segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Padre Pio tinha o dom de saber os pecados das pessoas

Este Santo italiano tinha o dom de ler nas consciências, descobrindo aos penitentes os próprios pecados. Um desses casos passou-se com o Sr. Frederico Abresch: 

«Quando, em Novembro de 1928, fui procurar pela primeira vez o Padre Pio, não tinha Fé. Descendente de uma família protestante, violentamente anti-católica, fiz-me católico por razões de conveniência. As verdades da Fé deixavam-me indiferente; mas apaixonava-me pelas ciências ocultas. Iniciei-me no espiritismo, mas pareceram-me pouco concludentes as mensagens do além. Lancei-me então na magia, depois na teosofia e passei o meu tempo lendo livros sobre este assuntos. Para agradar à minha mulher, de tempos a tempos, aproximava-me dos sacramentos, mas sem convicção.

Um belo dia, ouvi falar do Padre Pio, um frade capuchinho, estigmatizado, que, segundo me contaram, realizava milagres. Movido pela curiosidade, pensando também na minha mulher, gravemente doente, em vésperas de fazer uma operação que a privaria para sempre da felicidade de poder ser mãe, decidi tentar a sorte. Dirigi-me a San Giovanni Rotondo. Nem vale a pena revelar a minha desconfiança, tratando-se de factos acontecidos na Igreja Católica, que, segundo a minha opinião, era um amontoado de superstições.

Deixou-me frio o primeiro contacto com o Padre Pio. Dirigiu-me algumas palavras, que me pareceram muito secas! Esperava um acolhimento mais afectuoso, depois de tão longa viagem. No entanto, decidi confessar-me. Mal me ajoelhei, o Padre disse-me imediatamente que nas minhas confissões precedentes eu tinha ocultado pecados graves. Perguntou-me se eu ali estava de boa fé. Respondi considerar a confissão uma boa instituição social, mas não acreditar no carácter sobrenatural do sacramento. Contudo, alguma coisa me levou a acrescentar: - Agora, Padre, acredito.

O Padre Pio calou-se um instante, depois, com uma expressão de dor indizível, exclamou: "Isso é heresia. Todas as suas confissões têm sido sacrílegas. É necessário fazer uma confissão geral. Faça um bom exame de consciência, lembrando-se de quando se confessou bem pela última vez. Jesus tem sido mais misericordioso consigo do que com Judas." Olhou-me com ar sereno e disse-me em voz alta: "Sejam louvados Jesus e Maria!" E foi para a igreja confessar as mulheres.

Fiquei sozinho na sacristia, profundamente impressionado. Não me saíam dos ouvidos as palavras do Padre: “Lembre-se de quando se confessou bem pela última vez...” É certo que, ao fazer-me católico fui baptizado “sob condição” e o baptismo tinha apagado todos os pecados da minha vida passada. Por ocasião do casamento fiz uma boa confissão. Mas, agora, para minha tranquilidade, decidi dizer todos os pecados, desde a minha infância. Tinha a cabeça em água, quando o Padre Pio reentrou na sacristia. Disse-me logo: "Vamos lá. Quando é que se confessou bem pela última vez?"

Comecei a balbuciar algumas palavras, mas ele interrompeu-me: "Confessou-se bem no regresso da sua viagem de lua-de-mel. Deixemos o resto e comecemos a partir desse momento." Eu estava pasmado. Mas o Padre Pio não me deixou tempo para eu reflectir. Em voz alta, sob a forma de perguntas precisas, começou a enumerar todos os meus pecados acumulados há tantos anos. Chegou a dizer-me o número exacto das Missas a que tinha faltado.

Depois de me recordar todos os pecados mortais, fez-me ver a gravidade dessas faltas e disse com um tom inesquecível: "Você cantava louvores a satanás, enquanto Jesus, no seu amor infinitamente carinhoso, se esforçava por salvá-lo." Depois de ter recebido a absolvição, senti-me tão feliz e tão leve que até parecia ter asas. Ao voltar à povoação, com os outros peregrinos, comportei-me como uma criança doida de alegria.

Humanamente falando, não há explicação para o que me aconteceu. O Padre Pio via-me pela primeira vez. Durante a confissão lembrou-me certos factos por mim totalmente esquecidos. Estava ao corrente dos mais pequenos pormenores e punha-os em relevo.»


A esposa doente do Sr. Frederico Abresch pediu a oração do Padre Pio e não precisou de fazer a operação urgente: foi curada! E tiveram o tão desejado filho que viria mais tarde a tornar-se Sacerdote. Nesta fotografia podemos ver o filho a dar a Sagrada Comunhão ao seu Pai.




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Núncio Apostólico: Confinamento ajudou a promover o Rito Antigo

Para o Núncio da Santa Sé na Suíça, Mons. Thomas Gullickson, de 69 anos, as restrições ao abrigo do Covid-19 são exageradas.

Numa conferência on-line organizada pela Latin Mass Society confidenciou que como Núncio - como a maioria dos Núncios - "mesmo em tempos normais, vivo um pouco isolado". Portanto, o bloqueio não mudou muito a sua vida.

Gullickson identificou a Missa Tradicional como a “forma mais antiga de culto católico”, acha que as liturgias em Rito Antigo transmitidas ao vivo se saíram melhor do que as do Novus Ordo e dá graças por essa exposição inesperada a um público mais amplo.

Um jovem padre dominicano disse-lhe que o número de fiéis do Rito Antigo duplicou desde que o culto público foi retomado. O padre atribuiu o crescente interesse também às transmissões ao vivo. Isso atraiu, como de costume, especialmente famílias jovens.

Uma vez aposentado, Gullickson quer polir o seu latim porque o latim do direito canónico não lhe serve bem para os hinos do Breviário.

Não é nenhum mistério que Gullickson esteja cansado do seu cargo e planeie aposentar-se depois que a diocese de Chur receba um novo Bispo. As suas listas de candidatos foram rejeitadas várias vezes. Uma nova lista de candidatos anti-Igreja foi compilada nas suas costas. Parece conter o nome do abade de Einsiedeln. A eleição pelo capítulo da catedral está prevista para o final do Verão.

in gloria.tv


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domingo, 2 de agosto de 2020

Sobre a celebração da Missa - Santo Afonso Maria de Ligório

1º. Importância do santo Sacrifício e cuidado que ele exige do padre

Todo o pontífice eleito dentre os homens é estabelecido a favor dos homens, para desempenhar as funções do culto divino, e oferecer dons e sacrifícios em expiação dos pecados. Oferecer sacrifícios, eis pois o fim para que Deus colocou o padre na sua Igreja; é propriamente a função dos sacerdotes da lei da graça, aos actuais foi dado o poder de oferecer o grande sacrifício do Corpo e Sangue do próprio Filho de Deus; sacrifício supremo e perfeito, infinitamente acima dos sacrifícios antigos, que outro mérito não tinha outrora senão o de serem desse a sombra e figura. As vítimas que então se imolavam eram novilhos e bodes; hoje a nossa Vítima é o Verbo eterno feito homem.

Por isso mesmo, os sacrifícios da lei antiga não tinham poder algum; também o apóstolo os chama observâncias defeituosas e incapazes; o nosso, ao contrário, tem o poder de operar a remissão das penas temporais devidas ao pecado, e além disso - ao menos mediatamente, - de aumentar a graça e obter socorros mais abundantes àqueles por quem é oferecido.

O padre que não está compenetrado da grandeza do sacrifício da missa, jamais o oferecerá como deve. Nada fez de maior na terra Jesus Cristo. É a missa a acção mais santa e mais agradável a Deus que se pode realizar, tanto em razão da Vítima oferecida, que é Jesus Cristo, Vítima duma dignidade infinita, como em razão do sacrificador principal, que é o mesmo Jesus Cristo, a oferecer-se pela mão dos sacerdotes, como no-lo ensina o Concílio de Trento. E São João Crisóstomo diz paralelamente: Quando virdes o sacerdote a oferecer o sacrifício, não penseis no padre, representai-vos antes a mão de Jesus Cristo que obra dum modo invisível.

Todas as honras que têm prestado a Deus os anjos com as suas homenagens, e os homens com as suas virtudes, austeridades, martírios e santas obras, não podem render a Deus tanta glória como uma só missa; porque todas as homenagens das criaturas são finitas, ao passo que a que se presta a Deus com o sacrifício dos nossos altares, é dum valor infinito, por lhe ser prestada por uma pessoa divina. Necessário é pois reconhecer com o Concílio de Trento que a missa é de toda as obras a mais santa e divina.

É pois o sacrifício da missa a obra mais santa e agradável a Deus, como acabamos de ver; é a obra mais capaz de aplacar a cólera de Deus contra os pecadores e abater as forças do inferno; é a obra que obtém graças mais abundantes para os homens na terra, e maior alívio para as almas do Purgatório; é finalmente a obra a que está ligada a salvação do mundo inteiro, segundo o pensamento de Santo Odon, abade de Cluni. E Timóteo de Jerusalém diz que é à missa que a terra deve a sua conservação; a não ser ela, os pecados dos homens a teriam há muito aniquilado.

Segundo São Boaventura, em cada missa faz o Senhor ao género humano um benefício não inferior ao que lhes dispensou, fazendo-se homem. O que é conforme com a célebre exclamação de Santo Agostinho: Ó dignidade venerável a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna, como encarnou no seio da Virgem! De mais, não sendo o sacrifício do altar senão a aplicação e renovação do sacrifício da cruz, Santo Tomás ensina que, para o bem e salvação dos homens, tem cada missa toda a eficácia do sacrifício da cruz. E São João Crisóstomo escreveu: A celebração da missa tem o mesmo valor que a morte de Jesus Cristo na cruz. A Igreja plenamente confirma esta verdade, quando diz nas suas orações: Cada vez que se celebra no altar a memória deste sacrifício, renova-se a obra da nossa redenção. De fato, ajunta o Concílio de Trento, o mesmo Redentor, que se ofereceu por nós na cruz, é quem se oferece no altar por ministério dos sacerdotes.

Numa palavra, segundo a expressão do profeta Zacarias, é a missa o que há de mais excelente e belo na Igreja: Que há de bom, que há de belo, senão o pão dos escolhidos e o vinho que gera virgens? No sacrifício da missa, dá-se Jesus Cristo a nós, mediante o sacramento do altar, que é o fim e consumação de todos os outros sacramentos, como ensina o Doutor angélico. Razão tem pois São Boaventura em chamar à missa o resumo de todo o amor divino e de todos os benefícios de que o Senhor há cumulado os homens. Eis por que o demónio sempre se tem esforçado por arrebatar ao mundo a santa missa por meio dos hereges, como por tantos outros precursores do Anticristo que, antes de tudo, cuidará de abolir e de fato abolirá, em punição dos pecados dos homens, o sacrifício do altar, segundo esta profecia de Daniel: Por causa dos pecados, ser-lhe-á dada força contra o sacrifício perpétuo.

Grande razão tem pois o Concílio de Trento para exigir que os padres ponham todo o seu cuidado, em celebrar a missa com a máxima devoção e pureza de coração que seja possível. Como não menos razão adverte no mesmo lugar, que é precisamente sobre os padres, que celebram com negligência e sem devoção, que recai a maldição anunciada por Jeremias: Maldito o que faz indignamente a obra do Senhor! Segundo São Boaventura, celebra-se ou comunga-se indignamente, quando se chega ao altar com pouco respeito e consideração. Assim, para evitarmos essa maldição, examinemos o que deve fazer o padre antes, durante e depois da celebração da missa: preparação, antes de celebrar; respeito e devoção, enquanto celebra; acção de graças, depois de celebrar. São obrigações indispensáveis para o sacerdote. Segundo o pensamento dum servo de Deus, deveria a vida dum padre ser apenas uma preparação para a missa e uma acção de graças.

2º. Preparação para a Missa

Em primeiro lugar, deve o padre fazer a sua preparação antes de subir ao altar.

Antes de mais nada, pergunto a mim mesmo como é que, havendo no mundo tantos padres, haja tão poucos santos? A missa é chamada por São Francisco de Sales um mistério inefável, que encerra um abismo de caridade divina. Além disto, São João Crisóstomo dizia que o sacramento do altar contém o tesouro inteiro da bondade de Deus. Sem dúvida a sagrada Eucaristia foi instituída para todos os fiéis, mas é um dom especialmente feito aos padres. Não vades, diz o Senhor aos padres, dar a coisa santa aos cães, nem lançar as vossas pérolas a suínos. Notem-se estas palavras: As nossas pérolas. Dá-se em grego o nome de pérolas às espécies sacramentais; e essas pérolas são apontadas aqui como pertença própria dos ministros do altar: Margaritas vestras. Sendo assim, todos os padres deveriam, segundo São João Crisóstomo, descer do altar com um coração todo abrasado do amor divino, a ponto de serem um objeto de terror para o inferno.

Mas não é isso o que se vê: observa-se que a maior parte descem do altar sempre mais tíbios, mais impacientes, mais soberbos, mais invejosos, mais apegados às honras, ao interesse e aos prazeres terrenos. Não é por falta do alimento que tomam no altar, nota o cardeal Bona, porque, no dizer de Santa Maria Madalena de Pazi, bastaria recebê-lo uma só vez para ficar santo; é pela falta de preparação para celebrar a missa.

Há duas espécies de preparação: uma remota e outra próxima.

A preparação remota consiste na vida pura e virtuosa, que deve ter o padre para celebrar dignamente. Se dos sacerdotes antigos Deus exigia a pureza, só porque deviam transportar os vasos sagrados, - quanto não deverá ser mais puro e santo, observa Pedro de Blois, o padre que deve trazer nas suas mãos e no seu coração o Verbo encarnado! Mas, para ser puro e santo, não lhe basta estar livre das cadeias do pecado mortal, é necessário que esteja isento de pecados veniais; (plenamente deliberados, entende-se) de contrário, Jesus Cristo não o admitirá a ter parte consigo. Guardemo-nos, diz São Bernardo, de fazer pouco caso dessas faltas; pois, como foi dito a Pedro, se não formos purificados por Jesus Cristo, não teremos parte com ele . Necessário é portanto que todas as acções e todas as palavras do padre, que quer celebrar missa, sejam bastante santas, para lhe servirem de preparação.

A preparação próxima exige primeiramente a oração mental. Como quereis que celebre com devoção a santa missa o sacerdote, que sobe ao altar sem primeiro ter feito a sua meditação? Dizia o venerável João de Ávila que o padre deve fazer ao menos hora e meia de oração mental antes da missa. Eu me contentaria com meia hora e, para alguns até com um quarto de hora, ainda que um quarto de hora é muitíssimo pouco.

Há tão belos livros de meditações preparatórias para a santa missa! A missa é uma representação da paixão de Jesus Cristo. Por isso com razão o papa Alexandre I disse que sempre nela se deve comemorar a paixão do Salvador. E foi o que prescreveu o Apóstolo: Todas as vezes que comerdes esse pão e beberdes esse cálice, anunciareis a morte do Senhor. Segundo Santo Tomás, o Redentor instituiu o sacramento do altar, para conservar sempre viva em nós a lembrança do amor que nos testemunhou, e do grande benefício que nos alcançou a sua imolação na cruz. Ora, se todos os homens se devem lembrar continuamente da paixão de Jesus Cristo, - com quanta mais razão o padre, quando vai renovar, ainda que dum modo diferente, o mesmo sacrifício no altar!

Ao padre não lhe basta ter feito a sua meditação; importa-lhe que antes de celebrar se recolha sempre ao menos alguns instantes e considere bem o que vai fazer; foi o que ordenou a todos os padres o primeiro Concílio de Milão, no tempo de São Carlos Borromeu.

Ao entrar na sacristia, deve o celebrante despedir-se de todos os pensamentos do mundo e dizer com São Bernardo: Cuidados, negócios, esperai por mim aqui; eu e o meu servo, isto é a minha razão com a minha indigência, vamos ali adorar a Deus, e logo voltaremos a ter convosco; pois voltaremos, ai!, e demasiado cedo. São Francisco de Sales escrevia a Santa Joana de Chantal: "Quando me volto para o altar para começar a missa, perco de vista todas as coisas da terra". Postos de parte pois todos os pensamentos do mundo, não deve o padre ocupar-se então senão da grande obra, que vai fazer e do pão celeste, de que vai alimentar-se a essa mesa divina: Quando estiveres sentado à mesa do príncipe, considera atentamente as iguarias que te são servidas.

Pense o padre que vai chamar do Céu à terra o Verbo feito homem, para se entreter familiarmente com ele no altar, para o oferecer de novo ao Padre eterno, e para enfim se alimentar da sua carne sagrada.

O venerável João de Ávila, antes de subir ao altar, procurava excitar-se ao fervor, dizendo: "Eis que vou consagrar o Filho de Deus, tê-lo nas minhas mãos, falar-lhe, tratar com ele e recebê-lo no meio seio".

Deve também o padre considerar que sobe ao altar na qualidade de mediador, para interceder por todos os pecadores, como diz São Lourenço Justiniano. Se está colocado entre Deus e os homens, de Deus obterá para estes as graças de que necessitam. É por essa razão, observa Santo Tomás, que se dá o nome de missa ao sacrifício do altar. Na Lei antiga, só ao sumo sacerdote era permitido entrar no Santo dos Santos, e isso uma só vez por ano; mas hoje, diz São Lourenço Justiniano, a todos os padres é dado oferecer cada dia o Cordeiro divino, para obterem para si próprios e para todo o povo as graças de Deus. Donde São Boaventura conclui que o celebrante se deve propor três fins: honrar a Deus, comemorar a paixão do Salvador, e obter graças para toda a Igreja.

3º. Respeito e devoção com que se deve celebrar

Em segundo lugar, é necessário que o sacerdote celebre a missa com respeito e devoção. Sabe-se que o uso do manípulo foi introduzido, para que o padre enxugasse as lágrimas; porque outrora tais sentimentos de devoção experimentavam os sacerdotes, ao celebrarem, que não faziam senão chorar. Já dissemos que o padre ao altar é o representante do próprio Jesus Cristo, como escreveu São Cipriano. É nesta qualidade que diz: Hoc est corpus meum; hic est calix sanguinis mei.

Mas, ó Céu! Que lágrimas, que lágrimas de sangue se deveriam chorar, quando se pensa no modo como a máxima parte dos padres celebram a missa! Causa pena, digamo-lo, ver o desprezo com que Jesus Cristo é tratado por tantos padres, até religiosos, e pertencentes a Ordens reformadas! Ao ver-se a negligência com que esses padres de ordinário dizem a missa, bem se lhes poderia fazer a censura que Clemente de Alexandria dirigia aos sacerdotes pagãos: que faziam do Céu um teatro, e de Deus o objeto da sua comédia.

E que direi? Uma comédia! Ó, se eles tivessem um papel a representar no teatro, que cuidado empregariam! Ao contrário, que fazem eles ao altar? Truncam palavras, fazem genuflexões que mais parecem actos de desprezo e faltas de respeito; traçam bênçãos que não se sabe o que são; esboçam gestos ridículos; falam às rubricas, antecipando cerimónias e misturando-lhes palavras. E no entanto a verdade é que essas rubricas todas são de preceito, por isso que São Pio V, na bula que pôs à frente do missal, manda districte, in virtute sanctae obedientiae, que a missa seja celebrada segundo as rubricas do missal. Donde resulta que quem transgride as rubricas não pode eximir-se de pecado, que será grave desde que a matéria o seja.

Tudo isso procede do desejo de chegar de pressa ao fim da missa. Celebram-na como se a igreja estivesse a desabar, ou como se os bandidos se avizinhasse e não restasse tempo para a fuga.

Eis um padre que, depois de ter dado horas inteiras a uma vida inútil, ou a negócios mundanos, lá vai a celebrar a missa todo apressado!

Começa com precipitação, prossegue do mesmo modo; chega à Consagração, toma Jesus Cristo nas suas mãos, e comunga-o com tanta irreverência como se ali só houvesse um bocado de pão! Seria necessário que tais padres sempre tivessem ao seu lado alguém, para lhes dizer o que um dia o venerável João de Ávila, chegando-se ao altar em que celebrava um desses, lhe disse: "Por piedade tratai-o melhor, que é o filho dum pai respeitável".

Queria o Senhor que os sacerdotes da Lei antiga tremessem de santo respeito ao aproximarem-se do santuário. E um sacerdote da Lei nova, achando-se ao altar, em presença do próprio Jesus Cristo, a falar-lhe, a tomá-lo nas suas mãos, a oferecê-lo a Deus-Pai, a alimentar-se dele, - mostra-se tão irreverente! Na Lei antiga, ameaçou o Senhor com muitas maldições os sacerdotes que fossem negligentes nas cerimónias desses sacrifícios, que eram apenas uma mera figura do nosso: Se cerrares os ouvidos à voz do Senhor teu Deus, que te manda guardar as cerimónias, virão sobre ti todas estas maldições... Serás maldito na cidade e maldito nos campos. Dizia Santa Teresa: "Pela mínima cerimónia da Igreja, daria eu mil vezes a minha vida". E o padre as despreza! Ensina o Padre Suarez que a omissão de qualquer cerimónia, na missa, não pode escusar-se de pecado.

Muitos doutores ajuntam que uma negligência notável nas cerimónias pode chegar a pecado mortal.

Na nossa Teologia moral demonstramos, com a autoridade de muitos doutores, que o que celebra em menos de um quarto de hora não pode escusar-se de falta grave, e isto por duas razões: primeira, por causa da irreverência contra o sacrifício, resultante da sua precipitação; segunda, por causa do escândalo que dá ao povo.

Quanto ao respeito devido ao divino sacrifício, já citamos o que diz o Concílio de Trento: que a missa deve ser celebrada com a máxima devoção possível. E ajunta que a falta de respeito, mesmo exterior, constitui uma irreverência, que de algum modo chega a ser impiedade. Assim como as cerimónias, quando são bem feitas, infundem e significam respeito; também quando são mal executadas denotam irreverência que, em matéria grave, é um pecado mortal. Deve-se notar além disto que, para nas cerimónias haver o testemunho de respeito, que convém a um tão grande sacrifício, não basta fazê-las; porque uma pessoa qualquer poderia ter a língua assás desembaraçada e os movimentos bastante livres para expedir tudo isso em menos de um quarto de hora; mas é preciso que sempre sejam feitas com a gravidade conveniente, que pertence também intrinsecamente ao respeito que se deve ter pela missa.

Por outro lado, celebrar a missa em tão pouco tempo é falta grave, em razão do escândalo que se dá aos fiéis que assistem a ela. Sobre este ponto, é necessário considerar ainda o que noutro lugar diz o Concílio de Trento: que as cerimónias da missa foram instituídas pela Igreja, para inspirar aos fiéis uma alta ideia deste augusto sacrifício, e toda a veneração devida aos divinos mistérios que encerra. Ora, quando estas cerimónias são feitas muito à pressa, nenhuma veneração inculcam ao povo, antes lhe fazem perder o respeito que merece um mistério tão santo. Observa Pedro de Blois que os padres que celebram com pouco respeito, dão ocasião a que os fiéis façam pouco caso do Santíssimo Sacramento. Não se pode dar um tal escândalo sem se incorrer em pecado mortal.

Também o Concílio de Tours, em 1583, mandou que os sacerdotes fossem bem instruídos nas cerimónias da missa, para não destruírem a devoção no coração das suas ovelhas, em vez de as levarem à veneração pelos ministérios sagrados.

Celebrando sem devoção, - como querem esses padres obter de Deus graças, sendo certo que ao oferecerem o santo sacrifício, o ofendam e, quanto deles depende, mais o desonram do que o honram? O padre que não acreditasse no Sacramento do altar, sem dúvida ofenderia a Deus; mas quanto mais o ofende o que nele crê e não só lhe recusa o respeito que lhe é devido, senão que ainda é causa de que outros, à vista da sua conduta, lhe percam igualmente o respeito? Os judeus a princípio respeitaram Jesus Cristo, mas, quando o viram desprezado pelos sacerdotes, perderam então a alta ideia que tinham dele, e acabaram por gritar com os sacerdotes: Tolle, tolle, crucifige eum! Do mesmo modo, para não sairmos do nosso assunto, os seculares que hoje vêem os padres a celebrar com tanta irreverência, perdem toda a estima e veneração por este divino mistério.

Uma missa, celebrada com recolhimento, inspira devoção aos assistentes; pelo contrário, faz-lhes perder a devoção e quase a fé também, quando celebrada sem piedade. Eis um fato passado em Roma e que me foi contado por um religioso de todo o crédito. Tinha um herege resolvido renunciar aos seus erros; mas, tendo visto celebrar a missa sem devoção, foi ter com o papa e disse-lhe que não queria abjurar, porque estava persuadido de que nem os padres nem o papa tinha na Igreja católica uma fé verdadeira: "Se eu fosse papa, dizia ele, e soubesse que um padre celebrava a missa com tão pouco respeito, mandava-o queimar vivo; ao ver porém que os padres dizem assim a missa e não são castigados, persuado-me de que nem o próprio papa acredita nela". Dito isto, retirou-se, e não consentiu que lhe falassem mais em abjuração.

Mas objectam certos padres que os leigos se queixam, quando a missa se prolonga. - O quê! Então, lhes respondo eu de pronto, a pouca devoção dos seculares há de ser a regra do respeito devido ao santo sacrifício! Ouçam mais: se os padres celebrassem a missa com o devido respeito e gravidade, os seculares se compenetrariam da veneração a prestar a tão grande mistério, e não lamentariam a meia hora que lhe devessem consagrar. Como porém, de ordinário, a missa é tão breve e nenhuma devoção inspira, os seculares à imitação dos padres, assistem a ela sem devoção, e com pouca fé; quando vêem que ela dura mais de um quarto de hora, aborrecem-se e queixam-se, em razão do mau hábito contraído.

Assim, os mesmos que sem dificuldade passam muitas horas a uma mesa de jogo, ou numa praça pública, desperdiçando o tempo, não podem sem tédio gastar uma meia hora a ouvir missa! A causa de tudo isso são os padres: É convosco que falo, ó sacerdotes, que desonrais o meu nome e dizeis: Como desonramos nós o vosso nome? Nisso que dizeis: A mesa do Senhor é de pouca importância. O pouco que os padres se importam do respeito devido à missa, faz que também os outros a desprezem.

Pobres padres! Ao saber que um sacerdote acabava de morrer após a sua primeira missa, o venerável João de Ávila exclamou: "Ó que terrível conta esse padre tem de prestar a Deus, por essa primeira missa!" À vista disso, que se deverá dizer dos padres que, no decurso de trinta ou quarenta anos, cada dia deram ao altar o escândalo de que vimos falando! E, repito, - como poderão tais padres tornar o Senhor propício e obter graças da sua misericórdia, celebrando a missa de modo antes a ultrajá-lo que a honrá-lo? Todos os crimes são expiados pelo sacrifício, diz o papa Júlio, mas por que oferenda se há de reparar a ofensa feita ao Senhor, se é na mesma oblação do sacrifício que se peca? Pobres padres! E pobres bispos que permitem a tais padres celebrarem! Segundo o decreto do Concílio de Trento, são os bispos obrigados a impedir as missas celebradas com irreverência.

Notem-se estas expressões: Prohibere curent ac teneantur; significam elas que os bispos estão obrigados a suspender os que celebram sem respeito conveniente; e esta obrigação tanto abrange os sacerdotes regulares como os outros, visto que os bispos a esse respeito são constituídos pelo Concílio legados apostólicos, e por isso obrigados a vigiar pelas missas que se dizem nas suas dioceses.

E nós, padres, irmãos meus, cuidemos de nos corrigir: se no passado temos celebrado o santo sacrifício com pouca devoção e respeito, atalhemos ao mal, ao menos daqui para o futuro. Antes de celebrar, pensemos no que vamos fazer: é a acção maior e mais santa que um homem pode realizar. Demais, que grande bem é uma missa celebrada com devoção, grande bem para o celebrante, e para os ouvintes! - Eis como João Herolt, de sobrenome o Discípulo, fala aos que assistem à missa: Quando fazeis a vossa oração na igreja, na presença de Deus, mais seguramente ela é ouvida... porque todo o sacerdote está obrigado a orar pelos assistentes em cada missa.

Ora, se a oração dum secular, quando feita em união com a do celebrante, é mais prontamente ouvida de Deus, quanto mais ainda a do próprio sacerdote, se celebra com devoção! Um padre que oferece todos os dias o santo sacrifício com alguma devoção, há de receber sempre de Deus novas luzes e novas forças.

Jesus Cristo o instruirá, o consolará, o animará cada vez mais, e lhe concederá as graças que deseja.

É sobretudo depois da consagração que o padre pode estar seguro de conseguir do Senhor todas as graças que pede. O venerável Padre António Colelis dizia: "Quando celebro e tenho o meu Jesus nas minhas mãos, consigo dele quanto quero". O celebrante obtém o que quer para si e para os que assistem à missa. Lê-se na Vida de São Pedro de Alcântara que as missas fervorosas que celebrava produziam mais fruto, que todos os sermões dos pregadores da província em que estava. Quer o Concílio de Rodez que os padres pronunciem as palavras e façam as cerimónias com uma devoção, que dê testemunho da sua fé e amor para com Jesus Cristo, presente no altar. A compostura exterior, diz São Boaventura, manifesta as disposições interiores do celebrante.

Recorde-se aqui de passagem o que ordenou Inocêncio III: Nós ordenamos também que os oratórios, os vasos, corporais e alfaias sagradas se conservem em perfeita limpeza; porque é de todo o ponto contrário ao bom senso abandonar as coisas santas a uma imundícia, que não se sofria nem mesmo nas coisas profanas. Ai! Tinha o papa toda a razão para assim falar, porque se encontram padres que não se envergonham de celebrar com corporais, sanguinhos e cálices, de que não quereriam servir-se à sua mesa.

4º. Acção de graças

Em terceiro lugar, depois da celebração do santo sacrifício, é necessário render graças a Deus. Esta acção de graças deve estender-se ao dia inteiro. Exigem os homens que lhes sejamos reconhecidos e correspondamos aos mínimos favores que nos fazem, nota São Crisóstomo; quanto pois não devemos ser reconhecidos a Deus, que de nós espera, não uma retribuição, mas um ato de agradecimento, e isso somente para nosso bem! Se não podemos, ajunta ele, agradecer-lhe na medida da sua dignidade, agradeçamos-lhe ao menos quanto pudermos.

Mas que pena, que desordem ver tantos padres que, depois da missa, apenas recitam algumas breves orações na sacristia, sem atenção nem devoção, e logo falam de coisas inúteis ou de negócios mundanos, ou até saem da Igreja e vão levar Jesus Cristo ao meio das ruas! Seria necessário proceder sempre com eles, como um dia o venerável João de Ávila: ao ver que um padre saia da Igreja logo depois de celebrar, fê-lo acompanhar de dois clérigos com círios acessos. Perguntou-lhes o padre o que significava aquilo, e eles responderam: "Acompanhamos o Santíssimo Sacramento, que levais ao vosso peito". Bem se podia dizer a tais padres o que São Bernardo um dia escreveu ao arcedíago Foulques: Ai! Como tão depressa vos enfastiais da companhia de Jesus Cristo, que tendes dentro de vós?

Há muitos livros de piedade que recomendam a acção de graças depois da missa, mas quantos são os padres que cumprem este dever? Poderiam apontar-se ao dedo. Fazem alguns a oração mental, e recitam ainda muitas orações vocais; mas depois da missa poucos instantes se entretém com Jesus Cristo, ou até se dispensam disso por completo. Se ao menos o fizessem enquanto as espécies consagradas se conservam no seu estômago! Dizia o venerável João de Ávila que se deve considerar comi infinitamente precioso o tempo que se segue à missa; por isso ele de ordinário, a seguir à missa, passava duas horas recolhido em piedosos entretenimentos com Deus.

Depois da comunhão, dispensa o Senhor as suas graças em mais abundância. Dizia Santa Teresa que Jesus Cristo está então na alma como num trono de graça e lhe diz: Quid vis ut tibi faciam? Recordemos também o que ensinam Suarez, Gonet e outros doutores, - que a alma aufere da comunhão tanto maior fruto, quanto melhor se dispuser por actos de piedade, durante a permanência das espécies sacramentais. A razão é que este divino Sacramento, tendo sido instituído à maneira de alimento, declara o Concílio de Florença que, assim como os alimentos corpóreos sustentam o corpo segundo o tempo que permanecem no estômago, também o Pão celestial continua a alimentar de graças a alma, enquanto permanece no corpo, contanto que as boas disposições do comungante prossigam.

Além disto, os actos de virtude têm então mais valor e merecimento, em razão da alma estar mais unida com Jesus Cristo, que assim o declara: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu permaneço nele.

Então, diz São João Crisóstomo, o comungante forma uma só e mesma coisa com Jesus Cristo. Deste modo, são mais meritórios os actos, por serem praticados por uma alma unida a Jesus Cristo.

Mas, por outro lado, não quer o Senhor que as suas graças se percam, prodigalizando-as a ingratos, segundo a expressão de São Bernardo. Tenhamos pois cuidado de nos entretermos com Jesus Cristo depois da missa, ao menos durante uma meia hora, ou o mínimo um quarto de hora; mas, ai!, um quarto de hora é muitíssimo pouco. Devemos considerar que o padre, desde o dia da sua ordenação, não é de si próprio, mas de Deus. E o próprio Senhor disse: Hão de oferecer ao Senhor, seu Deus, o incenso e o pão; e por consequência serão santos.

5º. O padre que se abstém de celebrar

Há padres que se abstém de celebrar por humildade; uma palavra sobre este assunto. Abster-se de celebrar por humildade é bom, mas não é o que há de melhor: os actos de humildade prestam a Deus uma honra finita, o sacrifício da missa rende-lhe uma honra infinita, que lhe é prestada por uma Pessoa divina. Ouçamos o que diz São Boaventura: Quando o padre deixa de celebrar, sem impedimento legítimo, faz quanto pode para privar a santíssima Trindade da glória que lhe é devida, os anjos de uma grande alegria, os pecadores do perdão, os justos de auxílios, as almas do Purgatório de alívio, a Igreja de um grande bem e a si próprio de remédio.

Achava-se São Caetano em Nápoles, quando soube que em Roma, um seu amigo cardeal, que costumava celebrar todos os dias, impedido por certos negócios, começava a descurar este dever. Era na força do calor do estio, mas o santo, com risco da própria vida, deu-se pressa em ir a Roma instar com o seu amigo, para que retomasse o antigo costume; e só depois de conseguido o que desejava voltou para Nápoles. Eis o que se lê na Vida do venerável João de Avila. Indo um dia a caminho para celebrar num ermitério, sentiu-se tão enfraquecido, que temeu não chegar ao lugar, donde estava ainda bastante distanciado; pensava já em suspender o passo e desistir de celebrar, quando Jesus Cristo lhe apareceu em figura de viageiro e, mostrando-lhe o seu peito, lhe fez ver as chagas, sobretudo a do sagrado lado e lhe disse: "Quando eu estava coberto destas chagas, encontrava-se mais fatigado e enfraquecido que tu"; e desapareceu.

Reanimando com esta visão, o servo de Deus retomou a marcha e teve a felicidade de oferecer o santo sacrifício.

Santo Afonso Maria de Ligório in 'A Selva'


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O respeito devido à Santa Missa

"O pouco que os Padres se importam do respeito devido à Missa faz com que os outros também a desprezem." 


Santo Afonso Maria de Ligório


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sábado, 1 de agosto de 2020

Como obter a 'Indulgência da Porciúncula' ou 'Perdão de Assis'

A 'Indulgência da Porciúncula', ou 'Perdão de Assis', pode ser recebida por qualquer peregrino que visite essa pequena igreja na Basílica de Assis. No dia 2 de Agosto essa possibilidade estende-se ao resto do mundo, por isso qualquer fiel, esteja onde estiver, pode receber esta indulgência

As 5 condições são:


1. Visitar uma igreja no dia 2 de Agosto, fazendo uma visita espiritual à igreja da Porciúncula, renovando a profissão de fé através da recitação do Credo, para reafirmar a identidade cristã;

2. Ouvir a Santa Missa e comungar neste dia;

3. Rezar pelas intenções do Santo Padre, neste dia. Normalmente reza-se um Pai-Nosso, uma Avé-Maria e um Glória, no entanto pode ser rezada qualquer oração com a referida intenção.

4. Confessar-se no período desde 8 dias antes a 8 dias depois desta data;

5. Ter ódio ao pecado, não só mortal mas também venial.


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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Santo Inácio de Loyola revela as ciladas do demónio


6. Quando o demónio for descoberto pela sua cauda serpentina, isto é, pelo fim pernicioso a que nos quer levar, será útil considerar os pensamentos que nos sugeriu, examinar-lhes o princípio e ver como, pouco a pouco, nos fez perder a alegria espiritual até nos levar à sua perversa intenção. A fim de que, pela experiência alcançada, nos acautelemos para o futuro de suas costumadas fraudes.

12. O inimigo procede como uma mulher, mostrando-se fraco contra o forte, e forte contra o fraco. Assim como é próprio da mulher, quando luta com algum homem, perder a coragem e fugir, se o homem se mostra corajoso; e, ao contrário, se o homem se mostra cobarde e tímido, a ira da mulher chega até ao excesso: do mesmo modo costuma o nosso inimigo enfraquecer e fugir, se aquele que se exercita nas coisas espirituais lhe resiste varonilmente e se opõe diametralmente às suas sugestões; se, pelo contrário, aquele que se exercita, começa a ter medo e a perder a coragem em lhe resistir, não há fera no mundo mais terrível, que este inimigo da natureza humana.

13. Porta-se também o demónio como um falso amante, que não quer ser descoberto. Assim como um homem que, procurando seduzir, com suas ilusórias palavras, a filha dum pai honesto, ou a esposa dum marido honrado, lhes propõe silêncio e pede segredo para que suas pérfidas insinuações não cheguem aos ouvidos do pai ou do marido, pois desfazer-se-ia toda a sua tentativa: assim quer o inimigo que as falazes propostas, que segreda à alma justa, fiquem ocultas e não sejam manifestadas ao confessor ou a uma pessoa espiritual que conheça bem seus embustes, pois perderia toda a esperança de consumar a sua malícia ao ver descobertos todos os seus artifícios.

14. Porta-se também o demónio como um general, quando quer apoderar-se duma fortaleza. Pois, à semelhança dum comandante ou chefe militar que, depois de assentar os arraiais, explora as fortificações e obras de defesa, para saber qual é a parte mais fraca, para começar por ela o ataque: assim o maligno espírito anda rondando em volta de nós para explorar as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, a fim de começar por onde nos achar mais fraco, e nos render.

Regras para o discernimento dos espírito (II parte) - Exercício Espirituais de Santo Inácio


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Breve biografia de Santo Inácio de Loyola e a relação com os Beneditinos


Nasceu em Loyola, na Espanha do Norte, em 1491. Oitavo filho duma família de 13, entrou o jovem senhor de Loiola como pajem na corte de Fernando V. De natural ardente e belicoso, deixou-se seduzir pela carreira das armas.

Tendo sido gravemente ferido no cerco de Pamplona, deram-lhe na convalescença a ler, por falta de romances de cavalaria, a vida de Jesus Cristo e dos Santos. A leitura destes livros, que nunca lhe prendera os olhos, foi uma revelação para ele. Compreendeu que também a Igreja devia possuir uma milícia para defender, às ordens do representante de Jesus Cristo [o Papa], os interesses invioláveis do Deus dos exércitos. 

Colocou pois a espada aos pés da Virgem na célebre abadia beneditina de Monserrate, e a sua alma generosa que outrora se deixara empolgar pelas glórias do mundo, não aspirou daí por diante senão por trabalhar o mais possível pela glória do Rei dos Céus, a quem só iria doravante servir.

Na noite de 25 de Março, que se celebra o mistério da Anunciação e Incarnação do Verbo, fez a sua velada de armas e a Mãe de Deus armou-o cavaleiro de Cristo e da Igreja militante, sua esposa.

Dentro de pouco tempo, será o General dessa admirável Companhia de Jesus, suscitada por Deus para combater o protestantismo, o jansenismo e o paganismo renascente. Os filhos de S. Bento continuarão no alto da montanha a celebrar os louvores divinos, prelúdio da liturgia do Céu, os quais o Santo recomendava com insistência aos fiéis e a que nunca assistia sem chorar. E ele, sacrificando-se à nova missão de que o Senhor o incumbiu, descerá cá abaixo ao campo para fazer frente aos exércitos do inimigo, cujo embate o seu instituto é o primeiro sempre a experimentar.

Para conservar nos seus filhos aquela vida interior exigida pela actividade militante a que se devotam, Santo Inácio dotou-os duma forte estrutura hierárquica e deixou-lhes, como poderoso guia, um tratado magistral, recomendado altamente pela Santa Igreja, os ‹‹Exercícios Espirituais››, com que se têm santificado milhares de almas. Tem-se dito que foi no ‹‹Exercitatorum›› do abade beneditino Cisneros (1050) de Monserrate que o Santo se inspirou. De qualquer modo que seja, o certo é que os compôs em Manresa de maneira muito diferente e pessoal.

Santo Inácio arma os seus filhos com o escudo do nome de Jesus, dá-lhes por couraça o amor de Deus que o Salvador veio reacender na terra e por espada a palavra e a pena, o apostolado sobre todas as formas. Aos pés da Virgem, na Abadia beneditina de Monserrate, pegou Inácio a primeira vez nas suas novas armas, e em S. Dinis de Paris, dos beneditinos também, na festa da Assunção de 1539, e mais tarde no altar da Virgem da basílica de S. Paulo fora-dos-muros, servida pelos beneditinos, funda a Companhia de Jesus.

Em 1814, Pio VII, monge beneditino da abadia de Nossa Senhora de Cesena, restabelece a Companhia com todos os seus direitos. Foi Deus quem uniu aos pés da Virgem estas duas Ordens que tão poderosamente têm defendido a Igreja, porque Marta e Maria, a acção e a contemplação, contribuem ambas por meios diferentes para a glória de Deus. Por isso é que são tão semelhantes as divisas destas duas famílias religiosas: U.I.O.G.D. ‹‹Que em tudo Deus seja glorificado››. A.M.D.G. ‹‹Para maior glória de Deus››. Fazer tudo para glória de Deus e fazê-lo para a sua maior glória é o acume da santidade. 

É esta a finalidade da criação e da elevação do homem ao estado sobrenatural e dos conselhos evangélicos que arrastam do mundo as almas religiosas que se querem consagrar de modo mais perfeito ao serviço de Deus. Bento encheu a Europa de monges missionários, cujo múnus principal consiste na condigna celebração dos louvores divinos; Inácio, com os seus sacerdotes apóstolos, manifestam a sua vida interior na operosa actividade a que indefesamente se consagram. É a mesma árvore do amor de Deus, produzindo os mesmos frutos em ramos diferentes.

Quando Santo Inácio morreu em 31 de Julho de 1556, a Companhia contava já 12 províncias e 100 colégios. Peçamos a este grande Santo a graça de nos alcançar que os mistérios sacrossantos da Missa, fonte de toda a santidade, nos santifiquem no amor da verdade para que, combatendo na Terra a seu exemplo e com o auxílio da sua intercessão, mereçamos ser com ele coroados no Céu.

in Missal Quotidiano e Vesperal, Desclée de Brouwer, Bruges (1957)


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O 'Gato de Cheshire' e a decadência do Cristianismo liberal


O projecto para destruir o Cristianismo está em curso há mais de três séculos, mas foi só nos últimos 50 anos que os anticristãos descobriram a sua arma mais eficiente.

Este projecto teve o seu início cerca do ano 1700 com o aparecimento do deísmo como alternativa ao Cristianismo. Surgiram umas quantas variedades de deístas. Alguns (por exemplo Voltaire e Tom Paine) detestavam o Cristianismo. Outros (como Jefferson e Kant), não odiavam o Cristianismo, simplesmente consideravam-no um sistema de crenças inferior, um sistema que contém alguns belos princípios morais, mas também algumas superstições perniciosas. Voltaire tentou destruir o Cristianismo (apelando à eliminação “da coisa infame” – Ecraszez l’infame) fazendo troça dele, como no seu Dicionário Filosófico. 

E como era um homem com grande sentido de humor, até teve um certo sucesso. Jefferson tentou destruir o Cristianismo mostrando o quão porreiro Jesus era, desde que a sua imagem pudesse ser libertada das muitas superstições adicionais que os cristãos tinham afixado nele, como quem coloca decorações numa árvore de Natal. Vejam, nesse sentido, “A Vida e Moral de Jesus de Nazaré” que é, literalmente, uma edição de corta e cola do Novo Testamento.

Este tipo de ataque levou algumas pessoas a abandonar o Cristianismo, mas não muitas. Para ser afectado por críticas destas era preciso ler livros, e lê-los com alguma atenção. Por outras palavras, era preciso ser intelectual ou semi-intelectual.

Na segunda meta do século XIX surgiu outro grande ataque ao Cristianismo. Desta vez os anticristãos usaram a teoria de Darwin da evolução das espécies, a filosofia do agnosticismo de Spencer e a história crítica alemã da Bíblia para bater na velha religião. Mais uma vez, tratou-se de um ataque bastante intelectual, que apelava a pessoas que liam livros e artigos de revistas sérias. Contudo, devido ao grande crescimento da prosperidade económica durante o século XIX, o mundo tinha muito mais intelectuais e semi-intelectuais do que no século anterior. Por isso este ataque produziu muito mais deserções do Cristianismo. Não obstante, o Cristianismo continuaria, de longe, a ser o sistema de crenças dominante do mundo ocidental.

Um dos efeitos secundários deste ataque da era vitoriana foi o protestantismo liberal, que acreditava estar a adaptar o Cristianismo para o tornar mais apetecível ao homem moderno, mas que acabou por conduzir, nos primeiros sessenta e tal anos do século XX, a um grande número de deserções, algumas inconscientes, do protestantismo clássico. Um protestante liberal podia abandonar um após outro os artigos do Credo tradicional, tal como o nascimento virginal, a divindade de Cristo, a expiação e a Ressurreição, enquanto se continuava a apelidar de cristão e acreditar, mais ou menos honestamente, que o era. (Outro efeito secundário foi o Modernismo Católico, porém esse foi morto à nascença por Pio X).

Mas o maior golpe contra o Cristianismo, o golpe que parece ter sido em grande medida bem-sucedido no objectivo de reduzir o Cristianismo a um estatuto minoritário no mundo ocidental, foi a revolução sexual, que começou na década de 60. Não era preciso ser um intelectual ou um semi-intelectual para se participar na revolução sexual. Não era preciso ler livros ou artigos de revistas nem participar em conferências chiques.

Bastava cometer aquilo que o mundo cristão até então tinha chamado um pecado sexual e ao mesmo tempo sentir que o que tinha feito, longe de ser um pecado, era de facto um gesto bom. Nem sequer era preciso cometer este pecado pessoalmente, bastava dar a sua aprovação ao pecado em geral. A revolução foi só em parte uma alteração em grande escala do comportamento sexual. Em maior medida constituiu uma mudança na avaliação moral do comportamento sexual, transformando os sinais negativos em positivos.

Claro que o protestantismo liberal (a que se juntou, depois do Vaticano II, o Catolicismo neomodernista que tinha recuperado do golpe aparentemente mortal que lhe tinha sido infligido no início do século XX por Pio X) fez aquilo que faz melhor e disse que se podia ser um cristão mesmo enquanto se repudiava a moral sexual que remonta aos primórdios do Cristianismo. Num acto incrível de auto-ilusão, muitos protestantes e católicos conseguiram mesmo convencer-se de que isso é verdade. Mas este tipo de ilusão tem pouco poder de permanência. É tão claramente ridículo que não é o género de coisa que possamos passar a gerações futuras.

Vivemos numa era em que o Cristianismo, tal como o Gato de Cheshire – de Alice no País das Maravilhas – está gradualmente a apagar-se na maior parte dos países mais desenvolvidos do mundo. O Gato de Cheshire deixou apenas o seu sorriso. O Cristianismo liberal, seja protestante ou católico, também está a deixar para trás o que parece ser um sorriso, um sorriso que diz, “sou um grande fã de Jesus, o tipo porreiro cuja mensagem intemporal se resume às magníficas palavras, ‘não julgues para que não sejas julgado’”.

David Carlin in thecatholicthing.org (traduzido por 'Actualidade Religiosa')


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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Conferência em Lisboa sobre a Missa Tradicional



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Concílio de Trento sobre Matrimónio e Adultério

Se alguém afirmar que a Igreja erra quando ensinou e ensina que, segundo a doutrina evangélica e apostólica, o vínculo do matrimónio não pode ser dissolvido pelo adultério de um dos cônjuges e que nenhum dos dois, nem sequer o inocente que não deu motivo ao adultério, pode contrair outro matrimónio em vida do outro cônjuge, e que comete adultério tanto aquele que, repudiada a adúltera, casa com outra como aquela que, abandonado o marido, casa com outro, seja anátema.

Concílio Tridentino, Sess. XXIV c. 7


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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Santa Teresinha do Menino Jesus escreve sobre Santa Marta

Uma alma abrasada de amor não pode ficar inactiva. Sem dúvida que, como Santa Maria Madalena, ela permanece aos pés de Jesus, e escuta a sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, que se aflige com muitas coisas e que quereria que sua irmã a imitasse. 

Não são, de modo nenhum, os trabalhos de Marta que Jesus censura; a esses trabalhos se submeteu humildemente sua Mãe durante a vida, pois tinha de preparar as refeições da Sagrada Família. Era apenas a inquietação da sua ardente anfitriã que Ele queria corrigir.

Todos os santos o compreenderam, e mais particularmente talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da doutrina evangélica. Não foi acaso na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus beberam esta ciência divina que arrebata os maiores génios? 

Houve um sábio que disse: «Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo.» O que Arquimedes não pôde obter, porque o seu pedido não se dirigia a Deus, e por não ser feito senão sob o ponto de vista material, obtiveram-no os santos em toda a plenitude: o Todo-Poderosos deu-lhes como ponto de apoio Ele mesmo e Ele só; e como alavanca a oração, que abrasa com fogo de amor. E foi assim que levantaram o mundo; é assim que os santos que ainda militam na terra o levantam e que, até ao fim do mundo, os futuros santos o levantarão também.

Santa Teresinha do Menino Jesus in Manuscrito autobiográfico C, 36 r° - v°


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