segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mamom - Padre Nuno Serras Pereira

Depois da minha Ordenação Sacerdotal, em 1986, fui enviado para Coimbra com a finalidade de exercer o ministério, principalmente, na nossa Igrejinha. Aí homiliei, sobretudo nas Missas Dominicais, durante quatro anos. Um assunto que me perturbava, desde uns anos antes, tinha a ver com o impressionante fascínio sedutor, senão mesmo hipnótico, que as pregações dos políticos e os pronunciamentos de boa parte de membros da Igreja, exercia sobre as almas. 

Tudo aquilo estava nimbado de uma nova religiosidade: Os fautores da união eram novéis Moiséses, melhor, definitivos salvadores, que nos conduziam à nova terra prometida, ao paraíso neste mundo, o único existente. Daí escorria leite e mel, isto é, dinheiro a jorros, garantindo-nos uma abundancia tal que infundiria em todos uma felicidade perfeita. 


A generalidade dos cidadãos, e não poucos prelados, indiferentes aos princípios inegociáveis, aos absolutos morais, aos valores essenciais e à sua justa jerarquia, votavam com a carteira, com o multibanco, em busca da riqueza sonhada, não obstante os insistentes avisos e exortações homiléticas de um resto, mínimo, que por ter a Graça de ver e escutar os sinais dos tempos se recusava, por virtude do Espírito Santo, a emudecer. 


Era preciso ser cego e surdo, ou estar magnetizado, para não perceber a inversão perversa e enganadora da Fé verdadeira. O diabo, esse grande invertido, macaqueia, com sofisticado requinte, a obra de Deus, mas deixa sempre um fedor a enxofre, que deixa nauseados aqueles que não vivem na imundície.


A cobiça, essa deusa de beleza luciferina, subtilmente enganadora, dominava soberana e implacável. Para alcançar e gozar do “tudo isto te darei” (Mt 4, 9) era imprescindível dar provas iniciais da maturidade de uma democracia relativista e, portanto, meramente formal, instituindo o divórcio, impregnando a mentalidade contraceptiva, aprovando, como brecha primeira, a legalização do aborto provocado. Deste modo, uma substancial tirania se implantou e consolidou em nome, precisamente, da sobredita democracia. Tudo isso foi feito sem sobressaltos de maior.

Transformados efusivamente em orgiásticos adoradores do deus Mamom (dinheiro) entregámo-nos ebrifestivamente a uma vertiginosa avidez insaciável com o consequente fúnebre cortejo de crueldades que sempre o acompanham: deseducação sexual nas escolas, liberalização do aborto, reprodução artificial, experimentação letal em pessoas no seu estado embrionário, asfixia da liberdade religiosa, pseudocasamento entre pessoas do mesmo sexo, com concomitante adopção pela figura do apadrinhamento, divórcio expresso sem culpa. Mamom sempre foi desapiedado, desconhecendo em absoluto a Misericórdia.

Inclementes e desalmados para com os inocentes e os mais vulneráveis, imploramos agora socorro, compaixão e beneficência para com as nossas aflições monetárias… A verdade é que se não nos convertermos pereceremos todos igualmente (cf Lc 13, 1-3); e, pior ainda, seremos julgados sem misericórdia (cf Tg 2, 13). Mas a misericórdia triunfa sobre o juízo! Enquanto não chega a morte corporal, que tantas vezes é súbita e imprevista, estamos sempre - e este sempre significa agora, já que logo pode ser tarde -, a tempo, assim Deus conceda a Sua Graça, que a ninguém a recusa, de nos arrependermos e a Ele, Infinitamente Misericordioso, nos convertermos (Mt 25, 31-46).
NOTA BENE: Este texto não cuida de análises políticas (no significado ordinário que é dado a este vocábulo) nem económico-financeiras, matérias que não são da minha competência. Reflexiono, tão só, naquilo que diz respeito ao meu ministério.


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