Há uma grande efervescência de livros sobre a maçonaria neste período e teremos ocasião de os apresentar um a um. Aqui ocupamo-nos do livro 'Massoneria Vaticana – Logge, denaro e poteri occulti nell'inchiesta Gagnon, de Charles T. Murr, editado pela Fede & Cultura.
Toda a história gira em torno de um inquérito que Paulo VI confiara ao arcebispo franco-canadiano Édouard Gagnon sobre as possíveis infiltrações da maçonaria no Vaticano. A missão foi-lhe dada em 1975 e ele – como Visitador apostólico – levou-a por diante com determinação, enfrentando uma vasta oposição interna. Dela saiu uma ampla documentação, da qual emergiam os nomes dos infiltrados e, entre todos, os do Secretário de Estado, o cardeal Jean-Marie Villot, e do cardeal Sebastiano Baggio, Prefeito da Congregação dos Bispos. Gagnon, porém, não conseguiu que três papas, nas mãos de quem colocou os resultados da investigação, se ocupassem do assunto.
Em 1978 o dossier foi colocado nas mãos de Paulo VI que, dizendo-se já demasiado cansado – «Tem diante de si um homem velho e cansado… que está às portas da morte e se prepara, já, para se encontrar com o seu Criador… e para responder dos seus próprios pecados e erros» – preferiu deixá-lo em herança ao sucessor. João Paulo I não teve tempo de receber o calhamaço, porque, na noite anterior ao encontro já marcado com Gagnon, morreu no seu próprio leito. João Paulo II, depois da sua eleição, tomou a opção de conservar todo o organigrama vaticano, sem afastar ninguém, e por isso não acolheu os resultados da investigação. Do livro depreende-se que talvez tenha mudado de ideias mais tarde, imediatamente após o atentado de que foi vítima.
Os protagonistas da história são Villot e Baggio, por um lado, juntamente com a figura do cardeal Agostino Casaroli, que permanece em segundo plano como uma eminência parda (será ele a substituir Villot na Secretaria de Estado), e, por outro lado, o arcebispo Gagnon e o cardeal Giovanni Benelli, já vice‑secretário de Estado vaticano, então arcebispo de Florença, considerado entre os “papáveis” nos conclaves realizados no ano dos três papas. Os dois primeiros conspiram para boicotar o inquérito e impedir que chegue ao seu desfecho natural, isto é, às mãos do Papa. Os outros dois, também com o apoio amigo de Mons. Mario Marini, que por isso teve de sofrer a expulsão da Secretaria de Estado onde trabalhava, por parte do secretário Villot, esperavam fazer “tábua rasa” na Igreja.
O capítulo que mais impressiona é o que contém a crónica do encontro com Paulo VI.
Mas quem é o autor do livro? Trata-se do Padre Charles Theodore Murr, que nesse período trabalhou em estreita colaboração com o arcebispo Gagnon e que aqui oferece um testemunho pessoal directo. No pano de fundo da crónica entre os muros vaticanos estão os acontecimentos daqueles anos: o Vaticano II, Annibale Bugnini e a reforma litúrgica, Marcinkus e o IOR, Casaroli e a Ostpolitik. Mas, sobretudo, a questão gravíssima da maçonaria na Igreja.
Tiziano Fonte
Sem comentários:
Enviar um comentário