quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um conto de Natal: "Vidas que se cruzam"

- Nunca mais chega a nossa vez… - disse suspirando o mais novo dos três irmãos, chamado Benjamim.
Ao seu lado estava só o irmão mais velho, porque o irmão do meio tinha ficado em casa a trabalhar.
- Eu bem te disse para não virmos no último dia. Agora temos de esperar. - respondeu-lhe o Rafael.
À frente deles seguia uma fila quase interminável de gente. Os que estavam à frente e atrás também suspiravam com impaciência. Havia centenas de caras novas que tinham vindo de longe para a inscrição.
Toda a cidade estava num alvoroço.
E o mais incrível é que só havia duas pessoas para atender aquele povo todo.
Como é que é possível? – desabafava o Ben, nome pelo qual o Benjamim era conhecido junto dos familiares e amigos.
Já passada a hora do almoço, os dois irmãos acordaram que um deles sairia da fila para comprar algum alimento nas redondezas para comerem. Rafael, por ser o irmão mais velho, era quem transportava sempre a sacola com os pertences e com o dinheiro.
Não provinham de famílias ricas. Muito pelo contrário, trabalhavam arduamente e tudo o que podiam, poupavam para terem qualquer “coisinha”. Mas naquela situação tinham mesmo de gastar dinheiro. Havia necessidade de se alimentarem porque depois de estarem despachados das suas inscrições ainda tinha de ir trabalhar.
Noah, o irmão do meio, já se tinha recenseado e já os tinha avisado que se preparassem para o elevado tempo de espera. Para ele nada é atribulado porque é serenidade em pessoa. Àquela hora do dia devia estar próximo de casa, a trabalhar na agricultura.
Rafael, pedindo licença aos restantes da fila para não perder o lugar, deslocou-se ao comerciante mais próximo para ali comprar peças de fruta bem como trazer água.
Ao chegar próximo do comerciante da fruta, percebeu que também teria de esperar.
- Oh meu Deus, mas este é um dia para pores à prova a minha mansidão? – praguejou com humildade.
Foi durante a espera para comprar os alimentos que se apercebeu que o individuo que estava à sua frente se mantinha inquieto. Tinha bom ar e trazia a lei impressa em filactérios e tinha a cabeça tapada.
- Shalom irmão. Vejo que está impaciente. Posso ajudá-lo nalguma coisa? – perguntou-lhe afavelmente o Rafael.
Shalom significa paz e era a forma daqueles judeus se cumprimentarem.
- Shalom. Acabei de chegar à cidade com a minha mulher para nos recensearmos mas estou preocupado com o tempo que vamos ter de esperar. Ela está grávida. Não sei se aguentará muito tempo. – respondeu-lhe hesitantemente o homem.
- Não se preocupe. Depois de comerem, beberem e de recuperarem do cansaço, colocar-vos-ei à frente na fila, onde eu e o meu irmão estamos – disse-lhe o Rafael.
O homem mostrou-se agradecido.
Após ser atendido, o homem deslocou-se para baixo de uma Oliveira, onde a sua esposa o esperava aproveitando a sombra.
Assim que Rafael arrumou a fruta num saco de pano e tinha a vasilha cheia de água, chamou-os para o acompanharem.
Chegados à fila das inscrições, Rafael teve de procurar Ben. Para sua grande surpresa, o seu irmão estava prestes a ser atendido. Aconteceu que face à dramática quantidade de pessoas que esperavam para o recenseamento, foram colocadas mais três pessoas a atender.
- Ben, este casal de irmãos precisa de ser atendido antes de nós. A mulher está quase a dar à luz.
Ben, como Rafael já previa, em nada se opôs. Ambos tinham um coração generoso. Quem colocou oposição foram os que se encontravam atrás deles, mas que logo se acalmaram quando perceberam que apenas ia haver uma troca de pessoas: o homem e a mulher por ele e o irmão.
Assim se recenseou o casal, não tendo que esperar quase nada, e os dois irmãos, em nada arrependidos pela boa ação, duas horas depois.
Chegados à sua residência, mesmo ao final da tarde, deslocaram-se até às planícies verdejantes que circundavam a casa para se encontrarem com o Noah. Como tinham estado fora quase todo o dia, o irmão tentava revezá-los no trabalho com o gado, mas era difícil substituir os seus dois irmãos.
Depois de o encontrarem e de lhe contarem a espera que tiveram para se recensearem, os três concordaram pernoitar naquele sítio para que o gado se pudesse alimentar e recuperar do dia quase todo fechado no curral. Não era a primeira vez que o faziam.
Foi próximo da meia-noite que os três acordaram sobressaltados pelo longínquo cantar de um galo de som possante. Estava desalmado o coitado do bicho e fora das suas horas próprias de cucuritar ao amanhecer.
Recostados e atentos ao repetir do cântico do galo, voltaram a sobressaltar-se com um clarão vindo da direção das suas costas. Muito assustados, de imediato se puseram de pé e se viraram para trás. Tremiam de medo porque nunca tinham visto nada assim. A luz provinha de um moço forte e de aspeto autoritário.
Dirigindo-se a eles, disse-lhes com voz forte:
- Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc. 2, 10-13)
Eles perceberam que quem lhes falava era um anjo.
Repentinamente juntou-se ao anjo uma multidão de outros anjos de aspeto forte e que entoavam louvores a Deus.
A luz suavemente foi perdendo intensidade e acabou por desvanecer-se, deixando novamente o local escuro.
Os três irmãos ficaram extasiados com a visão. Assim permaneceram uns minutos até que o mais calmo dos irmãos disse:
- Temos de encontrar o Menino para também nós prestarmos os nossos louvores.
Subiram a colina e logo encontraram uma escavação na rocha com luz, onde outrora descansaram enquanto o gado comia.
Aproximando-se, os corações do Rafael e do Ben logo se alegraram ao reconhecer a Sagrada Família. Noah alegrou-se também, reconhecendo pelo rosto dos irmãos o que estes lhe tinham contado antes.
Não muito habituados a cordiais homenagens, espreitaram o Menino frágil, deitado na estrutura onde os animais costumam comer a palha. Felicitaram de imediato os pais e em silêncio ajoelharam-se para agradecer a oportunidade de presenciarem aquele momento.
A partir daquele dia passaram a festejar o nascimento de Deus à meia-noite com orações de agradecimento e mais tarde, muitos outros, com a celebração da Missa do Galo.



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