sábado, 3 de dezembro de 2016

Cartas de São Francisco Xavier a Santo Inácio de Loyola

Viemos por povoações de cristãos. Quando chegava a estas povoações, baptizava todas as crianças por baptizar. Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixavam rezar o Ofício divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações. Comecei então a saber porque é deles o Reino dos Céus (Mc 10,14). Como seria ímpio negar-me a pedido tão santo, comecei pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo Credo, Pai-Nosso, Avé-Maria, e assim os fui ensinando. Descobri neles grande inteligência; se houvesse quem os instruísse na fé, tenho por certo que seriam bons cristãos.

Muitos deixam de se fazer cristãos nestas terras por não haver quem se ocupe de tão santas obras. Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo, e principalmente à Universidade de Paris, falando na Sorbonne aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir à glória e vão ao inferno por negligência deles! 

E, se assim como vão estudando as letras, estudassem a conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas, e do talento que lhes deu, muitos se moveriam a procurar, por meio dos Exercícios Espirituais, conhecer e sentir dentro de suas almas a Vontade divina, conformando-se mais com ela do que com suas próprias afeições, e dizendo: "Senhor, eis-me aqui, que quereis que eu faça?" (Act 9,10). Mandai-me para onde quiserdes e, se for preciso, até mesmo para a Índia.

Cartas de 20 de Outubro de 1542 e 15 de Janeiro de 1544: Epist. S. Francisci Xaverii aliaque eius scripta, ed. G. Schurhammer — I. Wicki, t. I: «Mon. Hist. Soc. Iesu» 67, Romae, 1944, pp. 147-148; 166-167


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