segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A Quaresma e os prazeres




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A mulher mais poderosa do mundo

«A mulher mais poderosa do mundo», foi o título de capa da edição americana da «National Geographic» de Dezembro passado. No interior, a revista trata o tema profissionalmente. Documentou-se e convence: mesmo descontando milagres e aparições, o poder da Mãe de Jesus chega a definir a identidade de povos inteiros. Nem sequer a rainha de Inglaterra se compara! Notícia que deixou os leitores norte-americanos impressionados e teve grande eco na imprensa.

Na viagem ao México, Francisco brincou com o assunto: até os mexicanos ateus se identificam com a mensagem de Nossa Senhora em Guadalupe. Quanto mais ele, Papa! Na viagem de ida anunciou: «O meu desejo mais íntimo é ficar a olhar para a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, um mistério que se estuda, estuda, estuda e continua sem explicação... é uma coisa de Deus». 

O Papa referia-se a algumas características daquela imagem que ainda hoje não se conseguem imitar, mas o importante para ele era ficar a olhá-la e saber-se olhado. O santuário percebeu o recado e colocou-lhe uma cadeira em frente da imagem, para que o Papa se demorasse ali, quase sozinho. Quando os jornalistas lhe perguntaram o que tinha estado a rezar durante aquele tempo todo, Francisco desvendou uma ponta, mas guardou o resto: «...as coisas que um filho diz à sua querida mãe são um segredo!».

Na escala anterior, em Cuba, o Papa tinha-se deparado com outro sinal impressionante do poder de Maria. É uma longa história, com passagem por Portugal: o ícone de Nossa Senhora de Kazan que o Patriarca Kirill ofereceu ao Papa.

A imagem original, pintada em data incerta, esteve vários séculos no mosteiro de Kazan e dela se fizeram muitas reproduções, em igrejas espalhadas pela Rússia. Despareceu em 1209, nas guerras, e foi recuperada em 1579, nos escombros de um incêndio, em circunstâncias miraculosas. Tornou-se então a referência da Rússia, a salvadora da pátria: primeiro contra os polacos; depois contra os suecos; a seguir contra Napoleão. 

A imagem tornou-se o ícone da família do Czar e Pedro o Grande colocou uma cópia na catedral dedicada a Nossa Senhora de Kazan, em São Petersburgo, a nova capital. Esta catedral também tem uma história curiosa. Nalgumas fotografias, parece a praça de S. Pedro em Roma, com a colunata e a basílica, e a intenção era mesmo essa, como expressão do anseio de a Rússia se unir novamente à Igreja católica. A Igreja ortodoxa protestou com todas as forças contra aquela arquitectura, mas o Czar foi mais teimoso.

A imagem foi roubada da catedral em 1904 e por isso os comunistas já não lhe deitaram a mão, limitaram-se a destruir os outros exemplares e arrasar as respectivas igrejas, ou destiná-las a instalações sanitárias e funções ridículas. Só conservaram a catedral de São Petersburgo, para Museu do Ateísmo. Ao cabo de clandestinidades várias, o ícone escapou da União Soviética e foi parar às mãos de comerciantes oportunistas. A associação católica «Exército Azul» (azul, cor de Nossa Senhora) resgatou-o colocou-o na capela bizantino-russa da «Domus Pacis» (Casa da Paz), junto ao santuário de Fátima, à espera de ser devolvida aos russos. 

Em 1993, depois da queda do muro de Berlim, foi para Roma, onde o Papa João Paulo II a guardou com grande devoção no seu gabinete, com a intenção de a levar pessoalmente à Rússia. Infelizmente, a igreja ortodoxa russa rejeitou todas as tentativas de o Bispo de Roma visitar o país.

Em 1997, ao tornar-se pública alguma documentação da II Guerra Mundial, soube-se que Elias, então Metropolita russo no Líbano, tinha enviado uma missiva a Stalin, levada em mão pelo próprio Chefe do Estado-Maior da Armada Vermelha, a contar-lhe uma visão: Stalin devia libertar o clero da prisão e deixar que o ícone de Kazan fosse levado em procissão em várias cidades. 

O receio supersticioso de Stalin explica o chamado «período religioso» (entre 1941 e 1942) e o ter atribuído ao Metropolita Elias o prémio Stalin, «por serviços eminentes à União Soviética e à causa do socialismo». Elias não quis receber dinheiro do ditador e entregou-o para ajuda aos órfãos da guerra; derrotados os nazis, Stalin esqueceu o «período religioso».

Em 2004, João Paulo II desistiu de esperar pela oportunidade de visitar a Rússia e enviou uma delegação para entregar o ícone ao Patriarca ortodoxo, como sinal do desejo de unidade. A delegação foi acolhida, mas a oferta foi desvalorizada: a primitiva pintura tinha-se perdido, aquela era só uma cópia, talvez a roubada da catedral de São Petersburgo; afinal, o Papa só devolvia aos ortodoxos o que já lhes pertencia...

Tanta coisa mudou entretanto que Kirill, actual Patriarca de todas as Rússias, escolheu justamente uma cópia dessa imagem para a oferecer ao Papa Francisco, como «expressão de unidade».

José Maria André in Correio dos Açores, 28-II-2016


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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Irmã Lúcia escreveu sobre o confronto final entre o bem e o mal

Quando recebi do Papa João Paulo II o encargo de idealizar e fundar o Pontifício Instituto para Estudo sobre o Matrimónio e a Família, escrevi à Irmã Lúcia de Fátima, através do bispo, porque não se podia fazê-lo directamente. 

Inexplicavelmente, apesar de eu não esperar resposta, porque lhe pedia apenas oração, chegou-me depois de poucos dias uma longuíssima carta autografada — que agora está nos arquivos do Instituto —, na qual escreveu: o confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimónio

Não tenha medo, acrescentava, porque qualquer um que trabalhar pela santidade do matrimónio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo. E depois concluía: mas Nossa Senhora já lhe esmagou a cabeça (ao demónio). 

Percebia-se, também falando com João Paulo II, que este era o nó, porque tocava a coluna fundamental da criação, a verdade da relação entre o homem e a mulher, e entre as gerações. Se esta coluna for atingida, todo o o edifício desaba, e nós estamos a ver isso agora, porque estamos neste ponto, e nós sabemo-lo. E eu comovo-me, lendo as biografias mais seguras do Padre Pio, de como este homem estava atento à santidade do matrimónio, à santidade dos esposos, também com um justo rigor, mais de uma vez.

Cardeal Carlo Cafarra in 'Voce di Padre Pio' (Março de 2008)


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cardeal Patriarca de Lisboa abençoa a cidade com o Santo Lenho

D. Manuel Clemente abençoou a cidade de Lisboa com uma relíquia da Santa Cruz, durante a Procissão do Senhor dos Passos da Graça. Esta é a procissão mais antiga de Portugal, acontecendo todos os anos, ininterruptamente, desde 1587.


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Umberto Eco: de católico a ateu - Vittorio Messori

Vittorio Messori, jornalista famoso em matérias relacionadas com a Santa Sé, entrevistou em tempos Umberto Eco. A entrevista focou-se sobretudo no facto de Umberto Eco ter deixado de ser Católico.

Agora, depois de Eco morrer, Messori escreveu um texto sobre essa entrevista.

Fica marcada a forma como Umberto Eco encarava a morte. Ao contrário de muitos católicos, que não aceitam a doutrina da Igreja, Umberto sabia que não iria mudar a sua opinião diante de Deus após a morte - antes pelo contrário, iria mantê-la para sempre. E isto é precisamente o que acontece: quem não acreditou em Deus até morrer, não passará a acreditar depois de morrer.

O intelectual formado no culto cristão que aterrou numa posição relativista:


Encontrando-o, entrevistando-o, lendo-o, não posso fugir a uma espécie de lamento. Justamente porque lhe admirava muito a inteligência, a cultura, o estilo, a ironia, o savoir vivre, senti (e disse-lhe também uma vez, recebendo um sorriso enigmático), senti a tristeza do crente diante de um homem que falava da sua "definitiva apostasia" de qualquer fé religiosa, a começar obviamente pela Católica. Um jovem que foi dirigente da Giac, a juventude de acção católica, um homem que aprendeu na universidade pelos crentes antigos e modernos, um homem de comunhão diária e confissão semanal e que escolheu São Tomás para a sua tese, pensando na fé a defender e não num título a conquistar.

E eis que, em vez do extraordinário apologeta do catolicismo, do polémico cintilante  que os crentes teriam recebido como um dom, eis que do ateneu de Turim, sai o Umberto liberal. Um Eco que se tornou apologeta sim, mas primeiro do agnosticismo e depois - como admitiu - de um relativismo ateu (nomina nuda tenemus [nada temos além dos nomes]), decidido com a habitual ligeireza de uma aparência distraída, mas na realidade impenetrável. A desilusão não me impediu, no que me toca, de sentir afecto sincero e agora tristeza porque não teremos mais piadas como aquela que lhe ouvi dizer no nosso primeiro encontro: «Se Pascal habitasse no meu condomínio, falar-nos-íamos com educação, mas não nos daríamos muito. Se, pelo contrário, no meu andar estivesse Tomás de Aquino, ao jantar jogaríamos à bisca mas acabaríamos por discutir, à procura de argumentos um contra o outro [andare per avvocati]. E talvez ele me denunciasse à Digos (forças secretas italianas) por suspeita de terrorismo»

Por umas minhas Perguntas sobre o cristianismo (o título do livro que lancei com muitas entrevistas, sobretudo com ex-crentes, para perceber as suas razões), passámos juntos uma tarde milanesa que aproveitei não para falar genericamente de cultura, mas de fé, de vida e de morte. Pedi-lhe a ele, que conduzia o discurso em direcção à filosofia, que deixasse os esquemas verbais e que fosse ao concreto. A decisão por Deus ou contra Deus vem mais da de uma questão existencial do que de argumentações teóricas. Por que motivos (assumindo que seja capaz de decifrá-los) uma pessoa abraçava o Evangelho - e com tanto fervor - como o jovem Eco, decide retirar a sua esperança de Cristo? Parecia-me, com todo o respeito, que os argumentos da sua resposta não fugiam à suspeita de terem sido elaborados a posteriori para racionalizar uma repulsa que vinha do coração e da vida, mais do que da razão. Disse-lhe eu. E ele respondeu com sinceridade: «Concedo-lhe de bom grado que qualquer 'prova' ou raciocínio serve apenas para nos convencer daquilo de que já estamos convencidos. É verdade: o aspecto racional não chega para explicar a minha história. Mas também não é suficiente o aspecto biográfico.»

«Outros que tiveram uma vivência parecida com a minha permaneceram crentes. A mim parece-me que a perda da fé foi como uma interrupção de um circuito eléctrico. As causas verdadeiras, profundas? Quem sabe?» Falámos da morte: um drama que, disse-me, vivera na carne, desde quando o seu pai morreu de um modo inesperado. «Passaram tantos anos desde então, mas penso nisso todos os dias. Não procuro, à Freud, vingar-me do meu pai, mas vingá-lo. Também vem daqui o que me tornei profissionalmente. Eu, um coleccionador de honras, como disse alguém? Não, uma pessoa que quer dar aos seus filhos a satisfação que eu esperava ter tido como seu filho e que não tive.» Então perguntei-lhe, onde está o seu pai? Onde estão todos os mortos? Onde iremos nós também? Resposta: «Para além daquelas portas de bronze é o caos, a confusão.»

«Mas talvez também esteja o Nada ou um deserto plano e desolado, sem fim.» A morte, lembrei-o, é a decisão por excelência, aberta a muitas saídas possíveis. E se tivessem razão aqueles que dizem que será Jesus o Cristo a vir ao nosso encontro? Não pareceu hesitar, como quem já pensou nisso muitas vezes: «Oiça, se por acaso esse Nazareno existir mesmo e quiser pôr-me um processo, digo-lhe mais ou menos as coisas que lhe estou a dizer a si: pensei assim e assim e cheguei à conclusão que não serás tu a esperar-me. Penso que poderemos chegar a caminhos razoáveis. Se pelo contrário for o Deus cruel e vingativo de certas seitas protestantes, então é melhor não ter nada a ver com ele. Ele que me mande então para o inferno onde ao menos há boa gente». Uma pausa e depois: «Mas veja que estou convencido que se Deus existisse mesmo, seria o de São Tomás, com quem discutiria na vida, mas que era um homem com quem, apesar de tudo, se podia argumentar sobre as coisas que importam.» Ora, parece que Umberto Eco «sabe». E ao respeito que merece da parte de todos por uma vida tão activa, os crentes, com discrição em relação às convicções, acrecentaram uma oração diante do túmulo diante do qual - com coerência, sem hipocrisia - não se quis uma presença religiosa.

Vittorio Messori in Corriere della Sera


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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pensas que a caridade é facultativa?

Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o facto de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o facto de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. 

Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-O à nossa mesa como Simão, não só ungindo-O com perfumes como Maria, não só dando-Lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-Lhe ouro, incenso e mirra como os magos. 

Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos.

S. Gregório de Nazianzo in Sermão 14, sobre o amor aos pobres


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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Belíssima ordenação de 20 sacerdotes na Coreia do Sul



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Zika, o 'mal menor' e as freiras do Congo - uma explicação

Muito se tem escrito e falado sobre a pequena resposta que o Papa Francisco deu a bordo do avião da Aeromexico para Roma sobre o uso de anticoncepcionais e o vírus Zika.

Muitos ficaram escandalizados por o Papa ter usado uma história que, aparentemente, não aconteceu. Para estas pessoas, pelos vistos, o Papa também devia ser infalível em história. Escândalo verdadeiro seria se o Papa tivesse contradito a Fé ou a Moral mas, como tentarei mostrar, não foi esse o caso.

Escrevi, pouco depois da entrevista, um texto onde abordei precisamente este assunto:


No dia seguinte, um leitor amigo, sacerdote, disse-me que o Papa dizia ainda mais uma coisa que reforçava o meu argumento.

Vejam o texto original:
"Papa Francesco: L’aborto non è un “male minore”. E’ un crimine. E’ fare fuori uno per salvare un altro. E’ quello che fa la mafia. E’ un crimine, è un male assoluto. Riguardo al “male minore”: evitare la gravidanza è un caso – parliamo in termini di conflitto tra il quinto e il sesto comandamento. Paolo VI - il grande! - in una situazione difficile, in Africa, ha permesso alle suore di usare gli anticoncezionali per i casi di violenza. (...)
Invece, evitare la gravidanza non è un male assoluto, e in certi casi, come in quello che ho menzionato del Beato Paolo VI, era chiaro. Inoltre, io esorterei i medici che facciano di tutto per trovare i vaccini contro queste due zanzare che portano questo male: su questo si deve lavorare… Grazie."
Vejam agora o último parágrafo traduzido para português (com um negrito adicional):
Pelo contrário, evitar a gravidez não é um mal absoluto, e em alguns casos, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Nos outros, exortarei aos médicos que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que transportam este mal: deve-se trabalhar sobre isto.
Ora, o Santo Padre não está a comparar o caso das freiras no Congo com o caso do vírus Zika. Como expliquei no texto anterior, a resposta oficial do Papa foi apenas que não se podia recorrer nunca ao aborto.

Para mostrar um caso extremo em que se pode optar por um "mal menor", o Santo Padre referiu o caso das freiras no Congo. Eram mulheres entregues a Cristo, numa vida de celibato, que corriam um grave risco de serem violadas. Neste caso o Papa Francisco admitiu (julgando seguir Paulo VI) que as freiras podiam tomar anticoncepcionais, para não engravidarem. Nos outros casos, o Papa diz outra coisa completamente diferente. Nos outros, os médicos que façam tudo para resolver problema, porque (acrescento eu) não se pode usar anticoncepcionais.

Notem agora uns aspectos menores que se seguiram à entrevista. A resposta que o Papa deu mesmo, que está online em vídeo, não foi igual, palavra-por-palavra, ao texto que está no site da Santa Sé. Na verdade, não foi tão claro como o texto oficial que transcrevi aqui, ainda que deva (e possa) ser interpretado da mesma maneira. Mas se estão ambos na mesma língua, porque é que o texto oficial da Santa Sé está ligeiramente diferente das palavras usadas pelo Papa? Parece-me que o texto oficial pretendia tornar as coisas mais claras, sem alterar o significado do que o Papa disse.

Por outro lado, o Pe. Federico Lombardi SJ, director da Sala de Imprensa da Santa Sé, veio dar uma interpretação não tão clara do que o Papa disse. Segundo o Pe. Lombardi, o Santo Padre disse que "o contraceptivo e o preservativo, em particulares casos de emergência e gravidade, podem também ser objecto de um discernimento de consciência sério". Mas o Pe. Lombardi não disse que o caso do vírus Zika era um caso destes. Antes pelo contrário, usou outros exemplos. Voltou a mencionar o caso das freiras do Congo e referiu também uma resposta do Papa Bento XVI na entrevista Luz do Mundo. Nesta entrevista o Papa Bento disse que "podem haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização".

As freiras no Congo

Parece que o caso citado pelo Papa Francisco e reforçado pelo Pe. Lombardi sobre os comentários de Paulo VI nunca aconteceu. Não há nenhuma fonte de informação que indique, mesmo que superficialmente, que o Beato Paulo VI tenha feito alguma vez na vida este comentário. Como a história já andava em circulação há algum tempo é o caso típico de um "mito urbano". É bastante provável que tenha sido assim que o Papa Francisco soube dela.

Para perceberem, recomendo que leiam o texto do jornalista Sandro Magister:

Paul VI and the Nuns Raped in the Congo. What the Pope Never Said

Apesar do Papa Paulo VI nunca ter feito este comentário, houve de facto um caso em que as autoridades da Igreja Católica no Congo deram autorização às freiras para tomar a pílula. (Uau, este é mesmo um caso diferente do vírus Zika - qual a polémica?)

As freiras estavam sob risco altíssimo de sofrerem violação, e as autoridades da Igreja permitiram que tomassem hormonas que as impedisse de fazer ovulação. Assim evitariam uma das consequências de um acto terrível de violência. Esta história está contada no livro Rape within marriage: a moral analysis delayed (1985) do Pe. Edward Bayer (pgs. 82 e 83).

As autoridades eclesiásticas do Congo não têm a mesma autoridade que o Bispo de Roma. Mas agora o Papa Francisco usou este exemplo. Mesmo que a história esteja mal contada, o Santo Padre usou-a para explicar uma ideia. Em ciência usam-se mesmo histórias inventadas para discutir leis da Física (as famosas experiências mentais de Einstein). Portanto a questão é, será que o Papa está errado na sua ideia? Será que os contraceptivos neste caso são um 'mal menor' a ser utilizado?

O caso do mal menor

Para perceber isto, é importante saber que 'mal menor' tem vários significados. Muitas vezes usamos o termo 'mal menor' para designar algo que não é mal nenhum. Por exemplo, perder uma hora de estudo para ajudar os avós numa necessidade urgente. Não estudar uma hora, normalmente, não é mal nenhum. Nem maior nem menor.

No entanto, em Teologia Moral, 'mal menor' é uma designação técnica. Aplica-se às situações em que se faz um mal para evitar outro mal maior. Mas a doutrina da Igreja ensina que nunca é lícito fazer o mal. Por exemplo, uma pessoa não pode abortar nunca, independentemente do mal que venha de tal gravidez. Reparem que o próprio Papa Francisco disse isto. Significa que mesmo quando uma rapariga violada fica à espera de bebé, não deve nunca abortar. É uma situação dramática mas que felizmente a Igreja está preparada, com instituições e boas pessoas, para ajudar estas mães. A doutrina do 'mal menor' está muito bem explicada na encíclica do Papa São João Paulo II, Veritatis Splendor (1993).

Um dos exemplos onde esta doutrina fica explícita é no caso de matarmos alguém que nos está a atacar. Pode parecer que este é um acto de homicídio, pois matámos o atacante. E o homicídio não se pode cometer nunca. Mas a doutrina da Igreja (e qualquer especialista em moral, mesmo não Católico) explica que este não foi um acto de homicídio, mas sim um acto de legítima defesa. A legítima defesa pode ter como consequência a morte de alguém, mas não é moralmente classificada como um homicídio. Na legítima defesa não há um mal menor a ser cometido, porque não houve homicídio nenhum.

No caso das freiras do Congo é exactamente a mesma coisa. Ao usarem a pílula, estas freiras estavam a cometer um acto de legítima defesa e não a evitar a gravidez durante o acto conjugal. Estavam a impedir que o esperma do violador se unisse aos seus óvulos. Como disse Janet Smith, elas estavam "a repelir um violador e toda a sua fisicalidade". Para se perceber isto melhor recomendo a leitura do artigo da Janet Smith, uma teóloga americana, especialista em Teologia do Corpo e autora dos livros Humanae Vitae: A Generation Later e Why Humanae Vitae Was Right: A Reader:

Contraception, Congo Nuns, Choosing the Lesser Evil, and Conflict of Commandments

Ou seja, o 'mal menor' usado pelo Papa Francisco não é o termo técnico da teologia, mas o que usamos na linguagem vulgar. Isto não nos devia surpreender, pois quando é para falar de teologia o Papa Francisco, um Papa que quer estar próximo dos mais simples, normalmente usa poucas palavras. Recomenda sim a leitura do Catecismo.

Preservativos: podem-se usar ou não?

Enfim, o recurso aos contraceptivos pode ser feito alguma vez? O Beato Paulo VI ensinou claramente que não, na encíclica Humanae Vitae. Disse o Papa que é "de excluir toda a acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação". Mais ainda, continuou o Papa, "não se podem invocar, como razões válidas (...) o mal menor".

A mim parece-me que o acto de violação não é um acto conjugal. Quem seriam então os "cônjuges"? Sendo assim, nem sequer faz sentido aplicar aqui essa afirmação Humanae Vitae. O que a Igreja ensina é isto: a violação é má e deve ser impedida. O mesmo se diz sobre as afirmações do Papa Bento sobre o uso dos preservativos no caso da prostituição. O que a Igreja ensina é que a prostituição é má e deve ser impedida.

Recomendo vivamente a leitura dos artigos já citados neste texto e também de uma nota da Congregação da Doutrina da Fé sobre este assunto:

Note on the banalization of sexuality

Já agora, a Igreja diz que os casais podem sim evitar a gravidez: abstendo-se de terem relações sexuais.

Com tanta discussão sobre este assunto, pode parecer que a Igreja é feita de normas morais e rígidas, que era precisamente aquilo que o Papa Francisco queria evitar. Na verdade, é uma pena que de uma entrevista com tantas outras respostas, apenas tenha chegado ao público a resposta sobre o vírus Zika. Além disso, os ensinamentos morais da Igreja têm apenas um objectivo: ajudar e ensinar os homens a serem verdadeiramente felizes. Como disse S. João Paulo II, a Igreja coloca-nos assim diante do Esplendor da Verdade.

Nuno CB


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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Padre Kentenich sobre o sacramento da Eucaristia

[O Cristão] consagra um amor especial ao Santíssimo Sacramento do altar, porque ali Jesus nos manifesta palpavelmente o seu amor e no-lo recorda com evidência a cada instante. A sagrada Eucaristia significa para ele a "vingança de um Deus moribundo!" Enquanto os homens se propõem matar o Filho de Deus, ele instituiu o sacramento do amor, a fim de permanecer sempre com eles, como sacrifício, como manjar e como amigo.

Vida e amor do cristão giram, principalmente, em torno do altar do sacrifício. A Santa Missa é o centro, o ponto de partida e convergência de toda a sua jornada diária. Para ele, a Santa Missa é o maior acontecimento do dia e o seu desejo mais ardente é converter a missa diária numa missa vivida. Não descansa até que a sua tarefa quotidiana se transforme numa continuação e acabamento da Santa Missa, com o seu ofertório, consagração e comunhão que se renovam sem cessar. Com grande intensidade ressoa nos seus ouvidos a palavra de São Paulo: "Mortem Domine annunciabitis..." Sempre que celebrardes ou comungardes anunciareis a morte do Senhor! 

Durante a Missa, ele é misteriosamente pregado, com Cristo, na sua cruz. E durante o dia aproveita todas as ocasiões para mostrar-se digno desta graça. Compreende as palavras que com frequência ouvimos dos primeiros cristãos: "Do altar à arena!" A sua arena é o trabalho quotidiano que procura realizar com a máxima perfeição. Não conhece angústias e cuidados desnecessários em relação ao passado e ao futuro. O passado já está sepultado no seio da misericórdia divina. 

Todos os seus cuidados e actividades são consagrados somente às vinte e quatro horas presentes, coroadas pela participação na Santa Missa. "De sacrificio in sacrificium" - De sacrifício em sacrifício! - é o lema. Pensa e vive somente de uma Missa a outra Missa. Bastam-lhe as preocupações e dificuldades de um dia, mas também as graças que lhe são concedidas diariamente com o sacrifício da Missa. 

Carrega a sua cruz apenas por um dia. Cumpre fielmente os seus deveres e procura ser forte, corajoso e alegre, somente no espaço de um dia. Amanhã recolherá novas graças no manancial que brota ao pé do altar. Nenhuma preocupação angustiosa o perturba, já que o seu pensamento e a sua vontade giram constantemente em Cristo e com Cristo, em torno do Pai. Não o molestam inquietudes e aflições por sua própria insuficiência, pois o Pai o contempla com grande amor, por causa de Jesus a quem está intimamente unido.

As ondas de pessimismo não o deprimem tanto, pois todos os dias é novamente incorporado, não só em Cristo padecente e agonizante, mas também em Cristo transfigurado que, com os seus anjos e santos, passa triunfalmente, vencendo as misérias deste mundo, louvando e glorificando ao Pai. Nesta perspectiva ele aprende a ver e a julgar com os olhos de Cristo os acontecimentos do tempo e do mundo.

A Santa Missa para ele não consiste apenas no Ofertório e Consagração, mas igualmente, na sagrada Comunhão. Por isso mantém-se firme no princípio: nenhuma Missa sem comunhão!

Também durante o dia procura visitar o seu Amigo divino presente no tabernáculo. Sente-se perfeitamente compreendido por Ele. Este Amigo ocupa-se com os seus interesses e o conduz mais seguramente ao Pai.»

in Espiritualidade Laical de Schoenstatt


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Oração de São Policarpo antes de morrer mártir

Senhor Deus omnipotente, Pai do vosso amado e bendito Filho Jesus Cristo, por meio do qual Vos conhecemos, Deus dos anjos, das potestades, de toda a criação e de todos os justos que vivem na vossa presença, eu Vos bendigo porque Vos dignastes, neste dia e nesta hora, incluir-me no número dos vossos mártires, fazer-me tomar parte no cálice do vosso Ungido e, pelo Espírito Santo, alcançar a ressurreição na vida eterna, na incorruptibilidade da alma e do corpo; no meio dos vossos mártires Vos peço que eu seja hoje recebido na vossa presença, como sacrifício abundante e agradável, tal como Vós o tínheis preparado e mo destes a conhecer, e agora o realizais, ó Deus verdadeiro e sem falsidade. 

Por todas as coisas Vos louvo, Vos bendigo, Vos glorifico por meio do eterno e celeste Pontífice, Jesus Cristo, vosso amado Filho. Por Ele seja dada toda a glória a Vós, em união com Ele e com o Espírito Santo, agora e nos séculos que hão-de vir, Ámen.

in Carta da Igreja de Esmirna sobre o martírio de São Policarpo (69-155)


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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Humanae Vitae: a coragem de ir contra a "revolução sexual"

Entrevista ao Pe. Ángel Rodríguez Luño, decano de teologia da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, sobre a Humanae Vitae. Neste documento do Papa Paulo VI a contracepção é condenada, em sintonia com a doutrina que a Igreja sempre defendeu.

Há quase 50 anos foi publicada a encíclica Humanae Vitae. Qual o significado dessa publicação naquela época?

Paulo VI publicou a Humanae Vitae dois meses depois dos acontecimentos de Maio de 68, que provocaram, entre outras coisas, a “revolução sexual”. Existia uma forte pressão de alguns meios de comunicação social e os especialistas divulgavam previsões demográficas pessimistas e alarmistas, que a realidade negou mais tarde. Alguns ambientes eclesiais sofriam uma certa desorientação causada por interpretações abusivas do Concílio, e alguns dos participantes nos estudos preparativos da encíclica publicaram informes que não eram definitivos. Neste contexto Paulo VI, depois de longa reflexão, reafirmou a visão cristã da sexualidade, na qual o Criador uniu duas dimensões de significado e de valor, que a encíclica chama “significado unitivo” e “significado procriativo”. Esta conexão não pode desarticular-se sem que sofram ambas dimensões, e não apenas a que se deseja excluir.

De um ponto de vista teológico, foi revolucionária? Em quais pontos?

Depende do que se entende por "revolucionária". Substancialmente Paulo VI propõe novamente a visão antropológica e moral que Pio XI, na sua encíclica sobre o matrimónio, tinha considerado como “doutrina cristã ensinada desde o princípio e nunca modificada”. Neste sentido a Humanae Vitae não representa nenhuma evolução. Revolucionária é a valentia com a qual Paulo VI se opôs a uns estereótipos culturais então muito difundidos, que eram impostos, e que eram e continuam a ser nocivos para a vida das pessoas casadas e para a cultura moral geral. Embora a encíclica se refira directamente ao matrimónio, o que estava em jogo era a visão global da sexualidade.

Para entender o contexto histórico: O que é que levou o Papa Paulo VI a escrever esta encíclica? O que era necessário responder?

Acho que a delicadeza do problema e a complexidade do contexto levaram Paulo VI a ocupar-se pessoalmente do estudo e da resolução desta questão. À luz da tradição moral da Igreja, ninguém podia duvidar que a contracepção é um comportamento intrinsecamente desordenado. Existia uma ideia, no imaginário colectivo, de que a anticoncepção consistia em manipular de alguma forma a realização da relação conjugal. Como a pílula anovulatória (que quase não existe mais hoje porque a maioria dos remédios contraceptivos têm também outros efeitos além do anovulatório) não altera a relação conjugal, alguns perguntaram se a sua utilização deveria ser sempre considerada como um pecado de contracepção. A questão não era, portanto, se a contracepção é pecado ou não, mas se o uso esponsal da pílula anovulatória é ou não anticoncepcional. Isto forçou a definir melhor a essência da contracepção, que Paulo VI refere-se quando escreveu: “exclui-se também toda acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou na sua realização, ou no desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação". Para colocá-lo de forma gráfica: se descobríssemos que comer uma laranja antes da relação conjugal a fechasse para a transmissão da vida, quem comesse a laranja propondo-se, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação cometeria o pecado de contracepção. Uso essa hipótese irreal para dar a entender onde está a contracepção, que não depende do facto de que o medicamento contraceptivo seja um produto artificial.

Considera que na formação dos noivos falte um maior aprofundamento de alguns aspectos da Humanae Vitae?

Parece-me que, efectivamente, na formação que se dá aos noivos seria necessário estudar com profundidade e integridade a Humanae Vitae. Mas isso levar-nos-ia longe. Limitar-me-ei a uma só coisa que a minha experiência confirma continuamente. Quando a encíclica de Paulo VI estava a ser preparada alguns diziam que a moral sexual cristã acaba por danificar o amor entre o homem e a mulher e a estabilidade do matrimónio. A experiência diz que hoje, numa cultura na qual se difunde o recurso à contracepção e às relações pré-matrimoniais, os fracassos dos casais são cada vez mais numerosos, bem como também são mais numerosos os fenómenos de violência e de infidelidade. Certamente outras causas podem levar a estes fenómenos. Mas continuo admirado por que é que muitos casais, que tiveram um longo período de namoro, às vezes excessivamente concentrado nos aspectos sexuais, depois de se casar, descobrem que não se conheciam bem. Talvez pudessem ter conversado mais e se juntado menos, porque juntar-se nem sempre é comunicação e conhecimento. A maior parte das vezes, pelo contrário, impede detectar e corrigir o egoísmo próprio e o da outra parte.

Muitas das questões abordadas neste documento continuam a ser debatidas: aborto, fecundação artificial... Com o passar do tempo é ainda maior a ‘oposição’ aos fundamentos teológicos da Igreja sobre estas questões?

A nossa cultura evoluiu da forma que sabemos. Denunciar as causas que fez com que as mudanças sociais tomassem esse rumo requereria uma reflexão muito interessante, mas também muito longa para esta entrevista. Não há dúvida de que, para alguns, também para alguns fieis católicos, é difícil entender alguns aspectos da moral cristã. Talvez seria necessário mais esforço para explicá-la melhor e mais esforço para compreendê-la melhor. Mas, para mim, é muito significativo que a maioria dos fiéis praticantes considerem muito positivo o seu próprio esforço por viver a moral cristã, embora ocasionalmente cometam erros.

in Zenit


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Dia da Cátedra de São Pedro




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domingo, 21 de fevereiro de 2016

D. Athanasius Schneider fala sobre alguns temas "quentes"

A MISSA "TRIDENTINA"
RC: Vossa Excelência é muito conhecida por celebrar a Missa "Tridentina" por todo o mundo. Quais são, segundo Vossa Excelência, as lições mais profundas que se aprendem ao dar a Missa "Tridentina", como padre e como bispo, e que outros padres e bispos podem esperar receber ao celebra- la?
D. Athanasius Schneider: As lições mais profundas que aprendi ao celebrar o Rito Tradicional foram estas: Sou apenas um simples instrumento de uma acção sobrenatural muitíssimo sagrada, cujo principal celebrante é Cristo, o Eterno Sumo Sacerdote. Sinto que durante a celebração da Missa perdi de certa forma a minha liberdade individual, uma vez que as palavras e gestos são prescritos até nos mais ínfimos pormenores e não posso descartá-los. Sinto profundamente no meu coração que sou apenas um servo e um ministro, que embora tenha livre arbítrio, com fé e amor, cumpro não a minha vontade, mas a vontade de Outro.
O Rito Tradicional e mais que milenar da Santa Missa, que nem o Concílio de Trento modificou porque o Ordo Missae antes e depois do Concílio eram quase idênticos, proclama e poderosamente evangeliza a Incarnação e a Epifania da indescritível santidade imensa de Deus, que na liturgia como "Deus connosco" e "Emanuel" se torna tão pequeno e perto de nós. O Rito Tradicional da Missa é uma obra de arte e, ao mesmo tempo, uma proclamação do Evangelho, que realiza o trabalho da nossa salvação.
RC: Se o Papa Bento está certo ao dizer que o Rito Romano existe (ainda que estranhamente) em duas formas em vez de uma, porque razão é que ainda não é exigido que os seminaristas estudem e aprendam a Missa Tridentina como parte do seu plano de estudos do seminário? Como pode um pároco da Igreja Romana não saber ambas as formas do único Rito da sua Igreja? E como é que é possível que seja negada a tantos Católicos a Missa Tradicional e os respectivos sacramentos se é uma forma igual?
D. Athanasius Schneider: De acordo com a intenção do Papa Bento XVI, e as normas claras da Instrução Universae Ecclesiae, todos os seminaristas Católicos devem saber a forma tradicional da Missa e ser capazes de a celebrar. O mesmo documento diz que esta forma é um tesouro para toda a Igreja - e portanto para todos os fiéis.
O Papa João Paulo II fez um apelo urgente a todos os bispos para acomodar generosamente o desejo dos fiéis em relação à celebração do Rito Tradicional da Missa. Quando os clérigos e bispos põem entraves ou restringem a celebração da Missa Tradicional, não estão a obedecer ao que o Espírito Santo diz à Igreja, e estão a agir de um modo muito anti pastoral. Não se comportam como os detentores do tesouro da liturgia, que não lhes pertence, uma vez que são só os administradores.
Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho.

A RÚSSIA AINDA NÃO EXPLICITAMENTE CONSAGRADA
RC: Há muitos ortodoxos russos onde Vossa Excelência vive. Aleksandr de Astana ou alguém do Patriarcado de Moscovo perguntou a Vossa Excelência acerca do recente Sínodo ou sobre o que está a acontecer à Igreja sob Francisco? Interessam-se sequer?
D. Athanasius Schneider: Os Prelados Ortodoxos, com os quais contacto, geralmente não estão bem informados acerca das disputas internas na Igreja Católica, ou pelo menos nunca falaram comigo desses assuntos. Ainda que não reconheçam a primazia jurisdicional do Papa, veem mesmo assim o Papa no primeiro cargo hierárquico da Igreja, do ponto de vista na ordem do protocolo.
RC: Estamos apenas a um ano do centenário de Fátima. A Rússia não foi, indiscutivelmente, consagrada ao Coração Imaculado de Maria e certamente não foi convertida. A Igreja, embora impoluta, está numa desordem completa - talvez ainda pior que durante a Heresia Ariana. Irão as coisas ficar ainda piores antes que melhorem e como devem os verdadeiros Católicos fiéis preparar-se para o que aí vem?
D. Athanasius Schneider: Temos de acreditar firmemente: A Igreja não é nossa, nem do Papa. A Igreja é de Cristo e só Ele a detém e lidera infalivelmente mesmo nos períodos mais negros de crise, como de facto está a nossa situação.
É uma mostra do Divino carácter da Igreja. A Igreja é essencialmente um mistério, um mistério sobrenatural, e não podemos aproximarmo-nos dela como fazemos a um partido político ou uma sociedade puramente humana. Ao mesmo tempo, a Igreja é humana e no seu nível humano está actualmente a sofrer uma dolorosa paixão, participando na Paixão de Cristo.
Podemos pensar que a Igreja nos nossos dias está a ser flagelada como foi Nosso Senhor, está a ser despida como foi Nosso Senhor na décima estação da Via Sacra. A Igreja, nossa Mãe, está atada por cordas não só pelos inimigos da Igreja, mas também por alguns dos colaboradores das classes do clero, e até mesmo do alto clero.
Todos os bons filhos da Mãe Igreja, como corajosos soldados, devem tentar soltar esta Mãe - com as armas espirituais de defesa e proclamação da verdade, promovendo a liturgia tradicional, adoração Eucarística, a cruzada do Santo Terço, a batalha contra o pecado na sua vida particular e aspirar à santidade.

Temos de rezar para que o Papa consagre explicitamente a Rússia ao Imaculado Coração de Maria com brevidade, para que então Ela possa vencer, como a Igreja rezou desde a antiguidade:"Alegrai-vos, ó Virgem Maria, porque sozinha derrotastes todas as heresias do mundo inteiro" (Gaude, Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo).

O resto da entrevista exclusiva ao blog católico Rorate Caeli pode ser lida aqui (em inglês): 
http://rorate-caeli.blogspot.com/2016/02/exclusive-bishop-athanasius-schneider.html


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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Alguns tipos de católicos que todos conhecemos



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Breve biografia do Beato Francisco Marto

“Ao beato Francisco, o que mais o impressionava e absorvia era Deus naquela luz imensa que penetrara no íntimo dos três. (…) Na sua vida, dá-se uma transformação que poderíamos chamar radical, uma transformação certamente não comum em crianças da sua idade. (…) Suportou os grandes sofrimentos da doença que o levou à morte, sem nunca se lamentar. Tudo lhe parecia pouco para consolar Jesus.
Papa João Paulo II, 13 de Maio de 2000.

O Francisquinho, pastorinho de Fátima
O Beato Francisco nasceu no dia 11 de Junho de 1908 e foi baptizado nove dias depois. Muito parecido com os outros meninos da sua terra nas coisas que fazia e na maneira de vestir – boina, calças compridas e casaco curto –, por dentro Francisco tinha sementes de grandes virtudes: era muito humilde, calmo, paciente e meigo. Desde muito cedo começou a tomar conta dos rebanhos do pai e, todos os dias, ia para o campo com a sua irmã dois anos mais nova, a Jacinta, e a prima Lúcia. Nestes dias de brincadeira, em que o Francisco tocava o pífaro e cantava e a Jacinta e a Lúcia dançavam, tiravam sempre tempo para rezar o Terço (ainda que à pressa!), tal como os pais lhes tinham ensinado

As aparições do Anjo
Em 1916, tinha o Francisco 8 anos, apareceu-lhes um jovem Anjo “que o sol tornava transparente como se fora de cristal” disse a irmã Lúcia. Este Anjo apareceu aos três pastorinhos 3 vezes ao longo do ano. A 2ª aparição deu-se no Verão, quando os pastorinhos estavam a brincar. É inacreditável o que o anjo começa por dizer: “Que fazeis? Orai, orai muito. Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei, constantemente, ao Altíssimo orações e sacrifícios.
Na última aparição, o anjo deu aos pastorinhos a Primeira Comunhão: “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.” Este pedido penetrou bem dentro da alma do Francisco, que apenas se preocupava em consolar Nosso Senhor na terra e no Céu.

As aparições de Nossa Senhora
De 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917, Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos na Cova da Iria. Em todas as aparições Nossa Senhora pedia-lhes que rezassem o Terço todos os dias. O Francisco, especialmente, tinha que rezar muitos terços se queria ir para o Céu. Nossa Senhora pediu-lhes se podiam fazer sacrifícios em reparação dos pecados dos homens que ofendem muito a Deus e pela conversão dos pecadores. Nestas aparições, os santos pastorinhos viram o Imaculado Coração de Maria cravado de espinhos pelos nossos pecados e o inferno.
Em Agosto os três meninos foram presos e ameaçados de morte se não contassem o que Nossa Senhora lhes tinha revelado. Perante isto, os pastorinhos mostraram-se firmes à Vontade de Deus, preparados para morrer mártires. Em Agosto, Nossa Senhora fez-lhes um pedido que definiu para sempre a vida deles: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.
Na última aparição Nosso Senhor realizou o milagre prometido pela Sua Mãe meses atrás. Quando acabou de conversar com os pastorinhos, Nossa Senhora tomou um aspecto mais triste e disse “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.

Um pequeno herói
Nestas aparições, o tema da oração e da mortificação em reparação dos pecados e pela conversão dos pecadores foi dos mais importantes na mensagem de Nossa Senhora. No entanto, foi-nos assegurado que, no fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará! O Francisco tinha 9 anos quando assistiu a tudo isto. Depois de saber qual a Vontade de Deus, a sua vida não pôde continuar a mesma. Ele, a Jacinta e a Lúcia souberam responder aos apelos de Nossa Senhora mortificando-se de vários modos: davam os seus almoços aos pobres, passaram um mês de Verão sem beber água, traziam atado à cintura uma corda apertada, … Outra escolha importante que os três fizeram foi decidir rezar mais, tirando algum tempo às brincadeiras que tinham. É assim que são os santos, tiram do seu tempo e oferecem-no a Deus.

Nuno CB

[este texto foi publicado na Partilha, revista das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, em Fevereiro de 2011]


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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A incrível entrevista do Papa Francisco no voo do México

Independentemente do que têm dito sobre a entrevista do Papa no voo do México para Roma, esta entrevista merece ser lida e podem encontrar aqui o original.

A verdade é que muitos Católicos se assustam ao ler os comentários do Papa. Pior ainda, julgam-no ao duvidarem da sua doutrina. Correm linhas e linhas sobre isto em certos blogs e sites de notícias: The Most Confusing Papal Interview Ever. Só acrescenta à enorme confusão que os media têm estado a criar, como sempre fizeram com os comentários de qualquer Papa. 

Mas foi uma entrevista magnífica, que qualquer Católico devia imprimir e guardar em casa para ler quando duvidar da rectidão doutrinal do Santo Padre. Como Católicos devíamos ler o que o Papa Francisco diz com olhos de caridade e de compreensão, sem a mínima influência dos media. Não nos podemos esquecer que ele é o Papa, Vigário de Cristo na terra. 

SEIS ideias da entrevista que o Papa deu, para além do Donald Trump e dos preservativos:

1. O Papa Bento XVI foi um herói no combate contra a pedofilia, já mesmo enquanto Cardeal.

2. O aborto é sempre mau, independentemente das circunstâncias (isto é, é um mal absoluto).

3.  O que o Papa Francisco diz sobre os homossexuais é o que diz o Catecismo da Igreja Católica (palavras do próprio Papa).

4. Há ainda diferenças doutrinais entre Ortodoxos e Católicos.

5. Ter uma relação amorosa com uma mulher que não a esposa é pecado.

6. Talvez saia a exortação da Família antes da Páscoa (há quem diga que sai no dia de S. José).


Por fim, um pequeno esclarecimento sobre o que o Papa disse sobre os preservativos:

1. No aborto nunca há mal menor.

2. Foi para explicar o mal menor que o Papa falou dos preservativos.

O comentário já não tinha nada a ver com o Zika.
Todos conhecemos o Papa Francisco. Tenta mostrar sempre o lado bom.
Ao dizer que o aborto não podia ser mal menor, o Papa tentou lembrar-se de um caso em que pode haver um mal menor.
Não passava pela cabeça do Santo Padre sugerir o preservativo para evitar o Zika (ou a SIDA, etc.), como vêem no exemplo que o Papa deu, já a seguir.

3. Em casos de violação de freiras, o Papa permitiu que as freiras usassem (elas próprias) anti-concepcionais.

4. Já o Papa Bento XVI tinha falado que compreendia o uso de preservativo da parte de homens prostitutos, na entrevista Luz do Mundo.

Deixo aqui a tradução inglesa do Catholic News Agency (que tem um erro, como verão em baixo):
Pope Francis: Abortion is not the lesser of two evils. It is a crime. It is to throw someone out in order to save another. That’s what the Mafia does. It is a crime, an absolute evil. On the ‘lesser evil,’ avoiding pregnancy, we are speaking in terms of the conflict between the fifth and sixth commandment. Paul VI, a great man, in a difficult situation in Africa, permitted nuns to use contraceptives in cases of rape.
Don’t confuse the evil of avoiding pregnancy by itself, with abortion. Abortion is not a theological problem, it is a human problem, it is a medical problem. You kill one person to save another, in the best case scenario. Or to live comfortably, no?  It’s against the Hippocratic oaths doctors must take. It is an evil in and of itself, but it is not a religious evil in the beginning, no, it’s a human evil. Then obviously, as with every human evil, each killing is condemned. 
On the other hand, avoiding pregnancy is not an absolute evil. In certain cases, as in this one [o Papa não disse "as in this one", vejam no original em baixo], or in the one I mentioned of Blessed Paul VI, it was clear. I would also urge doctors to do their utmost to find vaccines against these two mosquitoes that carry this disease. This needs to be worked on. 
E aqui o original:
Papa Francesco: L’aborto non è un “male minore”. E’ un crimine. E’ fare fuori uno per salvare un altro. E’ quello che fa la mafia. E’ un crimine, è un male assoluto. Riguardo al “male minore”: evitare la gravidanza è un caso – parliamo in termini di conflitto tra il quinto e il sesto comandamento. Paolo VI - il grande! - in una situazione difficile, in Africa, ha permesso alle suore di usare gli anticoncezionali per i casi di violenza. 
Non bisogna confondere il male di evitare la gravidanza, da solo, con l’aborto. L’aborto non è un problema teologico: è un problema umano, è un problema medico. Si uccide una persona per salvarne un'altra – nel migliore dei casi – o per passarsela bene. E’ contro il Giuramento di Ippocrate che i medici devono fare. E’ un male in sé stesso, ma non è un male religioso, all’inizio, no, è un male umano. Ed evidentemente, siccome è un male umano – come ogni uccisione – è condannato. 
Invece, evitare la gravidanza non è un male assoluto, e in certi casi, come in quello che ho menzionato del Beato Paolo VI, era chiaro. Inoltre, io esorterei i medici che facciano di tutto per trovare i vaccini contro queste due zanzare che portano questo male: su questo si deve lavorare… Grazie.
 Nuno CB

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