quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Brexit e o ocaso do Ocidente

O referendo inglês de 23 de Junho (Brexit) carimba o colapso definitivo de um mito: o sonho de uma “Europa sem fronteiras”, construída sobre a ruína dos Estados nacionais.
O projecto europeísta, lançado com o Tratado de Maastricht de 1992, continha as sementes de sua auto-dissolução. Era completamente ilusório querer realizar uma união económica e monetária antes de uma união política. Ou, pior ainda, imaginar servir-se da integração monetária para impor a unificação política. Porém, tanto e ainda mais ilusório era o projecto de chegar a uma unidade política extirpando as raízes espirituais que unem os homens em torno de um destino comum.

A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, aprovada pelo Conselho Europeu em Nice, em Dezembro de 2000, não só elimina todas as referências às raízes religiosas da Europa como constitui uma negação visceral da ordem natural cristã. O seu artigo 21º, introduzindo a proibição de discriminação relativa à “orientação sexual”, contém, em potência, a legalização do pseudo-casamento "homossexual" e a criminalização da “homofobia”.

O projecto de “Constituição”, elaborado entre 2002 e 2003 pela Convenção sobre o futuro da Europa, foi rejeitado por dois referendos populares, um em França, a 29 de Maio de 2005, e o outro nos Países Baixos, três dias depois. Mas os eurocratas não desistiram. Após dois anos de “reflexão”, a 13 de Dezembro de 2007, foi aprovado pelos Chefes de Estado e de Governo da União Europeia o Tratado de Lisboa, que deveria ser ratificado exclusivamente por via parlamentar. A Irlanda, o único país obrigado a expressar-se por meio de referendo, rejeitou o Tratado a 13 de Junho de 2008. Mas como era necessária a unanimidade dos Estados signatários, foi imposto aos irlandeses um novo referendo, que, graças à fortíssima pressão económica e mediática, deu finalmente resultado positivo.

Na sua curta vida, a União Europeia, incapaz de definir uma política externa e de segurança comum, transformou-se numa tribuna ideológica, produzindo resoluções e directrizes para compelir os governos nacionais a livrarem-se dos valores familiares e tradicionais. Dentro da UE, a Grã-Bretanha, em vez de tentar travar o plano franco-alemão de um “superestado europeu”, acelerou, a fim de difundir em escala europeia as suas “conquistas civis”, do aborto à eutanásia, das adopções "homossexuais" às manipulações genéticas. Essa deriva moral foi acompanhada na Inglaterra por uma embriaguez multicultural, culminando com a eleição, em Maio de 2016, do primeiro prefeito muçulmano de Londres, Sadiq Khan.

Mas já em 2009, o então prefeito conservador, Boris Johnson, convidou todos os londrinos a participar, pelo menos por um dia, do jejum do Ramadão e entrar numa mesquita ao pôr-do-sol. Mais recentemente, o primeiro-ministro David Cameron, provocando o candidato à presidência americana Donald Trump, definiu-se como “orgulhoso por representar um dos países multi-raciais, multi-religiosos e multi-étnicos mais bem-sucedidos do mundo” (“HuffPost Politics”, 15 de Maio, 2016).

O Brexit representa certamente um sobressalto orgulhoso de um povo com longa história e antiga tradição. Mas a identidade e a liberdade de um povo fundam-se no respeito à lei divina e natural, e nenhum gesto político pode restaurar a liberdade de um país que a perde por causa da sua decadência moral.

O “não” à União Europeia foi um protesto contra a arrogância de uma oligarquia que pretende decidir, sem o povo e contra o povo, quais são os interesses do povo. Mas os poderes fortes que impõem as regras burocráticas de Bruxelas são os mesmos que desfazem as regras morais do Ocidente. Quem aceita a ditadura LGBT perde o direito de reivindicar o próprio Independence Day, pois já renunciou à sua identidade. Quem renuncia a defender as fronteiras morais de uma nação perde o direito de defender as suas fronteiras, porque já aceitou o conceito “líquido” da sociedade global. Sob este aspecto, o itinerário de auto-dissolução da Grã-Bretanha segue uma dinâmica que o Brexit não pôde parar, e da qual pode vir de facto a constituir mais uma etapa.

A Escócia já ameaça com um novo referendo para deixar o Reino Unido, seguida da Irlanda do Norte. Além disso, quando a Rainha, que tem 90 anos, deixar o trono, não é de se excluir que alguns países da Commonwealth declarem a independência. Alguém disse que a rainha Elizabeth foi coroada imperatriz do British Empire e talvez morra à frente de uma Little England. Mas este itinerário de desunião política tem como resultado final a republicanização da Inglaterra.

O ano de 2017 marca o terceiro centenário da fundação da Grande Loja de Londres, a mãe da Maçonaria moderna. Mas a Maçonaria, que nos séculos XVIII e XIX se serviu da Inglaterra protestante e deísta para difundir no mundo o seu programa revolucionário, parece hoje determinada a afundar a monarquia britânica, na qual vê um dos últimos símbolos ainda sobreviventes da ordem medieval.

Após o Brexit, cenários de desintegração podem também abrir-se no resto da Europa. Na Grécia, pela explosão da crise económica e social; em França, onde as periferias urbanas estão ameaçadas por uma guerra civil jihadista; em Itália, pelas consequências de uma irrefreável invasão migratória; na Europa Oriental, onde Putin está pronto para aproveitar a fraqueza das instituições europeias para assumir o controle do território oriental da Ucrânia e exercer a sua pressão militar sobre os Estados Bálticos.

O general britânico Alexander Richard Shirreff, ex-vice-comandante da NATO de 2011 a 2014, previu, na forma de romance (2017: War with Russia. An Urgent Warning From Senior Military Command – “Guerra em 2017 com a Rússia. Um aviso urgente do Alto Comando Militar” – Coronet, Londres 2016), a explosão de uma guerra nuclear entre a Rússia e o Ocidente, em Maio de 2017, uma data que para os católicos lembra algo. Como nos podemos esquecer, no primeiro centenário de Fátima, das palavras de Nossa Senhora, segundo as quais muitas nações seriam aniquiladas e a Rússia seria o instrumento do qual Deus se serviria para punir a Humanidade impenitente?

Diante dessas perspectivas, os próprios partidos conservadores europeus estão divididos. Se Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e Matteo Salvini na Itália, exigem a saída dos seus países da União Europeia e confiam em Putin, bem diversas são as posições do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban e do líder polonês Jaroslaw Kaczynski, que vêem na UE e na NATO uma barreira contra o expansionismo russo.

Em 1917 foi publicado 'Der Untergang des Abendlandes' (O declínio do Ocidente), de Oswald Spengler (1880-1936). Cem anos mais tarde, a profecia do escritor alemão parece começar a cumprir-se. 'Ocidente', mais do que um espaço geográfico, é o nome de uma civilização. Esta civilização é a Civilização Cristã, herdeira da cultura clássica greco-romana que a partir da Europa se difundiu para as Américas e para as ramificações longínquas da Ásia e África. Ele teve o seu baptismo na noite do sonho de São Paulo, quando Deus deu ao Apóstolo a ordem de virar as costas à Ásia a fim de “ir para a Macedónia” anunciar a Boa Nova (At 16, 6-10). Roma foi o local do martírio de São Pedro e São Paulo e o centro da civilização que nascia.

Spengler, convencido do inexorável declínio do Ocidente, lembra uma frase de Séneca: 'Ducunt volentem fata, nolentem trahunt' (O destino guia os que lhe obedecem e arrasta consigo os que se lhe opõem). Mas à visão relativista e determinista de Spengler nós opomos aquela de Santo Agostinho que, enquanto os bárbaros cercavam Hipona, anunciava a vitória da Cidade de Deus na História, sempre guiada pela Divina Providência. O Homem é artífice do seu próprio destino e, com a ajuda de Deus, o ocaso de uma civilização pode transformar-se na aurora de uma ressurreição. As nações são mortais, mas Deus não morre, e a Igreja não tem ocaso.

Roberto de Mattei in Corrispondenza Romana

(tradução adptada de 'fratres in unum')


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França desviou-se do seu caminho

Basílica do Sagrado Coração de Jesus - Paris
Eis a que havia chegado a nação franceza tão nobre e generosa; essa velha raça dos francos que fizera com Jesus Christo tão bella aliança, cujos monarchas se honravam com o título de filhos primogenitos da Igreja, que tendo recebido do Céu dons incomparaveis, magnifica em sua gratidão, dera à religião de Christo a maior glória humana, que ella jamais recebeu de povo algum. 

Ei-la caindo primeiramente d'estas alturas em um meio amor, pouco depois, como quase sempre sucede, d'este meio amor na sua total extincção, até que enfim, odiando-se a si mesma e a Deus, viam-na rasgar as entranhas e expulsa-lo com furibundos gritos. Memoravel exemplo d'uma nação que se devia do recto caminho e desconhece a sua missão!


Padre Émile Bougaud (1823-1888) in Origem da Devoção ao Coração de Jesus


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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Rezar de joelhos faz sentido?

A oração de joelhos torna-se necessária sempre que acusamos os nossos pecados diante de Deus, e Lhe suplicamos que deles nos cure e nos absolva. Essa atitude é o símbolo da humilhação e da submissão de que fala Paulo, quando escreve: «É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai, do qual recebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra» (Ef 3,14-15). Trata-se da genuflexão espiritual, assim chamada porque todas as criaturas adoram a Deus no nome de Jesus e a Ele se submetem humildemente. O apóstolo Paulo parece fazer uma alusão a isso quando diz: «Para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra» (Fil 2,10).

Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo, A Oração, 31


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Papa Bento XVI comemora 65 anos de sacerdócio

Solenidade de S. Pedro e S. Paulo: Foi a 29 de Junho de 1951, na Catedral de Freising, que o jovem Joseph Ratzinger viria a ser ordenado sacerdote pelo Cardeal de Munique, D. Michael Faulhaber. Na sua autobiografia, o então cardeal Ratzinger disse que esse foi o momento mais importante da sua vida. Juntamente com Joseph, de 24 anos, foi também ordenado nesse dia o seu irmão Georg, de 27.




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terça-feira, 28 de junho de 2016

A humildade do Verbo de Deus - Santo Ireneu

O Verbo de Deus se fez homem. O Filho de Deus tornou-se Filho do homem para que o homem, unido ao Verbo de Deus, recebesse a adopção e se tornasse filho de Deus.

Nunca poderíamos obter a incorrupção e a imortalidade a não ser unindo-nos à incorrupção e à imortalidade. Mas como poderíamos realizar esta união sem que antes a incorrupção e a imortalidade se tornassem aquilo que somos, a fim de que o corruptível fosse absorvido pela incorrupção e o mortal pela imortalidade e, deste modo, pudéssemos receber a adopção de filhos?

O Filho de Deus, nosso Senhor, Verbo do Pai, tornou-se Filho do homem. Filho do Homem porque pertencia ao género humano, tendo nascido de Maria, que era filha de pais humanos e ela mesma uma criatura humana.

O próprio Senhor nos deu um sinal que se estende do mais profundo da terra ao mais alto dos céus. Um sinal que não foi pedido pelo homem,pois nem sequer ele poderia pensar que uma virgem, permanecendo virgem, pudesse conceber e dar à luz um filho. Nem mesmo supor que este filho, Deus-connosco, descesse ao mais baixo da terra, em busca da ovelha perdida – que ele próprio criara – e subisse às alturas para oferecer ao Pai aquele mesmo homem que viera encontrar, realizando, deste modo, em si próprio, as primícias de ressurreição do homem. 

De facto, assim como a cabeça ressuscitou dos mortos, assim todo o corpo (dos homens que participam de sua vida, passado o tempo do castigo da desobediência) ressuscitará, unido pelas suas junturas e articulações, firme no crescimento em Deus, possuindo cada membro sua posição adequada. São muitas as mansões na casa do Pai porque muitos são os membros do corpo.

Tendo falhado o homem, Deus foi magnânimo, pois previu a vitória que pelo Verbo lhe seria restituída. Porque a força se perfez na fraqueza, revelou-se então a benignidade de Deus e o seu esplêndido poder.

in Tratado contra as heresias


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A Igreja é Santa e não pecadora - o Papa e as desculpas aos gays

A Igreja é Santa e não pecadora. Eis um ponto fundamental da nossa Fé, um ponto que muitos Católicos têm dificuldade em compreender. Quem é que o reafirmou? O Papa Francisco ontem, na viagem de regresso da Arménia.
"A Igreja deve pedir desculpa por não se ter comportado bem tantas, tantas vezes... - e quando digo "igreja" quero dizer os cristãos; a Igreja é Santa, os pecadores somos nós! - os cristãos devem pedir desculpa de não ter acompanhado tantas escolhas, tantas famílias..."
Esta resposta surgiu quando uma jornalista da Catholic News Agency perguntou ao Papa se a Igreja devia pedir desculpa à comunidade gay, após os atentados de Orlando.

Na sua resposta, o Papa desmarcou-se de um pedido de desculpas institucional por parte da Igreja. A Igreja é santa, não tem que pedir desculpas. Quem tem que pedir desculpas são os cristãos, pelas vezes em que deixam de ser Igreja.  Na verdade o Papa disse que os cristãos devem pedir desculpas não só por isso, mas por todas as outras pessoas que tratam mal. 
"Eu penso que a igreja não só deva pedir desculpa (...) a esta pessoa que é gay, que ofendeu, mas deve também pedir desculpa aos pobres, às mulheres e crianças exploradas no trabalho; deve pedir desculpa de ter abençoado tantas armas... A igreja deve pedir desculpa de não se ter portado bem tantas, tantas vezes... - e quando digo "igreja" quero dizer os cristãos; a Igreja é Santa, os pecadores somos nós! "
Logo a seguir o Papa elogiou tantas pessoas da Igreja que fazem bem o seu trabalho:
"Mas a verdade é que há tantos [que são bons]! Tantos capelães de hospitais, capelães de prisões, tantos santos! Mas estes não se vêem, porque a santidade é "pudorosa" [tem pudor], esconde-se. (...) nós cristãos temos também uma Teresa de Calcutá e tantas Teresas de Calcutá! Temos tantas irmãs em África, tantos leigos, tantos casais santos! (...)"
Mas antes de tudo isto, o Papa começou por dizer como se posiciona diante dos homossexuais. "(...) uma pessoa que tem aquela condição [de ser homossexual], que tem boa vontade e procura a Deus, quem somos nós para julgá-la?"

A prática da homossexualidade é um grave erro cometido por alguns, que os impede de aceder à graça de Deus. No entanto, não devemos pô-las de parte, discriminá-las. A Igreja deve acompanhar estas pessoas e ajudá-las na sua conversão, especialmente com a ajuda do sacramento da Confissão, fonte de Graça para quem está em pecado mortal. É certo que o Papa pensa assim, pois voltou a referir o Catecismo da Igreja Católica quando responde sobre este assunto:
"Eu repetirei a mesma coisa que disse na primeira viagem, e repito também o que diz o Catecismo da Igreja Católica: que não devem ser discriminados, mas respeitados e acompanhados pastoralmente. (...) Devemos acompanhá-la bem, segundo o que diz o Catecismo. O Catecismo é claro!"
Além disso, o Papa não hesitou em dizer que muitas vezes pessoas homossexuais, para além dos seus actos imorais relativos à sexualidade, cometem outros erros também condenáveis. Disse o Papa:
"Sim, pode-se condenar, não por motivos ideológicos, mas por motivos - digamos - de comportamento político, algumas manifestações demasiado ofensivas para os outros."
Mais uma vez, nem tudo o que os jornais dizem é verdade. O próprio Papa sofre com isto. Na mesma entrevista manifestou o seu desagrado quando os jornais disseram que a Igreja abriu as portas às diaconisas, ideia que o Papa não considerou verdade.

Nuno CB

Deixamos aqui quase toda a resposta do Papa em relação às desculpas da igreja aos homossexuais. Tradução do blog Senza. O original encontra-se aqui.
"Eu repetirei a mesma coisa que disse na primeira viagem, e repito também o que diz o Catecismo da Igreja Católica: que não devem ser discriminados, mas respeitados e acompanhados pastoralmente. Sim, pode-se condenar, não por motivos ideológicos, mas por motivos - digamos - de comportamento político, algumas manifestações demasiado ofensivas para os outros. Mas estas coisas não têm a ver com o problema: o problema é uma pessoa que tem aquela condição, que tem boa vontade e procura a Deus, quem somos nós para julgá-la? Devemos acompanhá-la bem, segundo o que diz o Catecismo. O Catecismo é claro! 
Depois há as tradições de alguns países, em algumas culturas, que têm uma mentalidade diferente sobre este problema. Eu penso que a igreja não só deva pedir desculpa - como disse aquele Cardeal "marxista" [Cardeal Marx] - a esta pessoa que é gay, que ofendeu, mas deve também pedir desculpa aos pobres, às mulheres e crianças exploradas no trabalho; deve pedir desculpa de ter abençoado tantas armas... A igreja deve pedir desculpa de não ser ter portado bem tantas, tantas vezes... - e quando digo "igreja" quero dizer os cristãos; a Igreja é Santa, os pecadores somos nós! - os cristãos devem pedir desculpa de não ter acompanhado tantas escolhas, tantas famílias... Recordo-me de menino da cultura de Buenos Aires, a cultura católica fechada - eu venho de lá! -: não se podia entrar em casa de uma família divorciada! Falo de há 80 anos. A cultura mudou, graças a Deus.
Como cristãos devemos pedir tantas desculpas, não só por isto. Perdão, e não desculpas! "Perdão, Senhor": é uma palavra que esquecemos - agora faço de pastor e faço o sermão! Não, isto é verdade, tantas vezes o "sacerdote mestre" e não o sacerdote padre, o sacerdote "que se zanga" e não o sacerdote que abraça, que perdoa e consola.... Mas a verdade é que há tantos [que são bons]! Tantos capelães de hospitais, capelães de prisões, tantos santos! Mas estes não se vêem, porque a santidade é "pudorosa" [tem pudor], esconde-se. Pelo contrário a falta de pudor é um bocadinho desavergonhada; é desavergonhada e vê-se. Tantas organizações, com pessoas boas e pessoas não tão boas; ou pessoas a quem se dá uma "bolsa" tão grande e guardam-na à parte, como as potências internacionais com os genocídios. Também nós cristãos - os padres e os bispos - fizemos isto; mas nós cristãos temos também uma Teresa de Calcutá e tantas Teresas de Calcutá! Temos tantas irmãs em África, tantos leigos, tantos casais santos! O trigo e o joio, o trigo e o joio. (...)"


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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Afogar o mal com o bem

Servir os outros, por Cristo, exige que sejamos muito humanos. Se a nossa vida é desumana, Deus nada edificará nela, porque habitualmente não constrói sobre a desordem, sobre o egoísmo, sobre a prepotência. 

Precisamos de compreender todas as pessoas, temos de conviver com todos, temos de desculpar todos, temos de perdoar a todos. Não diremos que o injusto é o justo, que a ofensa a Deus não é ofensa a Deus, que o mau é bom. 

Todavia, perante o mal, não responderemos com outro mal, mas com a doutrina clara e com a boa acção; afogando o mal em abundância de bem. 

S. Josemaria Escrivá in Cristo que passa, 182


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domingo, 26 de junho de 2016

Hoje é dia de ordenações em Lisboa


Rezemos hoje por todos os ordinandos, em especial pelo futuro Padre Senza, Tiago Fonseca:

Ó Jesus, Eterno Sacerdote, que criastes o sacerdócio católico na noite da última ceia, como expressão e fruto do Vosso imenso amor, mantende os Vossos sacerdotes sob a protecção do Vosso Sagrado Coração, onde ninguém os pode tocar.
Mantende sem mancha as suas mãos ungidas, que diariamente tocam o Vosso Sacratíssimo Corpo.
Mantende sem mácula os seus lábios, que diariamente bebem o Vosso Preciosíssimo Sangue.
Mantende puros e desinteressados os seus corações, selados com o carácter sublime do sacerdócio.
Deixai que o Vosso Santo Amor os cerque do contágio do mundo.
Abençoai os seus trabalhos com fruto abundante, e que as almas que eles cuidam e amam sejam a sua alegria e consolação aqui e a sua coroa eterna após a morte.
 
Virgem Maria, Rainha do Clero, rogai por nós: obtende-nos numerosos e santos sacerdotes. Amén.


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sábado, 25 de junho de 2016

Santificar o trabalho?




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Como tudo começou: os 3 primeiros padres do Opus Dei

A formação dos futuros sacerdotes é um tema da maior importância. Descubram porquê com esta história.

Os três primeiros sacerdotes ordenados a 25 de Junho de 1944 pelo Bispo de Madrid foram o Pe. Álvaro del Portillo, o Pe. José Maria Hernández de Garnica e o Pe. José Luís Múzquiz, todos três engenheiros.


O primeiro que S. Josemaria convidou foi Álvaro del Portillo, depois de insistir com ele na sua liberdade de decisão, estimulando na sua alma o desejo de servir: Se sentes que está disposto – dizia-lhe -, se o desejas, e não vês inconvenientes, poderás ser ordenado sacerdote, com plena liberdade; e chamo-te ao sacerdócio não por seres melhor, mas para servir os outros (1).

José Maria Hernández de Garnica, a quem chamavam familiarmente Chiqui, pertencia ao Opus Dei desde Julho de 1935.

José Luís Múzquiz, tinha pedido a admissão em 1940, embora se tivesse encontrado pela primeira vez com o Fundador em 1935, quando acabava de terminar o curso de engenharia civil. Tinha assistido a círculos de formação na Residência de Ferraz até ao começo da guerra que o apanhou numa viagem de estudo pela Europa, e em 1939 continuou a ter direcção espiritual com o fundador do Opus Dei. Por fim, num dia de recolecção, depois de ouvir a meditação pregada pelo Pe. Josemaria – como o próprio conta -, «sem que me convidasse expressamente, manifestei-lhe vontade de ser da Obra. E ele disse-me apenas – Que Deus te abençoe, é coisa do Espírito Santo. Isto passou-se no dia 21 de Janeiro de 1940» (2).
Pe. José Luís Muzquiz com S. Josemaria

S. Josemaria era o único sacerdote no Opus Dei desde 1928.

(...)

Resumindo algumas das causas e dos motivos pelos quais a Obra precisava de sacerdotes, o Fundador escreve:Os sacerdotes também são necessários para o atendimento espiritual dos membros da Obra: para administrarem os sacramentos, colaborarem com os directores leigos na direcção das almas, darem uma profunda instrução teológica aos restantes sócios do Opus Dei e – ponto fundamental na própria constituição da Obra – ocuparem alguns cargos de governo (5).

Entre a incerteza dos primeiros empenhamentos e a esperança, tangível e segura, da preparação dos três filhos seus para o sacerdócio, medeiam nada menos que dez anos de oração e mortificação. E haviam de decorrer mais quatro anos até à sua ordenação, em 1944. Anos e anos de pedidos e trabalhos insistentes.

Rezei com esperança e confiança, durante tantos anos, pelos vossos irmãos que haveriam de se ordenar, e por todos os que, mais tarde, seguiriam o seu caminho, e rezei tanto, que posso afirmar que todos os sacerdotes do Opus Dei são filhos da minha oração (7).

O Fundador insistiu muitas vezes em que a vocação ao sacerdócio não é uma espécie de “coroação” da vocação para a Obra. Pelo contrário, pela sua inteira disponibilidade para as tarefas apostólicas e pela formação recebida, pode dizer-se que todos os numerários reúnem as condições necessárias exigidas para o sacerdócio e estão dispostos a receber a ordenação sacerdotal, se o Senhor lho pedir e o Padre os convidar a servir a Igreja e a Obra dessa maneira.

Entre as resoluções que o Fundador do Opus Dei tomou em Novembro de 1941, está a seguinte: Orar, sofrer e trabalhar sem descanso até serem uma realidade na Obra os Sacerdotes que Jesus quer nela. Falar deste ponto com o nosso Bispo de Madrid, meu Pai (8).

Formação dos sacerdotes

O assunto a tratar com o Sr. Bispo de Madrid era o dos estudos eclesiásticos, que normalmente eram feitos em centros docentes oficiais, geralmente nos seminários diocesanos ou nas universidades pontifícias. Dadas as circunstâncias dos estudantes, a sua idade e cursos civis, receberiam aulas de professores particulares no centro da Rua de Diego de León; era seu Director de Estudos o Pe. José Maria Bueno Monreal que, entre 1927 e aquela altura, fora professor de Direito Canónico e Teologia Moral no Seminário de Madrid (9).

Na Primavera de 1942 estavam já os estudantes «em muito boas condições para fazerem os exames», segundo o Director de Estudos.

Quando preparei os primeiros sacerdotes da Obra, exagerei – se é possível – a sua formação filosófica e teológica, por diversas razões: a segunda, para agradar a Deus; a terceira, porque havia muitos olhos cheios de carinho postos em nós, e não podíamos defraudar essas almas; a quarta, porque havia quem não gostasse de nós, e procurasse uma oportunidade para nos atacar; depois, porque na vida profissional sempre exigi aos meus filhos a melhor preparação, e não ia fazer menos com a sua formação religiosa. E a primeira razão – uma vez que posso morrer de um momento para o outro, pensava -, porque tenho de dar contas a Deus do que fiz e desejo ardentemente salvar a minha alma (10).

Entre as fichas antigas soltas que se conservam do Fundador há dois pensamentos que têm muito a ver com esta matéria. Um deles diz: A formação sacerdotal… isso sim, tem de ser Opus Dei! E a outra: O sacerdócio recebe-se no momento da ordenação, mas a formação sacerdotal… (11). A formação abarca toda a vida. Porque a vida é progresso; e quem se detém atrasa-se, e acabará na valeta. (12).

Os três candidatos receberam a preparação pastoral para as Sagradas Ordens directamente do Padre, que teve o cuidado de os ir formando nas virtudes sacerdotais. E, no que se refere aos estudos, não fizeram as disciplinas de Sagrada Teologia no Seminário, mas no Centro de Estudos Eclesiásticos da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, com sede na Rua de Diego de León, e formalmente constituído em Dezembro de 1943 (13).

in pt.josemariaescriva.info

Notas:
1. Álvaro del Portillo, PR, p.958
2. José Luis Múzquiz de Miguel, Sum. 5791
5. Carta 14-II-1944, n. 9. Os sacerdotes não eram simples auxiliares das actividades de um grupo de leigos; sacerdotes e leigos - em cooperação orgânica – eram igualmente essenciais, como o são na Igreja; com efeito, desde o princípio que a Obra foi vista pelo Fundador como uma porção do Povo de Deus, uma pequena parte da Igreja.
7. Carta 8-VIII-1956, n. 5
8. Apuntes, n. 1854, de 9-XI-1941
9. D. José Maria Bueno Monreal conheceu o Padre Josemaria em 1927 ou 1928, na Faculdade de Direito. Interveio na preparação dos documentos para a aprovação da Obra como Pia União, como atrás se disse. Encarregou-se da direcção de estudos dos três primeiros membros do Opus Dei que receberam a ordenação sacerdotal. No final de 1945, foi nomeado Bispo de Jaca, e depois de Vitória. Em 1954, foi nomeado Arcebispo Coadjutor de Sevilha e, quatro anos mais tarde, Cardeal de Sevilha. Morreu em 1987.
10. Carta 8-VIII-1956, n. 13. «Teologia não era, pois, uma coisa extraordinária, porque com o tempo seria normal na Obra: todos os membros devem possuir a formação doutrinal religiosa conveniente. Por isso, logo a seguir começariam a estudar outros, e mais outros, sem interrupção, como sucedeu efectivamente. Tudo isto mo dizia como algo que pertencia à essência apostólica da Obra, e que era, pois, claramente de Deus» (José López Ortiz, em: Beato Josemaria Escrivá de Balaguer, un hombre de Dios. Testimonios sobre el Fundador del Opus Dei, Madrid, 1994, p. 232-233)
11. RHF, AVF-0079, de II-1944
12. A vossa formação nunca se considera acabada: durante toda a vossa vida, com uma maravilhosa humildade, precisareis de aperfeiçoar a vossa preparação humana, espiritual, doutrinal-religiosa, apostólica e profissional (Carta 6-VI-1945, n. 19)
13. A constituição do Centro de Estudos Eclesiásticos da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, com sede na Rua de Diego de León (Lagasca, n. 116), que funcionava há algum tempo como centro de estudos, foi comunicada ao Sr. Bispo de Madrid-Alcalá com data de 10 de Dezembro de 1943, isto é, dois dias depois do decreto de erecção da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz (cf. RHF, D-15140)


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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Hoje nasceu S. João Baptista, que vem anunciar a salvação

 
Hoje a Igreja celebra a Natividade de S. João Baptista, o precursor do Messias. Neste dia lembramos o maior dos profetas, como o próprio Jesus o chama em Mt 11,11: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior do que João, o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele.” Mas porque é que João Baptista foi tão importante? Neste dia a liturgia da Igreja coloca-nos frente a esta personagem que nos ensina, com a sua vida e palavras, a ser fiéis discípulos e missionários de Cristo.

João Baptista é uma voz, mas a palavra (o Verbo) é muito mais que a voz. 

Através do prefácio da Missa de hoje percebemos as principais dimensões da importância de S. João Baptista: 
"Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte: por Cristo nosso Senhor. 
Ao celebrarmos hoje a glória do Precursor, São João Baptista, proclamado o maior entre os filhos dos homens, anunciamos as vossas maravilhas: antes de nascer, ele exultou de alegria, sentindo a presença do Salvador; quando veio ao mundo, muitos se alegraram pelo seu nascimento; foi ele, entre todos os Profetas, que mostrou o Cordeiro que tira o pecado do mundo; nas águas do Jordão, ele baptizou o autor do Baptismo e desde então a água viva tem poder de santificar os crentes; por fim deu o mais belo testemunho de Cristo, derramando por Ele o seu sangue. 
Por isso, com os Anjos e os Santos no Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz..."

Explica Santo Agostinho:
"Foi para ensinar o homem a humilhar-se que João nasceu no dia a partir do qual os dias começam a decrescer; para nos mostrar que Deus deve ser exaltado, Jesus Cristo nasceu no dia em que os dias começam a aumentar. Há aqui um ensinamento profundamente misterioso. Nós celebramos a natividade de João como celebramos a de Cristo, porque essa natividade está cheia de mistério. De que mistério? Do mistério da nossa grandeza. Diminuamo-nos em nós próprios para podermos crescer em Deus; humilhemo-nos na nossa baixeza, para sermos exaltados na Sua grandeza."

Diz o Evangelista, S. João, a propósito do Senhor, Jesus Cristo, que «Era a Luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo» (Jo 1,9). Foi no preciso momento em que a duração da noite ultrapassava a do dia que, de repente, a vinda do Senhor projectou todo o seu esplendor; e se o seu nascimento afastou dos homens as trevas do pecado, a sua vinda pôs fim à noite e trouxe-lhes a luz do dia claro.

S. João, no seu Evangelho (Jo, 1,6-7) diz-nos também: "Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Ele veio como testemunho, para dar testemunho da luz, a fim de que todos pudessem crer por seu intermédio." e ainda, "Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu." - (Jo, 1, 30)

João, foi o Precursor de Cristo. De tal maneira que celebramos hoje, por assim dizer, um segundo Natal. O nascimento do Baptista é um inseparável do nascimento do Filho do Deus Vivo. É um nascimento que participa do mistério da Encarnação que o próprio Santo anuncia. No calendário litúrgico romano é o único santo do qual celebramos o nascimento. João Baptista foi santificado desde o seu nascimento, tal como a Santíssima Virgem. Quando esta visita a sua prima Isabel, sabemos que o menino no ventre de Isabel encheu-se do Espírito Santo, nascendo portanto sem mácula do pecado original. Por esta razão é ele o maior entre os filhos dos homens.

S. João Baptista é também aquele que liga o Antigo e o Novo Testamento. O último dos profetas e aquele que mostra ao mundo o Cordeiro de Deus, o seu primo Jesus Cristo. Nosso Senhor aparece pela primeira vez em público, quando João, que pregava um baptismo de penitência, baptiza assim o Filho do Homem, que é ele mesmo o autor do Baptismo, como nos diz o prefácio. Baptismo pela água do lado de Cristo. Baptismo, também penitencial, que nos livra do pecado original.

Por fim, João configurou-se com a morte de Cristo na Cruz, e sofreu o martírio, mais uma vez prevendo a morte do Messias. O maior dos santos depois da Virgem e dos santos anjos, imola-se, para defender a verdade, diante do poder de Herodes.

Cantemos hoje, como fez Zacarias, o Benedictus, louvando a Deus pelo nascimento deste santo que veio anunciar a Salvação do mundo:

Em Latim:  
Benedictus Dominus Deus Israel; quia visitavit et fecit redemptionem plebi suaeet erexit cornu salutis nobis, in domo David pueri sui,sicut locutus est per os sanctorum, qui a saeculo sunt, prophetarum eius,salutem ex inimicis nostris, et de manu omnium, qui oderunt nos;ad faciendam misericordiam cum patribus nostris, et memorari testamenti sui sancti,iusiurandum, quod iuravit ad Abraham patrem nostrum, daturum se nobis,ut sine timore, de manu inimicorum liberati, serviamus illiin sanctitate et iustitia coram ipso omnibus diebus nostris

Et tu, puer, propheta Altissimi vocaberis: praeibis enim ante faciem Domini parare vias eius,ad dandam scientiam salutis plebi eius in remissionem peccatorum eorum,per viscera misericordiae Dei nostri, in quibus visitabit nos oriens ex alto,illuminare his, qui in tenebris et in umbra mortis sedent, ad dirigendos pedes nostros in viam pacis.


Em Português: 
Bendito o Senhor Deus de Israel que visitou e redimiu o seu povo e nos deu um Salvador poderoso na casa de David, seu servo, conforme prometeu pela boca dos seus santos, os profetas dos tempos antigos, para nos libertar dos nossos inimigos e das mãos daqueles que nos odeiam, para mostrar a sua misericórdia a favor dos nossos pais, recordando a sua sagrada aliança e o juramento que fizera a Abraão, nosso pai, que nos havia de conceder esta graça: de O servirmos um dia, sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, em santidade e justiça, na sua presença, todos os dias da nossa vida. 
E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos, para dar a conhecer ao seu povo a salvação pela remissão dos seus pecados, graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz.

PF

PS: Parabéns ao nosso querido João Silveira! Rezemos por ele.


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Como a Graça mudou duas vidas: à mesa com futuros padres

No próximo Domingo, dia de S. Josemaria, serão ordenados cinco novos sacerdotes para a diocese de Lisboa. Num tempo em que se ousa dizer que não há vocações, este já é um número grande. E mais surpreendente é que dois destes novos sacerdotes vêm de uma só paróquia – a Paróquia de S. Nicolau. S. Nicolau tem neste momento quase uma dezena de rapazes universitários a estudar no seminário do Patriarcado de Lisboa.

O sacerdócio é um mistério imenso, impossível de compreender totalmente na terra. São rapazes normais, iguais aos outros, que Deus escolhe para serem canais da Sua Graça no mundo. São vidas onde se vê mais claramente a Graça de Deus a actuar. Por saber isto, o Pe. Mário Rui, pároco de S. Nicolau, organizou um jantar para mais de 50 jovens universitários com os dois diáconos da paróquia. Ao longo do jantar, os futuros Pe. Marcos e Pe. Tiago, responderam a várias perguntas e explicaram como Deus se meteu nas suas vidas, como perceberam a sua vocação e como tem sido o caminho até ao dia da ordenação.

Foi uma noite verdadeiramente edificante. Todas as respostas que ouvimos serviram para elevar os corações a Deus e despertar em cada um de nós o desejo de se deixar tocar e guiar pela Graça. Como disse um dos futuros padres é preciso “deixar que Deus seja Deus” nas nossas vidas.

Um deles explicou que para contar a sua história com Deus tinha de contar a história da sua mãe. Mas para isso tinha ainda de contar outra história. Tudo começou com um americano que, nos Estados Unidos, por causa de um grande acidente, ficou vários dias inconsciente num hospital. Quando acordou, perguntou às enfermeiras o que era aquela imagem que estava na mesa do quarto. Durante o tempo que esteve inconsciente no hospital, umas freiras tinham ido lá rezar todos os dias por ele e tinham deixado uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Este senhor não era Católico, mas quis saber mais. Queria perceber quem eram estas freiras e quem era a Senhora de Fátima que aparentemente o tinha curado. 

Pista atrás de pista, decidiu apanhar o avião para a Europa e vir ao Santuário de Fátima. Quando chegou à Capelinha das Aparições caiu de joelhos e entregou toda a vida à Santíssima Virgem. Dias depois, o seu voo de regresso para casa foi cancelado e ele entendeu isso como um sinal do Céu para ficar a viver em Fátima ao serviço dos peregrinos, onde ainda hoje vive. Numa visita posterior aos Estados Unidos, no avião, ele meteu conversa com uma portuguesa. Com ousadia, contou-lhe como Nossa Senhora o tinha curado e como tinha mudado a sua vida. Ela ficou a pensar nisso e mais tarde comentou com o marido que precisavam de levar uma vida mais aberta à vontade de Deus. Uma das consequências disso foi que este casal português, que tinha decidido não ter mais filhos, acabou por ter mais. Um dos últimos filhos cresceu e já depois da universidade percebeu que Deus o chamava para ser sacerdote. Será um dos ordenados no próximo Domingo.

Depois o outro diácono contou como tinha descoberto quem era Deus e como a sua vida mudou por causa disso. Um dia na Universidade Católica foi convidado por uns amigos para ir passar fora um fim-de-semana. Era um programa igual aos outros, mas com uma diferença: também ia o capelão da universidade. Muitos jovens hoje orgulham-se da sua rebeldia por saírem à noite e por fazerem o que querem com a namorada, sem se dar conta de que estão a fazer o que todos fazem. Mas nesta viagem houve um desafio muito maior. De repente, aqueles seus amigos todos Católicos, convidaram-no a rezar o Terço na viagem. Ele achou estranho: estes rapazes eram tão simpáticos e tão divertidos, porque é que perdiam 15 minutos por dia a rezar muitas Ave Marias? O passo de dizer que sim ao Terço foi talvez um dos maiores que deu na vida. Foi assim pela grandeza de tudo o que veio com essa decisão. Nossa Senhora meteu-se na vida dele nos restantes anos da universidade e levou-o até ao sacerdócio. Um caminho que se tornará ainda maior a partir do próximo Domingo.

No final, ambos responderam que o seu maior medo era não serem capazes de corresponder à graça de Deus. Não queriam nem cortar os frutos da Graça nem esquecer-se de que Deus é que faz tudo. Por isso é que ao comentarem os vários pontificados das suas vidas, não hesitaram em referir o nome do Papa Bento XVI, com quem descobriram a sua vocação. No entanto, também referiram o seu amor e obediência ao Papa Francisco e por qualquer Papa que ocupe a Sé de Pedro. Isto viu-se claramente quando se lhes perguntou o que é que fariam se tivessem oportunidade de mudar alguma coisa na Igreja. A resposta foi particularmente forte, tendo em conta que muitos Católicos parecem opinar sem problema sobre o caminho que a Igreja deve ou não seguir. “Se me fosse concedido mudar alguma coisa na Igreja, mudar-me-ia a mim mesmo” disseram os futuros Pe. Marcos e Pe. Tiago.

Não duvido que de entre os que estavam neste jantar surjam outras vocações para o sacerdócio. Desde o tempo dos Apóstolos, Deus não pára de chamar pessoas para o Seu serviço, em particular no caminho do Sacerdócio. E será assim até ao final dos tempos.

Nuno CB

Ps: Contamos com as orações dos nossos leitores por estes dois futuros sacerdotes!


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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Chesterton e a defesa da propriedade

Estou perfeitamente consciente de que na nossa época a palavra 'propriedade' foi pervertida pela corrupção dos grandes capitalistas. Pelo que as pessoas dizem, poder-se-ia pensar que os Rothchilds e os Rockfellers são partidários da propriedade. Mas é óbvio que eles são seus inimigos, porque são inimigos dos seus limites. Não desejam a sua própria terra, mas a dos outros. (...) 

O homem que leva consigo a verdadeira poesia da posse deseja ver um muro no encontro do seu jardim com o do sr. Smith, uma cerca no encontro da sua fazenda com a do sr. Brown. Não consegue ver a forma da sua própria terra sem ver os limites da do vizinho. 

O duque de Sutherland possuir todas as chácaras (quintas) numa única propriedade rural é a negação da propriedade, assim como seria a negação do casamento se ele tivesse todas as nossas esposas num único harém.

G. K. Chesterton in 'O que há de errado com o mundo'


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As inúmeras vítimas da Revolução Francesa

"A Revolução Francesa fez mais mortos em nome do ateísmo durante um mês do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa."

Pierre Chaunu, historiador francês (1923-2009)


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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Oração para pedir o bom humor

Concede-me, Senhor, uma boa digestão, mas também algo para digerir.
Concede-me um corpo saudável, e o bom humor necessário para o manter.
Concede-me uma alma simples que saiba valorizar o que é bom,
que não se amedronte diante do mal,
e que encontre os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar.

Dá-me uma alma que não conheça o aborrecimento, 
nem as murmurações, 
nem os suspiros, 
nem os lamentos, 
nem preocupações excessivas com esse obstáculo chamado "eu".

Concede-me, Senhor, o dom do sentido de humor. 
Permite-me a graça de aproveitar o riso 
para que saboreie nesta vida um pouco de alegria, 
e possa partilhá-la com os outros. 
Ámen.

S. Tomás Moro 


Original em inglês:

Grant me, O Lord, good digestion, and also something to digest. 
Grant me a healthy body, and the necessary good humor to maintain it. 
Grant me a simple soul that knows to treasure all that is good 
and that doesn’t frighten easily at the sight of evil, 
but rather finds the means to put things back in their place.
  
Give me a soul that knows not boredom, 
grumblings, 
sighs, 
and laments, 
nor excess of stress because of that obstructing thing called “I.” 

Grant me, O Lord, a sense of good humor. 
Allow me the grace to be able to take a joke to discover in life a bit of joy, 
and to be able to share it with others.
Amen.

S. Thomas More


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Martírio de S. Tomás Moro

S. Tomás era o chanceler do Reino, um dos homens mais poderosos de Inglaterra, quando o Rei Henrique VIII declara a sua desobediência ao Papa, depois deste ter negado o pedido de anulação do seu casamento legítimo para casar com Ana Bolena. Henrique VIII decide então criar a Igreja de Inglaterra (Anglicana), da qual era o chefe supremo, um acto cismático em relação à Igreja Católica. 

S. Tomás decidiu ser fiel a Deus e à verdade, opondo-se à decisão do Rei, sendo por isso preso e decapitado. Esta é a dramatização desse momento em que morreu mártir. 

Que S. Tomás, patrono dos governantes, interceda pelos nossos políticos, para que sejam fiéis a Deus e à verdade, sem medo de assumir as consequências dessa luta heróica.




(Tradução e legendas: Raimundo Santos - railaf@yahoo.com.br)


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terça-feira, 21 de junho de 2016

A boa vida e a boa morte de S. Luís Gonzaga

A primeira coisa que aconteceu quando ele se tornou um Jesuíta foi que lhe disseram para dormir mais; disseram-lhe para comer mais. Uma das primeiras cartas que recebi do provincial dizia: "Ouvi dizer que andas a dormir menos do que precisas...dorme seis horas", portanto tenho tentado ser obediente desde então.

Depois de acabar o seu noviciado, Luís foi enviado para Milão. Foi em Milão que, ainda estudante, num dia durante as orações da manhã, ele teve uma revelação de que não iria viver muito e a sua alegria foi imensa. Com alguns artifícios, ninguém sabe como é que ele fez, conseguiu ter o pior quarto da casa. Entrava frequentemente em êxtase nas alturas mais inconvenientes - à mesa, na sala de aula e até mesmo no recreio. As suas meditações, disseram mais tarde os seus contemporâneos, eram quase sempre sobre os atributos de Deus. Por outras palavras, ele meditava na bondade, na sabedoria, na beleza de Deus e, a partir destas meditações dos atributos de Deus, ele ganhava uma alegria extraordinária.

Depois, em 1591, uma praga terrível chegou a Roma durante a qual os Jesuítas, incluindo o Padre Geral, saíram para as ruas para tratar dos feridos pela peste -- a doença é muito infecciosa, o Padre Geral levou os Jesuítas nesta obra de misericórdia. Luís, apesar da sua má saúde, conseguiu ter permissão para ir ajudar. Tomava conta dos doentes, encorajava-os, guiava-os nas suas orações, preparava-os para a morte. Escolhia as tarefas mais servis e menos apetecíveis.

Ele apanhou a doença. Durante a doença pediu o viático; ele achava que estava a morrer, mais tarde confessou que estava muito impaciente à espera da morte. Recuperou desta doença, mas depois ficou arrasado por uma febre que teve durante três meses. Sempre que conseguia levantava-se da cama à noite e rezava de joelhos diante do crucifixo.

Durante a sua doença mortal, o Pe. Berllarmino, um homem já de idade avançada na altura, ficava horas com o seu penitente e Luís pedia-lhe, "é possível ir logo para o Céu sem nennhum purgatório?", 'Sim, dizia Bellarmino, é possível'. "Bem, posso pedir essa graça?" 'Claro que podes.' Por isso ele pediu a graça de ir directamente para o Céu sem passar no purgatório.

Na noite antes de morrer, esteve em êxtase toda a noite. Com os membros da comunidade à sua volta, ele falava com o reitor que estava de pé junto da sua cama, "nós vamos, padre, nós vamos". O reitor disse, 'vamos onde?' "Vamos para o Céu". Por isso o reitor dizia com sentido de humor, "Iam achar que ele ia para Frascati' (essa era, já agora, uma Vila Jesuíta fora de Roma). Mesmo antes de morrer, ele pronunciou as palavras, "nas Vossas mãos" e morreu.

Foi canonizado em 1726 e as suas relíquias, onde eu já rezei muitas vezes, estão na Igreja de Santo Inácio em Roma. Ele escreveu muitas cartas que se guardaram e valem a pena ler. A 'Melhor Vida de Santo Inácio' foi escrita pelo mesmo Pe. Brodrick. Mas a 'Melhor Vida de S. Luís Gonzaga' é do Pe. Martindale. A vida que o Pe. Martindale escreveu de Luís tem imensas partes das suas cartas... dão boas meditações.

Fr. Hardon SJ in therealpresence.org


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Quando um Padre descobriu o Big Bang e ninguém soube

Há 50 anos atrás, no dia 20 de Junho de 1966, morria o Pe. Georges Lemaître. Mas quem foi este sacerdote belga?

Todos conhecem a Teoria do Big Bang. No entanto poucos sabem quem a inventou. Isto é estranho, dado que ninguém ignora quem é o pai da teoria do Evolucionismo ou o inventor da teoria da Relatividade. Se Darwin e Einstein ficaram tão famosos pelas suas teorias científicas, porque é que não ficou também o inventor da teoria do Big Bang?

É uma pergunta com uma resposta que não é simples. No entanto, é difícil de negar que um dos principais motivos foi o facto de ser um sacerdote Católico. Muitos ousam servir-se da ciência para atacar o Cristianismo. Dizem que existe um grande conflito entre ambos. Como a história de Lemaître não ajuda essa tese, não podia ser divulgada.

A juventude de Lemaître, passada no seminário, foi uma era de ouro para a Física moderna: estavam a nascer a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade. Cientes das suas capacidades intelectuais, os superiores de Lemaître permitiram que ele aprofundasse os estudos em Física, depois de ser ordenado sacerdote.

No seu Doutoramento passou por universidades como a Universidade de Cambridge, em Inglaterra, o MIT e o Observatório Astronómico de Harvard, em Boston.

Einstein tinha acabado de inventar as famosas equações que descreviam o universo a escalas cosmológicas, mas não se tinha percebido de algumas das consequências destas equações. Avançando nos estudos que outros físicos faziam sobre as equações de Einstein, Lemaître concluiu em 1927 que o universo estava a expandir-se. E disse ainda que por isso era suposto observar-se galáxias longínquas a afastar-se da nossa. Esta descoberta foi feita dois anos depois por Edwin Hubble, que na altura nem percebeu bem a importância da sua descoberta. Mas a lei da expansão do universo ficou conhecida por Lei de Hubble e só recentemente é que se começou a atribuir o mérito devido ao Pe. Lemaître.

Einstein não tinha ficado satisfeito com a ideia da expansão do universo e decidiu repetir as contas que Lemaître fizera a partir das suas próprias equações. Só que os resultados bateram todos certos. Era então preciso dizer que as equações não estavam bem desde o início. Para impedir que o universo se expandisse, Einstein acrescentou às suas equações um novo termo, hoje conhecido como constante cosmológica. Desta forma, as equações passavam a prever um universo estacionário.

Mas Lemaître não desistiu da ideia. Com os seus conhecimentos de Química a complementarem a sua formação em Física, desenvolveu uma teoria sobre a origem dos elementos do universo. Chamou-lhe "Teoria do Átomo Primordial". Só que Fred Hoyle, um dos físicos mais famosos do século XX, achou a ideia tão ridícula que em sentido de troça chamou-lhe "Teoria do Big Bang".

Pe. Georges Lemaître com Albert Einstein e
 Robert Millikan, Nóbel da Física (determinou a carga do electrão).
A teoria do Big Bang parecia apoiar a ideia Cristã da Criação. No entanto não tinham sido essas as motivações de Lemaître. Quem conhece os seus escritos sabe que Lemaître foi um campeão no diálogo entre a fé e a ciência, tendo insistido sempre na sua distinção. Dizia que se a astronomia fosse importante para ir para o Céu, estaria explicada na Bíblia, mas não era o caso. E quando o Papa Pio XII quis usar a teoria do Big Bang para falar da Criação, foi fortemente desaconselhado por Lemaître, acabando por não o fazer.

Durante anos muitos físicos não acreditaram na teoria do Big Bang. Apesar de Lemaître não a ter desenvolvido por ser Cristão, a maior parte destes físicos, como Hoyle, eram ateus. No entanto, a natureza impôs-se a si mesma. Nos anos 60 detectou-se no espaço uma radiação proveniente das origens do universo - a Radiação Cósmica de Fundo. Em 1965 já não havia dúvidas - esta Radiação provava a já famosa do teoria do Big Bang. Um ano depois de ver a sua teoria confirmada, morria o Pe. Lemaître.

Einstein, muito antes, também já tinha dado razão a Lemaître e voltara a pôr as suas equações na forma original.

Numa tentativa de dar o valor devido ao Pe. Georges Lemaître, a ESA (European Space Agency) deu o nome de Lemaître a um dos satélites que enviou à Estação Espacial Internacional, em 2014. Mas muito mais é preciso ser feito. Lemaître não só desenvolveu a teoria do Big Bang, como foi o primeiro a descobrir a Expansão do Universo.

Nuno CB (MSc em Física)

Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura do paper "Who discovered the Expanding Universe?" de Helge Kragh e Robert Smith. Têm saído vários artigos sobre o facto de Lemaître não ter recebido o mérito devido pela expansão do universo, veja-se por exemplo o artigo de Mario Livio na Nature: Lost in translation: Mystery of the missing text solved.

A primeira grande biografia de Lemaître já existe e foi escrita por Dominique Lambert: Un atome d'univers : La vie et l'oeuvre de Georges Lemaître.




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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Jesus aguentou pacientemente um "demónio" entre os seus

Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um «demónio» entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo» (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: «Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão» (Mt 18,15) 

Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que «não se dêem aos cães as coisas santas», que se «tratem como aos publicanos» aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo. 

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contacto, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não frequentarmos os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

Santo Agostinho in 'A fé e as obras', caps. 3-5


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