quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Oração tradicional a São Miguel Arcanjo

Latim:

In Nomine Patris, et Filii et Spiritus Sancti. Amen.

Princeps gloriosissime caelestis militiae, sancte Michael Archangele, defende nos in proelio et colluctatione, quae nobis adversus principes et potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiae, in caelestibus.

Veni in auxilium hominum, quos Deus creavit inexterminabiles, et ad imaginem similitudinis suae fecit, et a tyrannide diaboli emit pretio magno. Proeliare hodie cum beatorum Angelorum exercitu proelia Domini, sicut pugnasti contra ducem superbiae Luciferum, et angelos eius apostaticos: et non valuerunt, neque locus inventus est eorum amplius in coelo. Sed proiectus est draco ille magnus, serpens antiquus, qui vocatur diabolus et satanas, qui seducit universum orbem; et proiectus est in terram, et angeli eius cum illo missi sunt.

En antiquus inimicus et homicida vehementer erectus est. Transfiguratus in angelum lucis, cum tota malignorum spirituum caterva late circuit et invadit terram, ut in ea deleat nomen Dei et Christi eius, animasque ad aeternae gloriae coronam destinatas furetur, mactet ac perdat in sempiternum interitum.

Virus nequitiae suae, tamquam flumen immundissimum, draco maleficus transfundit in homines depravatos mente et corruptos corde; spiritum mendacii, impietatis et blasphemiae; halitumque mortiferum luxuriae, vitiorum omnium et iniquitatum.

Ecclesiam, Agni immaculati sponsam, faverrimi hostes repleverunt amaritudinibus, inebriarunt absinthio; ad omnia desiderabilia eius impias miserunt manus. Ubi sedes beatissimi Petri et Cathedra veritatis ad lucem gentium constituta est, ibi thronum posuerunt abominationis et impietatis suae; ut percusso Pastore, et gregem disperdere valeant.

Adesto itaque, Dux invictissime, populo Dei contra irrumpentes spirituales nequitias, et fac victoriam.

Te custodem et patronum sancta veneratur Ecclesia; te gloriatur defensore adversus terrestrium et infernorum nefarias potestates; tibi tradidit Dominus animas redemptorum in superna felicitate locandas. Deprecare Deum pacis, ut conterat satanam sub pedibus nostris, ne ultra valeat captivos tenere homines, et Ecclesiae nocere.

Offer nostras preces in conspectu Altissimi, ut cito anticipent nos misericordiae Domini, et apprehendas draconem, serpentem antiquum, qui est diabolus et satanas, ac ligatum mittas in abyssum, ut non seducat amplius gentes. Amen.


Português:

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amen.

Ó gloriosíssimo Príncipe da milícia celeste, Arcanjo S. Miguel, defendei-nos na nossa luta e nosso combate contra os principados e as potestades, contra os governantes deste mundo tenebroso, contra a perversidade espiritual em lugares elevados.

Vinde em auxilio do homem, que Deus criou imortal, à sua imagem e semelhança, e resgatou por grande preço da tirania do diabo. Combatei neste dia a batalha do Senhor, junto com os santos anjos, como já haveis combatido o líder dos anjos orgulhosos, Lúcifer, e o seu exército apóstata, que não tinham poder para vos resistir, nem tinham mais lugar no Céu. Mas aquela antiga e cruel serpente, chamada de demónio ou Satanás, que seduz todo a orbe, foi mandada para o abismo com todos os seus anjos.

Eis que o primordial inimigo e assassino do homem se ergueu veementemente. Transformado em anjo da luz, ele vagueia com toda a multitude de espíritos malignos, invadindo a terra em ordem a extirpar dela o nome de Deus e do Seu Cristo, para, deleitando-se, matar e atirar para a perdição eterna as almas destinadas à coroa da eterna glória.

Este malvado dragão derrama, como torrente imunda, o veneno da sua malícia sobre o homem de mente depravada e coração corrompido; o espirito da mentira, da impiedade e da blasfémia; o odor pestilento da luxúria e de todo o vício e iniquidade.

Estes astutos inimigos encheram e inebriaram com ódio e amargura a Igreja, a esposa do Cordeiro Imaculado, e deitaram as suas mãos impiedosas sobre as suas posses mais sagradas. Onde se encontra a Sede do Santo Apóstolo Pedro e Cátedra da Verdade para ser luz do mundo, eles elevaram um trono da sua abominável impiedade, com o desígnio iníquo de que quando o Pastor é abatido, as ovelhas se dispersam.

Erguei-vos então, ó General invencível, auxiliai o povo de Deus contra os ataques que irrompem dos espíritos perdidos e trazei-nos a vitória.

A Santa Igreja venera-vos como protector e patrono; glorifica-vos como a sua defesa contra os poderes malignos deste mundo e do inferno; a vós Deus confiou as almas do homem para serem estabelecidas na beatitude celeste. Intercedei junto do Deus da paz para que Ele esmague Satanás sob os nossos pés, tão conquistado que não consiga mais prender os homens em cativeiro e magoar a Igreja.

Oferecei as nossas orações à vista do Altíssimo, para que elas possam rapidamente alcançar-nos as misericórdias do Senhor; e derrubando o dragão, a antiga serpente, que é o demónio e Satanás, tornai-o novamente cativo no abismo, para que ele não possa mais seduzir as gentes. Ámen


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Há 5 anos o Papa Bento XVI deixava o Vaticano

Foi no dia 28 de Fevereiro de 2013 que o Papa Bento XVI abandonou o Vaticano de helicóptero, viajando até Castel Gandolfo. Aí ficou enquanto decorreu o conclave, a eleição do Papa Francisco e as obras no Mosteiro Mater Ecclesiae. Foi para este local, dentro dos muros do Vaticano, que entretanto se mudou e viverá os últimos dias da sua vida. Rezemos pelo Papa Bento.


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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A Missa de Paulo VI: uma forma sem forma?

Elaborada no contexto teológico do fim dos anos sessenta, com as mentalidades religiosas dessa época,  a reforma litúrgica de Paulo VI não conseguiu cumprir as promessas optimistas que se prospectava, bem longe disso. No entanto, se muitos são os que hoje concordam em dizer que ela fracassou largamente, poucos são os que imaginam ser possível elaborar com precisão um balaço realista. Quanto a nós, fomo-nos empenhando em levar a cabo uma análise crítica de alguns dos rituais desta reforma: o do baptismo (carta 413), o da confirmação (carta 471) e o das exéquias fúnebres (carta 443).

Agora, gostaríamos de dirigir o nosso exame ao coração da reforma , a missa promulgada pela constituição apostólicaMissale Romanum, de 3 de Abril de 1969. Muitos foram os que o fizeram antes de nós, a começar pelos Cardeais Ottaviani e Bacci no seu “Breve exame crítico do Novus Ordo Missae”, logo em 1969, mas pareceu-nos oportuno contribuir aqui para uma reactualização dessas análises, agora que essa reforma se prepara para cumprir meio século de existência.

Dedicaremos a este esforço uma série de três cartas, considerando tanto o aspecto ritual, ou melhor dizendo, a-ritual, do novo missal –  que é o objecto desta primeira carta – como o seu conteúdo propriamente dito. De facto, o exame do novo missal faz aparecer desde logo um aspecto cerimonial realmente espantoso: em comparação com o missal anterior e com as demais liturgias católicas (orientais, ambrosiana, etc.), a nova missa romana já não é em bom rigor e verdadeiramente um rito. É como uma forma sem forma.

O conjunto ritual do cristianismo organizou-se ao longo da Antiguidade partindo do comando de Cristo: «Fazei isto em memória de Mim!», e das cerimónias de fracção do pão das comunidades apostólicas. Entre os séculos VI e XII, os ordines romani são testemunho do considerável desenvolvimento desse mundo cerimonial ao longo da Antiguidade tardia e da Alta Idade Média, paralelamente ao do rico tesouro da catequese patrística dessas mesmas épocas. Transmitida por mão da Idade Média monástica e das catedrais, esta herança foi zelosamente recolhida pela Roma da Contra-Reforma. Senhora de uma consciência agudíssima do facto de que a liturgia, e muito especialmente aquela romana, é veículo de uma tradução concreta do dogma no âmbito dos sacramentos e da oração (lex orandi, lex credendi), a época tridentina teve como especificidade no domínio do culto, a clarificação e a canonização do Ordo, isto é, da ordenação das cerimónias.

Chegados ao século XX, um duplo movimento, por um lado, de “regresso às fontes” – a saber, uma suposta recuperação das forma litúrgicas antigas para lá dos “acrescentos” e “sobrecargas” posteriores – e, por outro, de adaptação aos tempos presentes, tomou-se de antipatia com o “fixismo”  das regras litúrgicas, ao mesmo tempo, aliás, em que também se atacava o “fixismo” das formulações dogmáticas. O cuidado meticuloso com que os livros litúrgicos tradicionais ordenavam a liturgia nas respectivas rubricas (indicações relativamente à ordem a seguir nas cerimónias e que eram impressas a vermelho,rubrae) foi logo visto como algo totalmente em desuso. Esta explosão não levou mais do que poucos anos. 

Desde as primeiras etapas da reforma conciliar da missa, a criatividade extravasou, e a do topo (a Comissão para a Aplicação da Constituição sobre a Liturgia) foi exponencialmente multiplicada pela da base, como o ilustram bem os famosos “padres novos” de Michel de Saint-Pierre. As contínuas modificações que se foram sucedendo de 1964 (instrução Inter oecumenici) até 1968 – pense-se nas “rubricas de 1965”, imediatamente superadas pelas de 1967 (instrução Três abhinc annos) – davam a impressão de que, em matéria litúrgica, todas as normas eram evolutivas. Foi aí que sobreveio o missal de 1969, literalmente pulverizando todo o antigo universo ritual.

I – Um universo ritual pulverizado

O impacto de passar de um missal a outro, do ponto de vista das regras a seguir, causa um grande abalo: é como se passasse para um outro mundo. Em lugar dos gestos e posições do corpo estritamente determinados segundo uma prática imemorial, as novas rubricas passam a ser meras indicações genéricas – e, amiúde, tão-só simples sugestões. A tal ponto, que a aprendizagem da missa, que no caso dos sacerdotes que celebram a missa tradicional ocupa um amplo espaço concreto, já não existe nos actuais seminários onde se ensina a missa de Paulo VI. E o que vale para o rito vale para o sentido das traduções dos textos: uma certa liberdade pessoal é vista como legítima, e a indeterminação que daí resulta é considerada à guia de algo sem grande importância, ou até mesmo desejável, para melhor “se aderir à vida”.

Seja apenas um exemplo relativo ao início da celebração da missa:

a) Os gestos

- No missal tradicional: «O sacerdote sobe até ao centro do altar, sobre o qual depõe o cálice na direcção do lado do Evangelho, extrai o corporal da bolsa, que desdobra sobre a parte central do altar, e sobre ele coloca o cálice coberto com o véu, deixando a bolsa do lado esquerdo, etc. […] Desce os degraus até ao sopé, volta-se para o altar e permanece de pé ao centro, com as mãos juntas diante do peito, os dedos juntos e em riste, com o polegar direito cruzado sobre o esquerdo (o que sempre deve fazer quando junta as mãos, excepto após a consagração), a cabeça descoberta, tendo feito à cruz ou ao altar uma inclinação profunda, ou uma genuflexão, se o Santíssimo Sacramento estiver presente no sacrário, e inicia de pé a missa. […] Enquanto diz o Aufer nobis, o celebrante, de mãos juntas, sobe até ao altar, etc. […] Inclinado a meio do altar, com as mãos juntas postas sobre o altar, de modo a que os dedos mindinhos toquem a parte frontal do mesmo, enquanto os anulares se apoiam sobre a mesa do altar (o que sempre se deverá observar quando apoia as mãos juntas sobre o altar), etc. […] Ao proferir “os corpos cujas relíquias estão aqui”, beija o altar ao meio, com as mãos estendidas apoiando-se sobre o altar a igual distância de cada lado, etc. […] Na missa solene, coloca incenso no turíbulo por três vezes, enquanto diz: Ab illo benedicaris, “Sejais bendito por aquele”, etc.»

- No missal novo: «O sacerdote aproxima-se do altar e venera-o com um beijo. Logo a seguir, se parecer oportuno, incensaa cruz e o altar, andando em volta dele. […] Em seguida, o sacerdote, voltado para o povo e abrindo os braços, saúda-o,utilizando uma das fórmulas propostas.»

b) As palavras

- No missal tradicional: «Uma vez feita a devida reverência, faz o sinal da Cruz sobre si e, salvo se alguma rubrica particular dispuser de maneira diferente, diz em voz alta: In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen. Em seguida, de mãos juntas diante do peito, dá início à antífona: Introibo ad altare Dei. Os ministros respondem: Ad Deum qui lætificat juventutem meam. Em seguida, alternando com os ministros, diz: etc. (Sl 42) […] Enquanto sobe ao altar, diz em voz submissa: Aufer nobis … “Pedimos-vos, Senhor, afasteis de nós as nossas iniquidades, para que, com uma alma pura, mereçamos entrar no Santo dos Santos. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.” Em seguida, de mãos juntas apoiadas sobre o altar, diz: Oramus te, Domine, “Nós vos suplicamos, Senhor, pelos méritos dos vossos santos, (beijando o centro do altar)cujas relíquias aqui se encontram, e de todos os demais santos, vos digneis perdoar todos os nossos pecados. Amém.” Na missa solene, não se tratando de uma missa pelos defuntos, o celebrante, antes de iniciar a antífona do Intróito, abençoa o incenso dizendo: Ab illo benedicaris, etc.»

- No missal novo: [Após o sacerdote ter beijado o altar e o ter incensado, se assim o entender,] «Terminado o cântico de entrada, sacerdote e fiéis, todos de pé, benzem-se com o sinal da cruz. O sacerdote diz: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo [...] Amém.” Em seguida, o sacerdote, voltado para o povo e abrindo os braços, saúda-o, utilizando uma das [cinco] fórmulas propostas»,  por exemplo: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai, etc.” […] Pode também o próprio sacerdote ou outro ministro fazer aos fiéis uma introdução, com brevíssimas palavras, à Missa desse dia.»  Depois, «o sacerdote convida os fiéis ao acto penitencial com estas palavras ou outras semelhantes: “Irmãos: Para celebrarmos dignamente os santos mistérios, reconheçamos que somos pecadores”» Ao que se seguem quatro possibilidades:

1. «Confesso a Deus todo-poderoso, etc.»

2. «Tende compaixão de nós, Senhor, etc.»

3. «Senhor, que fostes enviado pelo Pai, etc.», com algumas variantes em seguida.

4. A aspersão com água benta: «Irmãos, invoquemos o Senhor nosso Deus para que se digne abençoar esta água, etc.»

II – A multiplicação das livres escolhas

Observa-se, portanto, que se vão multiplicando as alternativas à escolha, sucedendo-se as opções, umas embutidas nas outras. Isso mesmo se confirma ao longo do resto da celebração:

a) Por altura da liturgia da Palavra, ao fim da primeira leitura, pode observar-se, «se for oportuno», um momento de silêncio. O cântico de aclamação ao Evangelho é habitualmente o Alleluia. Pode-se, ou não, proceder à incensação e transportar velas para o  Evangelho.

b) A profissão de fé pode ser feita usando o símbolo Niceno-Constantinopolitano ou o dos Apóstolos.

c) A oração universal comporta dezenas de introduções possíveis alternativas, que também não excluem a possibilidade de se usar outras fórmulas, e o mesmo vale para as orações conclusivas.

d) O transporte das oferendas até ao altar (e de outros dons destinados a prover às necessidades da Igreja e dos pobres) pode ser organizado livremente. O sacerdote pronuncia, em voz alta ou baixa, as palavras da apresentação das oferendas: «Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, etc.», às quais o povo pode responder com uma aclamação: «Bendito seja Deus para sempre.»

e) Conquanto a tendência da liturgia romana – e o mesmo vale para outros ritos católicos – sempre tenha sido, desde a Antiguidade, a da redução dos textos que constituem o coração da Missa, seguramente por razões ligadas à manutenção da ortodoxia, agora, chega até a ser difícil enumerar os novos prefácios: à roda de cinquenta para o temporal, mais umas dezenas para o santoral, comuns dos santos, defuntos, missas votivas, missas de casamento e de profissão religiosa.

f) E sobretudo, a oração eucarística introduzida pelos prefácios era (e, sem dúvida, sempre o tinha sido) única, mas, agora, o número oficial das orações eucarísticas é de dez (onze no Brasil): quatro principais (cinco no Brasil), duas para a reconciliação, três para as missas das crianças, e uma para circunstâncias particulares, em função das quais se pode escolher um de entre quatro prefácios – 1) A Igreja a caminho da unidade; 2) Deus guia a Sua Igreja no caminho da salvação; 3) Jesus, caminho para o Pai; 4) Jesus passou fazendo o bem – aos quais correspondem quatro orações de intercessão (o equivalente ao Te igitur do cânone romano), dispostas na segunda parte da oração eucarística, a seguir à consagração, à semelhança das orações eucarísticas II, III, IV. Mas há ainda outras, já que algumas conferências episcopais, designadamente por ocasião de certos acontecimentos particulares, pediram a aprovação de orações eucarísticas específicas.

g) A consagração é seguida de uma de entre três aclamações à escolha.

h) A introdução ao Pater noster conhece três variantes, mas é possível usar outras. A paz e a caridade mútuas expressam-se «segundo os costumes locais». Após o Agnus Dei, duas orações à escolha para o sacerdote.i) A bênção do povo reveste duas formas simples alternativas, e também pode dar-se em modo solene com múltiplas introduções tripartidas alternativas (cinco alternativas segundo os diferentes tempos litúrgicos, e várias outras para ocasiões particulares), entremeadas cada uma das partes por um Amém.

A confusão das línguas

A explosão do rito tornou-se ainda mais palpável com a desaparição do latim. A contagem do número de traduções nas línguas e dialectos diversos em que hoje se celebra a liturgia, que curiosamente ainda se diz latina, já vai em 350 a 4000 (a própria Congregação para o Culto Divino não é capaz de fazer uma contagem exacta). Tais traduções fizeram-se sob o impulso das conferências episcopais nacionais, e foram depois aprovadas pela Congregação para o Culto Divino. Com efeito, uma instrução datada de 25 de Janeiro de 1969 abria de par em par as portas a uma grande liberdade, designadamente no que dizia respeito àquelas realidades «que chocam com as ideias e o sentir cristãos actuais», e a uma actualização das orações, com um convite a fabricar novas criações. 

Sobreveio entretanto um certo movimento de restauração que se empenhou em tentar uma rectificação das traduções que se mostravam insuficientemente conformes com as edições latinas (instrução Liturgiam authenticam, de 28 de Março de 2001), mas com resultados que se pode dizer insignificantes, com a excepção quiçá do mundo anglófono.

Aconteceu deste modo que as conferências episcopais se assenhorearam de liberdades com consequências de monta, sendo a mais célebre a da tradução do pro multis (sangue derramado «por muitos») na consagração do Preciosíssimo Sangue, traduzido como “for all”, “per tutti”, “pour tous”, “por todos”, ou ainda aquela do consubstantialem do Credo, que, em francês, passou a “de même nature”. Liberdades que, em certos casos, tinham em mira uma inculturação da liturgia (instrução Varietates legitimae, de 25 de Janeiro de 1994). Assim é que na China, querela dos ritos chineses oblige, se passou a celebrar desde 15 de Fevereiro de 1972 os antigos ritos de inspiração confuciana em honra dos antepassados. 

Na Zâmbia, suprimiu-se a mistura da água no vinho, com o pretexto de que não havia fundamento bíblico, apesar de tal prática haver sido condenada pelo concílio de Florença, em tempos de heresia monofisita, por isso que a água simboliza a humanidade de Cristo. O rito zairense, uma adaptação congolesa do rito romano, promovido pelo Cardeal Malula, arcebispo de Kinshasa, e aprovado em 1988, previa uma invocação dos antepassados e uma preparação penitencial inseridas antes do ofertório, além de diálogos vários entre o sacerdote e o povo, e gestos e movimentos ritmados.

Bem podemos denunciar o que se usa chamar de “abusos” por parte de sacerdotes que fazem como se lhe antolha, mas o facto é que é intrínseco à nova liturgia o estar aberta à criatividade. Desde o momento em que o novo missal prevê que o sacerdote possa fazer a saudação proferindo «por exemplo» esta ou aquela fórmula à escolha, ou que se lhe sugira como mero «exemplo» uma certa admonição que lhe compete pronunciar, ele vê-se convidado pelo próprio livro à criação pessoal. A inserção por parte de cada ministro de admonições ou comentários pessoais, que em lugar algum está proibida, e que, aliás, este novo estilo cultual suscita, torna-se de facto algo natural. As tentativas de restauração que se conheceram desde 1985, além de que se mostraram, ou mostram, deveras aleatórias, encontram a resistência radical desse carácter fluído e «vivo» da missa nova.

A missa nova, lex orandi ? 

O famoso adágio lex orandi, lex credendi, “a lei da oração regula a lei da fé”, explica-se pelo facto de que todos os elementos da disciplina universal da Igreja romana são, pelo que contêm em matéria de fé e de moral, uma das expressões do magistério ordinário universal: a Igreja de Pedro não pode induzir em erro os seus fiéis pelo modo segundo o qual lhes ordena que rezem. Esta expressão da fé una implica necessária e naturalmente uma certa canonização (1) dos meios que lhe servem de veículo.

Nem por isso se esquece que a explosão do rito trazida pela reforma vem depois da modificação do próprio conteúdo da mensagem, tema que estudaremos nas próximas duas cartas. Todavia, num contexto generalizado – o de Maio de 68 – de relativização da regra dogmática, este abandono pela Igreja latina do seu universo ritual tradicional contribuiu em muito para enfraquecer o carácter do culto enquanto veículo da profissão da fé romana. Esta nova subjectividade, manifestada por aquela do próprio do rito, não deixa de levantar problemas do ponto de vista do rigor e do valor doutrinal das cerimónias novas. 

Seja-nos permitido aventar a seguinte hipótese: ao carácter “pastoral”, isto é, não propriamente dogmático (infalível), do concílio Vaticano II, corresponde o carácter “pastoral” da nova liturgia que dele resultou, na medida em que esta já não pretende ser veículo pela oração de uma regra suprema da fé. Muito simplesmente, porque não procura ser, no sentido mais forte do termo, uma lei da oração, uma lex orandi.

(1) No sentido de codificação.

in Paix Liturgique (carta 86)


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Acto de contrição muito útil para a Quaresma

Meu Deus do meu coração, da minha alma, da minha vida, das minhas entranhas, a quem tanto ofendi: tanto meu Deus, e Senhor, que não tem o mar areias, o céu estrelas, o campo flores, as plantas folhas, cujo numero não exceda a multidão sem numero de meus pecados, a variedade sem conto de meus delitos. 

Pequei, Senhor, ofendi-vos, fiz mal na face dos Céus e da terra; afastei-me de vossa Lei, dei as costas à vossa graça, adorei a vossa ofensa, fiz ídolo da minha culpa, corri sem temor nem pejo pelos caminhos do engano, da vaidade, da perdição. Ah meu Deus! quanto me pesa do muito que vos ofendi! Pesa-me do pouco que me pesa, do muito que vos agravei: mais me pesa pela muita ingratidão com que vos tenho agravado, que pelo grande inferno, que tenho merecido. 

Mas que digo, Senhor? nada me pesa, meu Deus : um pesar que me não tira a vida, não é pesar; uma pena que me não arranca esta alma, não é pena; uma dor que me não me parte o coração, ainda não é dor. Quisera ter uma pena das culpas que cometi, tamanha como as minhas culpas. Quisera ter uma mágoa da ofensa. Quisera ter uma dor igual à vossa misericórdia. Quisera com lágrimas de sangue chorar meus grandes pecados, mais pelo que tem de culpa e agravo contra vós, que pelo que tem de dano e perdição contra mim. Quisera, Senhor, que assim como no agravo foi infinita a culpa, fosse no arrependimento infinita a pena. 

Mas onde achei esta ânsia, senão na fonte de vossa graça? Onde acharei esta dor, senão no conhecimento de vossa bondade imensa e de minha maldade infinita? De onde hão-de de vir estas lágrimas, senão do mar de Vossa misericórdia? 

Aqui venho a vossos pés; não olheis o como; não estranheis o quando, não repareis no tarde, olhai somente que venho. Oh que miserável que venho, Senhor! Oh que torpe, oh que abominável! vestido das fealdades de meus pecados, coberto das torpezas de minhas culpas, cheio de abominações e vícios de minha vida! Mas como venho a vossos pés, confiado venho, meu Deus, de achar em vossa misericórdia porto, em vossa piedade amparo, em vossa clemência refúgio, em vossa bondade remédio. 

Por isso, tremendo de vossa justiça, não me valho de outro seguro, mais que do de vossa clemência : não solicito outro abrigo, senão vossa misericórdia : nesta me fio, meu Deus; porque ainda que eu por minha culpa perdi o ser de filho, vós, Senhor, infinitamente bom não perdestes o ser e condição que tendes de Pai. 

Acabe pois, Senhor, em mim vossa graça infinita esta obra, que começou em mim vossa piedade infinita : acuda vossa clemência a esta miserável criatura : tende dó e compaixão desta pobre alma. Proponho com vossa graça emendar a vida, confessar as culpas, perseverar na emenda, perdoar agravos, esquecer-me de injúrias, aborrecer meus vícios, restituir como posso, satisfazer como devo a vossos Mandamentos. 

Espero, Senhor, em vossa bondade infinita me haveis de perdoar todos meus pecados, pela morte e paixão de meu Senhor Jesus Cristo: porque, se nas suas chagas tendes a justiça para me castigar, também tendes a misericórdia para me favorecer. Misericórdia. Misericórdia. Misericórdia.

Composto pelo Padre Frei António das Chagas, Religioso do Seráfico Padre São Francisco da Província dos Algarves, e Pregador Apostólico


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Roma coberta de neve

Roma acordou hoje coberta de neve. Este é um evento bastante raro na Cidade Eterna, que se encontra perto do Mare Nostrum e está habituada a temperaturas amenas no Inverno e escaldantes no Verão. As imagens deste nevão são belíssimas.





















Fotografias de: Jacob Stein e Fr. Kevin Staley-Joice


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Sugestões de Penitências para a Quaresma

A Quaresma é um tempo de penitência para conversão pessoal e uma maior identificação com Jesus Cristo crucificado. Ficam aqui algumas ideias para que este importante tempo seja vivido com maiores frutos espirituais.

1) Penitências alimentares:

– Trocar a carne por peixe, ovos ou queijo;

– Comer menos arroz, feijão, pão, massa, para sair da mesa com um pouco de fome;

– Eliminar todos doces, refrigerantes, chocolate e demais guloseimas;

– Nas refeições, acrescentar algo que seja desagradável, como diminuir a quantidade de sal ou colocar um condimento que diminua um pouco o sabor da comida;

– Comer algum legume ou verdura que não se goste muito;

– Diminuir ou mesmo tirar as refeições intermediárias (como o lanche da tarde);

– Tomar café sem açúcar, ou água a uma temperatura menos agradável;

– Reservar algum dia para o jejum total ou parcial.

2) Penitências corporais:

(Apenas para ajudarem a não perdermos o sentido do sacrifício ao longo do dia, a não sermos relaxados, devendo ser pequenas e discretas)

– Dormir sem travesseiro;

– Sentar-se apenas em cadeiras duras;

– Rezar alguma oração mais prolongada de joelhos;

– Não usar elevadores ou escadas rolantes;

– Trabalhar sem se encostar na cadeira;

– Cuidar da postura corporal;

– Sair um pouco antes dos transportes públicos e fazer uma parte do caminho à pé;

– Deixar de usar o carro e usar um transporte público;

3) Penitências Morais

(São as mais importantes)

– Não reclamar das contrariedades do dia, mas agradecer e louvar a Deus;

– Sorrir, mesmo quando existe mau ambiente;

– Moderar a frequência às redes sociais, telefone e computador (reduzir a poucas vezes ao dia);

– Desligar as notificações do telefone;

– Fazer os serviços mais incómodos em casa e no trabalho, ajudando os outros;

– Acordar mais cedo para fazer oração;

– Não ouvir música no carro;

– Não ver televisão, mas dedicar este tempo à leitura;

– Não usar jogos de vídeo, caso seja viciado;

– Fazer algum trabalho voluntário;

– Rezar mais pelos outros do que por si mesmo;

– Reservar dinheiro para dar esmolas, mas sobretudo atenção aos mendigos;

– Falar bem das pessoas que se gostaria de criticar;

– Ouvir as pessoas incómodas sem as interromper;

– Dormir no horário previsto, mesmo sem vontade.

Padre José Eduardo


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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Rara gravação do Papa Pio XII enquanto reza em inglês pela Paz no Mundo



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A importância de viver uma vida pura

"Se vivêssemos como devíamos viver, seríamos mais admirados do que os que fazem milagres. Muitas vezes os milagres levantam alguma suspeita, mas uma vida pura não admite suspeitas." 

São João Crisóstomo


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Coliseu ficou vermelho para lembrar o sangue dos cristãos

O Coliseu, um dos monumentos mais emblemáticos de Roma, ficou hoje tingido de vermelho durante algumas horas. Esta iniciativa da Ajuda à Igreja que Sofre teve o propósito de alertar o mundo para o sangue que hoje em dia é derramado pelos cristãos perseguidos no mundo inteiro. Os cristãos continuam a ser o grupo mais perseguido nos nossos dias, nos continentes Asiático e Africano.

Rezemos pelos nossos irmãos perseguidos por professarem a Fé em Jesus Cristo.


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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Cardeal Sarah diz que a comunhão na mão é um ataque de Satanás à Eucaristia

O responsável máximo do dicastério vaticano que trata da liturgia convoca os fiéis católicos a voltarem a receber a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos.

No prefácio parade um novo livro sobre o assunto o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, escreve: “O mais insidioso ataque diabólico consiste em tentar extinguir a fé na Eucaristia, semeando erros e encorajando um modo inapropriado de recebê-la. A guerra entre São Miguel e os seus anjos, de um lado, e Lúcifer, de outro, continua nos corações dos fiéis."  

“O objectivo de Satanás é o sacrifício da Missa e a presença real de Jesus na Hóstia consagrada”, ele disse.

O novo livro, escrito por Pe. Federico Bortoli, foi lançado em italiano com o título: “A distribuição da Comunhão na mão: considerações históricas, jurídicas e pastorais” (La distribuzione della comunione sulla mano. Profili storici, giuridici e pastorali).

Recordando o centenário das aparições de Fátima, Sarah escreve que o Anjo da Paz, que apareceu aos três pastorinhos antes da visita da bem-aventurada Virgem Maria, “mostra-nos como devemos receber o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo”. Sua Eminência descreve, então, os ultrajes com que Jesus é ofendido hoje na Santa Eucaristia, incluindo “a chamada ‘intercomunhão’”(prática de cristãos de diferentes confissões participarem da mesma mesa eucarística).

O Cardeal continua, destacando como a fé na Presença Real “influencia o modo como recebemos a Comunhão, e vice-versa”, e propõe o Papa João Paulo II e Madre Teresa como dois santos modernos que Deus nos deu para imitarmos a sua reverência na recepção da Santa Eucaristia.

“Por que nos obstinamos em comungar de pé e na mão?”, pergunta o Prefeito da Congregação para o Culto Divino. A maneira como a Santa Eucaristia é distribuída e recebida “é uma importante questão sobre a qual a Igreja de hoje deve reflectir.”

Abaixo, com a autorização de La Nuova Bussola Quotidiana, onde o prefácio primeiramente foi publicado, oferecemos aos nossos leitores uma tradução [n.d.t.: feita directamente do original em italiano] de vários pontos chave do texto do Cardeal Sarah.

A Providência, que dispõe sábia e suavemente de todas as coisas, oferece-nos a leitura do livro 'A distribuição da Comunhão na mão', de Federico Bortoli, justamente depois de havermos celebrado o centenário das aparições de Fátima. Antes da aparição da Virgem Maria, na Primavera de 1916, o Anjo da Paz apareceu a Lúcia, Jacinta e Francisco, e disse-lhes: “Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.” […] Na Primavera de 1916, na terceira aparição do Anjo, as crianças notaram que o Anjo, que era sempre o mesmo, segurava na sua mão esquerda um cálice acima do qual se estendia uma Hóstia. […] Ele deu a Hóstia consagrada a Lúcia e o Sangue do cálice a Jacinta e Francisco, que permaneceram de joelhos, enquanto lhes dizia: “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.” O Anjo prostrou-se novamente por terra, repetindo com Lúcia, Jacinta e Francisco por três vezes a mesma oração.

O Anjo da Paz mostra-nos como devemos receber o Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A oração de reparação ditada pelo Anjo, infelizmente, é tida como obsoleta. Mas quais são os ultrajes que Jesus recebe na Hóstia consagrada, e dos quais precisamos fazer reparação? Em primeiro lugar, existem os ultrajes contra o próprio Sacramento: as horríveis profanações, das quais alguns convertidos do satanismo já deram testemunho e ofereceram descrições repugnantes; são ultrajes ainda as Comunhões sacrílegas, quando não se recebe a Eucaristia em estado de graça, ou quando não se professa a fé católica (refiro-me a certas formas da chamada “intercomunhão”). Em segundo lugar, constitui um ultraje a Nosso Senhor tudo o que pode impedir o fruto do Sacramento, especialmente os erros semeados nas mentes dos fiéis a fim de que eles não mais acreditem na Eucaristia. As terríveis profanações que acontecem nas chamadas “missas negras” não atingem directamente Aquele que é ultrajado na Hóstia, encerrando-se tão somente nos acidentes do pão e do vinho.

É claro que Jesus sofre pelas almas dos profanadores, almas pelas quais Ele derramou o Sangue que elas tão cruel e miseravelmente desprezam. Mas Jesus sofre ainda mais quando o dom extraordinário da Sua presença divino-humana na Eucaristia não pode levar o seu potencial efeito às almas dos fiéis. E aí nós entendemos que o mais insidioso ataque diabólico consiste em tentar extinguir a fé na Eucaristia, ao semear erros e encorajando um modo inapropriado de recebê-la. A guerra entre São Miguel e os seus anjos, de um lado, e Lúcifer, de outro, continua nos corações dos fiéis: o alvo de Satanás é o sacrifício da Missa e a Presença Real de Jesus na Hóstia consagrada. Essa tentativa de rapina segue, por sua vez, dois caminhos: o primeiro é a redução do conceito de “presença real”. Muitos teólogos não cessam de ridicularizar ou de desprezar — não obstante as contínuas advertências do Magistério — o termo “transubstanciação”. […]

Vejamos agora como a fé na Presença Real pode influenciar o modo de receber a Comunhão, e vice-versa. Receber a Comunhão na mão comporta sem dúvida uma grande dispersão de fragmentos. Ao contrário, a atenção às mais pequeninas partículas, o cuidado na purificação dos vasos sagrados, o não tocar a Hóstia com as mãos sujas de suor, tornam-se profissões de fé na presença real de Jesus, ainda que seja nas menores partes das espécies consagradas. Se Jesus é a substância do Pão Eucarístico, e se as dimensões dos fragmentos são acidentes apenas do pão, pouco importa que o pedaço da Hóstia seja grande ou pequeno! A substância é a mesma! É Ele! Ao contrário, a desatenção aos fragmentos faz perder de vista o dogma: pouco a pouco poderia começar a prevalecer o pensamento: “Se até o pároco não dá atenção aos fragmentos, se administra a Comunhão de um modo que os fragmentos se podem dispersar, então quer dizer que Jesus não está presente neles, ou está ‘até um certo ponto’.”

O segundo caminho em que acontece o ataque contra a Eucaristia é a tentativa de retirar, dos corações dos fiéis, o sentido do sagrado. […] Enquanto o termo “transubstanciação” nos indica a realidade da presença, o sentido do sagrado permite-nos entrever a absoluta peculiaridade e santidade do Sacramento. Que desgraça seria perder o sentido do sagrado precisamente naquilo que é mais sagrado! E como é possível? Recebendo o alimento especial do mesmo modo como se recebe um alimento ordinário. […]

A liturgia é feita de muitos pequenos ritos e gestos — cada um dos quais é capaz de exprimir essas atitudes carregadas de amor, de respeito filial e de adoração a Deus. Justamente por isso é oportuno promover a beleza, a conveniência e o valor pastoral desta prática que se desenvolveu ao longo da vida e da tradição da Igreja, a saber, receber a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos. A grandeza e a nobreza do homem, assim como a mais alta expressão do seu amor para com o Criador, consiste em colocar-se de joelhos diante de Deus. O próprio Jesus rezava de joelhos na presença do Pai. […]

Nesse sentido, gostaria de propor o exemplo de dois grandes santos dos nossos tempos: São João Paulo II e Santa Teresa de Calcutá. Toda a vida de Karol Wojtyla esteve marcada por um profundo respeito à Santa Eucaristia. […] Malgrado estivesse extenuado e sem forças […], estava sempre disposto a ajoelhar-se diante do Santíssimo. Ele era incapaz de ajoelhar-se e levantar-se sozinho. Precisava que outros lhe dobrassem os joelhos e depois o levantassem. 

Até os seus últimos dias, ele quis dar-nos um grande testemunho de reverência ao Santíssimo Sacramento. Por que somos assim tão orgulhosos e insensíveis aos sinais que o próprio Deus oferece para o nosso crescimento espiritual e para o nosso relacionamento íntimo com Ele? Por que não nos ajoelhamos para receber a Sagrada Comunhão, a exemplo dos santos? É assim tão humilhante prostrar-se e estar de joelhos diante de Nosso Senhor Jesus Cristo — Ele, que, “sendo de condição divina, […] humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6–8)?

Santa Madre Teresa de Calcutá, uma religiosa excepcional a que ninguém ousaria chamar de tradicionalista, fundamentalista ou extremista, e cuja fé, santidade e dom total de si a Deus e aos pobres são conhecidos de todos, possuía um respeito e um culto absoluto ao Corpo divino de Jesus Cristo. Certamente, ela tocava quotidianamente a “carne” de Cristo nos corpos deteriorados e sofridos dos mais pobres dos pobres. No entanto, cheia de estupor e respeitosa veneração, Madre Teresa abstinha-se de tocar o Corpo transubstanciado do Cristo; ao invés disso, ela adorava-O e contemplava silenciosamente, permanecia durante longos períodos de joelhos e prostrada diante de Jesus Eucaristia. Além disso, ela recebia a Sagrada Comunhão directamente na boca, como uma pequena criança que se deixava humildemente nutrir pelo seu Deus.

A santa entristecia-se e lamentava sempre que via os cristãos receberem a Sagrada Comunhão nas próprias mãos. Ela afirmou inclusive que, segundo o que era do seu conhecimento, todas as suas irmãs recebiam a Comunhão apenas na boca. Não é esta a exortação que Deus mesmo faz a nós: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egipto; abre a boca e eu te sacio” (Sl 81, 11)?

Por que nos obstinamos em comungar de pé e na mão? Por quê essa atitude de falta de submissão aos sinais de Deus? Que nenhum sacerdote ouse impor a própria autoridade sobre essa questão recusando ou maltratando aqueles que desejam receber a Comunhão de joelhos e na boca: venhamos como as crianças e recebamos humildemente, de joelhos e na boca, o Corpo de Cristo. Os santos dão-nos o exemplo. São eles o modelo a imitar que Deus nos oferece!

Mas como pode ter-se tornado tão comum a prática de receber a Eucaristia sobre a mão? A resposta nos é dada pelo Padre Bortoli, e confirmada por uma documentação até o momento inédita, e extraordinária por sua qualidade e dimensão. Tratou-se de um processo nem um pouco límpido, uma transição do que era concedido pela instrução Memoriale Domini ao modo que se difundiu hoje. […] 

Infelizmente, assim como aconteceu à língua latina e à reforma litúrgica, que deveria ter sido homogénea com os ritos precedentes, uma concessão particular tornou-se uma chave para forçar e esvaziar o cofre dos tesouros litúrgicos da Igreja. O Senhor conduz o justo por “caminhos rectos” (Sb 10, 10), não por subterfúgios; assim, além das motivações teológicas demonstradas acima, até o modo como se difundiu a prática da Comunhão na mão parece ter-se imposto não segundo os caminhos de Deus.

Possa este livro encorajar aqueles sacerdotes e aqueles fiéis que, movidos também pelo exemplo do Papa Bento XVI — que nos últimos anos do seu Pontificado quis distribuir a Eucaristia na boca e de joelhos — , desejam administrar ou receber a Eucaristia deste modo, muito mais apropriado ao próprio Sacramento. A minha esperança é de que haja uma redescoberta e uma promoção da beleza e do valor pastoral dessa forma de comungar. 

Segundo o meu juízo e opinião, essa é uma questão importante sobre a qual a Igreja de hoje deve reflectir. Trata-se de um acto de adoração e de amor que todos nós podemos oferecer a Jesus Cristo. Muito me agrada ver tantos jovens que escolhem receber Nosso Senhor com essa reverência, de joelhos e na boca. Possa o trabalho do Pe. Bortoli favorecer um repensar geral sobre o modo de distribuir a Sagrada Comunhão. Tendo acabado de celebrar, como disse no início deste prefácio, o centenário de Fátima, encoraje-nos a firme esperança no triunfo do Imaculado Coração de Maria: no fim, também a verdade sobre a liturgia triunfará.

Texto: Life Site News
Tradução adaptada da tradução de João Pedro de Oliveira (in Medium)


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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Ladainha da Humildade

Esta oração foi escrita pelo Cardeal Rafael Merry del Val, secretário de São Pio X. Por ser tão profunda foi rapidamente acolhida na Igreja e é uma oração muito útil para rezar todos os dias nesta Quaresma. 

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus manso e humilde de coração: ouvi-nos
Jesus manso e humilde de coração: atendei-nos.
Jesus manso e humilde de coração: fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser amado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser procurado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser louvado, livrai-me, Jesus!

Do desejo de ser honrado, livrai-me, Jesus
Do desejo de ser preferido, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser consultado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser adulado, livrai-me, Jesus!

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Jesus
Do temor de ser desprezado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser rejeitado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser caluniado, livrai-me, Jesus!

Do temor de ser esquecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser escarnecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser injuriado, livrai-me, Jesus!

Que os outros sejam mais amados do que eu – Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam mais estimados do que eu – Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam crescer na opinião do mundo e que eu possa diminuir – Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!

Que aos outros seja concedida mais confiança no seu trabalho e que eu seja deixado de lado - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam louvados e eu esquecido – Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo
Que os outros possam ser preferidos a mim em tudo – Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser mais santos do que eu, contanto que eu pelo menos me torne santo como puder - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!

Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por nós!
São José, protector das almas humildes, rogai por nós!
São Miguel, que fostes o primeiro a lutar contra o orgulho e o primeiro a abatê-lo, rogai por nós!
Ó justos todos, santificados a partir do espírito de humildade, rogai por nós!

Oremos: Ó Deus, que, por meio do ensinamento e do exemplo do Vosso Filho Jesus, apresentastes a humildade como chave que abre os tesouros da graça (cf. Tg 4,6) e como início de todas as outras virtudes – caminho certo para o Céu – concedei-nos, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais humilde e mais santa de todas as criaturas, aceitar agradecendo todas as humilhações que a Vossa Divina Providência nos oferecer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Ámen.


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Algumas dicas sobre o jejum

O Papa Francisco convocou para hoje, sexta-feira de Quaresma, um dia de jejum e oração pela paz
Em primeiro lugar, importa recordar que na actual disciplina canónica da Igreja o preceito de jejum só obriga na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa e somente às pessoas entre os 18 e os 59 anos. Normalmente considera-se que cumpre este exercício quem ao pequeno-almoço come um simples papo-seco, toma um almoço completo, ingere duas bolachas ao lanche, para enganar o estômago, e janta uma sopa com uma fruta ou meia carcaça. Porém, é de notar algumas coisas:

a) O facto de o jejum só ser obrigatório naqueles dois dias não significa que só se pode fazer naqueles dias. Por isso, há um número significativo de cristãos, de todas as vocações, que jejuam o ano inteiro – por exemplo, todas as sextas-feiras, ou todas as quartas e sextas, ou ainda às segundas, quartas e sextas; ou então ao sábados em honra de nossa Senhora, e nas suas festas.

b) Há pessoas que não se contentam com aquelas condições mínimas que referimos acima e, por isso, jejuam a pão e água, admitindo muitas delas o café, chá ou algum refresco açucarado. Há ainda o caso mais radical de algumas pessoas que não ingerem alimento algum, mas somente água, chá ou café, durante 24h ou mesmo 48h ou 72h.

c) Não se pode ainda esquecer o caso das pessoas que por questões de saúde poderão estar impedidas de jejuar de qualquer maneira ou pelo menos nas formas mais exigentes. Conheço, por exemplo, uma pessoa que na sua juventude fez grandes jejuns e que agora em virtude de uns medicamentos que tem de tomar, que lhe abrem de tal modo o apetite vê-se em grandes dificuldades de o fazer.

d) É ainda de grande importância atender ao estado e condição concreta de cada um. Por exemplo, não se pode pedir a um pai de família que jejue com o mesmo rigor de uma Carmelita Descalça. Por outro lado, seria também absurdo pedir o mesmo jejum a um estivador ou a uma dactilógrafa.

e) Acresce que como o jejum é um meio e não um fim (o fim é sempre o maior amor a Deus e ao próximo) importa muito discernir se no modo como está a ser feito ajuda ou se pelo contrário estorva o caminho de santidade. Se, por exemplo, o jejum está tornando a pessoa soberba em vez de humilde, brutal em vez de mansa é sinal de que não é agradável a Deus. Por todas estas razões acima enumeradas cada um deverá estudar-se bem para saber como comportar-se. E uma vez que, como diz a sentença, ninguém é bom juiz de si próprio é de toda a conveniência que se consulte com o seu confessor habitual, com o seu assistente espiritual e, se for caso disso, com o seu médico.

f) De qualquer modo, uma pessoa que não possa prescindir do alimento em quantidade normal poderá sempre renunciar a comer coisas de que mais gosta: bolos, doces, chocolates, vinho, bebidas brancas, etc., o que também é uma forma de jejum.

g) Para além do jejum de comida pode a pessoa treinar-se com outro tipo de jejuns, renunciando a coisas legítimas para se fortalecer na capacidade de repudiar as ilícitas ou pecaminosas. Deste modo pode fazer jejum da boca, guardando silêncio - pode assim aprender a não contar os defeitos e pecados do seu semelhante; pode jejuar dos ouvidos, abstendo-se de participar em conversas ociosas ou de ouvir música – e assim aprender a não dar ouvidos a boatos e intrigas, e a dar maior atenção aos sentidos espirituais interiores em detrimento das melodias exteriores; pode jejuar dos olhos, renunciando ao cinema ou a programas televisivos para se dedicar à leitura e meditação da Palavra de Deus.

Salvo erro, era o Pe. Américo que dizia que “cada um é como cada qual e deve ser tratado consoante”. Por isso sugiro de novo que se aconselhe cada um com o seu confessor habitual, se é que se confessa habitualmente. Se não o fizer, está sempre a tempo de começar.

Padre Nuno Serras Pereira


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