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sábado, 7 de março de 2026

Os 12 degraus da Humildade

S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-IIae, q.161, a.6), resume os 12 degraus de humildade que se encontram na Regra de S. Bento, o pai do monaquismo ocidental:

1) Ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior; 
2) Falar pouco e sensatamente, em voz baixa;
3) Não ser de riso pronto e fácil;
4) Manter-se calado, enquanto não for interrogado;

5) Observar o que prescreve a regra comum do mosteiro;
6) Reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos;
7) Julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo;
8) Confessar os próprios pecados;

9) Por obediência suportar, pacientemente, o que é duro e difícil;
10) Submeter-se, obedientemente, aos superiores;
11) Não se comprazer na vontade própria;
12) Temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou.

A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se julgue melhor do que é. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. 

Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, actos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata". (Ecl. 19, 26), diz a Escritura. 

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o 12º: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou". 

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às acções, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). 

Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como, por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º).


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quinta-feira, 5 de junho de 2025

Médico deixou de fazer abortos quando S. Tomás de Aquino lhe apareceu em sonhos

Stojan Adasevic é actualmente o principal líder pró-vida na Sérvia, mas durante 26 anos foi o ginecologista abortista mais prestigiado na Belgrado comunista. Estima-se que tenha feito no mínimo 48 mil abortos. Chegou a fazer 35 abortos por dia.

Os livros de medicina do regime comunista diziam que o aborto era simplesmente remover um pedaço de tecido. Os ultra-sons, que permitem ver o feto, apareceram nos anos 80, mas não mudaram a sua opinião. No entanto, uma noite ele começou a ter pesadelos. Sonhou com um belo campo cheio de crianças e jovens, dos 4 aos 24 anos, brincando e rindo, mas que fugiam dele aterrorizados. Um homem vestido com um hábito preto e branco olhava-o atentamente, em silêncio.

O sonho repetiu-se várias vezes e em cada noite o médico acordava com suores frios. Uma noite, ele perguntou ao homem de preto e branco como se chamava. "O meu nome é Tomás de Aquino, " disse o homem no sonho. Adasevic, formado nas escolas comunistas, nunca tinha ouvido falar do grande santo dominicano, e não reconheceu o nome. "Por que não me perguntas quem são estas crianças? Mataste-as com os teus abortos, disse-lhe Tomás.

Adasevic acordou, impressionado, e decidiu não fazer mais abortos. Mas naquele dia veio ao seu hospital um primo com a sua namorada, grávida de quatro meses, para fazer o seu 9º aborto, o que é bastante frequente nos países do bloco soviético. O médico concordou. Em vez de remover o feto membro a membro, decidiu esmaga-lo e removê-lo como uma massa. No entanto, o coração do bebê saiu ainda a bater. Adasevic percebeu então que tinha acabado de matar um ser humano.

Ele informou o hospital que não faria mais abortos. Nenhum médico na Jugoslávia se tinha recusado a abortar. Eles cortaram o seu salário pela metade, despediram a sua filha, não permitiram que o seu filho entrasse na faculdade. Será que o Estado socialista não tinha pago seus estudos para servir o povo? Não estava a sabotar o Estado? Após dois anos nesta luta, estava prestes a desistir, mas sonhou novamente com Tomás de Aquino. "És um bom amigo, persevera", disse o homem de preto e branco.

Adasevic comprometeu-se com grupos pró-vida. Conseguiu que a televisão jugoslava passasse duas vezes o documentário “O Grito Silencioso” (The Silent Scream), feito por outro famoso ex- abortista, Dr. Bernard Nathanson. No início dos anos 90, o movimento pró-vida conseguiu ainda que fosse aprovado no parlamento um decreto de proteção dos não-nascidos, mas o presidente Milosevic recusou-se a assiná-lo. Depois, Milosevic conduziu à guerra civil os mesmos jugoslavos que tinham abortado os seus filhos aos milhares. O Dr. Adasevic publicou o seu testemunho em revistas e jornais na Europa Oriental, como a revista russa " Liubitie Drug Druga". 

in
  La Razón


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sexta-feira, 7 de março de 2025

Oração de S. Tomás de Aquino para rezar antes da Missa

Deus omnipotente e eterno, eis que me vou aproximar do Sacramento de Vosso Filho Unigénito, Nosso Senhor Jesus Cristo. E eis que venho como enfermo, ao médico da vida, como manchado, à fonte de misericórdia; como um cego à luz da eterna claridade; e como pobre indigente, ao Senhor do Céu e da Terra. 

Invoco, pois, a abundância de Vossas generosidades, que são sem limites, a fim de que Vos digneis curar a minha enfermidade, lavar as minhas máculas, iluminar a minha cegueira, enriquecer a minha pobreza, e vestir a minha nudez, de forma que receba o Pão dos Anjos, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, com tanto respeito e humildade, com uma contrição e uma devoção tão vivas, com uma pureza e uma fé tão grandes, com um bom propósito e uma intenção tais, como o exige a salvação da minha alma.

Concedei-me, Vos suplico, a graça de receber, não somente o Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, como também o efeito e a virtude deste Sacramento.

Ó Deus clementíssimo, visto que me é dado receber o Corpo de vosso Filho único, N. S. Jesus Cristo, esse Corpo que Ele assumiu no seio da Virgem Maria, fazei que O receba com disposições tão perfeitas que mereça ser incorporado no seu Corpo Místico e contado entre Seus membros.

Ó Pai amantíssimo, concedei-me, enfim, a graça de contemplar face a face, durante toda a eternidade, o Vosso Filho amantíssimo, que me proponho receber hoje, nesta viagem terrestre, debaixo dos véus do Sacramento.

Ele que, sendo Deus, convosco vive e reina, em união com o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amem.


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quinta-feira, 7 de março de 2024

As minhas 3 histórias preferidas da vida de São Tomás de Aquino

S. Tomás de Aquino é um gigante teológico. As suas obras são imensas. O seu intelecto é incomparável. Era um filósofo profundo. Foi dos maiores exegetas bíblicos da Igreja. É raro o dia que passa em que eu não me refira às suas obras. No entanto, devemos lembrar que S. Tomás de Aquino foi um homem de enorme santidade. Tomás era um frade dedicado a santificar o seu trabalho diário. Para vos dar uma visão da sua vida santa, permitam-me partilhar três episódios que se destacam a este respeito.

Primeiro Episódio: O cinto angélico

Como sabem, a família de S. Tomás fechou-o na torre da família para o "dissuadir" de se tornar um frade dominicano. Eles queriam que ele se tornasse um Abade Beneditino. Deram entrada no seu quarto a uma prostituta e ele perseguiu-a com um tronco a arder (ver figura acima). O que se passou a seguir é impressionante. Com o tronco queimado ele desenhou uma cruz na parede do quarto e ajoelhou-se em veneração. Imediatamente dois anjos da pureza apareceram e colocaram um cinto angélico à volta da sua cintura. A partir deste dia ele nunca mais sofreu um pensamento ou acção de luxúria em toda a sua vida. Esta santa pureza é a chave para o enorme intelecto de S. Tomás.

Eu uso o cinto de São Tomás de Aquino. É um sacramental em que um sacerdote dominicano vos pode enrolar. É um sinal e uma oração pela santa pureza.

Segundo episódio preferido: Conversas com S. Pedro e S. Paulo

Os comentários de S. Tomás às Epístolas de S. Paulo são, provavelmente, os melhores de todos os tempos. Os seus comentários da Carta aos Romanos e Hebreus são do outro mundo. Poucos percebiam como é que S. Tomás podia ter esta visão das Epístolas.

O secretário de S. Tomás, Frei Reginaldo, ouvia-o às vezes a conversar com homens na sua cela. Quem eram estes homens misteriosos? Isto foi contado ao prior que ordenou sob santa obediência que S. Tomás revelasse a natureza destas conversas.

Muito relutantemente, S. Tomás revelou que S. Pedro e S. Paulo o visitavam na sua cela e explicavam-lhe o significado das suas palavras nas Epístolas! Não admira que S. Tomás escrevesse comentários tão brilhantes! Ele estava a ser ensinado pelos próprios santos Apóstolos em relação ao seu significado.

Terceiro Episódio Preferido: A visão do dia de S. Nicolau

Na festa de São Nicolau (6 de Dezembro) do ano antes de morrer, São Tomás teve uma visão enquanto celebrava o Santo Sacrifício da Missa. De seguida, contou a Frei Reginald que não ia continuar a escrever a sua Summa Theologiae, visto que tudo o que ele tinha escrito "parecia palha" comparado com o que tinha visto. O que é que ele viu naquele dia? Ninguém sabe. No entanto este episódio revela que São Tomás era um grande místico. Não se deixava levar pelo orgulho intelectual. Tinha um amor enorme e apaixonado por Cristo. Este tornava-se real no contexto da Sagrada Eucaristia.

Estes são apenas três dos muitos grandes episódios da vida de S. Tomás de Aquino.

Taylor Marshall


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Breve resumo da vida de S. Tomás de Aquino (1226-1274)

Filósofo e teólogo italiano. A sua obra marca uma etapa fundamental na escolástica. É ele que prossegue e conclui o trabalho de Alberto Magno. Monge dominicano ficou conhecido como o «doutor angélico». Em 1879, as suas obras foram reconhecidas como sendo a base da teologia católica. A filosofia de Tomás de Aquino é conhecida como tomismo.

Nasceu em Roccasecca, próximo de Cassino, no reino de Nápoles, a sul de Itália, na família dos condes de Aquino. Iniciou a sua educação na abadia de Montecassino. Em 1243, em Nápoles, ingressa na ordem dos dominicanos. Estuda pouco depois com o erudito alemão Alberto Magno em Paris (1243-1248) e em Colónia (1248-1252). Volta a Paris, em 1252, iniciando os seus comentários sobre a Bíblia. 

Começa a ensinar nesta cidade, sendo nomeado mestre da Universidade em 1257, dois anos depois regressa a Itália. Em 1265 é encarregado de de organizar os estudos da Ordem dos Dominicanos em Roma. Em 1269 volta a Paris ocupando a sua cátedra de mestre de teologia. Em 1272 voltará ainda a Itália para ensinar na Universidade de Nápoles. Morreu em 1274 quando se dirigia ao Concílio de leão.

Principais Domínios de Investigação

A obra de Tomás de Aquino é imensa, destacando-se as Sumas. Na Suma Contra os Gentios defende a compatibilidade entre a razão e a fé. Procurou conciliar a filosofia aristotélica com os princípios do cristianismo, em oposição à tendência que predominava na época e que adoptava um cristianismo de inspiração neoplatónica. Na Suma Teológica trata da natureza de Deus, da moralidade e da missão de Jesus. Nestas e outra obras deu corpo à visão cristã do mundo que foi ensinada nas universidades até aos meados do século XVII, e nas quais se incluíam as ideias científicas de Aristóteles.

Tomás de Aquino trabalhou as obras de Aristóteles a partir de novas traduções latinas produzidas pelo dominicano Guilherme de Moerbeke (1215-1286). A influência de Aristóteles é tão notória na sua filosofia que esta é também designada como aristotelismo cristão. Para além de Aristóteles tomou como fonte inspiração os trabalhos de Santo Agostinho, Avicena, Averróis e dos neoplatónicos.

Obras

Exposição sobre o Credo; O Ente e a Essência(1248-1252); Compêndio de Teologia (1258-1259); Suma Contra os Gentios; Comentário às Sentenças; Suma Teológica; etc.

Para ler a Suma Teológica clicar aqui

Para fazer o download da Suma Contra os Gentios (e outros livros) clicar aqui

Para ler o livro 'Thomas Aquinas in 50 pages' (inglês) clicar aqui


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sexta-feira, 21 de julho de 2023

S. Tomás de Aquino foi canonizado há 700 anos

No passado dia 18 de Julho, a Igreja celebrou hoje o sétimo centenário da canonização de S. Tomás de Aquino. Embora a devoção popular por ele tenha começado logo após a sua morte, os dominicanos só começaram a recolher oficialmente testemunhos da sua santidade em 1317, mais de 40 anos após a sua morte. 

Representantes da Ordem apresentaram as suas provas ao Papa João XXII (1316-34, o segundo Papa de Avinhão) numa audiência no ano seguinte, na qual o processo recebeu aprovação formal para continuar.

Uma das histórias mais famosas sobre Tomás é a de que um cardeal se opôs à sua causa por não ter feito milagres, ao que o postulador respondeu: "Quot articuli, tot miracula - há tantos milagres como artigos (na Summa)". 

A causa foi concluída em cinco anos, e o mesmo Papa emitiu a bula de canonização a 18 de Julho de 1323; como era então costume, inclui um apêndice com alguns dos mais notáveis milagres póstumos do Santo. A sua festa é tradicionalmente celebrada a 7 de Março, data da sua morte, mas os usos neo-galicanos de Paris e de várias outras sedes francesas mudaram-na para esta data para a manter fora da Quaresma.

Gregory DiPippo in New Liturgical Movement


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terça-feira, 7 de março de 2023

Oração para pedir a Sabedoria escrita por São Tomás de Aquino

Concede-me, Deus misericordioso, que deseje com ardor o que Tu aprovas, que o procure com prudência, que o reconheça em verdade, que o cumpra na perfeição, para louvor e glória do Teu nome.

Põe ordem na minha vida, ó meu Deus, e permite-me que conheça o que Tu queres que eu faça, e que o cumpra como é necessário e útil para a minha alma. Que eu chegue a Ti, Senhor, por um caminho seguro e recto;  caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que Te dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem abater pelas segundas. 

Que nada me alegre ou entristeça, excepto o que me conduza a Ti ou de Ti me separe. Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Ti. Tudo o que passa se torne desprezível a meus olhos por Tua causa, Senhor, e tudo o que Te diz respeito me seja caro, mas Tu, meu Deus, mais do que o resto. Que eu nada deseje fora de Ti.

Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, uma vontade que Te busque, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança e uma confiança que te possua enfim. Concede-me ser atormentado com as Tuas dores pela penitência, recorrer no caminho aos Teus benefícios pela graça, gozar das Tuas alegrias sobretudo na pátria pela glória. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.


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Dia de São Tomás de Aquino

Este Doutor da Igreja demonstrou que se pode provar a existência de Deus apenas através do uso da razão; as famosas 5 vias de São Tomás de Aquino:

1. A prova pelo movimento;
2. A prova pela causa eficiente;
3. A prova pelo Ser necessário;
4. A prova pelos graus de perfeição dos seres;
5. A prova pela ordem do Universo.


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sábado, 19 de novembro de 2022

Gretl, o canário de Pio XII

É sabido que o Papa Pio XII tinha um grande amor aos animais, em especial ao seu canário - Gretl. Mas de onde veio o canário?

Certo dia, Sua Santidade estava a passear nos jardins do Vaticano quando reparou num canário deficiente. Ele não atravessou para o outro lado. Não ordenou a um jardineiro para se livrar do pássaro. Como o Bom Samaritano, pegou nele cuidadosa e ternamente, levou-o de volta para o Vaticano (que já havia visto animais de estimação papais antes, p.e. o cão de Leão XIII) e tomou conta dele até o canário ficar saudável e forte. 

Depois disto, o pássaro só estava contente, quando na presença do Santo Padre. Quando o Papa fazia a barba o pássaro voava à volta dele e até pousava na sua cabeça, apreciando uma intimidade que nenhum outro, homem ou animal, possuia. Foi um momento muito triste quando a Irmã Pasqualina carregou o pássaro de volta para um Vaticano que não conheceria mais Pio XII.[1]

Abria a porta da gaiola, o canário voava pelo escritório do Papa, e quando este levantava o braço, pousava no dedo dele, falavam disto e daquilo, o Papa punha-se a escrever (à máquina), por exemplo uma Encíclica ou uma carta, o canário voava e quando se cansava voltava pacificamente para a gaiola.[2]

Homem de Deus, ele alimentava-se da oração. Quando rezava, às vezes ficava tão absorto que não ouvia qualquer pessoa que o chamasse, nem reparava no canário que costumava pousar e piar sobre as suas mãos juntas.[3]

São Tomás de Aquino ensina-nos que os animais, como o próprio nome indica, possuem alma (ainda que material e portanto irracional, mas sensitiva) e a sua ligação ao homem é, portanto, uma significativa para ele. Isto apenas mostra a virtude do Papa Pio XII.

 PF

Notas:
1.  corbiniansbear.blogspot.pt
2. porabrantes.blogs.sapo.pt
3. Pe. Ernesto Buonaiuti - Contemporâneo de Sua Santidade Pio XII


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sábado, 1 de outubro de 2022

São Tomás de Aquino explica o perigo e as consequências da Heresia

É muito mais grave corromper a Fé, pela qual a alma vive, do que falsificar o dinheiro, por meio do qual se conserva a vida temporal. De onde, se os falsários ou outros malfeitores são sem demora e justamente condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito maior razão os heréticos, tão logo convencidos de heresia, podem não apenas ser excomungados, mas também e com justiça, mortos. 

Da parte da Igreja, porém, há misericórdia para a conversão dos que erram. E por isso Ela não condena imediatamente, mas só após uma primeira e segunda correcção, como ensina o Apóstolo (Tito 3, 10). Depois, todavia, se o herege ainda se mostra pertinaz, a Igreja, já não tendo esperança de sua conversão, provê a salvação dos outros, separando-o da Igreja por sentença de excomunhão, e em seguida abandona-o ao juiz secular, para ser morto.

in Summa Theologiae, II-II, q. 11, art. 3


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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Os efeitos da Eucaristia segundo São Tomas de Aquino

Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável eficácia inflama os afectos com o fogo da caridade. Que revigorante maná é aqui oferecido para o viajante! Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde para os doentes, confere o aumento da virtude, faz a graça superabundar, purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos aflitos, vincula uns aos outros todos os fiéis na união da caridade. 

Este Sacramento da fé também inspira a esperança e aumenta a caridade. É o pilar central da Igreja, a consolação dos que falecem, e o acabamento do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e a devoção e a caridade fraterna são aqui saboreadas. Que estupenda provisão para o caminho é esta, que conduz o viajante até à montanha das virtudes! 

Este é o pão verdadeiro que é comido e não consumido, que dá força sem perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça. Perdoa o pecado e enfraquece a concupiscência. Os fiéis encontram aqui a sua refeição, e as almas um alimento que ilumina a inteligência, inflama os afectos, purga os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura para as almas devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor Jesus, declara para os que crêem nas Tuas maravilhosas obras.

in Sermão sobre o Corpo do Senhor - Summa Theologiae IIIa. q. 79


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segunda-feira, 7 de março de 2022

S. Tomás de Aquino propõe um modelo para o bom governo das Nações

No segundo livro de Politica [de Aristóteles] estudam-se as constituição dos vários estados da Grécia. [São] Tomás aceita as bases indutivas [1] de Aristóteles e vai usá-las na sua obra De regimine principum [2]. Ele encontra na natureza do homem a origem e necessidade de uma autoridade social, representada em vários graus pelo pai numa família, pelo líder numa comunidade, pelo soberano num reino.

Mais ainda, ele distingue o bom governo do mau. O bom governo tem três formas: monárquico, onde apenas uma pessoa governa, aristocrático, onde alguns governam, e democrático, onde governam representantes eleitos pelo povo. Mas cada uma destas formas pode degenerar: a monarquia em tirania, a aristocracia em oligarquia e a democracia em domínio das multidões. Ele encontra a melhor forma de governo na monarquia e, para excluir a tirania, recomenda uma constituição mista, que coloca ao lado do monarca elementos aristocráticos e democráticos, na administração dos assuntos públicos. 

No entanto, ele acrescenta, se a monarquia de facto degenerar para tirania, para evitar males maiores, essa tirania deve ser pacientemente tolerada. Se, ainda assim, a tirania se tornar insuportável, as pessoas podem intervir, particularmente numa monarquia electiva. É errado matar o tirano. Ele deve ser julgado por Deus que, na Sua sabedoria infinita, recompensa ou castiga todos os governantes dos homens.

Sobre os males das eleições por um povo degenerado, onde os demagogos obtêm os votos, ele explica, citando Santo Agostinho, que o poder electivo devia, se possível, ser tirado ao povo e dado àqueles que são bons. As palavras de Sanyo Agostinho dizem: "Se um povo fica gradualmente depravado, se vende os seus votos, se entrega o governo a homens maus e criminosos, então esse poder de conceder honras é correctamente removido de tais pessoas e dado àqueles que são bons." 

Réginal Garrigou-Lagrange in 'Reality: A Synthesis of Thomistic Thought'

[1] O raciocínio indutivo é aquele que, ao contrário, do dedutivo, parte da observação e experiência para tirar conclusões sobre a realidade (fazer teorias).
[2] De Regimine Principum é a obra de S. Tomás de Aquino sobre política


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As virtudes presentes na Cruz - S. Tomás de Aquino

Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos fazer. Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males em que incorremos por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade que tem como exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar toda a nossa vida. Quem quiser viver em perfeição, basta que despreze o que Cristo desprezou na cruz e deseje o que Ele desejou. Nenhum exemplo de virtude está ausente da cruz.

Se queres um exemplo de caridade: Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos seus amigos. Assim fez Cristo na cruz. E se Ele deu a vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por Ele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente. Reconhece-se uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque sofrendo não ameaçava; e como ovelha levada ao matadouro, não abriu a boca. É grande portanto a paciência de Cristo na cruz: corramos com paciência a prova que nos é proposta, pondo os olhos em Jesus, autor e consumador da fé, que em lugar da alegria que lhe era proposta suportou a cruz, desprezando-lhe a ignomínia.

Se queres um exemplo de humildade, olha para o crucifixo: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.

Se procuras um exemplo de obediência, segue Aquele que Se fez obediente ao Pai até à morte: assim como pela desobediência de um só, isto é, Adão, muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão justificados.

Se queres um exemplo de desprezo pelas honras da Terra, segue Aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual se encontram todos os tesouros de sabedoria e de ciência e que na cruz está despojado dos seus vestidos, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e dessedentado com fel e vinagre.

Não te preocupes com trajes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes; nem com as honras, porque troçaram de Mim e Me bateram; nem com as dignidades, porque teceram uma coroa de espinhos e puseram-Ma sobre a cabeça; nem com os prazeres, porque para a minha sede Me deram vinagre.

in 'Collatio 6 super Credo in Deum'


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sábado, 19 de fevereiro de 2022

A ignorância é pecado? São Tomás de Aquino responde

A ignorância difere da nesciência em que significa a simples negação da ciência. Por isso, pode-se dizer daquele a quem falta a ciência de alguma coisa, que não a conhece. Desse modo Dionísio afirma haver nesciência nos anjos. 

A ignorância implica uma privação de ciência, a saber, quando a alguém falta a ciência daquelas coisas que naturalmente deveria saber. Entre essas coisas há as que se é obrigado a saber, isto é, aquelas sem o conhecimento das quais não se pode fazer corretamente o que é devido. Assim, todos são obrigados a saber, em geral, as verdades da fé e os preceitos universais da lei. 

E cada um em particular, o que diz respeito ao seu estado e sua função. Ao contrário, há coisas que não se é obrigado a saber, se bem que seja natural sabe-las, por exemplo, os teoremas da geometria, e excepto em certos casos, os acontecimentos contingentes.

Evidentemente todo aquele que negligencia ter ou fazer o que é obrigado ter ou fazer, peca por omissão. Portanto, por causa de uma negligência, a ignorância das coisas que se devia saber é um pecado. Mas não se pode imputar a alguém como negligência o não saber o que não se pode saber. 

Por isso, essa ignorância é chamada invencível, porque nenhum estudo a pode vencer. Como tal ignorância não é voluntária, porque não está em nosso poder rechaçá-la, por isso ela não é um pecado. Por aí se vê que a ignorância invencível nunca é um pecado. Mas a ignorância vencível é, se ela se refere ao que se deve saber. Mas, ela não o é, se se refere ao que não se é obrigado a saber. 

Suma Teológica I-II, q.76, a.2


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sexta-feira, 4 de junho de 2021

Quando alguém nos ofende devemos "dar a outra face"?

Quando São Tomás de Aquino chegou à Universidade de Paris havia uma grande perseguição aos padres dominicanos (e também alguma aos franciscanos). Eram novas ordens religiosas, radicais na forma de viver os conselhos evangélicos e tinham muitas vocações. Eram grandes intelectuais e respondiam a qualquer bom argumento com outro ainda melhor.

Aqui fica uma provocação feita a São Tomás e a respectiva resposta:

"Um membro de uma ordem religiosa, que afinal de contas escolheu seguir o caminho de perfeição, não deveria simplesmente sofrer o ataque dos inimigos sem oferecer qualquer defesa?" 

Responde São Tomás: "Sim, quando isso disser respeito à sua própria pessoa; o membro de uma Ordem deve até estar preparado para aguentar coisas bem piores que palavras hostis. Mas, quando o ataque se eleva contra a forma de vida evangélica em si, isto é, contra os ensinamentos divinos, a resposta tem que ser não." 

in 'Quaestiones quodlibetales'


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terça-feira, 9 de março de 2021

O que é a acídia e como superá-la? S. Tomás de Aquino responde

Os pecados (ou vícios) capitais são os terríveis inimigos da vida espiritual do cristão. O actual Catecismo da Igreja Católica (n. 1866), seguindo a tradição cristã, afirma que esses são: soberba, a avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acídia. O último na lista – acídia – é um dos mais desconhecidos, e vem identificada com a preguiça. Não são exactamente a mesma coisa, porque a acídia refere-se a um 'estado de alma' mais ou menos estável, enquanto a preguiça se refere a uma das suas formas de manifestação, ou seja, as acções exteriores, principalmente no âmbito do trabalho [1].

S. Tomás trata a acídia em S. Th, II-II, q. 35, e em De Malo, q. 11. Vamos seguir aqui o que diz na Suma Teológica.

O art. 1, afirma que a acídia é um pecado. S. Tomás parte da definição de João Damasceno: “é certa tristeza que causa pesar”. Isso significa que a acídia é uma tristeza que deprime o ânimo do Homem de modo que nada lhe agrada, “assim como se tornam frias as coisas pela acção corrosiva do ácido”. “Acídia” vem, portanto, de “ácido”.

A acídia causa o tédio e uma enorme dificuldade em começar qualquer acção boa. A acídia é o “torpor da mente em começar um acto bom”. Manifesta-se numa falta de iniciativa. Esse tipo de tristeza é sempre mal, porque se dirige ao bem real que é o espiritual. É um mal em si mesmo, por se dirigir ao bem espiritual absoluto; e é um mal também nos seus efeitos, porque afasta o homem de todas as boas obras [2].

S. Tomás esclarece então (a. 1, ad 1) que a tristeza é, em primeiro lugar uma paixão, e, enquanto tal, não é boa nem má. Porém, diante do mal real, e quando permanece moderada, essa paixão é boa. Por outro lado, a tristeza que provém do bem, ou a tristeza excessiva diante do mal é sempre reprovável. Para comprová-lo, S. Tomás cita 2Cor 2, 7: “É melhor que lhe perdoeis e o consoleis para que não sucumba ao peso de demasiada tristeza”. Existe uma boa tristeza pelos pecados, essa é a contrição; e uma má tristeza diante do bem espiritual: essa é a acídia.

Em a. 1, ad. 2, Tomás de Aquino acrescenta que faz parte da humildade que o Homem não se entristeça ao considerar os seus defeitos. Mas não é humildade desprezar os bens recebidos de Deus, mas sim ingratidão.

E como superar a acídia? Encontramos indicações em a. 1, ad. 3. Não há dúvidas de que se deve lutar sempre contra o pecado. Vencemos o pecado às vezes fugindo, outras vezes resistindo. Fugindo quando a persistência do pensamento aumenta o incentivo ao pecado (esse é o caso da luxúria, que é vencida ao desviar o pensamento persistente e se afastando da ocasião de fornicar). Resistindo, por outro lado, através da reflexão profunda que tira todo o incentivo ao pecado.

Para vencer a acídia, portanto, é necessário resistir, ou seja, pensar nos bens espirituais, que dessa forma se tornam para nós mais aprazíveis. E é isso o que se procura fazer na oração. Para superar a acídia, não há outro caminho a não ser o da oração fiel, perseverante e humilde, a qual procura considerar os bens divinos. 

Para isto, pode servir de ajuda a frase de S. João da Cruz: “Meus são os Céus e minha é a Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus os pecadores. Os Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, pois Cristo é meu e tudo para mim”. 

Padre Anderson Alves in Zenit

[1] J. Pieper disse: “O facto de que a preguiça esteja entre os pecados capitais parece que é, por assim dizer, uma confirmação e sanção religiosa da ordem capitalista de trabalho. Ora, esta ideia é não só uma banalização e esvaziamento do conceito primário teológico-moral da acídia, mas até mesmo sua verdadeira inversão” (Virtudes Fundamentales, Madrid, Rialp, 1976, pp. 393-394). Cfr.: Jean Lauand, O Pecado Capital da Acídia na Análise de Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm#_ftn8 

[2] “A 'culpa' do assédio da acídia ao meio-dia é do jejum dos monges, pois toda fraqueza corporal predispõe à tristeza, mais aguda nessa hora, pela fome e pelo calor (S. Th., II-II, 35, 1 ad 2). S. Tomás diz nas questões de Quodlibet que o jejum é sem dúvida pecado (absque dubio peccat), quando debilita a natureza a ponto de impedir as acções devidas: que o pregador pregue, que o professor ensine, que o cantor cante... Quem assim se abstém de comer ou de dormir, oferece a Deus um holocausto, fruto de um roubo.” (Quodl. 5, q. 9, a. 2, c)


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sábado, 7 de março de 2020

Oração de S. Tomás de Aquino para rezar no final da Missa

Eu vos dou graças, ó Senhor, Pai Santo, Deus eterno e todo-poderoso, porque sem mérito algum de minha parte, mas somente pela condescendência de vossa misericórdia, Vos dignastes saciar-me, a mim pecador, vosso indigno servo, com o sagrado Corpo e o precioso Sangue do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. 

E peço que esta Santa Comunhão não me seja motivo de castigo, mas salutar garantia de perdão. Seja para mim armadura de fé, escudo de boa vontade, e libertação dos meus vícios. Extinga em mim a concupiscência e os maus desejos, aumente a caridade e a paciência, a humildade e a obediência, e todas as virtudes. Defenda-me eficazmente contra as ciladas dos inimigos, tanto visíveis como invisíveis. Pacifique inteiramente todas as minhas paixões, sejam da carne ou do espírito, unindo-me firmemente a Vós, Deus Uno e Verdadeiro, feliz consumação de meu destino. 


E peço que Vos digneis conduzir-me, a mim, pecador, àquele inefável convívio em que Vós com o Vosso Filho e o Espírito Santo, sois para os Vossos Santos a luz verdadeira, a plena saciedade e a eterna alegria, a ventura completa e a felicidade perfeita. Por Cristo, Nosso Senhor. Ámen. 



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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

4 métodos para memorizar coisas, segundo São Tomás


Há quatro rotinas com as quais o homem pode desenvolver a sua capacidade mnemónica:

Primeiro, revestindo as coisas que ele quer se lembrar com imagens adequadas, mas não muito comuns: porque as coisas extraordinárias despertam mais admiração em nós e, portanto, a alma se aplica com mais força; daí que nos lembremos melhor do que vimos na infância. Ora, essa busca por semelhanças ou imagens é necessária na medida em que ideias simples e espirituais desaparecem mais facilmente da alma se não estiverem relacionadas de alguma maneira às imagens corporais: uma vez que o conhecimento humano é mais forte no campo das realidades sensíveis. Assim também a memória é colocada na parte sensível. 

Segundo, é necessário que o que o homem queira memorizar o coloque de modo ordenado no seu pensamento, para mudar facilmente de uma memória para outra. Por isso, o filósofo [De mem. et rem. 2] escreve: "Às vezes as reminiscências tomam a sua sugestão do local; e isso porque se passa facilmente de um lugar para outro». 

Terceiro, é necessário que a pessoa se aplique com solicitude e carinho ao que se quer recordar quanto mais algo está profundamente impresso na alma, mais difícilmente é apagado. De facto, Cícero escreve [Ad Herenn. 3, 19] que "a solicitude mantém intactas as imagens das coisas representadas". 

Quarto, as coisas que queremos lembrar devem ser repensadas com frequência. Então o filósofo [De mem. et rem. 1] afirma que "pensamentos frequentes guardam a memória": pois, como ele ainda diz [ib., C. 2], "o costume é como uma segunda natureza"; e é por isso que lembramos imediatamente as coisas em que pensamos muitas vezes, passando de uma para a outra quase de acordo com uma ordem natural.

in Summa Theologica II-II, q. 49, 1 art.


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domingo, 3 de novembro de 2019

Tomás responde: A mentira é sempre pecado?

Parece que nem toda mentira é pecado:

1. Com efeito, é evidente que os evangelistas não pecaram ao escrever o Evangelho. Ora, eles parecem ter dito algo falso, porque as palavras de Cristo, e até mesmo de outros personagens, são registradas de maneira diferente por eles. E daí se pode concluir que um deles há de ter dito uma coisa falsa. Logo, nem toda mentira é pecado.

2. Além disso, ninguém é recompensado por Deus pelo pecado. Ora, as parteiras do Egipto foram recompensadas por Deus, por terem mentido, pois a escritura diz que Deus lhes concedeu uma posteridade. Logo, a mentira nem sempre é pecado.

3. Ademais, a Sagrada Escritura narra os feitos dos santos para a edificação da vida humana. Ora, de alguns grandes santos se diz que mentiram. No Génesis se lê que Abraão disse que sua esposa era sua irmã. Jacob mentiu dizendo que era Esaú, e, apesar disso recebeu a bênção. E Judith, que mentiu para Holofernes, até hoje recebe louvor. Logo, nem toda mentira é pecado.

4. Ademais, às vezes convém escolher um mal menor para evitar um mal maior; é o caso do médico que se vê obrigado a cortar um membro para evitar a infecção do corpo inteiro. Ora, causa menor dano ao próximo quem lhe comunica uma informação falsa do que assassinar ou ser assassinado. Logo, pode ser lícito mentir para impedir alguém de cometer homicídio para preservar alguém da morte.

5. Ademais, quem não cumpre uma promessa, mente. Ora, nem todas as promessas devem ser cumpridas, pois Isidoro diz: se prometeste algo mau, rompe teu compromisso. Logo, nem toda mentira é pecado.

6. Ademais, a mentira é considerada pecado porque a pessoa engana o próximo; o que faz Agostinho dizer: “Quem imagina que pode haver um género de mentira sem pecado, está torpemente equivocado ao se estimar como honesto enganador dos outros”. Ora, nem toda mentira é causa de engodo porque a mentira jocosa não engana ninguém. Na realidade, ninguém conta estas mentiras para que sejam cridas, mas simplesmente para a diversão. E assim de vez em quando se encontram locuções hiperbólicas na Sagrada Escritura. Logo, nem toda mentira é pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o livro do Eclesiástico diz: Recusa-te a proferir qualquer mentira (7, 14).

tomas_respondo Aquilo que é mau por sua própria natureza não pode de maneira nenhuma ser bom ou lícito; porque, para algo ser bom, é preciso que todos os seus elementos o sejam. De onde a célebre sentença de Dionísio: o bem resulta da perfeição total da causa, enquanto que o mal resulta de qualquer defeito. Ora, a mentira é um mal por sua própria natureza porque é um acto cuja matéria

não é o que devia ser, pois como as palavras são sinais naturais do pensamento, é contra a natureza, e ilegítimo que se faça a palavra significar uma coisa que não se tem na mente. E é por isso que Aristóteles diz que “a mentira é por si própria uma depravação a ser evitada, enquanto que a verdade é boa e louvável”. Por conseguinte, toda mentira é pecado, como afirma também Agostinho.

Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Não é permitido dizer que o Evangelho, ou qualquer outro livro canónico da Sagrada Escritura afirmam qualquer coisa de falso, ou que algum de seus autores tenha mentido, pois isto destruiria a certeza da fé que repousa sobre a autoridade dos Livros Sagrados. O fato de as palavras de certos personagens serem registradas de maneiras diversas no Evangelho, ou em outros livros, não constitui mentira. Como diz Agostinho: “Esta questão não deve de nenhuma maneira embaraçar aquele que julga com sabedoria que estes relatos são necessários para o conhecimento da verdade, quaisquer que sejam as expressões empregadas para os transmitir”. E ele acrescenta que “não temos o direito de taxar de mentira a ninguém se fatos que ficaram na lembrança de muitos que os viram ou deles tiveram notícia, nem sempre vêm registrados da mesma maneira ou nos mesmos termos”.

2. As parteiras não receberam a recompensa em razão da mentira delas, mas em razão do temor de Deus e da boa vontade que as levaram a mentir. É o que está dito expressamente no livro do Êxodo: “porque haviam demonstrado temor a Deus, Deus lhes concedeu uma posteridade”. Quanto à mentira que se seguiu, ela não foi meritório.

3. Deve-se dizer com Agostinho que a Sagrada Escritura refere certos feitos que são como que exemplos da perfeita virtude: e não se pode crer que os autores de tais feitos tenham sido mentirosos. E se nas palavras dos protagonistas destes feitos se descobrir alguma coisa que parece mentira, é preciso entender o que há nelas de profético e figurativo. e, em outra passagem Agostinho afirma que “esses homens que se revestiram de autoridade e desempenharam um papel considerável nos tempos proféticos, disseram e fizeram profeticamente tudo o que a Sagrada Escritura lhes atribui”. E Agostinho continua dizendo que, quando Abraão quis fazer passar Sara como sendo irmã dele, quis simplesmente ocultar a verdade, e não propriamente proferir uma mentira: disse que era sua irmã porque era filha do irmão dele. Por isso, o próprio Abraão declarou: “Ela é de fato minha irmã, porque é filha de meu pai, e não de minha mãe”. Ou seja: era sua irmã apenas por parte de pai. Por outra parte, quando Jacob declarou que era Esaú, o filho primogénito de Isaac, ele falou figurativamente, porque os direitos de primogenitura lhe pertenciam legitimamente. Ao fazer esta declaração ele foi inspirado pelo espírito profético, para exprimir o mistério: um povo posterior, a saber, os gentios, haveria de ocupar o lugar do primogénito, ou seja, dos judeus. A Sagrada Escritura faz o elogio de certas figuras não porque essas pessoas tenham sido modelos de perfeitas virtudes, mas por causa dos bons sentimentos que demonstraram possuir e que as levaram a cometer alguns actos indevidos. Neste sentido, Judith é reverenciada não por ter mentido a Holofernes, mas pelo desejo ardente de salvar seu povo que a levou a enfrentar graves perigos. E se pode dizer ainda que as palavras delas contêm uma verdade em sentido místico.

4. A mentira é pecado, por sua própria natureza, não apenas por causa do dano que causa ao próximo, mas ainda por causa da desordem que está contida nela, como foi dito. Não é permitido a ninguém recorrer a um meio desordenado e ilícito, para impedir um dano ou faltas dos outros; assim, por exemplo, não é permitido furtar para dar esmolas (salvo talvez em caso de extrema necessidade, em que todos os bens são comuns a todos). Por conseguinte, não é lícito proferir uma mentira para livrar alguém de algum perigo, qualquer que seja. Embora, como diz Agostinho, seja permitido ocultar a verdade com prudência, recorrendo a alguma dissimulação.

5. Quem promete alguma coisa com a intenção de cumprir o prometido, não mente, porque não fala contra aquilo que tem em sua mente. Se, no entanto, não cumprir o que prometeu, então estará agindo como infiel à promessa porquanto muda de projecto. Ainda assim ele pode ser desculpado, em dois casos, a saber: 1º se tiver prometido algo manifestamente ilícito; neste caso ele terá cometido um pecado ao fazer tal promessa mas age muito bem quando muda de propósito. 2º Se tiver havido uma mudança nas condições de pessoas ou de negócios. Como diz Séneca, para alguém ser obrigado a uma promessa é necessário que todas as circunstâncias permaneçam inalteradas; do contrário, quem fez a promessa não mentiu quando prometeu, porque prometeu o que tinha de fato em mente, subentendidas as condições devidas; e tampouco terá sido infiel ao não cumprir a promessa, pois não subsistem as mesmas condições. Desta forma Paulo não mentiu quando deixou de ir a Corinto, como havia prometido, porque sobrevieram obstáculos imprevistos.

6. Uma acção pode ser considerada tanto em si mesma quanto com referência a quem age. A mentira jocosa é, por sua própria natureza, feita para enganar, mas quem a profere não o faz com o intuito de enganar, e, pela maneira de dizer, não engana ninguém. Mas o mesmo não acontece com algumas locuções hiperbólicas ou figurativas que se encontram nas Sagradas Escrituras. Como diz Agostinho: “o que se diz em sentido figurado nunca é mentira. Toda enunciação se refere ao que é enunciado. Ora, tudo o que é feito ou dito no modo figurativo exprime o que realmente significa para aqueles que o devem entender”.

São Tomás de Aquino in Suma Teológica II-II, q.110, a.3


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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Dominicanos disponibilizam cursos gratuitos sobre ensinamentos de S. Tomás


Washington DC. É de esperar que o nome da capital norte-americana nos sugira todo o tipo de sentimentos, talvez até contraditórios entre si. Há décadas que nos habituámos a tê-la como indisputado centro do mundo porque os Estados Unidos têm sido a única verdadeira super-potência à escala global, aliando à sua supremacia militar, económica e tecnológica – hard power – a sua esmagadora influência cultural – o seu soft power.

Assim, Washington representa e sintetiza tudo o que de melhor e pior os EUA têm para oferecer ao mundo. Se o gender, o progressismo católico mais terminal e a cultura da morte lhe são tributários, a capital do Ocidente tem também sabido gerar – certamente sob o influxo do Espírito do Senhor que vem regenerar todas as coisas – uma contra-cultura que afinal não é mais do que tirar as coisas velhas sempre novas do tesouro da Tradição Católica e de que o Evangelho nos dá conta.

Nesta dinâmica cultural contra-corrente que visa reconstruir a Cidade de Deus acreditamos que se insere, com destaque, o Thomistic Institute da Pontifícia Faculdade da Imaculada Conceição (https://thomisticinstitute.org), regida pelos dominicanos fiéis à tradição tomista da Dominican House of Studies de Washington DC.
           
Este Instituto, que já tem marcado presença entre nós por meio de conferências de grande qualidade de alguns dos seus membros, oferece agora um extraordinário conjunto de conteúdos e cursos formativos gratuitos, disponíveis on-line, sobre o pensamento do Doutor Universal da Igreja. 

De entre os cursos disponíveis, de extensão variável a começar nos 6 vídeos, o Aquinas 101 (https://aquinas101.thomisticinstitute.org) consta de dois vídeos por semana enviados por e-mail, no total de 86 vídeos, e apresenta-se como uma introdução ao pensamento daquele que como nenhum outro sintetizou a verdade da Revelação nas Sagradas Escrituras e na Santa Tradição da Igreja com o produto filosófico mais nobre da razão humana.

Aos nossos amigos, aos curiosos, ao homens cultos e àqueles que procuram a Verdade de coração sincero, aos católicos que desejam aprofundar a tradição intelectual que foi o sustentáculo da Cristandade por tantos séculos, temos muito gosto de recomendar este curso com a chancela do Thomistic Institute de Washington DC.

E atrevemo-nos a dizer: aqui residirá o verdadeiro hard power capaz de transformar o mundo à imagem do seu Divino Criador.


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