quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Quando a relíquia do milagre de Orvieto foi venerada em São Pedro





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Roe vs. Wade: 47 anos de injustiça

No dia 22 de Janeiro de 1973, há 47 anos, fez-se jurisprudência quando o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu que uma mulher tinha direito a abortar apenas e só por sua vontade. O julgamento opôs uma jovem, de seu nome Norma McCorvey, a quem foi dado o pseudónimo Jane Roe, ao Estado do Texas. Norma McCorvey dizia que tinha ficado grávida depois de ter sido violada e exigia o direito a abortar.

O julgamento foi longo e Norma acabou por ter uma filha, que deu para adopção. Depois de vários recursos o Supremo Tribunal decidiu-se pelo direito à privacidade, por conseguinte qualquer mulher poderia abortar sem ter que justificar-se, até à viabilidade do feto, ou seja até conseguir sobreviver fora do ventre materno. Esta decisão alterou todas as leis federais nos Estados Unidos e viria a influenciar a forma como o mundo começou a olhar para o "direito ao aborto".

Em 1987, Norma McConey admitiu que foi persuadida pela sua advogada a dizer que tinha sido violada e que precisava de abortar. Sarah Weddington, a advogada, confirmou que tinha mentido e explicou-se desta forma: "A minha conduta pode não ter sido totalmente ética. Mas eu agi desta forma porque pensei que havia boas razões para o fazer.” Norma McConey percebeu que o aborto implica a morte de uma criança inocente e passou o resto dos seus dias na Terra, até ao dia 18 de Fevereiro de 2017, a lutar contra o aborto.

Nestes 47 anos foram feitos mais de 61 milhões de abortos nos Estados Unidos, o que corresponde mais de 61 milhões de bebés mortos. Tudo com base num julgamento que foi uma mentira. 

João Silveira


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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

8 dicas para rezar todos os dias

A melhor coisa que podem fazer é decidirem fazer um horário de oração mental para todos os dias. Aqui ficam as dicas, sem nenhuma ordem especial:

1. Encontrem um lugar em casa para rezar. Escolham um espaço vosso.

2. Encontrem um tempo no dia para rezar. Os profetas e os santos normalmente levantavam-se mais cedo para rezar. Ponham o alarme para mais cedo (vão mais cedo para a cama) e acordem para estar com Cristo de manhã.

3. Façam uma espécie de ritual para a manhã que inclua a oração. Eu recomendo que também inclua leitura da Escritura. A Bíblia é como Deus normalmente fala convosco. "Deus nunca me fala," dizem às vezes as pessoas. A minha resposta é, "Estão a ler a Bíblia?" Deus fala convosco na Escritura.

4. Usem o cronómetro do telefone. Comecem com 5 minutos e vão melhorando até aos 30 minutos diários.

5. A oração mental consiste em usar a mente ("mental") para falar com Deus. Contem-lhe tudo. Falem com o coração. Perguntem-Lhe sobre a vossa vida. Façam-Lhe perguntas de teologia. Peçam-Lhe para fazer mais do que esperam. Não tenham medo de fazer pedidos completamente "malucos". 

6. Mantenham o Novo Testamento ou um livro de leitura espiritual por perto. Se a vossa mente perde o caminho e começa a vaguear, usem este livro para ler algumas frases e ganharem novamente a concentração em Cristo ou em pensamentos espirituais.

7. Usem este vosso tempo diário para se encherem de positivismo. As pessoas que eu conheço que rezam 30-60 minutos por dia têm pensamentos muito positivos. Porquê? Porque gastam tempo com Deus e aprendem que todas as coisas são possíveis através de Cristo. A fé e a oração criam confiança e uma atitude de "get it done". As pessoas mais pessimistas (e preguiçosas) são as que não rezam ou não gastam tempo sozinhas em silêncio. "Está sossegado e aprende que Eu sou Deus."

8. Tornem a oração diária a vossa identidade. Repitam: "Eu sou uma pessoa que fala com a Trindade todos os dias. É isso quem eu sou e faço sempre isso." Tornem-se naquilo que são.

Taylor Marshall


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Sacerdote celebra Missa ao lado da sua Avó doente




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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O corajoso martírio e a santa pureza de Santa Inês

Entre as heroínas da Igreja primitiva, que derramaram o sangue em testemunho da fé é Santa Inês aquela a que os Santos Doutores da Igreja tecem os maiores elogios. São Jerónimo, em referência a esta santa, escreve: “Todos os povos são unânimes em louvar Santa Inês, porque vencendo a fraqueza da idade e o tirano, coroou a virgindade com a morte do martírio”. De modo semelhante se exprimem Santo Ambrósio e Santo Agostinho. Com Maria Santíssima e Santa Tecla, Santa Inês é invocada para obter-se a virtude da pureza.

Inês nasceu em Roma, descendente de família nobre. Logo que soube avaliar a excelência da pureza virginal, ofereceu-a a Deus, num santo voto. A riqueza, formosura e nobre origem de Inês fizeram com que diversos jovens, de famílias importantes de Roma a pedissem em casamento. A todos Inês respondia que seu coração já pertencia a um esposo invisível a olhos humanos. Do amor ao ódio é só um passo.

As declarações de amizade e afecto dos pretendentes seguiu-se a denúncia, que arrastou a donzela ao tribunal, para defender-se contra a acusação de ser cristã. A maneira como o juiz a tratou, para conseguir que abandonasse a religião, obedeceu ao programa costumeiro em tais ocasiões: elogios, desculpas, galanteios e promessas. Experimentada a ineficácia destes recursos, entravam em cena, imposições, ameaças, insultos, brutalidades. O juiz fez Inês saborear todos os recursos da força inquisitorial da justiça romana.

Inês não se perturbou. Mesmo quando lhe mostraram os instrumentos de tortura, cujo simples aspecto era bastante para causar espanto ao homem mais forte, Inês olhou-os com indiferença e desprezo. Arrastada com brutalidade ao lugar onde se achavam imagens de deuses e intimada a queimar incenso, a donzela levantou as mãos puríssimas ao céu, para fazer o sinal da cruz. No auge do furor, vendo frustrados todos os esforços e posta ao ridículo sua autoridade, o juiz teve uma inspiração diabólica: mandar a donzela a uma casa de pecado. Inês respondeu-lhe: “Jesus Cristo vela sobre a pureza da sua esposa e não permitirá que lha roubem. Ele é meu defensor e abrigo. Podes derramar o meu sangue. Nunca, porém, conseguirás profanar o meu corpo, que é consagrado a Jesus Cristo”.

A ordem do juiz foi executada e daí a pouco Inês foi levada para o lugar da prostituição. Dos diversos rapazes que lá estavam, só um teve o atrevimento de se aproximar de Inês, com malignos intuitos. Mas, no momento em que ia estender a mão contra ela, caiu por terra, como fulminado por um raio. Os companheiros, tomados por um grande pavor, tiraram o corpo do infeliz e levaram-no para outro lugar. Não estava morto, como todos supuseram no primeiro momento, mas aos olhos faltou-lhes a luz. Inês rezou sobre ele e a cegueira desapareceu.

O juiz, profundamente humilhado com esta inesperada vitória da Santa, deu ordem para que fosse decapitada.

Ao ouvir esta sentença, a alma de Inês encheu-se de júbilo. Maior não podia ser a satisfação e a alegria da jovem noiva, ao ver aproximar-se o dia das núpcias, que o prazer que Inês experimentou, quando ouviu dos lábios do juiz o convite para as núpcias eternas com Jesus Cristo, o seu celeste esposo. O algoz tinha recebido ordem para, antes de executar a sentença de morte, convidar a Inês para prestar obediência à intimação do juiz. Inês rejeitou com firmeza . Ajoelhando-se, inclinou a cabeça, ao que parecia para prestar a Deus a última adoração aqui na terra, quando a espada do algoz lhe deu o golpe de morte. Os presentes, vendo este triste e ao mesmo tempo grandioso espectáculo, soluçavam alto.

Santa Inês completou o martírio a 21 de Janeiro de 304 ou 305. tendo apenas a idade de 13 anos. No tempo do imperador Constantino foi construída em Roma uma igreja dedicada à gloriosa mártir.

Santa Inês é padroeira das Filhas de Maria, por causa da sua pureza Angélica. Os jardineiros também a veneram como padroeira, por ser o modelo perfeito da pureza, como Maria Santíssima, que é chamada “hortus conclusus”, horto fechado. É padroeira dos noivos, por ter-se chamado esposa de Cristo. 

Do nome Inês há duas interpretações, a grega e a latina. Inês em grego é Hagne, isto é, pura; em latim, agna significa cordeirinho. Na Igreja latina prevaleceu esta interpretação. Dois dias depois da sua morte, a mártir apareceu a seus pais, acompanhada de um grupo de virgens, tendo ao seu lado um cordeirinho. 

Santo Agostinho admitia as duas interpretações. “Inês, diz ele, significa em latim um cordeirinho e em grego, a pura”. – No dia da festa desta Santa, na sua igreja em Roma são apresentados e bentos cordeirinhos, de cuja lã são confeccionados os “pálios” dos Arcebispos.

in farfalline


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Arcebispo Viganò aparece em público um ano e meio depois

Em Agosto de 2018, o Arcebispo Carlo Viganò, ex-núncio nos Estados Unidos, escreveu uma carta de 11 páginas na qual descrevia os avisos que havia feito à Santa Sé e ao Papa Francisco sobre os abusos sexuais do Cardeal Theodore McCarrick. Desde aí o Arcebispo passou a viver na clandestinidade, em parte incerta, nunca mais aparecendo em público, por correr risco de vida.

Mas, há uns poucos dias, Carlo Viganò foi visto publicamente numa acção feita de surpresa em Munique (Alemanha) por um grupo de católicos para protestar, rezando o terço, contra as posições heterodoxas do Cardeal Reinhard Marx.

O ex-núncio apareceu disfarçado mas percebe-se que é ele. São visíveis as marcas da perseguição que tem sofrido e deste ano e meio de "cativeiro".


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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Primeira Missa Solene em Zagreb desde 1969

A Missa Solene em Rito Tradicional Romano voltou a Zagreb, capital da Croácia. Desde a reforma litúrgica do Papa Paulo VI, implantada no final de 1969, que não era celebrada uma Missa Solene naquela cidade. A ouvir a Missa estiveram muitos jovens e jovens família. A média de idades da schola era 20 anos. Sinais dos tempos...











Fotografias e vídeo: Igor Jurić


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A castidade de D. Sebastião, Rei de Portugal

Sua alma cada vez mais se esmaltava de intenções formosas, e seu corpo vestia-se de castidade. Não deixava que nenhuma dama lhe tocasse, e quando passeava a cavalo pela Rua Nova, ou pelas betesgas da velha e mourisca Lisboa, jamais levantava os olhos para as donzelas que chegavam às ventanas ou curiosamente espreitavam por detrás das verdes adufas árabes.

Era que seu espírito, vivendo exclusivamente para o catolicismo e para a guerra, queria servir estas ideias com alma pura e corpo casto. 

Uma manhã, na igreja de São Roque, confessado e comungado, recolheu-se todo em si, cabeça inclinada para o peito, em profunda absorção. Esteve assim muito tempo. Depois, ergueu a fronte, pôs firme os olhos num crucifixo alto e, entre grossas lágrimas, rogou com a alma inteira: 

– Senhor, Vós que a tantos príncipes haveis concedido impérios e monarquias, concedei-me ser vosso capitão!

Eram três as suas orações diárias: – Que Deus o inflamasse no zelo da fé, que ele queria propagar pelo mundo; – que Deus o tornasse um ardido guerreiro; – que Deus o conservasse casto.

Ser casto! Para ele a castidade era uma graça física que o tornava forte, uma fortaleza que o fazia ledo. A castidade dilatava-lhe a alma, amando a todos – ao reino, à grei. Era uma pureza que, vivendo em si, marcava conceito nobre em todos os seus propósitos, lhe punha frescor no olhar e lhe brunia as faces com sorrisos brancos. Ser casto era vestir um arnês de candura.

Antero de Figueiredo in 'D. Sebastião, Rei de Portugal' (Livrarias Aillaud e Bertrand, Lisboa, 1924)


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domingo, 19 de janeiro de 2020

A vida de uma mulher independente do séc. XXI



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O celibato no Antigo Testamento


Deus ordenou a Moisés que consagrasse os israelitas “hoje e amanhã” e os instruísse a lavarem suas vestes, a fim de estarem preparados para ver o Senhor descer no Monte Sinai ao terceiro dia. Moisés consagrou e instruiu o povo como Deus havia ordenado e também disse que eles deveriam se abster de relações sexuais (cf. Ex 19, 10-15).
Por que Deus estabeleceu como condição a abstinência sexual? É evidente que a Bíblia não afirma que haja algo intrinsecamente impuro no acto sexual realizado segundo o plano criador de Deus. Quanto a isso, basta lembrar as passagens mais relevantes dos dois relatos da Criação (cf. Gn 1, 27-28; 2, 21-25), às quais a exaltação bíblica da boa esposa (cf. Pr 31, 10-31) e da fecundidade procriadora (cf. Sl 128, 3-4) serve de comentário. Portanto, a relação sexual legítima entre marido e mulher não os tornaria indignos de estar na presença de Deus, depois de se terem purificado.

Por outro lado, o pedido que Moisés faz ao povo de abster-se de relações sexuais antes do encontro com o Senhor pode ser uma alusão à “vergonha” associada à sexualidade humana desde a Queda (cf. Gn 2, 25 e 3, 7-10). A forte inclinação aos pecados sexuais é, decerto, o principal “calcanhar de Aquiles” do homem caído. Por isso, Moisés exigiu que os israelitas exercitassem a continência sexual como um sacrifício de purificação e consagração, preparando-se assim para o acontecimento profundamente sagrado que seria a manifestação de Deus no Sinai: assim como Deus é santo, também eles devem sê-lo.

Assim, de maneira simbólica, Moisés procurou reconduzir o povo a um apropriado estado de inocência “virginal”, isto é, o que existia antes de os olhos humanos se abrirem à rebelião contra Deus (cf. Gn 3, 7). Além de coerente estima pela fecundidade conjugal, o Antigo Testamento parece sugerir aqui que os israelitas viam na virgindade certa pureza condizente com o sagrado (cf. Lv 21, 13-15; Is 62, 4-5).

Por mais que nos pareça estranho, Israel também tratava as suas batalhas militares como acontecimentos religiosos. Afinal de contas, foi sob o comando de Deus que Israel marchou para tomar posse da terra prometida a Abraão e aos seus descendentes. E era a Deus que Israel devia as suas vitórias militares. De facto, no início da conquista [da terra prometida], os sacerdotes levíticos às vezes levavam a Arca da Aliança — o local da presença tangível de Deus entre os israelitas — para o próprio campo de batalha (cf. Js 6).

Mesmo assim, a vitória dependia da fidelidade do povo ao Senhor (cf. 1Sm 4, 1-11). Portanto, Israel precisava de uma pureza virginal em sua relação com Deus para cumprir sua missão e receber o que Ele havia prometido. Por essa razão, os empreendimentos militares de Israel eram precedidos por um rito de purificação: os soldados tinham de se consagrar ao Senhor e aos seus desígnios.

Temos provas disso, por exemplo, num dos episódios em que David foge de Saul. David foi sozinho ao sacerdote Aimeleque, em Nobe (perto de Jerusalém), alegando ter sido enviado em segredo pelo rei, quando estava, na verdade, à procura de algo que comer. Como Aimeleque só tivesse pão sagrado, ofereceu-o a David, mas sob a condição de que o seu séquito — que David alegou estar à sua espera — evitasse contacto com mulheres. David respondeu que, em campanha, a ele e à sua comitiva era proibido ter contacto com mulheres. Após constatar que estavam aptos para comer, o sacerdote deu o pão a David (cf. 1Sm 21, 1-6).

A mesma purificação consecratória aparece novamente no relato do adultério de David com Betsabé, esposa de Urias, o hitita. Num esforço para ocultar a gravidez, fruto do seu pecado, Davi mandou Urias retirar-se de batalha e tentou por duas vezes induzi-lo a ir para casa e dormir com a esposa. Mas Urias, embora fosse um mercenário, era um soldado leal, que insistia em observar a obrigação religiosa da continência durante a campanha militar de que estava participando. Por isso, Davi elaborou um plano a fim de provocar a morte de Urias no campo de batalha. Depois disso, tomaria Betsabé para si, desfazendo qualquer suspeita quanto à gravidez (cf. 2Sm 11).

Levando em conta o que vimos acima, podemos concluir que, para os homens que participavam numa guerra santa, a observância da continência sexual simbolizava, de um modo físico, o desejo que cada soldado tinha de se entregar plenamente a Deus e aos seus desígnios. Além disso, dadas as inclinações sexuais do homem caído, os soldados com certeza entendiam que a continência sexual realmente os ajudava, de algum modo, nessa consagração especial — mesmo que isso apenas os estimulasse a focar exclusivamente em sua missão designada por Deus e lhes conferisse uma determinação singular para cumprir, em nome do povo, os desígnios de Deus para Israel. 

As suas vitórias militares ajudavam a reforçar o seu próprio senso de identidade — e o do povo — como escolhidos de Deus, ao mesmo tempo que cultivavam a fé no Senhor da sua história. A observância da continência sexual também cultivava entre os próprios soldados um senso de fraternidade e propósito comuns. Urias, o hitita, é um grande exemplo bíblico de solidariedade auto-sacrificial para com os seus companheiros de luta (cf. 2Sm 11, 11).

Em relação à condução da guerra, parece difícil conciliar a consagração a Deus, em período de guerra, a rectidão de intenção e a liderança de Deus na batalha com a aparente inclemência de Deus ao lançar sobre os espólios de guerra — povos, animais e coisas — um “interdito”, isto é, uma “maldição de destruição”. Isso diz respeito à injunção divina que exigia de Israel dar a Deus algumas ou todas as pessoas e coisas capturadas numa batalha, fosse por meio da sua destruição, fosse por meio do seu depósito no santuário (e.g., ouro e prata). A violação do interdito por uma única pessoa era uma ofensa tão grave, que faria a maldição alastrar-se por todo o Israel, que seria considerado culpado de desobedecer a Deus. Assim, Israel infiel seria incapaz de resistir aos seus inimigos. Para remover a maldição imposta ao povo, o responsável pela violação do interdito tinha de ser desmascarado e morto, e os ganhos ilícitos destruídos junto com a família do culpado (cf. Js 6, 17-19; 7, 1-26).

Temos de compreender a brutalidade do interdito em termos daquilo que Israel perderia em troca dos espólios de guerra. Se cobiçasse e retivesse os ídolos de prata e ouro dos povos conquistados, em vez de os queimar e destruir, Israel sucumbiria à ganância e à idolatria. Por isso, Moisés alertou: “Não introduzirás em tua casa coisa alguma abominável, porque serias, como ela, votado ao interdito” (Dt 20, 16-18). O risco que mulheres estrangeiras ofereciam à fé de Israel (cf., e.g., Nm 25) — daí a sua inclusão no interdito — talvez estivesse relacionado à (e enfatizado pela) disciplina da continência sexual durante campanhas militares.

A probabilidade de Israel ceder à cobiça, à luxúria, à idolatria, à hipocrisia e à complacência era tão grande, que estava em jogo nada menos que sua relação de aliança exclusiva com o único Deus verdadeiro. Havia sempre o risco de que Israel perdesse a sua herança na Terra Prometida e perecesse como as outras nações ímpias, a menos que Deus, na sua misericórdia, quisesse redimi-lo (cf., e.g., Dt 4, 23-31; 8, 11-20). O interdito servia para impedir essas ameaças. Foi precisamente por Saul ter desobedecido aos termos do interdito na sua guerra contra os amalequitas, pondo em perigo assim a todo o povo, que Deus tirou dele a realeza e a deu a David (cf. 1Sm 15).

Celibato sacerdotal e batalha espiritual

Como se relaciona o que foi dito acima com a questão do ministério e do celibato sacerdotal sob a Nova Aliança em Cristo? Como nos diz São Paulo, “não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar (…), mas contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Por outras palavras, cada um de nós está envolvido numa guerra de tudo ou nada contra inimigos incomensuravelmente cruéis e implacáveis — i.e., as legiões invisíveis, os anjos caídos, que estão sob o comando de Satanás. Eles querem a todo o custo provocar nossa condenação eterna (incitando-nos a pecar), a fim de que percamos a nossa herança na terra prometida do Reino de Deus.

Guerras humanas, como as que estão registradas no Antigo Testamento, não são apenas símbolos dessa guerra invisível e espiritual: são manifestações visíveis dela. A nossa submissão ao pecado por causa do estímulo realizado pelos espíritos malignos sempre causa algum tipo de divisão, e finalmente a guerra, tão logo nossos pecados tenham atingido um nível crítico, pois pouquíssimos de nós estamos dispostos a nos arrepender, a fazer penitência e a emendar de vida com o auxílio da graça de Deus. Isso significa que a guerra é um sinal claro da revolta generalizada contra Deus.

Portanto, seguindo o exemplo da radical maldição de destruição veterotestamentária, temos de nos dedicar à guerra espiritual “pondo um interdito” em todos e em tudo o que poderia resultar em nossa separação eterna de Deus e das suas promessas. Se não o fizermos, nós mesmos sofreremos a maldição do interdito por meio do pecado. Esse é precisamente o sentido do ensinamento de Cristo segundo o qual deveríamos arrancar o nosso olho ou cortar a nossa mão, se um deles nos levasse a pecar. Antes isso do que ser lançado no inferno para sempre (cf. Mc 9, 43-48). Jesus está a exortar-nos, de forma hiperbólica, a que nos afastar radicalmente do pecado e de tudo o que nos poderia levar a pecar, pois o que está em jogo é nossa salvação eterna. Ao contrário do interdito antigo, no entanto, nós não entregamos a Ele ninguém para que seja destruído, mas apenas na esperança de que seja salvo.

Todas as batalhas físicas descritas no Antigo Testamento foram efémeras, pois Israel tentava obter controle sobre a sua herança terrena. Aos soldados que lutavam para garantir as promessas de Deus (e, nesse sentido, eram mediadores dessas promessas) cabia simbolizar apenas temporariamente, enquanto durasse a batalha, a sua consagração a Deus por meio da observância da continência sexual. A autodisciplina desses homens permitia-lhes voltar sua atenção e energia exclusivamente para o propósito de obter a vitória em nome do Senhor.

Permanecem sempre activos, porém, os mesmos seres espirituais e malévolos que se escondiam nas batalhas de Israel. Actualmente, são muitas as manifestações visíveis de sua actividade rebelde — todas elas focadas na degradação e na destruição da própria vida humana. Para nos dedicarmos à batalha espiritual enquanto tal — isto é, para pegar em armas e lutar contra nossos inimigos poderosos e invisíveis — precisamos de soldados que estejam espiritualmente equipados para liderar o restante de nós nesta batalha violenta e implacável e, portanto, que se consagrarem a Deus de modo permanente, com esse único propósito. A natureza permanente dessa guerra de soma zero requer bispos e sacerdotes fiéis ao celibato, cuja missão indispensável é agir como mediadores da verdade do Evangelho e da salvação, dons sacramentais da graça que Deus Pai nos oferece em, e por, meio de Jesus Cristo, seu Filho eterno. Quando agem in persona Christi capitis, eles intermedeiam para nós nada menos do que a promessa de vida eterna em Cristo.

Como os bispos e os sacerdotes têm a obrigação de lutar pela salvação das almas, a sua dedicação a Deus — e o cumprimento da missão dada por Ele — deve ser exclusiva. Pois o único objetivo dos nossos inimigos invisíveis é frustrar essa missão. Pelo exposto, exige-se do clero católico desapego extraordinário em relação às preocupações terrenas e, portanto, um foco decidido, ao qual se presta a continência sexual permanente do celibato (cf. 1Cor 7, 28.32-33) e para cuja observância Deus jamais deixa de conceder graças.

O Matrimónio e a família requerem um tipo de morte absoluta para si. O ministério sacerdotal requer outro. O mesmo homem não pode morrer simultaneamente das duas formas. Para o sacerdote, é crucial que recaia um “interdito” sobre o Matrimónio. Ele deve desapegar-se de tudo e de todos, excepto de Jesus Cristo, para que não seja tentado a transigir com o inimigo implacável em detrimento das almas. Ao mesmo tempo, a sua fidelidade à vida celibatária serve como um sinal indispensável da vida ressuscitada em Cristo e do poder da graça de Deus.

E a escassez de sacerdotes? Não deveríamos fortalecer as fileiras com homens casados? Concluamos com dois pontos a respeito desta questão.

Sobre o número de vocações

Em primeiro lugar, Deus não precisa de números por si mesmos. Dentre trinta e dois mil homens, Deus fez Gideão escolher apenas trezentos — os mais destemidos e atentos do grupo — para derrotar um exército enorme e muito superior. Isso mostrava com clareza que a vitória era de Deus (cf. Jz 7, 1-23).

Do mesmo modo, Jesus Cristo é a cabeça da Igreja militante. Se necessário, ele pode liderar a Igreja na vitória contra o pecado, a morte e o demónio com um pequeno número de sacerdotes dedicados e consagrados exclusivamente a Ele e à missão que lhes foi confiada. Essa exclusividade implica o celibato.

Quando aceito com alegria, por meio da graça, ainda hoje o celibato sacerdotal significa — e produz verdadeiramente — uma pureza sagrada que conforma e une de modo mais perfeito o sacerdote a Cristo, a quem e em cujo serviço ele é livre para se doar incondicionalmente. Sacerdotes desse tipo formam um poderoso grupo de irmãos. Sempre atentos às artimanhas do demónio, eles combatem sem medo e com eficácia, usando os meios espirituais que Deus lhes deu para defenderem a si mesmos e ao seu povo. Desta forma, pastor e rebanho triunfam juntos sobre os ataques violentos do inimigo infernal.

Em segundo lugar, não faltariam homens respondendo ao chamamento de Deus para se tornarem sacerdotes celibatários dedicados, se a Igreja resgatasse, enfatizasse e treinasse os homens de acordo com a analogia militar esboçada acima (cf. também Ef 6, 13-20). Isso atrairia os homens viris, que são naturalmente inclinados e dispostos, pela graça de Deus, a se sacrificar de modo supremo para defender a Esposa de Cristo. Os nossos melhores sacerdotes vivem segundo essa perspectiva, que é ao mesmo tempo marcial e marital.

Em contrapartida, os “modelos” eclesiais afeminados aos quais somos apresentados actualmente — e.g., a Igreja politicamente correta, a Igreja calada que só escuta, a Igreja que aceita e abençoa o pecado mortal, a Igreja “sinodal” ou feita sob medida — podem facilmente dissuadir muitos homens fiéis e moralmente íntegros de seguir o chamado ao sacerdócio. Embora eles tenham a vocação sacerdotal e estejam dispostos, voluntariamente, a canalizar o seu natural instinto de protecção (ou de paternidade) para combater o bom combate da fé (cf. 1Tm 6, 12), em vez de canalizá-lo para a formação de uma família, é legítima a preocupação que eles manifestam com a possibilidade de serem removidos da batalha e “desarmados” por bispos e sacerdotes infiéis que não têm interesse algum em entrar no combate. O intuito destes, muito ao contrário, é introduzir na Igreja aquilo que Deus interditou irrevogavelmente. Eles conspiram para eviscerar os mandamentos de Deus e a lei natural; para admitir à Sagrada Comunhão católicos divorciados e “recasados”, pecadores impenitentes e não católicos; para reconhecer e abençoar “uniões” sodomitas; para ordenar mulheres; e assim por diante, ad nauseam.

O demónio prospera por meio desses inimigos da cruz: “para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno” (Fl 3, 19). Embora preservem a aparência da religião, eles negam o seu poder (cf. 2Tm 3, 5). Parece que o “que domina até este momento é o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera” (1Mb 2, 40).

Em vez de se sentirem desencorajados, os homens que se sentem chamados ao sacerdócio — e também todos os soldados cristãos, independentemente do estado de vida — podem inspirar-se na derradeira exortação de Matatias, pai da revolta dos Macabeus: “Sede, pois, agora, meus filhos, os defensores da Lei e dai a vossa vida pela Aliança dos nossos pais (…). Todos os que esperam em Deus não desfalecem” (1Mb 2, 50.61).

Jeffrey Tranzillo in Crisis Magazine
Tradução: FratresInUnum.com


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Quem vai de pecado mortal em pecado mortal

A primeira regra: nas pessoas que vão de pecado mortal em pecado mortal, costuma normalmente o inimigo propor-lhes prazeres aparentes, fazendo imaginar deleitações e prazeres sensuais, para mais os conservar e aumentar no seus vícios e pecados. 

Nas mesmas pessoas o bom espírito usa um modo contrário, ferindo-lhes as consciências com a advertência da recta razão.

Santo Inácio de Loyola in 'Regras para o discernimento dos espíritos' (Exercícios Espirituais)


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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cardeal Sarah encontrou-se hoje com Papa Bento por causa do livro sobre celibato

Nos últimos dias o Cardeal Robert Sarah foi humilhado em praça pública com ataques vis e cobardes. Estes ataques, infelizmente, partiram de meios de comunicação e fiéis católicos. Para acabar de vez com qualquer dúvida sobre a sua rectidão no processo do livro sobre o celibato, o Cardeal Sarah deslocou-se ao Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, e encontrou-se pessoalmente com Bento XVI. O Cardeal acabou de anunciar nas redes sociais esse encontro:

Por causa das polémicas incessantes, nauseabundas e mentirosas que não pararam desde o início da semana, relativamente ao livro "Da profundeza dos nossos corações", encontrei esta tarde o Papa Emérito Bento XVI. 

Com o Papa Emérito Bento XVI, pudemos constatar que não há nenhum mal-entendido entre nós. Saí de lá muito feliz, pleno de paz e de coragem por causa dessa bela conversa. Convido-vos a ler e a meditar "Da Profundeza dos nossos corações".


Agradeço calorosamente ao meu editor, Nicolas Diat, assim como à editora Fayard, pelo rigor, integridade, seriedade e profissionalismo dos quais fizeram prova. Boa leitura a todos! 

+Robert Sarah


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Carta de Tolkien ao seu filho sobre a relação entre os sexos

Morreu há dois dias Christopher Tolkien, terceiro filho do famoso autor da obra "Senhor dos Anéis", J.R.R Tolkien. Publicamos parte de uma carta que Tolkien escreveu ao seu filho Christopher - entre os dias 6 e 8 de Março de 1941 - sobre a amizade e relações entre homens e mulheres:

Os relacionamentos de um homem com as mulheres podem ser puramente físicos (na verdade não podem, é claro, mas quero dizer que ele pode recusar-se a levar outras coisas em consideração, para o grande dano da sua alma e corpo e delas); ou “amigáveis”; ou ele pode ser um “amante” (empenhando e combinando todos os seus afectos e poderes de mente e corpo numa emoção complexa poderosamente colorida e energizada pelo “sexo”).

Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem “ido de mal a pior” ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem os seus perigos especiais: mas o “duro espírito da concupiscência” vem caminhando por todas as ruas, e instalou-se em todas as casas, desde que Adão caiu. 

Neste mundo decaído, a “amizade” que deveria ser possível entre todos os seres humanos é praticamente impossível entre um homem e uma mulher. O diabo é incessantemente engenhoso, e o sexo é o seu assunto favorito. Ele é da mesma forma bom tanto em cativá-lo através de generosos motivos românticos, ou ternos, quanto através daqueles mais vis ou mais animais.

Essa “amizade” tem sido tentada com frequência: um dos dois lados quase sempre falha. Mais tarde na vida, quando o sexo esfria, tal amizade pode ser possível. Ela pode ocorrer entre santos. Para as pessoas comuns ela só pode ocorrer raramente: duas almas que realmente possuam uma afinidade essencialmente espiritual e mental podem acidentalmente residir num corpo masculino e num feminino e ainda assim podem desejar e alcançar uma “amizade” totalmente independente de sexo.

Porém, ninguém pode contar com isso. O outro parceiro(a) irá desapontá-la(-lo), é quase certo, ao “apaixonar-se”. Mas um rapaz realmente não quer (via de regra) “amizade”, mesmo que ele diga que quer. Existem muitos rapazes (via de regra). Ele quer amor inocente, e talvez ainda irresponsável. Ail Ail que sempre o amor foi pecado!, como diz Chaucer. Então, se ele for cristão e estiver ciente de que existe o pecado, ele desejará saber o que fazer a respeito disso.

Há, na nossa cultura ocidental, a romântica tradição cavalheiresca ainda forte, apesar de que, como um produto da cristandade (porém de modo algum o mesmo que a ética cristã), os tempos são hostis a ela. Tal tradição idealiza o “amor” — e, ademais, ele pode ser muito bom, uma vez que abrange muito mais do que prazer físico e desfruta, se não de pureza, pelo menos de fidelidade, e abnegação, “serviço”, cortesia, honra e coragem. A sua fraqueza, sem dúvida, é que ele começou como um jogo artificial de cortejo, uma maneira de desfrutar o amor por si só sem referência (e, de facto, contrário) ao matrimónio.

O seu centro não era Deus, mas divindades imaginárias, o Amor e a Dama. Ele tende ainda a tornar a Dama uma espécie de divindade ou estrela guia — do antiquado “sua divindade” = a mulher que ele ama — o objecto ou a razão de uma conduta nobre. Isso é falso, é claro, e na melhor das hipóteses fictício. A mulher é outro ser humano decaído com uma alma em perigo. Mas, combinado e harmonizado com a religião (como o era há muito tempo, quando produziu boa parte daquela bela devoção à Nossa Senhora, que foi o modo de Deus refinar em muito nossas grosseiras naturezas e emoções masculinas, e também de aquecer e colorir nossa dura e amarga religião), tal amor pode ser muito nobre. Ele produz então o que suponho que ainda seja sentido, entre aqueles que mantêm ainda que um vestígio de cristianismo, como o ideal mais alto de amor entre um homem e uma mulher.

Porém, eu ainda acho que ele possui perigos. Ele não é completamente verdadeiro e não é perfeitamente “teocêntrico”. Leva (ou, de qualquer maneira, levou no passado) o rapaz a não ver as mulheres como elas realmente são, como companheiras num naufrágio, e não como estrelas guias. (Um resultado observado é que na verdade ele faz com que o rapaz se torne cínico.) Leva-o a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. 

Impõe noções exageradas de “amor verdadeiro”, como um fogo vindo de fora, uma exaltação permanente, não-relacionado à idade, à gestação e à vida simples, e não-relacionado à vontade e ao propósito. (Um resultado disso é fazer com que os jovens — homens e mulheres — procurem por um “amor” que os manterá sempre bem e aquecidos num mundo frio, sem qualquer esforço da parte deles; e o romântico incurável continua procurando até mesmo na sordidez das cortes de divórcio).


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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A Paz de Cristo durante a Santa Missa

O Bispo beija o altar, símbolo de Cristo. O Bispo recebe deste modo a paz. Não como o mundo a dá, mas dada pelo Príncipe da Paz. De seguida transmite a paz ao padre assistente, como se vê na imagem. O padre assistente leva-a ao diácono, este ao subdiácono e ao resto do clero presente, seguindo a hierarquia dos que servem o altar. Assim é a transmissão da Paz de Cristo durante a Missa.


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800 anos dos Mártires de Marrocos

Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto foram os primeiros missionários enviados por São Francisco às terras dos sarracenos. Naturais de Narni (Itália), abraçaram o exemplo de vida de Francisco de Assis e ingressaram na Ordem dos Frades Menores. Partindo de Assis em 1219, passaram por Coimbra, onde tiveram a possibilidade de conhecer o Cónego Regrante Fernando de Bulhões (o futuro Santo António).

De passagem por Sevilha, desprezando o perigo, começaram a pregar a fé de Cristo nas mesquitas. Conduzidos perante o sultão, foram encarcerados e, depois, transferidos para Marrocos com a ordem de não pregar mais o nome de Cristo.Eles, porém, continuaram com grande coragem a anunciar o Evangelho. Por isso, foram presos e cruelmente torturados e, finalmente, decapitados em Marraquexe, a 16 de Janeiro de 1220.

Os restos mortais (as relíquias) dos Santos Mártires trazidos pelo Infante D. Pedro para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foram acolhidos por grande multidão de fiéis, quelhes atribuiu uma singela veneração. Foi o corajoso exemplo de fé destes irmãos que motivou Santo António a mudar de vida e a ingressar na nascente Ordem franciscana.

Ao receber o anúncio do glorioso martírio, São Francisco exclamou: “Agora posso dizer com certeza que tenho cinco verdadeiros frades menores”. Os mártires foram canonizados pelo Papa Sisto IV, em 1481.

Franciscanos em Coimbra

Seis anos após a sua conversão, São Francisco obteve, do Papa Inocêncio IX, a aprovação verbal da fraternidade dos Frades Menores. Inflamado pelo desejo de dar a vida pelo Evangelho, decidiu ir à Síria para pregar a fé e a penitência aos muçulmanos, mas as primeiras tentativas não tiveram êxito. Entretanto, em 1217, enviou os seus frades em missão para todas as principais nações europeias. No Pentecostes de 1219, Francisco enviou também os frades Vidal, Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto, para pregar o Evangelho aos sarracenos marroquinos, enquanto ele optou por se juntar aos cruzados que se dirigiam à Palestina, a fim de visitar os lugares sagrados e pregar o Evangelho ao Sultão do Egipto.

Os seis missionários chegaram a Espanha. Entrados no reino de Aragão, Vidal, líder da expedição, ficou doente e teve que interromper a sua viagem. Todavia os outros, chefiados agora por frei Berardo, prosseguiram a viagem. Chegados a Coimbra, a rainha D. Urraca, esposa de D. Afonso II, recebeu-os com carinho. Nesta cidade, tiveram a oportunidade de visitar o Mosteiro de Santa Cruz e de conhecer Santo António, então cónego Regrante de nome Fernando Martins de Bulhões.

A caminho de Marrocos

Prosseguindo a viagem, ficaram hospedados no convento de Alenquer, beneficiando da ajuda da Infanta Sancha, irmã do rei, que lhes forneceu roupas para facilitar o seu trabalho apostólico entre os muçulmanos.
Assim vestidos, eles embarcaram para a cidade de Sevilha, na época a capital dos reis mouros. Destemidos, eles foram logo para a mesquita principal e começaram a pregar o Evangelho e a conversão das pessoas. Tidos por tolos, foram presos, espancados e conduzidos ao palácio do Sultão que os escutou com relutância; mas, quando ouviu falar de Maomé como um falso profeta, ficou furioso e ordenou que fossem metidos na prisão. Depois de alguns dias, o Sultão mandou-os chamar e, ouvindo que eles queriam ir para Marrocos, satisfez o seu pedido e fê-los embarcar para lá.
Pregação e Martírio

Chegados a Marrocos, menosprezando os conselhos do Infante D. Pedro, os frades começaram logo a pregar a fé cristã e a criticar Maomé e o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. O rei Miramolim expulsou-os da cidade, ordenando que fossem enviados de volta às terras cristãs. Mas os frades, assim que foram libertados, voltaram prontamente à cidade e retomaram a pregação na praça pública. O rei ficou enfurecido e mandou-os lançar numa cela escura para perecerem de fome e sofrimento. Aconteceu, porém, que, após três semanas de jejum, eles foram soltos em melhores condições do que antes. O próprio Miramolim ficou deveras surpreendido. Entretanto, providenciou, pela segunda vez, para que fossem enviados de volta para Espanha, mas eles conseguiram novamente escapar e voltaram a pregar, até que o Infante português os deteve na sua residência sob vigilância, temendo que o seu zelo excessivo pudesse afetar os outros membros cristãos da sua comitiva.

Porém, apesar da proibição do rei, os frades continuaram a pregar o Evangelho. Então, foram novamente presos e açoitados. Depois, foram entregues à populaça, para vingar os insultos que tinham proferido contra Maomé; em seguida, foram flagelados nas encruzilhadas das ruas e arrastados sobre pedaços de vidro e cacos de vasos partidos. Nas feridas abertas, foram deitados sal e vinagre misturados com óleo a ferver; mas eles suportaram todos esses suplícios com tanta força de ânimo, que pareciam impassíveis. Então, Miramolim, admirado por tanta paciência e resignação, tentou convencê-los a abraçar o Islão, prometendo riquezas, honras e prazeres. Mas os cinco frades rejeitaram também as cinco raparigas, oferecidas como esposas, e continuaram destemidos a exaltar a religião cristã.

A este ponto, Miramolim não aguentou mais tanta aversão e, cheio de raiva, puxou da sua cimitarra e decapitou os cinco intrépidos confessores da fé: era o dia 16 de Janeiro de 1220.

As relíquias são trazidas para Santa Cruz, em Coimbra

Os corpos e as cabeças dos mártires foram arrastados pelas ruas da cidade e finalmente lançados nomonturo da cidade, presa de cães e pássaros. Uma tempestade providencial, no entanto, levou os animais a fugir e permitiu que os cristãos recuperassem os restos dos frades e os transportassem para a residência do Infante D. Pedro. De regresso a Portugal, o Infante trouxe consigo as preciosas relíquias destinadas ao Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.

Ao ouvir a notícia do martírio de seus cinco confrades, São Francisco exclamou: “Agora posso dizer que tenho verdadeiramente cinco frades menores”.

O fruto mais saboroso do seu martírio foi, porém, a mudança de vida que provocaram no monge Fernando Martins de Bulhões que, animado pelo mesmo zelo, decidiu seguir o seu exemplo, entrando na Ordem dos Frades Menores.

Os mártires foram canonizados pelo Papa Sisto IV em 1481, enquanto frei António (de Lisboa, de Coimbra, de Pádua e de todo o mundo) logo depois da sua morte, ocorrida em Pádua a 13 de Junho de 1231, foi proclamado santo, a 30 de maio de 1232.

in santoantonio.live


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

São Francisco Xavier na Índia e Ceilão

Há exactamente 476 anos, São Francisco Xavier, o grande apóstolo do Oriente, escreveu uma carta ao seu grande amigo e Superior da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola:

Dessas regiões [Índia e Ceilão] só consigo escrever o seguinte: são tão grandes as consolações comunicadas por Deus nosso Senhor àqueles que vão para o meio dos pagãos para os converter à fé de Cristo que, se há alguma alegria nesta vida, é essa mesmo. 

Muitas vezes acontece-me ouvir a alguém que vai para o meio desses cristãos: «Senhor, não me dês tantas consolações nesta vida! Mas, uma vez que na vossa bondade e misericórdia infinitas Vós mas dais, levai-me para a vossa santa glória! Na verdade, custa tanto viver sem Vos ver, depois de Vos terdes mostrado desse modo à vossa criatura.» 

Ah, se aqueles que buscam o saber nos estudos se dessem ao mesmo trabalho na busca das consolações do apostolado! Se as alegrias que procura um estudante naquilo que aprende, as procurasse fazendo sentir ao seu próximo aquilo de que precisa para conhecer e servir Deus, quão mais consolado e mais bem preparado estaria para prestar contas de si próprio, quando Cristo vier e lhe pedir: «Presta-me contas da tua gestão.» 

Termino pedindo a Deus nosso Senhor que nos reúna na sua santa glória. E, para obter essa benfeitoria, tomemos como intercessoras e advogadas todas as almas santas das regiões onde me encontro. A todas essas santas almas, peço que nos obtenham de Deus nosso Senhor que, durante o tempo que resta desta separação, nos dê a graça de sentir no fundo da alma a sua santíssima vontade e de a realizar perfeitamente. 

São Francisco Xavier in Carta 15/01/1544


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Bento XVI explica por que razão sacerdócio e celibato são indissociáveis

Tem sido um tanto polémica a participação do Papa Bento XVI no mais recente livro do Cardeal Sarah. Mas passando à frente as polémicas vale a pena ler este trecho, no qual o Papa Bento fala da ligação entre sacerdócio e celibato, desde o início da Igreja:

A celebração diária da Eucaristia, que implica um estado permanente de serviço a Deus, não deixa espontaneamente a impossibilidade de um vínculo matrimonial. Pode-se dizer que a abstinência sexual, que foi funcional, se transformou em abstinência ontológica. (...) 

Actualmente, é muito fácil afirmar que tudo isto é simplesmente a consequência de um desprezo pela corporalidade e pela sexualidade. (...) 

Tal julgamento está errado. Para provar isso, apenas temos de lembrar que a Igreja sempre considerou o casamento como um presente concedido por Deus do céu na Terra. No entanto, o estado conjugal diz respeito ao homem na sua totalidade e, como o serviço do Senhor também exige o dom total do homem, não parece possível realizar as duas vocações simultaneamente. Assim, a capacidade de renunciar ao casamento para se colocar totalmente à disposição do Senhor é um critério para o ministério sacerdotal. 

Quanto à forma concreta de celibato na Igreja antiga, deve-se salientar que os homens casados ​​só poderiam receber o sacramento das Ordens Sagradas se se tivessem comprometido com a abstinência sexual, ou seja, com um casamento Josefino. Tal situação parece ter sido bastante normal durante os primeiros séculos.

Papa Bento XVI no livro 'Do profundo dos nossos corações'


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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Porquê a Beleza importa?

Morreu há poucos dias o filósofo inglês Roger Scruton, um guerreiro contra a destruição da sociedade ocidental. Vale a pena ver este documentário que fez para a BBC e perceber a importância da beleza nas nossas vidas.



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O Celibato Sacerdotal explicado pelo Papa Bento XVI

Na Vigília para a Conclusão do Ano Sacerdotal, na Praça de São Pedro, vários sacerdotes colocaram as suas dúvidas ao Papa Bento. Um Padre missionário fez uma pergunta sobre o celibato sacerdotal, que tanto tem vindo a ser atacado:

Padre Karol Miklosko: Santo Padre, sou Pe. Karol Miklosko e venho da Europa, exactamente da Eslováquia, e sou missionário na Rússia. Quando celebro a Santa Missa encontro-me a mim mesmo e compreendo que ali encontro a minha identidade, a raiz e a energia do meu ministério. O sacrifício da Cruz revela-me o Bom Pastor que dá tudo pelo rebanho, por cada ovelha, e quando digo: "Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue" oferecido e derramado em sacrifício por vós, então compreendo a beleza do celibato e da obediência, que livremente prometi no momento da ordenação. Mesmo com as dificuldades naturais, o celibato parece-me óbvio, olhando para Cristo, mas sinto-me transtornado ao ler tantas críticas mundanas a este dom. Peço-lhe humildemente, Padre Santo, que nos ilumine sobre a profundeza e o sentido autêntico do celibato eclesiástico. 

Papa Bento XVI: Obrigado pelas duas partes da sua pergunta. A primeira, onde mostra o fundamento permanente e vital do nosso celibato; a segunda, que mostra todas as dificuldades nas quais nos encontramos no nosso tempo. A primeira é importante, isto é: o centro da nossa vida deve ser realmente a celebração quotidiana da Sagrada Eucaristia; e aqui são centrais as palavras da consagração: "Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue", ou seja: falamos "in persona Christi". Cristo permite que usemos o seu "eu", que falemos no "eu" de Cristo, Cristo "atrai-nos para si" e permite que nos unamos, une-nos com o seu "eu". 

E assim, através desta acção, este facto que Ele nos "atrai" para si mesmo, de modo que o nosso "eu" se torna um só com o seu, realiza a permanência, a unicidade do seu Sacerdócio; assim Ele é sempre realmente o único Sacerdote, e contudo muito presente no mundo, porque nos "atrai" para si mesmo e deste modo torna presente a sua missão sacerdotal. Isto significa que somos "atraídos" para o Deus de Cristo: é esta união com o seu "eu" que se realiza nas palavras da consagração. Também no "estás perdoado" – porque nenhum de nós poderia perdoar os pecados – é o "eu" de Cristo, de Deus, o único que pode perdoar. Esta unificação do seu "eu" com o nosso implica que somos "atraídos" também para a sua realidade de Ressuscitado, que prosseguimos rumo à vida plena da ressurreição, da qual Jesus fala aos Saduceus em Mateus, capítulo 22: é uma vida "nova", na qual já estamos além do matrimónio (cf. Mt 22, 23-32). 

É importante que nos deixemos sempre de novo embeber por esta identificação do "eu" de Cristo connosco, por este ser "lançados" para o mundo da ressurreição. Neste sentido, o celibato é uma antecipação. Transcendamos este tempo e caminhemos em frente, e assim "atrairemos" para nós próprios e o nosso tempo rumo ao mundo da ressurreição, à novidade de Cristo, à vida nova e verdadeira. Por conseguinte, o celibato é uma antecipação tornada possível pela graça do Senhor que nos "atrai" para si rumo ao mundo da ressurreição; convida-nos sempre de novo a transcender-nos a nós mesmos, este presente, rumo ao verdadeiro presente do futuro, que hoje se torna presente. E chegamos a um ponto muito importante. 

Um grande problema da cristandade do mundo de hoje é que já não se pensa no futuro de Deus: só o presente deste mundo parece suficiente. Queremos ter só este mundo, viver só neste mundo. Assim fechamos as portas à verdadeira grandeza da nossa existência. O sentido do celibato como antecipação do futuro é precisamente abrir estas portas, tornar o mundo maior, mostrar a realidade do futuro que deve ser vivido por nós como presente. Por conseguinte, viver assim num testemunho da fé: cremos realmente que Deus existe, que Deus tem a ver com a minha vida, que posso fundar a minha vida em Jesus, na vida futura. 

E conhecemos agora as críticas mundanas das quais o senhor falou. É verdade que para o mundo agnóstico, o mundo no qual Deus não tem lugar, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades do nosso tempo. E isto deveria desaparecer! 

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um "não" ao vínculo, um "não" à definitividade, um ter a vida só para si mesmos. 

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um "sim" definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu "eu", e portanto é um acto de fidelidade e de confiança, um acto que supõe também a fidelidade do matrimónio; é precisamente o contrário deste "não", desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o "sim" definitivo que supõe, confirma o "sim" definitivo do matrimónio. E este matrimónio é a forma bíblica, a forma natural do ser homem e mulher, fundamento da grande cultura cristã, das grandes culturas do mundo. E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. 

Por isso, o celibato confirma o "sim" do matrimónio com o seu "sim" ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. Sabemos que ao lado deste grande escândalo, que o mundo não quer ver, existem também os escândalos secundários das nossas insuficiências, dos nossos pecados, que obscurecem o verdadeiro e grande escândalo, e fazem pensar: "Mas, não vivem realmente no fundamento de Deus!". Mas há tanta fidelidade! 

O celibato, mostram-no precisamente as críticas, é um grande sinal de fé, da presença de Deus no mundo. Rezemos ao Senhor para que nos ajude a tornar-nos livres dos escândalos secundários, para que torne presente o grande escândalo da nossa fé: a confiança, a força da nossa vida, que se funda em Deus e em Jesus Cristo!


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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Papa Francisco celebrou Missa 'versus Deum' na Capela Sistina

Quer isto dizer que esteve de costas para os fiéis? Não, quer dizer que estiveram todos virados na mesma direcção, todos virados para a Cruz, como é próprio.


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domingo, 12 de janeiro de 2020

Pais de Bento XVI conheceram-se através de um anúncio de jornal

Os pais do Papa Bento XVI conheceram-se em 1920 através de um anúncio no jornal católico 'Altoettinger Liebfrauenbote' (Correio de Nossa Senhora de Altotting).

Era já a segunda tentativa de Joseph Ratzinger para encontrar a mulher da sua vida através de um anúncio naquele jornal. O texto, publicado no dia 7 de Março de 1920, foi o seguinte:

"Modesto funcionário do Estado, solteiro, católico, de 43 anos, com direito a reforma, pretende celebrar casamento com uma rapariga católica, que saiba cozinhar e se possível costurar, com património."

Joseph Ratzinger, que era polícia, recebeu a resposta positiva de Maria Peitner, cozinheira.

O casamento deu-se ainda nesse mesmo ano de 1920. Desse casamento nasceram 3 filhos: Maria, que nasceu em 1921 e morreu em 1991; Georg, sacerdote que conta agora com 95 anos e Joseph, futuro Papa Bento XVI, que tem agora 92 anos.


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sábado, 11 de janeiro de 2020

Os portugueses chegaram à Austrália antes dos ingleses?

Será que os portugueses chegaram à Austrália antes dos ingleses? 

A questão foi levantada quando alguém encontrou este canguru desenhado num livro litúrgico português, datado do final do século XVI (o livro, não o canguru). Como nessa época ainda não existia o National Geographic, a conclusão lógica seria que os portugueses chegaram antes dos ingleses à terra dos cangurus, e, portanto, a História deve ser reescrita. 

Outros dizem que é um equivoco e aquilo não é um canguru mas outro bicho asiático. Eu voto no Panda do Kung Fu.

João Silveira


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