segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Letra ou Espírito da Lei?

Moisés insistiu quer na fidelidade à Lei quer na vontade de entrar no seu espírito
Por vezes ouve-se dizer que os “verdadeiros defensores da Doutrina”, transmitida pela Igreja, isto é, do pensamento de Cristo, da Verdade que Ele é, não são os que “defendem a letra, mas sim o espírito”. Isto pode ser, e não poucas vezes o é, verdade, mas outras tantas, ou ainda mais, é falso.

Para dar um exemplo simples e compreensível por todos: quando o código da estrada detrmina que é proibido, mesmo considerado uma manobra perigosa, pisar ou atravessar o risco contínuo na estrada, isso não significa que para impedir um choque frontal com outro veículo, ou para evitar um atropelamento de uma pessoa eu não tenha o dever de respeitar o espírito da lei, atravessando o traço continuou, para salvaguardar o perigo e a vida das pessoas -  temos aqui um caso típico, na linguagem moral, de “epicheia”. A lei, ou a proibição não é absoluta, mas tão só conveniente, dadas as circunstâncias, por isso o espírito sobrepõe-se à letra da lei, ou seja, cumpre-se esta quando se entende o seu verdadeiro objectivo, neste caso a salvaguarda da vida humana, e se actua em conformidade.

Há, no entanto, um outro tipo de leis, os Mandamentos negativos (aqueles que começam por um Não) da Lei de Deus, que, porque salvaguardam a nossa verdadeira identidade como pessoas, criadas à Sua imagem e semelhança, não admitem excepções, mas obrigam sempre e em todas as circunstâncias, sem excepção alguma. Importa muito entender que estes Mandatos Divinos não são uma lei exterior exercida coactivamente sobre nós, mas, pelo contrário, estão inscritos no nosso coração, são em nós uma participação da Sabedoria eterna de Deus, são um dom que nos protege, nos promove, nos aperfeiçoa e nos santifica. Sem eles não é possível alcançar a felicidade, participar da Vida Eterna. Nestes preceitos o Espírito e a letra são totalmente inseparáveis, são, num certo sentido, creio que o podemos dizer, uma “antecipação”, uma figura, da Incarnação do Verbo de Deus, isto é, do Deus humanado.

Nos Evangelhos encontram-se muitas passagens cuja leitura segundo o Espírito coincide inteiramente com a letra. Os exemplos são muitos, mas detenhamo-nos tão só em um ou outro:

a) No prólogo do Evangelho segundo S. João não é possível separar o Espírito da letra; se esse fora o caso, seria como a tentativa alucinada e delirante de separar a Divindade da humanidade de Jesus Cristo.

b) Quando na última Ceia, Jesus declara que aquele pão é o Seu Corpo e que aquele Cálice é o do Seu Sangue, é impossível estremar a letra do Espírito.

c) Também quando Jesus afirma, contra tudo e contra todos, que o homem não pode separar o que Deus uniu, e que aquele ou aquela que deixa mulher ou marido para se casar com outra ou com outro comete adultério, seria uma infâmia herética desdenhar da letra onde o Espírito Se dá e comunica para inventar, em nome de uma “subjectivista” suposta “surpresa do Espírito Santo” uma leitura contraposta à Verdade Eterna ali tão claramente expressa.

De modo que podemos concluir que frequentemente quem defende a letra fá-lo em nome do Espírito Santo e é o verdadeiro defensor da Doutrina.

Pe. Nuno Serras Pereira


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1 comentário:

Jose gonçalves disse...

força senhor padre que DEUS lhe de sempre coragem para defender a doutrina revelada e ensinada pelo magisterio da igreja