terça-feira, 17 de maio de 2016

Entrevista a um sacerdote que celebra exclusivamente o Rito antigo


O mal-estar, as dificuldades espirituais, as batalhas e a coragem de um sacerdote que se vê obrigado a conviver com uma realidade eclesiástica, muitas vezes, incompreensível.
Don Alberto Secci e dois irmãos, Don Stefano Coggiola e Don Marco Pizzochi, todos da diocese de Novara, saltaram para a ribalta quando se comprometeram a aderir fielmente ao Motu Proprio Summorum Pontificum de Bento XVI, em 2007.
A oposição à celebração da Santa Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano foi bastante forte por parte da curia de Novara, criando enormes dificuldades a estes três sacerdotes, especialmente na sua relação com os paroquianos.
A lógica era simples: a celebração da Santa Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano “devia ser” uma excepção, ou seja, era proibida aos párocos. Isto foi bastante falado na imprensa local e nacional e os três sacerdotes passaram a ser vistos como provocadores. No entanto, o Senhor vê e fornece! E os nossos três sacerdotes seguem o mesmo caminho: o da fidelidade à Tradição e à Santa Igreja Romana. Para além de nas suas igrejas, de Vacogno e Domodossola, hoje, também é possível seguir o apostolado de Don Alberto Secci e de Don Stefano Coggiola através da sua página na internet: Radicati nella Fede.
Don Alberto, como sacerdote, a sua escolha de voltar à Santa Missa de sempre, aquando do Motu Proprio, fez os media falar muito entre 2007 e 2008. Hoje, passado muito tempo, pedimos-lhe que responda a algumas perguntas que poderão permitir aos fiéis italianos conhecer melhor a sua história:
P: Pode dizer-nos como, e quando, nasce a sua vocação sacerdotal e como foi a sua formação no seminário?
R: Nasci em Domodossola, mas a minha família mudou-se para Biella. O meu pai era polícia, e ali passei a minha infância, numa boa paróquia, dirigida por um velho padre, nascido em 1890! Um padre com uma fortíssima devoção mariana. Sem duvida foi ali que apareceu o primeiro sinal da minha vocação.
O serviço à Santa Missa, o mês de Maio, o Santuário de Oropa...juntamente com a fidelidade da minha mãe às tarefas diárias e à Santa Missa e ao sentido de dever e ordem do meu pai e muitas outras coisas boas marcaram a minha infância católica.
 Depois fui para Domodossola com a minha família e inscrevi-me no liceu...boas recordações, embora o clima, em 1977, fosse muito laical. Naquele liceu vivi uma intensa militância católica no movimento Comunhão e Libertação. Éramos poucos mas muito aguerridos. Recordo-me daqueles anos: orações (rezávamos as Laudes, Vésperas e Completas, terço, Missa diária – já aos 15, 16 anos! – e lemos vários livros, dos escolhidos pelos professores, para defender a Igreja e a sua historia). O amor à Igreja, e o conhecimento sobre ela, crescia constantemente. Líamos os grandes autores espirituais, como São Bento, Santa Teresa d’Avila...para mim foi natural e esmagadora a evidencia da minha vocação sacerdotal.
Cristo é o todo, a Igreja o seu corpo: Como não dar a vida por isto?
 Entrei no seminário aos 19 anos, depois de concluir o liceu. Tinha uma grande ajuda do meu director espiritual para estudar o catecismo e a teologia. 
Porquê?
 Naqueles anos não faltavam as opiniões pessoais, ideologicamente ancoradas à teoria de Rahner. No entanto, passei, serenamente, esses anos a “combater” positivamente pela fé.
 Não tive maus professores, recordo-os a todos com simpatia mas, também, já estava preparado, pela militância católica anterior, a discernir qualquer ensinamento.
P: Quais foram os ministérios a seu cargo nos primeiros anos após a sua ordenação?
R: Ordenado sacerdote, fui enviado, com 25 anos, para uma paróquia (muito católica) com um grande número de fiéis, onde fui assistente. Não foi fácil: ensinava religião no secundário e o resto do dia era passado entre as pessoas e a paróquia. Era um grande desafio, enfrentava linhas eclesiásticas muito distintas da minha, já, marcadamente, tradicional.
Espero ter feito mais bem que mal.
Depois fui para França, durante cerca de 1 ano, atraído pela experiência canónica, pois sentia a necessidade de um suporte sacerdotal maior: os monges tornaram a Europa cristã. Pareceu-me ter encontrado uma solução para um melhor serviço a Deus e às almas.
 Regressei porque reencontrei as lutas teológicas e a monotonia dos seminários. Cheguei, então, a Valle de Vigezzo, onde estou agora, primeiro como assistente num santuário e depois como pároco. Durante estes anos tenho continuado a ensinar religião na escola.
P: Como foi o seu reencontro com a Missa antiga e o que é que o levou a abraçar, apesar das dificuldades, este rito em forma exclusiva?
R: É difícil responder. É como se sempre tivesse estado presente em mim. Recordo não poder suportar mais um certo modo de celebrar, recordo-me de ter advertido, desde sempre, o ridículo de muitas liturgias. Era como saber que este era o momento de confusão, quase dramático. Tudo na Igreja me falava do Rito antigo, só ele faltava e me esperava.
 Como pároco fiz aquilo que, naquele momento, me parecia impossível: Altar ad orientem, o canto gregoriano, a comunhão na boca e uso constante da batina, a catequese para adultos e o catecismo tradicional para as crianças. Mas não era suficiente. Eu já estava há uns anos sob investigação por causa do que já tinha mudado. Em 2005 introduzi primeiro o ofertório e depois o cânon do vetus ordo na Missa de Paulo VI. Esperei com paciência o tantas vezes anunciado Motu Proprio, que parecia não chegar e, a 11 de Julho de 2007, uma terça-feira, comecei a celebrar apenas Missa Tridentina. Devo dizer que o ultimo passo dei-o graças a um irmão: numa viagem às montanhas, um dia antes, disse-me: “de que estás à espera?”...era sinal de que devia começar.
P: Porque é que, contrariamente a outros sacerdotes que acolheram o Summorum Pontificum, recusa o “bi-ritualismo”?
R: Serei brevíssimo: parece-me absurda a obrigação do “bi-ritualismo”. Se um encontra a verdade, o melhor, o que expressa mais completamente a fé católica, sem ambiguidades perigosas, porque celebrar algo menor? 
No bi-ritualismo o sacerdote estagna na tristeza de uma espécie de esquizofrenia e o povo não é consolado na beleza de Deus. Evito o discurso teológico-liturgico. Só digo que aquele que se mantém no bi-ritualismo, mais cedo ou mais tarde abandona a Missa Tridentina e arranjará razões para ficar no mundo reformista, embora viva de forma conservadora, com uma tristeza interior, como se tivesse traído o amor a Deus.
 Devo acrescentar que me foi muito útil a leitura da reforma litúrgica anglicana de Michael Davies. Texto fundamental, claríssimo: A ambiguidade do rito leva à heresia do facto. Não é isso que sucedeu connosco?
P: Como reagiram os seus paroquianos quando souberam da sua decisão de voltar á Missa antiga?
R: Não se surpreenderam. Os simpatizantes disseram: Finalmente! Os que se opunham disseram: Nós avisámos!
No entanto, diria que quase a totalidade das pessoas se lançaram ao trabalho: distribuíram folhetos, quiseram aprender...um belo clima de fervor. Sempre recebi a ajuda de um grupo de fiéis, simples e fortes, que estiveram sempre dispostos a trabalhar comigo. Penso, especialmente, naqueles que em 1995 começaram com os ensaios de canto.
P: Todos sabemos das incompreensões do Bispo e da ideia de lhe dar, a si, uma espécie de capelania em Vacogno. Como foram, naqueles momentos, para além dos desentendimentos com a cúria de Novara, as relações com outros párocos?
R: Desapareceram todos. Alguns desaprovaram, a maioria permaneceu em silêncio, alguns diziam-me em privado que não estavam contra mas que em público não podiam fazer nada. Era o horror, a desobediência oficial.
 Da nossa parte, Don Stefano – o sacerdote que tomou o mesmo caminho e o mesmo trabalho – e eu, havendo campos de apostolado diferentes, nunca faltamos às reuniões sacerdotais da vigararia, participando com empenho, como sempre.
P: Hoje em dia, felizmente, as tensões foram temperadas. Como são as relações com o Bispo e com os irmãos?
R: Tudo parece tranquilo, embora saibamos que há muito por resolver, já que sempre se evitou uma discussão profunda sobre a razão da nossa eleição. É como se se quisesse permanecer à superfície, a um nível puramente jurídico. Esperamos coisas melhores, com o tempo.
P: O território de Ossola tem grandes tradições religiosas. Pensa que a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano pode estender-se mais nesta região e nas regiões vizinhas?
R: Não sei. Só sei que a vida nas nossas montanhas toma a forma da Missa católica, a de sempre. A vida das pessoas de cá foi formada pela liturgia tridentina, a estar frente a frente com Deus dramaticamente, isto é levar de uma forma positiva a vida. No entanto, o “mundo americanizado” está aí também para desgraça da Igreja e do ser humano.
P: Como é o seu apostolado na actualidade, quantos fieis assistem habitualmente na igreja de Vacogno?
R: A Missa diária, as Missas de domingo, as confissões todos os dias, meia hora antes da Missa, a escola de Domodossola com 13 turmas este ano, os encontros de doutrina católica de sexta-feira, a catequese para crianças, os ensaios semanais de cantos...e depois uma vida um pouco retirada, um pouco monástica, se me permite, porque se o sacerdote quer fazer um pouco de bem não deve estar metido em tudo. 
Vivo numa grande Fraternidade sacerdotal com Don Stefano, que também se dedicou à Missa antiga, que celebra para os seus fiéis na igreja do hospício de Domodossola: é uma fraternidade operacional, onde também os nossos paroquianos têm momentos comuns. Tudo isto fez nascer um boletim e um website que documenta a nossa vida.
 Quantos fiéis nos frequentam? Isso não sei. Podem chegar aos 120 nos domingos de verão, no inverno a assistência cai, dada a distancia a que estamos dos outros locais. Mas aprendi a não contar. Os Reis de Israel eram castigados quando efectuavam censos.
P: Como qualificaria a recente instrução Universae Ecclesiae sobre o uso do Missal antigo?
R: Tem reafirmado que a Missa antiga não foi, já mais, vedada e que não pode ser proibida. Mas aqueles que não a querem admitir continuam a confundir o que está escrito.
Entrevista realizada por Marco Bongi a Don Alberto Secci, da diocese de Novara, in Adelante la Fe
 (Tradução: David Salvador Reis) 


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