segunda-feira, 27 de julho de 2015

Inside Out - As emoções contadas de uma forma Cristã

Fui ver há uns dias com uns amigos o novo filme da Pixar, Inside Out.

É um filme de desenhos animados em que a história está cheia de pormenores incríveis sobre a vida que encantam qualquer adulto, como é típico nos filmes da Pixar.

O interessante neste filme é que o plano de acção é a mente de uma rapariga, a Riley, desde que ela nasce até aos seus 12 anos. O filme é muito divertido, mas também ensina muito sobre o funcionamento da mente humana. Na verdade, muitas cenas do filme batem certo com o que a ciência sabe hoje sobre o cérebro.

Os protagonistas do filme são cinco emoções com personalidade - a alegria, a tristeza, o medo, a ira e a repulsa (Joy, Sadness, Fear, Anger e Disgust). Durante o filme, notou-se que a forma de agir destas personagens entusiasmou bastante quem o estava a ver.

Um dos pontos do filme que melhor mostra isto é a forma como Joy (alegria) quer estar sempre a controlar a mente de Riley, dando-lhe alegria. Para o fazer, Joy está constantemente a esforçar-se para descobrir um ponto positivo diante das situações em que Riley se encontra, mesmo que sejam as piores possíveis, como mudar para uma casa a cair de podre aos 12 anos. E o ponto é que ela, de facto, vai conseguindo animar a nossa menina.

Eram estas as cenas que mais faziam o público rir porque são as que melhor reflectem aquilo que é próprio do ser humano. No fundo do nosso coração todos sabemos que o homem tem condições para estar sempre alegre, mesmo que muitas vezes a nossa vida não seja assim vivida. Mais ainda, ao ver estas cenas lembramo-nos que podíamos ser mais assim, mais optimistas.

E, se há alguém que viveu a vida com alegria, foram e são os Cristãos. A certeza que os Cristãos têm da vida eterna e do amor infinito que Deus tem por cada um permite-lhes estarem sempre alegres. A vida dos Santos é o melhor exemplo disso. Como é possível que S. Josemaria conseguisse serenar e alegrar todos os que o rodeavam em Madrid durante a sangrenta Guerra Civil espanhola? Ou como conseguiu S. Maximiliano Kolbe ajudar tantos naquele campo de concentração em Auschwitz? Tinham a funcionar dentro de si a Alegria que Riley também tem no filme.

Mas estas cenas têm outro segredo que também contribuiu para entusiasmar quem viu o filme. Conseguir estar alegre independentemente da situação em que nos encontremos mostra que o ser humano está acima de qualquer tipo de factor externo. Os nossos estados de ânimo, por muito fugazes que possam parecer, estão sob o nosso controlo. Isto é, quem escolhe estar alegre somos nós. Ou estar triste. Ou zangado. O que quer que seja. Nós somos donos das nossas emoções. Mas como é possível?

O truque para isto ser possível é a razão. Hoje em dia muitos acham que o avanço da neurociência representa um retrocesso da alma, que é a própria essência do que nós somos. O homem não seria mais do que um conjunto de neurónios que respondem a muitos estímulos - acabavam assim todos os conceitos de liberdade, consciência, amor, etc. No fundo o homem tornava-se igual aos animais.

Mas não é assim, porque o homem está dotado de razão, que é a chave para estar acima das emoções. Mas onde é que no filme está a razão na cabeça de Riley? Como me disse um amigo no final do filme, a razão estava em cada uma das emoções. Na verdade, os criadores do filme, ao personificarem cada emoção estavam a dar-lhes o dom da razão. E é assim que, ao longo de todo o filme, a Joy consegue ser tão alegre e descobrir o ponto positivo de cada situação. No filme nós até a vemos a pensar, a fazer um esforço para ser alegre.

A este esforço para estar alegre nós chamamos vontade. O ser humano pode ser descrito através de três coisas: a sua vontade, inteligência e paixões/emoções. É a inteligência aliada à vontade que faz com que consigamos controlar as nossas emoções, tal como acontece ao longo de Inside Out. Que isto é possível não devia ser novidade nenhuma, pois o Cristianismo desde sempre que o ensina.

Chama-se temperança a este domínio das emoções. Ensina o Catecismo da Igreja Católica que:
a temperança é a virtude moral que modera a atracção dos prazeres (...). Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade. A pessoa temperada orienta para o bem os apetites sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração. (CIC, 1809.)

Ou seja, uma pessoa que tenha a virtude da temperança sabe sempre comportar-se, estando quase sempre alegre, mas também muitas vezes triste ou zangada. A temperança faz com que sejamos pessoas equilibradas, não demasiado alegres nem demasiado tristes. Sem querer saltar o filme inteiro, é precisamente assim que acaba o filme. Para haver alegria é preciso haver tristeza. É preciso sabermos zangar-nos quando é preciso (vejam Jesus a expulsar os vendilhões do templo).

Durante todo o filme vemos Joy (alegria) a tentar que Sadness (tristeza) não tome controlo das emoções de Riley - queria evitar que Riley ficasse triste a todo o custo. Mas, como se vê com o desenrolar do filme, esta demonstra-se uma tarefa bastante difícil, senão mesmo impossível. O clímax do filme é quando Joy percebe que só vai conseguir alegrar Riley com a ajuda de Sadness. Ou seja, a mensagem do filme é descobrir que alguns momentos de tristeza levarão a uma alegria ainda maior. E não é este o cerne do Cristianismo? O maior horror alguma vez cometido, o Filho de Deus torturado e morto na Cruz é a fonte de toda a Graça, o culminar da nossa Redenção.

No fundo a tristeza complementa a alegria. A virtude da temperança vai-se desenvolvendo e as nossas emoções ficam temperadas.

Ver isto num filme de Hollywood é muito reconfortante. É um bom filme para qualquer idade: um adulto estará atento a estes pormenores e uma criança estará a aprender que crescer significa ter um maior domínio sobre as suas emoções.

Na produção do filme, os produtores e realizadores estiveram sempre em contacto com neurocientistas de topo e por isso o filme é uma boa introdução ao que se sabe hoje sobre o funcionamento do cérebro. Nota-se que o avanço da ciência nestas áreas vai cada vez mais iluminando aquilo que é próprio da moral e tradição cristãs.

Nuno CB



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1 comentário:

Catarina Poppe Figueiredo disse...

Muito bom, e muito verdade!
Além do mais, ao longo do filme identifiquei-me muito com reacções instintivas de raiva e repulsa (medo menos) quando nos falta a "vontade" de ser felizes - que no fundo são sentimentos totalmente humanos, mas que nos comprometem menos com a vida e nos fazem agir de maneira a afastar a felicidade. É isto o pecado, deixar-nos levar pelas emoções mais fáceis que não pensam, só agem.
Também fiquei a pensar sobre quais eram as minhas "ilhas", os meus centros, tanto as estáveis como as que já tinham ruído. E perceber que as ilhas se formam e se desenvolvem consoante o esforço, empenho e vontade que se põe nelas.
Sobretudo, é um filme que faz pensar e isso já é óptimo!