta todos os locais públicos, inclusive as igrejas.

O pânico - alimentado por alguns políticos e por boa parte da media - resultou na emergência desnecessária, a roubos de medicamentos e de farmacêuticos. O frenesim alcançou o que os nazistas e comunistas - e 2000 anos de bispos e padres corruptos (parafraseando uma piada de um assessor de Napoleão) - não foram capazes de realizar: a supressão do culto público da Igreja. Por quanto tempo e a que custo espiritual?

Os líderes da igreja vêem-se apanhados no fogo cruzado da opinião pública. É conveniente satisfazer as autoridades do governo fechando as igrejas e alienando muitos dos fiéis. É mais desafiador manter as igrejas abertas - mesmo com as devidas precauções de saúde nas práticas litúrgicas - do que arriscar acusações de negligência em cuidados de saúde.

Muitas das medidas de saúde definidas são prudentes. Felizmente, os bispos suspenderam a troca do aperto de mão do Sinal de Paz (espera-se que para sempre). Nunca saberemos quantos vírus são trocados com cada aperto de mão não lavado. Sempre foi costume que católicos em risco devido à idade ou à saúde fossem dispensados da missa dominical. E agora há ainda mais tolerância quanto a isso. Talvez estejamos no momento ideal de redescobrir as práticas sanitárias que as mães costumavam ensinar aos filhos. Mas em muitas partes do país, essas práticas razoáveis não satisfazem as autoridades civis.

A raiz subjacente da histeria é o ateísmo, ou a falta de fé do ateísmo implícito enraizada nos confortos do consumismo. Segundo o credo ateu, o maior mal da vida é o sofrimento ou uma vida interrompida por causa de uma doença catastrófica. Para um ateu crente, o sofrimento pode ser pior que a morte. (O que em si explica o surgimento de legislação que aprova o suicídio assistido em vários países.) Mas uma “morte prematura” também aterroriza. O credo ateu é fácil de entender, simples de viver quando as coisas são boas, mas termina sempre em desespero. O sofrimento humano é um mal insuperável.

Os cristãos acreditam que Deus não é o autor do sofrimento e da morte. "... Deus não fez a morte, nem se alegra com a destruição dos vivos." (Sabedoria 1, 13). A morte é o resultado da inveja do diabo (Sabedoria 2, 24) e do pecado, original e pessoal (cf. Gen 3).

Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, veio ao mundo para nos resgatar dos nossos pecados. Ele enfrentou o mal em obediência ao Pai e suportou a Sua terrível Paixão pela nossa salvação. A Sua poderosa ressurreição revela-nos a Sua vitória final sobre o pecado, o sofrimento e a morte. Ele oferece-nos a Sua nova e eterna aliança para nos libertar da desgraça e horrores eternos. 

Portanto, no baptismo, morremos espiritualmente com Cristo e emergimos das águas em união com Ele, incorporados ao seu corpo místico. Quando morremos em amizade com Jesus ressuscitado, “a vida muda, não acaba” (Prefácio, Missa Funeral).

Todos os confortos da vida, incluindo os melhores cuidados de saúde, não podem substituir o estado de graça santificadora no momento da morte. Por isso, estando nós nesse “vale de lágrimas”, proclamamos alegremente com São Paulo: “Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? (1Cor 15, 55)

A narrativa cristã, resumida no Credo dos Apóstolos, é realista. Ela confronta o mistério do sofrimento e da morte e oferece a esperança da vida eterna. A nossa batalha é pela vida eterna, e todas as gerações devem escolher o Caminho da Cruz. "Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me." (Mt 16, 24) Viver essa narrativa não é fácil. O Caminho requer a graça, fé, oração, estudo, coragem e esperança em Deus na nossa vitória final em Cristo.

Mas, acima de tudo, para viver, precisamos da reconstituição dominical (e diária) daquele amor da nova e eterna aliança que ocorre na Missa.

Durante as perseguições do imperador romano Diocleciano na Igreja primitiva, os cristãos desobedeciam à ordem do imperador de cancelar as suas reuniões religiosas. E enfrentara a morte, dizendo: 

«Não podemos omitir a celebração dos mistérios divinos. O cristão não pode viver sem a Eucaristia e a Eucaristia sem o Cristão. Vós não sabeis que o cristão existe para a Eucaristia e a Eucaristia para o Cristão? Sim, participei com os irmãos na reunião, celebrei os mistérios do Senhor e tenho aqui comigo, escritos no meu coração, as Escrituras Divinas. A Eucaristia é a esperança e a salvação dos cristãos.»

Desculpe, governador. Lamento, Meritíssimo. A celebração da Missa não é negociável e não é da sua conta. Faremos o nosso melhor - sem garantias - com higiene pessoal e distâncias seguras. Mas nós “procuramos as coisas do alto” (Col 3, 1) e vivemos e morremos pela Missa.

Fr. Jerry Pokorsky in catholicculture.org
Tradução: André Pires


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